quinta-feira, 22 de abril de 2010

Está na hora de repensar o testemunho evangélico III

Eduardo Ribeiro Mundim

A igreja evangélica cresceu, e cresce, pela evangelização. Esta preocupação, que varia de intensidade entre as diversas denominações e mesmo entre as igrejas locais de uma mesma denominação, é uma das características que a distingue da católica."É necessário nascer de novo", afirmação de Jesus ao fariseu Nicodemos (Jo 3.7) é a motivação básica e razão da, muitas vezes agressiva, pregação do Evangelho.

Nós, cristãos evangélicos, entendemos que as Escrituras ensinam que não é a mera informação do seu conteúdo, o ensino caprichado das doutrinas ou mesmo a leitura caridosa e atenta delas que fazem de uma pessoa um cristão. Nem mesmo o batismo, seja infantil ou adulto. Mas uma operação efetuada pelo Espírito Santo no interior de cada um, que leva o indivíduo à convicção plena de que a morte de Jesus ocorreu no lugar dele, individualmente; que era ele, indivíduo, que deveria morrer em função dos pecados, mas Jesus o substituiu. A informação do fato, a explicação de toda a história, o embasamento bíblico dos fatos é necessário, mas o assentimento intelectual sozinho não parece ser suficiente, sendo necessária uma radical transformação, na pessoa como um todo.

O temor do inferno, e a certeza do destino dos não-cristãos, é, provavelmente, outro responsável pelo estilo evangelizador.

Contudo, não é o medo do inferno, ou o desejo do céu, a motivação para se tornar um cristão. Como bem citou Peter Rollins em seu interessante e provocador livro "How (not) to speak of God" a única razão válida para tal é uma profunda paixão por Jesus Cristo e Sua mensagem, nada mais - sem expectativa de recompensa, sem medo de castigo.

Ocasionalmente um(a) paciente ou outro(a) queixa de, ao ter buscado o doutor(a) X, teve de ouvir um sermão sobre "como sua vida mudaria se fosse se entregasse a Jesus". Nos dizeres de uma senhora, "eu nem mesmo tive tempo de abrir a boca e falar alguma coisa; ele já foi falando!"

Pode um médico, ou qualquer profissional da área de saúde, usar o espaço do atendimento para evangelização desta natureza? Será isto "testemunhar o evangelho" de modo autêntico?

Acredito que não.

Considero o espaço do meu consultório como "santo". Separado para um auxílio de natureza personalíssima, em que uma pessoa me procurará para obter informação e auxílio sobre sua saúde. Serei remunerado por este auxílio, fonte do meu sustento e de minha família. Esta pessoa me procurará habitualmente em situação de fragilidade, muitas vezes com sofrimento orgânico e psíquico. Confiará em mim, exporá situações de sua vida privada que não me é permitido revelar a ninguém (salvo por estrito dever legal).

Sou apaixonado pela mensagem da cruz. O meu Deus é aquele que se transforma em um igual e vive a vida que eu vivo, incluindo a sua pior faceta (que, espero, jamais viverei). E o faz por amor. Deixa de ser Deus para ser homem e morrer anonimamente uma morte vergonhosa (ao contrário dos quadros, os crucificados eram despidos completamente), dolorosa; no lugar de um ombro amigo e de uma mão segurando a sua no momento final, apenas escárnio da multidão e o acompanhar impotente de poucos amigos e de sua mãe.

Seu amor me obriga a receber o paciente como ele(a) vem, em uma atitude terapêutica em que ouvir primeiro é essencial, saber o que falar, quando falar, porque falar e como falar uma obrigação. Substituir o ato médico executado desta forma por um discurso chavão, pasteurizado, é um insulto ao Seu amor e um testemunho a pessoa que sofre da minha insensibilidade ao seu sofrimento...Nada mais contraditório, nada mais anticristão.

Somente o discurso que nasce da empatia com o(a) outro(a) (e para isto é necessário escutá-lo(a)), honesto, compromissado com seu sofrimento, sem ofertas fáceis e mágicas, compreendendo e aceitando a dureza da vida, e oportuno segundo a necessidade que o(a) leva até o médico será realmente evangelizador, testemunho do amor dEle e da capacidade de transformação (não das circunstâncias da vida, sejam econômicas ou sociais, mas do modo de vida e da capacidade de confessar-se um pecador) do Evangelho. O contrário é um insulto, a ele(a) e ao Evangelho do Senhor.

O mistério dos ateus criacionistas da Terra Jovem

Foi um bocado interessante ver os dados da recente pesquisa Datafolha sobre a crença em Deus e a aceitação da teoria da evolução no Brasil. Não sei quanto a vocês, mas o resultado geral me pareceu mais digno de ser considerado boas novas do que más notícias: a proporção de pessoas que vê pelo menos algum espaço para a evolução em seu universo mental é bem superior por aqui do que nos EUA, por exemplo. Levando em conta o que se conseguiu em educação científica lá e cá, é uma boa surpresa. Mas resta um mistério e, sinceramente, não faço a menor ideia de como explicá-lo: o que poderíamos chamar de ateus criacionistas da Terra Jovem. Ou seja: os 7% dos ateus que disseram concordar com a frase "Deus criou os seres humanos de uma só vez praticamente do jeito que são hoje em algum momento nos últimos dez mil anos".
Ora, essa é justamente a definição de um criacionista da Terra Jovem, crente na narrativa bíblica de Adão e Eva, ou algo similar. Quase tão maluco quanto isso é o fato de que 23% dos ateus concordaram com a frase "Os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos evoluídas de vida, mas com Deus guiando esse processo de evolução". Como alguém se diz ateu e ainda assim acha que Deus participa da evolução (sem falar dos que acreditam em Adão e Eva) é algo que me escapa.
O teólogo Eduardo Cruz, da PUC-SP (aliás, ferrenho defensor da teoria da evolução, embora religioso), chegou a propor, na mesma edição, uma hipótese sobre o fenômeno: "O que pode se supor é que o grosso da população brasileira forme suas opiniões não nos jornais, nos cultos ou na escola, mas a partir de uma vaga consciência cristã-católica tradicional que ainda pervade nossas mentes. Valeria o mesmo para os ateus? É claro! Se fosse pelos líderes, tipo Richard Dawkins, poderia se esperar que 100% das respostas seriam C [ou seja, evolução sem 'ajuda' de Deus]. Só 56% o indicaram."
Faz sentido, mas outro ponto importante é que certas questões são filosoficamente complicadas demais, nuançadas demais, para que seu conteúdo seja capturado por pesquisas de opinião. O que significa "Deus guiando" o processo evolutivo, por exemplo? Criar condições no "setup" do Universo para que a vida se desenvolvesse, por exemplo, é "guiar"? É preciso intervenção direta? A intervenção direta precisa ser "detectável"?
Convido o leitor a especular sobre esse divertido e profundo paradoxo nos comentários.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h18

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Definição de ateísmo

Em minhas discussões com ateus, eles argumentam que “não possuem crença em Deus”. Argumentam que isto é diferente de dizer que não acreditam em Deus ou de afirmar que Deus não existe. Não estou certo da melhor forma de responder a esta questão. A mim, parece que estão fazendo um jogo tolo de palavras que, na verdade, têm o mesmo significado – eles não creem em Deus. Qual seria uma boa resposta a esta questão? Obrigado, Steven...

Dr. William L. Craig, responde:

Seus amigos ateus estão certos no sentido em que há uma importante diferença lógica entre crer que Deus não existe e não possuir a crença de que Deus existe. Artigo completo

sábado, 17 de abril de 2010

E se o cristianismo fosse ilegal?

"Lembro-me de ter visto um adesivo que dizia: 'se o cristianismo fosse ilegal, haveria evidência suficiente para condená-lo?'. Naquela noite eu tive um sonho verdadeiro, e fui convocado à presença de um juiz.

A acusação tinha um caso contra mim. Eles iniciaram oferecendo ao juiz dúzias de fotos onde eu comparecia à igreja, falava em eventos religiosos, participava de orações e louvor. Após, ofertaram  como evidência livros religiosos que eu lera, seguidos por CDs religiosos e botons. Aceleraram o passo e revelaram a corte alguns poemas, textos e anotações de diário que eu escrevera sobre fé. Então, para terminar, a acusação torceu a faca que brilhantemente estavam usando na ferida, oferecendo minha bíblia ao juiz.  Um livro bem encapado, rabiscado, anotado, cheio de desenhos e todo sublinhado - evidência, se fosse necessária, que eu havia lido e relido este livro sagrado.

Durante a apresentação, eu fiquei sentado, tremendo, com medo, impregnado de suor. Sabia, do fundo do coração, que com aquelas evidências contra mim, prisão, ou mesmo a morte, era uma forte possibilidade. Em muitos momentos, eu estivera, por um fio, a levantar e negar Cristo. Mas enquanto esta ideia me assombrava, resisti a tentação e mantive-me centrado.

Após a acusação ter encerrado seu caso, o juiz inquiriu-me se havia algo que desejava acrescentar, mas permaneci em silêncio e resoluto, aterrorizado que, caso abrisse minha boca, seria suficientemente fraco para negar as acusações contra mim. Sou, então, levado enquanto o juiz analisa meu caso.

Após cerca de uma hora, sou novamente convocado de volta a sua presença para ouvir o veredito e a minha sentença. O juiz entrou na sala, ficou defronte mim, olhou profundamente nos meus olhos e declarou: 'das acusações apresentadas eu o declaro inocente'.

'Inocente'. Meu coração para. Então, numa fração de segundo, meu medo e terror são transformados em confusão e raiva. Apesar de mim mesmo, permaneci à frente do juiz e exigi que explicasse porque era inocente das acusações com todas as evidências apresentadas.

'Que evidências?', ele perguntou chochado.

Comecei apontando os vários poemas e as anotações no diário, mas ele simplesmente disse que elas mostravam que eu tinha jeito com as palavras.

Então, falei dos encontros onde discursara, nos cultos que participara e nas conferências que assistira.

Mas novamente ele sorriu simplesmente e disse-me que eram evidências de ser um orador público e com tendências a ator, representando ser o que não era - nada mais. E acrescentou que aquelas bobagens jamais poderiam me condenar.

O sonho termina com ele olhando-me nos olhos, como se informasse de um grande segredo, a muito esquecido: 'a corte é indiferente as suas leituras bíblicas e idas à igreja; não há preocupações em adorar com a boca e com a caneta. Permaneça desenvolvendo sua teologia e pintando telas de amor. Não temos interesses em artistas igrejeiros que usam seu tempo criando imagens de um mundo melhor. Nós existimos para aqueles que desistem da própria vida de modo semelhante ao de Cristo para criar um mundo como aquele.' "

traduzido de How (not) to speak of God, de Peter Rollins, pag 124-5

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Ciência como religião

Eduardo Ribeiro Mundim

Em texto recente (1), concordei com Euler R Westphal que a ciência ocupa o espaço da religião. Baseado emr outro autor (2), pretendo dissecar um pouco mais esta afirmação.

Segundo ele, o que une todas as religiões "é o esforço para pensar a realidade toda a partir da exigência de que a vida faça sentido" (pg 8). Dar sentido significa explicar, dar um esquema de pensamento sobre algo, tornar algo aceitável e compreensível. Frente ao mistério da existência busca-se um sentido. Provavelmente todo ser humano, ao longo de sua existência, pelo menos uma vez se perguntará "de onde eu vim?", "para onde eu vou?", "a morte é tudo?". Estas questões são tão sérias que a biologia tem uma subárea específca, o evolucionismo, que se propõe a responder, como pode, a primeira questão. Estas questões são tão sérias que o homem dedica parte de sua atividade racional, objetiva e supostamente imparcial para analisar algo que não se transformará em produto comercializável, não será vendido, não subsidiará diretamente medicamentos... mas dará uma resposta. A teoria da evolução, neste particular, é um exemplo do que ele afirma ao final da página 11: "o que ocorre com frequência é que as mesma perguntas religiosas do passado se articulam agora, travestidas, pormeio de símbolos secularizados".

Segundo a psicanálise, o ser humano é "um ser em falta". Governado e estimulado pela permanente certeza de que algo lhe escapa permanentemente através dos dedos, sem saber exatamente o que é. Portanto, dá-se a isto o nome de "desejo". E desejo é aquilo que não se tem no espaço e no tempo vividos. Por serem seres racionais, portanto capazes de se tornar independentes das necessidades imediatas do corpo, os seres humanos constroem mundos diferentes conforme o local que habitam, repletos de construções e realizações que não são necessários ao corpo (pinturas, histórias, leis), ao qual se chama cultura. Mas mesmo ela não retém aquilo que se esvai pela mão fechada...

Neste contexto, onde o espanto pela própria existência inexplicável e o desejo nunca satisfeito tensionam a existência, surge o discurso religioso que "...pretende fazer com as coisas: transformá-las,de entidades brutas e vazias, em portadoras de sentido, de tal maneira que elas passem a fazer parte do mundo humano, como se fossem extensões de nós mesmos" (pg 28) e "a religião aparece como a grande hipótese e aposta de qeu o universo inteiro possui uma face humana".

Há mais de dois mil sistemas religiosos ao longo do globo. Três são, aparentemente, hegemônicos, ainda que estejam subdivididos em centenas de subgrupos: cristianismo, islamismo e budismo. Quais as razões pelas quais estes se sobressaem? Não tenho competência para tentar dar uma resposta, mas Rubem Alves aponta uma direção (pg 38): respostas que funcionam, que constroem. Estas são transformadas em verdade, e as que não funcionam, em mentira. O parâmetro não é um juízo de valor, mas de praticidade. E esta praticidade reveste-se de valor moral, tornando-se verdade inquestionável, reduzindo os contraditórios a mentiras.

À medida que a atividade científica vai satisfazendo desejos, ela adquire a aura de verdade...

A atividade racional de observação, experimentação, conclusão, aplicação, questionamentos novos, nova observação, nova experimentação - num ciclo sem fim - tem se mostrado extremamente eficaz no prolongamento da expectativa de vida, no conforto progressivo, na redução do peso do trabalho, na maior disponibilidade para o lazer. Ela funciona, logo é verdadeira...

A atividade científica tornou o conhecimento mais democrático, livre de amarras éticas ou morais. Não é necessário subscrever nenhum códio específico que invada a vida íntima do indivíduo; basta apenas a legislação civil. Não é necessário crer em um ser superior, nem render-lhe culto. A atividade científica exige o chamado "ateísmo metodológico" - deuses não são levados em consideração.

Como explicar a manchete da Revista Época (3) "traídas pela medicina"? Como é possível a ciência trair? Trair é uma ação, e ciência não existe enquanto entidade, apenas como atividade humana. Portanto, o título mais preciso seria "traídas pelos cientistas da medicina". Mas, por que traídas? Trair é ser desleal, infiel. Em que os cientistas atraiçoaram as mulheres? Um conclusão honestamente equivocada pode ser taxada de infâmia? Trair também é decepcionar. Parece que expectativas além do razoável foram postas sobre conclusões científicas. Não é o que se faz nas religiões? Colocar expectativas vistas como irreais por muitos, mas como possíveis pelo que crê?

Não é uma forma de imortalidade (promessa de todas as religiões, de algum modo) a busca incensante pelo sucesso de manipulação do código genético? A clonagem? A chamada dermatologia estética não promete uma pele sempre jovem, a cirurgia plástica um corpo corrigido, a chamada medicina ortomolecular uma luta contra os agentes promotores do envelhecimento (os oxidantes)...e agora, introduziu-se a "medicina anti-idade"!

A verdade não é uma afirmativa das religiões? Mas a ciência diz que "a evolução é verdade inquestionável" (e não é, a teoria é cheia de buracos).

E as possibilidades tecnológicas trazem transformações éticas: é possível diagnosticar a falta de cérebro de uma criança no útero de sua mãe (nesta hora convenientemente chamada "feto"), portanto impedir seu nascimento torna-se possível e...desejável. A capacidade instrumental adquire o status de promulgador da ética. Não é este o espaço da religião?


--------------------------------------------------
(1) Ciência e bioética: um olhar teológico - a ciência como religião
(2) Rubem Alves, O que é religião. 2ª ed Editora Brasiliense 1981
(3) http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT341671-1880,00.html

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ciência e Bioética - um olhar teológico

Ciência e Bioética: diferentes pontos de vista

Eduardo Ribeiro Mundim*

A ciência, enquanto atividade humana, é essencial à sobrevivência desta espécie no planeta Terra. A perspectiva evolucionista aponta que foi com a tecnologia que o Homo sapiens dominou o ambiente, e tornou-se a espécie hominídea única. Mesmo os povos com o menor nível de desenvolvimento tecnológico sobrevivem lastreados pela capacidade inventiva e de solucionar problemas, a partir de alguma análise dos mesmos. E ciência é, antes de tudo, a atividade de observar, questionar, buscar respostas, novamente observar, novamente questionar e novamente buscar respostas. A princípio, é uma atividade sem fim, pois cada nova resposta propõe novas questões, incluindo se a resposta encontrada é a melhor resposta àquela questão específica.

A ciência vive da observação, da prática, do obter resultados. Uma tecnologia qualquer é ciência enquanto está sendo desenvolvida. Terminada, posta em uso, deixa de ser ciência, e passa a ser um produto desta, uma ferramenta, um recurso.

E quando observa, observa uma parte, e não o todo. Observa parcialmente porque aprendemos que trabalhar com o menor número possível de variáveis facilita o raciocínio, e, talvez, conduza a resultados mais rápidos. Observa parcialmente porque frequentemente a pergunta é objetiva e específica: o que é isto? como funciona? como produzir a ferramenta tal? como atingir o objetivo proposto? Observa parcialmente porque o meio utilizado para observar é limitado: a visão não abarca tudo ao mesmo tempo, seja uma montanha (imagem completa, mas sem detalhes) seja uma célula (riqueza de detalhes, mas sem o todo). Ao analisar um monte ele pode ser descrito na sua forma, composição rochosa, tipo de vegetação, fauna presente, microrganismos encontrados, cadeia ecológica existente, impacto sobre o clima da região em que está... O geólogo somente falará das rochas; o botânico, da flora; o zoólogo, na fauna; o biólogo, da ecologia; o microbiologista, dos germes; o meteorologista, do clima. O conhecimento do monte somente será extenso se todos os aspectos forem observados.

E quando o cientista começa com a escolha do objeto de observação, ele construirá uma hipótese, na qual usará de analogia, indução e imaginação. Certo da veracidade dela, verá desdobramentos subsequentes que não foram observados e estudados e "comprovados". Quanto mais longe de sua observação inicial, mais as conjecturas serão frutos de sua imaginação e menos de sua ciência.

E todo este processo, do objetivo ao imaginativo, é mediado pela linguagem - recurso simbólico usado para descrever a realidade por aproximação. E esta sempre parcial, condicionada ao horizonte cultural e imaginário do cientista. A realidade será sempre parcial, e será mais completa quanto mais observadores trabalharem a partir de diferentes instrumentos e áreas de pesquisa (ou, áreas de perguntas). Mas o quadro pintado não é a realidade em si, mas um retrato, e não necessariamente correto no todo, ou em partes.

A bioética compartilha da necessidade de observadores que adotam diferentes pontos de partida. Quanto mais observadores, mais questões e maior grau de riqueza da análise. Ela não pergunta "como?", mas "por que?", "com qual finalidade?", "onde leva?".

A bioética incomoda o cientista quando lhe pergunta se sua metodologia é é moral. Por exemplo, é moral inocular germes em uma pessoa para ver o que se sucede? É moral expor pessoas à radioatividade sabendo dos riscos, "para ver o que acontece"? A bioética questiona se todo conhecimento é um bem; se este suposto bem pertence a todos; se este suposto bem é seguro e traz felicidade a quantos; pergunta por democracia, por autonomia, por liberdade de crença e de vida.

---------------------------------------------
* reflexões que nascem da leitura do livro "Ciência e bioética: um olhar teológico", de Euler R. Westphal, publicado pela Editora Sinodal

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ciência e Bioética - um olhar teológico

A Ciência como religião
Eduardo Ribeiro Mundim*

A ciência moderna apoderou-se de marcas anteriormente pertencentes à religião: salvação, imortalidade, resposta as angústias da vida, busca de sentidos últimos. Na verdade, quando se fala de ciência neste contexto, há uma generalização obrigatória. E toda generalização é injusta, por afirmar que a menor parte do todo age como a maior parte; e toda generalização revela e esconde. Revela o que a maior parte faz, e esconde o que é realizado pela menor.

A Ciência não existe; existe ciência enquanto atividade humana estruturada que persegue determinado fim. A ciência nada fala; os cientistas, os profissionais que dela tiram seu sustento financeiro, é que falam ancorados na autoridade que a atividade científica verdadeiramente autônoma produz.

Ciência é um meio de entender como a natureza funciona (p.ex., o corpo dos animais), buscando obter os melhores recursos para uma vida mais confortável (p. ex., a engenharia), uma abundância (ou não-escassez) de víveres (p. ex., a agricultura e a meteorologia) e o menor desconforto ou risco ao corpo humano (medicina). É uma atividade que possibilita prever fatos (o que não implica na sua realização em todos os momentos), modificá-los quando possível e necessário.

Quando o cientista salta da observação do seu objeto de trabalho e elabora teorias que não podem ser objeto de experimentação por absoluta impossibilidade real, ele cruza a fronteira que a separa e distingue da religião. Esta prescinde de experimentação clássica, apóia-se em um conhecimento revelado no lugar de um construído, um conhecimento muitas vezes fixo e seguro, no lugar do conhecimento científico, sempre transitório e incerto.

Ao cruzar a linha demarcatória, ciência transforma-se em Ciência, cientista em líder religioso, e há uma subversão da ordem natural de cada instituto. A religião é dogmática, assertiva, não tolera divergentes (que são ora cognominados hereges, ora apóstatas); a ciência é plural, vive da dúvida e alimenta-se do contraditório, crescendo com ele. No coração desta Ciência estão os símbolos  e as estruturas religiosas.

Quando se fala do conflito ciência e religião, está-se falando do conflito Ciência e religião, já que não é possível a esta informar sobre a natureza operacional da matéria, e nem àquela confirmar o dado revelado.

Igualmente, a Ciência tende a apropriar-se da bioética, ditando-lhe os rumos, alijando do debate qualquer outro conhecimento por ela mesma sancionado; na verdade, transforma o debate (que pressupõe diferentes pontos de vista) em monólogo ou, quando muito, diálogo de dois ou três. Ao proceder desta forma, legitima-se através de um círculo vicioso - legitima-se a si mesma. A ciência, ao contrário, é legitimada pela ética quando se processa nos seus limites.

E quais são estes limites?

Infalibilidade, onisciência, onipotência e características semelhantes sempre foram atributos da divindade...

---------------------------------------------

* reflexões que nascem da leitura do livro "Ciência e bioética: um olhar teológico", de Euler R. Westphal, publicado pela Editora Sinodal

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Religiosos sul-africanos saúdam Kairós palestino

Manuel Quintero


Genebra, quarta-feira, 7 de abril de 2010 (ALC) - Em mensagem de Semana Santa, um grupo de líderes cristãos, judeus e muçulmanos sul-africanos expressou solidariedade aos cristãos palestinos e exortou-os a resistirem contra o despojo e a expulsão de suas terras.

A mensagem saudando o Kairós Palestina é um documento elaborado por cristãos e cristãs da região. Ele afirma que a ocupação militar de suas terras é "um pecado contra Deus e a humanidade", e que qualquer teologia que legitime a ocupação se afasta dos ensinos cristãos.

A mensagem sul-africana recorda as palavras de Nelson Mandela: "Nossa liberdade não será completa sem a liberdade dos palestinos" e expressa a convicção de que "a justiça chegará à Terra Santa, como chegou a nós neste rincão do sul de África".

Os líderes religiosos respaldam o chamado à resistência não violenta do Kairós Palestina, especialmente o chamado a boicotar, desinvertir e aplicar sanções "como uma maneira de exercer máxima pressão não-violenta sobre Israel para que levante a bota de opressão do pescoço dos palestinos".

O Kairós Palestina foi apresentado pela primeira vez em Belém, em dezembro, em evento assistido por representantes de igrejas de todos os continentes. Desde então, mais de 30 organismos e 1.300 cristãos palestinos referendaram o documento, que também recebeu adesões de igrejas, concílios de igrejas e cristãos de outras latitudes.

O bispo Martin Schindehütte, chefe do Departamento de Relações Ecumênicas e Ministérios em Ultramar da Igreja Evangélica Alemã, assinalou a importância do documento para a reflexão interna dessa igreja.

"Por suposto não estamos de acordo em tudo com vocês — e não teria porque ser assim. Mas estamos mais do que desejosos de advogar junto com vocês, e quanto seja possível, pelo direito de existência dos palestinos, bem como o dos israelitas, e a promover sua coexistência pacífica", escreveu Schindehütte.

Em sua resposta ao documento, o teólogo e biblista portorriquenho Samuel Pagán destacou pontos de contato com o contexto latino-americano e a teologia da libertação. Ele sublinhou que o propósito fundamental do mal, tanto na América Latina como na Palestina "é destruir a imagem de Deus que está presente em cada ser humano e em nosso contexto imediato esse mal tenta destruir a alma e o espírito do povo palestino, roubando-lhe sua terra".

O reverendo Arie van der Plas, diretor de programas da Igreja Reformada nos Países Baixos, expressou suas reservas sobre certas seções do documento que se referem à eleição e à presença do povo judeu nessa região, mas advertiu que "os textos bíblicos nunca podem ser uma desculpa ou uma razão para apropriar-se da terra de outro povo ou magoar seus direitos humanos e o direito internacional".

Mark Braverman, um conhecido psicólogo e teólogo judeu, enfatizou que o silêncio dos cristãos frente às violações dos direitos humanos por parte de Israel é um desastre para o cristianismo e a paz mundial.

"Nunca antes foi tão urgente para os cristãos ser fiéis à sua fé na busca de um claro imperativo de justiça social para o povo palestino", destacou.

O rabino Abraham Cooper, decano associado do Centro Simon Wiesenthal, vê neste documento outra tentativa de socavar o apoio a Israel nos Estados Unidos e entende-o como parte de um esforço mancomunado de teólogos e ativistas protestantes para destruir Israel.

Segundo Cooper, o centro da guerra teológica protestante contra Israel é o Conselho Mundial de Igrejas, mas advertiu que há indicações de que alguns cristãos evangélicos estão abandonando sua simpatia por Israel, o que qualificou como "o início de uma perigosa tendência".

------------------------

Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416
Encontre o RSS Chanel en: http://alcnoticias.org/rsspor.php

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Pedófilos, celibatários e infalíveis

O psicanalista Contardo Calligaris publicou no dia 1 de abril de 2010, em sua coluna na Folha de S. Paulo (disponível somente para assinantes, mas largamente reproduzido na internete), considerações lúcidas com o título "Pedófilos, celibatários e infalíveis".

Sublinha pontos importantes sobre a recente crise envolvendo padres e pedofilia:
1. toda instituição coloca a si mesma acima de qualquer consideração moral, pois seu projeto dominante é ser eterna. A Igreja Católica não é exceção (e, questiono eu, porque a Evangélica seria? temos comportamento diferente frente aos nossos escândalos, que habitualmente não frequentam, ainda, a imprensa leiga? Não falo daqueles envolvendo ditos evangélicos promotores de falcatruas - políticos, supostos pastores, etc - mas daqueles acontecimentos que ficam restritos aos nossos muros denominacionais).
2. a causa da pedofilia não está no celibato. Sua motivação mais profunda não se resolve na cama com uma mulher, pois o centro da fantasia do pedófilo é "induzir a vítima a aceitar algo que ela desconhece e não entende" - a idade é uma garantia da ignorância e do não entendimento. (Quantas pessoas que publicaram suas opiniões sobre o assunto levaram em conta este dado, pergunto eu. É sempre fácil criticar, "descer o pau" em quem é majoritário, poderoso ou destacado. Mas quantas vezes a crítica mira a si mesma, naquilo que tem de destruidor, sem preocupar em construir?)
3. portanto, propor o fim da exigência do celibato como remédio é um insulto à inteligência, uma redução da sexualidade humana ao seu aspecto animal e uma coisificação da mulher. Resumo meu da argumentação do psicanalista, escrita em outros termos.

No meio da histeria e desejo de manchetes (o que não deixa de ter algum aspecto positivo), o juízo emitido busca colocar a discussão específica nos trilhos próprios a ela, ainda que o autor o encerre com a afirmativa de que a instituição Igreja Católica trata seus membros como criancinhas, e não adultos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Sobre a carta aberta aos que questionam a seriedade da Ultimato

A revista Ultimato publicou, na sua edição 323, uma carta aberta (disponível em http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=2609&secMestre=2607&sec=2634&num_edicao=323 ). No dia 10 de março encaminhei a correspondência abaixo transcrita aos signatários:

"Acredito que a pressão sentida por vocês deve ter sido enorme, a ponto de considerarem sábio e prudente a carta aberta no número 323 da revista.

Diversos pensamentos cruzaram a minha cabeça desde que a li, e resolvi compartilhar com vocês os que considerei relevantes.

Conheço a revista pelo menos a partir do final da adolescência. Há várias outras; por que assino Ultimato?

Porque é uma revista de linha editorial equilibrada; não deprecia ninguém, é honesta nas avaliações e busca ser caridosa nas críticas.

Porque é uma revista capaz de enxergar o mundo e os que nele habitam; capaz de reconhecer que há conhecimento e ciência além das Escrituras; capaz de reconhecer que ciência e fé cristã não são inimigas, nem mesmo adversárias, ainda que existam pontos focais de tensão.

Porque não fica na mesmice, tocando sempre variações sobre os mesmos temas. Busca estimular respostas a novas questões, rever as antigas e reafirmá-las se assim for considerado correto.

Porque não tem medo de errar. A revista não é morna, arrisca-se a ser quente, e por isso erra. E errar não é pecado - desafio os contrários a provarem, biblicamente, que todo erro é pecado. E caso eu esteja errado, e todo erro, sem exceção for pecado, graças a Deus por Jesus Cristo, em quem temos o perdão, a restauração e o crescimento espiritual. Mas se a revista fosse morna, desatenta à época em que vive, surda às questões que pipocam a torto e à direita, medrosa de errar...não seria uma publicação digna do termo "ultimato". Eu não a assinaria, e a destinaria ao lixo reciclável, caso me viesse às mãos.

Porque tem sido um dos recursos para minha santificação pessoal, crescimento no conhecimento e vivência da graça, desafio intelectual e elaboração de ideias.

Porque seus articulistas procuram cumprir o ministério que foram chamados com fidelidade - e só quem não faz não erra! Porque seus articulistas se expõe publicamente (e muitas vezes com coragem admirável - vide Braulia) e arcam com os bônus e ônus desta exposição pela qual não são remunerados. O fazem como parte do trabalho que o Senhor lhes confiou.

Há críticas irritantes. Há críticas pobres. Há críticas analfabetas. Há críticas razoáveis e sensatas. Estas últimas são úteis no crescimento; as primeiras, para o exercicio de uma santa paciência; as segundas, para o exercício da oração; as terceiras, para o exercício da reflexão de como alfabetizar biblicamente quem não tem condições de o ser.

Não caiam na tentação arrogante de se considerarem causadores de divisão do corpo de Cristo. Este não pode ser dividido, é uma impossibilidade(1). Mas nós nos dividimos, e não há pecado nisso! O pecado é a arrogância de considerar minhas posições teológicas como absolutas, e desprezar como refugo as outras. Mas o Senhor nos tem chamado à paz para construirmos comunidades formais que pensam semelhantemente para buscarmos adoração e crescimento dentro daquele modo de pensar, reconhecendo que Ele chama outros para o mesmo em outros esquemas teológicos. Não há pecado na controvérsia predestinação X livre arbítrio; há pecado quando chamo aos primeiros "tolos" e aos segundos "sábios".

Nós precisamos ser desafiados, e somente o somos por novos pensamentos. Os irmãos que desejam permanecer como estão, que nos deixem em paz, ou melhor, que orem por nós - e que o Senhor lhes responda como desejar! Quando Ultimato é caluniada por ser mal interpretada através de uma leitura míope, a reação do leitor caluniador é que causaria divisão do corpo, e não a revista.

Certamente há erros e problemas, e vocês sabem melhor que todos. E daí? Até onde vejo nas entrelinhas das revistas ao longo do tempo, o propósito de conferir Escritura com Escritura permanece; de contextualizar a interpretação da Palavra presente; de ser relevante, uma missão!

Há alimento líquido a sólido, de papinha a feijoada. Os que não me apetecem, não leio; ou leio e esqueço, após fazer um juízo e ver se há algo bom para reter.

Apesar dos sentimentos negativos que críticas não razoáveis possam trazer, sugiro que as usem como termômetro de trabalho. Não para adequar a revista ao exigido, mas para trabalhar, quando necessário, sábio e proveitoso, os argumentos, buscando remodelar a visão do crítico. Mas continuem a ser como são. Continuem buscando acertar, mesmo que errando. Continuem a buscar articulistas que sacudam visões envelhecidas e inúteis, e nos apontem caminhos para um Evangelho integral.

"O Senhor os abençoe e os guarde;
o Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre vocês,
e tenha misericórdia de vocês.
O Senhor sobre vocês levante o Seu rosto,
e lhes dê a paz"

Atenciosamente,

Eduardo Ribeiro Mundim"

(1) ver neste blog  "É possível dividir o Corpo de Cristo?" - não consta da correspondência original

terça-feira, 23 de março de 2010

A ESTRANHA TEORIA DO HOMICÍDIO SEM MORTE

Marcia Suzuki
Conselheira de ATINI – VOZ PELA VIDA

Alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista.  A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos. Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas "interdição" de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha 2, 5 ou 10 anos de idade.

Deixe-me explicar melhor. Em qualquer sociedade, a criança precisa passar por certos rituais de socialização. Em muitos lugares do Brazil, a criança é considerada pagã se não passar pelo batismo católico. Ela precisa passar por esse ritual religioso para ser promovida a "gente" e ter acesso à vida eterna. Mais tarde, ela terá que passar por outro ritual, que comemora o fato dela ter sobrevivido ao período mais vulnerável, que é o primeiro ano de vida. A festa de um aninho é um ritual muito importante na socialização da criança. Alguns anos mais tarde ela vai frequentar a escola e vai passar pelo difícil processo de alfabetização. A primeira festinha de formatura, a da classe de alfabetização, é uma celebração da construção dessa pessoinha na sociedade. Nestas sociedades, só a pessoa alfabetizada pode ter esperança de vir a ser funcional. E assim vai. Ela vai passar por um longo processo de "pessoalização", até se tornar uma pessoa plena em sua sociedade. 
Esse processo de socialização é normal e acontece em qualquer sociedade humana. As sociedades diferem apenas na definição dos estágios e na forma como a passagem de um estágio para outro é ritualizada.
Pois é. Esses antropólogos e missionários estão defendendo a teoria de que, para algumas sociedades, o "ser ainda em construção"  poderá ser morto e o fato não deve ser percebido como morte. Repetindo – caso a "coisa" venha a ser assassinada nesse período, o processo não envolverá morte. Não é possível se matar uma coisa que não é gente. Para estes estudiosos, enterrar viva uma criança que ainda não esteja completamente socializada não envolveria morte.
Esse relativismo é racista por não se aplicar universalmente. Estes estudiosos não aplicam esta equação às crianças deles. Ou seja, aquelas nascidas nas grandes cidades, mas que não foram plenamente socializadas (como crianças de rua, bastardas ou deficientes mentais).  Essa equação racista só se aplicaria àquelas crianças nascidas na floresta, filhas de pais e mães indígenas. Racismo revestido com um verniz de correção política e tolerância cultural.
 Foto: Niawi, menino indígena enterrado vivo no Amazonas aos 5 anos de idade, por não conseguir aprender a andar. Seus pais eram contra o sacrifício e se suicidaram antes.
Tristemente, o maior defensor desta teoria é um líder católico, um missionário. Segundo ele "O infanticídio,  para nós, é crime se houver morte.  O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos índios, já que essa não mata um ser humano, mas sim, interdita a constituição do ser humano", afirma." i
Uma antropóloga da UNB, concorda.  "Uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa.  Ela passará por um longo processo de pessoalização para que adquira um nome e, assim, o status de 'pessoa'.  Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é.  Infanticídio, então, nunca"." ii
Mais triste ainda é que esta antropóloga alega ser consultora da UNICEF, tendo sido escolhida para elaborar um relatório sobre a questão do infanticídio nas comunidades indígenas brasileiras iii. Como é que a UNICEF, que tem a tarefa defender os direitos universais das crianças, e que reconhece a vulnerabilidade das crianças indígenas vi, escolheria uma antropóloga com esse perfil para fazer o relatório? Acredito que eles não saibam que sua consultora defende o direito de algumas sociedades humanas de "interditar" crianças ainda não plenamente socializadas. v
 
O papel da UNICEF deveria ser o de ouvir o grito de socorro dos inúmeros pais e mães indígenas dissidentes, grito este já fartamente documentado pelas próprias organizações indígenas e ONG's indigenistas vi. 
A UNICEF deveria ouvir a voz de homens como Tabata Kuikuro, o cacique indígena xinguano que preferiu abandonar a vida na tribo do que permitir a morte de seus filhos. Segurando seus gêmeos sobreviventes no colo, em um lugar seguro longe da aldeia, ele comenta emocionado:

"Olha prá eles, eles são gente, não são bicho, são meus filhos. Como é que eu poderia deixar matar?" vii

Para esses indígenas, criança é criança e morte é morte. Simples assim.

 

[ii] idem
[iii] Marianna Holanda fez essa declaração em palestra que ministrou em novembro de 2009 no auditório da  UNIDESC , em Brasília.
[iv] Segundo relatório da UNICEF, as crianças indígenas são hoje as crianças mais vulneráveis do planeta. "Indigenous children are among the most vulnerable and marginalized groups in the world and global action is urgently needed to protect their survival and their rights, says a new report from UNICEF Innocenti Research Centre in Florence."
[v] Em algumas sociedades, crianças não socializadas seriam gêmeos, filhos de mãe solteira, de viúvas ou de relações incestuosas, crianças com deficiência física ou mental grave ou moderada, etc. A dita "interdição" do processo pode ocorrer em várias idades, tendo sido registrada com crianças de até 10 anos de idade, entre os Mayoruna, no Amazonas. Marianna defende essa "interdição" em dissertação intitulada "Quem são os humanos dos direitos?"  Estudo contesta criminalização do infanticídio indígena
[vii] Trecho de depoimento do documentário "Quebrando o Silêncio", dirigido pela jornalista indígena Sandra Terena. O  documentário  está disponível no link www.quebrandoosilencio.blog.br




--
Eduardo Ribeiro Mundim
www.medicinaeciencia.med.br
www.bioeticaefecrista.med.br

segunda-feira, 22 de março de 2010

Carta aberta aos que questionam a seriedade da revista Ultimato

Data da impressão: 22 de março de 2010

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
www.ultimato.com.br
Faz algum tempo que alguns leitores colocam ao alcance de não sabemos quantos irmãos em Cristo suas preocupações com a revista Ultimato. Se em todas as críticas a verdadeira motivação é o zelo pela sã doutrina, Deus o sabe. Que alguns cometem injustiça, juízo temerário e excessos, não temos dúvida. A injustiça difícil de suportar é aquela que diz que Ultimato está atrás de tiragem e não de glorificar a Deus: "Há quem busque o Reino de Deus, há quem busque apenas maior tiragem", escreveu um dos leitores.

Temos verdadeira aversão a contendas. Não podemos cair na sutil cilada de ser responsáveis por mais uma desavença no Corpo de Cristo. Não devemos atiçar nem o lado de "lá" nem o lado de "cá". Segundo o raciocínio de Paulo, cabe ao cristão impedir ou sufocar o atrito e não tomar partido deste ou daquele (1Co 3.4). É difícil compreender acusações que tratam como inimigos da fé aqueles que compartilham o mesmo conteúdo evangélico. Não podemos dar vazão a atitudes e manifestações injuriosas cujos recursos e afrontas são os mesmos que se veem entre as assim chamadas "torcidas organizadas".

Provavelmente sem o querer, alguns estão construindo um muro separando tanto evangélicos como não evangélicos do ministério da revista Ultimato, pinçando uma coisa e outra e generalizando. Quem sabe muitos irmãos queridos, por causa disso, nunca se aproximarão pelo menos para conferir as declarações da revista com as Escrituras, à moda dos bereanos (At 17.11). Ora, como pode um periódico cristocêntrico como Ultimato receber uma acusação como esta: "Não é de hoje que Ultimato vem disseminando o erro mascarado [como órgão] de imprensa evangélico destinado à evangelização e edificação", como um internauta registrou?

Em 1998, para comemorar o 30º aniversário da revista, estampamos na capa da edição de janeiro: "Há 30 anos Jesus na capa e no miolo!". Quantas matérias de capa sobre Jesus foram publicadas nestes 42 anos de história! Na edição de janeiro de 2003, estampamos o solene título: "O grande desafio do terceiro milênio depois de Cristo é a lembrança contínua do Jesus do Novo Testamento até que ele venha!" Na primeira edição deste ano, o título foi mais curto, mas não menos solene: "O drama da cruz". E agora, estamos trabalhando com muita oração no devocionário da Editora Ultimato para 2011: "À Mesa com Jesus -- do começo até o fim do ano". Parece uma ideia fixa, da qual não pretendemos abrir mão.

E o Jesus que anunciamos é o Jesus do Antigo e do Novo Testamento, o Verbo que se fez carne, tanto Filho do homem como Filho de Deus, o Jesus imatável (capa da edição de março de 2007), o Jesus da cruz vazada (morto e ressuscitado), o Jesus desfigurado (Is 52.14), o Jesus transfigurado (Mt 17.2), o Jesus exaltado à mais alta posição, diante de quem todos os seres vivos nos céus, na terra e debaixo da terra dobrarão os joelhos (Fp 2.9-11). Como, então, alguém pode afirmar que "a revista Ultimato tem se tornado uma plataforma para uma forma híbrida, meio esquisita, do neocristianismo-emergente-pós-moderno, que mistura (para ser sutil) esquerdistas e marxistas com uma forma emergente de pietismo e modernismo politicamente correto", como um anônimo fez questão de asseverar?

De pedradas e colunistas
Na década de 80, fomos bombardeados não poucas vezes por termos Robinson Cavalcanti como articulista. Acusações de "esquerdista", "comunista", entre outras, exigiam a sua cabeça, bem como a de outro colunista, Paul Freston, poucos anos depois. Hoje, a grita se volta principalmente contra Bráulia Ribeiro e Ricardo Gondim.
Filha de pai ateu, Bráulia converteu-se aos 17 anos em Belo Horizonte. Na mesma ocasião, ingressou na JOCUM (Jovens Com Uma Missão). Serviu a Deus na Amazônia e agora mora com a família (marido e três filhos) no Hawaí, onde trabalha com projetos internacionais nos países mais pobres da Ásia.

É uma mulher extrovertida, corajosa e dinâmica. Sabe escrever e provocar. Às vezes exagera. Em algumas ocasiões, Ultimato solicitou que ela desistisse de algumas frases ou lhes desse outra redação. Um artigo ou outro achamos melhor não publicar. Bráulia não se conforma com a hipocrisia, o machismo, o formalismo nem o legalismo, o que é uma virtude.

Quanto ao polêmico artigo Deus -- Pai ou Mãe? (maio/junho de 2009), o título e o uso da expressão "Deus-Mãe" não foram felizes, por causa da heresia de algumas feministas que atribuem a Deus o gênero feminino. Todavia, em nenhum momento Bráulia faz isso. Ela não diz que Deus é feminino ou masculino ou ambos ao mesmo tempo. A mensagem dela é no sentido de nos lembrarmos das características próprias de uma mãe para descobrirmos mais compreensivelmente a capacidade que Deus tem de nos amar. O tiro certeiro que precisamos dar é naquela blasfêmia das mencionadas feministas.

Ricardo Gondim é um dos mais lidos e apreciados colaboradores de Ultimato -- leitores jovens e adultos, históricos e pentecostais, homens e mulheres. O artigo Estou cansado! (julho/agosto de 2004) trouxe alento para muita gente e provocou uma enxurrada de cartas. Ultimamente, Gondim tem enfrentado um bombardeio por escrever sobre a corrente teológica conhecida como "teísmo aberto", com a qual declara não estar comprometido -- muito menos pretende desencadear movimento algum --, como se pode ver em seu site pessoal. Ultimato tem recebido cartas quase iguais e desnecessariamente ameaçadoras: "Se Gondim continuar como colaborador, cancelo minha assinatura". Esse nível baixo de crítica não produz resultados satisfatórios e alimenta reações mais pessoais e profanas do que era de se esperar de servos zelosos de Deus de ambos os lados. Tal confusão pode desaparecer se substituirmos a perseguição pelo acompanhamento, pela intercessão, pelo verdadeiro amor, virtudes e métodos que não sacrificam necessariamente o cuidado pela ortodoxia. O articulista não tem se valido de Ultimato para expor novas ideias. Não por coincidência, basta conferir sua edificante reflexão Espiritualidade.

Sobre ecumenismo
No Brasil chamar alguém de ecumênico é uma sentença de morte. Uma das pessoas que questionam a seriedade de Ultimato escreveu: "Parece que não há muita importância lá [na revista] com respeito à teologia protestante, tendo-se em conta que escritores católicos romanos deitam e rolam em suas páginas". A denúncia é tão sem solidez que não vale a pena apresentar defesa.

Vamos à questão principal: Ultimato é ecumênica? E, para dar uma resposta verdadeira, precisamos saber o que é ecumenismo.

Se ecumenismo é abrir mão do ódio histórico do protestantismo brasileiro aos católicos, se ecumenismo é enxergar alguma coisa positiva na Igreja Católica sob o ponto de vista evangélico e protestante, se ecumenismo é tratar com educação o catolicismo -- então Ultimato é ecumênica.

Porém, se ecumenismo significa encostar ou esconder certos desapontamentos com a Igreja Católica em favor do diálogo; se ecumenismo significa um movimento em favor de uma possível união orgânica com Roma; se ecumenismo religioso significa dividir os benefícios da salvação graças unicamente ao perfeito e único sacrifício de Cristo com a propalada intercessão de Maria, dos santos e da igreja, com a missa e com as obras meritórias; se ecumenismo religioso significa aceitar que Roma é "a" Igreja e que fora dela não há salvação -- então Ultimato não é nem um pouco ecumênica.

Porque enviamos há mais de trinta anos a revista para bispos católicos, paróquias católicas e padres casados de todo o país, como parte do nosso ministério, recebemos e publicamos muitas cartas católicas e ficamos bem mais informados do que lá tem acontecido. Nunca escondemos dos católicos nem dos evangélicos a nossa pretensão: exercer uma influência cristocêntrica lá e cá. O resultado desse trabalho só Deus sabe, mas nós sabemos o quanto ele custa em termos de incompreensão. Temos consciência de que, de maneira discreta e modesta, estamos apoiando a nova evangelização dentro da Igreja Católica e os movimentos de renovação cristã lá existentes.

Sem renegar nossas convicções reformadas, temos entendido e demonstrado ao longo dos anos que "o Reino de Deus é maior que a Igreja Católica Romana, que as Igrejas Ortodoxas e que a Igreja Protestante" (capa da edição de julho de 1996). Na ocasião, o conhecido pastor presbiteriano Valdyr Carvalho Luz alertou que "a lealdade do cristão é primacialmente a Cristo, não à Igreja, por maior respeito que se lhe deva".

Estamos conscientes que temos cometido erros. Erros de hermenêutica, ênfase demasiada em alguns assuntos, silêncio em outros. Temos corrigido parágrafos inteiros e deixado de publicar muitos textos já escritos. Embora peçamos constantemente a Deus sabedoria, capacidade, equilíbrio e acerto, ainda assim podemos cometer novos erros. Depois de muitas cartas, achamos por bem, por exemplo, moderar os escritos envolvendo temas católicos.

E, para encerrar, uma informação até então desconhecida de quase todos os leitores protestantes e católicos. Possivelmente, o pastor presbiteriano Elben César, diretor-redator da revista Ultimato, é um dos poucos pastores brasileiros que sofreram tamanha pressão dos católicos, em Viçosa, MG, e nas cidades vizinhas. Por se tratar de uma região muito católica e por ele ter sido o primeiro pastor a morar na cidade, sofreu coisas do arco da velha, encabeçadas pelos padres formados pelo mais tridentino dos seminários católicos do Brasil, o Seminário de Mariana1.

Enfim, queremos dizer, sinceramente, que temos acatado críticas e sugestões dos leitores e vamos continuar acatando. Esperamos continuar a construir pontes, procurando diminuir o fosso entre grupos de evangélicos, mesmo que sejamos malcompreendidos em alguns momentos. Não temos autoridade nem a pretensão de separar o joio do trigo. Queremos evitar a formação de plateias contra e a favor. Ao mesmo tempo, trabalhamos com limites editoriais que não são necessariamente os mesmos limites demarcados pela denominação de cada leitor. Ultimato quer celebrar e espalhar o conteúdo bíblico e a confiança do povo de Deus no único Senhor da história. Para isso, conta com uma diversidade de experiências cristãs e, ao mesmo tempo, não abre mão da sua identidade evangélica e reformada.

Elben César, diretor-redator
Emmanuel Bastos, diretor financeiro
Klênia Fassoni, diretora administrativa
Marcos Bontempo, editor


Nota
1. Para saber mais, acesse www.ultimato.com.br/blog e leia a série de cinco artigos escritos para o jornal viçosense "Tribuna Livre" intitulada 1960 -- Um ano explosivo na história de Viçosa.

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&secMestre=2607&sec=2634&num_edicao=323#
Copyright © 2001 - 2010
Editora Ultimato Ltda
Reprodução permitida. Mencione a fonte.
Editora Ultimato - Caixa Postal 43 - 36570-000 - Viçosa-MG

domingo, 21 de março de 2010

É possível dividir o Corpo de Cristo?




Eduardo Ribeiro Mundim

Causar divisão no Corpo de Cristo, ou seja, na Igreja, é um pavor legítimo para aquele que verdadeiramente é um cristão. E não poucas vezes, esta acusação é levantada contra alguém – e, provavelmente, de modo leviano.

Mas é possível dividir a Igreja?

Para enfrentar esta questão, ela tem de ser detalhada. O que é dividir? O que é Igreja? Dividir é um mal em si mesmo? Quais as consequências caso o Corpo seja dividido?

A metáfora do corpo, Cristo a(o) Cabeça e a Igreja o corpo, perpassa as epístolas no Novo Testamento. Não é um corpo orgânico, mas funcional; não é visível, mas místico; não é cópia fiel dos nossos corpos, mas um modelo útil de interação, interdependência e cooperação.

Sendo místico, não é possível fracioná-lo fisicamente. Sendo místico, somente a Trindade o vê completamente, sabe como ele realmente é e quem nele está. Não é possível rasgar a Igreja – apenas criar mais e mais igrejas (denominações). Não é possível fazê-la crescer – esta tarefa pertence ao Espírito, e nós não temos poder de mudar o coração de ninguém (pelo menos no que tange a realmente confessar que Jesus morreu e ressuscitou para pagar o preço do nosso pecado). Nós não estabelecemos funções, mas sim o Cabeça, que é Cristo Jesus. Nesse aspecto, não é possível dividir o corpo.

Igreja, por sua vez, é o conjunto, que somente a Trindade conhece, daqueles que realmente confessam serem pecadores, separados irremediavelmente do Criador caso não aceitassem o sacrifício substitutivo realizado na cruz pelo próprio Deus em forma de homem. Não é estabelecida por fronteiras geográficas, ou denominacionais, ou organizacionais. O verdadeiro pertencimento acontece anonimamente na vida do crente – apenas por questões de formalidade humana existe um ritual para tornar público o fato. E o ritual não inclui ninguém no Corpo, apenas conta que o fato aconteceu (ou poderia ter acontecido, quando a confissão e aceitação realmente não aconteceram).

Dividir tem várias conotações. Separar para classificar, como, por exemplo, ao dividir os animais em categorias distintas. O Pai não é o Filho: não foi Ele que se encarnou e morreu e ressuscitou; o Filho não sabe quando será o fim, mas apenas o Pai. O Espírito procede do Pai, e é Ele que O envia.

Também pode significar a realização de grupos que pensam de modo semelhante a respeito de algum assunto. Paulo lembra aos coríntios que não deveriam “converter” aqueles que não comiam carne de animais sacrificados a ídolos, pois estes nada eram; apesar disto, deveriam ser respeitados, mesmo que o apóstolo os chamasse de fracos na fé (I Co 8). Outros foram chamados para o celibato e outros para a vida conjugal (I Co 7). Neste contexto, porque não situar as diferentes denominações? Afinal, qual a diferença destes grupos para aqueles que desejam um governo eclesiástico colegiado, ou episcopal, ou assembleísta? Ou que interpretam as Escrituras a partir do ponto de vista da predestinação e do livre arbítrio?

É possível pensar que todos os cristãos terão o mesmo ponto de vista a respeito de todos os assuntos? Foi isso que Jesus pediu ao Pai em sua oração final (Jo 17.11)? No primeiro concílio da igreja nascente, houve dois candidatos à vaga de Judas Iscariotes no colégio apostólico – ocorreu divisão, resolvida por sorteio. No segundo concílio (At 15) foi decidido que os gentios não necessitariam se tornar primeiro judeus para depois serem cristãos – portanto, a igreja estava dividida entre os de origem judaica e os de origem gentílica. E sem problemas!

Curiosamente, tempos depois, na já citada situação envolvendo o consumo de carnes sacrificadas aos ídolos, Paulo vai na contramão da decisão conciliar, que havia sido “...que se abstenham da carne contaminada pelos ídolos...que se abstenham da carne sacrificada aos ídolos” (At 15.20, 28, 29). Não há relato nas Escrituras de condenação ao apóstolo por parte dos demais.

Mas dividir também é dispersar esforços, enfraquecendo o grupo e seus objetivos, assim como causar desentendimento e inimizades. O primeiro foi condenado firmemente por Paulo, quando questionou a comunidade de Corinto a razão dela se fragmentar em “ser de Cefas”, “ser de Apolo”, “ser de Paulo”... Esta atitude ia contra o cerne da comunidade, ou antes, contra o cerne dAquele sobre O qual a comunidade ser erguia e servia o mundo (I Co 3). Dentre os frutos da carne (atitudes que não nascem de Deus, mas das entranhas pecaminosas do homem) estão “ódio, discórdia, ciúmes, ira, dissensões, facções” (Gl 5.19-21). Mas dentre os frutos que nascem diretamente do coração de Deus não está o pensar da mesma forma, ter o mesmo ponto de vista, mas sim “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23).

Aqueles que, por razões diversas, pendem mais para os frutos negativos do inconsciente provocam fratura na aparência, mas não na intimidade do corpo. A imagem é abalada, mas não o corpo real. Este não é prejudicado, mas sua missão se complica. Mas ao se complicar, também ilustra, na prática, o perdão, porque Deus a ninguém exclue (mesmo que se faça por merecer); e o “mau comportamento” mostra apenas o campo missionário do Espírito, na santificação de cada crente.

Não são as diferentes opiniões que minam o testemunho da Igreja, mas os comportamentos aberrantes e em desacordo com o amor, com a tolerância, com o perdão mútuo, e com a confiança de que o Senhor da Igreja a fará chegar, no devido tempo, ao fim de sua missão e santificação.

terça-feira, 9 de março de 2010

Deus quer que eu desista!

Certa vez, há muito tempo, tive o privilégio de empenhar algum tempo com um velho rabi, curvado pela idade e muito conhecedor, por vivência, do sofrimento. A cada noite, ele contava-me a estória de de um judeu que escapara da inquisição espanhola com sua esposa e filho, através de um bote, navegando em um mar revolto em direção a uma ilha rochosa. Uma explosão de luz matou sua esposa e um forte vento arrancou o filho, afogando-o no mar. Sozinho, miserável, aterrorizado pelos trovões e relâmpagos, cabelos desgrenhados, seu corpo devastado pela fome e com suas mãos levantadas para Deus, ele conseguiu chegar à ilha deserta e se voltou para Deus:

"Deus de Israel", disse, "escapei para este lugar, portanto, O servirei em paz, seguirei Seus mandamentos e glorificarei Seu nome. Contudo, Você está fazendo de tudo para que eu cesse de crer em Você. Mas se pensa que terá sucesso com suas tentativas de tirar-me do caminho da verdade, então grito, meu Deus e Deus de meus pais, nada disso irá ajudá-Lo. Pode insultar-me, punir-me com severidade, tirar-me o que tenho de melhor e mais querido no mundo, torturar-me até a morte - eu sempre crerei em você e O amarei sempre e para sempre - apesar de você."

"Aqui estão, portanto, minhas últimas palavras para Você, meu raivoso Deus: nada disso Lhe valerá no fim! Você tem feito de tudo  para que eu perca minha fé, fazer-me cessar de crer em Você. Mas morro exatamente como vivi, um inabalável crente em Você."

Tudo o que desejamos fazer aqui é reconhecer que no centro da incerteza, nós permanecemos fiéis...Parte da razão para esta fé frágil talvez repouse, assim como com Jó, na crença de que nossas acusações um dia se converterão em cinzas pela consequência da presença inescrutável de Deus; que nossas legítimas preocupações um dia se silenciarão perante Aquele que não pode ser nomeado, mas que nos nomeia. Por hora, podemos nos confortar com a possibilidade de que o Deus que acusamos é um deus que nós criamos. Por esta razão que Slavj Zizek clama que o deus que dizemos entender é como o brinquedo tamagocthi - nossa própria criação que passa a fazer, posteriormente, exigências sobre nós.

traduzido de Rollins, Peter. How (not) to speak of God. Paraclete Press, 2009. Pg 98-99, 101-102

sexta-feira, 5 de março de 2010

Demissão coerente com princípios éticos

Hannover, sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010 (ALC) - Assumindo o seu erro, ao ser flagrada dirigindo alcoolizada (veja http://crerpensar.blogspot.com/2010/02/bispa-deixa-presidencia-da-igreja.html), segundo os padrões alemãs, a bispa Margot Kaessmann, presidenta do Conselho da Igreja Evangélica da Alemanha (EKD) e do bispado de Hannover, disse, em manifesto divulgado em coletiva de imprensa, que, baseada em crises anteriores, “não se pode cair mais fundo do que dentro da mão de Deus. Também hoje sou grata por esta convicção de fé”. A tradução da manifestação da bispa é do pastor Clóvis Horst Lindner.
“No último sábado à noite eu cometi um grave erro, do qual me arrependo profundamente. Entretanto, mesmo com tal arrependimento, e que tenha feito a mim mesma todas as acusações que, de modo justificado, devem ser feitas em tal situação, não posso e não quero fechar os olhos para o fato de que o ministério e a minha autoridade de bispa territorial, bem como de presidente do Conselho da Igreja, estão prejudicados. Eu não poderia mais, no futuro, apontar e opinar sobre os desafios éticos e políticos com a mesma liberdade que tinha até agora. A áspera crítica a uma afirmação numa prédica, como esta de que `nada está bem no Afeganistão’, só pode ser enfrentada quando a força pessoal de persuasão é reconhecida de maneira absoluta.
“Um de meus conselheiros ontem me deu suporte para a caminhada com uma palavra de Jesus Sirach:’Permanece naquilo que te aconselha o teu coração’ (37.17). E o meu coração me diz com toda a clareza: Não posso permanecer no ministério com a necessária autoridade. Muita coisa que tenho lido (na imprensa) não condiz com a dignidade deste ministério. Mas, além do ministério, também penso que isso tem a ver com respeito e consideração por mim mesma e por minha coerência, que significa muito para mim.
“Dessa maneira, declaro que a partir deste momento eu renuncio a todos os meus ministérios eclesiásticos. Fui bispa de corpo e alma por mais de dez anos e usei todas as minhas forças nesta tarefa. Permaneço pastora da Igreja Territorial de Hannover. Juntei múltiplas experiências após 25 anos de minha ordenação, que apreciaria aplicar em outro posto.
“Lamento decepcionar muitos que me pediram para permanecer no ministério, sim, que confiadamente me elegeram para exercer estes ministérios. Agradeço a todas as pessoas que me apoiaram e carregaram tão maravilhosamente, por todas as mensagens e flores, que fizeram muito bem à minha alma nesses dias. Ao Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha (IEA) eu agradeço muito por ter expressada sua confiança em mim de maneira explícita ontem à noite.
“Sou grata a todos os colaboradores e colaboradoras na Igreja Territorial de Hannover e na IEA que me apoiaram de maneira profissional ou voluntária. De modo especial agradeço à minha equipe mais direta, que se manteve fiel a mim durante diversas tempestades. Agradeço a todos os amigos e amigas e a todos os bons conselheiros. Também agradeço às minhas quatro filhas por carregarem comigo esta decisão de maneira tão clara e evidente e por estarem junto comigo aqui.
“Por último. eu sei, baseada em crises anteriores, não se pode cair mais fundo do que dentro da mão de Deus. Também hoje sou grata por esta convicção de fé.”
Hannover, 24 de fevereiro de 2010
Dra. Margot Kässmann

------------------------
Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?

Eduardo Ribeiro Mundim

Peter Rollins, no livro "How (not) to speak fo God" (Paraclet press), tece interessantes comentários sobre o sábado de aleluia. Inicia comentando como a Paixão tem que ser vista como uma unidade, pois a crucificação e a ressurreição se completam, não só enquanto drama histórico, mas como teologia. Uma não subsiste sem a outra, em nenhuma das duas vertentes. Contudo, as horas que separam estes dois eventos são pouco usadas como reflexão, apenas como um momento de espera.  Ele propõe a seguinte estória:

No dia em que Jesus foi crucificado, um grupo de seguidores embalou seus pertences e saíram em busca de um novo lar, pois o abalo emocional sofrido pela crucificação tornavam impossível a permanência deles onde Cristo havia sido sacrificado. Saíram da Palestina, e nunca mais retornaram. Viajaram por milhares de quilômetros até encontrarem um lugar remoto e isolado, onde construíram uma vila. Juraram  proteger a memória de Jesus e viver segundo os seus ensinamentos.

Após 300 anos de isolamento, um grupo de missionários cristãos os encontrou e ficou maravilhado em encontrar uma vila onde todos viviam o modo sacrificial ensinado por Jesus, apesar de desconhecer Suas ressurreição e ascenção. Imediatamente convocaram a todos e os ensinaram o que havia ocorrido, após a partida dos seus pais fundadores.

Naquela noite houve uma grande festa. Um dos jovens missionários notou a ausência do líder da comunidade e saiu a sua busca. Encontrou-o, afinal, em um barraco na periferia do território da vila, orando e chorando. Surpreso, questionou toda aquela tristeza frente à grande notícia trazida. Agachado, em dor, o ancião respondeu:

"Um dia de grande celebração e grande dor. Por 300 anos temos seguido o caminho que Cristo nos ensinou. O seguimos fielmente, apesar do grande custo, e nos mantivemos resolutos apesar do medo da morte tê-lo vencido e de que, um dia, nos venceria."

O ancião levantou-se e fitou o jovem missionário compassivamente. 

"Diariamente renunciamos às nossas vidas por ele, porque o consideramos completamente digno de receber este sacrificio, de receber nosso ser. Mas agora estou preocupado porque minhas crianças e as crianças de minhas crianças podem seguí-lo não pelo valor implícito que Ele tinha, mas pelas promessas que Ele fez."

Com isto, o ancião deixou o barraco, se dirigindo para a festa, e deixando o jovem com seus pensamentos.

O horror da cruz não foi a morte pela tortura lenta, nem a suprema humilhação pública (os condenados eram expostos nus), mas a possibilidade de Deus ter abandonado Deus - este é o inimaginável, o impensável, o intolerável. Entre outras coisas, é o fracasso.
Nesta estória somos apresentados a uma comunidade que seguia Cristo não por causa da ressurreição, mas pela sedução. Eles sabiam o verdadeiro significado daquele brado na cruz, pois viveram com ele até onde sua memória permitia.

É neste local de radical incerteza que nós, como esta comunidade, devemos nos perguntar por que lutamos para sermos fiéis a Cristo. Aqui podemos nos perguntar se é por causa das promessas e segurança, ou se o nosso compromisso com Ele as transcende.

A fé não nasce no sábado de aleluia, mas é nele que ela é testada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bispa deixa presidência da Igreja depois de flagrada por bafômetro

Hannover, quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 (ALC) - A bispa Margot Kaesemann, da Igreja Evangélica Territorial de Hanover, pediu demissão da presidência da Igreja Evangélica da Alemanha (EKD), uma espécie de federação de igrejas territoriais, depois de ser pega dirigindo alcoolizada, segundo os padrões alemães.
Patrulha da polícia flagrou-a, no sábado 20, quando Margot furou sinal vermelho ao trafegar com seu carro em rua de Hanover, onde reside. Segundo o tablóide Bild, o teste de alcoolemia acusou uma taxa de 1,3 miligrama de álcool no sangue, equivalente, no caso dela, à ingestão de 0,7 litros de vinho ou 1,5 litro de cerveja.
Kaesemann assegurou que bebeu apenas um copo de vinho. Ela teve sua licença para dirigir retida e os policiais levaram-na a uma delegacia, onde realizou exames de sangue. O resultado do exame não foi revelado. A legislação de trânsito na Alemanha é bastante severa e permite uma concentração máxima de 0,5 miligrama de teor de álcool no sangue.
A demissão da bispa, ontem, repercutiu em diferentes segmentos da sociedade alemã. A chanceler Ângela Merkel lamentou a saída da bispa, a quem admirava, declarou ao Serviço Evangélico de Imprensa (EPD).
“Espero que ela continue a se manifestar”, reagiu o presidente do partido da Social Democracia (SPD), Sigmar Gabriel. A EDK perde uma bispa que angariou respeito muito além das fileiras internas, afirmou a líder reformada Maria Flachsbarth.
O vice-líder do Sínodo da EKD, Günther Beckstein, afirmou para o Serviço de Imprensa Evangélico que, de sua parte, a bispa de Hanover poderia continuar na presidência da Igreja.
O bispo Johannes Friedrich, da Igreja Evangélica da Baviera, entende que a demissão de Kaesemann é uma perda inestimável para o protestantismo alemão. “Estou muito triste com todo esse episódio”, assinalou o bispa Maria Jepsen, de Hamburgo.
Fará falta na sociedade alemã a voz da colega de Hanover, sinalizou a bispa Ilse Junkermann, de Magdeburgo. Margot alcançou tantas pessoas porque dirigia-se a elas “com honestidade, de maneira aberta, mas também prudente, a respeito das possibilidades e fracassos que a vida apresenta”, agregou.
Também da Igreja Católica surgiram manifestações lamentando a demissão da bispa Margot. “Conheço a senhora Kaesemann de longa data como uma pessoa que está preparada para assumir responsabilidades”, afirmou o arcebispo Robert Zollitsch, de Freiburg.
Margot Kaesemann também se retirará da liderança da Igreja de Hanover. A presidência da EKD será exercida, até a próxima eleição, pelo vice-presidente, Nikolaus Schneider.

[veja comunicado em http://crerpensar.blogspot.com/2010/03/demissao-coerente-com-principios-eticos.html]
------------------------
Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bênçãos da carne, pecados do espírito

Rev. Sandro Cerveira

“Os pecados do espírito são mais dolorosos que os pecados da carne”
 Tomaz de Aquino

O Carnaval, durante muito tempo, foi um dos principais símbolos de tudo aquilo que deveria ser combatido e evitado pelos evangélicos ou por qualquer pessoa que tenha compromisso com Deus. Parece haver motivo para isso. A própria noção de uma “festa da carne”, durante a qual a ordem tradicional é relativizada se não invertida, sugere que nesse período de “liberou geral” os comportamentos moralmente reprováveis não são apenas permitidos, mas também incentivados. Essa percepção de uma liberalidade exacerbada associada a um período dedicado à “carne” motivou e motiva esforços de igrejas e do próprio Estado no sentido de evitar o pecado, no primeiro, caso e reduzir danos, no segundo. As igrejas pregam contra, exortam, fazem retiros e o Ministério da Saúde faz campanhas, distribui camisinhas (este ano serão 55 milhões de unidades) e facilita o acesso às chamadas pílulas do dia seguinte.
Embora essas ações sejam positivas e necessárias, no sentido de evitar maiores males advindos do exacerbamento dos comportamentos autodestrutivos do período, creio que é preciso ir mais fundo nessas questões.
No que se refere às ações de Estado, uma ponderação. Segundo pesquisa publicada pela Universidade Federal Fluminense em 2008, ao contrário do que se imagina, “o carnaval não está associado a um aumento no número de casos de doenças sexualmente transmissíveis ou dos índices de gravidez.”  Dada a seriedade da instituição que assina a pesquisa, ocorrem-me duas possibilidades: ou os “excessos” carnavalescos não são tão excessivos assim ou as campanhas de prevenção feitas no período estão sendo eficientes. Uma combinação das duas hipóteses também é razoável. O fato de que, segundo o Ministério da Saúde, “o número de partos feitos em adolescentes na rede pública diminuiu 30,6%”  na última década sugere que o acesso às políticas de prevenção e orientação sobre saúde sexual, intensificados nos últimos anos, tem realmente dado resultados positivos. Pondero que, dada essa eficácia, é preciso que elas sejam efetivamente universais e atemporais. A ilusão de que a gravidez indesejada e a contaminação pela AIDS é um castigo para os pecadores que se entregam à devassidão e à promiscuidade já não se sustenta. Apoiar políticas responsáveis que salvem vidas e evitem maiores dores é nosso dever como cristãos, ainda que tenhamos algo mais a dizer sobre o assunto.
Falemos desse algo mais.  A pregação que condena as “obras da carne” por muito tempo foi reduzida à condenação do sexo e até mesmo de qualquer expressão de nossa sexualidade. Nossa noção de pecado ficou tão atrelada a uma visão negativa do corpo que, às vezes, acreditamos ter o mal uma origem física e que uma vida totalmente “espiritual” seria a verdadeira santidade. Reconheço que muitos textos bíblicos dão margem a essa visão, entretanto é preciso olhar o assunto com mais cuidado sob o risco de assumirmos posturas gnósticas e maniqueístas sem o sabermos. Ao escrever a Timóteo, Paulo afirmou  que a origem de todos os males estava no amor... Calma, leia o texto bíblico. “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.” (1 Timóteo 6:10) A fala de Paulo  nos lembra que amar o objeto errado nos traz muitas dores. Dentre as muitas definições de pecado está aquela que diz que pecar é errar o alvo. O amor, algo divino e intrinsecamente espiritual, quando apontado para o alvo errado se transforma em pecado e morte. De Agostinho sempre lembramos a frase “ama e faze o que quiseres” mas ele também teria dito: “atenta para o objeto do teu amor”. Tomaz de Aquino definiu pecado como “amor mal dirigido”.
Para finalizar, quero enfatizar a necessidade de sermos cuidadosos com as “paixões da juventude”, em especial em dias durante os quais ouvimos que tudo é permitido e não há conseqüências. Para tudo há conseqüência. Tudo tem seu preço e não há como escapar disso. Entretanto, quero nos convidar a uma reflexão mais radical que supera o dualismo carne e espírito, lembrando que o pecado é algo espiritual e que, mesmo que tenhamos o corpo sob total controle ascético, podemos ser miseráveis e perversos em nossos afetos e relacionamentos. Abrindo mão de toda a arrogância, sexismo, autoritarismo, racismo, egoísmo, indiferença (entre outras tantas formas de mal), busquemos ajustar bem o foco do nosso amor: Deus sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos. (Mateus 22: 35-37)

O título e a epígrafe desse texto são uma referência ao livro que me inspirou a escrever essa pastoral:  “Pecados do Espírito, Bênçãos da Carne: lições para transformar o mal na alma e na sociedade” do teólogo Matthew Fox, publicado no Brasil pela Verus Editora. 

fonte: http://www.segundaigreja.org.br/pastorais_view.asp?id=62