Crer não é sinônimo de não pensar. Crer implica em pensar, em relacionar fé com a realidade, questionando uma a partir da outra. O conteúdo são pensamentos às vezes rápidos, em elaboração; outros, já mais elaborados. Ambos buscando provocar discussão e reposicionamentos, partindo sempre da confissão de fé protestante. Os artigos classificados como "originais" podem ser reproduzidos desde que com a menção da fonte e autoria. Ano V
terça-feira, 31 de julho de 2012
Cientistas dizem que aves e até polvos têm alguma consciência
Neurocientistas de prestígio lançam manifesto reforçando evidências sobre consciência dos animais
Tecnologia permitiu ver que comportamentos afetivos e intencionais também acontecem nos bichos, diz o grupo
quais os impactos sobre a bioética (principalmente no campo de redução de sofrimento dos animais, e na defesa dos seus direitos)?
notícia completa em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/56042-cientistas-dizem-que-aves-e-ate-polvos-tem-alguma-consciencia.shtml
domingo, 29 de julho de 2012
Quase três décadas após queda do regime militar povos indígenas ganham o seu AI-5, denuncia indigenista
Brasília, segunda-feira, 23 de julho de 2012 (ALC) - Mais uma vez o governo federal "dobra os joelhos" aos interesses do agronegócio e reza pela cartilha do capital, aponta nota do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) questionando a portaria 303 da Advocacia Geral da União (AGU), publicada no Diário Oficial da União na terça-feira, 17.
A portaria prevê que "o usufruto das riquezas do solo, dos rios e dos lagos existentes nas terras indígenas pode ser relativizado sempre que houver relevante interesse público da União".
A norma contradiz acordos nacionais e internacionais assinados pelo Brasil, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que determina a realização de consulta prévia às comunidades indígenas sobre empreendimentos que interfiram em suas áreas.
O governo federal vem ao encontro do desejo da presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), senadora Katia Abreu, que, junto com a Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul), sugeriu à AGU tal portaria, com o propósito de retirar do Poder Judiciário os processos demarcatórios e empoderar o próprio governo para tomar essas decisões.
O procurador do Estado do Mato Grosso do Sul, João Barcellos Lima, declarou que os estudos demarcatórios de terras indígenas precisam ser refeitos, com a participação do governo local, que "é preciso anular o que foi feito e começar do zero, refazendo os grupos técnicos".
Desconsiderar a existência de terras indígenas e começar do zero é tudo o que o agronegócio quer, interpretou o indigenista Egon Heck, do Cimi do Mato Grosso do Sul. "Essa portaria é o Ato Institucional número 5 dos povos indígenas", afirmou.
"Todo o trabalho realizado há vários anos e décadas será jogado na lata do lixo, pois o que querem fazer prevalecer sobre os direitos constitucionais são os interesses do grande capital nacional e internacional", denunciou Heck.
A AGU realizou entendimento próprio da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de 2009, em que condicionou em 19 medidas a retirada de não-índios da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, localizada em Roraima. A portaria da AGU estende os efeitos da decisão do STF a todos os processo de demarcação de terras.
"O que assusta na portaria é o seu autoritarismo. A AGU está se antecipando ao STF e adotando uma interpretação reacionária das condicionantes", avaliou o representante do Instituto Socioambiental (ISA), Raul do Valle. "Tudo isso fundamentado num nebuloso conceito de segurança nacional, o mesmo que foi utilizado para perseguir os dissidentes da ditadura", agregou.
Heck lembrou que há 34 anos expirou o prazo legal para que todas as terras indígenas fossem demarcadas no Brasil, de acordo com o Estatuto do Índio. A lei não foi cumprida. "Não satisfeito em descumprir a legislação nacional e internacional no que diz respeito aos direitos indígenas, o governo dá um passo adiante", lastimou.
Em artigo para o sítio do Greenpeace, Nathália Clark destacou que graças às terras indígenas, cerca de 106 milhões de hectares estão hoje protegidos. A portaria da AGU acaba de abrir a porteira das terras indígenas para a construção de bases militares, rodovias, hidrelétricas e o resguardo das riquezas de cunho estratégico, sem precisar ouvir a comunidade indígena afetada.
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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416
quinta-feira, 12 de julho de 2012
A verdade sobre a condenação de Yousef Nadarkhani no Irã
Por Francisco Thiago Almeida, no Projeto 5
Você conhece este homem. Ele é Yousef Nadarkhani. Mas porque você o
conhece – ou deveria conhecê-lo? As notícias que circulam na Internet é
que Yousef é pastor e está sendo condenado à morte por ser cristão.
Minha intenção não apenas polemizar ou diminuir ainda a importância do
caso. Com certeza a firmeza e a fibra do Pastor Yousef são admiráveis!
Duvido que a metade dos cantores-pastores deste país teriam a mesma
coragem. E as reflexões que trarei aqui não pretendem diminuir a coragem
do pastor, pelo contrário, pretende criticar a nossa falta de coragem.
Agora veja esta imagem:
É nesta hora que você pergunta: Que diferença faz? E daí a gente pensa junto.
Abandonar o Islã: O Irã é um país – por falta de
palavra melhor no momento – confessional. Sua religião oficial é o Islã e
assim o país ainda absorve leis religiosas e as aplica com todo o rigor
que uma interpretação literalista do Corão pede: a chamada Sharia. Não
há, nestas leis, uma condenação exclusiva aos cristãos. Há sim uma lei
que proíbe-se o abandono do Islã. Yousef poderia ser espírita
kadercista, cadombléssista, budista, taioísta, seicho-no-ie-sista,
corinthiano que ele seria condenado à forca da mesma forma.
Rejeitasse Cristo: Aquela série “Deixados para trás” e
aquele filme antigo, dos idos dos anos 70 com o tema arrebatamento,
tiveram um grande impacto no cristianismo brasileiro. Há uma cena muito
forte onde, no tempo da tribulação, uma personagem é questionada se nega
ou não a Cristo enquanto sua cabeça está dentro de uma guilhotina – bem
retrô e impactante. Prova de que a teologia do martírio ainda é muito
forte entre nós. Não duvido que a forma como a notícia foi transmitida
pelos cristãos tenha sofrido influência desses filmes. Negar a Cristo? A
preocupação é que se negue a religião e volte para o Islã. Não há
porque negar a Cristo. Seria como pedir a um cristão que negue João
Batista!
Ajudar outras vítimas da Sharia: Não é apenas a “coisa”
religiosa que é digna de nota na imprensa internacional e entre
cristãos que anseiam pela expansão do reino de Deus. Há o abuso contra
as mulheres, contra crianças… Mas tudo isso demandaria “pensar”…
Discutir até que ponto a religião pode intervir no cotidiano das
pessoas, até que ponto a religião pode manipular as leis de um país,
obrigando que os compatriotas sigam forçadamente o comportamento
determinado por uma religião. Mas a maioria dos cristãos brasileiros não
querem fazer isso porque seria uma grande auto-crítica.
Outros fatos: Depois de todo o frisson causado
na internet, alguns grupos cristãos brasileiros retiraram seu apoio ao
Pr. Yousef pelo simples fato de ele não ser “trinitariano”. De mártir o
pastor passou a ser perseguido como herege. Isso me lembra o caso do “Suicida Cristão”.
Deste caso, eu tiro algumas conclusões:
A primeira é que os cristãos brasileiros não tem envergadura moral para
pedir o que estão pedindo. Primeiro porque é um pedido totalmente
egoísta e causuísta. Não querem libertar o Pr. Yousef porque é vítima de
intolerância religiosa. Querem libertar o Pr. Yousef porque ele é
cristão. E não é justo que um cristão morra… Se bem que, talvez alguns
até estejam pedindo para que ele morra… Um mártir é sempre bem vindo.
E a Igreja Cristã brasileira também não tem envergadura moral para pedir
o que está pedindo pelo simples fato de que aqui também caminha-se para
o mesmo rumo. O problema com o Irã não é ele seguir as leis do Islã; o
problema com o Irã é não seguir as leis do Cristianismo! E aí está: dois
pesos e duas medidas!
Os cristãos ainda preferem se colocar como vítimas para justificar o
gueto em que vivem. E uma vez no gueto, querem defender apenas aos seus.
Deveriam sim abrir os olhos e espalhar tantas mensagens de protesto por
conta das mulheres que são castradas, das crianças que são assassinadas
e exploradas, das leis abusivas e que vão contra os direitos humanos.
Mais uma vez digo: O problema não é com o Pr. Yousef: Um homem corajoso
e digno de nota. o problema é conosco que o utilizamos como ícone para
acusar o outro, mas não vemos que via de regra incorremos no mesmo erro.
Por um Estado Laico, contra todo tipo de intolerância e que me permita guiar a própria vida no caminho do respeito mútuo.
Via Pavablog
fonte: http://www.hermesfernandes.com/2012/06/verdade-sobre-condenacao-de-yousef.html
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Holandesa que vive em BH acolhe menores há 20 anos e ensina prevenção contra Aids
Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas
No início dos anos 1990, no Bairro Lagoinha, Região
Noroeste de Belo Horizonte, na esquina das ruas Além Paraíba e
Adalberto Ferraz, a presença constante de crianças e adolescentes
largados, sujos, delinquentes, chamava a atenção de moradores e
trabalhadores do entorno da Igreja Nossa Senhora da Conceição. Para a
maioria dos cristãos do quarteirão, uma deformidade social que
precisava ser combatida. Para grande parte da vizinhança, um
desrespeito que atrapalhava o comércio, enfeava endereços e assombrava a
paz. Na ponta da discórdia, uma médica estrangeira, loura, de olhos
azuis e coração enorme: Irene Adams, holandesa, imunologista,
voluntária, decidida a impedir o avanço das contaminações pelo vírus da
Aids entre os meninos de rua. Na casa de apoio, atraída pelo pão e
pelo cobertor para os tempos de fome e frio, a meninada acabava
recebendo também o carinho da doutora, de plantão, disposta a ensinar o
amanhã. Em 2012, passados mais de 20 anos, a clínica Ação
Multiprofissional com Meninos em Risco (Ammor) já acolheu 2.509
menores, dos quais 28 soropositivos. Juntos, duas gerações somam os
“filhos” de Irene, viúva, mãe e avó, que, longe da família – na Europa e
nos Estados Unidos –, vive de lançar luz ao futuro de quem não conhece
esperança.
Doutora Irene Adams, de 72 anos e sotaque carregado, fala da afilhada Marlene, de 40, com a satisfação de quem acompanha a realização dos filhos: “Ela esteve comigo em 1989, quando nos conhecemos. Hoje, ela tem marido, filhos e acabou de ser avó. Até hoje vem fazer ‘check-up’ comigo”. Diz-se feliz pela amizade fortalecida com a menina saudável e crescida, retirada das ruas. Sorriso aberto, o semblante é de quem aprendeu a sorrir com a alegria do outro. No apartamento modesto, bem próximo à tumultuada Avenida Cristiano Machado, pilhas de papéis sobre mesas e bancadas da sala. “Não repare, sou uma workaholic”, faz menção à condição permanente de pouco sono e muito trabalho.
Elegante, de roupa social econômica – calça, camisa e paletó –, tem nos pés tênis surrado. Especialista em imunologia, com passagem por diversos países, não é de falar de si. Com relógio de plástico no pulso, mostra-se simples, atenta apenas ao necessário para levar adiante uma vida missionária. “Não gasto com relógio caro e não tenho nenhum tipo de joia. O pouco me basta. Sou uma pessoa frugal”, considera-se. O carinho pelo Brasil aumentou na década de 1970, em viagem com o marido, funcionário de multinacional, para o Rio de Janeiro. Na década seguinte, no surgimento da Aids, já era médica em Belo Horizonte. Tinha interesse intelectual pela doença e amor arrebatador pelas crianças de rua, segundo ela, “alvo pontecial para a proliferação do vírus”.
“Como médica, trabalhando há tempos com doenças autoimunes, veio a Aids, uma doença relativamente nova. Eu conseguia lidar bem com pacientes com câncer nessa situação potencialmente fatal, mas, com a Aids, descobri que era diferente”, conta, que também é oncologista. Irene revela que foi tocada pelo preconceito e por toda a culpa que chegava junto do vírus HIV. Para a doutora, a pessoa com Aids precisava de muito mais que um médico. Emocionada, faz voltar os ponteiros da própria história: “Fui uma criança muito doente. Lembro-me aos 4 anos quando entrava num consultório, sofrendo, e vinha a pessoa de branco… só a presença dela já me tranquilizava. Foi quando, pequena, decidi ser médica e ajudar os outros”.
O início
Para a doutora, a Aids trouxe a necessidade de um novo profissional da saúde, bom ouvinte, atento às particularidades vindas no rastro do novo mal, que dava o que falar em todo o mundo. Em 30 de abril de 1987, durante comemoração do Dia da Rainha, feriado importante na Holanda, Irene conheceu um casal de voluntários que estava no Brasil trabalhando com menores de rua. Da conversa sobre Aids e crianças abandonadas, a pergunta: “O que aconteceria se uma criança de rua fosse contaminada?”. Foi o suficiente para que a holandesa abraçasse a causa e decidisse fincar raízes na capital mineira.
No início, entre os principais aliados, a Arquidiocese de Belo Horizonte por meio da Pastoral do Menor, e o colega imunologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dirceu Bartolomeu Greco. “Foi quando conseguimos verba para um projeto de prevenção entre os meninos de rua. Nessa época, a pastoral ganhou espaço no porão da Igreja Nossa Senhora da Conceição e os meninos compareciam por causa da casa de apoio”, diz. Das descobertas na nova missão, Irene destaca “a pessoa dentro da pessoa”. A médica missionária considera que mais que ajudar, é preciso acreditar nos desfavorecidos. “É preciso entender que dentro de um menor infrator tem uma pessoa que precisa de ajuda”, diz.
“Ele não quer muito. Quer ser tratado como pessoa. Muitos garotos voltavam com frequência para o ‘check-up’ para o contato com a clínica, apenas para que pudessem ser olhados sem medo. Para se sentirem respeitados. Pense bem: já não têm família e ainda vivem sob o olhar do medo e da discriminação. Que futuro poderiam ter? Não é um trabalho de atendimento médico apenas. É ação. É resgate”, explica. “A Aids era de menos. A doença, em média, depois da contaminação, leva 10 anos para os primeiros sintomas. A maioria das crianças de rua não tinha essa perspectiva de vida. Imagine: todo mundo dizendo ‘você não presta’, ‘você é criminoso’. O menino passa a acreditar nisso, porque tem baixa autoestima”, ressalta.
Irene conta que hoje 90% das crianças acolhidas pela Ammor vieram de abrigos. Felicidade e orgulho se confundem no azul iluminado dos olhos. Para a doutora, impossível não ficar feliz com o resultado da força-tarefa pela proteção dos pequenos carentes. “Hoje temos o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Conselho Tutelar, que movimentam toda uma rede de proteção ao menor. Tenho muito orgulho de morar em Belo Horizonte, de ser cidadã honorária da cidade. Sinto-me parte dessa rede. Seria impossível realizar sozinho algo dessa natureza”, considera. No entanto, para a missionária, os avanços ainda estão longe de eliminar os problemas.
“A grande maioria dos menores vem de famílias esfaceladas. Estão nos abrigos porque as famílias continuam desestruturadas, porque não há referências de uma vida diferente. Porque falta amor, respeito. Temos uma equipe que vai aos abrigos e trabalham dinâmicas com educadores e educandos do lugar. Uma pergunta muito importante na qual eles aprendem a pensar é ‘quem sou eu?’. É preciso que eles se reconheçam e ganhem confiança, acreditem num novo caminho”, sugere. Irene diz que a certeza de que seu trabalho está na direção correta vem do retorno de seus afilhados. “Muitos meninos que passaram pela clínica, voltam. Não para pedir dinheiro, mas em busca de um olhar de carinho.”
Família
Os filhos de sangue estão longe. Um nos EUA, onde atua como representante comercial. A outra, engenheira, faz carreira na Bélgica. Não são eles ou os netos a maior preocupação da doutora. São os filhos “adotados”, invisíveis, os que tiram seu sono. Entre 1992 e 1996, a imunologista trouxe recursos de organizações holandesas para as crianças de Belo Horizonte. “O apoio foi interrompido porque eles disseram que o Brasil é um país rico, que aqui o problema é a distribuição de renda”, conta. Irene Adams critica a falta de tradição do brasileiro em ser voluntário. Lamenta a falta do hábito de doações regulares aos projetos sociais que ajudam a combater as diferenças.
“Na Holanda, nos Eua, isso é muito diferente. Meu sonho é de uma nova consciência que dê sustentabilidade aos trabalhos sociais. Lutar pela cidadania dos outros é ganhar a minha cidadania. Aqui, eu não tenho direito ao voto, mas vocês precisam votar muito certo. Por vocês e por mim”, provoca. Solitária, imersa em mundaréu de compromissos, lazer só tarde da noite, com os filmes Amor impossível, de Lasse Hallström, e Para Roma, com amor, de Woody Allen, anotados na agenda. Para encerrar a conversa, o desejo de quem aprendeu amar as crianças de Belo Horizonte, de graça: “Já comprei meu abrigo no Cemitério do Bonfim. Quero ser enterrada na cidade onde aprendi a viver”, sorri.
SAIBA MAIS: PROJETO AMMOR
O foco do projeto está no desenvolvimento humano de excluídos. As pessoas são motivadas a procurar atendimento médico pela informação e prevenção. Com isso, o paciente tem a autoestima resgatada, a cidadania e a convivência com a família. Em 2006, com o fechamento da Clínica Nossa Senhora da Conceição (CNSC) –projeto da Arquidiocese de Belo Horizonte que acolhia pacientes com câncer terminal e portadores do vírus HIV – serviços sociais importantes ficaram sem teto. A imunologista Irene Adams resolveu integrá-los à Clínica Ammor. Assim, o projeto integra ações como o Comvidha, de assessoria jurídica; o Papel e Cia, de capacitação por meio de oficinas de artes; a Academia de Ginástica Movimento Saúde, a Cooperativa Grupo Solidário, além do atendimento às crianças e adolescentes em risco social. Informações: (31) 3444-3877 e 9503-8277.
Doutora Irene Adams, de 72 anos e sotaque carregado, fala da afilhada Marlene, de 40, com a satisfação de quem acompanha a realização dos filhos: “Ela esteve comigo em 1989, quando nos conhecemos. Hoje, ela tem marido, filhos e acabou de ser avó. Até hoje vem fazer ‘check-up’ comigo”. Diz-se feliz pela amizade fortalecida com a menina saudável e crescida, retirada das ruas. Sorriso aberto, o semblante é de quem aprendeu a sorrir com a alegria do outro. No apartamento modesto, bem próximo à tumultuada Avenida Cristiano Machado, pilhas de papéis sobre mesas e bancadas da sala. “Não repare, sou uma workaholic”, faz menção à condição permanente de pouco sono e muito trabalho.
Elegante, de roupa social econômica – calça, camisa e paletó –, tem nos pés tênis surrado. Especialista em imunologia, com passagem por diversos países, não é de falar de si. Com relógio de plástico no pulso, mostra-se simples, atenta apenas ao necessário para levar adiante uma vida missionária. “Não gasto com relógio caro e não tenho nenhum tipo de joia. O pouco me basta. Sou uma pessoa frugal”, considera-se. O carinho pelo Brasil aumentou na década de 1970, em viagem com o marido, funcionário de multinacional, para o Rio de Janeiro. Na década seguinte, no surgimento da Aids, já era médica em Belo Horizonte. Tinha interesse intelectual pela doença e amor arrebatador pelas crianças de rua, segundo ela, “alvo pontecial para a proliferação do vírus”.
“Como médica, trabalhando há tempos com doenças autoimunes, veio a Aids, uma doença relativamente nova. Eu conseguia lidar bem com pacientes com câncer nessa situação potencialmente fatal, mas, com a Aids, descobri que era diferente”, conta, que também é oncologista. Irene revela que foi tocada pelo preconceito e por toda a culpa que chegava junto do vírus HIV. Para a doutora, a pessoa com Aids precisava de muito mais que um médico. Emocionada, faz voltar os ponteiros da própria história: “Fui uma criança muito doente. Lembro-me aos 4 anos quando entrava num consultório, sofrendo, e vinha a pessoa de branco… só a presença dela já me tranquilizava. Foi quando, pequena, decidi ser médica e ajudar os outros”.
O início
Para a doutora, a Aids trouxe a necessidade de um novo profissional da saúde, bom ouvinte, atento às particularidades vindas no rastro do novo mal, que dava o que falar em todo o mundo. Em 30 de abril de 1987, durante comemoração do Dia da Rainha, feriado importante na Holanda, Irene conheceu um casal de voluntários que estava no Brasil trabalhando com menores de rua. Da conversa sobre Aids e crianças abandonadas, a pergunta: “O que aconteceria se uma criança de rua fosse contaminada?”. Foi o suficiente para que a holandesa abraçasse a causa e decidisse fincar raízes na capital mineira.
No início, entre os principais aliados, a Arquidiocese de Belo Horizonte por meio da Pastoral do Menor, e o colega imunologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dirceu Bartolomeu Greco. “Foi quando conseguimos verba para um projeto de prevenção entre os meninos de rua. Nessa época, a pastoral ganhou espaço no porão da Igreja Nossa Senhora da Conceição e os meninos compareciam por causa da casa de apoio”, diz. Das descobertas na nova missão, Irene destaca “a pessoa dentro da pessoa”. A médica missionária considera que mais que ajudar, é preciso acreditar nos desfavorecidos. “É preciso entender que dentro de um menor infrator tem uma pessoa que precisa de ajuda”, diz.
“Ele não quer muito. Quer ser tratado como pessoa. Muitos garotos voltavam com frequência para o ‘check-up’ para o contato com a clínica, apenas para que pudessem ser olhados sem medo. Para se sentirem respeitados. Pense bem: já não têm família e ainda vivem sob o olhar do medo e da discriminação. Que futuro poderiam ter? Não é um trabalho de atendimento médico apenas. É ação. É resgate”, explica. “A Aids era de menos. A doença, em média, depois da contaminação, leva 10 anos para os primeiros sintomas. A maioria das crianças de rua não tinha essa perspectiva de vida. Imagine: todo mundo dizendo ‘você não presta’, ‘você é criminoso’. O menino passa a acreditar nisso, porque tem baixa autoestima”, ressalta.
Irene conta que hoje 90% das crianças acolhidas pela Ammor vieram de abrigos. Felicidade e orgulho se confundem no azul iluminado dos olhos. Para a doutora, impossível não ficar feliz com o resultado da força-tarefa pela proteção dos pequenos carentes. “Hoje temos o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Conselho Tutelar, que movimentam toda uma rede de proteção ao menor. Tenho muito orgulho de morar em Belo Horizonte, de ser cidadã honorária da cidade. Sinto-me parte dessa rede. Seria impossível realizar sozinho algo dessa natureza”, considera. No entanto, para a missionária, os avanços ainda estão longe de eliminar os problemas.
“A grande maioria dos menores vem de famílias esfaceladas. Estão nos abrigos porque as famílias continuam desestruturadas, porque não há referências de uma vida diferente. Porque falta amor, respeito. Temos uma equipe que vai aos abrigos e trabalham dinâmicas com educadores e educandos do lugar. Uma pergunta muito importante na qual eles aprendem a pensar é ‘quem sou eu?’. É preciso que eles se reconheçam e ganhem confiança, acreditem num novo caminho”, sugere. Irene diz que a certeza de que seu trabalho está na direção correta vem do retorno de seus afilhados. “Muitos meninos que passaram pela clínica, voltam. Não para pedir dinheiro, mas em busca de um olhar de carinho.”
Família
Os filhos de sangue estão longe. Um nos EUA, onde atua como representante comercial. A outra, engenheira, faz carreira na Bélgica. Não são eles ou os netos a maior preocupação da doutora. São os filhos “adotados”, invisíveis, os que tiram seu sono. Entre 1992 e 1996, a imunologista trouxe recursos de organizações holandesas para as crianças de Belo Horizonte. “O apoio foi interrompido porque eles disseram que o Brasil é um país rico, que aqui o problema é a distribuição de renda”, conta. Irene Adams critica a falta de tradição do brasileiro em ser voluntário. Lamenta a falta do hábito de doações regulares aos projetos sociais que ajudam a combater as diferenças.
“Na Holanda, nos Eua, isso é muito diferente. Meu sonho é de uma nova consciência que dê sustentabilidade aos trabalhos sociais. Lutar pela cidadania dos outros é ganhar a minha cidadania. Aqui, eu não tenho direito ao voto, mas vocês precisam votar muito certo. Por vocês e por mim”, provoca. Solitária, imersa em mundaréu de compromissos, lazer só tarde da noite, com os filmes Amor impossível, de Lasse Hallström, e Para Roma, com amor, de Woody Allen, anotados na agenda. Para encerrar a conversa, o desejo de quem aprendeu amar as crianças de Belo Horizonte, de graça: “Já comprei meu abrigo no Cemitério do Bonfim. Quero ser enterrada na cidade onde aprendi a viver”, sorri.
SAIBA MAIS: PROJETO AMMOR
O foco do projeto está no desenvolvimento humano de excluídos. As pessoas são motivadas a procurar atendimento médico pela informação e prevenção. Com isso, o paciente tem a autoestima resgatada, a cidadania e a convivência com a família. Em 2006, com o fechamento da Clínica Nossa Senhora da Conceição (CNSC) –projeto da Arquidiocese de Belo Horizonte que acolhia pacientes com câncer terminal e portadores do vírus HIV – serviços sociais importantes ficaram sem teto. A imunologista Irene Adams resolveu integrá-los à Clínica Ammor. Assim, o projeto integra ações como o Comvidha, de assessoria jurídica; o Papel e Cia, de capacitação por meio de oficinas de artes; a Academia de Ginástica Movimento Saúde, a Cooperativa Grupo Solidário, além do atendimento às crianças e adolescentes em risco social. Informações: (31) 3444-3877 e 9503-8277.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
terça-feira, 3 de julho de 2012
Entre o Rio+20 e a Cúpula dos Povos
Caio Marçal*
Há alguns
clichês que cada vez mais encontram eco em mundos diferentes e em conflito.
Palavras como "sustentabilidade", “diálogo” "conservação
ambiental" e "direitos coletivos aos recursos naturais" foram
muito ouvidos na Cúpula dos Povos e no Rio+20 tanto por mim e por meus irmãos
das Igrejas Ecocidadãs (coletivo do qual a Rede FALE faz parte). Temáticas tão
próximas, mas com um vasto abismo que separava os dois espaços. Soava-nos
estranho ouvir tais termos sem sentir o desconforto de que havia algo dissonante
no Rio de Janeiro. Colocados em cantos extremos da cidade,
Marcos
Custódio, ambientalista cristão, em uma de nossas reuniões de avaliação,
afirmou que “existe um abismo entre a
Cúpula do Povos e Rio+20 (oficial). Existe a sociedade de um lado – e do outro
o governo e a economia. Tem pouca gente
disposta a fazer ponte. É muito frustrante. É duro quando você ouve que um
lugar representa 'X' e o outro 'Y". Morgana Boostel, Secretária Executiva
da Rede FALE, arremata: "Os
"Diálogos" acontecem depois que o espaço de negociação já foi
fechado. Ocorre em um espaço ocioso entre a negociação e o início da
conferência oficial Rio+20. Eu acho que
não houve um espaço "bilateral" de diálogo". Embora credenciados
para “participar” do Rio+20, nosso poder de interferência no documento final (extremamente
desanimador), foi nulo, já que fomos transformados em meros expectadores de um
pacto de conteúdo inócuo.
Minha suspeita
é que os que têm poder de decisão nas questões ambientais estão convencidos que
não precisam fazer pontes que produzam mudanças de rumo ante a devastação da
vida. A pergunta que não podemos fugir é de que lado os seguidores de Cristo
estão. Não podemos entrar de modo inocente neste jogo e não perceber quais os
interesses dos poderosos e das grandes corporações em relação as questões
ambientais. A Igreja, em meio a essa turbulência deve cumprir um duplo
papel: Ser ponte para restaurar o
diálogo(arrependimento), mas também profético (denúncia).
Infelizmente
tivemos uma presença ainda incipiente dos cristãos tanto na Cúpula dos Povos e
no Rio+20. Poderia até dizer que as religiões de menor expressão que os
evangélicos tem um interesse e envolvimento muito maior. O fato de existir um
movimento de Igrejas Ecocidadãs já demonstra que há certo contrassenso, pois
toda igreja deveria ser tanto preocupada com a cidadania quanto com o meio
ambiente. Se há um movimento de “Igrejas Ecocidadãs”, é porque existe descaso
por parte daqueles que deveriam ser os maiores interessados. Temos um desafio de ordem teológico, pastoral
e profético para os próximos anos e precisamos envolver nossa comunidade local
de fé para cumprir a totalidade da missão de redimir toda Criação, pois ela
“espera ardentemente a manifestação dos filhos de Deus” (Romanos 8:19).
Apesar disso,
podemos celebrar a participação do coletivo das Igrejas Ecocidadãs, pois
construiu links interessantes e canais de interação através das atividades
propostas pelas organizações parceiras na Cúpula dos Povos. Vale registrar que
tivemos a oportunidade de entregar cartões da Campanha “Fale em favor de um
Mundo Justo e Sustentável” diretamente para Gilberto Carvalho, atual
ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República do Brasil.
Embora um tanto
perplexos com o tamanho dos desafios e que saibamos que talvez não vejamos
fruto de nossos anseios satisfeitos nos próximos anos, saímos felizes porque
sabemos que com nosso suor e lágrimas as sementes do Reino de Deus um dia
brotarão no chão desse mundo, que
trará vida plena e abundância.
*Sec. De Mobilização da Rede FALE - LEVANTE A SUA VOZ CONTRA A INJUSTIÇA
www.fale.org.br
tel: (031) 93086548
www.fale.org.br
tel: (031) 93086548
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Amar o pecador, mas odiar o pecado
Eduardo Ribeiro Mundim
Esta
é uma frase frequentemente usada quando se está discutindo algum
assunto de natureza moral. Ela parece estar de acordo com as
Escrituras; parece se ajustar perfeitamente aos desejos de Deus para
seus filhos; parece ser a correta recomendação para a correta
atitude frente às questões morais.
Eu
não concordo!
Esta
afirmativa é uma farsa, um arranjado piedoso de palavras com
intenção assassina.
Concordo
que estou usando termos pesados e confesso que o faço impulsionado
pela emoção de já ter sido vitimado por ela. Sim, já me disseram
que me amavam, mas odiavam o pecado que, supostamente, eu defendia.
Mas
esta é uma história já velha...não sei se perdoei seus
atores...tão pouco não estou bem certo de que eles se arrependeram
e se desculparam.
Minha
intenção com este preâmbulo é sublinhar as consequências
emocionais de sua natureza oculta pelo seu aspecto piedoso.
A
piedade supostamente reside no amor distribuído a todos,
independente de quem são. Deus ama a todos, indistintamente, e na
sua presença não há um justo sequer. Logo, amar o pecador nada
mais é que repetir a ação divina. Ação esta, o amor, que O
define, segundo o apóstolo João: “Deus é amor” (I Jo 4.16).
Por amor, Ele cria o mundo, cria seres racionais à Sua imagem e
semelhança, torna-se homem e vive como tal, compartilhando as mais
ordinárias experiências do cotidiano, como sujar os pés de terra e
ter a fome saciada e escolhendo suportar as mais extraordinárias
experiências, como a traição, a tortura, a injustiça e a morte.
E
Sua Palavra não nega o mandamento. Desde o princípio é amar: a
Ele, Criador, em primeiro, e ao próximo, em segundo. Proponho que
seja entendido que Sua prioridade não se deva ao fato de que Seus
mandamentos definem o que é amar, mas que somente nos é possível
tal atitude por sermos alvos dela a partir dEle: “Nós amamos
porque Ele nos amou primeiro” (I Jo 4.19). O
Seu amor é o molde, a forma, o modelo, a receita do que é amar. E,
em última instância, mais do que “amar ao próximo com a si
mesmo” (Mc 12.33) é “devemos dar nossa vida por nossos irmãos”
(I Jo 3.16).
Amar
é ter afeição, querer bem, ter ternura e devoção; apreciar
muito, gostar, preferir. Não há desagregação, destruição,
violência. Combina perfeitamente com os frutos do Espírito:
“alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade,
mansidão, domínio próprio”. Na verdade, é o primeiro fruto,
“agapê”, amor sacrificial. E como Paulo apóstolo instruiu, o
maior dentre os três maiores dons: fé, esperança e amor (I Co
13.13).
Odiar
é ter aversão, horror, inimizade, repulsa, desgosto. É desejar
estar separado, é ser hostil. Não há intenção de agregar, de
somar, de atrair. Contendas, ciúmes, iras, facções, dissensões,
invejas são suas companheiras, e são chamadas pelo mesmo apóstolo
de frutos da carne – incompatíveis com a herança do Reino de
Cristo e de Deus (Gl 5.19-21).
Aos
que erguem o título acima com orgulho, pergunto: onde está o
mandamento para odiar, seja o que for?
A
bandeira de “odiar o pecado” é ilegítima.
Ilegítima
porque não há mandamento para que tomemos tal atitude.
Bastarda
porque “pecado” não é um ser, é um ato. Como tal, não tem
existência própria, mas é uma atitude. Portanto, “pecado” não
existe sem “pecador”. Amar um é, em termos humanos, em certa
medida, amar o outro; odiar um, odiar o outro.
Enquanto
seres humanos é possível a proeza de detestar o ato cometido por
alguém que se ama?
Acredito
que sim. Se o amor preceder o ódio; se o amor definir a relação
entre as pessoas, e não o ódio; se amamos apesar da atitude que
repulsa. Mas não podemos começar odiando o pecado, porque será o
ódio que dará o tom. E o que deu o tom inicial da criação de Deus
foi amor, integração, doação, compartilhar.
É
verdade que Paulo explicitamente ordena que odiemos o que é mal, e
que nos apeguemos ao que é bom (Rm 12.9). Mandamento perigoso, que
nos remete ao fio da navalha, pois odiar é próprio de nossa
natureza pervertida e caída, e apegar ao bem é atitude que,
frequentemente, demanda esforço. Mas se entendermos odiar como
“cultivar o sentimento de repulsa por aquilo que é mal e que brota
primeiro em mim, antes de brotar no meu próximo”, todo o perigo se
vai.
Se
eu odiasse o pecado que primeiramente habita em mim, e me amasse
apesar dele, talvez então eu pudesse primeiramente amar o meu
próximo e odiar o seu pecado, que encontro primeiro em mim.
Pois
nas Escrituras pecado é pecado, não há escala de maior ou menor.
Todos ofendem à santidade divina. E é uma impossibilidade bíblica
o ser humano isento de pecado. Portanto, se meu próximo é imoral,
talvez eu seja mentiroso; se ele é mentiroso, talvez eu seja
fofoqueiro; se ele é fofoqueiro, talvez eu não ame...
“Odiar
o pecado” não deve ser nossa preocupação, mas amar o pecador,
pois o estaremos amando como amamos a nós mesmos, e, se buscarmos do
fundo do coração, como Ele ama. Não há necessidade de ódio, pois
amor e ódio são, neste caso, como luz e trevas: um não está onde
está o outro.
“Odiar”
é chamar o caminho largo e fácil; “amar” é andar pelo caminho
estreito, aquele que poucos escolhem trilhar.
Por último, devo confessar: quando odiei o pecado, odiei também o pecador; quando me vi pecador, aspirei a santidade, minha e do meu próximo.
Por último, devo confessar: quando odiei o pecado, odiei também o pecador; quando me vi pecador, aspirei a santidade, minha e do meu próximo.
sábado, 30 de junho de 2012
James Alison: O amor homossexual. Um olhar teológico-pastoral
O
teólogo católico James Alison é padre e escritor inglês. Estudou, viveu
e trabalhou no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos, bem
como sua terra natal, a Inglaterra. Obteve o doutorado em Teologia pelas
Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. É autor de, entre outros,
Knowing Jesus (London: SPCK 1992), Raising Abel (New York: Crossroad,
1996), The joy of being wrong (New York: Crossroad 1998) e Faith beyond
resentment: fragments catholic and gay (London: Darton Longman &
Todd 2001). Seu site pessoal é www.jamesalison.co.uk.
Teólogo sistemático, Alison busca uma compreensão não violenta do
desejo associada a René Girard, procurando elaborar as intuições de uma
nova relação entre criação e salvação a partir das suas experiências no
campo acadêmico e pastoral. Ele trabalha atualmente como um pesquisador
itinerante, acompanhando uma imensa variedade de públicos, em leituras
acadêmicas, seminários de pós-graduação, cursos de catequese para
adultos, retiros para padres, e encontros católicos e ecumênicos de gays
e lésbicas. Quando não está na estrada, Alison chama Londres de sua
“casa”. Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu por telefone
para a IHU On-Line, quando falou sobre sua concepção acerca da
homossexualidade, principalmente relacionada com a Igreja. "
IHU On-Line - Como entender a relação homossexual a partir da compreensão não violenta do desejo, com base no pensamento de René Girard?
James Alison – O pensamento de Girard com relação à questão do desejo se explica pelo fato de que o desejo de todos nós é mimético, ou seja, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro/da outra. A partir do nosso nascimento, nos encontramos no desejo de outra pessoa, ou seja, dos nossos pais, guardiões, professores, e todos aqueles que nos ensinam a ficarmos “viáveis” como seres humanos. Isso significa que o desejo, em si, é algo bom. Se não fosse por ele, não chegaríamos à categoria de seres humanos. Porém, como ocorre com todos, começamos a receber esse desejo de forma distorcida. Recebemos tanto a capacidade de desejar sem obstáculos quanto o desejo cheio de rivalidades. Por exemplo, se dermos várias bolas vermelhas para duas crianças brincarem, dentro de pouco tempo, apenas uma dessas bolas será desejada, embora as outras sejam idênticas. Elas terão menos prestígio, menos valor, do que aquela bola que ficou sendo cobiçada pelo grupo de crianças. Em outras palavras, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro, e isso nos leva a uma rivalidade. Neste momento, vamos trazer isso para a questão gay. Todos aprendemos a desejar o outro sexual a partir da nossa imitação, daquilo que nos é parecido. Ou seja, a partir da imitação das pessoas do mesmo sexo, aprendemos a desejar as pessoas do outro sexo. Segundo a maneira tradicional de pensar, algumas pessoas considerariam o desejo homossexual como uma distorção disso, em que pessoas do mesmo sexo não apenas aprendem a desejar segundo o desejo do próprio sexo, o qual é totalmente normal, mas de, alguma forma, aquele desejo é fixado no rival. Ou seja, ao invés de desejar o objeto apontado como rival, eu começo a desejar o próprio rival. Essa é uma explicação que as pessoas têm usado para afirmar que o desejo homossexual é intrinsecamente desordenado. A contribuição de Girard em toda essa área é para mostrar que, na verdade, o desejo é mimético, independentemente do objeto. Tanto que uma pessoa heterossexual pode desejar uma pessoa do outro sexo de maneira rivalística como também pode aprender a desejar de maneira não rivalística, aprendendo a “segurar” essa pessoa não como objeto a ser “preso”, mas para fazer crescer, frutificar. O mesmo é possível para pessoas gays. É possível para uma pessoa gay amar outra do mesmo sexo, não só como “presa” para olhos cobiçosos, mas de maneira pacífica, de forma a querer o bem dela, a fim de que ela frutifique. Essa é a importância do pensamento de Girard: distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico, por um lado, e o desejo pacífico/criador, por outro.
IHU On-Line - A partir das suas experiências no campo acadêmico e pastoral, como podemos pensar na elaboração de uma nova relação entre criação e salvação? O que fazer dentro da teologia moral para que o ser humano homossexual se sinta tão amado por Deus quanto aquele de orientação heterossexual?
James Alison – No atual estado da teologia católica, esta é a pergunta-chave. O ensino tradicional da Igreja católica, com respeito à relação entre natureza e graça, indica que a natureza humana é boa e que Deus, ao salvar-nos, não estava abolindo a natureza humana, mas abrindo a possibilidade de que ela chegasse à sua perfeição. Lembramos, aqui, a frase de São Tomás de Aquino “A graça aperfeiçoa a natureza”. Isso significa que é impossível considerar que uma pessoa humana tenha, em uma parte de si, um desejo que seja intrinsecamente perverso. O desejo de todos nós é, em si, a princípio, uma coisa boa, mesmo que todos vivamos numa distorção e desordem muito grande. Há uma grande diferença entre dizer a uma pessoa “Olha, eu te amo, você vai crescer a partir de quem você é, para chegar a ser ainda maior do que você possa imaginar”, ou dizer a essa mesma pessoa “Você é radicalmente depravado. Do jeito que você é não vai a lugar nenhum. Eu vou precisar fingir que você é outra coisa, para te aperfeiçoar a partir de algo que você não é. Dessa forma, vou te salvar. Mas o custo é que você precisa abolir tudo o que é originalmente seu”. Há muita diferença entre essas duas posições. Curiosamente, a posição da Igreja Católica é a primeira. O olhar de Deus diz isso: “Eu te quero e, a partir de quem você é, você é capaz de chegar a ser algo que ainda não é, em harmonia orgânica com aquilo que faz parte de você de forma ainda bagunçada, por enquanto”. Porém, o atual ensino da Igreja, nessa matéria, tende a sugerir que o desejo homossexual é uma desordem objetiva. Na medida em que esse ensino insiste na depravação radical do desejo pelo mesmo sexo, ele está caindo numa heresia, a partir do ensino tradicional do ponto de vista da graça e da natureza. É importante que recuperemos o ensino mais tradicional nessa matéria. Por exemplo, será que o desejo homossexual pode ser considerado como um desvio parecido com o fato de ter canhotos e não sermos todos os humanos destros? Aprendemos que há uma considerável proporção da humanidade que é canhota, e isso não é nenhum empecilho ao desenvolvimento dessas pessoas. Será que a homossexualidade é um tipo de “anomalia” como o fato de ser canhoto, ou uma patologia, como o alcoolismo ou a cleptomania, que consideramos como desordens objetivas e que fazem as pessoas se autodestruírem? Assim como é verdade que a graça aperfeiçoa a natureza, é verdade que ser gay e lésbica é uma anomalia, e não uma patologia. Então, o crescimento moral e humano das pessoas passa pelo reconhecimento disso de forma íntegra, honesta e sem medo.
IHU On-Line - Como o senhor vê a postura do Vaticano em não admitir homens gays no exercício do sacerdócio? O que orientação sexual tem a ver com a vocação? Um padre gay pode não ser um “bom exemplo” para a moral a ser pregada pela Igreja?
James Alison – Sobre esse tema, vocês podem ler no meu site um artigo chamado “Uma carta a um jovem católico gay”. A melhor e mais suave leitura possível do documento da Igreja sobre o assunto é a de que o próprio Vaticano sabe que, por enquanto, não está preparado para falar a verdade em relação à questão gay. Ele não ousa reconhecer a verdade e vai demorar um certo tempo até que este assunto da vivência não patológica do ser gay seja tão evidente que até o Vaticano possa aceitá-lo. Sendo assim, podemos ler o documento como se fosse uma maneira de dizer: “Olha só, por favor, enquanto nós não conseguirmos falar a verdade sobre esse assunto, é imoral tentar convencer pessoas gays honestas a entrar no sacerdócio, pois sendo pessoas honestas não vão encontrar uma moradia sadia para a sua vivência, pois serão obrigadas a viver num mundo onde há muita caça de bruxas, muita hipocrisia, muitas pessoas que são doentes patologicamente, ou seja, gays que só conseguem perseguir outros gays”. Por outro lado, pode-se fazer uma interpretação fantasiosa do documento. Porque, se eles pensam que esse decreto terá alguma função verdadeira, estão enganados. Eu não acredito que, de repente, todos os seminaristas são heterossexuais. Seria muito extraordinário se assim fosse. Conheço vários seminaristas, em diversas partes do mundo, que são gays, e simplesmente foram obrigados a viver com mais duplicidade do que antes diante das situações. Muitos bispos que, em tese, dizem ao público que defendem o ensino da Igreja, na verdade, no âmbito privado, dizem sim ao ingresso de um seminarista gay. Contanto que o cara seja uma pessoa mais ou menos estável, não se quer saber se ele é heterossexual ou não. Muitos bispos e cardeais no mundo driblaram o referido decreto.
IHU On-Line - Podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja? Elas poderiam receber o sacramento do matrimônio?
James Alison – É evidente que podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja. Isso já acontece em alguns lugares. No entanto, é importante fazer uma distinção aqui. Todos os movimentos civis que têm acontecido, seja na Espanha, na Holanda, na Bélgica, nos Estados Unidos, no Estado de Massachusetts, são para exigir uniões civis. Não confundamos as coisas. A união civil e o sacramento do matrimônio não são a mesma coisa. Existem muitas pessoas, nesses países, que, além de terem feito o matrimônio civil, também têm procurado fazer algum tipo de celebração religiosa para festejar a ocasião. Eu tenho participado dessas festas. Não há nada, absolutamente, que impeça duas pessoas em se unirem civilmente, numa parceria, reconhecida pelo estado, realizando, depois disso, uma liturgia de celebração com a presença de amigos, pessoas da família, padres etc. E isso acontece muito, porém de forma mais discreta. No entanto, isso é diferente da questão do matrimônio como sacramento. Este, no pensamento da Igreja Católica, é visto como a celebração feita pelos próprios noivos, que são duas pessoas batizadas, de sexo oposto, com três elementos básicos: fé, a possibilidade de ter filhos e a unidade de autodoação até que a morte as separe. Veremos ainda de que forma a Igreja vai celebrar publicamente a união entre pessoas do mesmo sexo. Evidentemente, seriam duas pessoas batizadas, que estão fazendo sua autodoação até que a morte os separe, mas sem a abertura à possibilidade de poder procriar, evidentemente. É muito interessante ver que os casais do mesmo sexo que organizam liturgias para receber a benção de Deus para suas uniões estão inventando diferentes formas de liturgia, porque ainda estamos em fase de descobrimento de que tipo de testemunha de vida divina essas uniões vão dar para a Igreja.
IHU On-Line - Como entender a relação homossexual a partir da compreensão não violenta do desejo, com base no pensamento de René Girard?
James Alison – O pensamento de Girard com relação à questão do desejo se explica pelo fato de que o desejo de todos nós é mimético, ou seja, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro/da outra. A partir do nosso nascimento, nos encontramos no desejo de outra pessoa, ou seja, dos nossos pais, guardiões, professores, e todos aqueles que nos ensinam a ficarmos “viáveis” como seres humanos. Isso significa que o desejo, em si, é algo bom. Se não fosse por ele, não chegaríamos à categoria de seres humanos. Porém, como ocorre com todos, começamos a receber esse desejo de forma distorcida. Recebemos tanto a capacidade de desejar sem obstáculos quanto o desejo cheio de rivalidades. Por exemplo, se dermos várias bolas vermelhas para duas crianças brincarem, dentro de pouco tempo, apenas uma dessas bolas será desejada, embora as outras sejam idênticas. Elas terão menos prestígio, menos valor, do que aquela bola que ficou sendo cobiçada pelo grupo de crianças. Em outras palavras, aprendemos a desejar segundo o desejo do outro, e isso nos leva a uma rivalidade. Neste momento, vamos trazer isso para a questão gay. Todos aprendemos a desejar o outro sexual a partir da nossa imitação, daquilo que nos é parecido. Ou seja, a partir da imitação das pessoas do mesmo sexo, aprendemos a desejar as pessoas do outro sexo. Segundo a maneira tradicional de pensar, algumas pessoas considerariam o desejo homossexual como uma distorção disso, em que pessoas do mesmo sexo não apenas aprendem a desejar segundo o desejo do próprio sexo, o qual é totalmente normal, mas de, alguma forma, aquele desejo é fixado no rival. Ou seja, ao invés de desejar o objeto apontado como rival, eu começo a desejar o próprio rival. Essa é uma explicação que as pessoas têm usado para afirmar que o desejo homossexual é intrinsecamente desordenado. A contribuição de Girard em toda essa área é para mostrar que, na verdade, o desejo é mimético, independentemente do objeto. Tanto que uma pessoa heterossexual pode desejar uma pessoa do outro sexo de maneira rivalística como também pode aprender a desejar de maneira não rivalística, aprendendo a “segurar” essa pessoa não como objeto a ser “preso”, mas para fazer crescer, frutificar. O mesmo é possível para pessoas gays. É possível para uma pessoa gay amar outra do mesmo sexo, não só como “presa” para olhos cobiçosos, mas de maneira pacífica, de forma a querer o bem dela, a fim de que ela frutifique. Essa é a importância do pensamento de Girard: distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico, por um lado, e o desejo pacífico/criador, por outro.
IHU On-Line - A partir das suas experiências no campo acadêmico e pastoral, como podemos pensar na elaboração de uma nova relação entre criação e salvação? O que fazer dentro da teologia moral para que o ser humano homossexual se sinta tão amado por Deus quanto aquele de orientação heterossexual?
James Alison – No atual estado da teologia católica, esta é a pergunta-chave. O ensino tradicional da Igreja católica, com respeito à relação entre natureza e graça, indica que a natureza humana é boa e que Deus, ao salvar-nos, não estava abolindo a natureza humana, mas abrindo a possibilidade de que ela chegasse à sua perfeição. Lembramos, aqui, a frase de São Tomás de Aquino “A graça aperfeiçoa a natureza”. Isso significa que é impossível considerar que uma pessoa humana tenha, em uma parte de si, um desejo que seja intrinsecamente perverso. O desejo de todos nós é, em si, a princípio, uma coisa boa, mesmo que todos vivamos numa distorção e desordem muito grande. Há uma grande diferença entre dizer a uma pessoa “Olha, eu te amo, você vai crescer a partir de quem você é, para chegar a ser ainda maior do que você possa imaginar”, ou dizer a essa mesma pessoa “Você é radicalmente depravado. Do jeito que você é não vai a lugar nenhum. Eu vou precisar fingir que você é outra coisa, para te aperfeiçoar a partir de algo que você não é. Dessa forma, vou te salvar. Mas o custo é que você precisa abolir tudo o que é originalmente seu”. Há muita diferença entre essas duas posições. Curiosamente, a posição da Igreja Católica é a primeira. O olhar de Deus diz isso: “Eu te quero e, a partir de quem você é, você é capaz de chegar a ser algo que ainda não é, em harmonia orgânica com aquilo que faz parte de você de forma ainda bagunçada, por enquanto”. Porém, o atual ensino da Igreja, nessa matéria, tende a sugerir que o desejo homossexual é uma desordem objetiva. Na medida em que esse ensino insiste na depravação radical do desejo pelo mesmo sexo, ele está caindo numa heresia, a partir do ensino tradicional do ponto de vista da graça e da natureza. É importante que recuperemos o ensino mais tradicional nessa matéria. Por exemplo, será que o desejo homossexual pode ser considerado como um desvio parecido com o fato de ter canhotos e não sermos todos os humanos destros? Aprendemos que há uma considerável proporção da humanidade que é canhota, e isso não é nenhum empecilho ao desenvolvimento dessas pessoas. Será que a homossexualidade é um tipo de “anomalia” como o fato de ser canhoto, ou uma patologia, como o alcoolismo ou a cleptomania, que consideramos como desordens objetivas e que fazem as pessoas se autodestruírem? Assim como é verdade que a graça aperfeiçoa a natureza, é verdade que ser gay e lésbica é uma anomalia, e não uma patologia. Então, o crescimento moral e humano das pessoas passa pelo reconhecimento disso de forma íntegra, honesta e sem medo.
IHU On-Line - Como o senhor vê a postura do Vaticano em não admitir homens gays no exercício do sacerdócio? O que orientação sexual tem a ver com a vocação? Um padre gay pode não ser um “bom exemplo” para a moral a ser pregada pela Igreja?
James Alison – Sobre esse tema, vocês podem ler no meu site um artigo chamado “Uma carta a um jovem católico gay”. A melhor e mais suave leitura possível do documento da Igreja sobre o assunto é a de que o próprio Vaticano sabe que, por enquanto, não está preparado para falar a verdade em relação à questão gay. Ele não ousa reconhecer a verdade e vai demorar um certo tempo até que este assunto da vivência não patológica do ser gay seja tão evidente que até o Vaticano possa aceitá-lo. Sendo assim, podemos ler o documento como se fosse uma maneira de dizer: “Olha só, por favor, enquanto nós não conseguirmos falar a verdade sobre esse assunto, é imoral tentar convencer pessoas gays honestas a entrar no sacerdócio, pois sendo pessoas honestas não vão encontrar uma moradia sadia para a sua vivência, pois serão obrigadas a viver num mundo onde há muita caça de bruxas, muita hipocrisia, muitas pessoas que são doentes patologicamente, ou seja, gays que só conseguem perseguir outros gays”. Por outro lado, pode-se fazer uma interpretação fantasiosa do documento. Porque, se eles pensam que esse decreto terá alguma função verdadeira, estão enganados. Eu não acredito que, de repente, todos os seminaristas são heterossexuais. Seria muito extraordinário se assim fosse. Conheço vários seminaristas, em diversas partes do mundo, que são gays, e simplesmente foram obrigados a viver com mais duplicidade do que antes diante das situações. Muitos bispos que, em tese, dizem ao público que defendem o ensino da Igreja, na verdade, no âmbito privado, dizem sim ao ingresso de um seminarista gay. Contanto que o cara seja uma pessoa mais ou menos estável, não se quer saber se ele é heterossexual ou não. Muitos bispos e cardeais no mundo driblaram o referido decreto.
IHU On-Line - Podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja? Elas poderiam receber o sacramento do matrimônio?
James Alison – É evidente que podemos pensar na possibilidade de pessoas do mesmo sexo se unirem com a benção de Deus e da Igreja. Isso já acontece em alguns lugares. No entanto, é importante fazer uma distinção aqui. Todos os movimentos civis que têm acontecido, seja na Espanha, na Holanda, na Bélgica, nos Estados Unidos, no Estado de Massachusetts, são para exigir uniões civis. Não confundamos as coisas. A união civil e o sacramento do matrimônio não são a mesma coisa. Existem muitas pessoas, nesses países, que, além de terem feito o matrimônio civil, também têm procurado fazer algum tipo de celebração religiosa para festejar a ocasião. Eu tenho participado dessas festas. Não há nada, absolutamente, que impeça duas pessoas em se unirem civilmente, numa parceria, reconhecida pelo estado, realizando, depois disso, uma liturgia de celebração com a presença de amigos, pessoas da família, padres etc. E isso acontece muito, porém de forma mais discreta. No entanto, isso é diferente da questão do matrimônio como sacramento. Este, no pensamento da Igreja Católica, é visto como a celebração feita pelos próprios noivos, que são duas pessoas batizadas, de sexo oposto, com três elementos básicos: fé, a possibilidade de ter filhos e a unidade de autodoação até que a morte as separe. Veremos ainda de que forma a Igreja vai celebrar publicamente a união entre pessoas do mesmo sexo. Evidentemente, seriam duas pessoas batizadas, que estão fazendo sua autodoação até que a morte os separe, mas sem a abertura à possibilidade de poder procriar, evidentemente. É muito interessante ver que os casais do mesmo sexo que organizam liturgias para receber a benção de Deus para suas uniões estão inventando diferentes formas de liturgia, porque ainda estamos em fase de descobrimento de que tipo de testemunha de vida divina essas uniões vão dar para a Igreja.
IHU On-Line - Quais dilemas e dificuldades um homossexual católico (homem ou mulher) costuma enfrentar? Que tipo de conflito interno e de fé aparece aí? Como um jovem católico gay se sente em sua Igreja? Como ele é recebido?
James Alison – Isso é curioso e varia muito de país
para país, de cultura para cultura. Pessoas que vivem em países
católicos de tradição abrangente e liberal têm pouca dificuldade em
relação a isso. Há pessoas assim, e o importante é que floresçam como
são. Há outras que crescem em ambientes ideológicos muito fechados, nos
quais a maior tragédia que poderia acontecer para os pais é ter um filho
gay. Então, ouvimos aquelas frases famosas, como “prefiro ter um filho
drogado do que gay”. Vai depender totalmente em qual desses mundos a
pessoa cresce. Não há nem uma tragédia universal, nem uma benção
universal. O que eu tenho notado é que nos países de tradição católica,
no universo mais jovem, a mudança com relação à aceitação e a autoaceitação da homossexualidade é muito grande. É enorme a aceitação
pacífica desta realidade entre as pessoas de 40 anos para baixo. Mas
quando a Igreja não aceita é triste, porque há pessoas que seriam ótimas
atuando nela e se sentem rejeitadas. Também há aquela que são muito
sensíveis ao ensino da Igreja e o assunto é recebido de maneira muito
trágica, porque sentem no fundo do coração o ódio transmitido pelas
palavras oficiais, como se fossem palavras de Deus. E isso é terrível. É
escandalizar os pequenos.
IHU On-Line - Como a mensagem de amor pregada por Jesus Cristo pode
ser associada na defesa pela luta da união entre pessoas do mesmo sexo?
James
Alison – Jesus não diz nada nem a favor nem contra essa matéria. Não
sou muito a favor de instrumentalizar Jesus. Acho importante usá-lo nem
como arma de defesa de valores conservadores, nem como arma de defesa de
valores liberais. Sendo Jesus o próprio Deus, tendo aparecido no meio
de nós para nos perdoar e abrindo a possibilidade de nos descobrirmos
como filhos de Deus, precisamos ter muito respeito em relação a Ele.
Porém, não tenho dúvida de que pessoas vão tratar de utilizar a fé, a
religião, a Igreja, como arma para combater a possibilidade de pessoas
gays se casarem. A fé católica é uma religião da presença de Jesus. Onde
está Jesus: nas pessoas que atiram pedras ou nas pessoas que lutam para
construir um mundo melhor?
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Fé sem ressentimento
Girard ao nos desvelar o mecanismo do bode expiatório,
oferece a possibilidade de fazer uma autocrítica institucional
constante. Isso em termos eclesiásticos talvez seja a contribuição mais
interessante, se é que estamos dispostos a fazê-lo, afirma o teólogo inglês.
“Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são
múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de
conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência
dele”, reflete James Alison na entrevista exclusiva que concedeu por telefone à IHU On-Line.
Ele analisa a possibilidade de uma fé para além do ressentimento. Em
sua opinião, isso é possível “quando você está disposto a ocupar o lugar
vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter
necessidade de se contrastar com ninguém”. E frisa: “Nenhuma catequese
ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas
podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem”.
Outro tema da conversa com Alison foi a questão do desejo rivalístico. James explica que o desejo não nasce em nós, mas nos outros. “Assim, nossos desejos são ‘emprestados’”. E pondera: “Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico”.
James Alison
(foto) (Londres, 1959) é teólogo católico, sacerdote e escritor. Com
estudos em Oxford, é doutor pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e
Teologia – FAJE, de Belo Horizonte. É considerado um dos principais
expositores da vertente teológica do pensamento de René Girard.
Atualmente é Fellow, da Fundação Imitatio, instituição que apoia a
divulgação da teoria mimética. Há mais de 15 anos é um dos raros padres e
teólogos católicos assumidamente gays. Seu trabalho é respeitado em
todo o mundo pelo caminho rigoroso e matizado que tem aberto nesse campo
minado da vida eclesiástica. Seus sete livros já foram traduzidos para o
espanhol, italiano, francês, holandês e russo. Em português podem ser
lidos Uma fé além do ressentimento: fragmentos católicos numa chave gay (São Paulo: É Realizações, 2010 com introdução de João Batista Libânio, SJ) e O pecado original à luz da ressurreição (São Paulo: É Realizações, 2011). Seu trabalho mais recente é A vítima que perdoa – uma introdução para a fe cristá para adultos em doze sessões (www.forgivingvictim.com).
A versão em língua inglesa será lançada em texto e vídeo ainda em 2012
com a possibilidade de versões em outros idiomas em andamento. James Alison reside
em São Paulo, onde está iniciando uma pastoral católica gay e viaja
pelo mundo inteiro dando conferências, palestras e retiros. Textos seus
podem ser encontrados no site www.jamesalison.co.uk. Mais detalhes sobre a Fundação Imitatio encontram-se disponíveis no link endereço www.imitatio.org.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Por que o dogma do pecado original sempre foi alvo de críticas?
James Alison – O pecado original tem sido alvo de dois tipos de críticas. A primeira delas é porque vem sendo associado, há muito tempo, com uma visão muito primitiva da antropologia ou das origens humanas em termos de paleontologia, ou seja, aquilo que já se sabe sobre as origens. À medida que as pessoas imaginam que a doutrina do pecado original tem a ver com Adão e Eva no Jardim do Éden (e tudo fica em torno dessa questão) parece que, na mente popular, a doutrina está vinculada a uma visão ultrapassada das origens humanas. Acrescento que, na verdade, trata-se de uma falsa caracterização da doutrina essa associação de Adão e Eva no Jardim. O segundo motivo é porque desde o Iluminismo o pensamento ocidental não tem gostado muito da ideia de que a nossa razão seria, digamos, viciada. O mundo da ilustração gosta de pensar que somos “inocentes”, e que o mal está nos outros, que nascemos inocentes e estruturas sociais ruins fazem com que a vida seja difícil. Procuram, assim, salvar a suposta inocência da humanidade e acham que a doutrina do pecado original é uma acusação provinda de um deus cruel e vingativo. Essa segunda crítica é muito menos ouvida ultimamente. Nos últimos 50 anos ouve-se falar no colapso da mente ilustrada como um crescente entendimento de como somos violentos desde os nossos começos. É muito menos difícil agora pensar os seres humanos como não inocentes do que era há umas cinco décadas atrás.
IHU On-Line – Em que aspectos o pecado original é a base indispensável de toda a doutrina da salvação?
James Alison – Não é a base indispensável, porque a base é de onde começa. O pecado original é uma das conclusões de toda a doutrina da salvação. A doutrina do pecado original é uma visão retrospectiva, ou seja, no centro da fé cristã está a vivência entre nós, da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. A partir da ressurreição como dom do Espírito Santo é que o grupo apostólico começa a poder olhar para trás, pensando que imaginávamos como era a vida e agora podemos encará-la de outra forma. Jesus abriu nossos olhos sobre que tipo de pessoa o ser humano é capaz de ser: um ser humano não fadado à morte, não necessariamente movido pelas violências que estão na base de toda a comunidade humana. A partir desse momento em que se olha retrospectivamente, percebe-se que desde o início da humanidade (e a palavra Adão é uma espécie de atalho para se refletir os começos de toda humanidade) a cultura humana tem sido, de alguma maneira, desenvolvida na morte. Agora estamos entendendo essa cultura como contingente, e não necessária. Não fomos feitos para isso, mas para outra coisa. A doutrina não é a base, mas a visão retrospectiva a partir da ressurreição, e algo necessário. É o sinal de quanta diferença fez Jesus.
IHU On-Line – Em que sentido a salvação conseguida por Cristo é a superação de toda religião sacrificial?
James Alison – Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro, e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.
IHU On-Line – Como a hipótese mimética de René Girard ajuda a compreender esse dogma?
James Alison – Quero enfatizar a importância do que é uma visão retrospectiva no sentido daquilo que o pensamento de Girard nos permite fazer, e entender melhor essa visão restrospectiva. A partir da ressurreição, quando se percebe como os humanos podem ser, olhamos para trás e nos damos conta de que pensávamos algo como normal, e depois nos espantamos com isso. O que parecia destino era, na verdade, contingência. Não somos seres fadados à morte, mas à vida. Isso altera todas as relações entre nós.
IHU On-Line – A partir do pensamento de Girard, como é possível distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico e o desejo pacífico/criador?
James Alison – O centro do pensamento de Girard é que desejamos segundo o desejo do outro. O desejo não nasce em nós, mas no outro. Isso nos incita a desejar. Assim, nossos desejos são “emprestados”. Isso significa que tipicamente nos achamos dentro de rivalidades antes mesmo de nos darmos conta de que isso está acontecendo. Para que haja um desejo, em primeiro lugar, este precisa ser pacífico. É o caso da criança desejante. Muito do que ela quer é incitado pelos próprios pais. É interessante notar o quanto o desejo tende a ser rivalístico inclusive nas crianças pequenas. Desde cedo, os pequenos podem ficar com raiva se percebem que outras crianças ao seu lado estão sendo atendidas primeiro. Não pensemos que somos inocentes durante muito tempo e que depois não o somos mais. Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico. Ninguém de nós consegue viver sem rivalidade, inclusive para construir nossa identidade por contraste com os outros. Em nosso caso, esse desejo possessivo ou rivalístico é o normal, tal como se apresenta em nossa vida. É o que mais há, e aquilo que todas agências de publicidade conhecem muito bem. Se você quer vender algo, você tem que dar a impressão à pessoa de que ela precisa daquilo. Quando uma modelo aparece vendendo alguma coisa, tem-se a impressão de que, se adquirirmos aquilo, seremos como ela. O difícil em todos os casos é voltarmos a descobrir aquilo que é possível dentro do nosso desejo, que é a possibilidade de uma emulação, uma imitação não rivalística. Quando recebemos o que vem do outro sem a necessidade de “agarrar” esse desejo. É o sentido saudável, e o que chamo de desejo pacífico. Girard fala em desejo mimético sobretudo para a versão mais negativa do desejo. Em princípio, existe o desejo apropriativo, que aparece “agarrando”. E há o desejo pacífico, aquele que é de imitação sem essa necessidade de “agarrar”.
IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para pensarmos uma fé para além do ressentimento?
James Alison – O que é interessante no pensamento de Girard é que ele aceita o desafio de Nietzsche, o pensador que acusou o cristianismo de ser ressentido e dependente desse sentimento. Alguns dos textos mais bonitos de Girard são, justamente, textos em que ele discute Nietzsche. Descobri que Girard, ao desmascarar o mecanismo do bode expiatório, da vitimização que há na base da sociedade, também nos oferece a possibilidade de pensar de forma não vitimária. Essa é a grande novidade para mim. Em vez de se pensar o herói ou vítima, que na verdade são a mesma pessoa, trata-se de reconhecer a cumplicidade dentro daqueles mecanismos sem ser levado por eles. Isso é a possibilidade da fé além do ressentimento. É dar-se conta de que se é partícipe de um mundo no qual a vitimização está por todas as partes. Mas estou disposto a aprender a amar mesmo dentro de toda essa confusão. Isso Nietzsche não entendeu no cristianismo, mesmo que chegou muito próximo disso, segundo Girard. Mesmo que Nietzsche tenha optado por Dionísio em lugar do Crucificado.
Uma fé além do ressentimento é quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém. Em termos de vivência pessoal, isso é o mais fundamental: como deixar de se considerar vítima ou herói. Como perder o ressentimento e chegar a desenvolver o papel de irmão, ou irmã em vez de vítima ou herói, um processo de humanização. É o que busco elaborar.
IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para uma melhor compreensão da questão gay em nossa sociedade?
James Alison – Sim, oferece, mesmo que a questão gay não seja um dos interesses principais de sua obra. É possível vermos como Girard entende os mecanismos violentos de exclusão que os diferentes grupos humanos fazem com uma série de grupos considerados perigosos, contaminantes, diferentes. A partir disso, chegam a ser bem compreensíveis os mecanismos irracionais que levam à exclusão e tratamento indigno das pessoas gays e lésbicas em nossa sociedade precisamente porque chegam a ser portadores de acusações estereotipadas, como se estivessem causando o colapso da sociedade, da família e da moral.
Essas acusações são feitas contra alguém que é “dispensável”, que você quer convenientemente jogar fora, sem ter que olhar para as causas reais do que está acontecendo. Dizer que os gays estão provocando o colapso da família é uma declaração que só pode partir de uma pessoa que não quer prestar atenção nas dinâmicas reais das famílias modernas. Atribuem esse poder maléfico aos gays, que são um grupo muito pequeno para uma realidade social grande, que são as mudanças na maneira de ser família. Isso é ridículo, especialmente em se considerando que os próprios gays são membros de famílias. Chega-se a dizer que deixar os gays casarem irá provocar o colapso do matrimônio.
O que, na verdade, provoca o colapso do matrimônio é o comportamento dos heterossexuais em seus relacionamentos matrimoniais. Já é muito para nós, pessoas gays ou pessoas heterossexuais, arcar com os fracassos de nossos próprios relacionamentos! Para a mentalidade sacra, contudo, esses argumentos não importam. O que importa é poder desenhar o mal, e, uma vez que este fique desenhado, torna-se possível construir uma falsa bondade às costas da vítima. Esse é o mecanismo que Girard desvela. Nossas sociedades são, sim, sacrificiais, seguindo padrões arcaicos, nos pensando modernos e ilustrados.
IHU On-Line – Quais são as maiores contribuições de Girard para a filosofia e a teologia no século XXI?
James Alison – Suas maiores contribuições são um desafio de uma antropologia nova, entendendo a maneira como os “bichos” humanos, que se comportam de maneira imitativa, se comportam e como constroem suas sociedades, sem recorrer para ideias muito idealistas. Precisamos nos fixar num entendimento de mecanismos muito humanos na construção da sociedade. Isso é a insistência girardiana.
Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele.
Sabe-se que grande parte do discurso sobre Deus tem sido viciado pela atribuição de violência para poder entender a morte de Jesus de maneira salvífica. Várias teorias da salvação, expiação e redenção pensam assim. Então, pela primeira vez em muitos séculos, Girard nos permite entender de uma nova forma a maneira pela qual a morte de Jesus é salvífica sem que isso atribua qualquer tipo de violência a Deus. Essa é uma questão fundamental.
Outra área na qual Girard faz muita diferença na Teologia é na questão da leitura bíblica. Isso porque Girard é um leitor de textos a partir de sua intuição mimética. E é como leitor de textos que nos ajuda a ler o Antigo e Novo Testamento e mostrar, pela primeira vez em séculos, uma maneira de perceber como o Novo Testamento se aninha dentro do Antigo. Isso nos permite avançar além daquelas tendências do cristianismo que não prestam atenção ao Antigo Testamento porque é demasiado violento, ou aquela posição fundamentalista de deixar que o Novo Testamento seja totalmente dominado pelo Antigo.
IHU On-Line – Em que medida suas ideias podem ajudar a “arejar” a Igreja Católica?
James Alison – Na verdade, só o Espírito Santo poderia arejar a Igreja Católica, uma vez que ela ainda é muito resistente... Girard nos permite elaborar um novo paradigma da fé, entender de novo a fé cristã. Em vez da explicação da fé que recebíamos nos catecismos antigos, muito moralistas, chega a ser possível agora entender a fé de maneira orgânica, como boa nova, com o pensamento de Girard como catalizador. Esse é o dom fundamental que esse autor nos oferece.
É a possibilidade de uma nova evangelização que seja autenticamente boa nova, e não o moralismo antiquado disfarçado de alta tecnologia moderna, muito chique e atual, mas que ao ter seu véu retirado, mostra a mesma incapacidade de tratar com questões como a relativa aos gays, por exemplo. Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem.
Em segundo lugar, destaco que ao nos desvelar o mecanismo do bode expiatório, Girard nos oferece a possibilidade de fazer uma autocrítica institucional constante. Isso em termos eclesiásticos talvez seja a contribuição mais interessante, se é que estamos dispostos a fazê-lo. A partir do Cristo ressuscitado, da vítima que está no nosso meio, começarmos a ser autocríticos com os posicionamentos vitimários de nossos mecanismos eclesiásticos. Mesmo fora do âmbito da igreja isso é algo de fundamental importância.
Na sociedade moderna nos damos conta do quanto pesam as instituições sobre nós. Como seres humanos dependemos fatalmente das instituições. Ao mesmo tempo, nos damos conta de que elas nos movem fora do nosso controle. É difícil tomarmos responsabilidade por nossa vida institucional. As vozes dissonantes são as de pessoas “jogadas fora”, que passam a protestar e se colocar contra essas instituições. Por isso a possibilidade de uma vivência autocrítica, que não tem necessidade de recorrer a estes jogos vitimários, seria um dom muito, muito grande para nós todos.
fonte ihu - 19/05/2012, via http://gilmarzampieri.blogspot.com.br/2012/05/fe-sem-ressentimento.htmlOutro tema da conversa com Alison foi a questão do desejo rivalístico. James explica que o desejo não nasce em nós, mas nos outros. “Assim, nossos desejos são ‘emprestados’”. E pondera: “Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico”.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Por que o dogma do pecado original sempre foi alvo de críticas?
James Alison – O pecado original tem sido alvo de dois tipos de críticas. A primeira delas é porque vem sendo associado, há muito tempo, com uma visão muito primitiva da antropologia ou das origens humanas em termos de paleontologia, ou seja, aquilo que já se sabe sobre as origens. À medida que as pessoas imaginam que a doutrina do pecado original tem a ver com Adão e Eva no Jardim do Éden (e tudo fica em torno dessa questão) parece que, na mente popular, a doutrina está vinculada a uma visão ultrapassada das origens humanas. Acrescento que, na verdade, trata-se de uma falsa caracterização da doutrina essa associação de Adão e Eva no Jardim. O segundo motivo é porque desde o Iluminismo o pensamento ocidental não tem gostado muito da ideia de que a nossa razão seria, digamos, viciada. O mundo da ilustração gosta de pensar que somos “inocentes”, e que o mal está nos outros, que nascemos inocentes e estruturas sociais ruins fazem com que a vida seja difícil. Procuram, assim, salvar a suposta inocência da humanidade e acham que a doutrina do pecado original é uma acusação provinda de um deus cruel e vingativo. Essa segunda crítica é muito menos ouvida ultimamente. Nos últimos 50 anos ouve-se falar no colapso da mente ilustrada como um crescente entendimento de como somos violentos desde os nossos começos. É muito menos difícil agora pensar os seres humanos como não inocentes do que era há umas cinco décadas atrás.
IHU On-Line – Em que aspectos o pecado original é a base indispensável de toda a doutrina da salvação?
James Alison – Não é a base indispensável, porque a base é de onde começa. O pecado original é uma das conclusões de toda a doutrina da salvação. A doutrina do pecado original é uma visão retrospectiva, ou seja, no centro da fé cristã está a vivência entre nós, da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. A partir da ressurreição como dom do Espírito Santo é que o grupo apostólico começa a poder olhar para trás, pensando que imaginávamos como era a vida e agora podemos encará-la de outra forma. Jesus abriu nossos olhos sobre que tipo de pessoa o ser humano é capaz de ser: um ser humano não fadado à morte, não necessariamente movido pelas violências que estão na base de toda a comunidade humana. A partir desse momento em que se olha retrospectivamente, percebe-se que desde o início da humanidade (e a palavra Adão é uma espécie de atalho para se refletir os começos de toda humanidade) a cultura humana tem sido, de alguma maneira, desenvolvida na morte. Agora estamos entendendo essa cultura como contingente, e não necessária. Não fomos feitos para isso, mas para outra coisa. A doutrina não é a base, mas a visão retrospectiva a partir da ressurreição, e algo necessário. É o sinal de quanta diferença fez Jesus.
IHU On-Line – Em que sentido a salvação conseguida por Cristo é a superação de toda religião sacrificial?
James Alison – Essa é a proposta de Girard, e eu a compartilho. Na base de toda a forma de cultura humana existe aquilo que ele chama de bode expiatório. Temos a tendência de criar uma unidade entre nós por contraste com um outro ruim, que é “jogado fora”, seja sacrificado, expelido ou banido, mas que, desde o começo, dos nossos antepassados mais próximos aos macacos, quando os antropoides estavam desenvolvendo uma capacidade de imitação cada vez maior, começou a haver as possibilidades de uma cultura humana com base neste mecanismo sacrificial de construir unidade e distinguir quem está dentro, e quem está fora. Segundo Girard, o que Jesus teria feito é voltar diretamente ao cerne de um assunto do passado, ocupando o lugar da vítima de maneira voluntária, não porque Deus precisa castigar alguém, mas para abrir os nossos olhos para nossa necessidade de castigar alguém. O típico de nossa vivência humana é imaginar que dependemos de um outro julgado ruim, perigoso, contaminante, vergonhoso para mantermos a nossa própria unidade e bondade no sentido de comunidade. Ao ocupar voluntariamente este lugar, Jesus estaria explodindo a partir de dentro o mecanismo de manutenção da ordem, da lei e bondade de toda cultura humana. Por isso poder-se-ia falar na morte de Jesus como sendo precisamente a superação de toda religião sacrificial. A partir disso, não faz mais sentido o sacrifício.
IHU On-Line – Como a hipótese mimética de René Girard ajuda a compreender esse dogma?
James Alison – Quero enfatizar a importância do que é uma visão retrospectiva no sentido daquilo que o pensamento de Girard nos permite fazer, e entender melhor essa visão restrospectiva. A partir da ressurreição, quando se percebe como os humanos podem ser, olhamos para trás e nos damos conta de que pensávamos algo como normal, e depois nos espantamos com isso. O que parecia destino era, na verdade, contingência. Não somos seres fadados à morte, mas à vida. Isso altera todas as relações entre nós.
IHU On-Line – A partir do pensamento de Girard, como é possível distinguir entre o desejo possessivo/rivalístico e o desejo pacífico/criador?
James Alison – O centro do pensamento de Girard é que desejamos segundo o desejo do outro. O desejo não nasce em nós, mas no outro. Isso nos incita a desejar. Assim, nossos desejos são “emprestados”. Isso significa que tipicamente nos achamos dentro de rivalidades antes mesmo de nos darmos conta de que isso está acontecendo. Para que haja um desejo, em primeiro lugar, este precisa ser pacífico. É o caso da criança desejante. Muito do que ela quer é incitado pelos próprios pais. É interessante notar o quanto o desejo tende a ser rivalístico inclusive nas crianças pequenas. Desde cedo, os pequenos podem ficar com raiva se percebem que outras crianças ao seu lado estão sendo atendidas primeiro. Não pensemos que somos inocentes durante muito tempo e que depois não o somos mais. Nossa capacidade de desejo, como vem do outro, sempre traz consigo o risco de ser um desejo rivalístico. Ninguém de nós consegue viver sem rivalidade, inclusive para construir nossa identidade por contraste com os outros. Em nosso caso, esse desejo possessivo ou rivalístico é o normal, tal como se apresenta em nossa vida. É o que mais há, e aquilo que todas agências de publicidade conhecem muito bem. Se você quer vender algo, você tem que dar a impressão à pessoa de que ela precisa daquilo. Quando uma modelo aparece vendendo alguma coisa, tem-se a impressão de que, se adquirirmos aquilo, seremos como ela. O difícil em todos os casos é voltarmos a descobrir aquilo que é possível dentro do nosso desejo, que é a possibilidade de uma emulação, uma imitação não rivalística. Quando recebemos o que vem do outro sem a necessidade de “agarrar” esse desejo. É o sentido saudável, e o que chamo de desejo pacífico. Girard fala em desejo mimético sobretudo para a versão mais negativa do desejo. Em princípio, existe o desejo apropriativo, que aparece “agarrando”. E há o desejo pacífico, aquele que é de imitação sem essa necessidade de “agarrar”.
IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para pensarmos uma fé para além do ressentimento?
James Alison – O que é interessante no pensamento de Girard é que ele aceita o desafio de Nietzsche, o pensador que acusou o cristianismo de ser ressentido e dependente desse sentimento. Alguns dos textos mais bonitos de Girard são, justamente, textos em que ele discute Nietzsche. Descobri que Girard, ao desmascarar o mecanismo do bode expiatório, da vitimização que há na base da sociedade, também nos oferece a possibilidade de pensar de forma não vitimária. Essa é a grande novidade para mim. Em vez de se pensar o herói ou vítima, que na verdade são a mesma pessoa, trata-se de reconhecer a cumplicidade dentro daqueles mecanismos sem ser levado por eles. Isso é a possibilidade da fé além do ressentimento. É dar-se conta de que se é partícipe de um mundo no qual a vitimização está por todas as partes. Mas estou disposto a aprender a amar mesmo dentro de toda essa confusão. Isso Nietzsche não entendeu no cristianismo, mesmo que chegou muito próximo disso, segundo Girard. Mesmo que Nietzsche tenha optado por Dionísio em lugar do Crucificado.
Uma fé além do ressentimento é quando você está disposto a ocupar o lugar vitimário sem se pensar heroico, mas simplesmente estando lá sem ter necessidade de se contrastar com ninguém. Em termos de vivência pessoal, isso é o mais fundamental: como deixar de se considerar vítima ou herói. Como perder o ressentimento e chegar a desenvolver o papel de irmão, ou irmã em vez de vítima ou herói, um processo de humanização. É o que busco elaborar.
IHU On-Line – O pensamento de Girard oferece subsídios para uma melhor compreensão da questão gay em nossa sociedade?
James Alison – Sim, oferece, mesmo que a questão gay não seja um dos interesses principais de sua obra. É possível vermos como Girard entende os mecanismos violentos de exclusão que os diferentes grupos humanos fazem com uma série de grupos considerados perigosos, contaminantes, diferentes. A partir disso, chegam a ser bem compreensíveis os mecanismos irracionais que levam à exclusão e tratamento indigno das pessoas gays e lésbicas em nossa sociedade precisamente porque chegam a ser portadores de acusações estereotipadas, como se estivessem causando o colapso da sociedade, da família e da moral.
Essas acusações são feitas contra alguém que é “dispensável”, que você quer convenientemente jogar fora, sem ter que olhar para as causas reais do que está acontecendo. Dizer que os gays estão provocando o colapso da família é uma declaração que só pode partir de uma pessoa que não quer prestar atenção nas dinâmicas reais das famílias modernas. Atribuem esse poder maléfico aos gays, que são um grupo muito pequeno para uma realidade social grande, que são as mudanças na maneira de ser família. Isso é ridículo, especialmente em se considerando que os próprios gays são membros de famílias. Chega-se a dizer que deixar os gays casarem irá provocar o colapso do matrimônio.
O que, na verdade, provoca o colapso do matrimônio é o comportamento dos heterossexuais em seus relacionamentos matrimoniais. Já é muito para nós, pessoas gays ou pessoas heterossexuais, arcar com os fracassos de nossos próprios relacionamentos! Para a mentalidade sacra, contudo, esses argumentos não importam. O que importa é poder desenhar o mal, e, uma vez que este fique desenhado, torna-se possível construir uma falsa bondade às costas da vítima. Esse é o mecanismo que Girard desvela. Nossas sociedades são, sim, sacrificiais, seguindo padrões arcaicos, nos pensando modernos e ilustrados.
IHU On-Line – Quais são as maiores contribuições de Girard para a filosofia e a teologia no século XXI?
James Alison – Suas maiores contribuições são um desafio de uma antropologia nova, entendendo a maneira como os “bichos” humanos, que se comportam de maneira imitativa, se comportam e como constroem suas sociedades, sem recorrer para ideias muito idealistas. Precisamos nos fixar num entendimento de mecanismos muito humanos na construção da sociedade. Isso é a insistência girardiana.
Como teólogo, penso que as contribuições de Girard são múltiplas. Uma das maiores é que ele permite uma nova maneira de conceitualizar nossos discursos sobre Deus, tirando qualquer violência dele.
Sabe-se que grande parte do discurso sobre Deus tem sido viciado pela atribuição de violência para poder entender a morte de Jesus de maneira salvífica. Várias teorias da salvação, expiação e redenção pensam assim. Então, pela primeira vez em muitos séculos, Girard nos permite entender de uma nova forma a maneira pela qual a morte de Jesus é salvífica sem que isso atribua qualquer tipo de violência a Deus. Essa é uma questão fundamental.
Outra área na qual Girard faz muita diferença na Teologia é na questão da leitura bíblica. Isso porque Girard é um leitor de textos a partir de sua intuição mimética. E é como leitor de textos que nos ajuda a ler o Antigo e Novo Testamento e mostrar, pela primeira vez em séculos, uma maneira de perceber como o Novo Testamento se aninha dentro do Antigo. Isso nos permite avançar além daquelas tendências do cristianismo que não prestam atenção ao Antigo Testamento porque é demasiado violento, ou aquela posição fundamentalista de deixar que o Novo Testamento seja totalmente dominado pelo Antigo.
IHU On-Line – Em que medida suas ideias podem ajudar a “arejar” a Igreja Católica?
James Alison – Na verdade, só o Espírito Santo poderia arejar a Igreja Católica, uma vez que ela ainda é muito resistente... Girard nos permite elaborar um novo paradigma da fé, entender de novo a fé cristã. Em vez da explicação da fé que recebíamos nos catecismos antigos, muito moralistas, chega a ser possível agora entender a fé de maneira orgânica, como boa nova, com o pensamento de Girard como catalizador. Esse é o dom fundamental que esse autor nos oferece.
É a possibilidade de uma nova evangelização que seja autenticamente boa nova, e não o moralismo antiquado disfarçado de alta tecnologia moderna, muito chique e atual, mas que ao ter seu véu retirado, mostra a mesma incapacidade de tratar com questões como a relativa aos gays, por exemplo. Nenhuma catequese ou evangelização que não estejam dispostas a ir ao encontro das pessoas podem ser consideradas algo diferente de uma maquiagem.
Em segundo lugar, destaco que ao nos desvelar o mecanismo do bode expiatório, Girard nos oferece a possibilidade de fazer uma autocrítica institucional constante. Isso em termos eclesiásticos talvez seja a contribuição mais interessante, se é que estamos dispostos a fazê-lo. A partir do Cristo ressuscitado, da vítima que está no nosso meio, começarmos a ser autocríticos com os posicionamentos vitimários de nossos mecanismos eclesiásticos. Mesmo fora do âmbito da igreja isso é algo de fundamental importância.
Na sociedade moderna nos damos conta do quanto pesam as instituições sobre nós. Como seres humanos dependemos fatalmente das instituições. Ao mesmo tempo, nos damos conta de que elas nos movem fora do nosso controle. É difícil tomarmos responsabilidade por nossa vida institucional. As vozes dissonantes são as de pessoas “jogadas fora”, que passam a protestar e se colocar contra essas instituições. Por isso a possibilidade de uma vivência autocrítica, que não tem necessidade de recorrer a estes jogos vitimários, seria um dom muito, muito grande para nós todos.
veja também: James Alison: O amor homossexual. Um olhar teológico-pastoral
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Igrejas Ecocidadãs na Rio+20
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quinta-feira, 7 de junho de 2012
A cura do cego desde o nascimento
ou
Enxergar
ou não, eis a questão
Eduardo
Ribeiro Mundim
Este
episódio talvez seja um dos mais conhecidos do Evangelho segundo
João.
O
Cego
Diferente
do cego de Jericó (Lc
18.35-43) que bradou insistentemente “Jesus, filho de Davi, tem
misericórdia de mim” e, respondendo ao questionamento de Jesus
solicitou-lhe a cura, o de Jerusalém (Jo
9) nada pediu. Parece que ele foi involuntariamente convocado a
participar de um drama de alta carga emocional, simbólica e
teológica. Cego de nascença (9.1,20), era figura conhecida onde
esmolava (9.8). Não é possível determinar sua idade, mas já
contava com anos suficientes para responder por si (9.21) – e a
introdução o coloca como “homem”, e não jovem. Portanto, uma
pessoa que nunca enxergou, supostamente avaliada pelos médicos da
época e submetida aos tratamentos oficiais e populares1
de então (o que inclui o uso de barro sobre os olhos2).
Sua situação familiar não é discutida no texto, mas é bastante
curiosa a reação dos seus pais frente ao milagre. Ao contrário do
filho, que enfrentou com ousadia crescente as autoridades da época,
estes acovardaram-se (9.21) não o defendendo nem se posicionando
sobre um milagre extraordinário na vida do filho. Este dado permite
imaginar que o cego não estava inserido em um ambiente familiar de
proteção e de amor.
Cegueira,
seja congênita ou adquirida, não era incomum no oriente médio
naquela época, por diversos fatores. A lei mosaica não dispunha de
uma regulamentação especifica sobre o cuidado com os cegos.
Provavelmente porque sua ideia básica era a de que não deveria
haver pobre na terra, sendo a solidariedade uma ação efetiva, e não
uma vaga ideia. Especificamente, a libertação de todos os escravos
no ano do jubileu, a proibição de tratar o devedor que se vendia a
si mesmo como escravo (Lv
25.39) e a obrigação de sustentar aquele que empobrecia (Lv
25.35). É curiosa a evolução para o conceito de desonra da
mendicância profissional (que, segundo a Lei, não deveria existir):
os fundos caritativos das comunidades judaicas não podiam ser usados
para auxiliá-los3.
A situação na época de Jesus deve ter se acentuado pela falta de
uma política de cuidados para com o pobre, assim como pela excessiva
taxação romana4.
Ainda
que excluído de diversas situações sociais pela deficiência
visual, estava inserido na sinagoga – pois dela foi expulso (9.34).
Se fosse descendente de Arão, estaria excluído do ofício
sacerdotal (Lv
21.17-20).
Os
Fariseus5
Como
grupo dentro do judaísmo daquela época, sua origem pode remontar ao
tempo de Esdras, e da construção do segundo templo. Eles parecem
ter surgido como consequência do estupor provocado pelo exílio:
como era possível para a raça dos filhos de Abraão, Isaac e Jacó
amargarem o exílio? como era possível que das doze tribos, dez
tenham desaparecido enquanto tais? A resposta, biblicamente
enraizada, encontrada por eles, foi "não termos cumprido a lei"
(Dt 28)6.
Impactados
pela dura lição da realidade, diligentemente procuram um recurso
para nunca mais caírem no mesmo erro. Cheios de desejo de fazerem a
vontade de Deus, escrutinam a Lei e dela extraem regras para que
jamais um judeu piedoso não tivesse referência sobre qual era a
vontade expressa de Deus para uma determinada situação. Tornam-se,
assim, os maiores especialistas nas escrituras de então. Dentre as
diversas escolas, ou seitas judaicas desta época, parecem ser os
mais populares entre o povo (os saduceus, por exemplo, eram elitistas
e muito mais favoráveis a aplicação literal da Lei) e os mais
democráticos.
Frente
ao milagre, o povo conduz o ex-cego aos fariseus; não aos saduceus
(classe economicamente mais abastada e com ligação política com o
dominador romano), ou aos sacerdotes (que eram do partido dos
saduceus), já que, diferentemente da “lepra”, não havia
disposição legal para que a cura fosse investigada. E por que o
fazem?
O
Milagre
Esta
cura não pode ser classificada como de uma “doença
psicossomática”, já que o cego assim o era desde seu nascimento –
portanto, fora de uma das definições modernas de doença
psicossomática: o corpo adoece, verdadeiramente (e não em uma
simulação, como na histeria), em função de conflitos sobre os
quais nada pode saber (chamados de inconscientes7).
Diversas
pessoas que o conheceram cego o veem agora enxergando, incluindo os
pais. Mas muitos duvidaram da sua identidade. Portanto, não pode ser
tratada como um caso de hipnose ou histeria coletiva, e nada há no
texto que corrobore esta tese.
A
história poderia ser encarada como uma lenda piedosa, com o intuito
de infundir bons sentimentos e ideais altruístas, além de
transmitir um ensino importante (por exemplo, que as doenças ou
eventos ruins não são, necessariamente, castigo divino). Se assim
fosse, o milagre seria um “recurso pedagógico”, Jesus seria
então um homem com boas ideias, destituído de poder real,
proclamando, em uma permanente loucura, ser o que não era (Jo
4.26, Mc
8.29, Jo
8.58). O evangelista, um contador de lendas, destituído de
comportamento a altura daquele estimulado pelo seu texto – um
embuste. Se este milagre não é verdadeiro, então não há razão
para se acreditar na gravidez sem relação sexual de nenhuma espécie
por parte de Maria, assim como a ressurreição deixaria de ser
crível. Estes dois eventos, por si só, minam todo o edifício do
Evangelho, tornando toda a esperança que ele traz uma fantasia sem
consequência nenhuma (I
Co 15).
Por
outro lado, por qual razão esta história não seria verdadeira?
Assumindo a identidade de Jesus como Filho de Deus que se fez homem
uma única ocasião na história da humanidade (portanto, fora da
possibilidade de verificação “científica”) qual a dificuldade
em acreditar no evento? A disposição preconceituosa de não se
acreditar em milagres?
Mas
este texto não fala do milagre em si, que é o aspecto de menor
importância, mas do que estava envolvido nele.
Os
dois principais atores do drama
Curiosamente,
neste evento Jesus não é o ator principal – é o secundário. O
centro do drama é o cego, ou as consequências da sua cura. E as
primeiras palavras dEle nesta história informam que ela é uma
manifestação da obra de Deus (9.3).
Contracenando
com ele, o segundo personagem, desta vez coletivo, os fariseus. Não
todos certamente, mas um certo número deles. Aqueles que
acompanhavam Jesus estariam entre eles (9.40)?
É
necessário observar como Jesus se ausenta da cena, e como Ele
retorna. Em contraste com a cura de outro cego (Mc
8), Ele não está presente para ser encontrado pelo ex-cego na
sua volta do tanque de Siloé.
A ausência é a chave para que a multidão8,
que não sabe o que ocorre, procurar aqueles que melhor poderiam
explicar fenômenos miraculosos – os fariseus. Estudiosos e
intérpretes experientes da Lei, poderiam fornecer a orientação
sobre o que acontecera, já que o provocador – Jesus, se retirara.
Este detalhe também parece único entre todos os milagres que Ele
realizou.
Jesus
retorna após o clímax, e se apresenta ao ex-cego aparentemente de
forma discreta, sem alarde. Em contraste com Mc 8, a cura se tornou
objeto de uma acalorada e apaixonada discussão, com implicações
sociais sobre a parte mais fraca.
Uma
Questão teológica
Qual
é a questão nesta história?
Ela
se inicia com a palavra “pecado”9,
e se encerra com ela: “Mestre, quem pecou...” (2) e “não
seriam culpados de pecado” (41).
Quem
pecou, o cego ou os pais? A questão sugere uma tensão teológica. O
profeta Ezequiel deixa claro que cada um leva as consequências do
seu pecado (Ez
18), mas, pelo menos do ponto de vista coletivo, toda a nação
amargava a derrota e a humilhação porque os pais não seguiram a
Lei como deveriam, e foram castigados com o exílio. É provável que
esta tensão estivesse no inconsciente de todos10.
Segundo
Josefo, fazia parte da crença dos fariseus a reencarnação como
modo de castigo11.
Esta crença não era uma unanimidade entre os judeus (os essênios e
os saduceus tinham pontos de vista diferentes). Mas o conceito de
calamidades enquanto castigo pelo pecado, assim como a possibilidade
da criança pecar ainda dentro do ventre materno, eram compartilhados
por muitos12.
Portanto, a questão levantada não era absurda, ainda que fosse
estranha às Escrituras veterotestamentárias.
E
a resposta de Jesus foi contrária a estes conceitos. Aquela cegueira
não era resultado do pecado de ninguém, mas era uma oportunidade
para a obra de Deus se manifestar naquela vida. Ou seja, às ideias
de então que procuravam explicar a presença do mal no mundo, Jesus
retoma o mistério dos sofrimentos do justo Jó. Assim como todas as
suas desventuras não tinham explicação nos seus atos, mas em fatos
muito além da sua possibilidade de conhecimento, todo o sofrimento
daquele homem faria sentido pela ação manifesta de Deus nele, e
que, até aquele momento, estava encoberta para todos13.
Jesus
introduz uma outra questão teológica, inédita – Ele era a luz do
mundo, e estava no tempo de realizar a obra de quem O enviou (9.4-5).
A questão não era o pecado cometido por alguém, mas que Deus tinha
uma obra a realizar / completar.
A
rigor, um cego de nascença é uma obra inacabada. Segundo Gênesis,
o homem foi formado do pó da terra, e é este pó que vai completar
aquela criação não terminada14.
Ao aplicar-lhe lama, feita com sua própria saliva, Ele invoca o ato
criador primordial de Deus – invocação poética e teológica
através de um ato que, naqueles tempos, poderia ser encarado com
“médico”.
Neste
ato inédito (9.32), Ele apresenta, dentro da tradição do Velho
Testamento de revelação a partir de aspectos cotidianos ordinários
(vide o profeta Oseias), a questão teológica que interessa: Ele
veio completar a revelação de Deus através de si mesmo, e esta
cura é uma demonstração de poder humilde (não há fanfarra, fogos
de artifício, trilha sonora ou aplauso da multidão) e de afirmação
de autoridade enquanto Filho Unigênito.
Uma
vida transformada
Até
que voltasse do banho em Siloé, o cego não se pronuncia. Ao
retornar, pelo milagre de não mais ser cego, ele passa a ser
percebido de modo diferente por aqueles que antes o conheceram.
A
cegueira o excluía da vida em comunidade. Caracterizava-o como um
fardo social, incapaz de produzir seu próprio sustento e
necessitando da “caridade alheia”. Ritualmente, o tornava inapto
para o sacerdócio, se fosse descendente de Arão – apenas os
fisicamente sem defeitos podiam oficiar. Aquele com algum defeito
estava ritualmente inadequado e como impedir que uma impureza
litúrgica fosse entendida como defeito moral?15
O
ato de completar a criação que Jesus executa o introduz na
sociedade do seu tempo. E a adoração do ex-cego a Jesus, ao final
da história, reconhecendo-o, o introduz na nova comunidade que Deus
propõe, a ser formada após as morte, ressurreição e ascensão de
Jesus.
Por
outro lado, o ato de completar a criação que Jesus executa o
direciona a um rápido caminho de exclusão. Conduzido aos doutores
da Lei para que aquele ato, que não tinha paralelo até então,
fosse explicado, ele corajosamente toma parte em um acalorado debate
sobre uma segunda questão teológica: sua cura era obra divina?
Os
fariseus se dividem: de um lado, um ato maravilhoso, inacreditável –
portanto, somente poderia ser divina; do outro, o questionamento se
Deus atuaria ao arrepio da Lei, que ordenava o descanso no sábado (e
o autor do milagre parecia tê-la violado em dois atos: praticado um
ato de cura não emergencial através de barro recentemente feito).
Em
poucas horas, o ciclo exclusão / inclusão se repete: excluído pela
cegueira congênita, incluído pelo milagre de receber a visão (e
não de restaurá-la, porque nunca a tivera), excluído por decisão
política da sinagoga, incluído na Igreja por sua confissão.
O
preço da unidade farisaica16
Os
especialistas na Lei são provocados pela multidão a explicar aquele
fato. O primeiro passo na investigação, é ouvir o causador do
problema. Como os fatos se sucederam? (9.15). Fora feita lama e
aplicada aos olhos, no sábado. Eis a primeira questão: um suposto
milagre realizado através da violação da Lei – e, no caso desta
lei específica, instituída no ato da criação do mundo, muito
antes da outorgada no monte Sinai. Se houve uma violação, há um
pecador – pode Deus atuar através de um pecador? (9.16) Há uma
divisão em função de um fato que desafia a teologia estabelecida.
A vida questiona a teoria.
A
dúvida não era sobre o fato de Jesus ser pecador – nisto parece
que todos estavam de acordo. A dúvida era se Deus todo santo poderia
agir através de um pecador. O que foi feito do restante das
Escrituras? Neste momento, a critica de Jesus17
ao sistema ético-teológico dos fariseus de sua época ganha um
exemplo prático: o sistema casuístico que deveria protegê?-los de
infringir a Lei (e, portanto, desagradar a Deus) a substitui.
Não
sendo possível encontrar uma saída teórica, devolvem a questão ao
curado: “você, que sofreu a ação, qual é o seu parecer?”
(9.17) E ele lhes devolve o problema: “é um profeta”. Sem entrar
na disputa teológica, ele assume o caráter miraculoso da cura e sua
origem divina.
O
próximo passo é questionar o fato (9.18). Os pais são convocados a
responder dois quesitos: aquela pessoa era o filho deles nascido
cego? Como deixou de sê-lo? Não sendo possível negar a paternidade
nem a maternidade, temerosos, respondem afirmativamente à primeira,
mas se esquivam da segunda (9.20,21). E por que o fazem? Para não
serem excluídos, pois a decisão de expulsar quem conferisse
autenticidade divina ao fato fora tomada e parece que era pública
(9.22). A unidade restaurada às custas da negação da realidade, da
recusa de rever conceitos, do medo de abandonar a zona de conforto.
Restava
o teimoso do curado, e para ele é direcionado um ultimato
conciliador: “dê a glória do fato a Deus, mas negue a autoridade
do agente” (9.24). Honestamente, ele responde não ter condições
para falar do agente, que ele apenas conhece pelo nome de Jesus – e
não há indicação de algum outro conhecimento. Mantem a única
verdade que conhece: “eu era cego, e agora vejo” (9.25).
Concedendo-lhe,
talvez didaticamente, uma nova chance, os fariseus requerem novamente
um relato dos fatos (9.26). Talvez na expectativa de perceberem algo
de demoníaco, ou do ex-cego perceber. No lugar de morder a isca, ou
aceitar a sugestão, ele demonstra sua compreensão crescente dos
fatos. Talvez por não ser fariseu, o que o liberava da lealdade a um
esquema fixo para interpretar a vida e seus fatos. Mas não sem uma
compreensão teológica da questão que dividira o grupo. E ele a
retoma nos termos deles: o milagre aconteceu → é absolutamente
inédito → retoma o ato criador primordial → Deus não opera
através de pecadores, mas foi este Jesus que conduziu a história →
não há explicação para sua origem → logo, não é possível ser
ele pecador (9.30-33).
Mantendo
a unidade do grupo, escamoteiam a questão teológica inicial e se
refugiam no desafio a autoridade. Expulsam-no após desacreditá-lo,
ancorados em uma teoria não unânime: suas palavras não podem ser
divinamente inspirada porque ele nascera cego em função dos
inúmeros pecados cometidos intraútero. E o fazem comparando-o a
eles mesmos, como cheios de retidão (Lc
18.10-14).
Conclusão
O
que deve ser enxergado?
Os
fariseus que acompanhavam Jesus foram alertados: manter-se cego
quando se vê a possibilidade de enxergar, é pecado.
Por
extensão, as atitudes embasadas na visão que poderia ser
transformada, mas é escolhido não fazê-lo, são pecado.
Foi
pecado os fariseus terem negado a questão teológica trazida por um
fato novo.
Foi
pecado contra o seu próprio sistema os fariseus terem excluído o
fraco, no lugar de buscarem compreender o novo fato e reavaliarem seu
sistema a partir de uma nova compreensão. Não que fossem obrigados
a remodelá-lo, mas a tarefa que puseram sobre seus próprios ombros,
um sistema que lhes permitisse sempre descobrir / cumprir a vontade
de Deus em todas as situações, os obrigava a um exercício
intelectual ao qual se recusaram.
1não
há razão para se imaginar que aquela sociedade se comportasse, no
tocante à busca de saúde, diferente da nossa atual, usando
recursos domésticos e profissionais
2Novo
dicionário da bíblia, vocábulo “doença e cura”, vol I, pag
440, 3ª ed, Edições Vida Nova, 1979
6HLE,
vocábulo “fariseus”, em JD Douglas O Novo dicionário da
bíblia, Edições Vida Nova, vol II, 1979, pg 605.
7Filho,
Júlio Melo. Psicossomática hoje. Ed Artes Médicas, Porto Alegre,
RS. 1992
8É
possível falar de duas multidões. Aquela que andava atrás de
Jesus e aquela que estava estática no local onde o cego esmolava. A
primeira deve ter acompanhado os atos, mas seguiu com Ele em frente;
a segunda, talvez nem tenha tomado conhecimento até o retorno do
não mais cego.
9Alison,
James. Fé além do ressentimento – fragmentos católicos em voz
gay. É Realizações. SP, SP, 2010, pg 36.
11Josefo,
Flávio. História dos hebreus. Casa Publicadora das Assembleias de
Deus, vl 2, pg 154, 1990, RJ, RJ.
13O
Rev Jorge Eduardo Diniz corretamente apontou que a resposta de Jesus
afasta por completo a possibilidade da reencarnação ser uma
possibilidade bíblica
14Alison,
op cit, pg 39
15Alison,
op cit, pg 38
16Alison,
op cit. Pg 42-49
17http://crerpensar.blogspot.com.br/2010/07/jesus-e-os-fariseus-uma-analise-de-um.html
texto atualizado em 15/07/12 com as observações 10 e 13
texto atualizado em 15/07/12 com as observações 10 e 13
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