segunda-feira, 21 de março de 2016

Bioética e Fé Cristâ: A ética na história do aconselhamento genético : um desafio à educação médica


O aconselhamento genético é uma prática que surgiu nos Estados Unidos na década de 1940 e tem se difundido ao redor do mundo com a crescente popularização da informação genética e a profissionalização da genética na saúde pública. É por meio de sessões de aconselhamento que as pessoas são informadas sobre os resultados de testes genéticos e recebem orientações sobre probabilidades, riscos e possibilidades de doenças genéticas. Trata-se de uma prática profissional que combina saúde, assistência e educação. Este ensaio descreve o surgimento e o desenvolvimento da prática de aconselhamento genético e apresenta alguns de seus desafios éticos. 



Licença : Nome do detentor dos direitos: Associação Brasileira de Educação Médica. "A reprodução em papel ou meio eletrônico com fins educativos será autorizada desde que citada a fonte e desde que não represente uma republicação. Neste caso será necessária autorização prévia expressa da Abem." Fonte: http://www.scielo.br/revistas/rbem/paboutj.htm

postado no Bioética e Fé Cristã em 21.03.16

quarta-feira, 16 de março de 2016

Bioética e Fé Cristã: Genetic Information Ethics Statement

As Christian physicians and dentists we affirm:
  • All human beings have been individually created through the providential interest and design of Almighty God. Being created in the image of God, every human being has infinite worth, regardless of genotype or phenotype.
  • The diversity of individuals is part of the wonder and strength of God's sovereign design.
  • Each human life is a composite of genetic, environmental, social, volitional and spiritual factors.
  • God has endowed humans with minds capable of exploring but only partially understanding the magnificence and intricacies of His Creation. Human knowledge and wisdom are limited and may be used for evil or good.
  • God has mandated good stewardship of Creation, both of ourselves and the surrounding world.
Therefore, we believe:
  • The presence of a disability, either inherited or acquired, does not detract from a person's intrinsic worth.
  • The scientific exploration of life, including its genetic foundation, is proper and consistent with God's mandate and humanity's created nature, but must be conducted within biblical constraints.
  • Genetic information may be of legitimate value in guiding the care of patients.
  • Because a minor is unable to give informed consent, for genetic testing of a minor to be performed, it should benefit him during the period of time prior to majority. Therefore, pre-symptomatic testing of a minor should not be performed for disorders that will not either affect his health until after majority or result in therapeutic intervention before majority.
  • An individual's genetic information should be kept strictly confidential.
  • Somatic cell manipulation to replace absent or defective genes is consistent with the goals of medicine, and may be good stewardship of knowledge. Such manipulation should be performed only after extensive study demonstrates the specificity, benefits and risks of these interventions, or as part of an approved clinical trial.
  • Germ cell manipulation as a technology carries with it a much higher risk of harm and abuse than somatic cell manipulation, in that it affects future generations. But, we do not believe it is appropriate to preclude categorically the potential use of this technology. It may become possible to correct safely and specifically some severe deficiencies (e.g. hemophilia) for multiple generations, and we do not wish to condemn such a beneficial use of technology.
We oppose:
  • The search for and use of genetic information to justify destroying an existing life, born or unborn.
  • The use of genetic information for discriminatory purposes including infringement upon the right to procreate.
  • The use of genetic manipulation to augment human attributes.
  • The use of a patient's genetic information for societal benefit if such use harms or could potentially harm that individual.
  • The reductionist belief that humans are simply the product of their genetic destiny.
As more knowledge becomes available, we need to seek humbly and prayerfully God's wisdom and guidance in the use of genetic information and technology.

leia mais em http://cmda.org/resources/publication/genetic-information-ethics-statement


publicado no Bioética e Fé Cristã em 16/03/16

O Deus das ondas gravitacionais

Posted: 23 Feb 2016 10:15 AM PST
A descoberta das ondas gravitacionais na semana passada foi aclamada como o início de uma nova era na astrofísica. Estas vibrações no espaço-tempo, que reivindicam a teoria da gravidade de Einstein cem anos depois que ele a propôs pela primeira vez, nos permitem "ouvir" o cosmos, bem como enxergá-lo.

Cientificamente falando, as ondas gravitacionais são uma nova forma de experimentar nosso universo – e quem pode afirmar o que se irá descobrir, ouvir e ver a partir de agora? Eu sou cristã e astrônoma, então eu não tenho outra alternativa senão considerar o que isso significa para a minha fé quando as fronteiras da ciência avançam de maneira tão expressiva.

Muitos cristãos acham essa descoberta ameaçadora. Eles raciocinam da seguinte forma: Se a ciência é capaz de explicar cada vez mais os fenômenos do mundo natural, então haverá cada vez menos espaço no cenário para Deus. O criacionismo é o exemplo mais conhecido dessa lógica. Um criacionista acredita que a teoria da evolução é insidiosa porque, à sua maneira de pensar, se aceitarmos a ideia de que a vida surgiu a partir da "sopa primordial" e evoluiu para os seres humanos, como podemos reivindicar que ela foi criada por um Criador divino?

Este tipo de raciocínio surge com tanta frequência que o apelidamos de o "Deus das lacunas". Para os cristãos, o problema de raciocínio com o "Deus-das-lacunas" é que ele coloca a ciência e a fé uma contra a outra. Se aceitarmos a premissa de que as reivindicações da Bíblia devem ser sopesadas contra as teorias científicas, então, inevitavelmente tem-se que escolher uma e desprezar a outra. Como ocorrem as descobertas científicas e as "lacunas" em nosso conhecimento científico diminuem, precisamos cada vez menos da ideia de Deus para explicar o mundo físico. Em uma batalha fé-contra-ciência, a fé está em desvantagem – pela simples razão de que a ciência é muito eficiente para explicar as coisas que vemos ao nosso redor.

Não é nenhuma surpresa, então, que apontar para o raciocínio "Deus-das-lacunas" é uma tática favorita de Richard Dawkins e outros críticos do cristianismo. Por outro lado, estudiosos cristãos reconhecem que uma imagem como a que eu acabei de descrever não é uma teologia muito robusta.

Ambos os lados parecem considerar insustentável qualquer filosofia que se baseia em nossa falta de conhecimento para criar espaço para Deus.

Não me interpretem mal, mas Deus não é útil enquanto uma teoria científica. Pensar em Deus desta maneira foge do ponto. Toda a noção de um Deus das lacunas depende de uma imagem filosófica em que a ciência tem um ponto final. Por isso, quando descobrimos ondas gravitacionais, ou encontramos um novo número primo, ou fazemos progressos em direção à cura da doença crônica, nos aproximamos do "fim" [finalidade] da ciência.
Esta é uma noção muito empobrecida do que é ciência, e eu ainda não encontrei um cientista que pensa dessa maneira. A ciência diz respeito a um processo de fazer perguntas. A tentativa de responder às nossas perguntas sobre como as coisas funcionam leva a uma compreensão mais profunda do mundo que nos rodeia, mas sempre levanta mais questões. A ciência é uma resposta humana ao desconhecido – por isso, enquanto houver humanos para fazer perguntas, nunca haverá um fim para a ciência.

Pela mesma razão, não devemos ter medo de abraçar o desconhecido – as lacunas no nosso conhecimento do divino – como um caminho para a compreensão de Deus. Na fé, assim como na ciência, fazendo perguntas quando confrontados com o mistério é a natureza humana. É ingênuo pensar que temos a capacidade de diminuir o poder, amor, ou o âmbito da ação de Deus, simplesmente fazendo perguntas. Na verdade, eu defendo que um espírito questionador deve desempenhar um papel importante na vida de fé de um cristão. Longe de desencorajar o pedido, a Bíblia exorta: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede, recebe; e quem busca, acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á.", disse Jesus no Sermão da Montanha. [Mateus 7: 7-8]
Nossas perguntas assumem diferentes formas. Podemos usar nosso raciocínio para sondar o universo físico que Deus criou. Podemos desafiar a Deus por respostas em momentos de dor e tristeza; podemos ler a Escritura e perguntar o que ela significa para as nossas vidas. É claro que, em nenhum lugar ela nos garante respostas concretas. Mais frequentemente do que um "não", Deus não dá respostas completas, mas em vez disso ele responde com mais perguntas.

O Livro de Jó é uma exploração profunda deste questionamento dinâmico. Quando Jó desafia Deus, exigindo uma explicação para suas aflições, cada um de seus amigos oferece um raciocínio diferente. Quando Deus o responde, varre ao longe suas respostas simplistas, e, ao invés de uma resposta pronta, interroga Jó: "…porque te perguntarei, e tu me responderás. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento."[Jó 38: 3-4].

A narrativa da criação que se segue, sob a forma de perguntas dirigidas a Jó, é uma das passagens mais impressionantes nas Escrituras. Quando Deus concluiu, Jó realmente não teve uma resposta para a pergunta original – Por que estou aflito? – Mas ele teve uma nova e mais profunda compreensão de Deus.
"Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem." [Jó 42: 5]

Nós já tínhamos visto o universo com a visão dos olhos, mas agora nossos ouvidos o ouvem. Ondas gravitacionais levantam mais perguntas do que respostas, mas sua descoberta nos dá uma maneira profunda de compreender o cosmo que não tínhamos antes. Se temermos as lacunas em nosso conhecimento, retrocedemos em fazer as perguntas que nos levam a descobertas como essa, e perdemos a oportunidade de conhecer a Deus um pouco melhor através da criação.

Jenna Freudenburg é astrônoma na Ohio State University.
Traduzido e adaptado por Áquila Mazzinghy.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Bioética e Fé Cristã: For your interest? The ethical acceptability of using non-invasive prenatal testing to test 'purely for information'

Non-invasive prenatal testing (NIPT) is an emerging form of prenatal genetic testing that provides information about the genetic constitution of a foetus without the risk of pregnancy loss as a direct result of the test procedure. As with other prenatal tests, information from NIPT can help to make a decision about termination of pregnancy, plan contingencies for birth or prepare parents to raise a child with a genetic condition. NIPT can also be used by women and couples to test purely 'for information'. Here, no particular action is envisaged following the test; it is motivated entirely by an interest in the result. The fact that NIPT can be performed without posing a risk to the pregnancy could give rise to an increase in such requests. In this paper, we examine the ethical aspects of using NIPT 'purely for information', including the competing interests of the prospective parents and the future child, and the acceptability of testing for 'frivolous' reasons. Drawing on several clinical scenarios, we claim that arguments about testing children for genetic conditions are relevant to this debate. In addition, we raise ethical concerns over the potential for objectification of the child. We conclude that, in most cases, using NIPT to test for adult-onset conditions, carrier status or non-serious traits presenting in childhood would be unacceptable. 

artigo original, não disponível gratuitamente, em http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/bioe.12125/pdf

publicado no Bioética e Fé Cristã em 14/03/16

quinta-feira, 10 de março de 2016

O Cristianismo e a História da Tecnologia – Parte 1

Posted: 02 Mar 2016 11:58 AM PST
por Michael Sacasas – tradução Fernando Pasquini

Texto original: http://thefrailestthing.com/2012/03/01/christianity-and-the-history-of-technology-longform/

Introdução

Desde meados do século XX tem havido um constante e talvez modesto debate acadêmico sobre a relação entre tecnologia e religião. Entre os estudiosos que abordaram especificamente a natureza dessa relação, suas pesquisas concentraram-se no seguinte conjunto de interesses: o papel da religião ao determinar a postura da sociedade ocidental para com o mundo natural, o papel das religiões em incitar o desenvolvimento tecnológico, o papel da religião na formação das atitudes ocidentais para com o “trabalho e as ferramentas de trabalho”, e, mais recentemente, o uso da linguagem e categorias religiosas para descrever a tecnologia. A maioria desses estudos concentra-se quase exclusivamente no contexto europeu e norte-americano; assim, “religião” refere-se ao cristianismo. Jacques Ellul, Lynn White, George Ovitt, Susan White, David Noble, e Bronislaw Szerszynski estão entre os contribuintes mais notáveis deste debate.

Os comentários de Jacques Ellul foram os primeiros, mas não definiram os termos do debate. Essa honra coube a Lynn White, que, em seu ensaio de 1968, “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, propôs inicialmente que a relação da Europa com a tecnologia foi moldada de forma distintiva pela cosmovisão cristã. Estudiosos repetidamente voltam a White para examinar mais sua tese e seu contexto ecológico.

O livro de George Ovitt, “A Restauração da Perfeição: Trabalho e Tecnologia na Cultura Medieval”, continua sendo o tratamento mais aprofundado no nexo das questões levantadas pelo ensaio de White. Ovitt conclui que há uma boa razão para se restringir significativamente as afirmações de White.

O estudo de Susan White, “Adoração Cristã e a Mudança Tecnológica”, se destaca como uma consideração da influência da tecnologia na liturgia cristã.

David Noble se baseia no trabalho de White e Ovitt para oferecer um relato do que ele chama de “religião da tecnologia”, que diz respeito a um entrelaçamento generalizado das questões religiosas com o projeto da tecnologia, além da tendência de se associar a busca da transcendência à tecnologia.

Finalmente, o livro de Bronislaw Szerszynski intitulado “Natureza, Tecnologia e o Sagrado” oferece uma reconsideração teoricamente sofisticada do argumento de White, abraçando, no que diz respeito ao caráter da sociedade contemporânea, o diagnóstico da sociedade tecnológica feita por Ellul. Szerszynski também transfere o argumento para fora do período medieval argumentando que as transformações realmente decisivas no contexto intelectual e religioso da história tecnológica da Europa devem ser localizados na Reforma Protestante.

Jacques Ellul: Cristianismo A-técnico

O livro de Ellul intitulado “A Técnica e o Desafio do Século” foi publicado em francês em 1954 e teve sua primeira tradução para o inglês em 1964 [NOTA DO TRADUTOR: O livro foi publicado inicialmente em português em 1968, pela editora Paz e Terra, e atualmente está fora de publicação]. Ellul fornece um breve esboço histórico da evolução da técnica e, dentro disso, analisa a relação entre o cristianismo e tecnologia. Conforme acredita Ellul, o cristianismo, na forma era praticado durante o período medieval tardio foi, na melhor das hipóteses, ambivalente com relação ao avanço da tecnologia. Ele reconhece que a opinião geral contrasta as religiões orientais, que eram supostamente “passivas, fatalistas e de desprezo para com a vida vida e a ação”, com o cristianismo, a religião do Ocidente, que era supostamente “ativa, conquistadora, e que transformava a natureza em lucro.”

No entanto, embora esta caracterização tenha sido amplamente aceita, Ellul acreditava que ela está errada. Ela tanto ignora os avanços técnicos reais das civilizações orientais como também não compreende a postura do cristianismo diante do desenvolvimento técnico.

De acordo com Ellul, o aparecimento do cristianismo marcou a “quebra da técnica romana em todas as áreas – tanto no nível de organização, como na construção de cidades, na indústria e nos transportes.”Em sua opinião, Juliano, o Apóstata, e mais tarde Edward Gibbon, não estavam totalmente equivocados ao atribuir o enfraquecimento do Império à ascensão da Igreja. Após o colapso do Império Romano no Ocidente, a sociedade ficou sob a tutela do cristianismo, que Ellul caracterizou tanto como “‘a-capitalista’ como também ‘a-técnico'”. Em cada esfera da cultura medieval, com exceção da arquitetura, Ellul vê “igualmente a ausência quase total de técnica.”

Ellul então passa a desafiar os dois argumentos históricos empregados por aqueles que acreditam que o cristianismo “abriu o caminho para o desenvolvimento técnico.” O primeiro destes afirma que a supressão da escravidão ocasionada pelo cristianismo impulsionou o desenvolvimento da tecnologia, de forma a aliviar as misérias do trabalho manual. Já o segundo afirma que o desencantamento do mundo natural produzido pelo cristianismo removeu os obstáculos metafísicos e psicológicos para a sua exploração com vistas à tecnologia. Ellul afirma que o primeiro argumento falha em considerar as realizações técnicas impressionantes nas sociedades escravistas, e o segundo, embora válido até certo ponto, ignora as outras restrições da fé cristã colocadas em relação atividade técnica, ou seja, suas tendências ascéticas e voltadas para o outro mundo. Além disso, o cristianismo submeteu todas as atividades ao julgamento moral. Assim, atividade técnica era limitada por considerações não-técnicas, e foi dentro deste “escopo restrito” que certos avanços técnicos foram alcançados e propagados pelos mosteiros.

Lynn White: o Cristianismo e o Clima Cultural do Avanço Tecnológico

Em seu ensaio clássico, “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, Lynn White Jr. demarcou uma posição que discorda de Ellul em quase todos os pontos possíveis. White começa descrevendo a lacuna de avanço técnico que se abriu entre a Europa Ocidental e ambas as civilizações islâmica e bizantina no leste. Esta lacuna antecedeu a “Revolução Científica” do século XVI e já era evidente no final da Idade Média. Consequentemente, White volta-se para a Idade Média para compreender a natureza da tecnologia ocidental.

Embora White esteja, nesta fase de sua carreira, afastando-se da abordagem de um único fator para a mudança tecnológica, alguns elementos dessa abordagem ainda são evidentes em “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, no qual ele aponta para a introdução do arado pesado como catalisador de uma mudança de atitudes acerca da relação da humanidade com a natureza. Nas palavras de White, o arado pesado “atacou a terra com tamanha violência que o arado cruzado já não era mais necessário.” White também observa que essa nova atitude de dominação logo teve uma expressão pictórica nos calendários francos que mostravam o homem e a natureza em oposição, tendo o homem como mestre.

Neste ponto do ensaio, entretanto, White abandona uma análise baseada em um único fator tecnológico para mudança social e parte para a consideração das influências culturais que condicionaram o desenvolvimento e implantação da tecnologia em uma relação conflituosa com a natureza. White acredita que religião cristã tal como praticada na Europa Ocidental é a principal culpada. “Especialmente na sua forma ocidental,” White conclui, “o cristianismo é a religião mais antropocêntrica que o mundo já viu.” Depois de recordar brevemente os conhecidos conceitos e linguagem da narrativa da criação no primeiro capítulo do livro de Gênesis, White contrasta o cristianismo com o paganismo antigo e as religiões orientais, e crê que o cristianismo “não só estabeleceu um dualismo do homem e da natureza, mas também insistiu que é da vontade de Deus que o homem explore a natureza para seus próprios fins”. O cristianismo realizou esta “revolução psíquica” através de um desencantamento da natureza, tornando “possível explorar a natureza em um clima de indiferença aos sentimentos dos objetos naturais.”

White, então, afirma o segundo argumento que Ellul rejeitou em sua análise da relação entre o cristianismo e a natureza. Ele supera uma das críticas de Ellul – de que ramos orientais do Cristianismo não pregaram a mesma relação com a natureza e, portanto, que a religião não é o fator-chave -, apontando para as diferenças significativas na perspectiva teológica que caracterizaram as igrejas latinas ativistas no Ocidente e as Igrejas gregas contemplativas no Oriente. Ellul havia notado a diferença, e usou a Igreja Ortodoxa Russa como exemplo da questão, mas concluiu que a diferença deveria ser cultural e não religiosa. Mas embora a formação cultural do cristianismo antigo não deva ser esquecida, permanece o fato de que, na Idade Média, tanto o cristianismo oriental como o ocidental assumiram formas distintas e estavam agora, como variações culturais da mesma religião, moldando o clima intelectual de suas respectivas sociedades.

Além disso, White também reforça o argumento apontando para a visão sacramental do cristianismo oriental. A Natureza existia como um sistema de sinais para serem lidos e através dos quais Deus falava à humanidade. Isso é, na opinião de White, uma visão da natureza “essencialmente artística ao invés de científica”. Enquanto o Ocidente inicialmente partilhava esta visão sacramental, no final do período medieval este deu lugar a uma teologia natural mais inclinada a “ler” a natureza entendendo o seu funcionamento, ao invés de meramente contemplar a sua aparência. (Bronislaw Szerszynsk mais tarde irá lidar com este argumento semiótico em profundidade.)

A estrutura retórica do artigo de White se preocupa mais com as fontes da “atual crise ecológica”, mas o corpo de seu argumento se dirige a outra pergunta: Qual a explicação para o avanço da tecnologia ocidental em comparação às suas civilizações rivais? O ensaio de White, embora inicialmente partindo de uma abordagem de um único fator para a mudança tecnológica, no quadro geral utilizou uma abordagem de fatores sociais, focando-se no cristianismo latino como a força motriz da evolução tecnológica da Europa Ocidental. Ao fazer isso, o ensaio definiu os termos e tornou-se um ponto de partida para a discussão posterior do relacionamento da religião com a tecnologia. Mais notavelmente, ele ancorou o debate na Idade Média, apontou para o significado cultural das distinções teológicas aparentemente arcanas, identificou o Cristianismo como o fator cultural mais importante conduzindo a atividade tecnológica no Ocidente, e ligou a questão histórica às preocupações ambientais.

Lynn White desenvolve ainda mais sua tese em um longo artigo de 1971, “Climas Culturais e o Avanço Tecnológico na Idade Média”, no qual ele se dispõe a identificar diretamente as fontes do “impulso tecnológico sem precedentes no Ocidente medieval”.

White começa discutindo a propensão da Europa medieval em tomar emprestadas e elaborar em cima de tecnologias desenvolvidas inicialmente em outras sociedades. A cultura da Europa medieval “foi única no seu clima de receptividade a transplantes” e isso explica, em parte, o vigor da produção tecnológica medieval. No entanto, essa mesma receptividade exige uma explicação, e em resposta White reafirma a lógica de “As raízes históricas de nossa crise ecológica”:

“Aquilo que uma sociedade realiza tecnologicamente é algo influenciado por empréstimos casuais de outras culturas, embora a extensão e usos destes empréstimos sejam reciprocamente influenciados por certas atitudes em relação às mudanças tecnológicas. Fundamentalmente, no entanto, tais atitudes dependem daquilo que as pessoas em uma sociedade pensam sobre seus relacionamentos pessoais com a natureza, seus destinos, e quão bom é agir sobre eles. Estas são questões religiosas.”

No que se segue, White amplia as linhas do argumento sugerido no ensaio anterior, ao mesmo tempo que apresenta linhas adicionais de evidência em apoio de sua tese. O trabalho seminal do historiador medieval Ernst Benz, cujos escritos sobre o assunto apareceram em italiano em 1964 e foram apresentados em inglês em 1966, é introduzido pela primeira vez no argumento de White. O estudo de Benz acerca dos “impulsos anti-tecnológicos” do Zen Budismo levou-o a localizar a aceitação de mudanças tecnológicas pela Europa Ocidental dentro de sua perspectiva religiosa. Ele apontou para o cristianismo em sua concepção linear da história, sua apresentação de Deus como arquiteto e oleiro, sua afirmação teológica da bondade da criação material, e seu pressuposto da ordem criada como uma “obra inteligente” – tudo isso, em sua opinião, algo único no cristianismo – como os componentes daquilo que White chama de um “clima cultural” extremamente hospitaleiro para o avanço tecnológico.

White apresenta os contornos da análise de Benz, mas encontra espaço para melhorias. Baseando-se em dois artigos publicados de forma independente em 1956, White mais uma vez chama atenção para o desencantamento da natureza supostamente realizado pelo triunfo cultural do cristianismo sobre o paganismo antigo. Ele também reafirma e desenvolve a importância da distinção entre o cristianismo ocidental e o oriental. Aqui, White fortalece suas observações anteriores utilizando evidências iconográficas e textuais.

Começando logo após da virada do primeiro milênio cristão, a iconografia ocidental descreve Deus no ato da criação como um construtor, mestre artesão, e mais tarde um mecânico – uma tradição visual jamais adotada nas igrejas orientais. Na questão exegética, White destaca as interpretações ocidentais e orientais da história de Marta e Maria no Evangelho de Lucas. Enquanto uma leitura superficial sugira que a contemplação seja mais importante que o ativismo, os intérpretes latinos, começando com Agostinho, saem dessa interpretação, buscando amenizar e até mesmo reverter a aparente crítica do ativismo e do trabalho.

Com isso, White então se volta a algo que se tornaria outro ponto chave de atenção nas discussões posteriores sobre tecnologia e cristianismo: a atitude em relação ao trabalho nas ordens monásticas, principalmente entre os beneditinos. White observa que, no mundo bizantino, ao contrário do Ocidente, que não sofreu um colapso geral da cultura, as ordens religiosas não foram obrigadas a arcar com o ônus de sustentar todos os aspectos da civilização, sejam eles seculares e religiosos. Entretanto, após o colapso da autoridade romana no Ocidente, as ordens religiosas – notavelmente os beneditinos – encontraram-se na tarefa de exercer funções religiosas e seculares, unindo adoração e trabalho. Esse compromisso com o trabalho e as artes mecânicas, na opinião de White, geraria um ímpeto caracteristicamente religioso para o desenvolvimento da tecnologia.

White apoia sua afirmação com base na obra do pseudônimo Teófilo e Hugo de São Vítor. As obras de Teófilo, que datam do início do século 12, fornecem um registro indispensável do conhecimento tecnológico da época, ao mesmo tempo confirmando a motivação religiosa para a inovação técnica, que White acredita ser característica da época. Nesse mesmo tempo, o contemporâneo de Teófilo, Hugo de São Vítor, incorporou as artes mecânicas em sua influente classificação do conhecimento e das artes. Embora as artes mecânicas estivessem na mais baixa posição na hierarquia das artes, ainda assim elas foram incluídas, e isso não era pouco. Juntas, as obras de Teófilo e Hugo apoiam a tese de White sobre o papel do cristianismo ocidental ao formar o impulso tecnológico da Europa na Idade Média.

White conclui com mais uma evidência iconográfica corroborando sua tese. Uma ilustração do Salmo 63 no Saltério de Utrecht, datada em meados do século IX, apresenta um confronto entre o rei Davi e os Justos com uma força muito maior dos ímpios. Enquanto os ímpios usavam pedras de amolar para afiarem suas espadas, os piedosos empregam “a primeira manivela que se tem registro além da China, usada para rodar o primeiro rebolo conhecido na humanidade”. “Claramente”, White conclui, “o artista está nos dizendo que o avanço tecnológico é a vontade de Deus.”

Assim, embora “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica” seja citado com mais frequência e mais frequentemente tomado como ponto de partida, é em “Climas Culturais e o Avanço Tecnológico na Idade Média” que White defende mais persuasivamente a ideia da influência formativa do cristianismo sobre a história da tecnologia na sociedade ocidental. Com sua inclusão da pesquisa de Ernst Benz e sua discussão da espiritualidade beneditina, este ensaio definiu a agenda de pesquisas e discussões posteriores.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Why parents should not be told the sex of their fetus

 
A new technique called non-invasive prenatal testing (NIPT) has been developed, which can detect a range of genetic and chromosomal diseases, as well as fetal sex earlier, more easily and more reliably. NIPT, therefore, potentially expands the market for sex determination and sex selective abortion. This paper argues that both practices should be prevented by not including fetal sex in prenatal test reports. This is because there is a discrepancy between what parents are concerned with (gender) and what the prenatal test can provide (sex). The paper first presents arguments, which indicate a difference between sex and gender before presenting parental motivations for sex selection and sex determination to show that parents are not concerned with their child's sex chromosomes, or even their genitalia, but the gender role that their child will espouse. That, however, is not something that a prenatal test can provide. We are thus left with a situation in which what parents are told, and what they think they are being told, are two different things. In other words, as the conflation of sex with gender is implicit in the disclosure of fetal sex, it may be more accurate to refer to it as misinformation. This misinformation promotes sexism via gender essentialism, which is neither in the interests of the future child nor society. 

Fonte: http://jme.bmj.com/content/early/2016/02/04/medethics-2015-102989.full

publicado no bioética e Fé Cristã em 09/03/16

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Maioridade Penal: reflexões II


"Indiferente a soluções verdadeiras para interromper a vergonhosa taxa anual de 55 mil homicídios, a chamada bancada BBB –Boi, Bíblia e Bala– prossegue sua blitzkrieg retrógrada. Menos de 1% dos assassinatos são cometidos por jovens de 16 e 17 anos. Já os adolescentes representam 36% das vítimas. Basta tais números para perceber a manipulação demagógica do debate da maioridade penal. 

Uma sugestão: em vez de caçar menores, por que não endurecer, por exemplo, as regras de prescrição de delitos de adultos?"

Ricardo Melo, articulista do Jornal Folha de S. Paulo, em crônica intitulada "Retrocesso trabalhista", publicada na página A8 no dia 06/04.15

Redução da maioridade penal: reflexões

"Dentre os 42 deputados que aprovaram na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal o andamento da proposta da redução da maioridade penal, 25 são alvo de inquéritos por crimes eleitorais, porte ilegal de armas, compra de emendas, acusados de integrar a máfia das ambulâncias, de improbidade administrativa, desvio de verba e investigados na Operação Lava Jato."

Paulo Sérgio Pinheiro, ex-secretário de Estado de Direitos Humanos do governo FHC e especialista independente do secretário-geral da ONU sobre violência contra a criança, em carta à redação do jornal Folha de São Paulo, publicada em 06/04/15 na página A5

segunda-feira, 23 de março de 2015

CARTA ABERTA AOS PARLAMENTARES EVANGÉLICOS BRASILEIROS

ORGANIZAÇÕES FILIADAS A RENAS REUNIDAS EM ASSEMBLEIA DIZEM NÃO À REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL E SIM À VIDA PLENA PARA TODAS AS CRIANÇAS, ADOLESCENTES E JOVENS!
“Deus sabe quando neste país os prisioneiros são massacrados sem compaixão. O Deus altíssimo sabe quando são desrespeitados os Direitos Humanos, que Ele mesmo nos deu. Sim, o Senhor sabe quando torcem a justiça num processo”. (Lamentações 3: 34-36, NTLH)
Ao tomar conhecimento do debate na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados ocorrido esta semana em Brasília, as organizações filiadas à RENAS, reunidas em assembleia na cidade do Rio de Janeiro, de 18 a 20 de março, decidiram unanimemente aprovar uma agenda de incidência política junto às igrejas evangélicas brasileiras e aos parlamentares que compõe a CCJC, especialmente os que se declaram evangélicos. Esperamos contar com a sensibilidade dos irmãos deputados na esperança de que este seja um momento de testemunho em favor da vida daqueles que Jesus considerou mais preciosos, as crianças e adolescentes.
Para assinar a petição, clique aqui.
Convidamos parlamentares e comunidades evangélicas a considerarem conosco os seguintes pontos:
1.     A partir dos 12 anos, qualquer adolescente é responsabilizado pelo ato cometido contra a lei. Essa responsabilização, executada por meio de medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), tem o objetivo de ajudá-lo a recomeçar e a prepará-lo para uma vida adulta reconstruída.
2.     O ECA prevê seis medidas educativas: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Recomenda que a medida seja aplicada de acordo com a capacidade de cumpri-la, as circunstâncias do fato e a gravidade da infração. Muitos adolescentes, que são privados de sua liberdade, não ficam em instituições preparadas para sua reeducação, reproduzindo o ambiente de uma prisão comum. E mais: o adolescente pode ficar até 9 anos em medidas socioeducativas, sendo três anos na internação, três em semiliberdade e três em liberdade assistida, com a responsabilidade do Estado de acompanhá-lo e ajudá-lo a se reinserir na sociedade. Não adianta, portanto, endurecer as leis se o próprio Estado não as cumpre!
3.     O Brasil tem a 3ª. maior população carcerária do mundo e um sistema prisional superlotado com mais de 715 mil presos. Só fica atrás em número de presos para os Estados Unidos (2,2 milhões) e a China (1,7 milhões). O sistema penitenciário brasileiro NÃO tem cumprido sua função social de controle, reinserção e reeducação. Assim, enviar os jovens mais cedo para o sistema prisional é decretar a falência de nossa sociedade em prover oportunidades de vida digna para nossa juventude e condenar nosso futuro como nação.
4.     Muitos estudos no campo da criminologia e das ciências sociais têm demonstrado que NÃO HÁ RELAÇÃO direta de causalidade entre a adoção de soluções punitivas e repressivas e a diminuição dos índices de violência. No sentido contrário, no entanto, se observa que são as políticas e ações de natureza social que desempenham um papel importante na redução das taxas de criminalidade. Dados do UNICEF revelam a experiência mal-sucedida dos Estados Unidos, aplicando aos seus adolescentes penas previstas para adultos. Os jovens que cumpriram pena em penitenciárias voltaram a delinquir e de forma mais violenta. O resultado concreto para a sociedade foi o agravamento da violência.
Nossa sociedade e Estado têm negado todos os direitos ao pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes, do nascimento à juventude. Nossos parlamentares e sociedade em geral estaremos sendo hipócritas ao propor a redução da idade penal enquanto não garantimos todas as oportunidades de desenvolvimento para as nossas crianças e adolescentes. A juventude brasileira tem sido a maior vítima da grande violência que ocorre em nossas cidades e não pode ser ainda mais castigada como bodes expiatórios de uma sociedade e Estado negligentes com seus direitos básicos. Conclamamos os parlamentares, especialmente os que se declaram evangélicos, a se posicionarem contra a redução da maioridade penal e se envolverem na efetivação do ECA e do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), cumprindo o nobre papel dessa casa de fiscalizar e cobrar do poder público o orçamento e a efetiva  implementação dos instrumentos que já existem.
Pelos motivos expostos acima e inspirados na vocação profética da igreja conclamamos os parlamentares e comunidades evangélicas a se posicionarem em favor da vida de nossas crianças e adolescentes, pois o Deus da vida enviou seu filho Jesus Cristo para dar vida plena para todas as pessoas, em especial aos mais vulneráveis. Várias autoridades no decorrer da história decretaram a morte dos mais jovens como o faraó no Egito no tempo de Moisés e Herodes no tempo do nascimento de Jesus. Conclamamos a todos vocês a se posicionarem do lado de Jesus e não do Faraó ou de Herodes.
Em nome do Jesus de Nazaré, que teve sua vida ameaçada de morte ainda criança nos despedimos na esperança de que o Espírito Santo os guiará no caminho da vida!
Rio de Janeiro, 20 de Março de 2015.
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A Rede Evangélica Nacional de Ação Social (RENAS) nasceu há mais de 10 anos e congrega instituições sociais de diversas denominações cristãs e organizações baseadas na fé evangélica. Essas organizações desenvolvem ações de promoção humana em todos os aspectos da vida: apoio a crianças e adolescentes em situação de risco ou vítimas da violência física e sexual, recuperação de dependentes químicos, meio ambiente, idosos, entre muitas outras. Recentemente a RENAS e organizações parceiras mobilizaram milhares de pessoas e igrejas nas cidades-sede da Copa do Mundo para atuarem na defesa e proteção das crianças numa campanha conhecida como “Bola na Rede: Entre em campo pelos direitos das crianças e adolescentes”.
Para assinar a petição, clique aqui.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Defensores do Design Inteligente não apoiam ensino da teoria nas escolas

A Sociedade Brasileira do Design Inteligente (TDI-Brasil), instituída durante o 1° Congresso Brasileiro de Design Inteligente, emitiu um manifesto em que declara sua posição atual sobre ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) e da Teoria da Evolução (TE) nas aulas de ciência.

“A TDI-BRASIL declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da TDI nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais”, diz o manifesto.

A sociedade justifica sua posição citando que a academia científica ainda não corroborou totalmente os postulados da TDI e seu ensino.

“Somos acadêmicos e queremos disputar a posição de teoria científica sobre nossas origens não nas escolas, ou nos tribunais - com votos de juízes ou mesmo no Congresso Nacional - com voto de parlamentares, mas na academia, com a avaliação dos acadêmicos. Estamos certos que à medida que os conhecimentos sobre a TDI for expandido, ela sairá vencedora no meio acadêmico”, declarou Marcos Eberlin, presidente da Sociedade Brasileira do Design Inteligente. Eberlin também faz observações quanto ao ensino da Teoria da Evolução: “queremos que se ensine somente ciência em aulas de ciência, e que assim a TE seja ensinada hoje, mas como ela realmente é, com as suas graves deficiências e sem as fraudes e equívocos, além das provas contrárias apresentadas como fatos a favor da TE nas aulas e nos livros".

O 1° Congresso Brasileiro de Design Inteligente aconteceu nos dias 14, 15 e 16 de novembro no hotel The Royal Palm Plaza, em Campinas (São Paulo), e apresentou um ciclo de palestras com os mais diversos aspectos e dados científicos que provam que houve uma mente inteligente na criação e origem do Universo e da Vida.

A Teoria do Design Inteligente
A TDI estuda e analisa os dados científicos mais recentes sobre os eventos que deram origem ao Universo e aos seres vivos, que interpreta como apontando, como padrões de inteligência revelados através da complexidade irredutível, da informação e da antevidência, que produzem as evidências de uma inteligência organizadora. Em seu arcabouço teórico, a TDI reúne metodologia e conhecimentos interdisciplinares de estudos dos seres vivos em nível molecular, e através de inferências baseadas em fatos observáveis, propõe uma reinterpretação da origem da vida.

Leia a íntegra do manifesto da TDI-Brasil:

MANIFESTO PÚBLICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DO DESIGN INTELIGENTE -TDI BRASIL- SOBRE O ENSINO DA TEORIA DA EVOLUÇÃO E DA TEORIA DO DESIGN INTELIGENTE NAS ESCOLAS E UNIVERSIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS

A TDI-BRASIL declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.
Nossa posição se fundamenta na opinião atual da Academia, que ainda não acata em sua maioria a TDI e o seu ensino, posição essa que nós da TDI BRASIL, como acadêmicos, devemos acatar.

Outro fundamento de nossa posição contrária ao ensino da TDI nas escolas é a não existência, no quadro educacional atual, de professores capacitados para corretamente ensinar os postulados da TDI.

Entendemos, porém, que os alunos têm o direito constitucional de ser informados que há uma disputa já instalada na academia entre a teoria da evolução (TE) e a TDI quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens. Inclusive há outras correntes acadêmicas, além da TDI, que hoje questionam a validade da TE oferecendo uma terceira via.

Quanto ao ensino da TE, a TDI BRASIL defende que este ensino seja feito, porém, de uma forma honesta e imparcial, tanto nos livros didáticos quanto na exposição dos professores em salas de aula. Defendemos que sejam eliminados exemplos fraudulentos ou equivocados atualmente presentes em livros didáticos, e que sejam expostas as deficiências graves que a TE apresenta, e que se agravam a cada dia frente às descobertas científicas mais recentes - o que hoje não ocorre.

Quanto ao criacionismo, na sua versão religiosa e filosófica, por causa de seus pressupostos filosóficos e teológicos, entendemos que deva ser ensinado e discutido, junto com as evidências científicas que porventura o corroborem, em aulas de filosofia e teologia, dando a estas disciplinas o seu devido valor no debate sobre as nossas origens.

Informações: assessoria de comunicação da TDI-Brasil.

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/defensores-do-design-inteligente-nao-apoiam-ensino-da-teoria-nas-escolas-1

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Formas de promoção humana: promover pelo ensino

O ensino procura ajudar o necessitado suprindo-lhe a carência, a falta, de conhecimento. Os que não tiveram ensino adequado não sabem usar os instrumentos a sua disposição e também não são capazes de acatar as normas da ordem social, para poder acompanhar a sociedade. Os acomodadores (aqueles que promovem a assistência pelo ensino) entendem que a fome, a doença que está sempre presente (por exemplo, asma, doença de chagas, parasitoses intestinais, malária, dengue, febre amarela, hepatites viróticas, AIDS, hanseníase, tuberculose, etc), a miséria e o abandono são resultados da ignorância e da apatia. E o ensino é o instrumento para reverter a situação.

Os atrasados são aqueles que nunca tiveram escola, aqueles que não terminaram os estudos, os menores explorados (sexualmente ou não), os subempregados, os bóias-frias, os marginais, os prostitutos e prostitutas, os trombadinhas, os índios.

O ensino ocorre das mais variadas formas: cursos profissionalizantes, ensino de atividades específicas (bordado, corte e costura, conceitos básicos de informática), mutirões para melhoria das casas e das condições de vida, alfabetização, educação de jovens adultos são alguns exemplos.

Os acomodadores apoiam, ao final, os valores da sociedade. Não é incomum que eles imaginam estar ofertando meios para que os necessitados façam uma reflexão crítica da sua situação, quando estes, na verdade, desejam apenas se apoderar da ferramenta (o conhecimento que está sendo ministrado) para melhorar as suas condições de vida. Ou seja, se acomodarem em um lugar previamente moldado para ele, que somente poderia ser ocupado se houvesse a educação para isto.

Habitualmente promover pelo ensino acontece através de uma instituição que determina quais são as necessidades dos necessitados, avalia os recursos humanos e financeiros que tem à disposição ("os acomodadores ensinam o caminho a ser percorrido para a conquista de um lugar na sociedade contando com os recursos da sociedade"), estuda as propostas de soluções e seleciona aquela(s) mais adequada(s) para a resposta ao(s) problema(s) encontrado(s). É a instituição que controla todas as etapas do processo, que incentiva, contribui e controla. O sucesso da promoção é percebido pela ascenção social do necessitado.

Promover pela educação dá ao necessitado um instrumento poderoso para se defender e melhorar de vida. Mas como o educador é que tem o controle do saber e do ensinar, este é que ensina como o necessitado deve entender a realidade e as razões pelas quais existem necessitados. A promoção pelo ensino supõe que a sociedade evoluiu de forma satisfatória, e que o que impede a participação de todos é apenas a ignorância. A única alternativa para "subir na vida" é se enquadrando na sociedade. Educa-se para "saber mais para ter mais".

Se a assistência para no ensino, ela tende a promover o individualismo competitivo, próprio da sociedade capitalista agressiva. É esta a visão da Igreja de Cristo?

"O compadecido é assistencialista, pois cria dependência, dando coisas aos necessitados. O acomodador é paternalista, pois dá condições para o necessitado obter as coisas, mas não permite que ele tome sua própria iniciativa."

Postado no Serviço Assistencial Dorcas

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Formas de promoção humana: promover pela assistência

Há diversas formas de promover o desenvolvimento, crescimento, amadurecimento e empoderamento dos seres humanos. Nestas próximas semanas vamos apresentar algumas delas, com suas virtudes e defeitos.

A forma mais antiga e com maior presença na tradição cristã é a promoção do necessitado através da assistência. Ou seja, há um necessitado e um compadecido.

O primeiro é o indigente, o abandonado, o desprezado, o desempregado, o doente, o faminto.

O compadecido entende que promover o necessitado é providenciar recursos financeiros, materiais, sociais e culturais: saúde, abrigo, socorro, alimento, vestuário, habitação, infraestrutura, serviços, consolo. No meio evangélico, o texto do grande julgamento (Mt 25) é um fortalecedor desta visão de promoção humana.

A atuação assistencialista habitualmente ocorre através de uma instituição que trabalha a partir de objetivos explícitos ou implícitos que norteiam a captação e o uso dos recursos. Objetivos e recursos são tão interligados que um influencia o outro. A instituição é a controladora dos recursos, determinando onde e como serão empregados. A instituição também é que escolhe os valores que nortearão a percepção da necessidade.

"Os compadecidos socorrem os necessitados por sentimentos de caridade, de humanismo, de obrigação religiosa, de mitigar sua omissão diante das disparidades sociais etc. Eles dão testemunho de sua fé pelo amor ao próximo, simbolizado pela mão estendida em ajuda ao necessitado...A prática da promoção humana assistencialista reforça os laços que unem a humanidade e ressalta o dever cristão de ser um bom samaritano."

O relacionamento entre o necessitado e o compadecido é unidirecional; o necessitado recebe em função do ter. Aquele que tem, ou controla os meios de ter, dá aquilo que lhe sobra.

Ao lado das virtudes (universalidade de cuidado, real auxílio em situações limites, redução da fome, da miséria, do índice de violência e suicídio, por exemplo) há vícios que não podem ser ignorados.

As estruturas que geram solidão, doença, fome, desemprego, abandono não são enfrentadas. Racionalmente apela-se a Jo 12.8 ("os pobres sempre tereis convosco") para justificar o não enfrentamento destas estruturas.

O compadecido não corre riscos, pode aliviar o sofrimento alheio sossegadamente, e sem aprofundar o diálogo. E ele não é o necessitado, não vivenciou sua história - por mais que ame o necessitado, o compadecido não é um deles, é um estranho!

Racionalmente o compadecido organiza seu pensamento dentro da "certeza" de que a sociedade está no caminho certo, que o desenvolvimento social e econômico reverterá, a longo prazo, as situações que dão à luz o necessitado. É estranho ao evangélico este pensamento, que não se harmoniza com a visão pessimista que as Escrituras têm da sociedade humana corrompida e pecadora...
O poema de Carlos Drummond de Andrade faz pensar:
"A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia contemplam-se. Qual delas falará primeiro? Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra? Que mágoas, que ressentimentos prestes a saltar da goela coletiva e não se exprimem? Por que Ceilândia fere o majestoso orgulho da flórea capital? Por que Brasília resplandece ante a pobreza exposta dos barracos de Ceilândia, em silêncio, as gêmeas criações do bom brasileiro?"
do livro "Promoção humana - princípios e práticas numa perspectiva cristã", de Frances O'Gorman, Edições Paulinas.


publicado originalmente em Serviço Assistencial Dorcas

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A invenção do ’voto evangélico’

Sandro Amadeu Cerveira *

A presença de dois candidatos à Presidência da República, Marina Silva e Pastor Everaldo, em torno dos quais gravitam figuras polêmicas como Silas Malafaia colocou em pauta novamente o chamado “voto evangélico”. Essa expressão parece ser capaz de ativar uma série de imagens, sentimentos, conceitos e preconceitos, muitos deles contraditórios. Se para alguns o termo “evangélico” já é incômodo, o “voto evangélico” então pode causar arrepios, náuseas, urticárias e outras reações. Mas, afinal de contas, existe mesmo um “voto evangélico”? Esse “voto” possui as características que lhe atribuem? Em meio a tantas falas e estudos qualificados há algo ainda a ser dito?

A abordagem talvez mais comum sequer questiona a existência de um voto evangélico. Ele é dado. Existem evangélicos, eles votam em outros evangélicos (ou em quem seus pastores mandarem) e os eleitos agem sempre de forma coerente com o “ser evangélico”.  A chamada  “bancada evangélica” é a prova irrefutável deste “fato”.  Há ainda outra certeza. O não avanço das pautas relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos, assim como de outros direitos humanos, é culpa dos eleitores evangélicos.  São eles em sua sanha moralista e teocrática que ameaçam a democracia com o retorno ao obscurantismo.
De outro lado há quem afirme que os “evangélicos” sequer existem.  O argumento neste caso é de que a pluralidade dos chamados evangélicos é tão grande que é virtualmente impossível falar em “evangélicos”.  Afinal que afinidade existe entre um presbiteriano e um assembleiano? Entre um membro crismado da Igreja Evangélica Cristã Luterana no Brasil (IECLB) e um frequentador da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd)? Se não existem os “evangélicos”, podemos supor que tampouco exista o  “voto evangélico”. As pesquisas que apontam para a correlação entre autoidentificação religiosa e a preferência por um ou outro candidato (ou mesmo a afinidade com pautas conservadoras) seriam correlações espúrias. Mera coincidência ou acaso.
O bom senso nos recomenda desconfiar desses polos (caricatos) que apresentei. Tratar o “voto evangélico” ou mesmo os “evangélicos” como um bloco efetivamente desconsidera a grande pluralidade que existe entre os que assim se definem. Essa abordagem também parece ignorar que a religião é somente uma das dimensões da vida de uma pessoa, entre tantas outras. Pesquisas indicam que o fato de o “evangélico” ser homem ou mulher, rico ou pobre, nordestino ou gaúcho, analfabeto ou pós-graduado pode fazer muita diferença em uma série de questões.

Apenas para ilustrar, observemos os dados pesquisa Datafolha publicada em 29 de agosto. Segundo esse levantamento, 38% dos eleitores que se dizem católicos votariam em Dilma, enquanto “apenas” 30% dos evangélicos votam na candidata petista. Quando se trata de Marina os números se invertem: 41% dos evangélicos pentecostais votam em Marina e somente 30% dos católicos na candidata do PSB. Conclusão? Há um “voto evangélico” em Marina. Mesmo? Que “voto evangélico” é este se quase 60% dos evangélicos NÃO votam em Marina?

Por outro lado, afirmar que os evangélicos simplesmente “não existem”, em virtude das grandes diferenças internas às denominações de matriz protestante é também um equívoco. A heterogeneidade dos grupos e fenômenos sociais não nos exime do esforço de conceituação e generalização. Estas estratégias/ferramentas são importantes no desafio de pensar o mundo multifacetado e multicondicionado que nos cerca. O conhecido sociólogo Max Weber já alertava que um “tipo ideal” não existe no “mundo real”, mas eles podem ser úteis para operar e pensar a realidade. Para além da questão metodológica, a Frente Parlamentar Evangélica existe e, a menos que analistas e políticos estejam redondamente enganados, sua existência se deve (ainda que parcialmente) à concentração de votos de evangélicos em candidatos que assim também se apresentam.

Agradecido pela paciência do leitor até aqui, chego a minha tentativa de dizer algo sobre o assunto. O que chamamos de “voto evangélico” existe sim, mas ele é uma “invenção”. Como dito antes, ser evangélico (católico, espírita sem religião etc.) não é a única dimensão da identidade de uma pessoa que pode ser mobilizada politicamente. Quem trabalha ou estuda marketing político sabe que boa parte do esforço dos partidos e candidatos se concentra precisamente em tentar ativar, entre as muitas dimensões importantes em nossas vidas, aquela que lhes é mais favorável. Criar uma “conexão eleitoral” para criar uma base eleitoral. Embora os eleitores não sejam passivos nesse processo, o protagonismo é, via de regra, dos candidatos.

Até as eleições para o último Congresso Constituinte a presença de evangélicos na política pouco ou nada tinha a ver com um “voto evangélico”. O discurso predominante era de que “crente não se mete em política”. Os eventuais sucessos de candidatos evangélicos nas urnas raramente contou com a bênção de suas igrejas. Em 1986, algo mudou. O número de deputados evangélicos saltou de 12 para 32, sendo que a maioria (18) agora eram oriundos de igrejas pentecostais. A estratégia de lançar “candidaturas oficiais”, legitimadas pela pregação de que “Irmão vota em Irmão” foi parte da estratégia de algumas igrejas no sentido de criar, ou para usar meu termo provocativo, “inventar” os eleitores para esses candidatos. Os estudiosos das estratégias usadas pelos parlamentares na busca pela reeleição apontam que a “sinalização” de temas ou ideias é uma das principais estratégias usadas por políticos cuja votação não está geograficamente concentrada. São necessários estudos mais detalhados sobre o sucesso dos  políticos evangélicos em suas tentativas de reeleição, mas, ao que parece, aqueles que têm conseguido o aporte de recursos (simbólicos e materiais) das igrejas em suas campanhas e obtido maior visibilidade durante seus mandatos em temas importantes para os que se identificam como evangélicos vêm sendo os mais bem-sucedidos.

Um das estratégias utilizadas na construção de uma base eleitoral (não apenas dos evangélicos) é justamente a simplificação e a redução de temas complexos a frases de efeito e jargões carregados emocionalmente, não raro marcados pela chave “amigo-inimigo”. Um candidato evangélico típico bem-sucedido será então aquele que convencer um número suficiente de evangélicos de que devem votar nele por representar não tanto os interesses, mas seus valores e crenças na arena política. Como as crenças e valores adotados pelos “evangélicos” variam muito, é preciso recorrer a termos genéricos, carregados emocionalmente e familiares ao contexto linguístico do grupo fortalecendo a sensação de pertencimento. Termos como “governo dos justos”, “ditadura gay”, “abortistas” ativam esperanças, medos e ódios bastante poderosos que podem virar votos.
É claro que as estratégias das igrejas e dos políticos para criar o “voto evangélico” não seriam eficazes se todo seu discurso não fizesse sentido para pelo menos parte dos fiéis eleitores. De qualquer forma, se votar como evangélico não é algo dado ou “natural”, precisamos nos debruçar sobre seus efeitos, e não apenas sobre o sistema político. Questões como distorções na representação ou mesmo a defesa de pautas contrárias a direitos de minorias são os exemplos mais conhecidos. Por outro lado, o próprio campo evangélico pode estar sendo “colonizado” pela lógica e pelos interesses dos políticos evangélicos em detrimento de sua dimensão propriamente religiosa.

* Teólogo, historiador e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o autor é professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), em Minas Gerais.

fonte original:  http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/a-invencao-do-%E2%80%99voto-evangelico%E2%80%99/

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Silas Malafaia, Israel e o direito de matar



Por Hermes C. Fernandes

Acabei de assistir ao pronunciamento do pastor Silas Malafaia acerca do conflito "Israel e Palestinos" e coincidentemente tratei do mesmo assunto no culto de ontem em nossa igreja. Apesar do meu amigo Danilo Fernandes, editor do Genizah, concordar 100% com o líder da AVEC, gostaria de apresentar as razões que me fazem discordar de seu posicionamento.
Silas faz coro com boa parte dos líderes evangélicos brasileiros, que por sua vez, estão afinados com o diapazão ideológico americano. 
A primeira coisa que me chamou a atenção na defesa que Silas faz dos ataques de Israel à faixa de Gaza foi dizer que, numa guerra, nenhuma reação é proporcional à ação. Portanto, Israel teria razão em lançar mísseis em escolas palestinas matando crianças inocentes para vingar a morte de três adolescentes judeus mortos por militantes do Hamas. Ora, se Israel se mantivesse fiel aos princípios esboçados na Lei do Senhor, saberia que um dos seus mandamentos diz respeito à proporcionalidade de nossas reações (olho por olho, dente por dente). E mais: um discípulo de Jesus jamais defenderia qualquer reação, uma vez que seu Mestre ensinou a amar a seus inimigos e oferecer-lhes a outra face. Partindo do argumento usado por Silas, o ataque dos EUA a Nagazaki e Hiroshima em reação ao ataque japonês a Pearl Harbor foi totalmente justificável. Enquanto 2403 pessoas morreram na base americana de Pearl Harbor, 220 mil pessoas morreram nas duas cidades japonesas (quase cem vezes mais!). Quantas crianças palestinas terão que morrer para vingar a morte dos três adolescentes judeus?
Porém, o que mais me incomodou em seu discurso pró-Israel foi a interpretação teológica dada ao fato e à posição supostamente privilegiada de Israel. 
De fato, Deus fez uma promessa a Abraão de que toda aquela terra seria dada à sua descendência (Gn.13:14-15). Esta mesma promessa foi confirmada a Isaque e a Jacó (Gn.26:2-24; 28:12-14). Todavia, Deus estabeleceu condições para que seus descendentes tivessem o direito de posse da terra. Se não as cumprissem, a terra os vomitaria e eles seriam espalhados entre as nações (Lv.20:22; 26:14-15, 27-28, 32-33). Portanto, a Diáspora Judaica nada mais é do que o cumprimento das sanções impostas por Deus a Israel, se seu povo não guardasse os seus mandamentos. Ainda mais grave do que rejeitar a Lei do seu Deus, os judeus também rejeitaram o Messias prometido. Portanto, a aliança entre Deus e eles foi quebrada. 
Entretanto, há promessas bíblicas de que Israel retornaria à sua terra. E com base nessas promessas, surgiu o movimento sionista. Sionismo é um movimento político e filosófico que defende a existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel. O sionismo é também chamado de nacionalismo judaico e historicamente propõe a erradicação da Diáspora Judaica, com o retorno da totalidade dos judeus ao atual Estado de Israel.  O termo "sionismo" é derivado da palavra  “Sião”, nome de uma das colinas que cercam a chamada Terra Santa. Durante o reinado de Davi, Sião se tornou sinônimo de Jerusalém. Em inúmeras passagens bíblicas, os israelitas são chamados de "filhos (ou filhas) de Sião".
O que este movimento parece ignorar é que para que Israel retornasse à sua terra, algumas condições precisariam ser preenchidas. Dentre elas, a mais importante é a conversão dos judeus.
“Porque, em vos convertendo ao Senhor, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos, e tornarão a esta terra; porque o Senhor vosso Deus é misericordioso e compassivo, e não desviará de vós o seu rosto, se vos converterdes a ele.” 2 Crônicas 30:9
Portanto, o atual Estado de Israel, fruto de um arranjamento político da ONU, nada tem a ver com o cumprimento da promessa de Deus de que seu povo retornaria à sua terra. E a prova disso é que não houve conversão. E converter-se a Deus é acolher a única oferta de salvação possível: JESUS CRISTO. Por isso os apóstolos eram tão enfáticos ao testificar que "tanto a judeus como a gregos devem converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus" (At.20:21). À parte de Cristo, todo judeu está tão perdido quanto qualquer gentio. 
Paulo diz que eles eram os ramos naturais da oliveira (Abraão), mas devido à sua incredulidade e desobediência, foram quebrados e em seu lugar, nós, os que cremos dentre os gentios, fomos enxertados. Até que se convertam ao evangelho, eles são judeus apenas na carne, mas não na fé que teve seu patriarca. A igreja é, por assim dizer, a continuação do verdadeiro Israel. A árvore é a mesma, os ramos que foram substituídos. 
Ademais, a promessa de que os judeus retornariam à sua terra foi cumprida quando deixaram o cativeiro babilônico e voltaram para Jerusalém nos dias de Esdras e Neemias. Porém, por terem se mantido rebeldes, foram mais uma vez espalhados pelo mundo quando Jerusalém foi destruída pelo exército romano no ano 70 d.C. sob o comando de Tito.
A aliança feita com Abraão não caducou, mas foi devidamente cumprida em Jesus, seu Descendente (Gl.3:16). E os que são de Cristo são os verdadeiros descendentes de Abraão (Gl.3:29). De acordo com o próprio Jesus, o reino foi tirado dos judeus e entregue a outro povo, a saber, a Sua igreja, reunião de judeus e gentios que creem em Seu nome (Mt.21:43). 
E mesmo que Israel continuasse a ser o povo da aliança, conforme cre Silas, isso não lhe daria o direito de agir da maneira como tem agido, tirando a vida de milhares de civis inocentes. Deus não lhes deu o direito de matar. Nem a eles, nem ao Hamas, nem aos palestinos, nem aos EUA, nem a quem quer que seja. 
Ainda segundo o pastor Silas, quem se levanta contra a política Israelense corre o risco de ser amaldiçoado por Deus. Ora, ora... A bênção de Abraão a que ele se refere (abençoarei aos que te abençoarem e amaldiçoarei aos que te amaldiçoarem) está sobre seus verdadeiros descendentes, aqueles que seguem suas pegadas de fé, recebendo a oferta de salvação feita em Cristo Jesus. E por favor, não confundam isso com antissemitismo. Faço coro com Paulo que diz que seu desejo era que seus compatriotas fossem salvos. Amo os judeus. Como também amo os palestinos. Oro por Jerusalém. Como também oro por Gaza. E não é porque desejo prosperar, mas pelo simples fato de amar ao que Ele igualmente ama. Porém, este amor não me faz cego ante as arbitrariedades cometidas pelo Estado Israelense. 
Se Israel tem o direito de existir como Estado, os palestinos também tem o mesmo direito. Só haverá paz consistente e verdadeira quando houver justiça. E só haverá justiça quando houver amor. O salmista diz poética e profeticamente que a misericórdia e a verdade devem se encontrar e a justiça e a paz devem se beijar (Sl.85:10). Sem que isso aconteça, o máximo que teremos são tréguas momentaneas, seguidas de conflitos ainda mais severos. 
A questão é: quem será o cupido que promoverá este encontro? Em que cenário se dará o tal beijo? Será no jardim da Casa Branca? Ou quem sabe no pátio do Templo de Salomão... Não! A paz deve ser selada na ambiência do coração. E o cupido que deve promover o encontro não é algum presidente americano, mas ninguém menos que a igreja de Cristo. 
A igreja deve agir como agência reconciliadora entre os povos, e para tal, não pode posicionar-se ao lado de uns contra outros, como fez o meu colega Silas. Deus nos confiou o ministério da reconciliação (2 Co.5:18-19; Ef.2:14-16). Em vez de alimentar discórdias, devemos nos posicionar pela justiça, pela verdade e pela paz. 
Não ouso questionar a sinceridade de Silas, pois reconheço que seu discurso é eco do que tem sido ensinado à igreja desde o surgimento da teologia dispensacionalista. Porém, recuso-me a ficar calado, consentindo com os equívocos desta teologia. 
Que assim como Jesus, que caminhou por Jerusalém durante os dias em que Israel estava sob a tirania romana, preguemos o dever de se oferecer a outra face em vez de o direito de revidar ao ataque dos inimigos.

fonte original: http://www.hermesfernandes.com/2014/08/silas-malafaia-israel-e-o-direito-de.html

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Um Nobel da Paz que serviu a Deus

Albert Schweitzer foi um dos mais consumados polímatas de sua geração. Nascido em 1875, na Alsácia-Lorena, obteve doutorados em filosofia, teologia e música, escreveu uma importante biografia de Johann Sebastian Bach e um livro revolucionário sobre a vida de Jesus, e também conseguiu ser um dos mais exímios organistas da Europa.


Schweitzer realizou a maior parte dessas coisas na casa dos vinte anos. Aos trinta, porém, optou por uma grande mudança de rumo, abdicando da música e de uma brilhante carreira acadêmica para fazer um novo curso, dessa vez de medicina. Em 1913 ele partiu para a África Equatorial francesa, onde fundou um hospital para leprosos, e em 1952 recebeu o prêmio Nobel da Paz por décadas de trabalho médico pioneiro na selva africana. Schweitzer foi motivado pelo desejo de prestar serviço e contribuir para o que chamou de “a grande tarefa humanitária” de levar o conhecimento médico às colônias. Ele se sentia no dever, na obrigação, de trabalhar em benefício dos outros, “mesmo que seja uma coisa pequena”, disse, “faça algo por aqueles que precisam de ajuda humana, algo pelo que você não obtenha nenhuma paga a não ser o privilégio de fazê-lo.”1

O caminho clássico para uma carreira dedicada a um propósito é trabalhar por uma causa que encarne nossos valores, algo que transcenda nossos próprios desejos e faça uma diferença para outras pessoas ou o mundo à nossa volta. O serviço, um dos motivadores mais poderosos na história do Ocidente, está enraizado na ideia medieval cristã de servir a Deus mediante boas obras. Os primeiros hospitais da Europa, que começaram a aparecer em cidades como Paris, Florença e Londres, no século XII, eram fundações religiosas criadas para servir tanto aos indigentes e doentes quanto a Deus – atitude que se reflete no antigo termo francês para hospital, hôtel-Dieu, “albergue de Deus”. Por volta do mesmo período, ordens cristãs fundadas pelos cruzados, como os cavaleiros de São João de Jerusalém e os cavaleiros templários – mais conhecidas por sua matança de incréus -, também construíram hospitais por todos os países mediterrâneos e de língua alemã como forma de serviço sagrado.2

Albert Schweitzer foi impulsionado por essa ética cristã de serviço, tal como os fundadores da moderna profissão da enfermagem no século XIX, como Florence Nightingale e Clara Barton. No século XX, o ideal de prestar serviço espalhou-se além das fronteiras religiosas, de modo que aqueles que trabalham hoje no serviço público – seja como trabalhadores sociais na linha de frente, seja como estatísticos nas secretarias de educação – muitas vezes o fazem não apenas porque talvez lhes seja oferecida uma renda estável ou perspectivas de promoção, mas por sentirem que seu trabalho contribui para o bem público.

Roman Krznaric: Sobre a Arte de Viver – lições da história para uma vida melhor (Zahar)

Notas:
1. Schweitzer, 1949, p. 3.
2. Porter, 1997, p. 113.
Foto: Special Collections Research Center, Syracuse University Librar