sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Fé e ciência: irmãs gêmeas ou inimigas?

Timóteo Carriker

O divórcio entre a fé e a ciência, ou entre a física e a metafísica, marcou o fim da Idade Medieval e o início do Iluminismo. Não me entenda mal. Creio que este divórcio trouxe inestimáveis benefícios para ambos os lados, mas não sem um alto preço. Assim como os divórcios são caracterizados por brigas, mal-entendidos, rotulações preconceituosas ou até xingamentos de ambos os lados, a ciência e a teologia também sofrem de grande dificuldade de comunicação. Além disso, com o amadurecimento da ciência, cresce a convicção popular de que a ela pertence o campo dos fatos enquanto à religião pertence o campo dos valores. Curiosamente, ao campo dos fatos se aplica a regra de singularidade e dogma. Isto é, a respeito de determinado fenômeno, cientificamente falando, os fatos são únicos e, uma vez estabelecidos, se tornam dogmas. O inverso ocorre na percepção do papel da religião para quem é relegado ao campo dos valores. Estes valores, não como fatos, são múltiplos e, por isso, culturalmente, não devem ser entendidos como dogmas universais, apenas ao gosto do freguês.

Digo isso a princípio apenas para ilustrar a dificuldade de intercâmbio que historicamente existe entre estes dois paradigmas. Uma parábola vai ajudar (a primeira regra da teologia é: se não souber a resposta, conte uma parábola!).

Em julho de 1979, na famosa Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge, Massachusetts, igrejas do mundo inteiro, protestantes, católicos romanos e católicos ortodoxos, se reuniram (com o apoio do Concílio Mundial de Igrejas) para discutir o tema "Fé e ciência num mundo injusto". O eminente astrônomo australiano Robert Hanbury Brown foi convidado para dar início à conferência com uma definição de ciência e uma interpretação da sua natureza. Dois dos seus temas eram especialmente interessantes.

Começando com uma definição clássica, ele descreveu como a "industrialização" da ciência -- sua aliança com instituições políticas e econômicas -- modificou a compreensão clássica como uma busca pela verdade objetiva e verificável. Mesmo assim, como bom cientista que é, Brown afirmou a importância da objetividade e a verificabilidade para toda tarefa científica.

Ao mesmo tempo, Brown enfatizou que os conceitos científicos são metáforas e abstrações relacionadas a uma realidade essencialmente misteriosa. Disse ainda que, dentro da própria ciência, há metáforas e abstrações diferentes que podem ser consideradas "complementares" e não antagônicas. Com base neste último ponto, ele argumentou que uma ciência devidamente modesta e a fé podem ser vistas como respostas complementares aos mistérios últimos da existência.

Depois da palestra de Brown, houve duas reações de conferencistas convidados. A primeira veio da cientista africana Matu Maathai, que era basicamente uma aprovação entusiástica da ciência, mesmo com algumas ressalvas a respeito do perigo do abuso da ciência no terceiro mundo, especialmente para o aumento de armas de destruição.

A segunda reação veio do teólogo e filósofo social brasileiro, Rubem Alves, então professor da UNICAMP, atualmente psicanalista e meu vizinho. Com um típico espírito brasileiro poético e brincalhão, Rubem Alves deu sua resposta contando a seguinte estória:

"Era uma vez um cordeiro que, amando o conhecimento objetivo, resolveu descobrir a verdade sobre os lobos. Já sabia de muitos contos ruins sobre os lobos. Eram verdadeiros? Resolveu investigar em primeira mão. Então ele escreveu uma carta para um lobo filósofo com uma pergunta simples e direta: O que é um lobo? O lobo filósofo respondeu a carta explicando o que os lobos são: seus formatos, seus tamanhos, suas cores, seus hábitos sociais, seu pensamento etc. Pensou, entretanto, que era irrelevante falar dos seus hábitos alimentícios já que tais hábitos, de acordo com a própria filosofia do lobo filósofo, não pertenciam à essência dos lobos. Pois bem, o cordeiro ficou tão impressionado com a carta que resolveu fazer uma visita na casa do seu novo amigo, o lobo. Foi somente então que aprendeu para sua infelicidade que os lobos têm uma fraqueza por churrasco de cordeiro".

Seria fácil confundir as personagens da parábola de Rubem Alves. Poderia imaginar que, para ele, o lobo representa o cientista puro e o cordeiro, o religioso. Também não seria difícil imaginar o contrário. Porém, o próprio Rubem Alves explica: o lobo somos todos nós que pretendemos nos definir com objetividade e distância pessoal. Os lobos são os cientistas, religiosos, políticos, economistas e até professores universitários. Entretanto, o tom bastante negativo de Alves ilustra a difícil relação entre a ciência e a religião. Esta relação tênue tem uma longa história que não é possível relatar adequadamente aqui. Porém, é um relacionamento que não precisa ser -- e não é -- o único relacionamento possível. Gostaria de propor outro, não de incompatibilidade entre lobo e cordeiro, mas do desconhecimento mútuo entre dois gêmeos que são criados separadamente.

Eventualmente vemos na televisão a notícia de que dois gêmeos, ou duas gêmeas, que foram separados logo depois do nascimento se encontram décadas depois. A alegria é enorme, mas na própria reportagem se percebe que os dois já são bem diferentes, devido não só a influência de fatores psicológicos que levam quaisquer irmãos, gêmeos ou não, a terem suas próprias personalidades, mas também devido à criação em contextos totalmente diferentes. Talvez eu esteja exagerando na analogia, mas prefiro ver a fé e a ciência como irmãs gêmeas criadas separadamente. Deveriam ter mais em comum do que de fato têm, não idênticas, pela mesma razão que gêmeos idênticos não são idênticos em sua personalidade. Faço esta fantástica afirmação de que a fé, certamente a fé cristã, literalmente começa e termina com uma preocupação cosmológica, uma preocupação que normalmente relegamos à ciência. Enquanto isso, a ciência sem dúvida está fazendo perguntas cada vez mais teleológicas e estéticas, que se referem à finalidade e a beleza da realidade que se pode conhecer.

Leia a continuação deste artigo na próxima semana.

fonte: ultimato

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O circo gospel

Robson Ramos

Pois é Spyware*, é incrível como esses pastores conseguem surpreender até mesmo a nós que estamos do lado do "nosso pai que está cá embaixo".

Nosso agente Greenbelly* tem feito um ótimo trabalho na região sul do país. Circulando por essas igrejas novas ele vê e ouve coisas das mais pitorescas.

Confesso, Spyware, que eu mesmo, por mais incrível que possa parecer, fico chocado e ao mesmo tempo feliz com esses relatos. O Greenbelly ouviu de um mesmo pastor duas pregações que estão arrancando risos dos nossos colegas da ZonQunran*. Eu gostaria de ter estado lá e ouvido o que ele ouviu. Ele viu e ouviu um pastor pregando em dois cultos, na mesma igreja. Num dos cultos o pastor falou sobre um tal de "Calebe" que, na língua hebraica segundo ele, significa "cão". A partir disso ele elaborou uma mensagem no mínimo estapafúrdia e que seria forte candidata a levar o prêmio de "Mensagem do Ano". Depois de dizer que Calebe significa "cão", ele afirmou que Deus gosta de Calebe. "Assim como o cão marca seu território fazendo xixi, nós temos que marcar nosso território", continuou o erudito pastor. Ele ainda contou sobre uma experiência vivida numa visita que fez a um estádio de futebol. Nessa visita, conforme seu relato pessoal, perante uma plateia de crentes atentos e ao mesmo tempo incrédulos, descobriu que próximo ao estádio havia um ponto de prostituição e resolveu fazer xixi nos lugares onde ficavam as prostitutas. Por ter feito o tal xixi as prostitutas não apareceram mais, concluiu com grande sabedoria o pastor. Enquanto isso algumas das pessoas presentes no culto gritavam "glória a Deus", outros se contorciam nas cadeiras. Os gritos de "aleluia", da parte de alguns, ficaram mais acalorados quando o referido pastor desferiu: "Quando você crê em Deus até o seu xixi tem poder".

Nosso agente Greenbelly pensava que o tal pastor nunca mais seria convidado para voltar àquela igreja. Mas para sua surpresa nesse último final de semana lá estava ele de novo, na mesma igreja, numa cidade turística do sul do Brasil. Não deu outra. Não demorou muito e as pessoas começaram a se contorcer nos bancos. O tal pastor esbravejou umas loucuras que deixou todos boquiabertos, sem reação, especialmente quando ele disse: "Deus vai te penetrar. Abra as pernas para Deus te penetrar. Tem gente colocando preservativo em Deus. Ele vai romper teu hímen espiritual".

Ora, Spyware, enquanto tivermos pastores como este atuando nas igrejas, não precisamos nos preocupar. Eles já fazem o nosso trabalho melhor do que nós mesmos.


* Nomes fictícios

• Robson Ramos
é autor de Evangelização no Mercado Pós-Moderno, acadêmico de Direito, bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e mestre em Estudos do Novo Testamento pelo Pittsburgh Theological Seminary, EUA. É também blogueiro, responsável pelo www.mateus21.com.br

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1187#comentarios

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Cristãos e mulçumanos - hora de repensar

Eduardo Ribeiro Mundim

Há algumas semanas recebi um correio eletrônico acompanhado por um vídeo. Não consegui identificar o autor da gravação, e nem o amigo que o enviou a sua lista de contatos. Em síntese, o vídeo defende a tese que uma cultura qualquer entra em processo de extinção quando a taxa de natalidade daqueles que a ela pertencem cai a partir de certo percentual. Este fenômeno aconteceria hoje na Europa, que estaria sendo ameaçada pela imigração de muçulmanos. E estes têm uma taxa de natalidade elevada. Termina com uma convocação subliminar para que os cristãos redobrem seus esforços a fim de evitarem esta derrota.

Algum tempo depois, outro amigo enviou-me um texto do pastor Eli reproduzido em diversos blogs (http://apologian.blogspot.com/2009/11/muculmanos-outra-vez-nao.html), que mereceu comentário favorável do Bispo Anglicano Robinson Cavalcante (http://www.dar.org.br/bispo/50-artigos/678-ameaca-islamica-e-narcisismo-diletante.html). Nele, o pastor Eli narra a evangelização de um muçulmano durante um voo de avião, e a irada reação doutro, que a tudo assistia. Este, envolvido em um projeto mundial de disseminação do islamismo por toda a terra - ele viria ao Brasil. Nova convocação.

E neste último domingo, dia 29 de novembro, os suíços entenderam, através de uma consulta plebiscitária, ser hora de proibir a construção de minaretes em uma determinada localidade (http://www.alcnoticias.org/interior.php?lang=689&codigo=15604). Um dos motes da campanha era manter a Suíça para os suíços e impedir sua islamização.

Há cerca de 1 mês, a Folha de S Paulo publicou uma coluna do filósofo Luiz Felipe Pondé (http://crerpensar.blogspot.com/2009/11/proibicao-da-cruz.html) a respeito da proibição da cruz em escolas públicas italianas, decidida por uma alta corte. O filósofo expõe o receio de que o evento mostre a perda de identidade cultural européia, e que a proibição "cospe na cara de 2.000 anos de história".

Por que tememos o islã?
Por ser uma fé mais palatável, com um esquema salvífico menos complicado e mais óbvio, de "salvação pelas obras"? Nós já temos a IURD e semelhantes destruindo o Evangelho da Graça através da teologia da prosperidade...
Por estar atrelado, em diversos países, a esquemas políticos ditatoriais, com perseguição polítca, religiosa e econômica? O ocidente tem seu católico Francisco Franco na Espanha, e o protestante "nascido de novo" George W Bush, defensor da tortura sistemática dos supostos inimigos do estado e da política do "grande porrete"...
Por ter uma face bárbara através da mutilação genital feminina, do cerceamento da mulher enquanto ser humano em igualdade de condições com os homens, do apedrejamento de adúlteras? Mas pessoas morrem de fome no nosso Brasil, políticos alimentam-se a si mesmos e aos seus (e acham a coisa mais natural do mundo) e o tráfico de drogas e a prostituição, inclusive infantil, encontra guarida em postos sociais inimagináveis...

Não encontro nas Escrituras a afirmativa que o cristianismo será a fé majoritária do planeta em alguma época. Encontro o ensino de que, na nova Jerusalém, haverá um só rebanho e um só Pastor - uma fé única. Encontro o ensino de que muitos são chamados, mas poucos os escolhidos; de que os salvos são incontáveis como a areia do mar, assim como aqueles que se excluem do Reino, ao negar o sacrifício substitutivo de Jesus; de que o número destes é muito maior que o daqueles; de que a vocação da Igreja é servir no presente século, e reinar, somente no Reino escatológico, onde apenas o Cordeiro se assenta no trono.

O diabo marcou um dos maiores gols de sua carreira quando convenceu o imperador Constantino a converter-se. Conversão bastante conveniente do ponto de vista político e questionável enquanto fato. Mas inquestionável o dano colateral produzido: o atrelamento do Evangelho à força política e ao estado. Jesus recusou-se a adorá-lo em troca do poder político, e a igreja aceitou o poder político sem adorá-lo, mas tornou-se permanente pedra de tropeço a incontáveis pequeninos. E Jesus alertou sobre que for pedra de tropeço para os vulneráveis...

Não quero a cruz como elemento de minha cultura. Desejo-a como minha vocação, inspiração e senhorio. Como lembrete das Escrituras e de que ela está vazia, pois nem a morte conseguiu detê-lo. Talvez eu tema mais o conformismo atual, que esvazia o seu conteúdo, igualando-o ao folclore, que uma eventual (e improvável) ditadura islâmica.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

E se o PLC 122 fosse aprovado hoje, como ficaria?




Rubem Amorese

Gostaria de contribuir um pouco mais com o debate sobre o PLC 122/2006, "que pune a discriminação contra homossexuais", cuja enquete está em andamento na página do Senado. Desta vez, minha colaboração é no sentido de permitir a você um julgamento pessoal sobre essa questão.

A gente ouve vozes alarmadas, pedindo que você vá lá e vote "não" e acaba se sentindo manipulado. Então, minha colaboração é a seguinte: veja aqui todo o texto do parecer da senadora Fátima Cleide, na Comissão de Assuntos Sociais (parecer aprovado na Comissão, na forma de um substitutivo).

Para facilitar seu entendimento da matéria, já que o PLC 122 altera uma lei já existente, eu fiz uma consolidação. Ou seja, peguei as alterações propostas e as inseri na lei alterada, de modo a você poder ler o texto final, passado a limpo, como ele ficaria se fosse promulgado hoje. Não é o caso; tem muita água para passar por baixo dessa ponte, ainda. Coloquei as alterações em outra cor para facilitar o entendimento das últimas mudanças.

Se esse assunto lhe interessar, leia o texto e a argumentação da senadora e faça sua própria avaliação. Sem alarde, sem induções pró ou contra (muita gente tem escrito, perguntando se deve responder sim ou não à enquete do Senado; e eu tenho evitado uma resposta desse tipo).

Espero, com isso, ajudar você a adquirir uma consciência crítica e livre sobre um tema tão controvertido e que tem alarmado os cristãos.


• Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Fábrica de Missionários -- nem leigos, nem santosruben@amorese.com.br

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Deus faz mal à vida?

Leonardo Boff *

Adital - Recentemente esteve entre nós o renomado biólogo darwinista Richard Dawkins afirmando que Deus faz mal à saúde humana e que "Deus é um delírio", título, aliás, de seu livro. Quase simultaneamente saiu um outro livro de um renomado filósofo e teólogo anglicano Keith Ward que, sem pretende-lo, deu uma resposta a Dawkings. Seu livro se intitula: Deus, um guia para os perplexos (Difel 2009).
Ward depois de percorrer mais de três mil anos de reflexões sobre Deus, tranquilamente, com o humor inglês que o caracteriza, poderia escrever: Dawkins, um delírio.
A questão fundamental que seu livro suscita é: o que os humanos querem dizer quando falam "Deus"? Por que as culturas, desde sempre, colocam o tema Deus?
Ward começa com a mitologia grega, cujo panteão é repleto de deuses e deusas. Mas adere à interpretação inaugurada por C. G. Jung e por Campbel segundo a qual no panteísmo não temos a ver com a multiplicidade de divindades, mas com múltiplas formas de presença divina na natureza e na vida humana. As divindades não são seres subsistentes, mas representam energias poderosas e criativas para as quais nos faltam as palavras adequadas para descrevê-las. Então se usam nomes divinos e mitos.
Ward passa pelos grandes representantes do pensamento ocidental, sem esquecer seus paralelos orientais, que detidamente se enfrentaram com a problemática de Deus. Mostra a grande ruptura que ocorreu entre o pensamento clássico greco-cristão para qual Deus representava a eternidade, a imutação e a pura transcendência e entre o pensamento moderno que entende a realidade como mutação e evolução, carregada de virtualidades apontando para várias direções.
A figura de Hegel é especialmente estudada porque foi ele que introduziu Deus na história, ou melhor fez da história a forma como Deus se mostra (tese), se autonega (antítese), entrando nos avatares da condição temporal e retorna sobre si mesmo carregando toda a riqueza de sua passagem pela evolução (síntese). Sua essência como Espírito absoluto é ser dinamismo, mutação, liberdade e criação. Vê no próprio conceito cristão da Trindade, a dialética divina da história: o poder auto-afirmativo que se mostra como Pai, a sabedoria que se revela como Filho e o amor unitivo que se concretiza como Espírito Santo.
Ward mostra as implicações lingüísticas e filosóficas que a temática de Deus encerra. Vão desde o discurso raso do fiel que identifica imagem de Deus com Deus mesmo, passando pelo discurso analógico dos teólogos para os quais os conceitos são meras analogias e não descrições do ser divino até o silêncio reverente que sabe ser impossível dizer qualquer coisa objetiva sobre Deus. Famosa é a frase de um dos maiores teólogos cristãos, o Pseudo-Dionísio Aeropagita (século VI): "Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe". É a linguagem dos místicos seja dos muçulmanos como os sufis, seja da sabedoria dos taoístas, seja dos místicos cristãos que afirmam que sobre Deus dizemos mais mentiras que verdades. Por isso, vale a advertência do filósofo Ludwig Wittgenstein: "Sobre coisas que não podemos falar, devemos calar". É o que as religiões e igrejas menos fazem.
Mas nem por isso deixamos de permanentemente colocar o tema de Deus. Seguindo a tradição pragmática inglesa Ward enfatiza que ao invés de perguntar o que a palavra "Deus" representa, deveríamos perguntar "como a palavra Deus é usada"? Ela está na boca e nas atitudes dos que oram, cantam e meditam. Esta é uma forma de se relacionar com o Inefável e a partir dele com o mundo. A conseqüência prática é que ocupar-se com Deus libera o eu do desespero e da ilusão e lhe possibilita atingir certa integração que gera a felicidade.
Como se depreende, pensar Deus não é nunca um mero exercício intelectual. É pensar a forma mais adequada de vivermos como seres humanos, compreendermos melhor o mundo e conectar-nos com aquela Energia soberana e boa que tudo pervade e penetra nas profundezas de cada um.
Finalmente, crer em Deus é crer na bondade fundamental do ser, é crer que vale a pena viver e desfrutar da alegria de passar por esse pequeno planeta no qual habitam seres que sentem o pulsar da Realidade Suprema feita de amor, compaixão e último aconchego. Deus é a maior viagem, o melhor delírio jamais experimentado.
[Autor de Experimentar Deus, Verus 2007].
* Teólogo, filósofo e escritor

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Teologia a favor do racismo

Daniel Santos

"O homem não pode fazer o certo numa área da vida enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível."
Gandhi

Chamamos de "racismo teológico" toda a construção bíblico-teológica que tem o propósito de fundamentar ou justificar a ideia de que o negro (em nosso caso específico) é inferior ao branco.

No contexto histórico-protestante brasileiro, esse tipo de "teologia" contaminada com o preconceito etnocentrista1 surgiu juntamente com os primeiros missionários norte-americanos, oriundos dos estados do Sul. Muitos desses missionários eram membros de igrejas brancas onde, a cada seis meses, eram feitas leituras das leis estaduais que diziam que qualquer branco poderia matar um negro fugitivo sem punição alguma; que um negro receberia trinta açoites caso levantasse sua mão contra um branco cristão; que nenhum negro poderia pregar o evangelho sem o consentimento de um branco; que nenhum negro poderia aprender a ler e escrever e que ninguém poderia dar nenhum livro (nem a Bíblia) a nenhum negro.

Como resquícios da derrota na Guerra da Secessão para os estados do Norte, esses missionários eram a favor da manutenção da escravidão e afirmavam que ela era instituída por Deus como resultado da maldição imposta aos filhos de Cam.

A "base teológica" do racismo ensinava que a palavra hebraica "cam" significava "queimado", "preto", fazendo do filho de Noé o pai da raça negra. Numa maldição imprecada por Noé, Cam deveria ser o mais baixo dos servos (Gn 9.18-27).2 Daí o fato de os negros, segundo os pregadores do racismo teológico, serem excelentes serviçais. Conforme essa interpretação, os filhos de Sem e Jafé têm um "direito teológico" de se aproveitarem do trabalho dos filhos de Cam, contribuindo, assim, para a redenção daqueles que são marcados por dois "pecados originais": o de serem filhos de Adão (pecado comum a todos os homens) e o de serem filhos de Cam (pecado específico dos africanos e negros, em geral).

Ao negro restava suportar sua miserável condição nesta terra (uma espécie de karma) enquanto aguardava sua redenção nos céus. Caso essa doutrina fosse questionada, alguns pastores apelavam para o expediente infalível da miscigenação, que alguns especulavam ser o pecado que havia levado Deus a destruir o mundo nos dias de Noé.

Esse racismo teológico não foi exclusividade das igrejas históricas.3 Segundo Oliveira (2004, p. 86), há vários teólogos pentecostais que ainda hoje sustentam a ideia de que o sinal posto sobre Caim, quando este matou seu irmão Abel, representava uma maldição caracterizada pela cor negra.4

O conceito teológico das igrejas neopentecostais 5 tem contribuído para uma maior proliferação do racismo. Sua postura é eminentemente antiafro (Freire, 2005, p. 19). A doutrina da prosperidade, a batalha espiritual e a doutrina das maldições hereditárias reforçam o estigma da cor negra, como sinônimo de algo negativo ou demoníaco. Nesse aspecto, o racismo sai da esfera do conceitual-teológico e avança para a prática, a vivência e as relações eclesiais.

Na doutrina da prosperidade, o fiel é abençoado conforme a quantidade de seus bens materiais. A situação socioeconômica do negro é vista de forma simplista e racista: "é pobre porque é pecador e oriundo de um continente idólatra e praticante de bruxaria".

Na doutrina das maldições hereditárias, o povo negro é considerado uma raça maldita, usando-se os mesmo argumentos "teológicos" já citados. Para que o negro seja livre de sua maldição é necessário que ele se desvincule de todo o seu passado histórico (origem, costumes, cultura, cosmovisão etc).

Na batalha espiritual, evidente principalmente por meio da literatura, o mal é personificado na cor preta. Em "Este Mundo Tenebroso", de Frank E. Peretti (1991), o exército de Deus é retratado por anjos brancos e louros e o exército do diabo, por anjos pretos e negros.

As igrejas históricas e pentecostais também já manifestaram altas doses de racismo por meio da literatura, hinologia e métodos pedagógicos.

Era bastante comum (em alguns casos, ainda o é) encontrar hinos e cânticos nos quais, em determinados trechos, a palavra "negro(a)" tem conotação do mal: "as negras nuvens", "o meu coração era preto", "a negridão do mal", "o negro pecado". Um dos exemplos mais notáveis foi o da Igreja Presbiteriana Independente que no seu hino oficial, "O pendão real", tinha uma frase racista que dizia: "os negros batalhões do grande usurpador". Essa frase foi mudada por aquela igreja e não mais cantada dessa forma, mas algumas igrejas ainda mantêm a forma original.6

A APEC (Aliança Pró Evangelização das Crianças), entidade evangelística interdenominacional presente em vários países do mundo, inclusive o Brasil, possui como principal método de evangelização infantil a utilização das cores. Sua principal ferramenta é o livro "Sem Palavras", no qual, por meio das cinco cores (verde, dourada, branca, vermelha e preta) a mensagem de salvação é explicada às crianças. As cores são simbolizadas da seguinte forma: o verde é a nossa esperança de ir para o céu, a cor dourada representa o céu, a cor branca simboliza a pureza do coração, a cor vermelha é a representação do sangue de Jesus que nos purifica do pecado e a cor PRETA simboliza o pecado que nos levará para o inferno. Após receber inúmeros protestos, a APEC mudou a expressão "preta" para "escura". Como o livro é muito usado por Escolas Bíblicas de inúmeras igrejas, sua correta utilização fica restrita à imaginação e capacidade de cada professor. A APEC utiliza o mesmo método didático por meio de folhetos, canetas, réguas e pulseiras.7

Concepções teológicas como essas tornam o racismo ainda mais enraizado no conceito de muitos cristãos, fazendo com que atitudes discriminatórias já não sejam tão raras dentro de algumas igrejas:

Um pastor negro, membro de uma respeitada denominação do país, guarda alguns bilhetes anônimos que recebeu, com os dizeres: "Lugar de macaco não é no púlpito, é na bananeira!".
Num seminário para casais, o palestrante branco afirmou: "Jamais permitirei que minha filha se case com um negro". Para angústia dos participantes, havia um casal inter-racial presente.
Determinado pastor consentiu no casamento de sua filha com um negro, desde que se comprometessem a ter apenas um filho. O argumento: se passasse disso, poderia haver problemas "raciais" entre as crianças.
Um pastor negro pentecostal ouviu de um pastor branco: "O negro não pode pregar porque tem o nariz chato, conforme ensinamentos bíblicos".8

Teologia Negra
A Teologia Negra surgiu em resposta às condições de vida dos negros norte-americanos, juntamente com o movimento denominado Poder Negro (Black Power), por volta da década de sessenta, período de maior organização e articulação do movimento a favor dos direitos do negro. Não há um líder específico que possa ser considerado o "pai" do movimento. Martin Luther King Jr. é considerado um importante precursor e também o Dr. James H. Cone, professor de teologia no Seminário Teológico da União, em Nova York, e autor de "Black Theology and Black Power" (Teologia Negra e Poder Negro, 1969) e de "God of the Oppressed" (Deus dos Oprimidos, 1975), o mais profícuo escritor dentro da Teologia Negra.

Seu discurso profundamente centrado nos ideais de libertação do povo negro revela sua estreita ligação com a Teologia da Libertação.

A Teologia Negra procura relacionar mais uma vez Deus e Cristo com o negro e seus problemas cotidianos, o que a torna essencialmente existencial. Isso está explícito na definição de Cone sobre o papel do teólogo negro. "O teólogo é, antes de tudo, um exegeta simultaneamente das Escrituras e da existência. Sua tarefa é investigar exegeticamente as profundezas das Escrituras com o propósito de relacionar aquela mensagem com a existência humana" (Cone, 1985, p. 17).

Se sua principal fonte é a experiência da vivência negra e se ela é essencialmente existencial, é possível concluir que sua forma está limitada ao contexto social e histórico de seu público alvo: os negros.

Toda teologia é "discurso humano e subjetivo" sobre Deus, um discurso que nos revela muito mais acerca dos sonhos e esperanças daqueles que falam sobre Deus do que acerca de Deus, de fato (Cone, 1985, p. 49.51). Toda teologia está relacionada a situações históricas e, por isso, é culturalmente limitada. Isso explica porque brancos e negros veem a Deus de formas diferentes. O pensamento teológico dos negros acerca de Deus está diretamente ligado ao seu contexto social da mesma forma que os pensamentos teológicos dos brancos sofrem influências de sua posição dominante. Como poderiam dois grupos tão distintos enxergarem a Deus da mesma forma? Como isso seria possível, posto que, enquanto o branco cristão europeu veio para o Novo Mundo fugindo da tirania, o negro foi trazido para cá como prisioneiro para se tornar vítima da mesma tirania? "O contexto social e histórico de alguém não apenas decide as perguntas que dirigimos a Deus, mas também o modo e ou forma das respostas dadas às perguntas" (Cone,1985, p. 24).

Cone concorda com a posição de Feuerbach de que "teologia é (antes de tudo) antropologia" (1985, p. 50) e que "o pensamento é precedido pelo sofrimento" (1985, p. 19). Ou seja, o homem não pode raciocinar acerca de Deus e de tudo o mais concernente a ele além da sua experiência social, da sua esfera de visão e da sua condição humana.

A Teologia Negra está fundamentada na forma e no conteúdo do pensamento religioso dos negros. Segundo Cone (1985, p. 65), a forma do pensamento religioso dos negros foi moldada conforme sua história repleta de extrema opressão e o conteúdo desse pensamento religioso não poderia ser outro, senão a libertação dessa opressão. Consequentemente, prática e pensamento não possuem distinção dentro do pensamento religioso dos negros porque suas reflexões teológicas sobre Deus ocorrem no mesmo espaço da sua luta pela liberdade.

Diferentemente da teologia dos brancos, acostumados ao raciocínio filosófico e teológico, a Teologia Negra se expressa por meio de histórias com profundo conteúdo libertador. Isso se dá porque os negros, na condição de escravos, tinham de trabalhar do nascer ao pôr-do-sol, não tendo tempo nem oportunidade para a arte do discurso filosófico e teológico. Assim, narrativas como a libertação do povo de Israel da tirania egípcia, da intervenção divina em favor de Daniel ou do caráter libertador da pessoa do Messias eram frequentemente utilizadas nos sermões.

Isso refletia na forma do sermão direcionado ao público negro. Ele não estava preso aos conceitos acadêmicos do evangelho de matriz branca. A liberdade revelada no evangelho pregado conforme a cosmovisão negra (formada por seu sofrimento e suas esperanças de liberdade) também se revelava no momento da sua proclamação.

A Teologia negra é, portanto, uma teologia do povo negro para o povo negro, refletindo, por meio de um exame de suas histórias, contos e ditos, sobre aquilo que significa ser negro.

O Brasil ainda não possui uma estrutura teológica exclusiva para o povo negro. Provavelmente isso seja reflexo da nossa condição histórico-sócio-cultural, já discutida nesse trabalho. Isso não significa que o assunto seja desconhecido ou não interesse aos brasileiros negros. Há evidentes sinais de um maior engajamento e de tentativas de desenvolvimento de uma Teologia Negra com a "cara" brasileira por parte de alguns líderes e militantes negros, como o pastor Marcos Davi de Oliveira, autor do livro "A Religião Mais Negra do Brasil", Hernani Francisco da Silva, militante do Movimento Negro e co-fundador da Sociedade Cultural Missões Quilombo, e Walter Passos, teólogo, historiador e autor do livro "Teologia Preta – a revelação", bem como de grupos como a Sociedade Cultural Missões Quilombo e o Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos, que realizou seu primeiro encontro nacional em Salvador, no mês de abril de 2007, onde foi discutido sobre "Cristianismo de Matriz Africana" e "Teologia Preta", dentre outros temas.

Notas
1. Alexandre Brasil Fonseca chama essa "teologia contaminada" de "teologia do 'apartheid'" e refere-se a ela como o "fazer teológico contaminado por todo o preconceito resultante de conceitos como o etnocentrismo, produzindo um cristianismo assassino e preconceituoso. Assassino, porque -- apesar de apregoar o amor e a fraternidade -- foi responsável por uma série de barbaridades. Preconceituoso, porque -- apesar de ter a igualdade como referencial -- acabou sendo o motivo para o sepultamento de uma série de culturas, como também de relações racistas no decorrer da história". (Oliveira 2004, p. 16)
2. Ninguém se preocupava em destacar que a maldição fora pronunciada, na verdade, contra o neto de Noé, Canaã, e não contra Cam.
3. Refiro-me às primeiras denominações protestantes que chegara ao Brasil: Congregacionais, Batistas, Presbiterianas, Metodistas, Luteranas e Anglicanas. Conforme distinção feita por SILVA, H. F., em "O Movimento Negro nas Igrejas Evangélicas".
4. Além do profundo racismo, fica evidente o grosseiro erro hermenêutico, visto que o "sinal" colocado por Deus em Caim tinha o propósito de protegê-lo, como representação da graça e do favor divinos, e não amaldiçoá-lo.
5. Denominações surgidas a partir da década de 1970 à sombra das igrejas pentecostais clássicas. Principais denominações: Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo, Sara a Nossa Terra, Internacional da Graça de Deus e, a mais recente dentre as demais, Mundial do Poder de Deus.
6. Cf. "Igreja e Racismo".
7. Idem, p. 1.
8. Cf. "O Movimento Negro nas Igrejas Evangélicas".


• Daniel Santos, casado, dois filhos, é pastor auxiliar na Igreja Betesda do Tatuapé, em São Paulo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Eis-me aqui

Paulo de Castro


Pensar... O que me chama a atenção nesta palavra é que sua realização não é, em todos os seus níveis, um ato voluntário.
Desde o "penso, logo existo", a própria existência está ligada ao fato de que é o pensamento que nos dá consciência de que "somos". Ser, existir implica em pensar. Independe de religião, credo, convicção política, formação, cultura, etnia ou qualquer outro critério que possamos citar.
Se para todas as pessoas (em todos os lugares e em todos os tempos) podemos assumir como natural, porque não dizer compulsório, o pensar, por que escrever um blog cujo tema maior é a afirmação de que aqueles que crêem (notadamente em um sistema religioso cristão) também podem fazer uso de suas mentes e formular questões relevantes para todos? Vivemos assim tão alienados que faz parecer estranho à sociedade em geral que possamos oferecer conhecimento válido? Algo que valha a pena ser ouvido, concorde-se com o que foi dito ou não?
A verdade é que na maior parte das vezes só participamos dos problemas, questões e “prazeres” da vida em sociedade quando exista algo que nos afete como cristãos. Agimos, interpretando erroneamente que o mundo “jaz no maligno” e que, portanto “dane-se, quem quiser ser salvo converta-se porque a coisa só vai piorar”.
Prefiro olhar para o “vós sois o sal da terra e luz do mundo”. E para que servem a luz e o sal se não são usados, continua o versículo.
Sou cristão por escolha, opção consciente, voluntária. Sou professor, empresário. Voto, pago meus impostos. Amo, sofro, choro e me alegro como qualquer pessoa. Se cortarem minha pele, eu sangro. Sim, eu penso. Não consigo não pensar.
Quero, humildemente, contribuir neste blog. Acho que tenho algo a dizer, principalmente a perguntar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A proibição da cruz


Eduardo Ribeiro Mundim

A cruz, ou melhor, crucifixo, está na ordem do dia nas últimas semanas, desde que um tribunal com jurisdição sobre a Comunidade Europeia o proibiu em escolas públicas italianas. O assunto extrapola a comunidade cristã, e é alvo de considerações por pessoas diversas. O filósofo Luiz Felipe Pondé publicou, em sua coluna, à página E9 da Folha de São Paulo de 09/11/09, sua visão sobre o assunto, que tento sumarizar abaixo.

A escola filosófica relativista, ilustrada pelo filósofo sofista Protágoras, defende que o "homem é a medida de todas as coisas". Dito de outra forma, verdade é determinada pela subjetividade individual, e ato moral pela subjetividade cultural de uma população em uma determinada área e em certa época (ver tópico em http://www.defnarede.com/r.html).

Esta "invenção ocidental" traz diversos problemas, e Luiz Felipe destaca um: "o relativismo se transformou numa militância política e moral apenas no ocidente". Ou seja, apenas a metade oeste do globo passou a relativizar até a si mesma, enquanto cultura, aceitando que "cada cultura seria um sistema fechado sobre si mesmo, onde um comportamento só poderia ser julgado pelos valores morais da própria cultura".

Ela cita dois autores, o antropólogo recentemente falecido Lévi-Strauss e o historiador Jacques LeGoff, que expõe a tensão da possibilidade da humanidade ocidental perder sua identidade, dissovlendo-se em uma mea culpa permanente, mas poupando todas as outras identidades culturais. Esta postura, atrevo-me a ponderar, é antirelativista, à medida que é aplicada unilateralmente - parece-me, na verdade, que esta mentalidade adotada pelo pós-modernismo é saturada de sentimento de culpa, idolatrando a cultura alheia e demonizando a própria.

A questão da cruz foi avaliada, por unanimidade da corte, como uma violação dos direitos de uma criança não cristã de não ser exposta a um símbolo religioso de uma fé que não compartilhava. Luiz Felipe termina seu artigo dizendo: "Esta decisão é ridícula, porque a cruz é um símbolo, seja eu cristão ou não, das raízes do próprio Ocidente, naquilo que ele mais preza: o amor ao próximo, generosidade e justiça, enfim, um Deus que morre de amor. Nós contemporâneos somos ignorantes de um modo gritante acerca do cristianismo, confundindo-o com alguns de seus momentos mais infelizes e cruéis (toda cultura é infeliz e cruel de alguma forma). Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade, e os ignorantes que a realizaram deveriam ser obrigados a pedir desculpas aos cristãos,"

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Das catedrais às cruzes humanas

Antonio Carlos Ribeiro

Cuiabá, sábado, 7 de novembro de 2009

A manifestação do Cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, conhecido por sua cultura teológica e trânsito em ambientes ecumênicos europeus, chama os cristãos a despertarem e se levantarem. Ao afirmar que "querem construir uma realidade que não seria mais a Europa, porque sem cristianismo a Europa não existe", mostra lucidez, mas fica sem impacto em ambientes teológicos católicos, ecumênicos e no universo intelectual e político europeu, por causa dos desdobramentos contraditórios.

Kasper é conhecido como um teólogo lúcido, com clareza não apenas conceitual, mas também pastoral. Sua ascensão às diversas funções foi marcada pelos critérios clássicos da formação, capacidade de diálogo, experiência pastoral, como padre e bispo, e acadêmica, como professor de teologia em universidades europeias e intercâmbios. Isso o fez aprofundar temas teológicos relevantes, desenvolvendo linguagem diplomática para lidar com a mídia e o grande público, e bases conceituais consistentes, para falar com a cúpula, chegando a confrontar-se com setores incumbidos do zelo pela Doutrina da Fé, e a assustar grupos de visão tridentina, associados à direita, com militância agressiva e recursos financeiros.

Sua consistência teológica chegou a criar problemas diplomáticos. Sendo a maior autoridade presente na assembleia do Conselho Mundial de Igrejas em Porto Alegre, a chefia da comitiva foi confiada a um bispo sem expressão. Ao presidir o Conselho para a unidade, ele trouxe uma aura de seriedade teológica e disposição de diálogo pastoral, mas isso não implicou autonomia institucional, mesmo tendo exigido esforços, desgastes e conflitos pessoais para lidar com teólogos e lideranças dos mundos protestante, judaico e muçulmano.

Em tempos difíceis

A falta de impacto em ambientes católicos e ecumênicos tem a ver com o esforço para movimentar-se na estrutura de traços conservadores, na qual precisa atender demandas tradicionais, com lógicas de poder, acordos e resultados. Embora o discurso de defesa do cristianismo, das catedrais e das cruzes na Europa pareça claro, na verdade aponta para o lado menos grotesco dos desastres causados pela civilização cristã, das cruzadas ao nazismo, e uma prática pendular que pede perdão, mas mantém estrutura imperial, defende a família, mas não deixa os padres se casarem, elogia as mulheres, mas não lhes dá poder eclesial.

Já no mundo intelectual e político europeu, sob influência do galicanismo, as resistências são maiores. Que a maior parte da Europa seja cristã é uma dúvida. Minorias comandarem maiorias é verdade, e não apenas na religião. Sobretudo hoje, quando essas visões supõem a existência da cristandade, que já acabou. Sem o sustentáculo de imperadores e nobres, a cruz tem deixado de ser chave para todas as portas. Dizer que cruz é símbolo cultural, agrava a situação. Para os muçulmanos expulsos da península ibérica, para os judeus que migraram por toda a Europa e, hoje, para minorias de imigrantes, refugiados e desterrados, o efeito é outro.

O último elemento pelo qual a reação se afasta das reações do poder e toma a praça é a laicidade. As sociedades são pluralistas, as pessoas têm aprendido a conviver com as diferenças, tolerância e virtude tornaram-se virtudes em todas as regiões que querem crescer. Mas não raras vezes esbarra na instituição que mais pleiteia sua defesa, na postura intolerante de líderes cristãos e nos setores com menor índice de educação. Se o laicismo se mostra intolerante, de quem aprendeu esse comportamento?

Admite que a cruz foi usada muitas vezes para perpetrar o mal, mas tenta resgatar seu significado, não crendo que alguém a use desse modo hoje. E associa o desaparecimento desse símbolo ao vazio e à secularização. De fato, o grito do cardeal se integra a um discurso escarmentado, de lamento e de castigo duro, para lembrar Claude Geffré, numa atmosfera religiosa, política e econômica que cimenta uma ordem social, na qual quanto mais se resiste, mais se torna irreversível o retorno ao mundo que não se quer deixar morrer.

É preciso guardar o discurso e aguardar os sinais dos tempos, afastando-se da oficialidade para recuperar a credibilidade. Ouvir os cristãos, ordenados e leigos, revela sabedoria histórica. Comblin disse que o cristianismo sempre migrou e agora pode ir para a Índia e a China. Para tal, é fundamental lembrar que as igrejas não dão a última palavra sobre o sentido da história. O que podem fazer é lembrar a necessidade de espiritualidade, de atendimento à busca de sentido, da urgência de limite às aventuras tecnológica e militar, e da necessidade de ser mais na relação com a alteridade e o Absoluto, como lembrou Brighenti.

Para dar conta do diálogo entre igrejas, religiões e sociedades, é preciso libertar a mensagem cristã da fixação regressiva na recomposição da unidade perdida, lembrou o professor de Teologia da Universidade Católica de Pernambuco,Degislando Lima. Conquanto não seja desejável, a Europa pode sobreviver sem cruzes e catedrais. Mas terá dificuldades se o clamor das populações, das minorias, e dos discriminados dos quatro cantos do planeta não for atendido.

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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416

http://www.alcnoticias.org/interior.php?codigo=15421&format=columna

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Marcha para Jesus? ou Blasfêmia disfarçada? duas reações

Eduardo Ribeiro Mundim

Leitor da Folha de S Paulo, morador daquela capital, enviou ao Painel do Leitor (pag A3), no dia 04/11/09, manifestação sobre a cobertura dada pelo jornal à Marcha para Jesus. Sintetizando, aponta que a cobertura optou pelo viés político, omitindo "a verdadeira razão de ser da marcha: o culto e a adoração a Jesus"; que o fato de, nos anos anteriores, o casal Hernandez não ter participado, mostra a inverdade da tese da marcha enquanto desagravo ao casal; o aspecto ordeiro, respeitoso, onde não se viu "drogas, cigarros ou desrespeito, somente alegria, amor e respeito ao próximo"; termina dizendo que gostaria que a marcha tivesse sido tratada com a mesma importância da Parada Gay.

Como cristão evangélico questiono o termo "adoração a Jesus" - ela causa-me certo desconforto, pois sempre penso que adoro ao Deus eternamento Triúno, Pai, Filho e Espírito Santo. Pela experiência e psicologia de massas, desconfio de grandes ajuntamentos, onde se perde a individualidade - acredito nas intenções de louvor de muitos, mas duvido do todo.

O senador Marcelo Crivella, pastor da IURD, em coluna publicada à página A3 no dia 05/11/09 intitulada "A marcha da legalidade" contraria o leitor. Afirma:
"reafirmo: foi o ato mais solene de revogação popular de todas as injúrias e calúnias que nos irrogaram os ódios e as paixões". Para minha surpresa, sai em defesa do casal nos termos seguintes: "o que ocorreu com o casal Hernandes, que ingressou nos Estados Unidos da América, sem declarar o valor em espécie que levava, é que foi punido com o máximo de rigor por conta da atmosfera de espetáculo, digna do coliseu romano, constituida de denúncias, insinuações e suspeições que, embora não provadas, emularam circunstâncias, as quais, estas sim, preponderaram no julgamento do fato em si, porque foram maciçamente divulgadas pela imprensa....foram sumariamente condenados por supostamente se 'evadirem' do Brasil e adentrar nos EUA com a extraordinária e mirabolante quantia de menos de R$ 50 mil cada um." (grifo meu)

O senador reflete sobre acusões que lhe foram feitas, pelas quais foi exposto publicamente, e que não foram comprovadas ao final. E termina:
"os milhões de evangélicos que marcharam para Jesus ao lado de seus líderes, reafirmo, foi o ato mais solene e majestoso de revogação popular de todas as injúrias e calúnias que, ao longo dos últimos anos, nos irrogaram os ódios e as paixões."

Confesso que pensei ter sido por demais cruel no texto anterior, ao ler a carta do leitor. Cheguei a cogitar em retirá-la do ar (incluindo a página do Ultimato). Mas o posicionamento do Senador Crivella apontou que ambos, o leitor e eu, vimos aspectos diferentes do mesmo fenômeno, e refletimos sobre ele a partir deles. E mantenho o texto anterior.

Quanto ao político, apequenou-se, mostrou-se igual aos outros, digno da casa onde trabalha.

E, curiosamente, no seu texto, agradece ter foro privilegiado em qualquer circunstância, diferente de todos os outros cidadãos...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Marcha para Jesus? ou blasfêmia disfarçada?

Eduardo Ribeiro Mundim

Aconteceu novamente a marcha para Jesus. Segundo a PM, um milhão de pessoas compareceram; segundo os organizadores, 6 milhôes (Folha de S Paulo, 03/11/09, pag A1). Encabeçada, este ano, por dois políticos, Marcelo Crivella e deputado federal por S Paulo, Bispo Gê, e pelo casal Hernandez, o, sem dúvida alguma, grande movimento de massa desperta em mim algumas questões, expostas abaixo, não necessariamente em ordem de importância.

A quem ela serve? A Jesus???

Vamos com calma, que o andor é de barro! Jesus não é um mestre, como querem algumas confissões religiosas não cristãs. É núcleo central do cristianismo que "Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai". Logo, o Cordeiro, presente na criação do mundo, sendo que, sem Ele, nada foi feito, não precisa que marchemos a seu favor, pois Ele não se encontra ameaçado, não tem competidor e já venceu a morte e o diabo. Caso Ele fosse ameaçado, em algum delírio insano, quem seriamos nós para defendê-Lo do Seu oponente?

Alguns, em sua inocência, podem alegar que a marcha é um testemunho da fé em Jesus. Questionável... Que ela é uma declaração de pertencimento, uma pública profissão de fé, é inegável. Mas, de qual fé estamos falando?

Segundo a página oficial na internete, em http://www.marchaparajesus.com.br/home.html o tema atual, "marchando para derrubar gigantes", é "Espiritualmente, entendemos que muitas situações nas vidas das pessoas podem ser consideradas “gigantes”, por serem muito desafiadoras, complexas, crônicas, como enfermidades, desemprego, dificuldade de relacionamento profissional, familiar e sentimental, problemas financeiros entre outras. A Marcha para Jesus 2009 prega uma nova condição. Como Davi marchou em direção ao gigante Golias e o derrubou, cremos que marcharemos para derrubar todos os gigantes que se apresentam nas nossas vidas. É um posicionamento de fé!"

Blasfêmia, segundo o Aulete digital, é o ultraje (insulto) a algo considerado sagrado. Pois bem, as Escrituras não declaram nada do que está dito acima. O assim chamado "evangelho da prosperidade" insulta o sangue dos apóstolos e mártires, envergonha os reformadores e transforma a cruz de Cristo num livro de autoajuda.

Se ela tem o objetivo de proclamar que o sangue de Jesus perdoa todo e qualquer pecado, nos livrando das garras do diabo, ela falha, ao menos para o articulista da Folha de S Paulo, Fernando de Barros e Silva. Na edição do dia 03 /11/09, à página A2, sua coluna traz o título "a marcha de Jesus e o diabo". Nem de longe o jornalista captou a mensagem de salvação, se é que ela foi pregada.
'
Para piorar as coisas, a vinculação política do evento, na presença de dois políticos que se dizem evangélicos, além da criação do dia nacional da marcha para Jesus, por ato do nosso vastamente ecumênico Presidente da República, explicitam o uso dos presentes como instrumento político para alguém, e não é a causa do Reino!

Através de um discurso de aparência piedosa, chamativo, há um apelo de luta política ("a liderança da Igreja Renascer em Cristo. Apesar disso, uma coisa precisa ser dita: A marcha é um ato de demonstração de fé em Cristo. Se os homossexuais conseguem levar milhões às ruas de São Paulo, os crentes também podem" - conferir em http://olharcristao.blogspot.com/2009/04/marcha-jesus-2009.html), de busca do poder (alguns se recusam a aprender com a história, de que a Igreja jamais pode se assentar à mesa com o poder político - sendo verdadeira a visão do imperador romano Constantino, ela foi dada pelo inferno, e não pelos céus) e da promoção do "casal apostólico", réus confessos de crimes cometidos em outro país.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Os especialistas / um evangelho egoísta

"Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor e maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos." Atos 02: 42-47 (NVI)

O crescimento da Igreja dos crentes é um relato empolgante: temor, amor e calor misturados à oração, perseverança e comunhão. Há neste registro tudo o que sonhamos e precisamos para crescer, um crescer saudável e duradouro; não esse processo no qual a Igreja incha por uns tempos e depois volta ao que era, ou regride. Na labuta pelo aumento do rol lançamos mão de todos os meios lícitos, válidos, cristãos e nem tanto.

Diferentes em tudo da Igreja primitiva buscamos na empresa secular os modelos alternativos de crescimento; ainda que o Evangelho que salva e transforma e o Espírito Santo que dá o crescimento sejam os mesmos, imutáveis desde a eternidade, nós insistimos em novas "técnicas" de expansão do Reino.

Tornou-se comum em nossos dias o surgimento de denominações "especializadas" em seguimentos do Evangelho, e fazendo-se "especializadas" fazem-se também arrogantes e relapsas; prega-se um evangelho adaptável, que se adéqua às necessidades do cliente, digo, do crente. Avulta-se o relativo em detrimento do absoluto.

Então temos: quebra de maldição hereditária, e só; confissão positiva, e só; teologia do riso, e só; descapetização, e só; batalha espiritual (seja lá o que queiram dizer com isso), e só; curas e milagres, e só. Cadê o Evangelho integral, bíblico e gratuito? Na minha igreja nós sentimos um imenso e santo orgulho quando dizem que ninguém estuda a Bíblia com maior zelo do que nós; mas, que as mesmas pessoas não apareçam nas reuniões do ministério de oração; um vazio de dar dó. Yes! Nós temos um ministério de oração, Uau!

E quase em frente (à minha igreja) abriram uma "igreja de campanha" e do amanhecer ao anoitecer eles oram e contribuem e empilham envelopes de pedidos e ofertas; (de onde vem tanto envelope?), mas nunca os vi calmamente assentados obedecendo à ordem: "Examinai as Escrituras!" Precisamos de uma e de outra coisa, precisamos atentar para o que diz Pedro: "Crescei na "graça" e no "conhecimento" de Jesus Cristo." II Pe 3: 18. Eu sei, estiquei o versículo!

Carregando o slogan do evangelho social nos tornamos assistencialistas, distribuidores de cestas básicas, e só; sequer oramos por aqueles carentes de tudo, e Mateus 4: 4, como é que fica? Pregamos o Evangelho, a Jerusalém celestial, mas agimos como se aqui e hoje não fossem importantes, mandamos todos para o porvir, sem escalas.

Intercessores, e só; ao passarmos por um "nu faminto sedento enfermo", ao largo passamos. Mt 25: 35. "Ama o teu próximo" vem no vácuo de "Ama o teu Deus"; amo Deus e deixo meu irmão na pior? A igreja da benção "A" despreza a igreja da benção "B" e juntas desprezam a cruz.

O nosso egoísmo produz igrejas egoístas; ouvi um pastor "social" dizer que a igreja dele crescerá "pra dentro"; adeus missionário.

A Igreja precisa apresentar os cuidados com o crescimento social e espiritual aliados à experiência de transformação, da presença soberana do Espírito Santo; estudo bíblico e oração; sopão e louvor e cura cabem no mesmo templo. Adicione conversões aí.

Não precisamos de um evangelho da cura, outro da libertação, da prosperidade, um evangelho da quebra de maldição; mas precisamos da cura, da libertação, da prosperidade, da transformação e da salvação que em nós opera o Evangelho de Jesus, o Cristo.

A santidade em nós é que expressa o poder do Evangelho; os bens aparentes não oferecem uma visão clara da presença graciosa de Deus em nós; os ímpios são escandalosamente "especialistas" em ostentar esses bens aparentes, esmagam melhor do que nós.

O bom perfume de Cristo, a boa sensação causada pela tradução da cruz em nós e que nos diferencia, é que revela que somos humanos de volta à imagem e semelhança do Criador. Igreja que fala de um novo Céu, mas que vive uma nova vida aqui, e divide-a promovendo um todo.

Especialistas sim, especialistas em Deus, e só.

(ex-interno do Centro de Recuperação de Mendigos – Missão Vida)

www.mvida.org.br conheça-nos!

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=mural&local=mural_show&util=1&registro=2164

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Igreja: decifra-me ou devoro-te

Derval Dasilio

Diria a esfinge. Esta figura egípcia definiria melhor a igreja sociológica cristã atual, em razão de sua imagem total, um ser composto de várias formas: tórax de leão, corpo de touro, asas de águia, cabeça de homem – símbolos imediatos nos domínios ancestrais atávicos. Leão: vida emocional. Águia: vida mental e intelectual. Touro: vida instintiva e vegetativa. Homem: consciência da existência total. Sabemos, no entanto, que os símbolos biblicamente são outros. Assírios, babilônicos, persas, gregos e romanos não são esquecidos como influência literária.

Poderíamos visualizar na igreja um lugar para "comer junto", comunhão em torno da mesa? Externamente, vive-se mentirosamente sob uma ideia comum de comunhão (Igreja de Cristo), porém são diversos os sentidos que damos aos sacramentos e à missão na diversidade anárquica. Comer na mesma "mesa", comunhão de diferentes nos alimentos da "ceia do Senhor", hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Continua sendo. De fato, cristãos mediterrânicos adaptavam-se e compreendiam a Eucaristia ("eucaristein") e a diversidade por força do ensinamento apostólico.

O reino de Deus não se confunde com igreja alguma; fundamentalista católica ou protestante. Os perseguidores estão também no meio da comunidade. Apontam o fracasso, aguçam o desespero, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Cristo, porém, na fé apostólica primitiva, é concreto, e não um produto de mercado ou um símbolo salvacionista abstrato. Não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos e "curativos" (mesmo que seja um "cristo" como esparadrapo e analgésico). A magia, o curandeirismo e a superstição constituem um perigo tempestuoso que leva ao naufrágio.

A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nesta as aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras e vulgares de satisfação física e material (H.H.Rowdon). Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião dissidente do judaísmo bíblico. Práticas de astrologia, adivinhação, eram elementos que permeiavam o culto cristão. Papiros de magia contendo orações e hinos "libertadores" eram elementos que circulavam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuavam em práticas supersticiosas repulsivas. Qual a diferença hoje?

A fé da igreja apostólica, "Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador de salvação até os confins da terra" (At 13.47), extinguiu-se? Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos; que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal. Idealização absurda, irreal. Não houve jamais eclesiologias idênticas, que organizam os ministérios ordenados uniformemente (impossível dedução, diante da diversidade mediterrânica). Missão e sacramentos são compartilhados em recomendação apostólica: a Igreja é missão e ministérios, em totalidade, afirmou Joaquim Beato.

Falta-nos examinar estes pontos e contradições. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimizando, mantém seu objetivo conciliatório. Mas a igreja de Jerusalém é apostólica, ecumênica, missionária e diaconal.

A questão dos pobres e dos excluídos na igreja também estava em relevo (At 2.42-47; 4.32-35), por exemplo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser "amortecida" por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizavam Francisco de Assis (século13), Spener (século 17) e mais tarde John Wesley (século18). Mais recentemente, Bonhoeffer, Luther King, Romero, Hélder Câmara, Jaime Wright, Mandela, Desmond Tuto.

A questão das desigualdades desinteressava a comunidade cristã enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e "purificação" de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do Evangelho de Jesus Cristo, entre diferentes e vítimas das desigualdades. "O reino de Deus e a sua justiça" deveriam ser uma bandeira da Igreja. Enfim, o que é mesmo a Igreja, se levamos em conta as deformações do momento? Decifra-me ou devoro-te...


• Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. www.derv.wordpress.com

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1155#

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A ditadura da Lei e a democracia do Espírito - implicações éticas

Eduardo Ribeiro Mundim

As Escrituras Sagradas expõem de maneira extensiva dois padrões de aliança entre Deus e os homens, ainda que relate várias alianças diferentes. Ambas são vontades explícitas dEle para o homem pecador, e uma sucede a outra, na linha cronológica.

A aliança com Israel nasce de um ato redentor, executado uma única vez, ao custo da vida de milhares de primogênitos, um sem número de soldados sepultados pelo Mar Vermelho e de severos reveses financeiros (gafanhotos, granizo e a morte dos primogênitos dos animais). A geração que viveu estes acontecimentos, com seus filhos, teve a oportunidade de aceitar o pacto oferecido, ou de recusá-lo. O pacto oferecido era o cumprimento de uma promessa feita aos Patriarcas algumas centenas de anos antes, continha obrigações de ambas as partes e foi aceito em nome dos descendentes. Não havia dispositivo na Lei que fizesse um filho hebreu avaliar sua pertença, ou dela se desligar voluntariamente. Apostasia era punida com pena de morte, assim como outros crimes "teológicos" (blasfêmia, por exemplo), "litúrgicos" (trabalho no sábado), contra a vida (homicídio intencional) e contra a santificação (diversas relações sexuais vetadas). Ou seja, cem anos após a chegada na Terra Prometida, os filhos de Jacó, querendo ou não, seriam circuncidados (uma semana após o nascimento) e passariam a viver sob as leis de um pacto não aceito por eles, baseado na livre escolha divina de fazer Israel Sua luz entre os demais povos.

A aliança do calvário nasce de um único ato redentor, jamais repetido, ao custo único da vida humana de Jesus, o Cristo de Deus - Deus feito homem, Deus que se esvazia e assume a forma, a vida, as vicissitudes de ser humano. Aliança proposta se baseia no Seu corpo e no Seu sangue, somente podendo ser aceita livremente pelo indivíduo, e não por algum representante, mesmo familiar direto. O batismo infantil, na visão protestante, significa apenas a intenção dos pais de que a criança batizada será criada de modo a, no momento oportuno, exercer seu direito de escolha, confessando Jesus Cristo como Senhor e Salvador. O comportamento ético é muito mais um processo de santificação progressivo e infindável que um comportamento exterior inatacável, inexistindo pena capital ou de castigo físico. A igreja tem como recursos disciplinares a admoestação privada, a pública, a suspensão da participação da eucaristia e a exclusão da comunidade de fé, nunca medidas perpétuas, mas sempre com a possibilidade do perdão, pedra sobre a qual todos são remidos.

Ambas alianças nascem no coração dAquele que sabe o que é melhor para o ser humano. Contudo, Ele não repete o padrão da Velha Aliança na Nova. Na primeira, buscava-se uma nação santa, inclusive enquanto sociedade civil; na segunda, povo santo em meio a uma geração "má e adúltera" (expressão que, salvo engano, refere-se aos judeus e não aos gentios...), a qual é ordenada submissão enquanto dentro do estatuto de um governo centrado nas necessidades de todos e não no ego do governante, mas não ao preço da apostasia.

Enquanto povo separado, é guiado espiritualmente por líderes nem infalíveis, nem perpétuos. A regra é "sujeitai-vos mutuamente uns aos outros" (e os presbíteros e diáconos não são exceção),cabendo à comunidade, muitas vezes, a palavra final sobre disputas internas (que não deveriam ser apresentadas aos tribunais do Estado). Solidariedade mútua, onde o governo da igreja (enquanto povo) existe em função da igreja (enquanto povo, e não instituição).

Quando confrontados hoje com as difíceis questões de harmonizar, em uma sociedade que jamais será cristã (pelo menos em uma vertente escatológica), interesses díspares, frequentemente contrárias à vontade de Deus expressa nas Escrituras, qual o modelo que adotamos? E por quê?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

De Caio Fábio para Bráulia Ribeir

Querida Bráulia, graça e paz!

Li o texto Alexandre (Ultimato, edição setembro/outubro, 2009) e me comovi profundamente com a dor de vocês, tão simples e verdadeiramente expressa pela Bráulia.

Você e eu já tivemos todas as chances de nos tornarmos mais próximos em razão de amigos comuns e de muitas identificações simples e práticas no Evangelho. Além disso, muitos já fizeram tudo para que isto acontecesse, mas as circunstâncias não permitiram; e a culpa é minha, não sua.

Não posso dizer que leio o que você escreve, que pesquiso, que estou informado sobre você em detalhes...

Sabia e soube de você mais pelo George Foster, pelo Pedro do Borel (hoje no Egito), pelo André Fernandes e pelo Tiago da Jocum em Brasília, do que por quaisquer outros meios. E todos me dão o mesmo testemunho; sim, falam-me da carta escrita com amor de Deus em seu coração para com todos os que passam em seu caminho.

Entretanto, amiga no Senhor, somente Jesus nunca foi levita e sacerdote na estrada, sendo sempre o samaritano.

Sim, além dele, todos os demais somos samaritanos de vez em quando, e ficamos felizes com isso. Embora em nossa ignorância e distração não registremos a quantidade enorme de vezes em que passamos de largo fazendo da agenda da estrada [...] o caminho de nossa pressa, e não fazendo a estrada submeter-se ao caminho interior, ao invés de seguir o roteiro da estrada [...], todos os dias vejo-me escolhendo apressadamente as agendas da estrada enquanto negligencio a agenda do caminho.

O levita e o sacerdote seguiram a estrada e seu "tempo". O samaritano seguiu o seu caminho.

A estrada, todavia, é apressada, diferentemente do caminho, que só segue quando tem a permissão da vida para passar. Graças a Deus somos perdoados todos os dias pelas escolhas da estrada contra as veredas calmas do caminho!

Entretanto, o que desejo de coração dizer a você, publicamente, visto que seu texto é público, é que nem você e nem ele têm esse poder todo! Sim, vocês não têm o poder de saber nada além do que se tornou história com as configurações de "história" [...] de passado, portanto.

Na noite que meu filho Lukas morreu atropelado saindo de uma festa com os irmãos, antes de ir ele me ligou e me disse que estava meio cansado, a fim de dormir, e que se fosse seria apenas pelos irmãos e porque lá haveria uma moçada da Igreja Presbiteriana Betânia que ele não via há muito tempo.

"Vá meu filho! Vai ser legal! A Bruna está indo só por sua causa. E ela já saiu!", foi o que eu disse; e ele foi.

O interessante em tudo isto é que por uma certeza mais profunda do que a morte dele naquela noite, eu sabia que não fora a "minha força" que o pusera no chão daquela estrada fria de Itaipú. Havia um caminho naquela estrada que estava para além de mim. E certamente muito para além da própria estrada.

Conheço a sensação de não atender a insistências que acabam de modo catastrófico. No curso da vida já deixei para visitar no dia seguinte muita gente que morreu durante a noite; já adiei idas que se confirmaram atrasadas depois dos fatos; já passei e soube que o "deixado" não resistiu; já sim, já muita coisa...

Sei também que o nível de pessoalidade do conhecimento do moço que se autovitimou aprofunda qualquer dor. Aumenta toda sensação de culpa e exacerba as perspectivas de responsabilidade e de omissão. Tais fatos, todavia, servem a nós de muitos modos quando o coração é como o de vocês.

A gente aprende que todos estão a um passo de qualquer coisa.

A gente aprende que por vezes nem todos os esforços do mundo mudam determinadas realidades.

A gente aprende que muita dor culposa que se sente decorre da culpa da bondade cristã salvadora, a qual assume para si poderes de salvação que não estão em nossas mãos.

A gente aprende a discernir quais são as coisas que podem esperar ante um desespero e quais não podem.

A gente aprende que nem todo desespero tem que parar o nosso caminho também.

A gente aprende, sutilmente, o que é agenda da estrada e o que é agenda do caminho.

Mas ninguém aprende isso sem se sentir levita e sacerdote de vez em quando, posto que nossos atos samaritanos são emblemáticos, mas nossas omissões levíticas e sacerdotais são a regra na agitação de nossas inúmeras distrações.

O pecado é adotar o caminho do levita e do sacerdote como modo de se desviar de gente na estrada. Ora, esse jamais foi ou será o caso de vocês, graças a Deus.

Entretanto, o mesmo samaritano um dia deve ter tido seu dia de levita. Ou, então, ele seria "Ele". E não era...

Assim, minha oração é uma só nesse particular: "Senhor, faz de mim o samaritano possível no dia de hoje em minha existência! E salva-me dessa horrível tendência natural que tenho a, na estrada, preferir a omissão do caminho do levita e do sacerdote!".

Sim, pois o mais devotado dos samaritanos tem seus momentos de pressa de levita e de sacerdote. E mais: isto é assim para que todo ato samaritano de nossa vida seja pura glória e graça de Deus sobre nós; e não fruto de nossa certeza de que em nossa existência não existem omissões.

Louvo a verdade de sua dor sincera e exposta de modo tão simples e franco.

Recomendo, no entanto, que essa dor se torne louvor àquele que amava o Alexandre, e que o ama e que o tem em seu seio, pois quem danou o Alexandre apenas por que a dor de sua perturbação mental o levou a um desatino?

O Alexandre, sim, o do salmo, o que buscava consolação onde há consolação, era apenas um jovem em estado de perturbação adquirida pelo vício. Não era filho do inferno.

Nenhum diabo teve o poder de tirar o Alexandre das mãos do Senhor Jesus! Assim como nenhum diabo tentará (e vencerá) vocês com a culpa de que poderiam ser os salvadores do Alexandre e não o foram.

Manos amados, também isto está consumado! Recebam meu amor e meu carinho sincero e cheio de orações.

Nele, em quem nenhum de nós tem o poder de salvar, mas apenas o de cooperar com o Salvador, o qual salva com ou sem nós,

Caio


• Caio Fábio D´Araújo Filho é psicanalista clínico, escritor e pregador do Evangelho da Graça de Jesus. caiofabio.com
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

A Palavra de Deus requer uma nova leitura, defende teólogo

Trinidad Vásquez


Managua, terça-feira, 6 de outubro de 2009 (ALC) - "A vigência da Palavra de Deus hoje, num mundo convulsionado social, econômica, política e culturalmente, tem de ser reconstruída a partir de uma leitura alternativa e com um espírito disposto à experiência", declarou o teólogo Alberto Araica, em palestra nesta capital, no marco do Dia Nacional da Bíblia, em 30 de setembro.

"Precisamos nos dar conta que é preciso observar mais o silêncio na hora de aprender dela", argumentou. Para o teólogo, muitos ficam atraídos pelo fundamentalismo religioso, que usa textos pinçados do texto sagrado para defender posições que lhes são convenientes. "Isso nos isolou e fez com que perdêssemos o significado da vigência da Palavra de Deus para o homem globalizado que vive num mundo pós-moderno", argumentou.

O teólogo alertou, contudo, que não se pode ficar presos aos dogmas denominacionais, mas é preciso ter uma ampla visão ecumênica. No mundo globalizado, onde desponta o individualismo, o livre mercado e a privatização, é "imprescindível a leitura do Evangelho desde uma perspectiva comunitária que leve a um entendimento comum", disse.

Araica frisou, bem por isso, que é preciso descobrir que a Palavra, além da letra e da tinta, tem de ser descoberta em comunidade, "aprendendo a ver e escutar a Deus na experiência do dia a dia".

"A mensagem das Sagradas Escrituras têm de criar pontes de aliança e solidariedade até mesmo com aqueles que pensam diferente de nós", destacou.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cristãos (in)tolerantes: destino inescapável?

Eduardo Ribeiro Mundim

Há poucas semanas houve uma manifestação no Rio de Janeiro pelo fim da intolerância religiosa. Ato ecumênico, no sentido amplo da palavra, aberto a todos que professam alguma crença religiosa, teísta ou não.

Tolerância parece ser uma palavra em moda.

Tolerância é a boa disposição do que ouve idéias contrárias as suas, ou liberação do cumprimento de alguma norma. Tolerante, portanto, é aquele capaz de ouvir com boa disposição (boa quer dizer favorável, propícia, sem desejar o mal) manifestações de pensamento que lhe são contrárias, ou que das quais discorda, respeitando o direito do outro de tê-las e expressá-las.

Será tolerância uma atitude possível? Será a intolerância o destino de todo aquele que crê?

Crer em algo significa não crer em outro algo. Acreditar na realidade, na existência, da reencarnação não é compatível com acreditar na aniquilação do ser na morte; ou na ressurreição dos mortos. Aceitar como verdade final a ressurreição dos mortos é considerar a reencarnação como não existente, como não verdade. Não é possível ter fé, aceitar como verdadeiras, todas as confissões religiosas existentes, teístas ou não. Desposar uma é,. por definição, não desposar as outras. Monogamia sólida!

Imaginar ser possível poligamia confessional, mantendo cada fé sua individualidade e particularidade, é acreditar que a cor branca é a mesma cor preta; ou que óleo e água se misturam, mantendo suas características que as definem.

Ser cristão é não ser mulçumano; ser mulçumano é não ser espírita; ser espírita é não ser budista; e assim por diante. Ser xintoísta é não acreditar no juízo final cristão; ser panteísta é não acreditar em um Deus pessoal.

Crer que todas as religiões, em sua totalidade, são verdadeiras (o que é diferente de crer que todas tem um sistema ético coerente, saudável, possível, fomentando o bem e lutando contra o mal) é não crer em nenhuma, e tentar criar uma nova.

Crer não impede a aceitação da idéia contrária do meu próximo. Mas até que ponto eu posso expressar minha não-crença na verdade da fé do meu próximo sem ofendê-lo (ou seja, agredí-lo, fazê-lo sentir-se mal ou desconfortável)? Ofende dizer que transmigração de almas é uma grande bobagem? que quem acredita em exorcismos é um ignorante? que um Deus triúno é uma blasfêmia?

Edir Macedo (é manifestação de intolerância chamá-lo de "autodenominado bispo") escreveu um livro, "Orixás, caboclos e guias: anjos ou demônios". Em um tempo, foi retirado da circulação por ordem judcial, porque desrespeitava os cultos de origem africana. Quem foi o intolerante: o bispo, que sugeriu a identificação de orixás com o demônio bíblico ou os adeptos do candomblé, que não foram capazes de respeitar a opinião dele fortemente contrária?

Há um ruído na internete a respeito de uma peça teatral que representa Jesus como homossexual, em orgia com os discípulos. Isto me ofende (causa desconforto, entristece-me). Mas porque O considero Deus Filho, como reza o credo de Niceia-Constantinopla. Não tem o direito de sentir-se ofendido aquele que crê em "bezenção" se o chamo de supersticioso? ou se pinto um retrato de Maomé, atitude blasfema do ponto de vista do mulçumano?

E como evangelizar sem ofender? Temos o direito de, em nome do Evangelho, causar sofrimento, vergonha, dano moral, aflição, restrição financeira, etc? Existe o direito do outro em causar-me sofrimento, vergonha, dano moral, aflição, restrição financeira ou social por ser eu cristão?

domingo, 4 de outubro de 2009

Alexandre

Bráulia Ribeiro

Conhecíamos Alexandre há mais de cinco anos. Chegou com 20 e poucos, com o cérebro já detonado pelo crack. Durante o curso de discipulado foi alcançando coerência, e, ao fim de seis meses, voltou à sua casa para fazer vestibular, ciente do que queria: ser piloto missionário. Terminou o ensino médio, inspirou o pai a estudar e fizeram vestibular juntos. O pai passou em direito -- Alexandre, ainda tratando de ser lúcido, não.

Vieram outras crises; a razão saía por uma fresta da janela, ficava uma algaravia religiosa indecifrável. Nas crises, ele nos visitava para longas conversas. Nunca foi mau o rapaz. Eu sempre lhe sabia gentil, apesar das incoerências. Meu marido tinha ouvidos para lhe decifrar as angústias no meio da verborragia. Aconselhava, ouvia.

Nos últimos meses, Alexandre começou a observar minha filha que se tornava menina moça e a notar-lhe a beleza florescendo. Ligava às três da manhã falando da menina que vira no balanço, de suas amiguinhas, do toque puro que lhe deu na perna, de como Deus ama os anjos. Meu instinto de mãe se põe de guarda. Aviso às coleguinhas e, quando Alexandre vem, eu o acompanho ao redor da floresta que circunda a comunidade.

Na terça-feira a bicicleta com adesivo Yokohama para na minha porta. Nesse dia Reinaldo está com pressa. Explica pro Alexandre:

-- Tô de saída. Tenho reunião com pastores na cidade.

O rapaz insiste, mais transtornado que nunca na esperança absurda que tem em Reinaldo.

-- Você é meu pai, meu pastor, eu preciso de você.

Reinaldo começa a se irritar. Explica que não dá. Alexandre implora.

-- Deixa eu voltar pra viver aqui com vocês.

-- Como? Você se droga, anda por aqui observando nossas crianças e me liga de madrugada falando nelas. Como posso confiar pra te deixar morar aqui?

-- Não vou fazer nada com elas, só quero ser como elas, nascer de novo numa família de Deus, Reinaldo. Eu quero ser de Deus e não sei como, será que elas me ajudam?

-- Hoje não posso. Tô atrasado demais. Olha, já fizemos tudo o que podíamos por você. Agora acabou.

-- Como acabou? Não acaba não, olha.

E mostrou um rolo de papel higiênico que tinha nas mãos.

Reinaldo se irritou com aquele rolo -- me contou depois --, mesmo assim segurou a ponta enquanto o menino desenrolava lentamente tirando de dentro uma Bíblia pequena amarfanhada, pra ler o Salmo 136.

-- Olha o que a Bíblia fala: "Rendei graças ao Senhor, porque seu amor dura para sempre".

E assim foi lendo parado no sol quente ao lado do carro o Salmo todo enquanto Reinaldo tentava lhe dizer que estava atrasado, que era pastor, que conhecia a Bíblia, que voltasse depois ou nem isto.

Foi-se o pastor pra reunião e o garoto em desespero para a estrada quente de bicicleta. Reinaldo disse que ainda o viu quando voltava, pedalando, percebendo o carro, mas nem o parou de novo como seria seu costume. Virou o rosto como se dissesse: "Olhe, você, meu pastor, falhou, me trocou por uma reunião, não me ouviu, deixou que seu amor acabasse, sendo que o amor de Deus nunca acaba".

Acabou também naquela tarde a história de Alexandre e sua busca por Deus. Na manhã seguinte sua irmã nos ligou, chamando para o velório. O rapaz se matou na tarde anterior nas rodas de uma carreta de carga depois de duas outras tentativas. Choramos eu e Reinaldo muitas lágrimas de angústia, desespero e culpa, e ainda choro enquanto escrevo isto. Por nós, e por todos os Alexandres da vida que encontram na rua os levitas e não os samaritanos.


• Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora de Chamado Radical. braulia.ribeiro@uol.com.br

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=2474&secMestre=2488&sec=2506&num_edicao=320