segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sem anos de indigenismo

Sandra Terena

Meu nome é Sandra e sou índia do povo terena. Na minha tribo me chamam de Alyeté, que quer dizer pessoa meiga. Este ano o Brasil comemora cem anos de indigenismo. Um marco histórico. No entanto, esses anos não foram suficientes para desenvolver políticas públicas que atendessem de forma satisfatória a população indígena brasileira. Também, pudera. Antes das políticas de Rondon, o pioneiro indigenista, foram 400 anos em que o Brasil ignorou a presença do nosso povo, tratando-nos como um empecilho ao progresso.

De lá para cá, muitas coisas mudaram. Hoje, existem tratados internacionais de direitos humanos e o Brasil tem até um estatuto do índio, escrito em 1973, que já é considerado retrógrado e em muito não se aplica. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, sancionada por meio de decreto pelo Presidente Lula em 2004, na teoria, assegura muitos direitos aos povos indígenas. O principal problema é levar esses direitos ao conhecimento dos nossos jovens. Uma caravana itinerante nas aldeias para oferecer cursos e oficinas sobre o assunto seria um bom começo.

Para mudar esse quadro, precisamos de uma base educacional melhor em nossas aldeias. Desde a preparação de professores até uma boa estrutura nas escolas. A partir do momento em que tivermos um ensino de qualidade, teremos mais força e legitimidade para lutar por nossos direitos já previstos e para reivindicar outros, de acordo com as nossas necessidades. A garantia do ensino superior para os jovens indígenas seria fundamental para isso. Assim, formaríamos médicos, enfermeiros, advogados e muitos outros profissionais para atuar em suas aldeias de origem.

Por muito tempo vivemos uma política integracionista. As pessoas achavam que os índios tinham de se integrar à sociedade ou viver de forma isolada. A palavra de ordem agora não é mais integração, mas sim interação. Hoje temos plena capacidade de decidir o que é melhor para nós. Se o índio quiser viver na floresta, virar um grande caçador e seguir com suas práticas religiosas ele tem esse direito. Se ele quiser professar outra religião, ir para a cidade, fazer uma faculdade, por exemplo, não deixará de ser índio. De acordo com dados do IBGE, desde o ano 2000, quase metade da população indígena brasileira já vive em centros urbanos. Porém, apesar de a forte presença indígena nas cidades grandes ser uma realidade, muitas vezes esses índios vivem à margem de duas sociedades. Não há políticas públicas que atendam as necessidades dos índios urbanos e o pior: quando vão buscar auxílio em órgãos indigenistas, muitas vezes não são reconhecidos como índios -- uma grande arbitrariedade.

Em nossas aldeias fomos acostumados com políticas assistencialistas. Em muitas, já não temos caça e pesca suficiente. Em outras tribos, o plantio é proibido por restrições governamentais das terras. Infelizmente, fomos acostumados a viver de doações de cestas básicas e roupas usadas. Para que possamos ter uma vida digna, precisamos de projetos que visem a sustentabilidade. Até lá, ainda viveremos sem anos de indigenismo, independente das comemorações.

Hoje, somos cerca de 227 povos no Brasil. Cada um com suas peculiaridades, língua e costumes. Quero desafiar os jovens a fazerem algo prático pelos povos indígenas brasileiros. Desde ir às aldeias até enviar um simples e-mail, o que faz muita diferença quando há resistência política no Congresso.


• Sandra Terena, 27 anos, é jornalista, especialista em comunicação audiovisual e vice-presidente da ONG Aldeia Brasil (para saber mais sobre o indigenismo ou se tornar parceiro, escreva para contato@aldeiabrasil.org).

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=2537&secMestre=2563&sec=2571&num_edicao=322

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Deus está no Haiti?

Desde a perspectiva científica, o terremoto tem uma dupla explicação. Por um lado, uma zona sísmica, sempre ameaçada por terremotos e maremotos, que acontecem com frequência. Por outro, que se praticou um desflorestamento em massa no país, que contrasta com a superfície da República Dominicana, a outra parte da ilha.

Além disso, deu-se uma sobre-exploração do solo, um esgotamento dos recursos naturais, em parte por empresas que foram pão para hoje e fome para amanhã, e uma forte explosão demográfica sob governos corruptos e ditatoriais, como os Duvalier, cujo herdeiro gasta hoje sua fortuna na França.

A reportagem é de Juan A. Estrada, publicada no Diario de Sevilla, 23-01-2010. A tradução é de Vanessa Alves

Quando o terremoto chegou, quase tudo veio abaixo, incluindo o centro histórico e as instalações estatais. Mas o bairro rico e moderno de Pétion Ville, em Porto Príncipe, mal sofreu danos. É uma ilha segura, sólida e livre de desastre natural.

A conclusão é evidente: com outra política e governo, outra distribuição da riqueza e outro tipo de construções teria se amortecido muito a violência da natureza no país mais pobre da América.

Antes de se perguntar por Deus - Por que permite isso? - é preciso perguntar ao homem como consentimos que tantos seres humanos vivam na miséria, indefesos perante a natureza? A tragédia do Haiti é sequência do tsunami da Indonésia e virão muitos mais, porque três quartos da humanidade vivem na pobreza, sem meios para controlar a natureza. Temos os recursos técnicos e materiais para reduzir ao mínimo estes desastres, mas a distribuição internacional da riqueza os invalida.

E onde está Deus? Seguimos esperando milagres divinos que mudem o curso da natureza; apelamos à Providência para que intervenha nas catástrofes naturais; rezamos e pedimos prodígios e sinais. E Deus guarda silêncio e não atua como esperamos. Não aprendemos da história. Não parou a cruz no Gólgota; não interveio para evitar Auschwitz; não é o Deus relojoeiro de Newton, que ajusta o relógio natural de vez em quando; não modifica as leis da criação, descobertas pela ciência.

O homem e o universo são obras de um criador que respeita a liberdade humana e o dinamismo da natureza. Se buscamos ao Deus milagreiro, sempre à escuta dos desejos do homem, busquemos em outra religião, não na do Deus crucificado. É inconcebível que os cristãos sigam esperando intervenções prodigiosas, como em tempos de Jesus, sem assumir a maioridade do homem e a autonomia do universo, cujas leis conhecemos melhor e cada vez mais.

Por outro lado, encontraremos Deus, se o buscamos identificando-se com as vítimas e chamando aos homens de boa vontade à solidariedade e a justiça; se esperamos que Deus nos inquiete, nos provoque e nos incite a colaborar de mil maneiras para mitigar a dor no Haiti; se achamos que Deus não é neutro e que o contraste entre o grande mundo pobre e a minoria de países ricos clama ao céu.

É preciso ajudar Deus para que se faça presente no Haiti, porque necessita dos homens para que chegue aí o progresso e a justiça. Os mortos e refugiados da catástrofe têm fome de justiça, a das bem-aventuranças, e Deus necessita de testemunhas suas para fazer-se presente.

Ninguém pode falar em nome das vítimas sem experimentar seus sofrimentos nem padecer sua forma de vida, só fazer-nos presentes a eles. O protagonismo corresponde ao ser humano: Deus é autor da história, logo inspira, motiva e envia para a solidariedade e a justiça. O Deus cristão não é a divindade grega que sente ciúmes do homem e castiga Prometeu, mas o que se orgulha da capacidade para gerar vida com a ciência e o progresso, só exigindo que os recursos naturais se ponham a serviço de todos.

É preciso agir como "se Deus não existisse" e tudo dependesse de nós, universalizar a solidariedade e mudar as estruturas internacionais que condenam povos inteiros à miséria. A partir daí podemos esperar tudo de Deus e pedir-lhe que fortaleça, inspire e motive os que lutam por um mundo mais justo e solidário.

Dentro de poucos meses, o Haiti será uma mera lembrança, exceto para os que seguem ali, e teremos esquecido, como a Indonésia ou os famintos da África subsaariana. A grande tragédia do século XXI é a de uma humanidade que tem recursos para acabar com a fome e mitigar as catástrofes naturais, mas prefere empregá-los em armamento, para defender-se dos pobres; em policiais, para evitar que cheguem em nossas ilhas de riqueza e nos esbanjamentos consumistas de uma minoria de países.

Do mal do Haiti somos todos responsáveis, e a solidariedade não pode ficar no acontecimento pontual, mesmo que seja necessária, mas exige outra forma de vida.


fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=29316

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

QUEM PECOU? OU PORQUE SOFREM OS HAITIANOS?

Rev. Sandro Amadeu Cerveira

Em uma de suas muitas caminhadas Jesus e seus discípulos se depararam com um homem cego de nascença que mendigava nas ruas de Jerusalém. Diante da cena de sofrimento e dor logo pedem uma explicação. "Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?" (João 9:2)

A pergunta dos discípulos toca em uma de nossas piores angustias: Afinal por que sofremos? A coisa fica mais complicada se cremos que Deus é simultaneamente Todo poderoso e Bom.

Como explicar? De quem é a culpa? A questão, como colocada pelos discípulos, já sugere um tipo de resposta. O sofrimento é castigo. É uma questão de justiça. Não há como negar que essa é uma resposta razoável. Não raro nossas dores têm mesmo como causa o erro e o pecado.  Na pergunta dos discípulos aparecem as duas variantes dessa resposta.

Alternativa A – O sofrimento é um castigo merecido pelo próprio indivíduo que sofre. O homem pecou e por isso nasceu cego. Não fica claro se os discípulos estariam repetindo algum tipo de explicação cármica, comum em sua época, ou se para eles Deus pune por antecedência pecados ainda não cometidos. Não importa. Seja como for, nesse raciocínio, mesmo o sofrimento de um recém nascido com hidrocefalia ou soterrado nada mais é do que o merecido castigo de seus próprios pecados. Não há inocentes. Todos recebem apenas o mal que merecem.

Alternativa B – O sofrimento é um castigo herdado de outros. Às vezes os "justos pagam pelos pecadores". No pensamento de muitas culturas antigas as famílias são solidárias as penas de seus líderes. Filhos e esposas eram escravizados para pagar as dívidas dos pais, filhos eram mortos no lugar dos pais e isso era o normal. O cego de nascença estaria sofrendo porque seus pais cometeram algum pecado quer mereceu a dor de ter um filho cego, e ele, que não pecou recebeu como castigo a sina de viver nas trevas desde seu nascimento.

Seja como for, nesse tipo de explicação a causa do sofrimento é sempre o pecado de alguém. Os amigos de Jó pensavam assim e por isso não conseguiam compreender a tragédia que se abateu sobre o amigo sem imaginar algum pecado oculto.

A resposta de Jesus, como de costume, extrapola os parâmetros da pergunta. Não foi culpa dele. Não foi maldição hereditária. "Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus."  Como? A dor e o sofrimento podem ser dados pelo próprio Deus sem que seus filhos tenham feito nada de errado? Sem merecer punição ou castigo? Parece que é isso mesmo. Jó  expressou bem essa idéia quando disse: "o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!" ou ainda "temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?" (Jó 1:24 e 2:10) 

Dura é esta palavra, mas também libertadora. Se por um lado ela lança uma profunda interrogação sobre os motivos que o Todo Poderoso tem para nos fazer sofrer, por outro ela nos liberta da lógica infantil e ilusória de que a vida sobre a terra pode ser descrita como  meninos bonzinhos ganhando presentes de Papai Noel e os malvados sendo punidos com varadas.

Voltando a questão inicial. Eu não sei por que sofrem os haitianos. Nosso pouco conhecimento de sua religiosidade torna tentador o discurso da "maldição africana". Se  formos porém, esse caminho deveria nos levar a esperar fogo e enxofre sobre TODOS os povos e países. Nas palavras de Paulo o apóstolo.
 
"Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus;todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.
A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz.Não há temor de Deus diante de seus olhos." (Rm 3:9-18) De fato parece que não há inocentes.

Prefiro não fazer julgamentos. Escolho apontar e me apegar a alternativa proposta por Jesus. Esperar e agir para que tudo que ali se passa seja transformado pela obra salvadora de Deus. Que em meio a tanto sofrimento e tragédia se manifeste a glória de Deus por meio do testemunho de seus filhos. Prefiro ser instrumento da ação curadora de Deus mesmo tendo de violar alguma regra religiosa. (ver como Jesus curou o cego num sábado João 9) . Não sei se os haitianos são mais pecadores que qualquer povo, só sei que Jesus me deu o exemplo de que mesmo as custas das regras religiosas é preciso fazer o bem e ser instrumento de cura e alívio para os que sofrem. Pense no Haiti, Ore pelo Haiti. Se Deus te chamar vá para o Haiti. Se Deus te tocar segure as cordas daqueles que estão descendo até o Haiti contribuindo para que os médicos, bombeiros, soldados, missionários e todo exército de homens e mulheres que ali se arriscam tenham os meios necessários para fazer a obra de Deus.

fonte: http://www.segundaigreja.org.br/pastorais_view.asp?id=60

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Carta do diabo a Pat Robertson

"O jornal Minneapolis Star-Tribune publicou uma carta de Satã para o pastor Pat Robertson, em resposta ao seu comentário afirmando que os vários problemas do Haiti, incluindo o terremoto, seriam resultado de um pacto que o país teria feito com o demônio. Na verdade, não foi Satã quem escreveu a carta, mas sim Lilly Coyle, de Minneapolis, que a escreveu  como se fosse o chefe do inferno.
 

Querido Pat Robertson,

 Eu sei que você sabe que qualquer publicidade é boa publicidade, então deixe-me dizer, antes de qualquer outra coisa, que eu apreciei o comercial. E você fez Deus parecer um babaca cruel, que chuta as pessoas quando elas já estão no chão, então achei bem legal.

Mas quando você diz que o Haiti fez um pacto comigo, aí a coisa muda de figura : fica totalmente humilhante pra mim. Eu posso ser a encarnação do Mal, mas não sou nenhum moleque. Do jeito que você colocou a coisa, ficou parecendo que um pacto comigo deixa as pessoas desesperadas e empobrecidas. Tá bom, claro que deixa, mas só no além. É bom lembrar que quando eu faço um trato com as pessoas, primeiro elas ganham alguma coisa aqui na Terra : glamour, beleza, talento, dinheiro, fama, glória, um violino de ouro. Os haitianos não têm nada, e eu quero dizer nada mesmo. E já não tinham desde antes do terremoto. Você nunca assistiu a "Crossroads" ? Ou "Malditos Yankees" ? Se eu tivesse algum negócio rolando com o Haiti, pode acreditar que eles teriam montes de bancos, arranha-céus, SUVs, boates exclusivas, botox – esse tipo de coisa. Um índice de pobreza de 80% não é meu estilo, não mesmo. Nada contra, só estou dizendo : não é assim que eu trabalho.


Você vem fazendo um excelente trabalho, Pat, e eu não quero cortar suas asinhas, mas peraí, assim você me deixa mal na foto. E não quero dizer "mal" do jeito bom. Continue culpando Deus, tudo bem. Isso funciona. Mas me deixe fora disso, por favor. Do contrário, posso ser obrigado a rever seu contrato comigo.

Boa sorte

 Satã."


terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Haití y el dios de Pat

José Ángel Fernández, España


 
La semana pasada el aclamado (por algunos) presentador cristiano de The 700 Show nos sorprendió con unas declaraciones bastante inapropiadas. Cuando la mayoría de personas alrededor del mundo nos frotábamos los ojos ante el desastre ocurrido en uno de los países más pobres de occidente, Pat Robertson nos ofrecía su interpretación teológica de la catástrofe en una televisión supuestamente cristiana (Christian Broadcasting Network). Según el citado personaje, el terremoto que ha destruido las vidas de tantos habitantes de Haití fue un castigo divino como consecuencia del pacto que dicho país hizo con Satanás hace mucho tiempo en una ceremonia religiosa para librarse del poder imperialista francés. Es decir que como consecuencia de una ceremonia vudú realizada por unos esclavos a finales del siglo XVIII desafiando a sus amos cristianos, Dios había decidido matar algunos bebés desnutridos 200 años después.


No es la primera vez que algún líder cristiano realiza declaraciones que claman al cielo en momentos de desastres naturales. La ira de Dios ha sido utilizada en numerosas ocasiones por líderes religiosos para explicar, por ejemplo, el huracán Katrina, las inundaciones de Gran Bretaña, la crisis económica o los atentados terroristas. ¿Que una ciudad es inundada por las aguas que han caído el fin de semana? Esto es un castigo de Dios por haber aprobado una ley a favor del aborto. ¿Que un huracán arrasa una ciudad? Dios ha derramado su ira contra los homosexuales que habitan sus calles. ¿Que un tsunami ha matado a cientos de personas? Eso ha sido un juicio de Dios contra el mundo por los avances en el uso de células madre. (Irónicamente, estas mismas personas suelen echar por tierra ideas acerca del calentamiento global como invenciones que los científicos usan para manipularnos.) No importa que hayamos descubierto en muchos casos las razones naturales que explican las probabilidades de que dichos desastres ocurran en algunos países. De alguna forma parece que muchas personas religiosas no suelen conformarse con explicaciones naturalistas a la hora de explicar lo que sucede a su alrededor; siempre suele ser necesario invocar el poder de Dios para explicar tanto lo bueno como lo malo que ocurre en sus vidas y las de los demás.

Declaraciones como estas no serían preocupantes si aparecieran únicamente en labios de unos pocos ignorantes. Sin embargo lo verdaderamente triste es que el número de personas que se lanzan a realizar juicios de este tipo es demasiado alto. En mis años de creyente tanto en España como en el Reino Unido he escuchado en más de una ocasión comentarios que caen de lleno en la categoría que yo llamo "teología de Pat". Hace un tiempo escuché cómo un profesor de seminario explicaba el hecho de que un pastor hubiera tenido que dejar su pastorado utilizando el siguiente argumento: "Cuando un pastor tiene una teología que no es la correcta, eso se acaba notando y al final Dios le quita de la posición de liderazgo que ocupa". Esto mismo he escuchado en algunas ocasiones aplicado a distintas circunstancias: "el desastre económico que sufre nuestro país es un castigo de Dios como consecuencia del apoyo que nuestro gobierno ha dado al aborto y la eutanasia", "ese cáncer que tienes es un mensaje de Dios para que dejes de decir lo que dices", "tu hijo falleció porque entendió mal el propósito divino y escogió el camino equivocado", "has acabado sin iglesia porque Dios no acepta algunas de las ideas que mantienes", "no encuentras trabajo porque vives en pecado", etcétera. 
 
Cada vez que escucho algunas de estas afirmaciones me crujen las neuronas, no sólo porque hace falta tener poco tacto y amor cristiano para soltarlas en los momentos en los que se suelen soltar, sino porque la teología que habita detrás de ellas no pertenece al Dios de la Biblia. Al menos no al Dios que yo encuentro en las Escrituras. Para algunas personas es como si el libro de Job no hubiera sido escrito nunca. Es como si Jesús hubiera venido a este mundo a hacernos entender que el Dios de Abraham y Jacob es uno que castiga a los hijos por los pecados de los padres, un Dios que lanza su ira a diestra y siniestra sin importar sobre quién vaya a caer. Para estas personas es como si a nuestra pregunta: "Maestro, maestro… ¿quién pecó para que ese sea ciego: él o su padre?", Jesús fuera a responder: "Su padre, querido hijo… su padre". El Jesús que estas personas predican no se parece al que estamos acostumbrados a leer en los evangelios. Al menos no se parece nada al que encuentro yo. Me pregunto cuántos sueltan un ¡Amén! cuando escuchan a Pat decir esas majaderías. Alguno tiene que haber por ahí… quizá más cerca de lo que podemos imaginar…





sábado, 16 de janeiro de 2010

O Cônsul, o Pastor e o Haiti

As palavras do Sr. George Samuel Antoine, cônsul geral do Haiti em São Paulo, veiculadas pela imprensa, causam vergonha, consternação, indignação e clamor:

"acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo. O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano está fodido" (Folha S Paulo, pag A21, de 16/01/10 - vídeo em http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u679672.shtml)

O Pastor Pat Roberton lhe faz boa companhia, declarando que a situação atual e pregressa dos haitianos é consequência de uma maldição devido a um pacto celebrado com o demônio, por parte da população, no século XIX, para obter a independência dos franceses (veja em http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u679463.shtml).

O Sr. Antoine é branco, e representa uma nação de 7.309.000 descendentes de africanos, com os restantes 10% da população de mestiços e uma ínfima proporção de descendentes de europeus. Apenas 10% da população se expressa em francês; 90% usam a língua crioula - ambas oficiais. A religião oficial é a católica, 87% dos habitantes se declaram cristãos e 5% professam o vodu. O Haiti é um país pobre: renda per capita, a 154ª do mundo (equivale a 1/3 da renda per capita da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro); produto interno bruto, o 128º; expectativa de vida, 61 anos; mortalidade infantil, 48,8 por 1000 nascidos vivos; 45% de analfabetos; 80% abaixo da linha de pobreza. Densamente povoado (292 hab/km2), depende, atualmente, largamente de doações externas, apesar de ter sido uma das mais ricas colônias europeias na América Latina. (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Haiti, Folha de S Paulo).

Justificando suas palavras, o cônsul geral atribuiu as declarações às dificuldades com o português (apesar de morar no Brasil há 35 anos e expressar-se sem sotaque) - mas palavras de baixo calão lhe vem fácil à lingua, além do nervosismo. Nega que tenha havido maldade. Houve o quê? Perdeu o contato com a realidade do seu povo, provavelmente. Esqueceu-se da história do país que representa e das razões multifacetadas que o fizeram um dos países mais pobres e corruptos do mundo. Deveria renunciar ao posto e exilar-se em local desconhecido.

O pastor e o diplomata compartilham de preconceitos, além da cor da pele. Consideram expressão de religião não-cristãs como demoníacas. Alegam que o caráter de um povo é determinado por forças místicas ou mágicas, e não por contextos históricos e sociais. Acreditam em punição divina de um povo inteiro por supostos pecados de uma minoria.

Desconheço a formação religiosa do cônsul, mas Pat Robertson parece interpretar as Escrituras Sagradas ao seu bel prazer, ou com uma técnica medieval. Não há nelas razões que sustentem suas declarações. Parece aplicar o que ocorreu na história de Israel a todos os demais povos e nações (baseado em quê, revelação pessoal?), quando o homólogo a ele é a Igreja de Cristo. Parece desfrutar de um canal privado de informações, para saber do pacto e da maldição consequente.

O que é particularmente irritante no pastor é a proclamação de um deus que não tem compaixão, que não conhece a graça do Evangelho de Cristo, que pune os filhos pelos pecados dos pais - pior, pune inocentes pelos pecados de poucos.

As Escrituras não nos informam sobre a origem do mal - mas revelam que Deus divide a carga conosco, ao se tornar Homem em Jesus. NEle Deus está ao lado dos haitianos sofridos, humilhados e oprimidos. Esta é a mensagem da cruz. O apóstolo João nos lembra que de tal maneira Deus nos amou, que deu seu Filho Unigênito para por nós morrer (e conosco dividir este mundo cruel e injusto por 30 anos) e que nós devemos dar nossa vida  pelos irmãos (I Jo 3,16).

Eduardo Ribeiro Mundim

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Singularidade da fé cristã


Eduardo Ribeiro Mundim

Existem diversa maneiras de entender o mundo, de dar-lhe um significado último. Elas podem, genericamente falando, ser divididas em dois grandes grupos, segundo o pré-conceito que lhes serve de terreno. O grupo das que negam a existência de algo além da humanidade (transcendente a ela), e o das que a aceitam. O primeiro nega a possibilidade de qualquer divindade; o segundo, a aceita. Divindade aqui definida como qualquer ser ou instância que, conscientemente, influencia e/ou determina os rumos dos acontecimentos vivenciados por nós. O primeiro grupo é atéista, o segundo, teísta. leia o restante

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Pesquisa mostra dilemas de biólogos evangélicos

Uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) mostra os conflitos vividos por estudantes evangélicos que querem se tornar professores de ciências. A maioria deles duvida da veracidade da teoria da evolução, de Charles Darwin, mas garante que não vai ensinar nas escolas que Deus criou o homem e o mundo.

O biólogo com mestrado em Zoologia do Museu Histórico Nacional Luis Fernando Marques Dorvillé achava que ninguém, dentro de uma universidade, seria capaz de contestar sem base científica o que para a ciência é verdade absoluta. Mas o aumento da incidência de alunos evangélicos nos cursos de Biologia instaurou a polêmica.


A questão que aflige Dorvillé é como alguém pode ensinar ciências sem acreditar na teoria de Darwin? Seu assombro foi tamanho que ele passou os últimos oito anos entrevistando alunos para sua tese de doutorado na UFF. O trabalho narra esses embates usando a experiência do cientista com seus alunos evangélicos no curso de Biologia de um outra instituição do Estado, a Universidade Estadual do Rio (Uerj).


O levantamento mostra que dos 245 matriculados no curso de Biologia da Uerj, em São Gonçalo, 23% são evangélicos. O número é mais alto do que revelou o Censo de 2000 (15,44% dos brasileiros são evangélicos), mas muito próximo das estimativas de crescimento que o próximo Censo deve mostrar em 2010.


Dorvillé distribuiu questionários entre os alunos de todas as religiões. Diante de questões como "Comente a frase: alguns seres vivos têm parentesco maior entre si do que com outros" descobriu que a desconfiança sobre teoria da evolução chega a 70% entre os protestantes, 30% dos católicos e 20% dos espíritas e umbandistas.


"No início eu queria convencer os alunos a ferro e fogo. O resultado era nulo. Eles ficavam quietos, escreviam tudo certo e depois falavam 'mas eu não acredito em nada disso'." Dorvillé mudou a estratégia. Passou a confrontar as ideias religiosas com argumentos, sem tentar demovê-los de suas crenças.


Da indignação para a conciliação demorou um ano. Neste período o biólogo ouviu de tudo. De um aluno mais enfático, no auge da discussão sobre a teoria da evolução, veio a justificativa considerada absurda para um futuro biólogo: "Minha avó não é macaca. Então foi Deus quem criou o homem."


A pesquisa também indicou que os alunos evangélicos mudam ao longo do curso. "A maioria faz uma mediação entre o que diz a ciência e a religião." Acreditam, por exemplo, que há evolução, mas quem guia todo o processo é Deus; ou admitem que a evolução sirva para as outras espécies, menos para o homem; ou que, a criação divina do universo durou seis dias, mas a leitura não deve ser literal, já que entre um dia e outro ocorreram as eras geológicas e o processo de evolução.


De uma coisa eles não abrem mão, diz o professor. "Nunca deixam de ser evangélicos e de acreditar no que a igreja ensina. Nunca abandonam a religião por conta da faculdade." Essa também não é a intenção de Dorvillé. "Quando eu consigo qualquer grau de interferência me sinto satisfeito."


A área de ciências é uma das que mais sofre com a falta de professores no País. Pela carência de profissionais, a maioria dos formandos consegue emprego assim que deixa a universidade. "Muitos deles estudam biologia justamente porque o acesso é mais fácil. Não tem muita disputa de vagas no vestibular", diz.


O cientista conta que, em uma das aulas, ouviu de um aluno uma declaração perturbadora: "Eu sei de tudo isso que você está me falando, mas prefiro não pensar muito." Para Dorvillé, os alunos vivem uma angústia. "Esta visão de mundo ajuda a formar quem eles são. Muitas vezes foi graças a religião que eles, vindo de famílias pobres, conseguiram chegar à universidade."


Na sua tese de doutorado, Dorvillé descobriu também que os futuros professores evangélicos concordam que em sala de aula vão repetir a seus alunos o que aprenderam na faculdade. Mesmo que não acreditem. A religião, dizem eles, vai ficar fora da sala.


"Eu já acho emblemático haver evangélico ensinando teoria evolutiva com alguma propriedade. E eles podem ser bons professores, principalmente porque vão falar para muitos alunos evangélicos nas escolas públicas." Dorvillé confia que eles não vão trair o legado de Charles Darwin.


Aline Malafaia frequenta a Igreja Batista desde os 4 anos. Formada em Biologia pela Uerj, fez a sua própria interpretação sobre a teoria da evolução misturando o que aprendeu no curso com o que ouviu em sermões do pastor evangélico. "Sendo bióloga, não poderia negar que nós e outros primatas temos um ancestral comum. Mas a criação teve a mão de Deus." O curso fez com que Aline encarasse a Bíblia com outros olhos. "Ela não foi escrita para ser um livro científico. Podem ter sido 7 milhões de anos, em vez de 7 dias, e entre eles ocorreu a evolução."

Hoje, Aline dá aulas para crianças. Antes de ensinar a teoria da evolução, quis saber a opinião delas. "Todos responderam que foi Deus quem criou a vida." Mas ela garante que vai ensinar o que aprendeu na faculdade. "São regras que nós professores devemos cumprir."

fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,pesquisa-mostra-dilemas-de-biologos-evangelicos,460100,0.shtm

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Avatar, o filme

Eduardo Ribeiro Mundim

Avatar, o filme, traz alguns pontos provocantes. Não há dúvida sobre o visual, belíssimo (seja natural ou da tela do computador). Aceito a adequação do idioma criado especificamente para os Na'vi. Entendo a propaganda que diz ser o filme um marco, do ponto de vista técnico.

Mas o roteiro peca, em alguns momentos importantes.

A solução militar não combina com a imagem paradisíaca do lugar. Ok, os Na'vi são guerreiros, mas não me pareceu que fazem da guerra uma arte. Antes, do saber viver integrado ao mundo que habitam, aceitando a caça como modo de adquirir alimento, sem deixar de sentir tristeza pelo fato - mas justificando-o pelo retorno da "energia" à fonte original. Como ele faz referência a outros universos (os livros "Eragon" e "O Senhor dos anéis", a trilogia "Matrix", o filme "Dança com lobos"), poderia tê-los criado vegetarianos como os elfos. Naquelas mitologias, guerreiros quando necessário, mas habitualmente pacíficos.

É particularmente irritante a cópia do comportamento estereotipado dos indígenas nos filmes de faroeste - o som emitido pelos Na'vi convidando para a batalha é plágio evidente.

Infelizmente Jake Sully torna-se um habitante de Pandora de "corpo e alma" por necessidade, e não por livre escolha. Talvez o maior erro do roteiro, preso talvez a "Dança com lobos". "Transfere-se" para seu avatar porque seu corpo não tem mais chances de sobrevivência na atmosfera de dióxido de carbono, metano e amônia. Poderia, de livre e espontânea vontade, rompido seus laços com os humanos ao decidir lutar, até a morte, contra eles. Muito além de uma "conversão" mais politicamente correta, deixaria clara a opção por um modo de vida, e valores, absolutamente diferentes daqueles no qual fora criado.

Sendo tão alicerçado nos faroestes, não há como escapar das lições da história: os brancos sempre venceram. Venceram porque tinha uma superioridade tecnológica e eram em número cada vez maiores que os índios norte-americanos. Venceram porque tinham uma ambição de expansão (a aventura) e uma justificativa (fazer dinheiro). Os humanos perderam, no filme, uma batalha; mas perderam a guerra? A solução militar encontrada fica provisória, com promessa de mais destruição (e provável derrota), se houver continuação; ou no imaginário do espectador, na falta desta.

A história também é presa ao maniqueismo habitual, onde aqueles que detêm o poder entre os humanos, nada aprendem. Nos últimos anos o conceito de "desenvolvimento sustentável" tem sido debatido e objeto de experimentos de viabilidade. James Cameron quis transmitir com o filme a expectativa que estes esforços atuais falharão? Desejou apenas fornecer momentos de entretenimento estético sem preocupação com o conteúdo, ou com alguma mensagem de esperança? Ou é basicamente pessimista? Pessimismo não é, exatamente, o que impulsionou seu último sucesso, "Titanic".

Há pelo menos uma provocação bioética: "vejam, um demônio com corpo mas sem alma" (segundo minha lembrança da cena), brada Tsu'Tey, futuro líder do clã Omaticaya. Quando Jake tem sua ligação com o corpo avatar interrompida, este desaba no solo, "sem alma". É possível criar corpos "sem vida" (ou seja, "sem alma"?). Como no primeiro filme da trilogia Matrix, é possível manter corpos funcionando sem vida relacional, onde os corpos, e não só a vida psicológica, está envolvida? (Em Matrix, os corpos que serviam como fonte de eletricidade para as máquinas eram mantidos em repouso, mas eles sonhavam que viviam, e se inter-relacionavam com os demais corpos apenas nos sonhos, sem envolvimento biológico real).

Mas talvez a maior provocação seja "o que é religião?" Eram os habitantes de Pandora religiosos? Eles tinham uma deusa (Eywa )?

A cientista Grace Augustine descobre que todos os seres vivos no planeta se interconectam, à semelhança dos neurônios humanos. Seres racionais se interconectam, racionais e irracionais, e mesmo racionais e vegetais. Esta descoberta é um modelo científico, mostrado pelas análises realizadas por ela, de diversos modos. Seria Eywa uma deusa, ou "meramente" um nó de intercomunicação entre todos os seres vivos? Os Na'vi se comportavam de modo religioso (por exemplo, as atitudes tomadas para a transferência de corpos, uma grande dança coletiva, regida por música), mas havia uma explicação racional e mensurável para o efeito. Seria Pandora, uma lua, um ser vivo e racional (como permite deduzir de sua participação na batalha final)?

Santos no mundo: os cristãos e a arena pública

Alderi Souza de Matos

Os acontecimentos dos últimos anos, tanto no Brasil quanto no cenário internacional, têm demonstrado amplamente a necessidade e a importância da participação dos cristãos -- como cristãos -- na vida da sociedade. No contexto altamente ideológico do mundo pós-moderno, discutem-se questões e adotam-se práticas que afetam as comunidades religiosas e suas convicções. Se os cristãos se omitirem, causarão grande dano às suas igrejas e às causas que abraçam. Fechar-se dentro das quatro paredes ou isolar-se numa torre de marfim é uma opção cada vez menos viável. Os que insistirem nessa postura, poderão ser atropelados pelos acontecimentos.

A expressão "arena pública" é usada intencionalmente aqui. É mais do que simples sinônimo de ambiente ou setor público. Arena significa um lugar de luta, e os cristãos são convocados explicitamente a pugnar por seus valores, ideais e crenças (Fp 1.27), não de maneira rancorosa, antipática, mas construtiva. A militância cristã na arena pública não pode ser semelhante à de certos grupos ideológicos que usam táticas de violência verbal, chantagem e intimidação. É claro que nem todos os cristãos estão qualificados, seja por temperamento ou aptidões, para atuar nessa esfera. Todavia, aqueles que se sentem chamados para tanto, devem exercer essa vocação e ter o apoio e o encorajamento dos demais.

Posições contrastantes
Na época da Reforma Protestante, houve grupos que, alarmados com os males e corrupções da sociedade, entenderam que a melhor atitude era se afastar dos ambientes urbanos. Alguns anabatistas, por exemplo, achavam que a maneira correta de evitar os vícios e tentações que viam ao seu redor era viver em comunidades agrícolas isoladas das cidades. Assim, pensavam eles, seria mais fácil preservar sua identidade, manter suas crenças, criar suas famílias e cultivar uma vida de consagração a Deus. Para eles, um cristão não devia exercer cargos públicos, fazer juramentos oficiais e participar das forças armadas. No seu entender, tudo isso atentava contra a sua liberdade em Cristo, contra uma vida de santificação.

Os calvinistas ingleses, mais conhecidos como "puritanos", adotaram uma posição diferente. Eles concluíram que era não só lícito, mas desejável, que os cristãos participassem plenamente da vida da coletividade. O mundo certamente oferecia perigos, mas era também o lugar em que os cristãos deveriam viver suas vidas, dar o seu testemunho e servir a Deus. Não havia uma dicotomia entre a santidade e o envolvimento com a família humana. Na verdade, era no contexto da vida social, com suas oportunidades e desafios, dores e alegrias, que os crentes deviam cultivar sua espiritualidade, seu relacionamento com Deus. Eles eram, no dizer de um autor, "santos no mundo", ou seja, sua santidade devia ser vivida na sociedade, e não fora dela. Existem algumas áreas específicas nas quais os cristãos devem atuar responsavelmente como tais, procurando exercer sua influência e prestar serviço à comunidade.

Esfera política
Os puritanos eram herdeiros do reformador João Calvino. Ao contrário dos grupos mencionados, que se retraíam da arena pública, Calvino defendeu com insistência a participação cristã nesse ambiente complexo e difícil. No século 16, a política de modo algum era mais íntegra e respeitável do que hoje. Havia corrupção, luta pelo poder, manipulação e outros males. Mesmo assim, o reformador adotou uma posição que parece absurda para muitos hoje. Em sua obra magna, ele declarou a certa altura: "Ninguém duvide que a autoridade civil é uma vocação não só santa e legítima diante de Deus, mas até mesmo a mais sagrada e a mais honrosa de todas as vocações em toda a vida dos mortais" ("Institutas", 4.20.4).

Foi graças a esse entendimento que a tradição calvinista ou reformada produziu o ideal do governante culto e piedoso, dotado de sólida formação intelectual, espiritual e ética. São exemplos disso Jeanne D'Albret (rainha de Navarra), John Winthrop e William Bradford (antigos governadores de Massachusetts), Abraham Kuyper (pastor, teólogo e primeiro-ministro da Holanda) e Woodrow Wilson (presidente dos Estados Unidos). À luz das Escrituras, Calvino afirmava que a tarefa dos cristãos em posição de autoridade era promover a justiça e a harmonia na vida social, preservar a paz e a tranquilidade comum e, em particular, proteger os fracos e os sofredores. Caso fossem negligentes, a igreja devia lembrar-lhes esses deveres, como fizeram os profetas do Antigo Testamento.

Outras áreas
Erasmo Braga, destacado líder da cooperação evangélica no início do século 20, defendia a participação cristã em todas as áreas da sociedade e criticava as igrejas que não davam aos seus fieis oportunidades para tal. Disse ele em seu último livro (1932): "A tendência para a centralização levanta uma cerca em torno das comunidades evangélicas, e isso inevitavelmente resultará em sua segregação da vida nacional. Participar do serviço à comunidade é um esplêndido meio de dar testemunho de Cristo tanto na vida particular quanto na vida pública... Os evangélicos assumem posições de destaque na vida cívica sempre que saem dos seus próprios círculos eclesiásticos e assumem com outros cidadãos a tarefa de prestar serviço à nação. É chegada a hora de que aqueles que são qualificados para tal se levantem diante do seu próprio povo e testemunhem de Cristo em todas as esferas que estão abertas para eles".

Além da esfera política, existem muitos outros ambientes da arena pública que requerem a participação dos cristãos. Um exemplo importante é o mundo científico e acadêmico. O cristianismo, com sua crença em um universo ordenado, governado por leis fixas, contribuiu para o surgimento da investigação científica. Durante várias gerações, os cristãos atuaram intensamente nos círculos acadêmicos e profissionais, mas hoje muitos estão na defensiva. Outra área significativa é a das artes. É desejável a participação consciente dos cristãos no cinema, no teatro, nas artes plásticas, na música. Ainda outra área fundamental é a das comunicações (imprensa, rádio, televisão, internet). É claro que os cristãos não devem simplesmente transformar esses instrumentos em púlpitos, mas utilizá-los com perspicácia, sensibilidade, criatividade e desejo de fazer o bem aos seus semelhantes.

Conclusão
É importante lembrar que o evangelho é algo a ser vivido na sociedade humana, para que possa cumprir o seu papel saneador e vivificador. O mundo do século 21 será palco de enormes tensões -- crise ecológica, enfrentamentos bélicos, aumento do fosso entre ricos e pobres, recrudescimento dos extremismos, criminalidade. Ao lado de progressos valiosos em muitas áreas, haverá ameaças antigas e novas ao bem-estar da humanidade. A própria fé cristã e a integridade das igrejas serão duramente testadas. Que os cristãos não se omitam -- por medo, alienação ou comodismo --, mas assumam o seu lugar nas diferentes áreas a que são chamados, na força daquele que não veio ao mundo para ser servido, mas para servir e dar a sua vida.


• Alderi Souza de Matos
é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e "Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil".

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Bioética e Fé Cristã número 6 ano IV







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Diálogo entre Teologia e Bioética

Quando se fala de um diálogo entre Teologia e Bioética, temos em vista a
importância que ambas as ciências dão ao ser humano.
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Matar ou deixar morrer?

A morte n ão é um dos assuntos mais discutidos dentro das igrejas.
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A Bioética e os Evangélicos no Brasil: Uma Visão a partir da Mídia Evangélica.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião.
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Consideraciones sobre el
embrión humano

En las últimas décadas y especialmente
en los últimos años, la investigación
biomédica ha avanzado mucho en diferentes terrenos. Uno de ellos es el de la investigación en biología molecular y celular en los procesos de crecimiento, diferenciación y desarrollo, y muerte celular, de manera que se nos plantea la cuestión de si el principio de la inviolabilidad de la vida humana necesita más precisión.
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Última atualização: 22 de Dezembro / 2009 - Número 06 - Ano 4

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Teologia tem contribuições a dar às questões climáticas

Juan Michel/CMI

Genebra, terça-feira, 22 de dezembro de 2009 (ALC) - O que diz a Bíblia sobre a mudança climática? Quais idéias teológicas as igrejas podem oferecer ao mundo frente a uma crise ecológica sem precedentes?

Estas perguntas, propostas num seminário sobre "A criação e a crise climática", assistido por representantes de igrejas durante a Cúpula do Clima da ONU, reunida em Copenhague, parecem hoje ainda mais urgentes depois do fracasso do encontro, que não conseguiu produzir um acordo justo, ambicioso e juridicamente vincular que milhões de pessoas esperavam.

"Não há nenhuma relação evidente entre o evangelho e a mudança climática", disse o chefe do Departamento de Teologia Sistemática da Universidade de Copenhague, Jakob Wolf. A Universidade co-patrocinou o seminário junto com o Conselho Nacional de Igrejas da Dinamarca.

Mas como a mudança climática é conseqüência da atividade humana, ela recai sob o imperativo dos princípios éticos, porque os seres humanos são responsáveis de seus atos. A exigência ética de amar ao próximo se aplica aqui porque o "planeta Terra converteu-se em nosso próximo", disse Wolf.

Segundo o acadêmico, uma visão teológica do planeta e da vida que há nele como criação de Deus lhes confere um valor intrínseco, pelo que suscita "respeito e amor". "Quanto mais amamos a vida sobre a Terra mais dispostos estaremos a atuar de forma não-egoísta", sublinhou Wolf.

Esta é a contribuição que a fé e a teologia cristã podem oferecer à luta contra a mudança climática: uma motivação que é abarcadora, profunda e "bem mais vigorosa" do que aquela baseada apenas em "meros cálculos e frias obrigações".

Isto é fundamental, enfatizou Wolf, porque a humanidade "tem à mão todos os instrumentos" para adotar medidas em relação à mudança climática. "A única coisa que falta é a vontade."

A biblista Barbara Rossing, professora na Faculdade Luterana de Teologia de Chicago, Estados Unidos, concordou com Wolf de que "a Bíblia não diz nada sobre a mudança climática". Mas ela crê que os cristãos podem basear na Bíblia sua resposta ao fenômeno.

O ponto de partida de Rossing é a pergunta: "Onde está Deus nesta crise?" Ela recusa a noção de que Deus castiga a humanidade e acredita, antes, que Deus "se lamenta junto com o mundo".

Segundo sua leitura do livro do Apocalipse, "Deus chora pela terra, não a amaldiçoa". As famosas pragas não são predições, senão ameaças e advertências, telefonemas de alarme, projeções do futuro sobre conseqüências lógicas dos atos humanos, se não forem alterados os rumos.

No entanto, para Rossing, o livro do Apocalipse não anuncia o fim do mundo, senão o fim do Império. Por conseguinte, apesar das atuais pautas insustentáveis de consumo e de uma economia baseada no carbono, a teóloga estadunidense encontra nele uma mensagem de esperança: "A catástrofe não é necessariamente inevitável; ainda há tempo para mudar."

Esta "visão de esperança para hoje" é uma contribuição essencial que a teologia e a fé cristãs podem trazer aos esforços mundiais para enfrentar a mudança climática.

"De forma muito ameaçadora e inquietante, a crise do clima nos faz estar unidos como a humanidade una, como a comunidade una de crentes, como a igreja una ", disse o secretário-geral eleito do Conselho Mundial de Iglesias (CMI), Olav Fykse Tveit. 

"Somos chamados a mostrar um sinal do que significa ser a humanidade una, do que significa o fato de que Deus ama ao mundo inteiro", disse Tveit. Quando as igrejas se reúnem para oferecer este sinal, a luta contra a mudança climática "nos une de forma muito especial: como igrejas, como crentes".

A mensagem de que Deus ama ao mundo e a cada criatura que há sobre a terra "foi a sensação dolorosa que o movimento ecumênico enfrentou com relação à mudança climática", disse Tveit, recordando a longa história da preocupação do CMI pelas questões ecológicas.

Numa perspectiva ecumênica, a preocupação pela Criação tem estado sempre vinculada à preocupação pela justiça e a paz. "Não se pode dizer que este é um planeta para alguns de nós", disse o secretário-geral eleito, mas"é um planeta para todos nós".

O professor Jesse Mugambi, da Universidade de Nairobi e membro do grupo de trabalho do CMI sobre mudança climática, também destacou esse aspecto. "O mundo é um mundo no qual todos estamos relacionados por parentesco, mas teve algum momentos em que decidimos […] tratar-nos uns a outros como estrangeiros", afirmou.

Mugambi explicou que na África a mudança climática está causando graves secas, por uma parte, e inundações, por outra. Com a ajuda de mapas ele demonstrou que as partes do continente ricas em água e terras cultiváveis são também as zonas de maior conflito. Este conflito "não tem nada que ver com etnicidade, ele está relacionado com os recursos", disse.

Para Mugambi, a função da fé cristã e da religião em geral, por meio de seus líderes e teólogos é a de "fazer-nos voltar às normas" que possam contribuir para enfrentar um problema como a mudança climática.

"Não falamos de 'ajudar' os países africanos", disse Mugambi. "Não é questão de 'ajuda', senão da sobrevivência de todos nós".------------------------


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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Agulhas no corpo e bioética

Eduardo Ribeiro Mundim

Nestes últimos dias um mesmo fato ocorreu em dois lugares diferentes: adultos inseriram em crianças de 2 anos diversas agulhas. Uma delas está internada em uma unidade de tratamento intensivo em Salvador, onde já foram retiradas agulhas do tórax (incluindo uma que transfixava (?) o coração); a outra, fato cronologicamente mais antigo, no Maranhão, ainda em observação. A primeira, talvez vítima de um psicopata (ou mais de um) ou de um ritual mágico com intenções amorosas e a segunda ainda por esclarecer.

Apenas com o objetivo de trazer o assunto para discussão, vamos assumir que a motivação seja religiosa / mágica. Os adultos, neste caso, têm o direito de fazer o que fizeram para atingir seus objetivos mágico / religiosos?

O sentimento provavelmente predominante causado por estas duas tragédias é de repugnância. Pela crueldade impetrada a crianças indefesas; pela ineficácia, aos olhos da grande maioria da população, do ato frente ao objetivo desejado (garantir a fidelidade da amante no primeiro caso); pela pobreza de visão e escolaridade dos adultos.

Talvez os únicos que não se revoltaram foram os psicopatas (segundo recente entrevista de uma especialista em um jornal de Belo Horizonte eles seriam 4% da população). Portanto, a condenação seria quase unânime.

Mas e se o evento fosse uma criança que morresse devido a não transfusão de sangue, rejeitada pelos pais? e se fosse um adulto que se recusasse a submeter-se ao tratamento de um câncer plenamente curável?

Tais questões trazem à tona um dos maiores conflitos bioéticos e religiosos a serem resolvidos: até onde é possível se permitir o livre exercício de uma crença, seja ela científica ou religiosa? até onde é possível o Estado intervir? até onde é aceitável a regulação de uma minoria por uma maioria? O que é abuso?

domingo, 20 de dezembro de 2009

Fé e ciência: irmãs gêmeas ou inimigas? parte 2

Timóteo Carriker

A prioridade cosmológica da fé bíblica
A fé, pelo menos a fé bíblica, não é de maneira alguma, contra a ciência. Pelo contrário, do ponto de vista teológico, a fé incentiva e exige a ciência no que se refere geralmente a qualquer busca pela verdade e no que se refere especificamente à incumbência humana de classificar, compreender e explicar abstratamente a natureza (Gênesis 2.19-20).

1. A busca da verdade (Sl 25.1-5; Pv 1.7; 2.1-6; 23.23; Dn 2.20-21; Jo 14.6; Rm 12.1-2; Fp 4.8)
Paul Tillich definiu certa vez a religião como qualquer "preocupação última" que alguém tenha. Assim, ele foi além das definições tradicionais que restringia a religião ao campo do místico, ou do sobrenatural. Mesmo com esta definição ampla de Tillich, não é difícil associar a fé bíblica com uma preocupação com o divino. É interessante perceber que as Escrituras fazem uma nítida ligação entre o divino e a verdade. Em João 14.6, Jesus alega ser a verdade, não só saber ao seu respeito, mas ser a verdade. E ele não estava inovando. No Antigo Testamento está escrito que o conhecimento ("daath") pertence a Deus (1 Sm 2.3). E onde a sabedoria é personificada, ela adquire características divinas. Aliás, em Provérbios 1-8 ela é ao mesmo tempo personificada e divinizada. Agora, é importante esclarecer que a afirmação teológica "Deus é a verdade", deve ser entendida inclusivamente, não exclusivamente. Não é uma negação da ciência. Pelo contrário, é uma afirmação de tudo na ciência e em qualquer paradigma humano que é verdadeiro. Quem busca a Deus, busca a verdade. E quem de fato busca a verdade, está no caminho a Deus, mesmo que não intencionalmente, quer seja teísta, deísta ou ateu. Portanto a fé, pela sua busca pela verdade e de modo geral, incentiva e exige a ciência.

2. A incumbência científica
Também especificamente a fé cristã, nas primeiras páginas da sua constituição, a Bíblia, começa com uma preocupação cosmológica: "no princípio criou Deus os céus e a terra." E nas suas últimas páginas lemos da recriação dos mesmos. Os diversos relatos da Bíblia sobre o início do universo (só em Gênesis há duas versões logo no início e há outras nos salmos, nos profetas e também no Novo Testamento) demonstram um interesse nos elementos da natureza em si e por si só que em muito supera o interesse que se encontra nos escritos teológicos e que em muito coincide com as descrições científicas.

Agora esta última frase, "a preocupação bíblica… em muito coincide com as descrições científicas" precisa de explicação. Duas observações quanto à linguagem não científica da Bíblia e o papel de auxílio que ciência presta para uma leitura retrospectiva da Bíblia.

Primeiro, tem havido verdadeiras revoluções a partir do fim do século passado e especialmente nas últimas duas décadas sobre métodos de interpretação da Escrituras. Alguns métodos são mais controvertidos que os outros. Mas de grosso modo tem havido uma compreensão e apreciação cada vez mais dos meios culturais e historicamente limitados da composição literária dos diversos livros da Bíblia. Sem necessariamente abrir a mão da autoridade das Escrituras (alguns abrem, outros não), e baseado na analogia da encarnação do divino no ser humano Jesus, e francamente com o auxílio do desenvolvimento da antropologia cultural e social, os teólogos começam a apreciar e dar espaço cada vez mais para a expressão de verdades divinas através de forças de expressão culturalmente influenciadas. Talvez para muitos de vocês estou falando o óbvio. Mas para outros não é tão óbvio. Por exemplo, se Davi não era o pai de Jesus, por que Jesus é chamado constantemente "filho de Davi"? A resposta é simples: a palavra "filho" ("bem") em hebraico se refere à descendência, não apenas filiação imediata. Semelhantemente o arranjo de eventos na vida de Jesus varia entre os Evangelhos simplesmente porque aqueles que relataram os eventos -- Mateus, Marcos, Lucas, e João -- não seguiram, por razões óbvias, a metodologia da historiografia moderna e ocidental. Escreveram dentro das normas culturais da sua época e a inspiração divina veio através de sua humanidade, não ultrapassando-a.

Tendo isto em vista, volto a afirmação anterior: "a preocupação bíblica, dentro da linguagem bíblica, …em muito coincide com as descrições científicas". Por exemplo, Gênesis fala do surgimento de toda a raça humana, não apenas dum indivíduo. A palavra, "Adão" significa simplesmente "ser humano" e é uma derivação da palavra "terra", de onde o ser humano surgiu. Não é isto a perspectiva científica: que a raça humana se constitui dos mesmos elementos da terra?

Em segundo lugar, a perspectiva bíblica -- nem sempre a mesma dos teólogos -- não se restringe à criação da terra e muito menos da raça humana, mas começa numa escala mais abrangente, a criação do universo. E apesar de tudo que alguns cristãos bem intencionados dizem, a linguagem hebraica a respeito dos "dias" da criação não só permite mas exige o conceito de períodos longos, não somente de 24 horas (como já acreditavam os pais da igreja: Irineu, Orígenes, Basil, Agostinho nos primeiros séculos (1-5), e Tomás de Aquino no século 13, certamente não sob a influência da modernidade). Dentro do campo semântico da palavra, "yom", está o conceito de períodos. Só para dá um exemplo, pelo menos mil anos depois do relato da criação, o autor de Hebreus no Novo Testamento, disse que podemos entrar no descanso de Deus, a nomenclatura do sétimo dia da criação, dia este no qual ainda passamos conforme o autor de Hebreus.

Em terceiro lugar, todos os relatos da criação na Bíblia pressupõem um alto grau de ordem num relacionamento dinâmico com o caos (Js 10.12; Jz 5.20; Gn 49.25; Êx 15.8,11; Nm 16.30; Dt 33.14ss; Jr 31:35-36 e Sl 29 e 8). A construção ordeira da criação sobressai em Provérbios 8.22-36 como a arquitetura da sabedoria personificada. Também, a ordem é imediatamente evidente no relato de Gênesis 1 da ação inicial de Deus sobre e contra todo o caos (compare Gn 1.2 com Is 45.18). Essa ordem, ou subordinação da criação, continuamente recebe destaque em vários salmos, especialmente Salmo 18.7-15. Hoje, as teorias do caos e especialmente da complexidade (fenômenos de estudo interdisciplinar) confirmam esta relação necessária para o surgimento de sistemas complexos (talvez a relação entre a entropia e as forças "kenéticas" ilustre este ponto).

Antigamente, os teólogos tinham basicamente duas opções para a interpretação do relato cosmológico de Gênesis 1 e 2. Alguns trataram os relatos de Gênesis 1 e 2 como pura invenção sem nenhuma relação com acontecimentos históricos. Isto parecia-lhes a única solução a tantas incompatibilidades com a ciência moderna. Outros estudiosos, no intuito de ser fiel a autoridade das escrituras, forçam uma seqüência restritamente cronológica nos relatos propondo interpretações cada vez mais fantásticas e inacreditáveis.

Hoje, com as lições da antropologia, é mais fácil descartar estas duas interpretações tão preocupadas com a cronologia (ou pela sua negação ou pela afirmação) ambas partindo de conceitos contemporâneos e ocidentais do tempo e da história, em contraposição aos conceitos hebraicos antigos. Nos relatos da criação, Israel não estava interessado na natureza física da criação em si, como nós hoje em dia procuramos entender pela ciência natural a origem das coisas. Para Israel, o relato da criação era importante à medida que explicava seu relacionamento com o plano de Deus, para este mundo todo. Isto é, devemos entender os relatos não cronologicamente mas topicamente, o tópico sendo o propósito de Deus para a sua criação, ou mais precisamente, o reino de Deus.

Desta perspectiva, Deus primeiro cria três grupos básicos de reinos, ou domínios, durante os primeiros três dias. Nos próximos três dias, Deus cria os reis para governarem nos reinos, anteriormente criados. O último rei a ser designado (constituindo a primeira Grande Comissão!) é o homem, que recebe o mandato representativo e real como governador-administrador sobre todos os outros reis e reinados. Por representativo, quer dizer que a humanidade foi criada por Deus à sua imagem ("çelem") e semelhança ("dêmûth"), isto é, segundo a sua espécie (Gn 1.26,11).

O importante no relato, então, é ressaltar o propósito da criação do homem, e não tanto a forma que assumiu. Semelhantemente, o relato se importa mais com o propósito do resto da criação, do que com a forma e com a natureza desta origem em si, sendo estas últimas, preocupações da ciência moderna.

Dentro do esquema apresentado a humanidade tem um chamamento representativo para reinar como Deus reina. Por esta razão, o ser humano é não somente o servo do Senhor, como também representante dele. Assim como Deus faz, o representante deveria fazer, refletindo as características do Criador. Nisto, a realeza e o domínio de Deus são refletidos no domínio e na administração apropriados da humanidade sobre a criação. A função que a imagem de Deus no ser humano tem, portanto, é exatamente o que o texto bíblico elabora em Gênesis 1.28, "ter domínio" ("râdhâh") e "sujeitar" ("kôbhash") a terra. Isto é o seu status como senhor no mundo. Deus coloca a humanidade no mundo como sinal da sua soberania. E de acordo com Gênesis 2.19-20, esta soberania é exercida pela incumbência (divina) de classificar, compreender, e explicar abstratamente a natureza. A incumbência e o destino do ser humano estão ligados ao universo e vice versa (Rm 8.19-21).

O Salmo 8 concorda com este conceito de Gênesis 1 de que a humanidade realiza sua comissão como rei do reino terrestre, assim como Deus é Rei do reino celeste, e o status do ser humano sendo por um pouco menor do que Deus. Daniel Thambyrajah Niles, teólogo e missionário indiano, ilustra esta relação da seguinte forma:

"O homem é a única criatura que Deus fez cujo ser não está em si mesmo, e que por si mesmo não é nada. A 'canicidade' do cão está no cão, mas a 'humanidade' do homem não está no homem. Está na sua relação com Deus. O homem é homem porque reflete Deus, e somente quando ele assim o faz." [tradução] (1958:60-61)

O ser humano é "homo Dei", ou está aquém da sua própria humanidade. As implicações desta incumbência divina do ser humano para a tarefa da ciência são grandes. Repare, por exemplo, que tal incumbência é da essência da humanidade, e não um derivado da sua salvação. Pois em Gênesis 1 e 2 não se fala da salvação simplesmente porque não havia ainda a queda. A queda aparece somente no capítulo 3. Novamente afirmo: a incumbência divina para governar o mundo natural especialmente através da sua classificação nominal das suas diversas partes (sem dúvida a ciência é campeão na fabricação de palavrões!) É da essência de toda a humanidade, não só dos religiosos. Precede a queda. Aliás, mesmo depois da queda a incumbência permanece em pé (Gn 9.1-7). Na teologia esta incumbência comum é denominada "graça comum" ou "revelação comum" e se distingui da "graça especial" pela salvação, ou a "revelação especial" através das Escrituras. Só que "especial" não significa que a revelação é verdadeira que a revelação comum (por exemplo, por meio da ciência). A qualificação, "especial", se refere ao meio da revelação -- as Escrituras -- não a sua qualidade.

O interesse estético e teleológico da ciência
Acima usei a analogia de gêmeos criados separadamente para descreve a relação entre a ciência e a fé. Disse que a fé, certamente a fé cristã, literalmente começa e termina com uma preocupação cosmológica, uma preocupação que normalmente relegamos a ciência e elaborei um pouco sobre isso. Também disse que a ciência está fazendo perguntas cada vez mais teleológicas e estéticas, que se refere à finalidade e a beleza da realidade conhecível, perguntas que geralmente relegamos à religião. Já que tal afirmação foge da minha competência profissional, não vou arriscar uma elaboração deste ponto. Vou apenas ilustrá-lo através de alguns cientistas mundialmente conhecidos e respeitados.

Primeiro, algumas citações do astrônomo John Barrow (co-autor com Frank Tipler do livro que elabora o princípio cosmológico antrópico), no seu livro, "The Artful Universe" (Oxford: Oxford University, 1995):

"Incrivelmente, descobrimos que algumas das propriedades do Universo que são essenciais para a existência de qualquer forma de vida fazem um papel chave na determinação de respostas psicológicas e religiosas para o Cosmos."

"A fascinação científica com o fruto da complexidade organizada em todas as suas formas deveria levá-los às artes criativas aonde se encontra m exemplos extraordinários de precisão estruturada."

Segundo, John Holland, um dos maiores matemáticos e simuladores de inteligência no computador de MIT, no seu livro, "Hidden Order: How Adaptation Builds Complexity" (Reading, Massachusetts: Addison-Wesley, 1995):

"A construção de modelos é a arte de selecionar aqueles aspectos dum processo que são relevantes para a pergunta sendo feita… esta seleção é guiada por gosto, por elegância e por metáfora; é uma questão de indução ao invés de dedução. A alta ciência depende desta arte."

Terceiro, o prêmio nobel, Steven Weinberg, no seu livro, "Dreams of a Final Theory" (New York: Pantheon Books, 1992):

"O progresso na física é frequentemente guiado por julgamentos que somente podem ser chamados de estéticos."

"Acredito que a aceitação geral da relatividade geral se deve em grande parte à atração da teoria em si -- em síntese, à sua beleza."

"Cientistas e historiadores da ciência já há muito tempo desistiram da perspectiva antiga de Francis Bacon, que as hipóteses científicas deveriam se desenvolver pela observação patente e sem preconceito da natureza."

"Não somente nosso julgamento estético é um meio para chegar às explanações científicas e julgando sua validade -- faz parte daquilo que queremos dizer por uma explanação."

"O alvo da física no seu nível mais fundamental não é somente descrever o mundo mas explicar por que ele é do jeito que é."

Conclusão
Portanto é tanto pelo interesse científico -- explicar por que o mundo é do jeito que é -- quanto pelo interesse da fé bíblica -- que a grosso modo incentiva e apoia a investigação cientifica, que prefiro ver a fé e a ciência como irmãs gêmeas, ou para diminuir o exagero, pelo menos como irmãos. Mas ainda não falamos dos métodos e muito menos das conseqüências dos dois paradigmas que tanto os distinguem. Quem sabe, tanto Rubem Alves quanto eu, no fim, temos razão e devemos ver os agentes da fé e da ciência, isto é os religiosos e os cientistas como lobos gêmeos, embora criados separadamente.

Passagens bíblicas para meditação:
Sl 25.1-5
Pv 1.7; 2.1-6; 23.23
Dn 2.20-21
Jo 14.6
Rm 12.1-2
Fp 4.8


• Timóteo Carriker é teólogo, missionário da Igreja Presbiteriana Independente, capelão d'A Rocha Brasil e surfista nas horas vagas. É autor de A Visão Missionária na Bíblia e coordena diversos sites (acesse www.tim.carriker.com).

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=5&registro=1196

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Minha declaração de não-fé

  Rodrigo de Lima Ferreira

Existem várias e diversas declarações de fé. São documentos históricos importantes que servem como resumo daquilo que uma comunidade ou localidade específica crê. A mais conhecida delas é o Credo Apostólico, em que todo cristão se vê identificado. Há a Confissão de Westminster, a Helvética, a da Guanabara, o Pacto de Lausanne, entre outros.

Porém, como vivemos em um tempo estranho (passamos daquilo que Francis Schaeffer denomina "linha do desespero") onde o "não" significa "sim", o "sim", talvez" e o "talvez", "quem sabe, pode ser, passa lá em casa para tomar um café", resolvo fazer uma confissão de fé diferente. Faço uma confissão de não-fé.

Não creio que o Espírito Santo mude de ideia a cada seis meses, feito barata tonta, teleguiado por gente com desejos inconfessáveis.

Não creio que Deus tenha se "esquecido" de derramar seus dons por dois mil anos, reavivando somente agora alguns dons específicos, como línguas.

Não creio em apóstolos auto-nomeados, auto-ordenados e auto-consagrados. Napoleão Bonaparte sagrou-se imperador e deu no que deu.

Não creio na autoridade bíblica de pessoas que não se submetem a outros, em atitude de total arrogância e prepotência, fazendo do espelho e do afago bajulador os melhores aliados.

Não creio que Deus tenha eleito pessoas especiais dentro de sua eleição salvadora. Tropa de elite é coisa só de filme, ou de polícia.

Não creio na total autonomia humana em fazer escolhas certas sem a ação direta de Deus, especialmente em relação à salvação. Se posso mudar de ideia sobre o que almoçar, quanto mais para algo tão importante quanto seguir a Jesus!

Não creio que meu ego, corrompido pelo pecado, seja um referencial na minha adoração a Deus. Não creio ainda que a adoração deva ser necessariamente individual. A experiência coletiva é altamente benéfica para quebrantar potenciais megalomanias.

Não creio que a submissão, ou melhor, a subserviência da igreja ao Estado seja algo do agrado de Deus. A história se repete como farsa, como bem disse Karl Marx, e Constantino serve de aviso contra a tentação de se aliar ao poder temporal e poder espiritual.

Não creio que constituições, estatutos, manuais, apostilas e coisas parecidas tenham o mesmo peso das Escrituras na vida de um cristão.

Não creio que o ego ou o espelho sejam padrão e medida para a espiritualidade e conduta na vida cristã de outros. Se temos a Bíblia como fonte inesgotável de sabedoria, qualquer tentativa de ir além disso é confissão de farisaísmo.

Não creio em barganhas com Deus. Se eu fosse abençoado única e exclusivamente com a salvação eterna, sem nenhuma bênção aqui na terra, ainda assim teria muito o que agradecer. Afinal, Deus salva e abençoa não por obrigação e pressão, mas por amor e misericórdia.

Não creio no divórcio entre minha vida religiosa e minha vida, digamos, "civil". Os puritanos tinham um lema genial: "Aquilo que você faz fala tão alto que não consigo escutar aquilo que você diz". São separações assim que geram episódios bizarros como a "oração pela propina alcançada".

Não creio em demônios que tomam conta de certas regiões geográficas, ou mesmo de anjos que os combatem nessas mesmas regiões.

Não creio em copo de água em cima da televisão, rosa ungida, toco de carvão, corredor de sal grosso e outras "macumbas gospel". Os sacramentos são elementos comuns (pão, água, vinho) que servem de canal para a graça em nossas vidas. Mas tudo o que citei anteriormente, em vez de ser só uma cópia malfeita dos sacramentos, é, em sua essência, tentativa de manipular um pretenso mundo espiritual a favor daquele que pede.

Vou terminar minha declaração de não-fé com uma declaração de esperança: "Creio e espero que Deus, em sua infinita graça, venha restaurar os corações e as mentes da igreja evangélica brasileira, tornando-a saudável e livrando de seus tumores e mau humores. Derrama sua graça sobre nós, Senhor!".


• Rodrigo de Lima Ferreira, casado, duas filhas, é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil desde 1997. Graduado em teologia e mestre em missões urbanas pela FTSA, hoje pastoreia a IPI de Rolim de Moura, RO. revdigao.wordpress.com

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1193