quinta-feira, 10 de março de 2016

O Cristianismo e a História da Tecnologia – Parte 1

Posted: 02 Mar 2016 11:58 AM PST
por Michael Sacasas – tradução Fernando Pasquini

Texto original: http://thefrailestthing.com/2012/03/01/christianity-and-the-history-of-technology-longform/

Introdução

Desde meados do século XX tem havido um constante e talvez modesto debate acadêmico sobre a relação entre tecnologia e religião. Entre os estudiosos que abordaram especificamente a natureza dessa relação, suas pesquisas concentraram-se no seguinte conjunto de interesses: o papel da religião ao determinar a postura da sociedade ocidental para com o mundo natural, o papel das religiões em incitar o desenvolvimento tecnológico, o papel da religião na formação das atitudes ocidentais para com o “trabalho e as ferramentas de trabalho”, e, mais recentemente, o uso da linguagem e categorias religiosas para descrever a tecnologia. A maioria desses estudos concentra-se quase exclusivamente no contexto europeu e norte-americano; assim, “religião” refere-se ao cristianismo. Jacques Ellul, Lynn White, George Ovitt, Susan White, David Noble, e Bronislaw Szerszynski estão entre os contribuintes mais notáveis deste debate.

Os comentários de Jacques Ellul foram os primeiros, mas não definiram os termos do debate. Essa honra coube a Lynn White, que, em seu ensaio de 1968, “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, propôs inicialmente que a relação da Europa com a tecnologia foi moldada de forma distintiva pela cosmovisão cristã. Estudiosos repetidamente voltam a White para examinar mais sua tese e seu contexto ecológico.

O livro de George Ovitt, “A Restauração da Perfeição: Trabalho e Tecnologia na Cultura Medieval”, continua sendo o tratamento mais aprofundado no nexo das questões levantadas pelo ensaio de White. Ovitt conclui que há uma boa razão para se restringir significativamente as afirmações de White.

O estudo de Susan White, “Adoração Cristã e a Mudança Tecnológica”, se destaca como uma consideração da influência da tecnologia na liturgia cristã.

David Noble se baseia no trabalho de White e Ovitt para oferecer um relato do que ele chama de “religião da tecnologia”, que diz respeito a um entrelaçamento generalizado das questões religiosas com o projeto da tecnologia, além da tendência de se associar a busca da transcendência à tecnologia.

Finalmente, o livro de Bronislaw Szerszynski intitulado “Natureza, Tecnologia e o Sagrado” oferece uma reconsideração teoricamente sofisticada do argumento de White, abraçando, no que diz respeito ao caráter da sociedade contemporânea, o diagnóstico da sociedade tecnológica feita por Ellul. Szerszynski também transfere o argumento para fora do período medieval argumentando que as transformações realmente decisivas no contexto intelectual e religioso da história tecnológica da Europa devem ser localizados na Reforma Protestante.

Jacques Ellul: Cristianismo A-técnico

O livro de Ellul intitulado “A Técnica e o Desafio do Século” foi publicado em francês em 1954 e teve sua primeira tradução para o inglês em 1964 [NOTA DO TRADUTOR: O livro foi publicado inicialmente em português em 1968, pela editora Paz e Terra, e atualmente está fora de publicação]. Ellul fornece um breve esboço histórico da evolução da técnica e, dentro disso, analisa a relação entre o cristianismo e tecnologia. Conforme acredita Ellul, o cristianismo, na forma era praticado durante o período medieval tardio foi, na melhor das hipóteses, ambivalente com relação ao avanço da tecnologia. Ele reconhece que a opinião geral contrasta as religiões orientais, que eram supostamente “passivas, fatalistas e de desprezo para com a vida vida e a ação”, com o cristianismo, a religião do Ocidente, que era supostamente “ativa, conquistadora, e que transformava a natureza em lucro.”

No entanto, embora esta caracterização tenha sido amplamente aceita, Ellul acreditava que ela está errada. Ela tanto ignora os avanços técnicos reais das civilizações orientais como também não compreende a postura do cristianismo diante do desenvolvimento técnico.

De acordo com Ellul, o aparecimento do cristianismo marcou a “quebra da técnica romana em todas as áreas – tanto no nível de organização, como na construção de cidades, na indústria e nos transportes.”Em sua opinião, Juliano, o Apóstata, e mais tarde Edward Gibbon, não estavam totalmente equivocados ao atribuir o enfraquecimento do Império à ascensão da Igreja. Após o colapso do Império Romano no Ocidente, a sociedade ficou sob a tutela do cristianismo, que Ellul caracterizou tanto como “‘a-capitalista’ como também ‘a-técnico'”. Em cada esfera da cultura medieval, com exceção da arquitetura, Ellul vê “igualmente a ausência quase total de técnica.”

Ellul então passa a desafiar os dois argumentos históricos empregados por aqueles que acreditam que o cristianismo “abriu o caminho para o desenvolvimento técnico.” O primeiro destes afirma que a supressão da escravidão ocasionada pelo cristianismo impulsionou o desenvolvimento da tecnologia, de forma a aliviar as misérias do trabalho manual. Já o segundo afirma que o desencantamento do mundo natural produzido pelo cristianismo removeu os obstáculos metafísicos e psicológicos para a sua exploração com vistas à tecnologia. Ellul afirma que o primeiro argumento falha em considerar as realizações técnicas impressionantes nas sociedades escravistas, e o segundo, embora válido até certo ponto, ignora as outras restrições da fé cristã colocadas em relação atividade técnica, ou seja, suas tendências ascéticas e voltadas para o outro mundo. Além disso, o cristianismo submeteu todas as atividades ao julgamento moral. Assim, atividade técnica era limitada por considerações não-técnicas, e foi dentro deste “escopo restrito” que certos avanços técnicos foram alcançados e propagados pelos mosteiros.

Lynn White: o Cristianismo e o Clima Cultural do Avanço Tecnológico

Em seu ensaio clássico, “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, Lynn White Jr. demarcou uma posição que discorda de Ellul em quase todos os pontos possíveis. White começa descrevendo a lacuna de avanço técnico que se abriu entre a Europa Ocidental e ambas as civilizações islâmica e bizantina no leste. Esta lacuna antecedeu a “Revolução Científica” do século XVI e já era evidente no final da Idade Média. Consequentemente, White volta-se para a Idade Média para compreender a natureza da tecnologia ocidental.

Embora White esteja, nesta fase de sua carreira, afastando-se da abordagem de um único fator para a mudança tecnológica, alguns elementos dessa abordagem ainda são evidentes em “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, no qual ele aponta para a introdução do arado pesado como catalisador de uma mudança de atitudes acerca da relação da humanidade com a natureza. Nas palavras de White, o arado pesado “atacou a terra com tamanha violência que o arado cruzado já não era mais necessário.” White também observa que essa nova atitude de dominação logo teve uma expressão pictórica nos calendários francos que mostravam o homem e a natureza em oposição, tendo o homem como mestre.

Neste ponto do ensaio, entretanto, White abandona uma análise baseada em um único fator tecnológico para mudança social e parte para a consideração das influências culturais que condicionaram o desenvolvimento e implantação da tecnologia em uma relação conflituosa com a natureza. White acredita que religião cristã tal como praticada na Europa Ocidental é a principal culpada. “Especialmente na sua forma ocidental,” White conclui, “o cristianismo é a religião mais antropocêntrica que o mundo já viu.” Depois de recordar brevemente os conhecidos conceitos e linguagem da narrativa da criação no primeiro capítulo do livro de Gênesis, White contrasta o cristianismo com o paganismo antigo e as religiões orientais, e crê que o cristianismo “não só estabeleceu um dualismo do homem e da natureza, mas também insistiu que é da vontade de Deus que o homem explore a natureza para seus próprios fins”. O cristianismo realizou esta “revolução psíquica” através de um desencantamento da natureza, tornando “possível explorar a natureza em um clima de indiferença aos sentimentos dos objetos naturais.”

White, então, afirma o segundo argumento que Ellul rejeitou em sua análise da relação entre o cristianismo e a natureza. Ele supera uma das críticas de Ellul – de que ramos orientais do Cristianismo não pregaram a mesma relação com a natureza e, portanto, que a religião não é o fator-chave -, apontando para as diferenças significativas na perspectiva teológica que caracterizaram as igrejas latinas ativistas no Ocidente e as Igrejas gregas contemplativas no Oriente. Ellul havia notado a diferença, e usou a Igreja Ortodoxa Russa como exemplo da questão, mas concluiu que a diferença deveria ser cultural e não religiosa. Mas embora a formação cultural do cristianismo antigo não deva ser esquecida, permanece o fato de que, na Idade Média, tanto o cristianismo oriental como o ocidental assumiram formas distintas e estavam agora, como variações culturais da mesma religião, moldando o clima intelectual de suas respectivas sociedades.

Além disso, White também reforça o argumento apontando para a visão sacramental do cristianismo oriental. A Natureza existia como um sistema de sinais para serem lidos e através dos quais Deus falava à humanidade. Isso é, na opinião de White, uma visão da natureza “essencialmente artística ao invés de científica”. Enquanto o Ocidente inicialmente partilhava esta visão sacramental, no final do período medieval este deu lugar a uma teologia natural mais inclinada a “ler” a natureza entendendo o seu funcionamento, ao invés de meramente contemplar a sua aparência. (Bronislaw Szerszynsk mais tarde irá lidar com este argumento semiótico em profundidade.)

A estrutura retórica do artigo de White se preocupa mais com as fontes da “atual crise ecológica”, mas o corpo de seu argumento se dirige a outra pergunta: Qual a explicação para o avanço da tecnologia ocidental em comparação às suas civilizações rivais? O ensaio de White, embora inicialmente partindo de uma abordagem de um único fator para a mudança tecnológica, no quadro geral utilizou uma abordagem de fatores sociais, focando-se no cristianismo latino como a força motriz da evolução tecnológica da Europa Ocidental. Ao fazer isso, o ensaio definiu os termos e tornou-se um ponto de partida para a discussão posterior do relacionamento da religião com a tecnologia. Mais notavelmente, ele ancorou o debate na Idade Média, apontou para o significado cultural das distinções teológicas aparentemente arcanas, identificou o Cristianismo como o fator cultural mais importante conduzindo a atividade tecnológica no Ocidente, e ligou a questão histórica às preocupações ambientais.

Lynn White desenvolve ainda mais sua tese em um longo artigo de 1971, “Climas Culturais e o Avanço Tecnológico na Idade Média”, no qual ele se dispõe a identificar diretamente as fontes do “impulso tecnológico sem precedentes no Ocidente medieval”.

White começa discutindo a propensão da Europa medieval em tomar emprestadas e elaborar em cima de tecnologias desenvolvidas inicialmente em outras sociedades. A cultura da Europa medieval “foi única no seu clima de receptividade a transplantes” e isso explica, em parte, o vigor da produção tecnológica medieval. No entanto, essa mesma receptividade exige uma explicação, e em resposta White reafirma a lógica de “As raízes históricas de nossa crise ecológica”:

“Aquilo que uma sociedade realiza tecnologicamente é algo influenciado por empréstimos casuais de outras culturas, embora a extensão e usos destes empréstimos sejam reciprocamente influenciados por certas atitudes em relação às mudanças tecnológicas. Fundamentalmente, no entanto, tais atitudes dependem daquilo que as pessoas em uma sociedade pensam sobre seus relacionamentos pessoais com a natureza, seus destinos, e quão bom é agir sobre eles. Estas são questões religiosas.”

No que se segue, White amplia as linhas do argumento sugerido no ensaio anterior, ao mesmo tempo que apresenta linhas adicionais de evidência em apoio de sua tese. O trabalho seminal do historiador medieval Ernst Benz, cujos escritos sobre o assunto apareceram em italiano em 1964 e foram apresentados em inglês em 1966, é introduzido pela primeira vez no argumento de White. O estudo de Benz acerca dos “impulsos anti-tecnológicos” do Zen Budismo levou-o a localizar a aceitação de mudanças tecnológicas pela Europa Ocidental dentro de sua perspectiva religiosa. Ele apontou para o cristianismo em sua concepção linear da história, sua apresentação de Deus como arquiteto e oleiro, sua afirmação teológica da bondade da criação material, e seu pressuposto da ordem criada como uma “obra inteligente” – tudo isso, em sua opinião, algo único no cristianismo – como os componentes daquilo que White chama de um “clima cultural” extremamente hospitaleiro para o avanço tecnológico.

White apresenta os contornos da análise de Benz, mas encontra espaço para melhorias. Baseando-se em dois artigos publicados de forma independente em 1956, White mais uma vez chama atenção para o desencantamento da natureza supostamente realizado pelo triunfo cultural do cristianismo sobre o paganismo antigo. Ele também reafirma e desenvolve a importância da distinção entre o cristianismo ocidental e o oriental. Aqui, White fortalece suas observações anteriores utilizando evidências iconográficas e textuais.

Começando logo após da virada do primeiro milênio cristão, a iconografia ocidental descreve Deus no ato da criação como um construtor, mestre artesão, e mais tarde um mecânico – uma tradição visual jamais adotada nas igrejas orientais. Na questão exegética, White destaca as interpretações ocidentais e orientais da história de Marta e Maria no Evangelho de Lucas. Enquanto uma leitura superficial sugira que a contemplação seja mais importante que o ativismo, os intérpretes latinos, começando com Agostinho, saem dessa interpretação, buscando amenizar e até mesmo reverter a aparente crítica do ativismo e do trabalho.

Com isso, White então se volta a algo que se tornaria outro ponto chave de atenção nas discussões posteriores sobre tecnologia e cristianismo: a atitude em relação ao trabalho nas ordens monásticas, principalmente entre os beneditinos. White observa que, no mundo bizantino, ao contrário do Ocidente, que não sofreu um colapso geral da cultura, as ordens religiosas não foram obrigadas a arcar com o ônus de sustentar todos os aspectos da civilização, sejam eles seculares e religiosos. Entretanto, após o colapso da autoridade romana no Ocidente, as ordens religiosas – notavelmente os beneditinos – encontraram-se na tarefa de exercer funções religiosas e seculares, unindo adoração e trabalho. Esse compromisso com o trabalho e as artes mecânicas, na opinião de White, geraria um ímpeto caracteristicamente religioso para o desenvolvimento da tecnologia.

White apoia sua afirmação com base na obra do pseudônimo Teófilo e Hugo de São Vítor. As obras de Teófilo, que datam do início do século 12, fornecem um registro indispensável do conhecimento tecnológico da época, ao mesmo tempo confirmando a motivação religiosa para a inovação técnica, que White acredita ser característica da época. Nesse mesmo tempo, o contemporâneo de Teófilo, Hugo de São Vítor, incorporou as artes mecânicas em sua influente classificação do conhecimento e das artes. Embora as artes mecânicas estivessem na mais baixa posição na hierarquia das artes, ainda assim elas foram incluídas, e isso não era pouco. Juntas, as obras de Teófilo e Hugo apoiam a tese de White sobre o papel do cristianismo ocidental ao formar o impulso tecnológico da Europa na Idade Média.

White conclui com mais uma evidência iconográfica corroborando sua tese. Uma ilustração do Salmo 63 no Saltério de Utrecht, datada em meados do século IX, apresenta um confronto entre o rei Davi e os Justos com uma força muito maior dos ímpios. Enquanto os ímpios usavam pedras de amolar para afiarem suas espadas, os piedosos empregam “a primeira manivela que se tem registro além da China, usada para rodar o primeiro rebolo conhecido na humanidade”. “Claramente”, White conclui, “o artista está nos dizendo que o avanço tecnológico é a vontade de Deus.”

Assim, embora “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica” seja citado com mais frequência e mais frequentemente tomado como ponto de partida, é em “Climas Culturais e o Avanço Tecnológico na Idade Média” que White defende mais persuasivamente a ideia da influência formativa do cristianismo sobre a história da tecnologia na sociedade ocidental. Com sua inclusão da pesquisa de Ernst Benz e sua discussão da espiritualidade beneditina, este ensaio definiu a agenda de pesquisas e discussões posteriores.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Why parents should not be told the sex of their fetus

 
A new technique called non-invasive prenatal testing (NIPT) has been developed, which can detect a range of genetic and chromosomal diseases, as well as fetal sex earlier, more easily and more reliably. NIPT, therefore, potentially expands the market for sex determination and sex selective abortion. This paper argues that both practices should be prevented by not including fetal sex in prenatal test reports. This is because there is a discrepancy between what parents are concerned with (gender) and what the prenatal test can provide (sex). The paper first presents arguments, which indicate a difference between sex and gender before presenting parental motivations for sex selection and sex determination to show that parents are not concerned with their child's sex chromosomes, or even their genitalia, but the gender role that their child will espouse. That, however, is not something that a prenatal test can provide. We are thus left with a situation in which what parents are told, and what they think they are being told, are two different things. In other words, as the conflation of sex with gender is implicit in the disclosure of fetal sex, it may be more accurate to refer to it as misinformation. This misinformation promotes sexism via gender essentialism, which is neither in the interests of the future child nor society. 

Fonte: http://jme.bmj.com/content/early/2016/02/04/medethics-2015-102989.full

publicado no bioética e Fé Cristã em 09/03/16

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Maioridade Penal: reflexões II


"Indiferente a soluções verdadeiras para interromper a vergonhosa taxa anual de 55 mil homicídios, a chamada bancada BBB –Boi, Bíblia e Bala– prossegue sua blitzkrieg retrógrada. Menos de 1% dos assassinatos são cometidos por jovens de 16 e 17 anos. Já os adolescentes representam 36% das vítimas. Basta tais números para perceber a manipulação demagógica do debate da maioridade penal. 

Uma sugestão: em vez de caçar menores, por que não endurecer, por exemplo, as regras de prescrição de delitos de adultos?"

Ricardo Melo, articulista do Jornal Folha de S. Paulo, em crônica intitulada "Retrocesso trabalhista", publicada na página A8 no dia 06/04.15

Redução da maioridade penal: reflexões

"Dentre os 42 deputados que aprovaram na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal o andamento da proposta da redução da maioridade penal, 25 são alvo de inquéritos por crimes eleitorais, porte ilegal de armas, compra de emendas, acusados de integrar a máfia das ambulâncias, de improbidade administrativa, desvio de verba e investigados na Operação Lava Jato."

Paulo Sérgio Pinheiro, ex-secretário de Estado de Direitos Humanos do governo FHC e especialista independente do secretário-geral da ONU sobre violência contra a criança, em carta à redação do jornal Folha de São Paulo, publicada em 06/04/15 na página A5

segunda-feira, 23 de março de 2015

CARTA ABERTA AOS PARLAMENTARES EVANGÉLICOS BRASILEIROS

ORGANIZAÇÕES FILIADAS A RENAS REUNIDAS EM ASSEMBLEIA DIZEM NÃO À REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL E SIM À VIDA PLENA PARA TODAS AS CRIANÇAS, ADOLESCENTES E JOVENS!
“Deus sabe quando neste país os prisioneiros são massacrados sem compaixão. O Deus altíssimo sabe quando são desrespeitados os Direitos Humanos, que Ele mesmo nos deu. Sim, o Senhor sabe quando torcem a justiça num processo”. (Lamentações 3: 34-36, NTLH)
Ao tomar conhecimento do debate na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados ocorrido esta semana em Brasília, as organizações filiadas à RENAS, reunidas em assembleia na cidade do Rio de Janeiro, de 18 a 20 de março, decidiram unanimemente aprovar uma agenda de incidência política junto às igrejas evangélicas brasileiras e aos parlamentares que compõe a CCJC, especialmente os que se declaram evangélicos. Esperamos contar com a sensibilidade dos irmãos deputados na esperança de que este seja um momento de testemunho em favor da vida daqueles que Jesus considerou mais preciosos, as crianças e adolescentes.
Para assinar a petição, clique aqui.
Convidamos parlamentares e comunidades evangélicas a considerarem conosco os seguintes pontos:
1.     A partir dos 12 anos, qualquer adolescente é responsabilizado pelo ato cometido contra a lei. Essa responsabilização, executada por meio de medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), tem o objetivo de ajudá-lo a recomeçar e a prepará-lo para uma vida adulta reconstruída.
2.     O ECA prevê seis medidas educativas: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Recomenda que a medida seja aplicada de acordo com a capacidade de cumpri-la, as circunstâncias do fato e a gravidade da infração. Muitos adolescentes, que são privados de sua liberdade, não ficam em instituições preparadas para sua reeducação, reproduzindo o ambiente de uma prisão comum. E mais: o adolescente pode ficar até 9 anos em medidas socioeducativas, sendo três anos na internação, três em semiliberdade e três em liberdade assistida, com a responsabilidade do Estado de acompanhá-lo e ajudá-lo a se reinserir na sociedade. Não adianta, portanto, endurecer as leis se o próprio Estado não as cumpre!
3.     O Brasil tem a 3ª. maior população carcerária do mundo e um sistema prisional superlotado com mais de 715 mil presos. Só fica atrás em número de presos para os Estados Unidos (2,2 milhões) e a China (1,7 milhões). O sistema penitenciário brasileiro NÃO tem cumprido sua função social de controle, reinserção e reeducação. Assim, enviar os jovens mais cedo para o sistema prisional é decretar a falência de nossa sociedade em prover oportunidades de vida digna para nossa juventude e condenar nosso futuro como nação.
4.     Muitos estudos no campo da criminologia e das ciências sociais têm demonstrado que NÃO HÁ RELAÇÃO direta de causalidade entre a adoção de soluções punitivas e repressivas e a diminuição dos índices de violência. No sentido contrário, no entanto, se observa que são as políticas e ações de natureza social que desempenham um papel importante na redução das taxas de criminalidade. Dados do UNICEF revelam a experiência mal-sucedida dos Estados Unidos, aplicando aos seus adolescentes penas previstas para adultos. Os jovens que cumpriram pena em penitenciárias voltaram a delinquir e de forma mais violenta. O resultado concreto para a sociedade foi o agravamento da violência.
Nossa sociedade e Estado têm negado todos os direitos ao pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes, do nascimento à juventude. Nossos parlamentares e sociedade em geral estaremos sendo hipócritas ao propor a redução da idade penal enquanto não garantimos todas as oportunidades de desenvolvimento para as nossas crianças e adolescentes. A juventude brasileira tem sido a maior vítima da grande violência que ocorre em nossas cidades e não pode ser ainda mais castigada como bodes expiatórios de uma sociedade e Estado negligentes com seus direitos básicos. Conclamamos os parlamentares, especialmente os que se declaram evangélicos, a se posicionarem contra a redução da maioridade penal e se envolverem na efetivação do ECA e do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), cumprindo o nobre papel dessa casa de fiscalizar e cobrar do poder público o orçamento e a efetiva  implementação dos instrumentos que já existem.
Pelos motivos expostos acima e inspirados na vocação profética da igreja conclamamos os parlamentares e comunidades evangélicas a se posicionarem em favor da vida de nossas crianças e adolescentes, pois o Deus da vida enviou seu filho Jesus Cristo para dar vida plena para todas as pessoas, em especial aos mais vulneráveis. Várias autoridades no decorrer da história decretaram a morte dos mais jovens como o faraó no Egito no tempo de Moisés e Herodes no tempo do nascimento de Jesus. Conclamamos a todos vocês a se posicionarem do lado de Jesus e não do Faraó ou de Herodes.
Em nome do Jesus de Nazaré, que teve sua vida ameaçada de morte ainda criança nos despedimos na esperança de que o Espírito Santo os guiará no caminho da vida!
Rio de Janeiro, 20 de Março de 2015.
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A Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) nasceu há mais de 10 anos e congrega instituições sociais de diversas denominações cristãs e organizações baseadas na fé evangélica. Essas organizações desenvolvem ações de promoção humana em todos os aspectos da vida: apoio a crianças e adolescentes em situação de risco ou vítimas da violência física e sexual, recuperação de dependentes químicos, meio ambiente, idosos, entre muitas outras. Recentemente a RENAS e organizações parceiras mobilizaram milhares de pessoas e igrejas nas cidades-sede da Copa do Mundo para atuarem na defesa e proteção das crianças numa campanha conhecida como “Bola na Rede: Entre em campo pelos direitos das crianças e adolescentes”.
Para assinar a petição, clique aqui.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Defensores do Design Inteligente não apoiam ensino da teoria nas escolas

A Sociedade Brasileira do Design Inteligente (TDI-Brasil), instituída durante o 1° Congresso Brasileiro de Design Inteligente, emitiu um manifesto em que declara sua posição atual sobre ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) e da Teoria da Evolução (TE) nas aulas de ciência.

“A TDI-BRASIL declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da TDI nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais”, diz o manifesto.

A sociedade justifica sua posição citando que a academia científica ainda não corroborou totalmente os postulados da TDI e seu ensino.

“Somos acadêmicos e queremos disputar a posição de teoria científica sobre nossas origens não nas escolas, ou nos tribunais - com votos de juízes ou mesmo no Congresso Nacional - com voto de parlamentares, mas na academia, com a avaliação dos acadêmicos. Estamos certos que à medida que os conhecimentos sobre a TDI for expandido, ela sairá vencedora no meio acadêmico”, declarou Marcos Eberlin, presidente da Sociedade Brasileira do Design Inteligente. Eberlin também faz observações quanto ao ensino da Teoria da Evolução: “queremos que se ensine somente ciência em aulas de ciência, e que assim a TE seja ensinada hoje, mas como ela realmente é, com as suas graves deficiências e sem as fraudes e equívocos, além das provas contrárias apresentadas como fatos a favor da TE nas aulas e nos livros".

O 1° Congresso Brasileiro de Design Inteligente aconteceu nos dias 14, 15 e 16 de novembro no hotel The Royal Palm Plaza, em Campinas (São Paulo), e apresentou um ciclo de palestras com os mais diversos aspectos e dados científicos que provam que houve uma mente inteligente na criação e origem do Universo e da Vida.

A Teoria do Design Inteligente
A TDI estuda e analisa os dados científicos mais recentes sobre os eventos que deram origem ao Universo e aos seres vivos, que interpreta como apontando, como padrões de inteligência revelados através da complexidade irredutível, da informação e da antevidência, que produzem as evidências de uma inteligência organizadora. Em seu arcabouço teórico, a TDI reúne metodologia e conhecimentos interdisciplinares de estudos dos seres vivos em nível molecular, e através de inferências baseadas em fatos observáveis, propõe uma reinterpretação da origem da vida.

Leia a íntegra do manifesto da TDI-Brasil:

MANIFESTO PÚBLICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DO DESIGN INTELIGENTE -TDI BRASIL- SOBRE O ENSINO DA TEORIA DA EVOLUÇÃO E DA TEORIA DO DESIGN INTELIGENTE NAS ESCOLAS E UNIVERSIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS

A TDI-BRASIL declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.
Nossa posição se fundamenta na opinião atual da Academia, que ainda não acata em sua maioria a TDI e o seu ensino, posição essa que nós da TDI BRASIL, como acadêmicos, devemos acatar.

Outro fundamento de nossa posição contrária ao ensino da TDI nas escolas é a não existência, no quadro educacional atual, de professores capacitados para corretamente ensinar os postulados da TDI.

Entendemos, porém, que os alunos têm o direito constitucional de ser informados que há uma disputa já instalada na academia entre a teoria da evolução (TE) e a TDI quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens. Inclusive há outras correntes acadêmicas, além da TDI, que hoje questionam a validade da TE oferecendo uma terceira via.

Quanto ao ensino da TE, a TDI BRASIL defende que este ensino seja feito, porém, de uma forma honesta e imparcial, tanto nos livros didáticos quanto na exposição dos professores em salas de aula. Defendemos que sejam eliminados exemplos fraudulentos ou equivocados atualmente presentes em livros didáticos, e que sejam expostas as deficiências graves que a TE apresenta, e que se agravam a cada dia frente às descobertas científicas mais recentes - o que hoje não ocorre.

Quanto ao criacionismo, na sua versão religiosa e filosófica, por causa de seus pressupostos filosóficos e teológicos, entendemos que deva ser ensinado e discutido, junto com as evidências científicas que porventura o corroborem, em aulas de filosofia e teologia, dando a estas disciplinas o seu devido valor no debate sobre as nossas origens.

Informações: assessoria de comunicação da TDI-Brasil.

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/defensores-do-design-inteligente-nao-apoiam-ensino-da-teoria-nas-escolas-1

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Formas de promoção humana: promover pelo ensino

O ensino procura ajudar o necessitado suprindo-lhe a carência, a falta, de conhecimento. Os que não tiveram ensino adequado não sabem usar os instrumentos a sua disposição e também não são capazes de acatar as normas da ordem social, para poder acompanhar a sociedade. Os acomodadores (aqueles que promovem a assistência pelo ensino) entendem que a fome, a doença que está sempre presente (por exemplo, asma, doença de chagas, parasitoses intestinais, malária, dengue, febre amarela, hepatites viróticas, AIDS, hanseníase, tuberculose, etc), a miséria e o abandono são resultados da ignorância e da apatia. E o ensino é o instrumento para reverter a situação.

Os atrasados são aqueles que nunca tiveram escola, aqueles que não terminaram os estudos, os menores explorados (sexualmente ou não), os subempregados, os bóias-frias, os marginais, os prostitutos e prostitutas, os trombadinhas, os índios.

O ensino ocorre das mais variadas formas: cursos profissionalizantes, ensino de atividades específicas (bordado, corte e costura, conceitos básicos de informática), mutirões para melhoria das casas e das condições de vida, alfabetização, educação de jovens adultos são alguns exemplos.

Os acomodadores apoiam, ao final, os valores da sociedade. Não é incomum que eles imaginam estar ofertando meios para que os necessitados façam uma reflexão crítica da sua situação, quando estes, na verdade, desejam apenas se apoderar da ferramenta (o conhecimento que está sendo ministrado) para melhorar as suas condições de vida. Ou seja, se acomodarem em um lugar previamente moldado para ele, que somente poderia ser ocupado se houvesse a educação para isto.

Habitualmente promover pelo ensino acontece através de uma instituição que determina quais são as necessidades dos necessitados, avalia os recursos humanos e financeiros que tem à disposição ("os acomodadores ensinam o caminho a ser percorrido para a conquista de um lugar na sociedade contando com os recursos da sociedade"), estuda as propostas de soluções e seleciona aquela(s) mais adequada(s) para a resposta ao(s) problema(s) encontrado(s). É a instituição que controla todas as etapas do processo, que incentiva, contribui e controla. O sucesso da promoção é percebido pela ascenção social do necessitado.

Promover pela educação dá ao necessitado um instrumento poderoso para se defender e melhorar de vida. Mas como o educador é que tem o controle do saber e do ensinar, este é que ensina como o necessitado deve entender a realidade e as razões pelas quais existem necessitados. A promoção pelo ensino supõe que a sociedade evoluiu de forma satisfatória, e que o que impede a participação de todos é apenas a ignorância. A única alternativa para "subir na vida" é se enquadrando na sociedade. Educa-se para "saber mais para ter mais".

Se a assistência para no ensino, ela tende a promover o individualismo competitivo, próprio da sociedade capitalista agressiva. É esta a visão da Igreja de Cristo?

"O compadecido é assistencialista, pois cria dependência, dando coisas aos necessitados. O acomodador é paternalista, pois dá condições para o necessitado obter as coisas, mas não permite que ele tome sua própria iniciativa."

Postado no Serviço Assistencial Dorcas

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Formas de promoção humana: promover pela assistência

Há diversas formas de promover o desenvolvimento, crescimento, amadurecimento e empoderamento dos seres humanos. Nestas próximas semanas vamos apresentar algumas delas, com suas virtudes e defeitos.

A forma mais antiga e com maior presença na tradição cristã é a promoção do necessitado através da assistência. Ou seja, há um necessitado e um compadecido.

O primeiro é o indigente, o abandonado, o desprezado, o desempregado, o doente, o faminto.

O compadecido entende que promover o necessitado é providenciar recursos financeiros, materiais, sociais e culturais: saúde, abrigo, socorro, alimento, vestuário, habitação, infraestrutura, serviços, consolo. No meio evangélico, o texto do grande julgamento (Mt 25) é um fortalecedor desta visão de promoção humana.

A atuação assistencialista habitualmente ocorre através de uma instituição que trabalha a partir de objetivos explícitos ou implícitos que norteiam a captação e o uso dos recursos. Objetivos e recursos são tão interligados que um influencia o outro. A instituição é a controladora dos recursos, determinando onde e como serão empregados. A instituição também é que escolhe os valores que nortearão a percepção da necessidade.

"Os compadecidos socorrem os necessitados por sentimentos de caridade, de humanismo, de obrigação religiosa, de mitigar sua omissão diante das disparidades sociais etc. Eles dão testemunho de sua fé pelo amor ao próximo, simbolizado pela mão estendida em ajuda ao necessitado...A prática da promoção humana assistencialista reforça os laços que unem a humanidade e ressalta o dever cristão de ser um bom samaritano."

O relacionamento entre o necessitado e o compadecido é unidirecional; o necessitado recebe em função do ter. Aquele que tem, ou controla os meios de ter, dá aquilo que lhe sobra.

Ao lado das virtudes (universalidade de cuidado, real auxílio em situações limites, redução da fome, da miséria, do índice de violência e suicídio, por exemplo) há vícios que não podem ser ignorados.

As estruturas que geram solidão, doença, fome, desemprego, abandono não são enfrentadas. Racionalmente apela-se a Jo 12.8 ("os pobres sempre tereis convosco") para justificar o não enfrentamento destas estruturas.

O compadecido não corre riscos, pode aliviar o sofrimento alheio sossegadamente, e sem aprofundar o diálogo. E ele não é o necessitado, não vivenciou sua história - por mais que ame o necessitado, o compadecido não é um deles, é um estranho!

Racionalmente o compadecido organiza seu pensamento dentro da "certeza" de que a sociedade está no caminho certo, que o desenvolvimento social e econômico reverterá, a longo prazo, as situações que dão à luz o necessitado. É estranho ao evangélico este pensamento, que não se harmoniza com a visão pessimista que as Escrituras têm da sociedade humana corrompida e pecadora...
O poema de Carlos Drummond de Andrade faz pensar:
"A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia contemplam-se. Qual delas falará primeiro? Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra? Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar da goela coletiva e não se exprimem? Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea capital? Por que Brasília resplandece ante a pobreza exposta dos barracos de Ceilândia, em silêncio, as gêmeas criações do bom brasileiro?"
do livro "Promoção humana - princípios e práticas numa perspectiva cristã", de Frances O'Gorman, Edições Paulinas.


publicado originalmente em Serviço Assistencial Dorcas

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A invenção do ’voto evangélico’

Sandro Amadeu Cerveira *

A presença de dois candidatos à Presidência da República, Marina Silva e Pastor Everaldo, em torno dos quais gravitam figuras polêmicas como Silas Malafaia colocou em pauta novamente o chamado “voto evangélico”. Essa expressão parece ser capaz de ativar uma série de imagens, sentimentos, conceitos e preconceitos, muitos deles contraditórios. Se para alguns o termo “evangélico” já é incômodo, o “voto evangélico” então pode causar arrepios, náuseas, urticárias e outras reações. Mas, afinal de contas, existe mesmo um “voto evangélico”? Esse “voto” possui as características que lhe atribuem? Em meio a tantas falas e estudos qualificados há algo ainda a ser dito?

A abordagem talvez mais comum sequer questiona a existência de um voto evangélico. Ele é dado. Existem evangélicos, eles votam em outros evangélicos (ou em quem seus pastores mandarem) e os eleitos agem sempre de forma coerente com o “ser evangélico”.  A chamada  “bancada evangélica” é a prova irrefutável deste “fato”.  Há ainda outra certeza. O não avanço das pautas relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos, assim como de outros direitos humanos, é culpa dos eleitores evangélicos.  São eles em sua sanha moralista e teocrática que ameaçam a democracia com o retorno ao obscurantismo.
De outro lado há quem afirme que os “evangélicos” sequer existem.  O argumento neste caso é de que a pluralidade dos chamados evangélicos é tão grande que é virtualmente impossível falar em “evangélicos”.  Afinal que afinidade existe entre um presbiteriano e um assembleiano? Entre um membro crismado da Igreja Evangélica Cristã Luterana no Brasil (IECLB) e um frequentador da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd)? Se não existem os “evangélicos”, podemos supor que tampouco exista o  “voto evangélico”. As pesquisas que apontam para a correlação entre autoidentificação religiosa e a preferência por um ou outro candidato (ou mesmo a afinidade com pautas conservadoras) seriam correlações espúrias. Mera coincidência ou acaso.
O bom senso nos recomenda desconfiar desses polos (caricatos) que apresentei. Tratar o “voto evangélico” ou mesmo os “evangélicos” como um bloco efetivamente desconsidera a grande pluralidade que existe entre os que assim se definem. Essa abordagem também parece ignorar que a religião é somente uma das dimensões da vida de uma pessoa, entre tantas outras. Pesquisas indicam que o fato de o “evangélico” ser homem ou mulher, rico ou pobre, nordestino ou gaúcho, analfabeto ou pós-graduado pode fazer muita diferença em uma série de questões.

Apenas para ilustrar, observemos os dados pesquisa Datafolha publicada em 29 de agosto. Segundo esse levantamento, 38% dos eleitores que se dizem católicos votariam em Dilma, enquanto “apenas” 30% dos evangélicos votam na candidata petista. Quando se trata de Marina os números se invertem: 41% dos evangélicos pentecostais votam em Marina e somente 30% dos católicos na candidata do PSB. Conclusão? Há um “voto evangélico” em Marina. Mesmo? Que “voto evangélico” é este se quase 60% dos evangélicos NÃO votam em Marina?

Por outro lado, afirmar que os evangélicos simplesmente “não existem”, em virtude das grandes diferenças internas às denominações de matriz protestante é também um equívoco. A heterogeneidade dos grupos e fenômenos sociais não nos exime do esforço de conceituação e generalização. Estas estratégias/ferramentas são importantes no desafio de pensar o mundo multifacetado e multicondicionado que nos cerca. O conhecido sociólogo Max Weber já alertava que um “tipo ideal” não existe no “mundo real”, mas eles podem ser úteis para operar e pensar a realidade. Para além da questão metodológica, a Frente Parlamentar Evangélica existe e, a menos que analistas e políticos estejam redondamente enganados, sua existência se deve (ainda que parcialmente) à concentração de votos de evangélicos em candidatos que assim também se apresentam.

Agradecido pela paciência do leitor até aqui, chego a minha tentativa de dizer algo sobre o assunto. O que chamamos de “voto evangélico” existe sim, mas ele é uma “invenção”. Como dito antes, ser evangélico (católico, espírita sem religião etc.) não é a única dimensão da identidade de uma pessoa que pode ser mobilizada politicamente. Quem trabalha ou estuda marketing político sabe que boa parte do esforço dos partidos e candidatos se concentra precisamente em tentar ativar, entre as muitas dimensões importantes em nossas vidas, aquela que lhes é mais favorável. Criar uma “conexão eleitoral” para criar uma base eleitoral. Embora os eleitores não sejam passivos nesse processo, o protagonismo é, via de regra, dos candidatos.

Até as eleições para o último Congresso Constituinte a presença de evangélicos na política pouco ou nada tinha a ver com um “voto evangélico”. O discurso predominante era de que “crente não se mete em política”. Os eventuais sucessos de candidatos evangélicos nas urnas raramente contou com a bênção de suas igrejas. Em 1986, algo mudou. O número de deputados evangélicos saltou de 12 para 32, sendo que a maioria (18) agora eram oriundos de igrejas pentecostais. A estratégia de lançar “candidaturas oficiais”, legitimadas pela pregação de que “Irmão vota em Irmão” foi parte da estratégia de algumas igrejas no sentido de criar, ou para usar meu termo provocativo, “inventar” os eleitores para esses candidatos. Os estudiosos das estratégias usadas pelos parlamentares na busca pela reeleição apontam que a “sinalização” de temas ou ideias é uma das principais estratégias usadas por políticos cuja votação não está geograficamente concentrada. São necessários estudos mais detalhados sobre o sucesso dos  políticos evangélicos em suas tentativas de reeleição, mas, ao que parece, aqueles que têm conseguido o aporte de recursos (simbólicos e materiais) das igrejas em suas campanhas e obtido maior visibilidade durante seus mandatos em temas importantes para os que se identificam como evangélicos vêm sendo os mais bem-sucedidos.

Um das estratégias utilizadas na construção de uma base eleitoral (não apenas dos evangélicos) é justamente a simplificação e a redução de temas complexos a frases de efeito e jargões carregados emocionalmente, não raro marcados pela chave “amigo-inimigo”. Um candidato evangélico típico bem-sucedido será então aquele que convencer um número suficiente de evangélicos de que devem votar nele por representar não tanto os interesses, mas seus valores e crenças na arena política. Como as crenças e valores adotados pelos “evangélicos” variam muito, é preciso recorrer a termos genéricos, carregados emocionalmente e familiares ao contexto linguístico do grupo fortalecendo a sensação de pertencimento. Termos como “governo dos justos”, “ditadura gay”, “abortistas” ativam esperanças, medos e ódios bastante poderosos que podem virar votos.
É claro que as estratégias das igrejas e dos políticos para criar o “voto evangélico” não seriam eficazes se todo seu discurso não fizesse sentido para pelo menos parte dos fiéis eleitores. De qualquer forma, se votar como evangélico não é algo dado ou “natural”, precisamos nos debruçar sobre seus efeitos, e não apenas sobre o sistema político. Questões como distorções na representação ou mesmo a defesa de pautas contrárias a direitos de minorias são os exemplos mais conhecidos. Por outro lado, o próprio campo evangélico pode estar sendo “colonizado” pela lógica e pelos interesses dos políticos evangélicos em detrimento de sua dimensão propriamente religiosa.

* Teólogo, historiador e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o autor é professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), em Minas Gerais.

fonte original:  http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/a-invencao-do-%E2%80%99voto-evangelico%E2%80%99/

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Silas Malafaia, Israel e o direito de matar



Por Hermes C. Fernandes

Acabei de assistir ao pronunciamento do pastor Silas Malafaia acerca do conflito "Israel e Palestinos" e coincidentemente tratei do mesmo assunto no culto de ontem em nossa igreja. Apesar do meu amigo Danilo Fernandes, editor do Genizah, concordar 100% com o líder da AVEC, gostaria de apresentar as razões que me fazem discordar de seu posicionamento.
Silas faz coro com boa parte dos líderes evangélicos brasileiros, que por sua vez, estão afinados com o diapazão ideológico americano. 
A primeira coisa que me chamou a atenção na defesa que Silas faz dos ataques de Israel à faixa de Gaza foi dizer que, numa guerra, nenhuma reação é proporcional à ação. Portanto, Israel teria razão em lançar mísseis em escolas palestinas matando crianças inocentes para vingar a morte de três adolescentes judeus mortos por militantes do Hamas. Ora, se Israel se mantivesse fiel aos princípios esboçados na Lei do Senhor, saberia que um dos seus mandamentos diz respeito à proporcionalidade de nossas reações (olho por olho, dente por dente). E mais: um discípulo de Jesus jamais defenderia qualquer reação, uma vez que seu Mestre ensinou a amar a seus inimigos e oferecer-lhes a outra face. Partindo do argumento usado por Silas, o ataque dos EUA a Nagazaki e Hiroshima em reação ao ataque japonês a Pearl Harbor foi totalmente justificável. Enquanto 2403 pessoas morreram na base americana de Pearl Harbor, 220 mil pessoas morreram nas duas cidades japonesas (quase cem vezes mais!). Quantas crianças palestinas terão que morrer para vingar a morte dos três adolescentes judeus?
Porém, o que mais me incomodou em seu discurso pró-Israel foi a interpretação teológica dada ao fato e à posição supostamente privilegiada de Israel. 
De fato, Deus fez uma promessa a Abraão de que toda aquela terra seria dada à sua descendência (Gn.13:14-15). Esta mesma promessa foi confirmada a Isaque e a Jacó (Gn.26:2-24; 28:12-14). Todavia, Deus estabeleceu condições para que seus descendentes tivessem o direito de posse da terra. Se não as cumprissem, a terra os vomitaria e eles seriam espalhados entre as nações (Lv.20:22; 26:14-15, 27-28, 32-33). Portanto, a Diáspora Judaica nada mais é do que o cumprimento das sanções impostas por Deus a Israel, se seu povo não guardasse os seus mandamentos. Ainda mais grave do que rejeitar a Lei do seu Deus, os judeus também rejeitaram o Messias prometido. Portanto, a aliança entre Deus e eles foi quebrada. 
Entretanto, há promessas bíblicas de que Israel retornaria à sua terra. E com base nessas promessas, surgiu o movimento sionista. Sionismo é um movimento político e filosófico que defende a existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel. O sionismo é também chamado de nacionalismo judaico e historicamente propõe a erradicação da Diáspora Judaica, com o retorno da totalidade dos judeus ao atual Estado de Israel.  O termo "sionismo" é derivado da palavra  “Sião”, nome de uma das colinas que cercam a chamada Terra Santa. Durante o reinado de Davi, Sião se tornou sinônimo de Jerusalém. Em inúmeras passagens bíblicas, os israelitas são chamados de "filhos (ou filhas) de Sião".
O que este movimento parece ignorar é que para que Israel retornasse à sua terra, algumas condições precisariam ser preenchidas. Dentre elas, a mais importante é a conversão dos judeus.
“Porque, em vos convertendo ao Senhor, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos, e tornarão a esta terra; porque o Senhor vosso Deus é misericordioso e compassivo, e não desviará de vós o seu rosto, se vos converterdes a ele.” 2 Crônicas 30:9
Portanto, o atual Estado de Israel, fruto de um arranjamento político da ONU, nada tem a ver com o cumprimento da promessa de Deus de que seu povo retornaria à sua terra. E a prova disso é que não houve conversão. E converter-se a Deus é acolher a única oferta de salvação possível: JESUS CRISTO. Por isso os apóstolos eram tão enfáticos ao testificar que "tanto a judeus como a gregos devem converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus" (At.20:21). À parte de Cristo, todo judeu está tão perdido quanto qualquer gentio. 
Paulo diz que eles eram os ramos naturais da oliveira (Abraão), mas devido à sua incredulidade e desobediência, foram quebrados e em seu lugar, nós, os que cremos dentre os gentios, fomos enxertados. Até que se convertam ao evangelho, eles são judeus apenas na carne, mas não na fé que teve seu patriarca. A igreja é, por assim dizer, a continuação do verdadeiro Israel. A árvore é a mesma, os ramos que foram substituídos. 
Ademais, a promessa de que os judeus retornariam à sua terra foi cumprida quando deixaram o cativeiro babilônico e voltaram para Jerusalém nos dias de Esdras e Neemias. Porém, por terem se mantido rebeldes, foram mais uma vez espalhados pelo mundo quando Jerusalém foi destruída pelo exército romano no ano 70 d.C. sob o comando de Tito.
A aliança feita com Abraão não caducou, mas foi devidamente cumprida em Jesus, seu Descendente (Gl.3:16). E os que são de Cristo são os verdadeiros descendentes de Abraão (Gl.3:29). De acordo com o próprio Jesus, o reino foi tirado dos judeus e entregue a outro povo, a saber, a Sua igreja, reunião de judeus e gentios que creem em Seu nome (Mt.21:43). 
E mesmo que Israel continuasse a ser o povo da aliança, conforme cre Silas, isso não lhe daria o direito de agir da maneira como tem agido, tirando a vida de milhares de civis inocentes. Deus não lhes deu o direito de matar. Nem a eles, nem ao Hamas, nem aos palestinos, nem aos EUA, nem a quem quer que seja. 
Ainda segundo o pastor Silas, quem se levanta contra a política Israelense corre o risco de ser amaldiçoado por Deus. Ora, ora... A bênção de Abraão a que ele se refere (abençoarei aos que te abençoarem e amaldiçoarei aos que te amaldiçoarem) está sobre seus verdadeiros descendentes, aqueles que seguem suas pegadas de fé, recebendo a oferta de salvação feita em Cristo Jesus. E por favor, não confundam isso com antissemitismo. Faço coro com Paulo que diz que seu desejo era que seus compatriotas fossem salvos. Amo os judeus. Como também amo os palestinos. Oro por Jerusalém. Como também oro por Gaza. E não é porque desejo prosperar, mas pelo simples fato de amar ao que Ele igualmente ama. Porém, este amor não me faz cego ante as arbitrariedades cometidas pelo Estado Israelense. 
Se Israel tem o direito de existir como Estado, os palestinos também tem o mesmo direito. Só haverá paz consistente e verdadeira quando houver justiça. E só haverá justiça quando houver amor. O salmista diz poética e profeticamente que a misericórdia e a verdade devem se encontrar e a justiça e a paz devem se beijar (Sl.85:10). Sem que isso aconteça, o máximo que teremos são tréguas momentaneas, seguidas de conflitos ainda mais severos. 
A questão é: quem será o cupido que promoverá este encontro? Em que cenário se dará o tal beijo? Será no jardim da Casa Branca? Ou quem sabe no pátio do Templo de Salomão... Não! A paz deve ser selada na ambiência do coração. E o cupido que deve promover o encontro não é algum presidente americano, mas ninguém menos que a igreja de Cristo. 
A igreja deve agir como agência reconciliadora entre os povos, e para tal, não pode posicionar-se ao lado de uns contra outros, como fez o meu colega Silas. Deus nos confiou o ministério da reconciliação (2 Co.5:18-19; Ef.2:14-16). Em vez de alimentar discórdias, devemos nos posicionar pela justiça, pela verdade e pela paz. 
Não ouso questionar a sinceridade de Silas, pois reconheço que seu discurso é eco do que tem sido ensinado à igreja desde o surgimento da teologia dispensacionalista. Porém, recuso-me a ficar calado, consentindo com os equívocos desta teologia. 
Que assim como Jesus, que caminhou por Jerusalém durante os dias em que Israel estava sob a tirania romana, preguemos o dever de se oferecer a outra face em vez de o direito de revidar ao ataque dos inimigos.

fonte original: http://www.hermesfernandes.com/2014/08/silas-malafaia-israel-e-o-direito-de.html

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Um Nobel da Paz que serviu a Deus

Albert Schweitzer foi um dos mais consumados polímatas de sua geração. Nascido em 1875, na Alsácia-Lorena, obteve doutorados em filosofia, teologia e música, escreveu uma importante biografia de Johann Sebastian Bach e um livro revolucionário sobre a vida de Jesus, e também conseguiu ser um dos mais exímios organistas da Europa.


Schweitzer realizou a maior parte dessas coisas na casa dos vinte anos. Aos trinta, porém, optou por uma grande mudança de rumo, abdicando da música e de uma brilhante carreira acadêmica para fazer um novo curso, dessa vez de medicina. Em 1913 ele partiu para a África Equatorial francesa, onde fundou um hospital para leprosos, e em 1952 recebeu o prêmio Nobel da Paz por décadas de trabalho médico pioneiro na selva africana. Schweitzer foi motivado pelo desejo de prestar serviço e contribuir para o que chamou de “a grande tarefa humanitária” de levar o conhecimento médico às colônias. Ele se sentia no dever, na obrigação, de trabalhar em benefício dos outros, “mesmo que seja uma coisa pequena”, disse, “faça algo por aqueles que precisam de ajuda humana, algo pelo que você não obtenha nenhuma paga a não ser o privilégio de fazê-lo.”1

O caminho clássico para uma carreira dedicada a um propósito é trabalhar por uma causa que encarne nossos valores, algo que transcenda nossos próprios desejos e faça uma diferença para outras pessoas ou o mundo à nossa volta. O serviço, um dos motivadores mais poderosos na história do Ocidente, está enraizado na ideia medieval cristã de servir a Deus mediante boas obras. Os primeiros hospitais da Europa, que começaram a aparecer em cidades como Paris, Florença e Londres, no século XII, eram fundações religiosas criadas para servir tanto aos indigentes e doentes quanto a Deus – atitude que se reflete no antigo termo francês para hospital, hôtel-Dieu, “albergue de Deus”. Por volta do mesmo período, ordens cristãs fundadas pelos cruzados, como os cavaleiros de São João de Jerusalém e os cavaleiros templários – mais conhecidas por sua matança de incréus -, também construíram hospitais por todos os países mediterrâneos e de língua alemã como forma de serviço sagrado.2

Albert Schweitzer foi impulsionado por essa ética cristã de serviço, tal como os fundadores da moderna profissão da enfermagem no século XIX, como Florence Nightingale e Clara Barton. No século XX, o ideal de prestar serviço espalhou-se além das fronteiras religiosas, de modo que aqueles que trabalham hoje no serviço público – seja como trabalhadores sociais na linha de frente, seja como estatísticos nas secretarias de educação – muitas vezes o fazem não apenas porque talvez lhes seja oferecida uma renda estável ou perspectivas de promoção, mas por sentirem que seu trabalho contribui para o bem público.

Roman Krznaric: Sobre a Arte de Viver – lições da história para uma vida melhor (Zahar)

Notas:
1. Schweitzer, 1949, p. 3.
2. Porter, 1997, p. 113.
Foto: Special Collections Research Center, Syracuse University Librar

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Carta de um homossexual ao seu pastor


Eduardo Ribeiro Mundim

(esta carta, como a anterior, é fictícia)

Amado Irmão Nicodemus.

Obrigado pela sua correspondência. Antes de tudo, ela é demonstração do seu interesse genuíno por mim. E como tenho sentido falta de amizades verdadeiras e puro amor cristão!

Lembro-me como se fosse hoje o dia da minha conversão. Colocar em palavras a multidão de sentimentos é impossível: ordená-los em ordem de importância seria colocar um como superior ao outro, e não foi assim a experiência. Afirmo, sem medo de errar, que minha vida transformou-se por completo. Nunca pensei que conseguiria ter bons pensamentos e desejar o bem para tantas pessoas que me prejudicaram no passado! Mas num piscar de olhos todo ressentimento, todo ódio, foi lavado como que por uma forte enxurrada. Nunca pensei que passaria a me preocupar com o bem-estar do meu próximo; que sua alegria seria a minha alegria! Nunca pensei que ser ético nas relações sociais e comerciais fosse tão espontâneo! Nem tenho que fazer força para fazer o certo e recusar o errado!

Mas mais importante foi a descoberta de que meus pecados estão perdoados; de que Cristo os cravou na cruz, tornando-me legalmente justo (ainda que permanentemente pecador). Sim, que coisa maravilhosa é a convicção de que nossos pecados estão perdoados. Que certeza gloriosa é o testemunho do Espírito com o meu de que sou Seu filho. Graças a Deus!

Houve algum erro quando minhas angústias atuais chegaram aos seus ouvidos. Não tenho desejo por outros homens! Esta fase da minha vida, de promiscuidade, saunas gays, programas, está, graças ao nosso Pai, enterrada. Dela fui liberto pelo Seu precioso sangue!

A terrível angústia que me assombra é a percepção de que, apesar de todo amor da minha esposa, e dos frutos de nossa união, o interesse sexual mingou. Não foi por uma briga, uma desavença. Gradativamente fui percebendo que (nossa, esta percepção está me matando) eu mentia para ela quando dizia que a desejava. E a maior prova disto é a disfunção erétil que se torna cada vez mais frequente. De comum acordo tenho usado a “pílula azul” (na minha idade!). E cada vez que conseguimos ter uma relação sinto que a traio, ou que voltei à época dos programas sexuais. Isto eu não tive coragem de compartilhar com ela – ela não merece!!! Mas o que lhe escrevo, contando com seu eterno segredo, é a pura verdade.

Revi minha história tentando encontrar respostas. Sabe por que mudamos de igreja? Porque naquela onde minha conversão foi publicamente manifestada o pastor me usou para alavancar seu ministério e ganhar alguns pontos na hierarquia da denominação. Quantas vezes ele me chamou para dar meu testemunho! Confesso, envergonhado, de ter pedido perdão a Jesus por tê-lo feito algumas vezes de modo mecânico.

Quando conheci minha esposa, e começamos a namorar, fui sutilmente (às vezes acho que nem foi tão sutil assim) pressionado a demonstrar minha completa mudança de vida deixando a homossexualidade de lado. Não bastava deixar a promiscuidade, a imoralidade, a prostituição – a homossexualidade tinha que acabar. Se assim não fosse, minha conversão não seria genuína!

Novo na fé, consegui escapar do falso pastor e da sua comunidade doente, mas a mensagem permaneceu como marca feita com ferro em brasa.

Quando chegamos na nossa igreja, fomos muito bem recebidos, graças a Deus. Pouquíssimas pessoas sabem do meu passado, e todas são discretíssimas. Meu pastor nunca me usou, nem chamou-me para dar testemunho. Discipulou-me em amor, tornando-me, ao final, como você sabe, professor da escola dominical. Casamos e tivemos filhos.

A companhia da minha esposa é especial, e adoro estar ao seu lado. Compartilhamos sonhos, nos apoiamos nas nossas desilusões, fortalecemos nossos filhos. Mas – e tenho tomado consciência disto de modo gradual e com grande dor – como amigos, não como marido e mulher.

Verdadeiramente sonho com um companheiro que tenha as características dela. Não o encontrei, nem o procurei. Mas é a mais pura verdade que este é o desejo do fundo do meu coração.

Sei que temos que cultivar os frutos do Espírito, e que não devemos satisfazer os desejos imundos da carne. Sei que é com esforço que vamos sendo santificados, onde a minha decisão de resistir à tentação (e foi boa sua explicação do tema, pois é da forma que ensinou a diferença entre tentação e pecado que tenho direcionado também minha vida espiritual) faz parte do processo de crescimento em graça. Sei que a eleição é irrevogável, e que a graça é irresistível – afinal, foi isto que experimentei em minha vida.

O ensino de Paulo aos romanos sobre Deus ter entregue aqueles que não O reconhecem como Deus e Senhor a paixões infames, cometendo “torpezas uns com os outros” me pesa no coração. É a única passagem das Escrituras que levanta alguma dúvida sobre a certeza que tem crescido dentro de mim: sou homossexual não por escolha, mas o sou. Talvez por contingências da vida (os cientistas não chegam a uma conclusão e as exposições e teorias deles são tão desprovidas de evidências decentes que dá dó).

Divaguei um tempo sobre os frutos do Espírito e da carne. Aí vi o presbítero X (vamos deixar os nomes de lado), com seus 120 kg distribuídos nos seus 160 cm de altura. Não é a glutonaria um pecado? Não é a obesidade resultante do comer em excesso, desnecessariamente? Não está o seu pecado, então, evidente aos olhos de todos?

A Sra. Y está em tratamento para cleptomania, sabia? Novamente, conto com seu silêncio pastoral, pois disto fiquei sabendo por acaso e não desejo causar-lhe mal algum. Mas cito este segredo porque roubo contumaz é pecado. E as Escrituras não dizem que glutonaria ou roubo ou imoralidade sexual ou o que for não são pecados se forem consideradas doenças!

Neste ponto, até que gostaria que a ciência considerasse a homossexualidade uma doença. Alguns conflitos meus seriam resolvidos.

Mas como é natural para o Sr. X comer, é natural para mim desejar um companheiro, para formarmos um casal monogâmico e fiel.

Neste momento, estou entre a cruz e a espada, entre a panela e o fogo. Não sou honesto perante meu Senhor e Salvador Jesus se lhe escondo tudo isto; estou sem coragem de terminar meu casamento – é a atitude correta, pois estou permanentemente cometendo o pecado da mentira com minha esposa.

Repito, para não deixar dúvida no seu espírito: não estou apaixonado por ninguém. Se estivesse, encontraria forças extras.

Hoje vejo que a atitude correta seria deixá-la discretamente, afastar-me da escola dominical e procurar uma comunidade de cristãos onde ser homossexual não fosse motivo de orgulho, como não é o ser heterossexual; onde o centro da pregação seja a cruz e a ressurreição, e não a situação sexual; onde todos possam dizer “Senhor Jesus me chego a ti. Tua ira santa mereci. Oh, dá-me alívio mesmo aqui. Aceita um pecador. Eu venho como estou” (nunca esqueci este hino, cantado no dia da minha conversão); onde possa ter uma união abençoada se o Pai o permitir, ou viver celibatariamente em paz, sem pressão.

Sinto que esta conversa, com qualquer outra pessoa, causaria repulsa e escândalo. Mas conto com sua amizade e vocação pastoral para não me deixar só, falando e meditando, e sofrendo, sozinho. Um ou outro irmão já o fizeram quando a conversa não era pessoal, mas um “caso hipotético”, uma discussão sobre o homossexual na igreja.

Em Cristo, grato pela sua amizade

Sandro

Carta a um ex-gay tentado a voltar atrás

(A carta é fictícia, bem como as personagens aqui mencionadas)

Meu caro Sandro,

Espero que esta o encontre bem, com muita saúde e alegria em todas as coisas.

Soube pelo seu pastor que você está pensando em desistir da fé e sair da igreja porque, passados já cinco anos que você recebeu Jesus como seu Senhor e Salvador, você continua a sentir desejos homossexuais e atração por homens. Ele me disse também que sua esposa, a Rita, tem sofrido muito com tudo isto, muito embora você tenha sido bastante honesto com ela e não tenha, em nenhum momento, sido infiel no casamento.

Seu pastor, que foi meu aluno no seminário teológico, me pediu para escrever para você, especialmente pelo fato de que fui eu quem lhe ajudou nos primeiros dias depois da sua experiência de conversão. Espero que esta carta seja usada por Deus para ajudar você neste momento difícil.

Sei que você ficou ainda mais confuso por causa do alarde da imprensa sobre um projeto que os ativistas gays apelidaram de “cura gay”. A verdade dos fatos é que esta designação irônica é a reação deles ao Projeto de Decreto Legislativo 234/11 do deputado João Campos, do PSDB, que suspende dois itens da resolução do Conselho Federal de Psicologia que proibiam psicólogos de atender pacientes que buscassem ajuda para se libertar dos impulsos e desejos homossexuais. O projeto 234 foi aprovado recentemente na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de Deputados. Os ativistas gays apelidaram o projeto 234 de "cura gay", uma designação irônica e maliciosa, pois o projeto não é sobre isto. Ele apenas restabelece o direito dos pacientes de pedirem ajuda e dos psicólogos de ajudarem e não usa o termo "cura". Se você quiser mais detalhes sobre os fatos, recomendo o artigo de Reinaldo Azevedo sobre o assunto.

Mas minha carta não é sobre os fatos acima mencionados, mas sobre a crise que você está passando com estes desejos homossexuais, mesmo sendo um crente em Jesus Cristo. Você se lembra que eu lhe alertei para o fato de que crer em Jesus como Senhor e Salvador não significaria a imediata libertação de todas as consequências espirituais, psicológicas e mentais dos anos em que você viveu como homossexual praticante. O pecado deixa profundas cicatrizes em nossas vidas, marca a ferro e fogo nossa consciência com imagens, impressões, experiências, gostos e desejos, que levam muitos anos para serem vencidos.

Seu pastor me falou que você vinha lendo material de determinados autores que afirmam que homossexuais, uma vez convertidos, se tornam completamente libertados não somente da prática de relações com pessoas do mesmo sexo como também da atração por pessoas do mesmo sexo. Sandro, não duvido que em alguns casos isto possa acontecer. Sei que há casos concretos de pessoas que viviam na homossexualidade e que, depois da conversão a Jesus Cristo, libertaram-se inclusive da atração por pessoas do mesmo sexo. Todavia, isto nem sempre é o que acontece, como, infelizmente, é o seu caso. Você precisa entender, contudo, que a continuidade de desejos homossexuais depois de uma legítima conversão não significa necessariamente uma derrota e nem que Deus falhou com você.

Acho que você está esquecendo um ponto básico da doutrina cristã, que é a diferença entre pecado e tentação. A atração por pessoas do mesmo sexo é diferente da prática de relações sexuais entre elas. A primeira é uma tentação, a segunda é pecado. Tentação e pecado são duas coisas diferentes. Sandro, eu tenho um coração corrompido pelo pecado, a minha natureza é pecaminosa a despeito da minha justificação pela fé em Cristo e da presença do Espírito de Deus em mim. Diariamente, do meu coração corrompido procedem desejos, intenções, reações e pensamentos carnais e pecaminosos. Associado a isto, há as tentações externas trazidas pelo mundo, pelas pessoas e por Satanás.

Diariamente homens cristãos casados se sentem tentados a olhar uma segunda vez para mulheres que não são sua esposa e se sentem tentados a imaginar e desejar ter relações com elas. Todavia, ser tentado a fazer isto não é a mesma coisa que fantasiar estas relações ou tê-las na prática. Diariamente cristãos verdadeiros reprimem estes desejos, dizem não a estes pensamentos e evitam a segunda olhada. Pensam na esposa, nos filhos e particularmente em Deus, que odeia e abomina o adultério, e no Senhor Jesus que morreu exatamente por causa destes pecados. Cada dia em que resistem a estes impulsos e vontades é um dia de vitória e de libertação.

Caro Sandro, creio que o mesmo pode se aplicar a outras vontades pecaminosas, como desejos homossexuais, desejos de machucar outras pessoas, a cobiça por coisas... a lista é grande. A conversão a Cristo não significa a expulsão do pecado aqui e agora do nosso coração. É isto que você precisa entender.

Mas agora me deixe voltar a um daqueles estudos bíblicos que lhe passei no início do discipulado e que, pelo jeito, você esqueceu. Lembre que o processo estabelecido por Deus para libertar pessoas do pecado é realizado por ele em três etapas que acontecem em sequência e nesta ordem. Na primeira, Deus nos liberta da culpa do pecado - justificação. Na segunda, do poder do pecado - santificação; e na terceira, da presença do pecado em nós - glorificação. Lembra do quadro que desenhei para você naquele domingo?

Libertação da:Designação Quando: Como:
Culpa do pecadoJustificaçãoPassadoAto único realizado uma única vez
Poder do pecadoSantificaçãoPresente Processo incompleto e imperfeito
Presença do pecadoGlorificaçãoFuturoAto único realizado de uma vez para sempre

Só recordando: a primeira etapa, a libertação da culpa do pecado, é a justificação, que é um ato de Deus, único e pontual, no qual ele nos considera justos diante dele mesmo, com base nos méritos de Cristo. Corresponde, na nossa experiência, à conversão, arrependimento e fé. É um ato legal de Deus feito de uma vez para sempre e é a base das etapas seguintes. Foi o que aconteceu com você naquele dia que você, arrependido e quebrantado por seus pecados, voltou-se para Cristo em fé suplicando o seu perdão.

A etapa seguinte é libertação do poder do pecado. Trata-se da santificação, que é um processo que se inicia imediatamente depois da justificação e que dura nossa vida toda. Ele consiste, não na erradicação do pecado e de nossa natureza decaída, mas em mortificar esta natureza, dominá-la, subjugá-la e mantê-la sob controle. Essa é a etapa do processo de salvação que você está vivendo agora. Lembra da ênfase que dei à necessidade de usar os meios de graça como oração, meditação e comunhão com outros irmãos em Cristo? Lembra que oramos para que o Espírito de Deus produzisse diariamente em você o fruto do domínio próprio? Sandro, neste processo há uma luta constante, ferrenha e interminável que você tem que travar contra o pecado que habita em você, contra as tentações de Satanás e do mundo. Todavia, esta luta em si não é pecado. Ser tentado não é pecado. Sentir desejos pecaminosos, vontade de fazer o mal, disposição para o que é errado, estas coisas vão nos acompanhar todos os dias de nossa vida e não são pecado – a não ser que cedamos a elas. A vitória consiste em dizer "não" a todas elas, diariamente, todos os dias de nossa vida, pelo poder do Espírito.

A terceira etapa que lhe falei é a glorificação, quando ocorrerá a libertação da presença do pecado em nós. Ela ocorrerá quando morrermos ou se estivermos vivos quando da vinda do Senhor Jesus. Haverá a ressurreição dos mortos e a transformação dos crentes que estiverem vivos. Todos os filhos de Deus serão transformados para serem como o Senhor Jesus, num corpo glorificado e sem pecado, glorioso, imortal e incorruptível, com o qual os filhos de Deus viverão eternamente no novo céu e na nova terra onde habita a justiça. Só então, Sandro, você e eu seremos finalmente livres dos desejos carnais que habitam em nosso coração.

Deus não prometeu que você ficaria livre de toda tentação e de todos os desejos a partir do momento que você cresse em Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Você foi perdoado e justificado de seus pecados – inclusive do pecado do homossexualismo. Mas isto representou apenas o início do seu processo de libertação do poder do pecado que habita em você, processo este que é incompleto e imperfeito nesta vida, embora bastante real. Você precisa aprender a lutar e a dominar todos os seus desejos pecaminosos, inclusive o desejo de ter relações com pessoas do mesmo sexo, da mesma forma que os crentes heterossexuais lutam e dominam seus desejos de prostituição, fornicação, adultério, impureza e pornografia.

No seu caso, após a conversão você recobrou a atração pelo sexo oposto, casou com a Rita e tiveram dois filhos. Mas isto nunca significou que você ficaria livre da tentação pelo mesmo sexo, como você está sendo tentado agora. Outros, não conseguiram casar e optaram por viver solteiros, no celibato, sem relações sexuais com qualquer pessoa. Resolveram renunciar a tudo para se manterem fiéis a Cristo que disse que o caminho é estreito e a porta é apertada. Em qualquer situação, Sandro, a vitória consiste em resistir ao desejo e seguir o caminho da obediência, que é a mesma coisa para os heterossexuais.

Acredito que você está desanimado desnecessariamente, pois de alguma forma foi levado a pensar que a conversão lhe libertaria completamente dos desejos que você tinha antes de conhecer a Jesus Cristo. Espero que esta carta seja útil para trazer verdadeira libertação.

Por favor, não interprete minha carta erroneamente. Não estou limitando o poder de Deus ou dando brecha para que você volte aos seus antigos pecados com a consciência tranquila. Como eu disse, as relações homossexuais, na prática ou nas fantasias eróticas de quem se masturba diante de um computador, são pecado e iniquidade. Ser tentado a fazer isto não é. Portanto, fique firme, continue a praticar as disciplinas e exercícios espirituais, continue a conversar com a Rita e a abrir seu coração para ela e a ver seu pastor regularmente. Conte comigo em tudo que precisar. Acima de tudo, não desista, pois Deus nunca nos prometeu uma viagem tranquila, somente uma chegada certa.

Termino declarando a minha mais completa confiança na veracidade destas promessas bíblicas, que deixo para sua meditação:

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14)

“Porque, quando éreis escravos do pecado, estáveis isentos em relação à justiça. Naquele tempo, que resultados colhestes? Somente as coisas de que, agora, vos envergonhais; porque o fim delas é morte. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna; porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. (Rm 6.20-23)

Do seu irmão e amigo,

Augustus

publicado em http://www.ultimato.com.br/conteudo/carta-a-um-ex-gay-tentado-a-voltar-atras

ver resposta em http://crerpensar.blogspot.com.br/2014/06/carta-de-um-homossexual-ao-seu-pastor.html