terça-feira, 16 de julho de 2013

A NEGAÇÃO E A RESTAURAÇÃO


Lucas 22.31-34; 54-62


Jorge Eduardo Diniz*

Um dos discípulos de Jesus o traiu, Jesus o sabia, Judas o entregou às autoridades religiosas que planejaram sua morte, e fez esta atrocidade por trinta moedas de prata. Depois de experimentar a dor dessa traição Jesus experimenta a rejeição de um dos seus melhores amigos, um de seus discípulos íntimos; Jesus vivencia a negação de Pedro. Aquele que viveu três anos e meio com Jesus; que viu Jesus curar a sua sogra; que fez milagres em nome d’Ele; que experimentou milagres em si mesmo; que andou sobre as águas; que, com seus próprios olhos viu o Cristo transfigurado conversando com Moisés e com Elias e ouviu a voz do Pai a respeito do Filho; que recebeu a revelação do Pai que Jesus era o Filho de Deus; agora, nega conhecer a Jesus.

Todos nós caímos, experimentamos erros, vacilos, e ainda vacilaremos muito. Chamamos isto de QUEDA, decadência, perda de crédito, ato de cair. A palavra “queda”, nas Escrituras Sagradas, designa o afastamento do estado de inocência do homem para o estado de corrupção que predomina na humanidade. A história da queda é narrada em Gênesis 3. A doutrina do pecado original, como resultado da queda do homem, é explicada em Romanos 5.12-21 e em I Coríntios 15.22, 44 e 47.

Em nossos caminhos trilhados, quem nunca negou ao Senhor? Quem nunca trilhou o caminho da autossuficiência, abandonando a dependência divina, querendo algo que alguns chamam de liberdade, distorcendo o conceito da liberdade que Cristo disponibiliza à humanidade, vivendo apenas com suas próprias regras, rejeitando qualquer normatização, inclusive religiosa, tratando com desdém a espiritualidade, o Sagrado e a pessoa de Deus. Há uma sequência muito perigosa e sutil no caminho da negação. Pedro vivenciou este caminho, penso que para deixar um ensinamento eterno para cada um de nós: aprendamos com ele, não precisamos passar pelo caminho doloroso que Pedro trilhou.

PEDRO NÃO ORAVA MAIS COM JESUS (Mc 14.32-38). Depois de tomar a Ceia com seus discípulos Jesus foi para o Jardim do Getsêmani com os que estavam mais próximos dele, com seus três discípulos mais íntimos: Pedro, João e Tiago. Jesus orava e os três dormiram. Propositadamente, penso, Jesus chama a atenção de Pedro quando todos dormiam, dizendo: “Simão, dormes? não podes vigiar uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. Parece-nos que Jesus tenta “abrir os olhos” de Pedro para o que estava para acontecer. Como se a oração fosse a arma que Pedro pudesse utilizar para não ser tentado, como se a comunhão com o Pai em oração fortalecesse a Pedro. Pedro não deu importância à oração, foi dormir por três vezes sucessivamente diante da tragédia que estava por vir.

E nós? Será que repetimos a ação de Pedro? Será que também não damos o devido valor a oração? Será que estamos propensos a muitas tentações por não cultivarmos uma relação saudável com nosso Pai celeste através de uma vida de oração. Oremos sem cessar e sejamos fortalecidos.

Depois de não dar o devido valor à oração, PEDRO NÃO OUVE MAIS AS PALAVRAS DE JESUS (Lc 22.49-50). Logo chegaram os soldados e os sacerdotes para prenderem a Jesus; e Judas, o traidor, com eles para apontar, com um beijo, quem era Jesus. Uma pergunta é feita a Jesus: “Senhor, feriremos á espada?” E Pedro não espera a resposta do Senhor e logo corta a orelha do servo do sumo sacerdote. Jesus intervém dando um basta e curando o que tivera a orelha cortada. Pedro não esperou a resposta de Jesus; faz uma pergunte e age com seus próprios impulsos. Aquele que tinha adormecido agora queria mostrar que era capaz de entregar a vida pelo seu Senhor lutando por Ele, mas não era essa a vontade do Senhor. Quantas vezes também agimos assim, pedimos a Deus uma direção e logo tomamos o rumo que melhor nos parece.

Então, diante da pressão da prisão de Jesus, PEDRO NEGA SEU ENVOLVIMENTO COM JESUS (v. 54b), se afasta do Mestre. Aqui começa a negação do próprio Cristo, negando o envolvimento com Ele, se afastando d’Ele, negando o envolvimento com seu povo, com sua igreja, com seu Reino e com sua justiça. Muitas desculpas são dadas: “Eu não sou religioso; vou à igreja apenas por costume”; “Eu sou crente, mas nada me impede de dar um jeitinho em meus negócios”; “Eu gosto dos cultos, mas me envolver mesmo, não dá!”. Envolvimento requer responsabilidade, tempo, vida partilhada, compromisso e muito mais.

Depois de negar o envolvimento com Cristo, PEDRO ASSUME UMA POSSIÇÃO ERRADA (v. 55b), e nós repetimos seu comportamento, começamos a conviver com traidores, com aqueles que, de fato, não querem nada com Deus, com os que O negam também. A questão aqui não é as relações saudáveis com os que não são cristãos, relações que são muito saudáveis para todos nós; o problema é outro, e muito mais sério: é quando nos refugiamos e nos envolvemos com os que negam publicamente o Cristo libertador, negamos o envolvimento com Cristo e assumimos o envolvimento com os que são contra o Cristo. O salmista desde a antiguidade nos alerta para que “não andemos segundo o conselho dos ímpios, nem nos detenhamos no caminho dos pecadores, nem nos assentemos na roda dos escarnecedores” (Sl 1.1). Negociamos o inegociável, baixamos o nível de nosso vocabulário, começamos a compactuar com corruptos, a aceitar e conviver com a ilegalidade e arranjamos desculpas mirabolantes para adultérios e impurezas. E assim vai vivendo a humanidade sem Deus.

Após negar o envolvimento com Jesus e assumir uma posição errada, PEDRO NEGA QUE CONHECIA A JESUS (v. 57), será que fazemos isto também? Será que quando não consideramos o que falamos e esquecemos que tudo o que é proferido tem consequências; será que quando não refletimos nos desdobramentos de nosso comportamento, das posições políticas que assumimos, ou das que não assumimos; ou ainda quando nos rendemos a alguma teoria ou filosofia que nos parece agradável e lógica mas que, de fato, a Deidade está sendo integralmente desconsiderada, rechaçada e tratada com desdém, como se Deus fosse o resultado ou o reflexo da mente culpada da humanidade; não estamos, de fato, negando também todo o nosso conhecimento da pessoa de Cristo?

PEDRO PERDEU SUA IDENTIDADE (v. 58), às vezes, ou muitas vezes a identidade de cada um de nós se torna turva, confusa e não conseguimos responder nem dar a razão de nossa fé. Envergonhamo-nos diante de doutores, de mestres, das academias, dos mais abastados, esquecemo-nos da salvação toda para o homem todo e nos encontramos com medo, inclusive da morte, já a esperança não se encontra mais em nossos corações!

A vivência da negação de Pedro também traz um caminho para a RESTAURAÇÃO. Se algum de nós se encaixa em algum desses exemplos e gostaria de sair desse processo de negação, observemos o fim dessa história:

Quando confrontado com o olhar de Jesus, que, para mim não poderia ser um olhar de condenação, mas de compaixão, de confronto amoroso; consciente de que Jesus o conhecia totalmente, o tinha advertido a respeito de sua atitude de negação e que sabia que ela já tinha acontecido, PEDRO SE LEMBRAR DA PALAVRA DO SENHOR (v. 61) e se conscientiza de seu erro, de seu pecado. Primeiro passo para nós: conscientizarmo-nos de nossos erros e pecados e retornarmos para a Palavra de Deus, para as Escrituras Sagradas, pois só nelas há palavras de vida eterna.

Depois de se lembrar da Palavra de Jesus, PEDRO SAI DO LUGAR DE NEGAÇÃO (v. 62). Excelente exemplo para nós que precisamos refletir sobre onde estamos, se o lugar onde estamos é um lugar onde negamos o Senhor. Esse lugar de negação pode ser um relacionamento não muito saudável, um namoro, uma sociedade, um trabalho, uma opção de lazer, uma conduta nos negócios, nos impostos, a maneira como relacionamos com nossos familiares, a educação de nossos filhos, o tratamento para com nossos pais, etc. Precisamos SAIR DE ONDE NEGAMOS O SENHOR. Dependemos disso para viver.

Pedro se lembra da Palavra de Jesus, sai do lugar onde o negou e SE ARREPENDE (v. 62) chorando amargamente. Não apenas em um remorso vazio, raso; aqui Pedro chora com dor, com amargura diante de seu pecado, de sua má postura. Só a consciência do pecado trazida pelo olhar do Senhor pode gerar esse arrependimento que é a principal defesa contra a negação (Tg 4.4-10). Talvez Pedro se lembrara do que ouviu de seu Mestre quando Ele pregara às multidões que “bem-aventurados são os que choram, porque serão consolados” (Mt 5.4). Consolo que Pedro precisava, que era essencial, vital naquele momento. Mas será que ele o receberia? Será que Pedro acreditava que teria solução para sua tamanha negação? Ele conhecia seu Senhor e sabia que, em algum momento, ele seria consolado em tamanha dor.

Jesus mostra o caminho oposto ao da negação através do perdão e da restauração da fé. Talvez muitos de nós podemos estar decepcionados com o nosso Jesus, provavelmente já o negamos e também já choramos por aquilo que fizemos. Jesus conhece-nos bem e está sempre disposto a nos consolar, Ele não nos nega, Ele olha para nós com compaixão e conforta-nos.

Na manhã da ressurreição Jesus aparece a algumas mulheres (Mc 16.6-7) e manda um recado aos discípulos e especificamente a Pedro, àquele que o negara e que se arrependera. Consolo real chega ao coração de Pedro quando fica sabendo que o Senhor lhe manda um recado, que Jesus ainda se importava com ele, que ainda contava com ele.

Na ocasião da pesca dos cento e cinquenta e três grandes peixes, quando Jesus aparece na praia, depois da ressurreição, para os sete discípulos, incluindo Pedro, Jesus tem um dialogo libertador com Pedro (Jo 21.15-23) onde Pedro reconhece que Jesus sabia de tudo, sabia de sua própria fraqueza, que também o amava, onde Jesus o comissiona a apascentar as suas ovelhas e a O seguir.

Confiemos no caminho do perdão e da restauração de nossa fé diante das dores provocadas por nossas negações. Nesse caminho Jesus se importa conosco, cura nossas almas, traz de volta a esperança, nos faz discípulos e instrumentos seus comissiona a cada um de nós e ordena que sigamo-Lo.


sermão pregado em 14/07/2013 – Segunda Igreja CM e CV

Eleições Limpas


Contamos com sua participação e apoio a esta decisão da Aliança




Irmãos e irmãs, saudações e paz em Cristo.
Este é assunto é muito importante e solicitamos sua atenção para o que segue.
Nos últimos dias o Conselho Gestor de nossa Aliança, com o grupo de assessores e sua equipe executiva trabalhou arduamente para, através de oração, conversas, troca de e-mails, buscar discernimento sobre a conjuntura brasileira à luz dos acontecimentos das últimas semanas. No dia 19 de junho fizemos uma declaração, à luz dos fatos e em coerência com nossa declaração anterior, de fim de fevereiro, "Por uma Igreja Participativa e Cidadã".
Os irmãos e irmãs devem ter lido e ouvido algumas falas de nosso meio evangélico sobre como os movimentos das ruas e praças poderia tomar a forma de encaminhamentos mais concretos para as mudanças que se fazem necessárias em nosso Brasil, a fim de aprimorar nossa democracia e manifestar mais da justiça de Deus em nossa sociedade.
Assim, tomamos a decisão de apoiar a campanha "Eleições Limpas", do mesmo movimento que conduziu a projeto de iniciativa popular "Ficha Limpa".
Abaixo há várias informações para que os demais integrantes da liderança da Aliança, seus filiados e o povo evangélico, entendam essa tomada de decisão o quanto ela é importante neste momento da vida brasileira.

Nós esperamos que você caminhe com a Aliança fazendo o seguinte:

1. assine em apoio ao projeto de lei por iniciativa popular, conforme orientações abaixo;
2. compartilhe nossa participação nesta campanha com outras lideranças evangélicas de seu relacionamento;
3. compartilhe também através do Facebook, se você tem uma conta lá;
4. baixe o formulário com a lista para colher assinaturas e faça uma campanha por assinaturas em sua igreja ou organização e envie-nos por correio.
PRECISAMOS CHEGAR A 1 MILHÃO E 600 MIL ASSINATURAS EM TODO O BRASIL ATÉ FIM DESTE MÊS DE JULHO.


Porque a Aliança Evangélica Apoia Campanha "Eleições Limpas"

Depois do sucesso do projeto de iniciativa popular "Ficha Limpa", chegou a vez da campanha por "Eleições Limpas". Sob a liderança do MCCE (www.mcce.org.br), com a participação de um grande coletivo de organizações e pessoas por todo o Brasil, precisamos coletar 1 milhão e 600 mil assinaturas até o fim deste mês de julho, para dar entrada em proposta de Reforma Política por iniciativa popular. O movimento "Eleições Limpas" já está na Internet, em eleicoeslimpas.org.br. Conheça as organizações que apoiam no site acima, clicando embaixo na aba "embaixadores".
O Sistema Eleitoral vigente é o mesmo desde 1932. Por não ter sido atualizado, trouxe até os nossos tempos os problemas de uma cultura política personalista, clientelista e incompatível com o século XXI. Os principais problemas do atual sistema são:
  • personalismo;
  • muitos candidatos e poucas propostas consistentes;
  • caro e demandante de grandes recursos financeiros;
  • estimula a transferência de votos;
  • criminalização do uso da internet e das redes sociais.

O que muda com as "Eleições Limpas"?

  • retira as empresas do financiamento de campanhas;
  • menos candidatos e mais propostas;
  • mais liberdade de expressão na internet.
Conheça a proposta do Projeto de Lei por iniciativa popular na íntegra neste link:
http://eleicoeslimpas.org.br/assets/files/projeto_de_lei_eleicoes_limpas.pdf?1371963119
Vote pela Internet em: eleicoeslimpas.org.br
Vote pelo Facebook: https://www.facebook.com/queroeleicoeslimpas


Outras considerações sobre o apoio evangélico a "Eleições Limpas"

  • Esta proposta trabalho com o que é necessário, possível, viável, alcançável agora, de modo prático e objetivo, sem idealizar para fora da realidade e possibilidades do Estado de Direito.
  • Movimento "eleições limpas" está propondo projeto de lei popular. Não propõe plebiscito, referendo ou constituinte. Estes três expedientes demandam muito mais tempo de realização e não alcança as próximas eleições.
  • A mudança da legislação eleitoral (leis ordinárias) não depende de plebiscito, o que é mais simples que mudança constitucional (quórum, votações, processo, que são diferentes).
  • Não apoiar iniciativas como estas implica em deixar as coisas estão (não afirmar mudanças), beneficiando e mantendo atual sistema, em dissonância com o senso de justiça da sociedade como um todo.
  • "Eleições Limpas" não muda o sistema proporcional para distrital (que seria matéria constitucional) – propõe sim a alteração dentro da legislação vigente no sentido das eleições proporcionais serem também em dois turnos (deputados e vereadores, quando for o caso) – primeiro se vota num partido e num segundo turno num candidato dentro de uma lista (elaborada a partir de eleições internas do partido), conforme as vagas obtidas pelo partido no primeiro turno.
  • Mantém coligações, mas sem permitir o acumulo de verbas para campanhas (o que em tese favorece oposições) e fortalece partidos (perde mandato quem mudar de partido).
  • Empresas não podem doar e há limites de verbas por candidatos (democratiza e dá oportunidades a candidatos que não representam o capital).
  • Estimula a participação feminina.
  • Torna mais transparente os gastos de campanha e prestação de contas, criminalizando e penalizando práticas "sujas" (ante-éticas e ante-democráticas).
  • Aprimora regulação da propaganda eleitoral, inclusive no uso da internet.
  • Dispõe sobre o financiamento das campanhas eleitorais e o sistema das eleições proporcionais, alterando a Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 (Código Eleitoral), a Lei no 9.096, de 19 de setembro de 1995 (Lei dos Partidos Políticos), e a Lei no 9.504, de 30 de setembro de 1997 (Lei das Eleições), e sobre a forma de subscrição de eleitores a proposições legislativas de iniciativa popular, alterando a Lei no 9.709, de 18 de novembro de 1998. Esta Lei dispõe sobre ações e mecanismos que assegurem transparência no exercício do direito de voto, sobre financiamento democrático dos partidos e campanhas eleitorais, bem como sobre o controle social, a fiscalização e a prestação de contas nas eleições.

Avancemos com as mudanças possíveis e imediatas

Por certo, desejamos muito mais; mas temos diante de nós uma proposta prática e alcançável, para ser discutida e eventualmente melhorada pelos congressistas, de modo que possam valer para 2014. Vamos um passo de cada vez.
Não devemos confundir eventuais desgostos com políticos específicos, ou posições partidárias, com justas reformas do sistema político – esta mudança no sistema poderá resultar num parlamento melhor, que poderá fazer leis melhores, e até aprofundar mudanças no sistema eleitoral futuro.
Em Cristo, Pr. Wilson Costa, pelo Conselho Gestor.
Campinas, 4 de julho de 2013




www.aliancaevangelica.org.br


Evangélicos sob inquisiação - III

Eduardo Ribeiro Mundim

o bullying cristão

Na seção curtas e diretas da Revista Cristianismo Hoje, de julho-agosto 2013 (pg 7 da revista) há uma pequena nota: "adolescentes cristãos americanos estão se mobilizando contra o que chamam bullying cristão. Eles protestam por serem considerados "fanáticos" e de "mente fechada" pelos colegas e pedem mais abertura para expressões de fé nas escolas". (atalho)

Aprendi, no exercício de minha profissão de médico, a me colocar no lugar do meu cliente / paciente, a fim de ver o seu ponto de vista, ver sua queixa como se fosse minha. Adotando o mesmo procedimento, coloco-me no lugar de um ateu que escuta um crente dizer que ele não tem um comportamento aceito por Deus.
Bem, se meu comportamento é inaceitável, ele é imoral; e, por extensão, eu sou imoral. Mas eu não acredito nesta divindade, e não há lei que me obrigue a tal. Portanto, que direito esta pessoa tem de vir fazer um julgamento moral sobre mim baseada numa alucinação religiosa?

Ora, se nós queremos o direito de expor o que acreditamos ser o ensino de nosso Deus, Senhor e Pai, e falarmos claramente do pecado do outro, por que não dar o mesmo direito a este outro, que se recusa a reconhecê-Lo como Deus, ou Senhor, ou Pai, de expressar o que pensa a nosso respeito? Não usamos a expressão "terroristas islâmicos"? "fanáticos xiitas"? Mas eles não se consideram assim. Qual é, exatamente, o sentimento que temos ao ler o salmista que proclama "diz o tolo / insensato / néscio no seu coração: não há Deus"? Seria este sentimento o mesmo daqueles que nos chamam de "fanáticos" e de "mente fechada"?
Acreditamos em milagres. Maria era virgem e Jesus Filho do Deus Altíssimo. Morreu pelos nossos pecados.
Para o descrente, o que esta mensagem parece? ignorância? superstição?
Quando não se consegue sentar no lugar do outro, como mero exercício acadêmico, ou como recurso para um diálogo produtivo, não seria correto usar o adjetivo de "mente fechada"?
Posso dizer que o outro é imoral, mas ele não pode dizer o que pensa ao meu respeito?
Pelo que depreendi de alguns artigos do Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo, este tipo de comportamento, que se melindra com a opinião do outro, é infantilidade. Estou inclinado a concordar com ele quase que em 100%.

domingo, 14 de julho de 2013

Evangélicos sob inquisição - II

Eduardo Ribeiro Mundim

o caso feliciano
Suzana Singer, "ombudsman" da Folha de São Paulo levanta questões de técnica / ética jornalística importantes em uma de suas considerações sobre a cobertura do episódio Marco Feliciano (atalho). Mas há um aspecto neste caso que temos que considerar. O Feliciano acaba sendo o ícone do "jeito evangélico de fazer política". Por que ele, do baixo clero da câmara (apesar dos seus votos), suplanta uma figura como o ex-deputado mineiro do PT, Gilmar Machado, batista e político experiente?
Enquanto ícone do "jeitinho evangélico de fazer política" o Feliciano destrói, do meu ponto de vista, o esforço que outros evangélicos (que vou chamar de "sérios", como o Gilmar - nota de rodapé: por discordar de alguns deslizes dele, ele não recebeu meu voto na última eleição para a câmara federal) têm feito para ajudar na construção do país. Para ser exato, vejo como erros básicos do Feliciano (e do grupo de políticos que representa), que são prejudiciais (aos evangélicos reais e, até certo ponto, a causa do Reino):
  • visão de que temos que transformar a sociedade brasileira em uma extensão do Velho Testamento - uma teocracia dirigida por pastores evangélicos
  • visão de que temos uma mensagem política de qualidade superior às dos demais e de que estes erram imperdoavelmente ao recusarem esta mensagem
  • visão de que todos têm a obrigação de entender automaticamente nosso ponto de vista a partir de nosso linguajar próprio, não sendo necessário traduzi-lo para o comumente usado
  • a este último está ligada intimamente a visão de que os não crentes têm que se dobrar à ética escriturística mesmo não acreditando nela, ou em Deus ou deuses
  • como consequência final, a visão de que, inclusive enquanto políticos, os evangélicos são pessoas melhores que as outras, sempre tendo razão, por serem predestinadas por Deus àquela função legislativa

Nunca ouvi um político evangélico defender os pontos acima. Mas não são estas as ideias passadas de modo subliminar pelo discurso, pela postura, pelos atos? Não cabe nesta descrição o Silas Malafaia?
Não terá sido um grande erro político, com sérios danos aos evangélicos sérios, o Feliciano e companheiros terem se apossado da comissão de direitos humanos e numa manobra de 180º mudar seu percurso histórico em pouquíssimo tempo? Não foi uma insensibilidade? Não parece se encaixar nas observações que fiz acima?

terça-feira, 9 de julho de 2013

Evangélicos sob inquisição - I

Eduardo Ribeiro Mundim

o caso do pastor criminoso
não discordo que escândalos envolvendo líderes religiosos garantem uma renda extra aos jornais e semanários, das mais diversas ideologias. E se os evangélicos despontaram como força política nos últimos anos (e têm feito questão de mostrar seus "músculos") associam-se dois aspectos rendosos para a mídia: o político e o religioso.
há um aspecto que temos que pensar. Quais candidatos apresentam-se aos seus eleitores através de sua profissão? Já vi "dr fulano" (no caso, médico); mas não vi "psicólogo siclano", "advogado tal", "padeiro X". Mas já vi "bispo tal", "pastor qual", "padre fulano". Dentre as profissões, ou mesmo vocações, a mais próxima do divino é a sacerdotal. E do sacerdote se espera, injustamente, além do humano; se esperam projeções de fantasias que não podem ser reais. E talvez as pessoas nem se deem conta disto.
pois quando um pastor é flagrado cometendo crimes que, em nenhuma hipótese poderiam ter sido cometidos, ele cai na rede duas vezes: o político "corrupto" e o religioso "mentiroso" (que se fez passar por algo que não é).
além da questão do evangélico hoje ser vidraça à disposição de qualquer engraçadinho que queira quebrá-la, acredito existir esta outra, objetiva: o comportamento denunciado não é compatível com o título / rótulo que se apresenta publicamente. É possível que seja inocente. Mas foi então descuidado no seu ministério pastoral e flagrado em situação de dubiedade, que mina a confiança na sua vocação pastoral e desperta dúvidas honestas sobre sua retidão pessoal.
e a situação piora quando o pastor não é de uma denominação histórica (posso estar enganado, mas raramente a imprensa se refere ao protestantismo histórico como "seita"), pois graças a outros escândalos (ou situações difíceis de explicar - a mansão do Mário de Oliveira, por exemplo) ligados ao  uso do dinheiro ou às exortações pouco cuidadosas ao dízimo dentro da IURD já se parte do "pré-conceito" de que aquela comunidade de fé não é séria; apenas um meio de uma pessoa esperta enriquecer. E se esta comunidade tiver alguma peculiaridade pouco usual, pior ainda.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES POR TRANSPORTE PÚBLICO, SAÚDE E EDUCAÇÃO DE QUALIDADE E OUTRAS DEMANDAS

PRONUNCIAMENTO CC-IPU Nº 5
SOBRE AS MANIFESTAÇÕES POPULARES POR TRANSPORTE PÚBLICO, SAÚDE E EDUCAÇÃO DE QUALIDADE E OUTRAS DEMANDAS

“A injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta os céus” Rev. João Dias de Araújo

“Antes, corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene” Amós 5.24


O Conselho Coordenador da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil – CC-IPU no uso de suas atribuições, tendo em vista as recentes manifestações populares ocorridas nas principais capitais e cidades do país, torna público seu pronunciamento, na expectativa de contribuir para o amadurecimento do debate sobre a agenda apresentada pelos movimentos sociais e para o fortalecimento das instituições democráticas de nosso país, razão por que:

1. Reconhece que essas manifestações se revestem de caráter democrático e expressam o amadurecimento da democracia brasileira e insiste que a consecução dos objetivos desses movimentos deve se dar pela via do diálogo e da construção de interlocução política;

2. Rechaça qualquer tentativa de se tirar proveitos político-partidários desses movimentos, em especial com objetivos nas eleições majoritárias de 2014, principalmente para a Presidência da República;

3. Chama a atenção das autoridades constituídas do país, nas três esferas de poder, para a necessária interpretação correta dos anseios desses movimentos, reflexos de expectativas reais e simbólicas que são sistematicamente ignoradas por elas, em especial os anseios por transporte público de qualidade a tarifas justas, a rejeição à PEC 37 que retira poderes de investigação do Ministério Público, a luta por educação e saúde de qualidade em contraste com os excessivos gastos com construção e reforma de estádios para a realização da Copa do Mundo e a intolerância contra qualquer forma de corrupção;

4. Enaltece o caráter predominantemente pacífico das diversas manifestações e repudia os atos de vandalismo com depredação do patrimônio público e privado e lamenta a infiltração de pessoas estranhas ao movimento com intuito único de subtrair bens do patrimônio alheio;

5. Condena os atos de violência praticados por forças policiais de diversas unidades da federação contra manifestantes e jornalistas, num claro uso desmedido, desnecessário e desigual de força contra cidadãos no exercício democrático de seu direito de manifestar;

6. Lamenta as políticas públicas das últimas décadas que privilegiaram o transporte individual sobre o público, gênese da atual crise no transporte público;

7. Reconhece como medidas iniciais para a compreensão da situação atual a atitude de diversos prefeitos e governadores em revogar aumentos ou reduzir o valor das tarifas, mas insiste que o problema do transporte público de má qualidade persiste e devem ser buscadas soluções duradouras para o mesmo;

8. Conclama, por fim, toda a sociedade brasileira e a elite política para uma mudança mais profunda na estrutura de nossa sociedade, com o chamamento de reformas estruturais que promovam câmbios profundos em nossos sistemas político e tributário.

O CC-IPU conclama o povo de Deus que se congrega nesta igreja, que deve ser sal e luz neste mundo e lutar por justiça e igualdade de direito para todos e todas, que se una em oração e esforços, para que tenhamos uma sociedade brasileira justa, em que todos os cidadãos e cidadãs tenham acesso a transporte, educação e saúde de qualidade e que tenhamos um sistema político e tributário justo.

Este Pronunciamento poderá ser revisto ou revogado pela Assembleia Geral da IPU.

Vitória/ES, 25 de junho de 2013.

Presbª Anita Sue Wright Torres – Moderadora
Rev. Dagoberto Santos Pereira – Vice-Moderador
Presb. Wertson Brasil de Souza – 1º Secretário
Rev. Luciano Fuly – 2º Secretário
Presb. Obadias Alves Ferreira – Tesoureiro

domingo, 16 de junho de 2013

O ministro padilha errou?





Este é um assunto explosivo, que parece não render muita discussão na sociedade em geral, e nas igrejas. O que é, a meu ver, uma pena.

Será que o ministrou errou?

As críticas publicadas no semanário Carta Capital1 são absolutamente infundadas? Assinaria eu a réplica publicada no sítio da Ultimato2?

Organizando meus pensamentos, inicio pelo mais fácil: não há possibilidade da prostituição voluntária (não estou pensando, por exemplo, nas coreanas obrigadas a servirem sexualmente o invasor japonês na primeira metade do século XX), em qualquer uma de suas formas (voluntária, masculina, feminina, transgênera, cultual, etc), estar em consonância com as Escrituras cristãs. Não há lugar, no Reino de Cristo, para este ramo de atividade. Não é possível àquele(a) que “nasceu de novo” usar dos serviços do(a)s trabalhadore(a)s do sexo ou explorá-los de alguma forma.

O segundo pensamento fácil é a antiguidade e onipresença desta atividade. Provavelmente poucas culturas não a tem, ou nunca a tiveram. Possivelmente continuará a existir, na legalidade ou na ilegalidade, até a segunda vinda de Cristo.

Aumentando o nível de dificuldade, quantos que se manifestaram sobre este assunto já conversaram com prostituta(o)s? Quantos já ouviram suas histórias de vida, seus recursos para manter em segredo seu trabalho, ou a opinião de suas famílias? Quantos já se perguntaram e investigaram, deixando de lado o jargão e a visão romântica, sobre as razões da escolha por este mister?

O ofício do meretrício

Cada profissão solicita um perfil psicológico e social. Os perfis dos advogados não são os mesmos dos professores que não são os mesmos dos engenheiros que não são os mesmos dos cantores que não são os mesmos dos assistentes sociais que não são os mesmos dos médicos...que não são os mesmos dos trabalhore(a)s do sexo. Por exemplo, os profissionais da medicina, enquanto grupo, se caracterizam também pelo prazer sádico e de controle3. O que caracteriza o(a)s do sexo?

Algumas pesquisas4 sugerem a existência de 1,5 milhão de prostitutas no Brasil na década 2000-2010. As analfabetas chegariam a 4%, e as com ensino fundamental, 70%. Portanto, 26% possuiriam uma escolaridade maior. A maioria ganharia de 1 a 4 salários-mínimos mensais.

Gabriela Silva Leite5,6 é prostituta por opção desde os 22 anos de idade. Não por falta de condições econômicas, mas por se identificar e realizar-se nesta profissão. Vê no termo “puta” diversas conotações positivas7, e luta para valorizar esta profissão. Casada, mãe e avó. Publicamente reconhecida como prostituta. Será ela uma exceção? Será sua atuação uma doença? Pergunto: nossas opiniões e crenças sobre o mundo do meretrício fundamentam-se em informações indiretas moldadas em preconceitos ou em ouvir os envolvidos no assunto?

A questão da felicidade

Portanto, caminhando pelos trechos mais espinhosos, por que as prostitutas não podem ser pessoas autenticamente felizes? Afinal, o que entendemos por felicidade? Um estado permanente de satisfação, contentamento, bem-estar e sucesso? Se assim for, não há ser humano feliz, pois não há ninguém (apresente-se o que discordar) que seja diuturnamente, sem interrupção, feliz. Há momentos felizes, mais ou menos, na dependência de fatores externos e internos, controláveis e não controláveis, mesmo em cenários extremamente cruéis e degradantes, como nas guerras.

Rosana Schwartz aponta que suas pesquisas sugerem entre 5% e 6% as prostituas felizes com a profissão8. Dirceu Greco questiona se felicidade não estaria no poder ser feliz mesmo ganhando a vida de um modo duro9 – o que não é exclusividade da prostituição.

Verdade que “vida fácil” é o que a maioria delas não tem. Programas de R$10,00 a R$20,00, com as “despesas profissionais” (artigos de limpeza, preservativos, hotel que lhes serve de local de trabalho) por sua conta, quantos clientes (e que clientes!) deveriam atender para receber, livres, um salário-mínimo? Supondo que não haja “cano”, nem subornos a pagar, dentre outras variáveis. Verdade que as menos afortunadas social e culturalmente sejam felizes em escala inferior àquelas de nível superior.

Marco Lacerda10 conta o que ouviu de um amigo, prostituto homossexual: sentia-se usado, como um objeto. Assim se sentem muitas garotas de programa: “tenho nojo de homens”.

Apesar da remuneração, apesar da insalubridade, apesar do preconceito, apesar da hipocrisia, a prostituição permanece como opção abraçada, sem dramas, por dezenas de milhares de mulheres. Inclusive porque há clientes em número suficiente para estas dezenas de milhares em um esquema de alta rotatividade.

Novamente insisto: não é uma atitude / atividade que tenha respaldo moral no Evangelho de Jesus Cristo.

Arrisco uma afirmativa: não é uma atividade procurada apenas por ser a “única opção que restou para a sobrevivência”.

É uma atividade exercida por pessoas que negam a obrigação da relação entre sexo e afetividade, que veem na atividade sexual apenas um “descarregar das pulsões”, um alívio de uma necessidade biológica. Pessoas que são “estranhos morais” daqueles que têm como base da moralidade as Escrituras cristãs. Mas são pessoas regidas por um código moral, indubitavelmente (aliás, haverá sociedade, ou grupo social, verdadeiramente amoral?).

Logo, a questão do Ministro da Saúde se define pela moralidade e não pela veracidade da afirmativa exposta em um dos cartazes: “eu sou feliz sendo prostituta”11.

E de onde surgiu esta frase? Segundo Dirceu Greco, das próprias prostitutas12, acompanhada de outras, como “eu não posso ficar sem camisinha, meu amor”.
O artigo publicado no sítio da Ultimato levanta que a questão da campanha, antes do seu abortamento, é a aprovação moral implícita da prostituição13, e não o direito à saúde, ao respeito.

Proteção a quem?

Mas, como já comentado, a partir de qual moral? Sem dúvida, não há aprovação a partir da moral cristã. Mas este país, como talvez a maior parte nas nações, é uma amálgama de estranhos morais, onde a legislação tende a refletir o equilíbrio de poder entre eles. Equilíbrio de poder não é sinônimo de maioria, mas da capacidade de articular para obter sucesso político. E, tomando a moral cristã como base, como se justifica a imposição de uma moral sobre a outra, lembrando que as duas são estranhas entre si, e abraçadas por razões não restritas às intelectuais?

Uma das perdas neste debate abortado foi esta: que país de estranhos morais queremos e como nos articularemos para sê-lo?

Assumindo o número de 1,2 milhão de prostitutas, qual é o número de clientes? Difícil precisar, e desconheço alguma estatística. Mas é necessário que seja muito superior. Quantas vezes? 5? 10? Somente são vendidos produtos com compradores. Portanto, só há prostitutas por haver pessoas, em grande número, que desvinculam afetividade de atividade sexual; que fantasiam o exercício da genitalidade em um contexto de domínio, posse, compra, e não na troca, doação e igualdade. Não são elas que têm uma profissão de risco; são seus clientes que mantém um risco permanente à saúde, inclusive quando pagam a mais pelo sexo sem preservativo. Clientes que incluem suas esposas no risco, pois a clientela, na prostituição, vai de solteiros a casados, de mulheres a travestis. Aparentemente, os idealizadores da campanha preocuparam-se com o lado mais fraco da equação, as trabalhadoras. O mais fraco por serem mulheres que consentem, em troca do dinheiro que as sustenta e as suas famílias (quando as têm), serem usadas e rapidamente descartadas. Parece-me que ao protegê-las, a rede de segurança se espalha por uma fatia bem maior da sociedade. E este fato não foi analisado pelo Guilherme de Carvalho ao sugerir que elas buscam um “direito especial”.

O argumento científico

A ciência nunca foi uma atividade ideológica ou moralmente neutra. Sua agenda também é determinada pelo contexto sociopolítico onde ela é executada. E ela não é um ser, muito menos dotado de autonomia. É uma atividade desenvolvida por seres humanos com uma agenda, com uma ideologia, com uma moralidade, com necessidades econômicas. Equivoca-se gravemente quem defende sua argumentação com “a ciência diz que”. O mais correto seria dizer, no máximo, “o modo como eu interpreto os dados a minha disposição, e que foram coletados pela metodologia tal e analisados pela técnica estatística pertinente, permite que eu conclua que, na minha amostragem tal situação...”

Não existe uma disputa entre a ciência “laica” do Estado e a ciência “religiosa” de grupos extra-Estado. Existe um conjunto de dados que, dentro da metodologia utiliza, sugere ser mais eficiente o combate à AIDS quando se reforça a autoestima dos envolvidos. Moralizar as consequências destes estudos é negar as suas conclusões sem analisá-los. É condenar sem provas, é condenar sem ouvir o acusado.

Infelizmente, o Guilherme não completou a crítica com a análise dos trabalhos. Mas reduziu-a à moral. Pergunto: devo deixar as prostitutas se resumirem, enquanto seres humanos, exclusivamente ao que elas desempenham profissionalmente? Serão pessoas absolutamente más, não merecedoras de nenhum cuidado, exclusivamente por serem meretrizes?

A única possibilidade, neste quesito, é demonstrar de modo razoável que as conclusões dos ditos trabalhos não se sustentam em função dos fatos tais. Ou pela apresentação de trabalhos igualmente válidos com conclusões opostas.

Evangelho/evangélicos e política

Os evangélicos – e eu sou evangélico professo em denominação histórica – teimam em sonhar, politicamente, com o imperador Constantino e com o Velho Testamento. Constantino (tenho cá minhas dúvidas sobre sua real experiência religiosa) alçou o cristianismo à religião estatal/imperial, com todos os benefícios decorrentes. O que, provavelmente, subsidiou o uso do aparelho repressivo do Estado contra os hereges alguns séculos depois. O Velho Testamento regulava uma sociedade na qual não havia o direito de escolha: pertencia-se ao povo eleito, e a todo o seu ordenamento jurídicio-litúrgico-sacerdotal-teológico compulsoriamente. Mas o Novo Testamento traz a única teocracia possível neste mundo: a Igreja. E esta desprovida do poder da força humana; unicamente fortalecida pelo Espírito Santo.

Não consigo ver nas Escrituras nenhuma possibilidade razoável de legitimidade em impor, pela força estatal (que pode significar também o voto), a moral cristã (que eu, enquanto cristão, voluntariamente aceito e me submeto) àqueles que a recusam.

Neste sentido concordo com a crítica do Pedro Serrano, publicada pela Carta Capital, em relação à bancada chamada de evangélica. O seu interesse eleitoreiro, o seu despreparo para servir àqueles que não são evangélicos (o que é uma traição ao Evangelho), a sua incapacidade de ouvir, e o seu desejo de poder são fonte permanente de constrangimento para mim. Repito, sou protestante, membro e oficial de igreja histórica. E não acredito estar sozinho neste desconforto.

Pergunto à tal bancada: qual é a proposta realista (ou seja, excluindo o fim da prostituição) que ela tem para o enfrentamento das doenças sexualmente transmissíveis e da AIDS? Qual a proposta realista (ou seja, excluindo o fim da profissão de prostituta) que ela tem para, sem humilhar quem já é muito humilhada, melhorar a qualidade de vida destas mulheres, reduzindo os riscos à saúde delas e dos seus clientes e das esposas dos seus clientes?

Afirmo à tal bancada: a inexistência de proposta realista é a aceitação implícita da realidade tal como ela hoje é.

Mas temo que esta tal bancada acenda uma vela aos pés de Pôncio Pilatos.

Por último, dou minha opinião. O ministro errou ao cancelar a campanha – talvez devesse tê-la discutido um pouco melhor de modo a não ferir nossas suscetibilidades. O ministro errou vergonhosamente ao demitir o Prof. Dr. Dirceu Greco – ato este tomado, aparentemente, por não ter coragem de ser, e não estar, ministro da saúde deste país.


1http://www.cartacapital.com.br/politica/prostituicao-e-direito-a-saude-737.html
2http://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2013/06/06/prostituicao-e-direito-a-saude-alexandre-padilha-nao-errou/
3Jeammet P, Reynaud M, Consoli S. Manual de Psicologia Médica, Ed Mason / Atheneu, pag 345
4http://www.uems.br/na/discursividade/Arquivos/edicao02/pdf/Romilda%20Meire%20Barbosa.pdf
5http://pt.wikipedia.org/wiki/Gabriela_Leite
6Leite GS. Eu, mulher da vida. Editora Rosa dos Tempos, 1992.
7http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1072160-EI6594,00.html
8Miterhof M. Prostituição legal. Folha de S. Paulo, pg B8, 13/06/13.
9Miterhof M. Prostituição legal. Folha de S. Paulo, pg B8, 13/06/13.
10Lacerda M. As flores do jardim da nossa casa. Ed Terceiro Nome, SP, 2007.
11Observar que os cartazes trazem a marca do dia 02/06, “dia internacional das prostitutas”
12Miterhof M. Prostituição legal. Folha de S. Paulo, pg B8, 13/06/13.
13http://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2013/06/06/prostituicao-e-direito-a-saude-alexandre-padilha-nao-errou/

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Prostituição e Direito à Saúde: Alexandre Padilha não errou

Quase não pude acreditar no post de Pedro Serrano publicado no site da Carta Capital (aqui) ontem, a respeito da decisão do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. O ministro teria retirado a campanha “Dia Internacional das Prostitutas” devido à pressão dos evangélicos, segundo Serrano. E o articulista afirma que Padilha errou.

Não foi Padilha quem errou, mas o articulista, de forma que minha defesa da decisão de Padilha é mais indireta, pela refutação dos absurdos publicados pela revista.
 

Confusão de Categorias
Porque Padilha errou? Segundo Serrano, porque, em primeiro lugar, “Não é preciso gastar muito esforço de argumento para afirmar que o Brasil é um pais laico” e ainda porque questões de saúde pública devem ser tratadas por critérios exclusivamente técnico-científicos. Aspectos de moralidade religiosa não devem interferir em decisões administrativas neste tema”.

Eu diria que “não é preciso gastar muito esforço de argumento” para recusar essa afirmação. Serrano parece não distinguir entre “laicidade” e “laicismo” ou secularismo (veja mais aqui). O termo “laicidade” descreve a condição do estado de não ser confessional, em cuja condição ele não pode promover uma religião. Podemos tratar a laicidade como uma categoria política, nesse sentido, referente à separação de igreja e estado. Que o estado se exima de promover qualquer projeto espiritual.

Mas o secularismo não é meramente um conceito político; é uma biocosmovisão, um projeto cultural muito mais amplo do que a política, e que entra em choque com as religiões tradicionais exatamente porque oferece uma alternativa espiritual (não é isso o que Alain de Botton vem tentando dizer?). Se não fosse uma alternativa, não entraria em choque. Se entra em choque, é concorrência. É do mesmo tipo.

continuar lendo em http://ultimato.com.br/sites/guilhermedecarvalho/2013/06/06/prostituicao-e-direito-a-saude-alexandre-padilha-nao-errou/

terça-feira, 11 de junho de 2013

Sobre a violência e suas causas

Eduardo Ribeiro Mundim

Violência é um tema sempre presente. Todos nós já sofremos por sua causa, direta ou indiretamente, em algum grau. Suas origens são múltiplas e não é um assunto fácil de ser dissecado. Mas é um assunto sacado oportunamente em toda campanha eleitoral – apenas com intenções de angariar votos.

Em última análise, a violência nasce do coração pecaminoso do ser humano. Ou seja, ela tem sua origem na revolta da criatura, o ser humano, contra o Seu Criador.

Mas há outras análises possíveis, e que não contradizem a anterior. Mas frequentemente esclarecem que mecanismos operam no seio desta rebelião para que ela venha a existir de modo concreto na vida das pessoas.

Sendo tema fartamente utilizado a cada ano eleitoral, clichês se tornaram comuns a seu respeito. E é enfrentando estes ditos exaustivamente repetidos que duas reportagens do jornal Folha de São Paulo, do dia 09 de junho de 2013, trazem à tona novas (?) informações.

“Nem o avanço da economia livra o Brasil da violência”1 informa o aumento em 6 vezes dos homicídios nos últimos 30 anos, com o seu deslocamento para as regiões norte e nordeste. Coloca como causas a desigualdade econômica e social, o aumento da capacidade de consumo (com a consequente ampliação do desejo de ter e de desfrutar) e as dificuldades judiciárias no enfrentamento da situação.

“Nem a recessão impede a queda de crimes na Inglaterra”2 conta que o órgão estatal responsável pela estatística mostrou o mais baixo nível de violência naquele país nos últimos 30 anos. E isto apesar da situação econômica do Reino Unido não estar, atualmente, muito favorável. Situação semelhante ocorrem em outros países europeus. Os fatores levantados são a redução do uso de drogas, a queda no consumo de álcool, uso de melhores tecnologias de segurança, modernas técnicas de policiamento e o controle do porte de armas.


terça-feira, 21 de maio de 2013

Cabaré processa a Igreja Universal

Recebi, há poucos dias, a mensagem abaixo, via correio eletrônico. Não me preocupei em verificar a veracidade dos fatos - encantou-me a plausibilidade dos mesmos...e diversos desdobramentos a partir deles.


 
Em Aquiraz, no Ceará, dona Tarcília Bezerra construiu uma expansão de seu cabaré, cujas atividades estavam em constante crescimento após a criação de seguro desemprego para pescadores e vários outros tipos de bolsas. 

Em resposta, a Igreja Universal local iniciou uma forte campanha para bloquear a expansão, com sessões de oração em sua igreja, de manhã, à tarde e à noite. 

O trabalho de ampliação e reforma progredia célere até uma semana antes da  reinauguração, quando um raio atingiu o cabaré queimando as instalações elétricas e provocando um incêndio que destruiu o telhado e grande parte da construção. 

Após a destruição do cabaré, o pastor e os crentes da igreja passaram a se gabar "do grande poder da oração". 

Então,  Tarcília processou a igreja, o pastor e toda a congregação, com o fundamento de que eles "foram os responsáveis pelo fim de seu prédio e de seu negócio" utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta e das ações ou meios.” 

Na sua resposta à ação judicial, a igreja, veementemente, negou toda e qualquer responsabilidade ou qualquer ligação com o fim do edifício. 

O juiz a quem o processo foi submetido leu a reclamação da autora e a resposta dos réus e, na audiência de abertura, comentou: 
- Eu não sei como vou decidir neste caso, mas uma coisa está patente nos autos: Temos aqui uma proprietária de um cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando  que as orações não valem nada!”.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Ser bandido é, antes de tudo, um problema de caráter

Esta frase está contida em uma interessante provocação de Luiz Felipe Pondé (O bandido e o frentista). Ironias à parte, abundantes no texto, ele traz à tona outros vieses frequentemente esquecidos na discussão sobre a criminalidade - e, atualmente, sobre a redução da maioridade penal.

O mais curioso é que os cristãos já não são os únicos que falam (falamos??) sobre o pecado individual como uma das causas da criminalidade atual.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Razões a favor do aborto

A recente decisão do Conselho Federal de Medicina (CFM) favorável ao aborto até a 12.ª semana de gravidez, dependendo apenas da vontade autônoma da mulher, dá-nos a ocasião para tratar mais uma vez desse tema. Ouso escrever novamente sobre o assunto mesmo porque o silêncio poderia sugerir falta de argumentos, e isso não é verdade. Por falar nisso, tratemos de alguns argumentos favoráveis ao aborto.

O aborto seria aprovável até a 12.ª semana de gestação porque o tubo neural do feto ainda não se formou? Assim, a sua condição equivaleria à de um morto cerebral? Mas se assim fosse, como justificar os estudos e práticas de psicologia e de psiquiatria que se ocupam da vida humana desde uma fase bem anterior a 12 semanas de gestação? A condição de um morto cerebral nunca pode ser equiparada à de um feto, que está em plena dinâmica vital.

Na vida humana, não se pode estabelecer uma fase que já não seja humana desde o seu primeiro início, na fecundação. Aquilo que aparece na 13.ª semana já existia também desde a primeira semana de gestação: um ser humano vivo. Embora ainda não esteja completo, ele já existe em sua identidade humana, que não se inicia somente na 13.ª semana de gestação.


ver também

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Aborto como problema de saúde pública

Fico um pouco incomodado quando os defensores do aborto dizem que o tema deve ser analisado "como questão de saúde pública".

Claro que é questão de saúde pública. Mas dizer isso só faz sentido quando todas as outras questões já foram resolvidas. Para quem considera o aborto um atentado à vida humana, ou seja, como algo próximo do assassinato, não adianta nada falar em saúde pública.

Se a polícia fizesse uma "blitz" nas clínicas clandestinas, e prendesse todos os "fazedores de anjinhos", também a famosa questão da "saúde pública" estaria resolvida em grande parte.

Além disso, o objetivo dos antiabortistas é convencer as gestantes de que elas não devem cometer um ato, em última análise, criminoso. Estariam livres, ademais, dos graves riscos que esse ato implica.

ver restante em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/107776-misterios-do-aborto.shtml



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domingo, 28 de abril de 2013

O Banho de Lágrimas


Eduardo Ribeiro Mundim

Esta história (Lc 7.36-50) tem três principais personagens, e um secundário: Jesus, o profeta; a mulher, a pecadora; Simão, o fariseu; as pessoas à volta, em número ignorado. Os primeiros têm um relacionamento triangular, com duas faces. Abertamente a mulher e o se relacionam, de diferentes maneiras e com expectativas divergentes, com Jesus. Mas há uma interação sutil entre a pecadora e o guardião da moral, que Jesus, para o bem de todos, e causando dor, expõe ao público de então, e aos leitores de todas as épocas.


O Contexto

O evento provavelmente ocorre nos primeiros tempos do ministério de Jesus, na região da Galileia “dos gentios”. Assumindo que Lucas mantenha uma ordem cronológica, àquela altura Jesus já não era um desconhecido. Sua interpretação do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré resultou na sua expulsão e quase execução; havia pronunciado seu programa ministerial, o “Sermão da Montanha”, onde delineou as atitudes esperadas dos seus discípulos em contraste com as dos que não são seus discípulos e os pilares éticos do Reino – chamou os ouvintes a uma “contracultura”. E não só de palavras a sua fama se difundira: expulsara demônios, curara face a face (a sogra de Pedro, um leproso, um paralítico), curara à distância (o servo do centurião em Cafarnaum), devolvera o falecido filho de uma viúva à vida em Naim. Isto sem contar os milagres não registrados.

A “contracultura” que apresentava, e o Seu papel especial na nova aliança, interferia na prática religiosa pública do judaísmo de então: o sábado não era um fim em si mesmo e os seus discípulos não jejuavam como os de João Batista. A cunha inserida por este, separando os publicanos e os fariseus, também foi acentuada por Jesus. Uns, sinceramente arrependidos, buscavam um batismo que fosse a expressão pública desta mudança de vida; outros, cientes da tradição, da Lei e dos Profetas, foram advertidos com franqueza:

Pois veio João Batista, que jejua e não bebe vinho, e vocês dizem: “Ele tem demônio”. Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e vocês dizem: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores”.

E, um pouco antes, o Evangelista registra esta cisão:

Todo o povo, até os publicanos, ouvindo as palavras de Jesus, reconheceram que o caminho de Deus era justo, sendo batizados por João. Mas os fariseus e peritos da lei rejeitaram o propósito de Deus para eles, não sendo batizados por João.

Jesus, portanto, não era um desconhecido. Seu ensino já se espalhara, assim como as notícias dos sinais e prodígios que efetuara, bem como o reconhecimento do caráter excepcional da autoridade da Sua palavra.


Simão, o fariseu

Os fariseus acompanharam Jesus durante todo o seu ministério, às vezes com simpatia, às vezes com beligerância explícita. Ainda que, como classe, não fossem abastados como os saduceus, havia muitos economicamente favorecidos. Um destes, o convida para jantar. Só não é anônimo porque Lucas lhe cita o nome ao registrar o diálogo ocorrido.

Qual a razão do convite? O texto não esclarece, nem o contexto. Mas algumas inferências são possíveis. Por exemplo: a refeição foi um evento razoavelmente público, pois uma mulher anônima tomou conhecimento do fato; a casa parece que estava aberta às várias pessoas, pois esta aparentemente não enfrentou dificuldades para nela entrar; é razoável supor que havia os convidados e a plateia curiosa e talvez sedenta de notícias sociais.

Também é razoável supor que o anfitrião não parecia estar completamente à vontade no evento, pois por qual razão ele foi um tanto quanto rude, à vista de todos? Segundo Jesus, diversas convenções sociais não foram respeitadas por ele. Itens mínimos de conforto foram negados ou não ofertados: água para lavar os pés e perfume para refrescar o corpo. Tão pouco o cumprimento social do beijo, o correspondente ao moderno apertar as mãos, fora realizado. Qual a razão de tal falta de traquejo social?

Há um evidente contraste com outra refeição, na casa de um publicano, Zaqueu. Refeição esta onde Jesus, apesar de ter se convidado, foi recebido com festa e alegria por parte daquele chefe de cobradores de impostos.

Parece razoável supor que Simão o convidara sem muito regozijo; talvez tenha “sobrado para ele” aquela tarefa, que tratou de desempenhar da melhor maneira possível, por um lado, mas com mensagens do seu desagrado, subliminares, do outro.

Sua avaliação da atitude de Jesus para com a mulher revela que ele não estava seduzido pela mensagem renovadora pregada pela simples existência de Jesus. E sua antipatia disfarçada é trazida à tona pelo seu pensamento conclusivo: “Se este homem fosse profeta, saberia...”

Simão tem um roteiro em sua mente, e uma certeza lhe governa o coração. O verdadeiro profeta não se mistura, mantém cerimonialmente (?!) puro; não é admissível o contato entre a pureza da palavra divina e o ser humano pecador.

Simão tem ideias preconcebidas que lhe são caras, e mesmo os milagres realizados e o ensino repleto de autoridade não são suficientes para fazê-lo rever seus conceitos. Talvez, inconscientemente, ele quebrasse o primeiro mandamento da Lei de Moisés, idolatrando-os.

Mas, plenamente consciente, Simão faz uma distinção clara e cortante a respeito da sua moralidade e pecaminosidade. A mulher não deveria tocar em Jesus, se Ele fosse profeta, pois definitivamente era uma “pecadora”, “mulher de má fama” - seja lá o que isto signifique. Seria ela uma prostituta comum, ou uma prostituta cultual? Uma adúltera, ou sexualmente promíscua? Ladra? Fofoqueira? Mas ele se encontrava em um nível bem acima, pois lhe era lícito convidar um profeta para cear com ele, não pecador. Sua atitude lembra a parábola posteriormente transmitida por Jesus, que fala do publicano que não tem coragem de entrar no templo, nem de levantar os olhos ao céu, e que apenas reza pedindo para que Deus tenha dele misericórdia, por ser pecador; e do fariseu que, postado o mais próximo possível do altar, faz uma oração de louvor agradecendo a Deus por não ser...como aquele pecador lá na porta.

Simão se aproxima de Jesus cônscio de ser o juiz qualificado sobre o caráter de quem se diz profeta, e seguro de sua relação com Deus – nada Lhe deve.


A pecadora

É uma mulher anônima que se aproxima de Jesus. Seu nome não é citado. Mas a história que ela cria atravessa gerações, firmemente ancorada no Evangelho. É uma história incômoda, que seria melhor fosse uma parábola ou uma metáfora, pois assim questionaria menos, confrontaria menos. É uma história que somente pode ser integralmente compreendida se nos aproximarmos dela a partir do sofrimento desta mulher, vivenciando em nós mesmos a forte emoção nela presente.

Interessante que nosso Deus não escolheu Se revelar através de um tratado de teologia sistemática ou dogmática. Ele se dá a conhecer para nós através de histórias que Ele mesmo cria e conduz – a parte expositiva da Revelação habitualmente está atrelada à vida. E não tem limites. Não foi a um profeta que disse “vai, toma uma mulher de prostituições, e filhos de prostituição”? Sim, Simão, o cuidadoso fariseu, esqueceu-se que Oseias pregou através do relacionamento íntimo com uma “mulher da má fama”...

O grau de humilhação que esta mulher assume é constrangedor. Não conheço se era culturalmente aceito o seu gesto, de modo a nada existir de embaraçoso.

Como foi possível a Jesus aceitar que ela tomasse as atitudes que tomou? Quem Ele era, afinal, para permitir tão grande servilidade? Conseguimos imaginar Ganhdi neste papel? Ou Desmond Tutu? Ou Chico Xavier?

Não nos enganemos. Ao aceitar o ritual dela, Ele proclama, silenciosamente, ser este ritual, e a sua motivação, plenamente adequados a Ele. Que tipo de homem faria isto?

As ruas daquela época, principalmente nas cidades do interior, eram de terra. Sandálias, o calçado mais comum. Simão não ofereceu a Jesus água para que lavasse os pés. Portanto, a mulher estava banhando pés sujos com a poeira e terra de um dia inteiro. E se ela os enxugava, é porque, provavelmente, as lágrimas eram copiosas. Seriam tantas assim a ponto de lavar eficazmente dois pés imundos? E ela os secava com os próprios cabelos – transferindo, talvez, parte da sujeira que as gotas dos seus olhos não eram suficientes para limpar. Seus cabelos, longos, devem ter ficado sujos. Estaria ela, inconscientemente, ao sujá-los, confessando suas culpas e, ao limpá-los, confessando Sua pureza? Ao final, após limpos, ela os perfuma e beija incessantemente.

Nada há no texto que sugira ser ela uma lunática. O único juízo a respeito do seu caráter era ser ela “de má fama”, “pecadora”.

Publicamente ela se humilha aos pés de Jesus.

Ela dEle se aproxima com plena consciência do seu pecado, de sua impossibilidade de agradar a Deus ou ao Seu profeta. Ela sabe da mensagem, de primeira ou de segunda mão; ela sabe dos sinais e prodígios realizados, que correram céleres à frente dEle. Ela sabe ser juíza de si mesma, reconhece sua indignidade frente a “contracultura” pregada e confessa ver em Jesus o mensageiro habilitado a restaurá-la aos olhos de Deus. Ela nada tem de bom e Ele é a fonte do bem que necessita.


Jesus, o Profeta

Simão não dá crédito a Jesus, enquanto profeta. Mas seu coração deve ter parado quando Jesus lhe dirige a palavra e ele a ouve, com um “mestre” apenas polido o suficiente. Percebe que Jesus o conhece mais do que ele gostaria. Descobre-se preso na parábola contada, onde a resposta imediata é óbvia. E Jesus expõe ao público a interação silenciosa e inconsciente entre a mulher e o fariseu.

Um denário era o equivalente monetário de um dia de trabalho braçal. Portanto, ambos os devedores tinha grandes débitos: 50 dias brutos de trabalho um, 1 ano e 5 meses de trabalho bruto, o outro. O credor, magnânimo, apenas porque lhe foi do seu interesse perdoar, cancela-lhes as dívidas.

A mulher era, sem dúvida aos olhos de todos, a que mais devia.

Para ser justo, talvez não somente Simão tenha pensado o que pensou, mas diversos outros também.

A parábola somente tem sentido no contexto em que Jesus a usou, e ela explica as frases finais. Os pecados dela são perdoados não em função das atitudes servis que tomou, mas porque ela reconheceu em Jesus aquele que poderia perdoá-la e, antes disto, aquele que poderia escutar sua confissão e desejo de mudança. Suas lágrimas, seu cabelo talvez enlameado, os pés beijados e perfumados, são expressões do que lhe ocorria no interior: culpa, confissão, gratidão e entrega. Suas atitudes são consequência, e não causa.

E Jesus proclama a si mesmo como tendo autoridade de perdoar os pecados alheios; proclama ser correto que as pessoas se aproximem dEle como aquela pessoa se aproximara.

O triângulo se fecha. Um homem específico, em um momento específico da história, arroga-se com tranquilidade e poder o direito de direcionar a vida das pessoas, de receber os mais pessoais e profundos votos de lealdade e dedicação servil. Há duas maneiras de nos aproximarmos dEle: que o Senhor nos auxilie para que nos aproximemos da forma correta.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Homofobia ou ágape?

Como se sabe, o “ágape” aparece na Bíblia em vários lugares. Aparece no sermão da montanha, quando Jesus constata, referindo-se ao dinheiro e às riquezas, e não a pessoas: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6.24).
 
Mas os exemplos de um amor ativo e construtivo são ainda mais abundantes na Bíblia. Em João, vemos Cristo exortando os seus discípulos dizendo: “Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor” (Jo 15.9).
 
Aparece na carta de Paulo aos Coríntios, principalmente no trecho de 1 Cor. 13 que, de tão famoso virou música popular no Brasil, o hino ao amor, que começa: “Ainda que [...]”, e segue: “sem amor [...]”.
 
Será que isso também se aplica à nossa atitude em relação aos homossexuais? Mas o que é “homofobia”? Como se sabe “fobia” significa “medo”, “pavor”, no sentido de “repulsa”.
 
Voltemos à Bíblia. Em 1 João, somos instruídos sobre o “mistério” de toda a vida e espiritualidade cristãs: “Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1 Jo 4.16).
 
Mais adiante, em 1 João ainda, diz-se sobre o medo que o amor é seu antídoto: “No amor não há medo; pelo contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo. Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1 João 4.18, grifos meus).
 
Ou seja, somos advertidos de que as atitudes de medo revelam a falta do verdadeiro e autêntico amor cristão.
 
Mas o trecho que considero mais importante é quando perguntaram a Jesus, qual ele achava ser o maior mandamento de todos, e ele responde: “‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’” (Lc 10.27).
 
Muitos cristãos têm se escandalizado ultimamente com a legalização de casamentos entre pessoas homoafetivas. Por outro lado, muitos não cristãos (e cristãos, como eu), se escandalizaram com as palavras homofóbicas daquele deputado e pastor Marco Feliciano, que gerou tanta polêmica no país (que até se esqueceu de assuntos tão mais urgentes quanto os “finalmentes” do mensalão). Mas qual lado está certo?
 
Quer um cristão apoie o movimento gay, quer seja contra ou esteja em cima do muro, uma coisa é certa: temos que amá-los (las) de todo o nosso coração, sem acepção de pessoas. Foi isso que Jesus ensinou e é isso que temos que fazer diante das polêmicas. Acontece que muito cristão não vê as árvores em meio ao bosque. E parte para uma justiça do tipo “olho por olho” ou “com as próprias mãos”.
 
Isso está errado, e quem comete esse tipo de erro deve desculpas às vítimas dos seus preconceitos. Então, não é questão de “lado a tomar”, mas da expressão de amor para com aqueles que “Deus amou primeiro”.
 
Isso não quer dizer que o cristão deve dizer que “está tudo liberado”. Ou ser conivente com algum comportamento que a Bíblia desaprova. Não. Sabemos muito bem o que a Bíblia diz sobre a sexualidade (ou ao menos, espera-se que um cristão saiba).
 
Isso me faz lembrar um especialista em educação quando dizia em um programa televisivo: “Sexo não é questão de opção, como se escolhe uma roupa para vestir, como fazem crer muitos chavões sobre a homossexualidade, que tem confundido a cabeça de crianças e adolescentes”. E temos que ser muito firmes nessa abordagem.
 
Mas temos que cuidar para não jogar o bebê com a água do banho. O bebê, no caso, é a pessoa, cuja dignidade está acima de qualquer lei moral, pelo simples fato de ser criatura de Deus. É simples assim, ainda que extremamente complicado para nós, humanos, praticarmos. Em todo o caso, está em nossas mãos, pela graça que nos foi dada, dar um exemplo de equilíbrio e sabedoria à sociedade.

Gabriele Greggersen
É mestre e doutora em educação (USP) e doutoranda em estudos da tradução (UFSC). É autora de O Senhor dos Anéis: da fantasia à ética e tradutora de Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Costuma se identificar como missionária no mundo acadêmico. É criadora e editora do site www.cslewis.com.br