quinta-feira, 10 de maio de 2012

O que a bíblia realmente diz sobre a homossexualidade

PARTE 3: O QUE FALTOU

Eduardo Ribeiro Mundim


O casamento enquanto metáfora

A relação entre o Deus do Velho Testamento e o povo de Israel é descrito em diversos momentos através da metáfora do casamento heterossexual, e da infidelidade de Israel, frequentemente chamado de "adúltera" e infiel. O profeta Oseias se casa com uma prostituta para demonstrar aos seus conterrâneos esta realidade. Mas não há a metáfora da "amizade traída", ou da lealdade entre amantes homoafetivos para representar a relação entre Deus e Seu povo - tanto no Velho quanto no Novo Testamento. Por quê?

A homossexualidade como norma

À página 118 Daniel afirma que o relacionamento sexual entre dois homens era tido como tão comum que não despertava nenhuma atenção. Se assim for, não há uma igualdade entre as relações sexuais hetero e homossexuais. Para que fossem iguais, ambas teriam de ser normatizadas, no interesse da proteção da parte mais fraca. Seriam as relações entre o mesmo sexo tão naturais a ponto de não demandarem nenhuma regulação ética e cúltica?!

Se a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo fosse tão normal nos tempos dos Velho e Novo Testamentos, por que ela nunca é abordada de forma clara? Jesus quebrou vários esteriótipos (como a relação com os samaritanos e gentios) mas não quebrou este porque era um fato corriqueiro?! Sendo o seu número tão grande, como foi possível ter sido excluído, posto à margem, nas primeiras décadas da igreja? Se Paulo gasta muito latim na discussão contra os judaizantes e outras seitas de sua época, porque não instruiu uma só comunidade, ou um discípulo próximo a lutar contra esta descriminação?

Coerência na conclusão

Com uma facilidade incômoda,  Daniel usa meras conjecturas como fatos balizadores. No penúltimo capítulo elenca diversos possíveis relacionamentos homoafetivos entre personagens bíblicos: Jônatas e Davi, Rute e Noemi, Daniel e o eunuco chefe, o centurião e seu servo. Ainda que a hipótese de um relacionamento sexual entre eles seja atrativa, não é possível, nos textos bíblicos, levantar evidências que os tornem fatos, e não meras possibilidades. O esforço do  autor foi o de demonstrar, de forma lógica, como as Escrituras não condenam o ato homossexual, repelindo diversas construções teológicas com base na sua falta de sustentação. Mas ao final, cai no erro que condena.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O que a bíblia realmente diz sobre a homossexualidade

PARTE 2: CRÍTICAS

Eduardo Ribeiro Mundim


Moralidade e soberania divina

Até onde Daniel está disposto a deixar Deus ser deus, e estabelecer Suas normas, sejam elas quais forem? À página 39, ele parece deixar a sugestão de que a natureza, tal como a vemos e interpretamos deveria ser a fonte da moral, ou a razão humana. As experiências totalitárias, sejam de que matiz forem, demonstraram não ser, nenhuma das duas, isoladamente, fontes seguras para a felicidade humana. E, por outro lado, a razão opera sobre conceitos prontos. De onde eles viriam?

Sodoma e Gomorra

É absolutamente de acordo com o texto de Gêneses afirmar que as duas cidades não foram destruídas em função do suposto homossexualismo de seus habitantes.

É absolutamente forçado afirmar que a destruição se deu em função da falta de hospitalidade dos habitantes. O autor deixar claro, logo ao início do episódio, que a destruição era decidida, em função da iniquidade deles ter atingido proporções insuportáveis. Quais iniquidades? O texto não menciona, mas as Escrituras espalham, nas referências que Daniel selecionou, várias delas. E nenhuma delas, seja de caráter pessoal, social, econômico ou sexual é eleita como principal.

No meu texto "homossexualismo, Sodoma e Gomorra" minha visão do episódio é mais destrinchada e debate, ponto a ponto, as opiniões de Helminiak.

A abominação de Levítico

Não estou bem certo que as conclusões que ele apresentam estejam em sintonia com o texto do próprio livro de Levítico.

Se aceitarmos a tese de que o adultério era um crime contra a propriedade de alguém, porque este seria o único crime patrimonial punido com a pena capital? Todas as impurezas, no código de santidade desta seção de Levítico, de caráter sexual, são objeto de pena capital. Por quê?

Daniel conclui que a questão da pena de morte para o homem que se deitar com outro homem é mera questão religiosa, e não moral ou ética (pg 51). Mas não é possível ver com clareza seu raciocínio.

Ele marca um ponto importante ao discutir o termo "abominação", mas reler todo o texto calcado apenas neste ponto não permite desvincular religião de moral/ética. Ainda que atraente, a tentativa de separar estes conceitos não é bem sucedida.

O texto de Romanos

A análise feita pelo Daniel fica prejudicada pelo fato dele relacioná-la aos textos de Levítico, ignorando o contexto claramente condenatório do arrazoado paulino.

A tentativa de apontar aspectos estoicos na redação de Paulo fica na metade do caminho - faltaram as evidências.

E fica, nas entrelinhas, que o apóstolo usou, nesta carta, de retórica em excesso - ou, que o que escrevia não era para ser levado textualmente. Mas faltam as evidências.

Coríntios e Timóteo

Novamente a questão etimológica é apresentada, e é importante a dificuldade na tradução dos termos gregos "arsenokoitai" e "malakoi" - termos que o Dicionário de Teologia do Novo Testamento (edição de 1984) não estuda.

E de termos tão difíceis, ele faz afirmativas categóricas - o que ele mesmo levanta como pouco plausível.

Demais colocações

Realmente as Escrituras falam pouco, explicitamente, do ato sexual entre homens, e nada do que entendemos hoje como homossexualidade. Aliás, é necessário até mesmo ser mais claro quando se diz "do que entendemos hoje como homossexualidade". Nada fala sobre ato sexual entre duas mulheres.

Mas é necessário ser cuidadoso com o silêncio das Escrituras - fato que, aliás, Daniel denuncia.

O que a bíblia realmente diz sobre a homossexualidade

PARTE I: IMPRESSÕES POSITIVAS
Eduardo Ribeiro Mundim


O livro de Daniel Helminiak é de fácil leitura. Um dos objetivos do autor foi de escrever de forma acessível, mas sem perder na qualidade da argumentação, o que ele consegue. As impressões positivas do livro são:

O Autor

Não é um acadêmico preso às quatro paredes de sua sala, ou perdido nos corredores da biblioteca. Seu currículo acadêmico é respeitável, publica em diversos periódicos, mas trabalha com os homossexuais, travestis e transgêneros. Ele os conhece, sabe que são gente de carne e osso, com sonhos, aspirações, lutas, tristezas, alegrias...enfim, seres humanos iguais aos outros seres humanos. Eles têm diante de si a questão do exercício da sua sexualidade e a pergunta que todo cristão sincero faz: está de acordo com os planos do Criador? agrada a Deus Pai? sou amado por Deus Filho de todo jeito? sou santificado por Deus Espírito Santo independente do meu exercício da sexualidade?

Foi ordenado padre católico romano na juventude, tendo sido professor em diversas disciplinas teológicas. Renunciou ao sacerdócio pela impossibilidade de conciliar sua homossexualidade com as diretrizes da instituição. Sua biografia está em sua página pessoal, http://www.visionsofdaniel.net/index.htm.
 A interpretação das Escrituras
 Este é o ponto que talvez mais dificuldades traga aos cristãos, hoje, e desde a assunção do Senhor Jesus aos céus: como interpretá-las?
 Daniel chama a atenção que esta atividade não é tão simples quanto parece, que certos cuidados e pressupostos são necessários para uma leitura coerente das Escrituras. Ele é honesto nos seus pressupostos. Todo o seu trabalho é calcado na chave história e crítica. Infelizmente, ele não detalha sua chave - basicamente a contrapõe a outra, que denomina literalista. Para o leitor menos avisado, fica a ideia de que há apenas duas formas de se aproximar da bíblia - o que não é bem o caso (conferir http://en.wikipedia.org/wiki/Biblical_hermeneutics).

O método deve ser coerente, aplicável a toda Escritura, verificável por quem lê a interpretação de tal modo que o leitor perceba que o raciocínio aplicado é o mesmo para todos os textos. O respeito às condições históricas da Revelação, os contextos imediato e remoto, a busca pela intenção primitiva do autor sagrado são algumas das questões que devem estar presentes na mente de quem abre a Bíblia.

A homossexualidade não ocupa um espaço importante nas Escrituras

A julgar pelo comportamento de diversos líderes religiosos brasileiros da atualidade, a noção de que as Escrituras cristãs se ocupam primordialmente em regular o exercício da sexualidade das pessoas não seria incorreta. Contudo, Daniel consegue demonstrar, com tranquilidade, que o objetivo das Escrituras é outro. Nas minhas palavras, e não nas de Daniel, as Escrituras revelam a situação do homem frente ao Deus Criador, fornecem pequenos flashes de quem é este Deus Criador Trino, o que Ele faz para resgatar para Si mesmo a humanidade perdida e o padrão ético que espera daqueles que se voltam para Ele.

Não usando os termos que ele lança mão, sendo a homossexualidade um pecado, ela não é diferente de nenhum outro.

Uma determinada leitura da Bíblia tem conduzido pessoas ao erro

E este erro tem resultado em violência física ou moral sobre pessoas comuns, indefesas. A satanização da sexualidade não heterossexual, usando a Bíblia como base, é uma deturpação da Sua mensagem original, uma traição à mensagem do Evangelho, um uso político (no sentido pejorativo) da fé simples das pessoas simples.

domingo, 6 de maio de 2012

Povos indígenas se articulam para impedir megaprojetos

Brasília, sexta-feira, 4 de maio de 2012 (ALC) - Pelo menos 13 megaprojetos, em dez países da América Latina, preocupam e mobilizam povos indígenas do continente, que recorrem à internet para alinhar posições e organizar a resistência. "Nossos problemas são praticamente idênticos aos dos indígenas de outros países", disse o líder da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Marcos Apurinã. 

Do Brasil, entram no rol de megaprojetos que atingem populações indígenas diretamente a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, e a transposição do Rio São Francisco, na região Nordeste. Movimentos sociais alegam que indígenas de 28 etnias que vivem na bacia do Rio Xingu serão atingidos pela usina, que diminuirá o fluxo do rio, reduzindo a quantidade de peixes. Na transposição, 18 povos, alguns deles sem território demarcado ainda, também terão suas áreas afetadas.

"Hoje os povos indígenas não podem mais fugir do homem branco, da tecnologia. Temos que nos atualizar, preparar-nos para encarar esse novo mundo", declarou o líder da Associação Sociocultural Yawanawá, Taschka Yawanawá, do Acre, ao repórter João Fellet, da BBC Brasil. Tashka tem um blog (awavena.blog.uol.com.br) na rede mundial de computadores e recorre à internet para realizar videoconferências com representantes de povos indígenas de países vizinhos.

A exploração de cobre em terras da comunidade mapuche de Mellao Morales e Huenctru Trawel Leufú, em Neuquén, Argentina, a exploração de cobre na reserva de Jach´a Suyu Pakajaqui, em Pacajes, a exploração de ouro no Chile na fronteira com a Argentina, trazem prejuízos ambientais aos indígenas huascas, são todos projetos que merecem a contestação do movimento indígena continental.

Embora cancelada momentaneamente, preocupa indígenas bolivianos a construção de rodovia cujo trajeto corta o Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis), na Província de Beni e Cochabamba. O corredor de transporte intermodal que deve ligar Tucamo, na Colômbia banhada pelo Pacífico, à Belém, no Pará, também é contestado por indígenas, assim como o corredor de Manta, no Equador, ligando esse porto a Manaus.

A construção de rodovia em Bolaños a Jueuquilla, no Estado de Jalisco, México, da rodovia que liga a América Central à Colômbia, a rodovia interoceânica prevista para ligar o Peru e o Brasil, o plano Puebla-Panamá são projetos de grande envergadura que têm impacto em áreas indígenas, que não querem ver seus territórios prejudicados.

"Preocupa-nos a nova forma de desenvolvimento conhecida com economia verde. Entendemos isso como um esforço para a exploração dos recursos naturais nos territórios indígenas", declarou à BBC Brasil o técnico da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), Rodrigo de La Cruz. A Coica agrupa indígenas do Equador, Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

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sexta-feira, 4 de maio de 2012

do amor e do ódio e do índio


Entre os dias 27 e 30 de abril uma comissão de Juízes da Associação de Juízes para a Democracia – AJD visitou as comunidades indígenas Kaiowá e Guarani no sul de Mato Grosso do Sul. Quatro juízes e uma desembargadora puderam conhecer e conviver com comunidades indígenas confinadas, espoliadas, acampadas, refugiadas, resistentes e esperançosas.

Abaixo, a partilha desta vivência nas palavras de Dora Martins.


Do amor e do ódio e do índio.
Mba’éichapa!

Foi uma experiência de amor; amor que nos remete a nós mesmos, e que nos alimenta com a possível esperança de um mundo de diferentes que se mirem sem medo ou ódio.

Voltamos, hoje, da viagem aos diferentes e humanos Guaranis Kaiowá, em Mato Grosso do Sul. Viagem de fundo amoroso, sem dúvida, em que pese o amor doer com a dor do outro e que isso nos remeta à nossa humanidade, tão singela, tão impotente por vezes.

O ódio aos Guaranis está em todo canto por aquele Estado tão cheio de verde da cana e da soja e do dinheiro. E, com o encanto dos que lutam junto dos Guaranis seguem a ameaça, a interdição, o assombro.

Emocionante ver os indígenas nos receberem com rituais e danças e celebrações. Que se espantem todos os espíritos do mal! Dançamos, pisamos na terra deles, com eles. Ouvimos e fomos ouvidos. Foi emoção enrolada em emoção. Fizemos um minuto de silêncio, em meio à mata verde, em círculo, no centro o local onde o Nisio Gomes sangrou e sangrou.

Crianças tão pequenas e nada temerosas, com abraços e risos e danças também. Muitos líderes falaram, e "porque a justiça não se concretiza se nós, indígenas, aceitamos a lei do branco"? E nós, juízes, ali, "veneno e antídoto" a engolir em seco lágrimas insuspeitas. Conseguimos, estou certa, nos fazer ver além e através da toga. E foi bom. 

E o líder Jorge bradou justiça com a Constituição na mão, e as mulheres fizeram, na história, sua segunda ATY GUASU (assembleia) para discutir o medo de não terem terra, alimento, saúde e identidade. Mulheres indígenas com voz. Homens indígenas que querem voltar a ocupar seu território sagrado e tão vilipendiado. E as atrocidades se repetem compassadamente.

Nos agradeceram os companheiros brancos, que lá nos receberam, e nos presentearam com a fala de que, com toda certeza, nós, juízes brancos, ao irmos até lá "fizemos história na história deles". Mais lágrimas e legítimas. E foi tocante saber que eles acharam honroso e importante que juízas e um juiz que lá estiveram se fizeram acompanhar por familiares, crianças e filhos. E tudo ficou tão familiar, tão igual, tão brasil profundo de brancos e índios... Um alento, para todos, e em especial para aqueles que lá, guerreiros bravios, lutam em prol da causa Guarani; lá, em Mato Grosso do Sul, onde juízes decidem os processos de uma perspectiva tão divorciada da terra e dos humanos valores indígenas, a ponto de entenderem que quando a prova é apenas a "fala do índio", ainda que sejam dezenas deles, alega-se "falta de prova" para por fim ao caso... Afinal, para esse cego olhar da justiça de branco, palavra de índio não vale!

Dora Martins, Juíza.

fonte: http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=6235&action=read#

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Face Oculta do Pastor


Eduardo Ribeiro Mundim


O primeiro “ataque” que o meu então conceito sobre o “ser pastor” sofreu foi da boca do meu “guru” da juventude, à época assessor da Aliança Bíblica Universitária: ser pastor é uma profissão como qualquer outra! Fim do meu romantismo.

O segundo “ataque” veio da boca de um querido pastor, a quem muito devo na minha caminhada de fé, e por isso celebrou meu casamento. Quando fui visitá-lo após uma cirurgia, disse-me: “a gente não tem muitos amigos entre os pastores”! Fim da minha ilusão.

Pastor está em baixa, no meio secular. Graças a diversos escândalos, são tidos pelos não cristãos, por manipuladores da crendice alheia, aproveitadores dos incautos, vendedores de ilusões.

No Corpo de Cristo não parece existir hierarquia (exceto na clara definição de Quem é O cabeça), mas membros que, em conjunto, operam para que o corpo cumpra sua função. Assim, são chamados mestres, apóstolos, evangelistas, diáconos, presbíteros, … (não parece ter sido intenção do apóstolo que a lista fique fechada). Portanto, o pastor bíblico é aquele chamado pelo Senhor da Igreja para ser, irmão entre irmãos, aquele que cuida de cada um na sua caminhada espiritual.

E neste mister é imperativo bíblico que ele seja sustentado pela comunidade que pastoreia.

Mas o sustento será somente financeiro? Uma leitura das cartas que Paulo escreveu sugere que não. Nelas transpira o cuidado de vários irmãos para com o apóstolo, cuidado nos detalhes da vida cotidiana e com as suas necessidades pessoais. Novamente, não me parece que as Escrituras queiram nos fornecer uma lista fechada de “itens obrigatórios para a igreja fornecer ao seu pastor”.

Dentro da metáfora do corpo, aquele que é chamado a exercer a função/ofício de pastor é um igual entre iguais com uma função específica. E este igual frequentemente nós transformamos em um “super”. Sua família é sempre perfeita, ele é sempre um bom e exemplar esposo e pai, não tem angústias existenciais (afinal, é pastor), muito menos dúvidas espirituais (afinal, é pastor); sua palavra é certa e infalível (afinal, é pastor), seu comportamento, imperativo bíblico, irretocável (afinal, é pastor).

Mas a realidade não é esta. Irmãos como nós, com as mesmas dificuldades e angústias, acrescidas de uma barreira que nós não temos: a máscara da perfeição que lhes impomos. Máscara que existe somente na nossa fantasia, e que deve ser trocada pelo rosto humano, real, carente de amizades verdadeiras e interesse desinteressado.

Que o Senhor da Igreja abençoe o Seu corpo.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Ética da Igreja, como Corpo de Cristo

Eduardo Ribeiro Mundim*

A Igreja é o Corpo de Cristo. Esta metáfora é empregada mais de uma vez nas Escrituras, de forma suficientemente claro para que não ser tomada como um acidente, uma ideia passageira. É uma realidade indiscutível, ainda que não visível, mas revelada pelas Escrituras. E esta é uma das funções das Escrituras: revelar aquilo que não pode ser conhecido pelos meios que dispomos, pela nossa tecnologia, pelos nossos órgãos do sentido, pelo nosso intelecto.

Somos Corpo. O que isto significa? Como isto é possível? Quais os desdobramentos deste fato?

São estas as questões que proponho apresentar a vocês esta noite, usando a epístola de Paulo aos efésios como fio condutor.

Como o Corpo é constituído

Ef 1.4-6: “Porque Deus nos escolhe nEle antes da criação do mundo...em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos.”

O corpo é constituído livre e soberanamente por Deus Pai. É Ele que destina antes da criação do mundo o nosso destino, e o faz única e exclusivamente por amor. Não para o louvor de Sua glória, mas porque sua definição é Amor, ou como um teólogo prefere, Amor Santo.

A quem pede Ele conselho? A ninguém, que eu saiba. Portanto, Ele chama, predestina, escolhe a quem deseja, no momento histórico que deseja, do modo como deseja. Se não é assim, como explicar a lista daqueles a quem Ele chamou para si?
    • os mentirosos e ardilosos patriarcas
    • o assassino Moisés
    • os invejosos e fofoqueiros Arão e Mirian
    • a prostituta Raabe
    • o permanentemente infantil Sansão
    • o adúltero homicida Davi
    • o rebelde Jonas
    • o covarde Pedro
    • o sádico assassino Paulo
    • eu
    • você

Acertadamente o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer escreveu que quando o pecado do meu irmão parece maior que o meu, é porque, na verdade, eu não conheço o tamanho do meu pecado.

A teologia evangélica ensina que não há, na presença do Amor Santo, pecado maior ou menor: mentira, assassínio, rebeldia, covardia, fofoca, sadismo etc, tudo isto é desagradável a Ele, tudo isto nos separa dEle. Mas apesar disto, Ele nos chama. Na Sua presença, quem somos nós para julgarmos o pecado do irmão que está ao nosso lado? Na Sua presença, quem somos nós para avaliarmos nosso pecado como menos ofensivo que o do irmão do lado?

No nosso pecado somos todos iguais, e não há outra atitude possível além daquela exemplificada pela parábola do fariseu e do publicano: “oh Deus, sê propício a mim pecador”.

Porventura nossos belos olhos, ou nossas boas ações, ou nossos bons sonhos, ou qualquer outra coisa ou fato que possamos ter a petulância de considerar bom na presença de Deus foram as razões de sermos escolhidos?

As Escrituras afirmam que Deus deseja que todos sejam salvos (I Tm 2.4) – o que eu tenho, pois, de especial, se Ele almeja o bem de todos?

E na carta aos Efésios, 2.8-9, toda a esperança ou expectativa em algo de bom residente em nós cai por terra: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.

O Corpo é constituído por pessoas que nós não escolhemos, mas Deus Amor Santo é que escolheu. E se fomos escolhidos, isto se deve única e exclusivamente ao fato dEle nos amar apesar de sermos, na sua presença, intrinsecamente maus. E não há um melhor que o outro, ou mais amado que o outro – alguém consegue uma base nas Escrituras para ista ilusão?

Aliás, deveríamos tomar cuidado em desejarmos ser o “queridinho de Papai do Céu”. O que foi mesmo que Ele mandou Seu Filho Amado, em quem se alegrava, fazer?

Talvez estejamos mal acostumados em vermos apenas os mesmos irmãos todo domingo, vestidos com aquelas roupas especiais e certamente estamos nos esquecendo que, enquanto Corpo, temos a função de levar a mensagem de arrependimento e conversão a quem nós não gostamos, a que nos incomoda com suas vestes, ou adereços, ou comportamento escandaloso, ou pelo exercício inesperado da sexualidade, ou pelas suas dificuldades sociais, ou pelo seu odor, ou pelo que faz para garantir seu sustento. E a mensagem deve ser levada não para que este outro que me incomoda se transforme em alguém que me agrade, mas porque Deus Amor Santo espera que nós o façamos, de forma espontânea, como consequência natural da descoberta de sermos perdoados e aceito por Ele.

Fazemos parte do Corpo? Como ter disto certeza?

Ritos externos, como batismo e profissão de fé, nada garantem. Deveriam ser, sempre, evidências exteriores de duas verdades bíblicas. A de que o Espírito de Deus diz ao meu espírito que dele sou filho, e a de que pelos frutos, ou seja, pelo que fazemos e transpiramos, seremos conhecidos como filhos dEle. Uma, evidência interna, que pode ser enganadora, apenas uma certeza psicologicamente construída; outra, evidência externa, que também pode ser enganadora, pois não cristãos têm diversos bons frutos para mostrar. Mas é de suspeitar do cristão que teme o inferno e apresenta frutos podres.

Porque o Corpo é constituído

As duas grandes alianças estabelecidas por Deus com a humanidade, via Israel e via Cristo, compartilham semelhanças, mas têm diferenças importantes. Uma delas é o seu modo de entrada. Na primeira, entrava-se via nascimento natural, sem direito de escolha. Crescia-se e era-se educado dentro da Aliança, não podendo dela se afastar. A identidade do povo de Israel, assim como sua posterior constituição como federação de tribos e monarquia unida, pedia uma adesão universal a ela. Na segunda, entra-se através do novo nascimento, sobrenatural, individual, solitário, não testemunhado, parcialmente subjetivo, anunciado por Jesus ao fariseu Nicodemos em Jo 3: “ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo / nascer de cima”. É uma decisão a ser conscientemente tomada, porque ouvir o chamado de Deus, responder positivamente à eleição realizada em Cristo antes da criação do mundo, implica em dois desdobramentos óbvios:

- Ef 1.4, “porque Deus nos escolhe nEle antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença”. Não é possível desejar a aproximação com o Deus que é Amor Santo sem que se deseje tomá-Lo como exemplo e desafio, com vistas à santificação pessoal.

      - Ef 2.10, “porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos”. Não é somente nossa predestinação em Cristo que antecede nossa própria existência consciente, mas o objetivo de nossa existência consciente como eleitos é “fazermos boas obras”. A Aliança feita pelo sangue de Cristo não visa nosso próprio umbigo, mas o cumprimento da vontade de Deus; ela não se constitui por palavras, mas por ações que necessariamente são boas.

O Corpo é constituído porque era desejo dEle desde a eternidade tornar todos “concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito” (Ef 2.19-22).

A ética do corpo

Portanto, fazer parte do corpo tem duas grandes dimensões éticas.

A primeira, da relação dos membros do Corpo com o Cabeça, Cristo, e com aquele que o constituiu, Deus Pai: (Ef 4.16) “crescer e edificar-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza sua função”. E isto somente pode ocorrer se (Ef 3.18-19) “estando arraigados e alicerçados em amor, vocês possam, juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus”.

A segunda, da relação dos membros do Corpo uns para com os outros. A metáfora do corpo, ilustração da sua realidade, obriga que os membros trabalhem em sintonia e concordância, cada um em sua função, a seu tempo. Obriga também que cada seja saudável, para que o corpo inteiro o seja. E para isto, atitudes pró-ativas são necessárias. Ef 4.22-24 apresenta verbos na voz ativa, aquela que faz, que assume o ato, e não na passiva, aquela que sofre a ação: “despir-se do velho homem”, “revestir-se do novo homem”. Despir-se do velho homem “que se corrompe por desejos enganosos”, endurecido de coração, insensível, entregue à depravação, sem entendimento das coisas de Deus, em especial da Sua radical santidade e da nossa radical pecaminosidade.

Ef 5.3 ss comanda que ativamente se evite, mesmo que se deseje, a imoralidade sexual, a impureza, a cobiça, as obscenidades, as conversas tolas, os gracejos imorais e inconvenientes. Porque aqueles que não evitam, mas que buscam de forma continuada atitudes semelhantes a estas, “não têm herança no Reino de Cristo e de Deus”, pois a ele não pertencem por não terem, verdadeiramente, “nascido da água e do Espírito”. Porque aqueles a quem o Espírito de Deus testifica que são Seus filhos buscam a bondade, a justiça, a verdade, o que é agradável a Deus, inclusive no trato com as mui humanas e inevitáveis vivências da raiva, das tentações do enriquecimento desonesto (seja roubando o irmão, seja fraudando o imposto de renda) e do palavreado agressivo e ofensivo, da atração pela amargura, gritaria, calúnia.

Para que o Corpo cresça em harmonia não pode haver quem passe fome ou necessidade, tendo todos os membros de se relacionarem com bondade, identificando-se com o outro em suas dificuldades estejam elas onde estiverem (incluindo aquelas áreas tabus), exercitando o perdão mútuo (do contrário, orar para que “perdoe as nossas dívidas como perdoamos aos nossos devedores” passa a ser, na melhor das hipóteses, tentativa de suicídio) – condição inegociável para se participar da Ceia do Senhor.

Enquanto corpo estamos todos no mesmo barco, pois somos pecadores permanentes em busca permanente de santidade, tanto na nossa vida pessoal quanto na nossa vida social. Somos braço efetivo de Deus neste mundo caído, assim como Seu braço efetivo entre nós, para nos curarmos mutuamente e permanentemente, até que o Cabeça do Corpo venha, ou nós nos reunamos com ele em nossa morte.

Que Ele nos ajude.

Amém.



* apresentado no culto vespertino do dia 29/04/12, na Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte

terça-feira, 17 de abril de 2012

CNBB contesta decisão do Supremo sobre aborto de anencéfalos

Brasília, terça-feira, 17 de abril de 2012 (ALC) - A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lamentou, em nota, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de permitir, por oito votos a dois, a interrupção da gravidez em casos de gestação de fetos anencéfalos. A decisão foi tomada na quinta-feira, 12, encerrando uma discussão que levou oito anos.

A compreensão da maioria dos ministros e ministras é a de que um feto com anencefalia é natimorto, razão pela qual a interrupção da gravidez não pode ser comparada ao aborto, nesses casos. 

“Legalizar o aborto de fetos com anencefalia, erroneamente diagnosticados como mortos cerebrais,é descartar um ser humano frágil e indefeso. A ética, que proíbe a eliminação de um ser humano inocente, não aceita exceções”, aponta a CNBB.

A Bíblia trata o feto como uma pessoa, escreveu o  líder da igreja Assembléia de Deus, pastor Silas Malafaia, em seu blog. “Na questão jurídica, aborto no Brasil é crime. Jamais o STF poderia aprová-lo. É o Congresso Nacional que tem autoridade para legislar”, argumentou, agregando: “O espírito de Hitler está no mundo da pós-modernidade. O ser humano está sendo coisificado. É uma ‘coisa’ como qualquer outra coisa que possa ser descartada”.  

O assentamento da decisão do Supremo desobriga as gestantes de fetos com anencefalia, que é a ausência de partes do cérebro, da autorização da Justiça para que possam antecipar o parto. Sem revisão há 72 anos, o Código Penal brasileiro prevê o aborto legal apenas para dois casos: quando coloca em risco a saúde da mãe e em gravidez resultante de estupro. 

Os ministros favoráveis foram categóricos. "Aborto é crime contra a vida. Tutela-se a vida em potencial. No caso do anencéfalo, não existe vida possível", disse Marco Aurélio Mello, relator do processo. Carlos Ayres Britto lembrou que se trata de "natimorto cerebral", sem perspectiva de vida.

Os ministros e ministras admitiram que a saúde física e psíquica da grávida de feto anencéfalo sofre prejuízos quando levada até o fim. Além de danos emocionais, a gravidez de feto sem cérebro provoca complicações à saúde da mãe, como pressão arterial alta, risco de perda do útero e até a morte. Assim, impedir a mulher de interromper a gravidez nesse caso se assemelharia a uma tortura. Ayres Britto disse ainda que se os homens engravidassem, a antecipação de partos de anencéfalos "estaria autorizada desde sempre".

O ministro Gilmar Mendes sugeriu que o Ministério da Saúde edite normas que regulem os procedimentos a serem adotados para garantir a segurança do tratamento, inclusive que o diagnóstico de anencefalia seja atestado em dois laudos de médicos diferentes.

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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Reformados e metodistas propõem isolamento de empresas que impedem a paz entre judeus e palestinos

Nova Iorque, quinta-feira, 12 de abril de 2012 (ALC) - Direção das igrejas Metodista Unida e Presbiteriana, dos Estados Unidos, vão encaminhar moção às respectivas assembleias gerais a proposta de isolamento das empresas que lucram com a ocupação israelense na Palestina. São lembradas, entre outras, empresas como a Caterpillar, a Motorola e a Hewlett-Packard. 

A jornalista Elizabeth Bolton, da Jewis Voice for Peace Rabbinical Council (Voz Judaica para a Paz do Conselho de Rabinos) relatou que as duas denominações e seus seguidores que defendem o fim dos assentamentos israelenses na Cisjordânia e na parte leste de Jerusalém estão sendo atacadas violentamente por causa dessa posição. 

Rabinos emitiram carta de apoio a metodistas e reformados. "Cremos que investir em empresas que estão se beneficiando com a injusta ocupação reduz as possibilidades de atingir a paz e é contrária aos valores judeus", argumentaram. 

A carta dos rabinos reporta-se aos tempos de cativeiro do povo judeu, "uma experiência que não queremos nem para nós nem para os outros. Acreditamos na liberdade para todos. E estamos juntos de todos os que têm essa mesma crença", proclamam.

A Caterpillar, apontam igrejas, lucra com a venda de tratores utilizados na destruição de moradias e plantações de palestinos. A Motorola Solutiona produz sistemas de vigilância instalados em assentamentos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Já a HP provê apoio e manutenção dos sistemas de identificação biométrica IDE, instalados nos postos de controle israelenses, na Cisjordânia, que privam a livre locomoção dos palestinos em seu próprio território.
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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
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Eduardo Ribeiro Mundim
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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pastor Yousef Nadarkhani escreve carta a cristãos do mundo inteiro


(Missáo Portas Abertas) Pastor Yousef Nadarkhani corre o risco de ser executado por apostasia no Irã. Ele escreveu esta carta na prisão em janeiro de 2011, poucos meses depois de receber o veredicto por escrito confirmando sua sentença de morte. O pastor permanece preso em Rasht, sob a ameaça de uma execução que pode acontecer a qualquer momento.

Leia abaixo as palavras de perseverança do pastor e lembre-se de interceder por ele.
 
"Graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo”.
 
Portanto, tambem nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos foi proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus. Hebreus 12:1-2.
 
Quando alguém compreende a revelação da verdade, essa pessoa estará disposto a compartilhá-la com outras pessoas e com as gerações futuras. Somos gratos às pessoas que, no passado, lutaram pela Verdade, que nos permitem ter acesso a esta gloriosa revelação de Jesus Cristo. Esses crentes entenderam a riqueza e a beleza da revelação, e estavam prontos para lutar a fim de passar adiante o fruto da revelação.
 
Como podemos dar frutos semelhantes para a vida eterna? Depende esolhas que fizermos. Primeiro temos que fechar os ouvidos para a voz das trevas, como está escrito no salmo primeiro: Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Salmo 1:1.
 
A segunda coisa é abrir os nossos ouvidos à voz do Espírito falando através da Palavra de Deus, como está escrito: Mas o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Salmo 1:2.
 
O fruto da A comunhão com o Senhor através da Sua Palavra Vivificante é o que garante a estabilidade nesta vida e impacta a vida de outros gerando frutos eternos, como dizem as Escrituras: E ele será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, que dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará. Salmo 01:03.
 
"Um passo de fé"
 
Muitas pessoas admiram Jesus como um modelo único a ser seguido por gerações, muitos gostariam de imitá-lo. Jesus não veio para ser apenas admirado, mas nos trouxe um modelo perfeito a ser seguido. Se queremos ser como Ele, precisamos dar um passo de fé, como Pedro. Quando Pedro viu o seu Senhor andando sobre o mar furioso, ele pediu para ir ao encontro de Jesus sobre as águas. Então Jesus disse: "Vem!".
 
Todos quanto escolheram seguir o Senhor, de alguma forma ouviram antes uma ordem D’ele, dizendo: "Vem!" Uma ordem que implica um passo de fé. Como é evidente nas Escrituras, aquilo que somos capazes de ver não é fé. A fé é bíblicamente definida como: "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem."
 
Temos que dar um passo de fé "apesar das dificuldades" ", a fim de experimentar o poder de Deus. Mas precisamos lembrar que tudo deve ser feito de acordo com a Palavra de Deus. Pedro não experimentou a possibilidade de andar sobre as águas porque ele simplesmente decidiu abandonar o barco, mas por causa da Palavra, da Ordem do Senhor. A Palavra de Deus nos diz que "deveremos passar por dificuldades" e desonra por causa do Seu Nome. A nossa fé não será genuina se ignorarmos estas palavras, se não manifestarmos a paciência do Senhor em nossos sofrimentos. Qualquer um que ignora-las será envergonhado naquele dia.
 
É bom lembrar que muitas vezes o passo de fé nos coloca diante de algumas dificuldades. Assim como a Palavra levou os filhos de Israel a sair do Egito e os colocou diante de um obstaculo chamado Mar Vermelho. Essas  dificuldade se colocam entre as promessas de Deus e cumprimento delas e servem para desafiar e fortalecer a nossa fé. Os crentes devem aceitar esses desafios como uma parte de sua caminhada espiritual. O Filho foi desafiado no Calvário, no caminho mais difícil, como está escrito nas Escrituras: "Durante os dias de vuda na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão; Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu ". Hebreus 5:7-8.
 
O clamor "Eli, Eli, lamá sabactâni?" É suficiente para expressar os sofrimentos de nosso Senhor no Calvário. Por trás desse pedido de socorro, podemos identificar a grande fé que o levou a aceitar a vontade do Pai. Sim, Ele sabia que Deus não permitiria que "seu Santo sofresse decomposição”, e que, em três dias, ele ressuscitaria  dentre os mortos. Além do poder da morte, o Senhor enxergou o poder da ressurreição vitoriosa.
 
Eu não preciso escrever mais nada sobre a base da fé. Lembremo-nos que indenpendente de momentos bons ou ruins, apenas três coisas permanecem: a Fé, a Esperança e o Amor. É importante para os cristãos se certificarem que tipo de fé, esperança e amor permanecerão. Somente o que recebemos de acordo com a Palavra permanecerá para sempre. Eu quero encoraja-lo a viver de forma digna do chamado da Santa Palavra. Permitam irmãos, vocês que são herdeiros da glória de Cristo, serem exemplos para outros, a fim de ser um testemunho do poder de Cristo para o mundo.
 
Peço-lhes que vivam segundo a Palavra de Deus, a fim de rejeitar as ações das trevas que geram dúvidas em seus corações. A verdadeira vitória que elimina as dúvidas, vem pelo ouvir a Palavra de Deus com fé.
 
Somente uma igreja baseada nos ensinamentos de nosso Senhor Jesus Cristo subexistirá, longe do auxilio e da proteção da Palavra de Deus o devorador o destrurá.
 
“Vamos dar um Testemunho Santo. "
 
Seu irmão em Cristo,

Youcef Nadarkhani
 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Entrevista exclusiva com Caio Fábio

Por Danilo Fernandes

Depois de vários anos sumido do noticiário nacional, o pastor Caio Fábio D’Araújo Filho voltou às manchetes no fim do ano passado. Réu na ação movida contra ele por conta do episódio conhecido como Dossiê Caimã – conjunto de documentos falsos que, pouco antes da eleição presidencial de 1998, acusava altas figuras do governo de ter contas secretas naquele paraíso fiscal –, Caio foi condenado por uma juíza federal a pouco mais de três anos de reclusão. Cabe recurso, e o pastor já avisou que vai até às últimas instâncias. “A juíza quer aparecer”, ataca, sustentando a mesma versão que conta desde o início do imbróglio: a de que foi envolvido inocentemente numa conspiração política. Essa parte de seu passado, bem como muitas outras, já não são conhecidas pelas novas gerações de crentes. Contudo, os evangélicos mais maduros sabem que Caio foi a mais destacada liderança evangélica já surgida no país, cuja visibilidade, catapultada por uma ação ministerial intensa – como a criação da organização Visão Nacional de Evangelização, a Vinde, e da Fábrica de Esperança, megaprojeto social que atendeu centenas de milhares de carentes num conjunto de favelas do Rio –, marcou época entre os anos 1970 e 90.

Hoje, Caio olha para esse passado com serenidade. Ele diz que não repudia nada do que fez, mas que não quer mais saber de ser a figura pública, aclamada e requisitada de outrora. “Esse tempo acabou definitivamente para mim. Minha alma não tolera mais a possibilidade dessa vida itinerante”, diz, em sua casa em Brasília. Cercado de árvores, jardins e recantos, é dali que ele grava os programas que exibe pela internet, parte importante das atividades do Caminho da Graça, ministério que hoje capitaneia. Tida como uma igreja de perfil alternativo, o grupo reúne-se em várias cidades brasileiras e, segundo Caio Fábio, procura restaurar o sentido da comunhão cristã. “Ele é um movimento conduzido pela Palavra e pelo Espírito Santo. Queremos que  invada a massa, abranja tudo e se torne incontrolável como o vento que sopra onde quer”, diz, com a retórica privilegiada que conquistou milhões de admiradores e fez sucesso em mais de 100 livros publicados. De certas experiências do passado, ele não esconde a dor – como a separação de sua primeira mulher, Alda Fernandes, com quem teve quatro filhos, e a trágica morte de Lukkas, o terceiro deles.  Contudo, embora muito criticado e contestado ao longo desses anos todos, ele assegura, “diante de Deus”, que não sente mágoa de ninguém. Aos 57 anos de idade, casado com Adriana Ribeiro, Caio Fábio D’Araújo Filho se diz em paz. “Eu sou livre. Sou nascido do Evangelho, nascido de Jesus. Hoje, sirvo ao Senhor e não preciso perder o meu ser, a minha saúde, a minha paz, o meu convívio familiar. Isso é graça de Deus para mim!”
 
CRISTIANISMO HOJE – Recentemente, o senhor voltou ao noticiário com a notícia de sua condenação no processo que investiga o episódio do Dossiê Caimã. Como ficou esse processo?
CAIO FÁBIO D’ARAÚJO FILHO – Meu advogado entrou com recurso e eu ganhei. Agora, deve seguir para outra instância. Esse processo é uma loucura inominável. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que seria o maior prejudicado se a história fosse verdadeira, já veio a público me isentar de qualquer culpa.
 
Se sua inocência é tão óbvia como diz, por que um assunto praticamente esquecido pela opinião pública foi trazido novamente à tona?
Por iniciativa de uma juíza federal que gosta de aparecer. Como o episódio foi um fato histórico que envolveu até a Presidência da República, ela quis ser a mulher que decretou a prisão do indivíduo que seria o boi de piranha daquele negócio todo. Um grupo de advogados amigos de São Paulo queria até entrar com uma representação contra ela perante os conselhos de Magistratura, porque acharam que ela passou dos limites. Mas o advogado que me representa nos autos não deixou.
 
A quem interessaria uma condenação sua?
Ah, interessaria a muitos religiosos. O próprio pessoal da imprensa que me ligou disse que isso é uma coisa surreal, que aquela mulher é doida. Ninguém acredita em nada daquilo. Só a Folha de São Paulo é que deu com um destaque maior por uma razão política que eu não vou dizer aqui. E a TV Record [ligada à Igreja Universal do Reino de Deus], por razões óbvias. Estou junto como réu ao lado de Paulo Maluf e Lafayette Coutinho. No entanto, só eu fui condenado! Mas olha, se, por algum motivo totalmente inexplicável, esse negócio chegar ao Superior Tribunal de Justiça, será liquidado lá. E, se por alguma insanidade passar e for ao Supremo, vai morrer na praia.
 
O senhor trabalha com a hipótese de uma condenação definitiva?
Se, por alguma conjunção cósmica totalmente irracional, eu for mesmo condenado a prestar serviço comunitário ou fazer ação social, eu vou dar um grande “aleluia”, porque estarei sendo condenado a ser eu mesmo, a fazer o que sempre fiz esses anos todos, por minha total iniciativa.
 
O senhor concebeu e liderou um dos maiores projetos de cunho social de iniciativa de evangélicos já feitos neste país, a Fábrica da Esperança, considerado o maior do gênero na América Latina. Com esta credencial, como o senhor avalia a relativamente pequena atuação da Igreja brasileira na área social, ainda mais evidenciada quando consideramos as altíssimas somas de dinheiro arrecadadas pelos grandes ministérios e denominações?
Não existe nenhum grupo mais ególatra dentre todos os movimentos religiosos planetários do que o movimento evangélico. Isso por causa da semente dele – a semente é má, é de divisão. A semente original, de protesto contra a Igreja Católica, transformou-se numa semente de protesto existencial contra tudo. Essa divisão criou a ênfase no dogma doutrinário. Isso divide, qualquer que seja o desencontro, em qualquer nível na escala de valores. Falta tolerância naquilo que não tem significado para a salvação, no que não altera o DNA do Evangelho. Esse tipo de tolerância no olhar nunca existiu. O que se instituiu foi a prevalência do existencialismo espiritual, e esse não lida com as categorias objetivas de valor. E logo o chamado movimento protestante virou esse guarda-chuva evangélico, sob o qual cabem todas as coisas. Quando é que pode haver unidade e serviço ao próximo se, no meio evangélico a unção para nada serve senão para erigir egos? A unção do Espírito Santo deve redundar no amor, na compaixão, na misericórdia, no serviço – mas a “unção” que vemos aí só tem poder para criar lúciferes com purpurina na cara, que atuam em palcos com luzes. 
 
Em função deste e de vários outros projetos e iniciativas, o senhor levantou muito mais recursos do que o de diversos líderes de hoje, que estão até comprando aviões particulares.  À época, o senhor teve o seu?
Nunca tive avião ou helicóptero. Faz parte da minha filosofia não adquirir nada. Nem esta casa onde vivo eu comprei, ela me foi alugada a um valor simbólico por três senhoras amigas. Eu nunca comprei coisa nenhuma, nunca acreditei em compra de nada. O Caminho da Graça nunca vai comprar nada. Creio que imobilizar dinheiro do povo de Deus com patrimônio físico é pecado. Quem diz que a nossa pátria está nos céus e faz aquisições poderosas ou erige templos salomônicos está pecando contra o espírito do Evangelho. Tudo o que eu construí e mantive era alugado. Passei 25 anos declarando que não tinha o menor compromisso com a manutenção de coisa alguma que virasse um fim em si mesmo. Quando você é dono de propriedades, você acaba vivendo para fazer a manutenção de tudo e as coisas perdem a finalidade.
 
E o senhor vive de quê?
Sempre vivi exclusivamente do ministério. Todos os direitos autorais dos meus livros e a renda obtida com nossas atividades no passado – TV, rádio, revista, editora – era voltada para a atividade missionária, social, evangelizadora e de treinamento. Era tudo reinvestido naquilo que fazíamos. E continua sendo assim hoje.
 
Quem o ouve falar percebe que o senhor faz questão de traçar uma linha divisória entre o que é hoje e o que fez, em especial em relação ao seu passado institucional, quando era uma figura pública dentro e fora da Igreja. Há algo que o senhor repudia em seu passado?
Não. Eu nunca rechacei meu passado. Só não faria de novo. Naquela época, contudo, foi necessário. Só de uma coisa me arrependo no meu passado institucional: ter aceitado a imposição de ter sido feito presidente da Associação Evangélica Brasileira [AEVB], pela qual eu mesmo trabalhei muito para ver criada. Eu não queria a função, mas fui eleito por aclamação. Praticamente me obrigaram a aceitar, porque a entidade surgiu com o patrocínio da Vinde. Noventa por cento da AEVB estavam ligados aos ministérios que eu dirigia. Eu não queria e nem precisava presidir a AEVB. Pelo contrário – eu é que dei mídia para ela.
 
Mas a AEVB não cumpriu um papel importante na época? Afinal, ela esteve à frente de movimentos marcantes dos anos 90, como o Celebrando a Deus como Planeta Terra, o Rio Desarme-se e o Reage Rio, entre outras mobilizações que contaram com o apoio dos evangélicos.
Quando se criou a AEVB, a gente já havia perdido tempo demais discutindo o sexo dos anjos. Já estávamos correndo no vácuo do prejuízo. Esperamos muitos anos num processo lento, de muita conversa infrutífera. A AEVB só surgiu em 1991, depois que o [bispo Edir] Macedo já havia começado a dar as cartas do neopentecostalismo brasileiro. A AEVB foi criada com apoio desse pessoal que agora fundou a Aliança Cristã Evangélica Brasileira e de outros, mas ninguém botava dinheiro, ninguém se mobilizava para fazer nada.
 
O senhor foi convidado a participar da Aliança?
Não fui convidado, e mesmo se fosse, não iria, porque não acredito mais nisso. Todos esses irmãos queridos que estão lá sabem que eu sempre quis ser livre para dizer o que eu queria.  Esse tipo de iniciativa tinha que ser criada bem antes, lá no início dos anos 1980, quando havia muita gente séria, respeitável, de corações generosos. Isso tinha de ser criado logo depois do Congresso Brasileiro de Evangelização, em 1983, que para mim foi o maior evento representativo da história da Igreja brasileira. Ali ocorreu a grande oportunidade de unidade. As almas ainda estavam ingênuas, puras, sinceras. A teologia da prosperidade não existia por aqui, o que prevalecia era a teologia da missão integral. Havia uma quantidade enorme de pastores piedosos e desejosos de ver o melhor de Deus acontecer neste país. Creio que, àquela altura, ainda dava tempo de a Igreja ter um papel de relevância e significado, Ainda dava para virar as coisas e não perder os significados do termo evangélico.
 
A sua separação foi um acontecimento público, que envolveu adultério. Naquela época, isso ganhou enorme peso perante a Igreja. No entanto, já àquele tempo diversas denominações já ordenavam pastores divorciados e encaravam a questão de forma liberal. Também são muitos os exemplos de pastores famosos – alguns, líderes de denominações – que se divorciaram em condições semelhantes às suas, mas a repercussão em nada se aproximou do tratamento que lhe foi concedido. Por que o seu caso, até hoje, suscita tanto escândalo? O senhor se considera perseguido?
Eu daria três razões para este tratamento especial e a grande comoção que o episódio causou. Em primeiro lugar, a minha situação para essa moçada toda foi insuportável. Ministerialmente, eu funcionava como uma espécie de foice, rodando em cima de cabeças conceituais. Toda vez que aparecia um maluco – e eu nunca precisei nominar os malucos, apenas expunha seus erros e dizia que o Evangelho era de outro jeito –, essa foice cortava logo aquela cabeça, o cara virava herege. Por isso, todo mundo tinha medo de que minha opinião conceitual colocasse alguém em situação difícil. Eu tenho certeza absoluta da quantidade enorme de gente que torcia por uma fragilidade de minha parte justamente por causa desse papel que eu exercia. E esse não foi um papel que eu pleiteasse ou buscasse; ele aconteceu espontaneamente. Foi Deus que fez isso por sua graça, eu só estava pregando o Evangelho, que, aliás, é o que eu sempre fiz.
 
Então, o senhor acredita que parte desta liderança que ai está não teria o espaço que tem se não fosse a sua saída do cenário? Seu espólio foi negociado?
Com certeza. Não preciso falar nada. Basta ver até 1998 quem era quem e o que aconteceu de 2000 em diante. Quer ver uma coisa? Logo depois do que aconteceu, diante daquela comoção toda sobre o que tinha acontecido comigo, houve uma reunião de 300 pastores em São Paulo especificamente para tratar sobre quem ia ficar com qual parte do meu despojo, para saber quais eram os espaços que eu havia deixado abertos e quem deveria ocupá-los. E foram milhares que também fizeram isso. Não quero nem falar de traição, porque no meu coração já estão todos perdoados, mas se eu abrisse a boca ninguém ficava em pé.  Esta foi uma razão. Em que pese o fato de que eu cometi um ato pecaminoso de traição e infidelidade, isso está longe de ser a causa principal da grande comoção. Sabe qual foi a causa? Eu ter tomado a iniciativa de contar tudo, ou seja, por minha vontade expor tudo em verdade, sem que qualquer coisa tivesse sido descoberta por ninguém. E eu que ouvia a confissão de tantos deles e sabia de suas fraquezas, das promiscuidades… E, depois, estes mesmos iam à TV bater em mim confiando na minha integridade, pois sabiam que eu não os exporia.
E a terceira razão foi que, naquele momento, eu aproveitei a oportunidade e pulei fora do barco. Este foi o elemento mais doído de todos. A Igreja Presbiteriana me propôs uma discipina como condição para minha restauração. Eu respondi que não estava pleiteando nada, e que estava me desligando da denominação unilateralmente. Eu não queria mais ser parte daquilo. Escrevi três cartas e eles não aceitaram nenhuma.  Pensei: “Meu Deus, isso aí não é a máfia, da qual o camarada só sai morto”! Depois me propuseram dar o tempo que eu julgasse necessário e que, depois, se eu quisesse voltar, seria restaurado e estava tudo certo. Mas eu disse que não queria.
 
O que passava pela sua cabeça naquele momento. O que o senhor desejava? Para onde queria ir?
Eu queria vir para cá! Queria voltar aos meus 18 anos... Eu nunca quis ser pastor ordenado. Eu sabia quem eu era e que Deus tinha me ungido. Sabia que isso tinha vindo do céu, e que não dependia de ninguém. Foi a Igreja Presbiteriana que disse que não era possível que eu, aos 19 anos, em Manaus,  fosse considerado pastor pela cidade inteira,  pregasse a Palavra sem ser ordenado pastor e sem aceitar ir para ao seminário.
 
Então a questão crucial foi a rejeição?
Sim. Eles agiram passionalmente. Era como se dissessem: “Nós amávamos esse cara e ele decidiu não ser mais parte do nosso grupo”. E, conquanto eu estivesse fazendo aquilo sem que, na minha mente, quisesse ofender nenhum daqueles irmãos, o que eu não queria era, depois do acontecido, ter de me curvar a nenhum tipo de restauração humana, mentirosa, hipócrita e plástica que queriam me oferecer. Eu sabia que o único a me restaurar era o Senhor. Eu não aceitaria nada que não viesse daquele que me ungiu e sabendo que entrar naquele esquema era vender a minha alma. Então, eles aproveitaram essa minha atitude para vender ao povão a ideia de que eu estava rebelado contra a comunhão dos santos e o amor dos irmãos.
 
Ao longo dos anos, foram construídos certos mitos a seu respeito e que o rotulam como extremamente liberal e até antibíblico. Um deles é de que o senhor, devido ao que lhe aconteceu, seria um incentivador de divórcios, em especial de pastores. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Isso é uma suposição absurda. Já haviam acontecido milhares de separações de pastores antes da minha. E muita dessa gente vinha me contar os dramas conjugais e chorar as mazelas comigo. Então, é hipocrisia dizer que o que me aconteceu é que abriu as portas para que outros pastores adulterassem ou largassem da mulher. Essa percepção a meu respeito é suscitada pelo diabo na cabeça de muita gente doida. Eu nunca defendi o divórcio. Defendo que continuem casados aqueles que se amam, mas que todos aqueles que se fazem mal, que se machucam, que se ferem e se odeiam, não deveriam estar casados, pelo bem de suas almas. Sempre aconselhei todo mundo a não adulterar, a não trair a mulher. Quando cheguei aqui em Brasília, no meu primeiro ano o que eu mais fiz foi atender pastores e mulheres de pastores que queriam se divorciar e vinham me pedir aconselhamento. Gente de tudo quanto é igreja – batistas, assembleianos, presbiterianos, pentecostais. Na medida do possível, ajudei esse pessoal todo a não se divorciar. Eu dizia a quem me procurava com casos extraconjugais: “Sai dessa, você vai se estrepar com essa amante”. O que Deus uniu, que o homem não separe; e o que Deus não uniu, que não se ajunte, porque vira uma desgraça. O que me aconteceu foi, isso sim, um ato pecaminoso, de traição e de infidelidade. Um pecado diante de Deus e perante a mãe dos meus filhos. Mas o que me aconteceu não teria derrubado nada que já não estivesse demolido. É ridículo dizer que meu caso serviu de legitimação para os atos de quem quer que seja.
 
Por falar nisso, como é sua relação com Alda Fernandes, sua ex-mulher?
Ela é minha amiga. Passamos o último Natal juntos. Estamos sempre com nossos filhos e netos.
 
Quando seu filho Lukkas morreu atropelado, em 2004, houve quem atribuísse a tragédia e um juízo de Deus sobre sua vida. O que o senhor sentiu na época e como lida hoje com as pessoas que o criticam?
Só tive coração para a dor e a saudade pela partida do meu filho. Nada do que soube que disseram teve poder de gerar qualquer coisa ruim em mim. O que senti naquele momento foi paz, e se todos os meus filhos morressem, a minha resposta seria a mesma. E tem mais uma coisa – não existe ninguém, nenhum ser humano, que eu não tenha perdoado. Digo isso diante do Deus vivo e dos principados e potestades malignas. Meu coração nunca dormiu com ira em relação a ninguém, eu não tenho ódio nenhum para contar. Não tenho inimizades contra pessoas. Por outro lado, tenho opiniões a dar sobre ideias e conceitos equivocados de quem quer que seja. Não é por causa do fato de eu não ter inimizade pessoal por um indivíduo que vou deixar que a vandalização do Evangelho aconteça sem que eu me una a Paulo na luta comum da defesa do Evangelho, como todo aquele que carrega o temor de Jesus no coração.
 
Esse seu discurso costuma ser extremamente crítico em relação ao que chama de “igrejas institucionalizadas” e “sistema religioso”. Na sua opinião, as igrejas não têm nada de bom?
Mas é claro que têm coisas boas! Elas têm gente boa, e gente é o que existe de melhor em qualquer lugar. Ministério, para mim, é gente, só é bom se for feito por gente e para gente. Está cheio de gente boa de Deus nas igrejas. Mesmo quando há um pastor paspalhão lá na frente, os bancos estão repletos de gente boa, que sente até pena daquele indivíduo lá na frente, que faz negócios para todos os lados e com quem apareça. Tem gente que suporta o púlpito muito mais para não perder os relacionamentos de comunhão e o convívio de anos com os irmãos. Eles sabem que aqueles caras lá na frente vão passar, as modas vão passar, mas eles vão continuar ali. Existe gente maravilhosa nos ministérios. Veja aquele pessoal da Juvep [Juventude Evangélica da Paraíba, entidade que atua de maneira missionária no sertão nordestino], por exemplo. Eles perseveram há anos na mesma purezinha de alma, na mesma ideia de serviço ao próximo. Há também a Jocum [Jovens com uma Missão, movimento missionário internacional], com seus tantos braços de ação penetrados nos lugares mais distantes, em favelas, em comunidades miseráveis, em bolsões de carência no mundo todo.
 
O Caminho da Graça é uma espécie de reinvenção da igreja?
Não, ele é simplesmente a sequência de um caminho que eu sempre trilhei. O Caminho da Graça é a expressão de visibilidade de uma coisa subversiva que eu incito. Eu tento fazer com que o Caminho seja apenas, com muita leveza, um elemento de visibilidade mínima da possibilidade de uma comunhão cristã sem que uns mordam e devorem uns aos outros. Por isso, não tenho aquele desejo de fazê-lo crescer, ter expansão numérica simplesmente – quero que o que cresça seja essa coisa que ninguém nomeia, um movimento conduzido pela Palavra e pelo Espírito Santo que invade a massa, abranja tudo e se torne incontrolável como o vento que sopra onde quer.
 
O senhor diz que o Caminho da Graça é um movimento não institucionalizado, mas recentemente nomeou presbíteros e diáconos para sua sede em Brasília. Isso não vai acabar tornando o ministério como uma das igrejas que o senhor tanto critica?
Nós funcionamos baseados em dons, e não em hierarquias. Nas igrejas convencionais, o diácono é mais do que o membro e o presbítero é mais do que o diácono. Aqui no Caminho, essas funções expressam simplesmente dons de serviço. O presbítero, o mentor, não é um sujeito mais elevado na hierarquia, não tem poderes ou prerrogativas especiais. Ele é simplesmente o cara que surge pela observação dos outros: “Puxa, quanta sabedoria fulano tem recebido e manifestado”. Essas funções surgem por opiniões múltiplas, não existe reunião de concílio ou votação para escolher ninguém. E tem outra coisa: se, algum dia, lá na frente, o Caminho da Graça deixar de ser o que nasceu para ser, é a coisa mais simples do mundo – acaba tudo e começa outra vez. O problema do pessoal é que eles querem se eternizar. Querem que o grão de trigo dure para sempre, mas se o grão não morrer, não há fruto. Eu não quero perenizar nada. Eu só tenho o compromisso de servir à minha geração, não quero deixar nenhum legado, nenhum império. É preciso reconhecer que a vida é cíclica. Eu já acabei com muita coisa que tinha começado no curso da minha vida. E que ninguém duvide que, se eu tiver vida longa e alguma coisa que estou fazendo hoje se corromper lá na frente, eu mesmo vou lá e termino com tudo, não espero, não.
 
A manutenção do Caminho da Graça e dos ministérios a ele ligados é feita através de dízimos e ofertas?
A gente recolhe ofertas. A espontaneidade da dádiva tem que ser baseada no amor, na alegria de dar. Quem pode dar mais, dá mais; quem pode dar menos, dá menos; e quem não pode dar nada não dá nada, recebe. Paulo ensinou que é justo que aqueles que recebem bens daqueles que lhes ministram os galardoem e ajudem com bens. Mesmo com toda a capacidade que Jesus tinha de multiplicar pães e peixes e de transformar água em vinho, ele era sustentado pelas ofertas práticas e objetivas das mulheres que o serviam e de outras pessoas. O princípio espiritual da doação era operativo na vida e no ensino de Jesus e no Novo Testamento como um todo.
 
E quanto ao dízimo? Nesta ótica, ele seria antibíblico?
O que as igrejas ensinam é lei, é obrigatoriedade. A Igreja tornou-se uma espécie de agente substitutivo do antigo templo de Jerusalém, uma espécie de “receita federal” de Deus. É uma coletora de impostos. O dízimo é esse imposto, e ainda dizem que quem não pagar vai sofrer as desgraças descritas no capítulo 3 de Malaquias. Como a Igreja não ensina a obediência ao Evangelho como resultado do amor de Cristo constrangendo nosso coração, como Paulo ensina em II Coríntios 5, as pessoas não veem a questão da doação como algo inerente à generosidade.
 
Se um homossexual assumido quiser frequentar o Caminho nesta condição, como ele será tratado?
Nunca ninguém chegou no Caminho da Graça dizendo para mim que é gay praticante e que quer ficar ali. Mas não sou persecutório e nem homofóbico acerca de nenhum ser humano. Se ele quiser ficar, ouvirá o Evangelho e saberá que esse Evangelho pode criar um espaço de generosidade misericordiosa para ele ouvir a Palavra de Deus e crescer – mas nunca ouvirá uma única palavra de incentivo a qualquer relação sexual que não seja heterossexual.  Se eu fizesse isso, estaria estabelecendo um paradigma que não encontro nenhum precedente para estabelecer.
 
Logo, ainda que solicitado, o senhor não celebraria um casamento gay?
Eu não faço esse tipo de casamento, até porque a união estável entre homossexuais não é casamento, é uma relação societária, uma empresa limitada. O Estado tem o dever de defender essa relação no que se refere ao respeito à propriedade, aos bens. Se dois gays que construíram uma vida juntos, com aquisição de bens e tudo o mais, resolvem não mais viver em comum, que se divida o que têm, e cada um leva a sua parte. Isso é uma questão de Estado, não tem nada a ver com a Igreja. Mas não estimulo nenhum tipo de união estável, a não ser aquela estabelecida entre homem e mulher que se amem.
 
Sua maneira de falar e até as roupas que o senhor tem usado provocam muitos comentários. A esta altura da vida, o senhor sente-se livre para dizer e fazer o que quer?
Pelo amor de Deus, você não pode mais ser o que é? Eu me visto desse jeito porque gosto. Eu sou só um carinha que deseja viver. Quem não gosta do meu jeito é livre para viver da maneira que quiser. Eu sou livre como o Evangelho. Sou nascido do Evangelho, nascido de Jesus. Sou como o vento, nascido do Espírito Santo. Quem não suporta minhas declarações, minha sinceridade e a propriedade do que digo que vá dormir com esse barulho.
 
(Colaborou Carlos Fernandes)