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quarta-feira, 16 de março de 2016

O Deus das ondas gravitacionais

Posted: 23 Feb 2016 10:15 AM PST
A descoberta das ondas gravitacionais na semana passada foi aclamada como o início de uma nova era na astrofísica. Estas vibrações no espaço-tempo, que reivindicam a teoria da gravidade de Einstein cem anos depois que ele a propôs pela primeira vez, nos permitem "ouvir" o cosmos, bem como enxergá-lo.

Cientificamente falando, as ondas gravitacionais são uma nova forma de experimentar nosso universo – e quem pode afirmar o que se irá descobrir, ouvir e ver a partir de agora? Eu sou cristã e astrônoma, então eu não tenho outra alternativa senão considerar o que isso significa para a minha fé quando as fronteiras da ciência avançam de maneira tão expressiva.

Muitos cristãos acham essa descoberta ameaçadora. Eles raciocinam da seguinte forma: Se a ciência é capaz de explicar cada vez mais os fenômenos do mundo natural, então haverá cada vez menos espaço no cenário para Deus. O criacionismo é o exemplo mais conhecido dessa lógica. Um criacionista acredita que a teoria da evolução é insidiosa porque, à sua maneira de pensar, se aceitarmos a ideia de que a vida surgiu a partir da "sopa primordial" e evoluiu para os seres humanos, como podemos reivindicar que ela foi criada por um Criador divino?

Este tipo de raciocínio surge com tanta frequência que o apelidamos de o "Deus das lacunas". Para os cristãos, o problema de raciocínio com o "Deus-das-lacunas" é que ele coloca a ciência e a fé uma contra a outra. Se aceitarmos a premissa de que as reivindicações da Bíblia devem ser sopesadas contra as teorias científicas, então, inevitavelmente tem-se que escolher uma e desprezar a outra. Como ocorrem as descobertas científicas e as "lacunas" em nosso conhecimento científico diminuem, precisamos cada vez menos da ideia de Deus para explicar o mundo físico. Em uma batalha fé-contra-ciência, a fé está em desvantagem – pela simples razão de que a ciência é muito eficiente para explicar as coisas que vemos ao nosso redor.

Não é nenhuma surpresa, então, que apontar para o raciocínio "Deus-das-lacunas" é uma tática favorita de Richard Dawkins e outros críticos do cristianismo. Por outro lado, estudiosos cristãos reconhecem que uma imagem como a que eu acabei de descrever não é uma teologia muito robusta.

Ambos os lados parecem considerar insustentável qualquer filosofia que se baseia em nossa falta de conhecimento para criar espaço para Deus.

Não me interpretem mal, mas Deus não é útil enquanto uma teoria científica. Pensar em Deus desta maneira foge do ponto. Toda a noção de um Deus das lacunas depende de uma imagem filosófica em que a ciência tem um ponto final. Por isso, quando descobrimos ondas gravitacionais, ou encontramos um novo número primo, ou fazemos progressos em direção à cura da doença crônica, nos aproximamos do "fim" [finalidade] da ciência.
Esta é uma noção muito empobrecida do que é ciência, e eu ainda não encontrei um cientista que pensa dessa maneira. A ciência diz respeito a um processo de fazer perguntas. A tentativa de responder às nossas perguntas sobre como as coisas funcionam leva a uma compreensão mais profunda do mundo que nos rodeia, mas sempre levanta mais questões. A ciência é uma resposta humana ao desconhecido – por isso, enquanto houver humanos para fazer perguntas, nunca haverá um fim para a ciência.

Pela mesma razão, não devemos ter medo de abraçar o desconhecido – as lacunas no nosso conhecimento do divino – como um caminho para a compreensão de Deus. Na fé, assim como na ciência, fazendo perguntas quando confrontados com o mistério é a natureza humana. É ingênuo pensar que temos a capacidade de diminuir o poder, amor, ou o âmbito da ação de Deus, simplesmente fazendo perguntas. Na verdade, eu defendo que um espírito questionador deve desempenhar um papel importante na vida de fé de um cristão. Longe de desencorajar o pedido, a Bíblia exorta: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede, recebe; e quem busca, acha; e ao que bate, abrir-se-lhe-á.", disse Jesus no Sermão da Montanha. [Mateus 7: 7-8]
Nossas perguntas assumem diferentes formas. Podemos usar nosso raciocínio para sondar o universo físico que Deus criou. Podemos desafiar a Deus por respostas em momentos de dor e tristeza; podemos ler a Escritura e perguntar o que ela significa para as nossas vidas. É claro que, em nenhum lugar ela nos garante respostas concretas. Mais frequentemente do que um "não", Deus não dá respostas completas, mas em vez disso ele responde com mais perguntas.

O Livro de Jó é uma exploração profunda deste questionamento dinâmico. Quando Jó desafia Deus, exigindo uma explicação para suas aflições, cada um de seus amigos oferece um raciocínio diferente. Quando Deus o responde, varre ao longe suas respostas simplistas, e, ao invés de uma resposta pronta, interroga Jó: "…porque te perguntarei, e tu me responderás. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento."[Jó 38: 3-4].

A narrativa da criação que se segue, sob a forma de perguntas dirigidas a Jó, é uma das passagens mais impressionantes nas Escrituras. Quando Deus concluiu, Jó realmente não teve uma resposta para a pergunta original – Por que estou aflito? – Mas ele teve uma nova e mais profunda compreensão de Deus.
"Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem." [Jó 42: 5]

Nós já tínhamos visto o universo com a visão dos olhos, mas agora nossos ouvidos o ouvem. Ondas gravitacionais levantam mais perguntas do que respostas, mas sua descoberta nos dá uma maneira profunda de compreender o cosmo que não tínhamos antes. Se temermos as lacunas em nosso conhecimento, retrocedemos em fazer as perguntas que nos levam a descobertas como essa, e perdemos a oportunidade de conhecer a Deus um pouco melhor através da criação.

Jenna Freudenburg é astrônoma na Ohio State University.
Traduzido e adaptado por Áquila Mazzinghy.

quinta-feira, 10 de março de 2016

O Cristianismo e a História da Tecnologia – Parte 1

Posted: 02 Mar 2016 11:58 AM PST
por Michael Sacasas – tradução Fernando Pasquini

Texto original: http://thefrailestthing.com/2012/03/01/christianity-and-the-history-of-technology-longform/

Introdução

Desde meados do século XX tem havido um constante e talvez modesto debate acadêmico sobre a relação entre tecnologia e religião. Entre os estudiosos que abordaram especificamente a natureza dessa relação, suas pesquisas concentraram-se no seguinte conjunto de interesses: o papel da religião ao determinar a postura da sociedade ocidental para com o mundo natural, o papel das religiões em incitar o desenvolvimento tecnológico, o papel da religião na formação das atitudes ocidentais para com o “trabalho e as ferramentas de trabalho”, e, mais recentemente, o uso da linguagem e categorias religiosas para descrever a tecnologia. A maioria desses estudos concentra-se quase exclusivamente no contexto europeu e norte-americano; assim, “religião” refere-se ao cristianismo. Jacques Ellul, Lynn White, George Ovitt, Susan White, David Noble, e Bronislaw Szerszynski estão entre os contribuintes mais notáveis deste debate.

Os comentários de Jacques Ellul foram os primeiros, mas não definiram os termos do debate. Essa honra coube a Lynn White, que, em seu ensaio de 1968, “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, propôs inicialmente que a relação da Europa com a tecnologia foi moldada de forma distintiva pela cosmovisão cristã. Estudiosos repetidamente voltam a White para examinar mais sua tese e seu contexto ecológico.

O livro de George Ovitt, “A Restauração da Perfeição: Trabalho e Tecnologia na Cultura Medieval”, continua sendo o tratamento mais aprofundado no nexo das questões levantadas pelo ensaio de White. Ovitt conclui que há uma boa razão para se restringir significativamente as afirmações de White.

O estudo de Susan White, “Adoração Cristã e a Mudança Tecnológica”, se destaca como uma consideração da influência da tecnologia na liturgia cristã.

David Noble se baseia no trabalho de White e Ovitt para oferecer um relato do que ele chama de “religião da tecnologia”, que diz respeito a um entrelaçamento generalizado das questões religiosas com o projeto da tecnologia, além da tendência de se associar a busca da transcendência à tecnologia.

Finalmente, o livro de Bronislaw Szerszynski intitulado “Natureza, Tecnologia e o Sagrado” oferece uma reconsideração teoricamente sofisticada do argumento de White, abraçando, no que diz respeito ao caráter da sociedade contemporânea, o diagnóstico da sociedade tecnológica feita por Ellul. Szerszynski também transfere o argumento para fora do período medieval argumentando que as transformações realmente decisivas no contexto intelectual e religioso da história tecnológica da Europa devem ser localizados na Reforma Protestante.

Jacques Ellul: Cristianismo A-técnico

O livro de Ellul intitulado “A Técnica e o Desafio do Século” foi publicado em francês em 1954 e teve sua primeira tradução para o inglês em 1964 [NOTA DO TRADUTOR: O livro foi publicado inicialmente em português em 1968, pela editora Paz e Terra, e atualmente está fora de publicação]. Ellul fornece um breve esboço histórico da evolução da técnica e, dentro disso, analisa a relação entre o cristianismo e tecnologia. Conforme acredita Ellul, o cristianismo, na forma era praticado durante o período medieval tardio foi, na melhor das hipóteses, ambivalente com relação ao avanço da tecnologia. Ele reconhece que a opinião geral contrasta as religiões orientais, que eram supostamente “passivas, fatalistas e de desprezo para com a vida vida e a ação”, com o cristianismo, a religião do Ocidente, que era supostamente “ativa, conquistadora, e que transformava a natureza em lucro.”

No entanto, embora esta caracterização tenha sido amplamente aceita, Ellul acreditava que ela está errada. Ela tanto ignora os avanços técnicos reais das civilizações orientais como também não compreende a postura do cristianismo diante do desenvolvimento técnico.

De acordo com Ellul, o aparecimento do cristianismo marcou a “quebra da técnica romana em todas as áreas – tanto no nível de organização, como na construção de cidades, na indústria e nos transportes.”Em sua opinião, Juliano, o Apóstata, e mais tarde Edward Gibbon, não estavam totalmente equivocados ao atribuir o enfraquecimento do Império à ascensão da Igreja. Após o colapso do Império Romano no Ocidente, a sociedade ficou sob a tutela do cristianismo, que Ellul caracterizou tanto como “‘a-capitalista’ como também ‘a-técnico'”. Em cada esfera da cultura medieval, com exceção da arquitetura, Ellul vê “igualmente a ausência quase total de técnica.”

Ellul então passa a desafiar os dois argumentos históricos empregados por aqueles que acreditam que o cristianismo “abriu o caminho para o desenvolvimento técnico.” O primeiro destes afirma que a supressão da escravidão ocasionada pelo cristianismo impulsionou o desenvolvimento da tecnologia, de forma a aliviar as misérias do trabalho manual. Já o segundo afirma que o desencantamento do mundo natural produzido pelo cristianismo removeu os obstáculos metafísicos e psicológicos para a sua exploração com vistas à tecnologia. Ellul afirma que o primeiro argumento falha em considerar as realizações técnicas impressionantes nas sociedades escravistas, e o segundo, embora válido até certo ponto, ignora as outras restrições da fé cristã colocadas em relação atividade técnica, ou seja, suas tendências ascéticas e voltadas para o outro mundo. Além disso, o cristianismo submeteu todas as atividades ao julgamento moral. Assim, atividade técnica era limitada por considerações não-técnicas, e foi dentro deste “escopo restrito” que certos avanços técnicos foram alcançados e propagados pelos mosteiros.

Lynn White: o Cristianismo e o Clima Cultural do Avanço Tecnológico

Em seu ensaio clássico, “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, Lynn White Jr. demarcou uma posição que discorda de Ellul em quase todos os pontos possíveis. White começa descrevendo a lacuna de avanço técnico que se abriu entre a Europa Ocidental e ambas as civilizações islâmica e bizantina no leste. Esta lacuna antecedeu a “Revolução Científica” do século XVI e já era evidente no final da Idade Média. Consequentemente, White volta-se para a Idade Média para compreender a natureza da tecnologia ocidental.

Embora White esteja, nesta fase de sua carreira, afastando-se da abordagem de um único fator para a mudança tecnológica, alguns elementos dessa abordagem ainda são evidentes em “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica”, no qual ele aponta para a introdução do arado pesado como catalisador de uma mudança de atitudes acerca da relação da humanidade com a natureza. Nas palavras de White, o arado pesado “atacou a terra com tamanha violência que o arado cruzado já não era mais necessário.” White também observa que essa nova atitude de dominação logo teve uma expressão pictórica nos calendários francos que mostravam o homem e a natureza em oposição, tendo o homem como mestre.

Neste ponto do ensaio, entretanto, White abandona uma análise baseada em um único fator tecnológico para mudança social e parte para a consideração das influências culturais que condicionaram o desenvolvimento e implantação da tecnologia em uma relação conflituosa com a natureza. White acredita que religião cristã tal como praticada na Europa Ocidental é a principal culpada. “Especialmente na sua forma ocidental,” White conclui, “o cristianismo é a religião mais antropocêntrica que o mundo já viu.” Depois de recordar brevemente os conhecidos conceitos e linguagem da narrativa da criação no primeiro capítulo do livro de Gênesis, White contrasta o cristianismo com o paganismo antigo e as religiões orientais, e crê que o cristianismo “não só estabeleceu um dualismo do homem e da natureza, mas também insistiu que é da vontade de Deus que o homem explore a natureza para seus próprios fins”. O cristianismo realizou esta “revolução psíquica” através de um desencantamento da natureza, tornando “possível explorar a natureza em um clima de indiferença aos sentimentos dos objetos naturais.”

White, então, afirma o segundo argumento que Ellul rejeitou em sua análise da relação entre o cristianismo e a natureza. Ele supera uma das críticas de Ellul – de que ramos orientais do Cristianismo não pregaram a mesma relação com a natureza e, portanto, que a religião não é o fator-chave -, apontando para as diferenças significativas na perspectiva teológica que caracterizaram as igrejas latinas ativistas no Ocidente e as Igrejas gregas contemplativas no Oriente. Ellul havia notado a diferença, e usou a Igreja Ortodoxa Russa como exemplo da questão, mas concluiu que a diferença deveria ser cultural e não religiosa. Mas embora a formação cultural do cristianismo antigo não deva ser esquecida, permanece o fato de que, na Idade Média, tanto o cristianismo oriental como o ocidental assumiram formas distintas e estavam agora, como variações culturais da mesma religião, moldando o clima intelectual de suas respectivas sociedades.

Além disso, White também reforça o argumento apontando para a visão sacramental do cristianismo oriental. A Natureza existia como um sistema de sinais para serem lidos e através dos quais Deus falava à humanidade. Isso é, na opinião de White, uma visão da natureza “essencialmente artística ao invés de científica”. Enquanto o Ocidente inicialmente partilhava esta visão sacramental, no final do período medieval este deu lugar a uma teologia natural mais inclinada a “ler” a natureza entendendo o seu funcionamento, ao invés de meramente contemplar a sua aparência. (Bronislaw Szerszynsk mais tarde irá lidar com este argumento semiótico em profundidade.)

A estrutura retórica do artigo de White se preocupa mais com as fontes da “atual crise ecológica”, mas o corpo de seu argumento se dirige a outra pergunta: Qual a explicação para o avanço da tecnologia ocidental em comparação às suas civilizações rivais? O ensaio de White, embora inicialmente partindo de uma abordagem de um único fator para a mudança tecnológica, no quadro geral utilizou uma abordagem de fatores sociais, focando-se no cristianismo latino como a força motriz da evolução tecnológica da Europa Ocidental. Ao fazer isso, o ensaio definiu os termos e tornou-se um ponto de partida para a discussão posterior do relacionamento da religião com a tecnologia. Mais notavelmente, ele ancorou o debate na Idade Média, apontou para o significado cultural das distinções teológicas aparentemente arcanas, identificou o Cristianismo como o fator cultural mais importante conduzindo a atividade tecnológica no Ocidente, e ligou a questão histórica às preocupações ambientais.

Lynn White desenvolve ainda mais sua tese em um longo artigo de 1971, “Climas Culturais e o Avanço Tecnológico na Idade Média”, no qual ele se dispõe a identificar diretamente as fontes do “impulso tecnológico sem precedentes no Ocidente medieval”.

White começa discutindo a propensão da Europa medieval em tomar emprestadas e elaborar em cima de tecnologias desenvolvidas inicialmente em outras sociedades. A cultura da Europa medieval “foi única no seu clima de receptividade a transplantes” e isso explica, em parte, o vigor da produção tecnológica medieval. No entanto, essa mesma receptividade exige uma explicação, e em resposta White reafirma a lógica de “As raízes históricas de nossa crise ecológica”:

“Aquilo que uma sociedade realiza tecnologicamente é algo influenciado por empréstimos casuais de outras culturas, embora a extensão e usos destes empréstimos sejam reciprocamente influenciados por certas atitudes em relação às mudanças tecnológicas. Fundamentalmente, no entanto, tais atitudes dependem daquilo que as pessoas em uma sociedade pensam sobre seus relacionamentos pessoais com a natureza, seus destinos, e quão bom é agir sobre eles. Estas são questões religiosas.”

No que se segue, White amplia as linhas do argumento sugerido no ensaio anterior, ao mesmo tempo que apresenta linhas adicionais de evidência em apoio de sua tese. O trabalho seminal do historiador medieval Ernst Benz, cujos escritos sobre o assunto apareceram em italiano em 1964 e foram apresentados em inglês em 1966, é introduzido pela primeira vez no argumento de White. O estudo de Benz acerca dos “impulsos anti-tecnológicos” do Zen Budismo levou-o a localizar a aceitação de mudanças tecnológicas pela Europa Ocidental dentro de sua perspectiva religiosa. Ele apontou para o cristianismo em sua concepção linear da história, sua apresentação de Deus como arquiteto e oleiro, sua afirmação teológica da bondade da criação material, e seu pressuposto da ordem criada como uma “obra inteligente” – tudo isso, em sua opinião, algo único no cristianismo – como os componentes daquilo que White chama de um “clima cultural” extremamente hospitaleiro para o avanço tecnológico.

White apresenta os contornos da análise de Benz, mas encontra espaço para melhorias. Baseando-se em dois artigos publicados de forma independente em 1956, White mais uma vez chama atenção para o desencantamento da natureza supostamente realizado pelo triunfo cultural do cristianismo sobre o paganismo antigo. Ele também reafirma e desenvolve a importância da distinção entre o cristianismo ocidental e o oriental. Aqui, White fortalece suas observações anteriores utilizando evidências iconográficas e textuais.

Começando logo após da virada do primeiro milênio cristão, a iconografia ocidental descreve Deus no ato da criação como um construtor, mestre artesão, e mais tarde um mecânico – uma tradição visual jamais adotada nas igrejas orientais. Na questão exegética, White destaca as interpretações ocidentais e orientais da história de Marta e Maria no Evangelho de Lucas. Enquanto uma leitura superficial sugira que a contemplação seja mais importante que o ativismo, os intérpretes latinos, começando com Agostinho, saem dessa interpretação, buscando amenizar e até mesmo reverter a aparente crítica do ativismo e do trabalho.

Com isso, White então se volta a algo que se tornaria outro ponto chave de atenção nas discussões posteriores sobre tecnologia e cristianismo: a atitude em relação ao trabalho nas ordens monásticas, principalmente entre os beneditinos. White observa que, no mundo bizantino, ao contrário do Ocidente, que não sofreu um colapso geral da cultura, as ordens religiosas não foram obrigadas a arcar com o ônus de sustentar todos os aspectos da civilização, sejam eles seculares e religiosos. Entretanto, após o colapso da autoridade romana no Ocidente, as ordens religiosas – notavelmente os beneditinos – encontraram-se na tarefa de exercer funções religiosas e seculares, unindo adoração e trabalho. Esse compromisso com o trabalho e as artes mecânicas, na opinião de White, geraria um ímpeto caracteristicamente religioso para o desenvolvimento da tecnologia.

White apoia sua afirmação com base na obra do pseudônimo Teófilo e Hugo de São Vítor. As obras de Teófilo, que datam do início do século 12, fornecem um registro indispensável do conhecimento tecnológico da época, ao mesmo tempo confirmando a motivação religiosa para a inovação técnica, que White acredita ser característica da época. Nesse mesmo tempo, o contemporâneo de Teófilo, Hugo de São Vítor, incorporou as artes mecânicas em sua influente classificação do conhecimento e das artes. Embora as artes mecânicas estivessem na mais baixa posição na hierarquia das artes, ainda assim elas foram incluídas, e isso não era pouco. Juntas, as obras de Teófilo e Hugo apoiam a tese de White sobre o papel do cristianismo ocidental ao formar o impulso tecnológico da Europa na Idade Média.

White conclui com mais uma evidência iconográfica corroborando sua tese. Uma ilustração do Salmo 63 no Saltério de Utrecht, datada em meados do século IX, apresenta um confronto entre o rei Davi e os Justos com uma força muito maior dos ímpios. Enquanto os ímpios usavam pedras de amolar para afiarem suas espadas, os piedosos empregam “a primeira manivela que se tem registro além da China, usada para rodar o primeiro rebolo conhecido na humanidade”. “Claramente”, White conclui, “o artista está nos dizendo que o avanço tecnológico é a vontade de Deus.”

Assim, embora “As Raízes Históricas de Nossa Crise Ecológica” seja citado com mais frequência e mais frequentemente tomado como ponto de partida, é em “Climas Culturais e o Avanço Tecnológico na Idade Média” que White defende mais persuasivamente a ideia da influência formativa do cristianismo sobre a história da tecnologia na sociedade ocidental. Com sua inclusão da pesquisa de Ernst Benz e sua discussão da espiritualidade beneditina, este ensaio definiu a agenda de pesquisas e discussões posteriores.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Defensores do Design Inteligente não apoiam ensino da teoria nas escolas

A Sociedade Brasileira do Design Inteligente (TDI-Brasil), instituída durante o 1° Congresso Brasileiro de Design Inteligente, emitiu um manifesto em que declara sua posição atual sobre ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) e da Teoria da Evolução (TE) nas aulas de ciência.

“A TDI-BRASIL declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da TDI nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais”, diz o manifesto.

A sociedade justifica sua posição citando que a academia científica ainda não corroborou totalmente os postulados da TDI e seu ensino.

“Somos acadêmicos e queremos disputar a posição de teoria científica sobre nossas origens não nas escolas, ou nos tribunais - com votos de juízes ou mesmo no Congresso Nacional - com voto de parlamentares, mas na academia, com a avaliação dos acadêmicos. Estamos certos que à medida que os conhecimentos sobre a TDI for expandido, ela sairá vencedora no meio acadêmico”, declarou Marcos Eberlin, presidente da Sociedade Brasileira do Design Inteligente. Eberlin também faz observações quanto ao ensino da Teoria da Evolução: “queremos que se ensine somente ciência em aulas de ciência, e que assim a TE seja ensinada hoje, mas como ela realmente é, com as suas graves deficiências e sem as fraudes e equívocos, além das provas contrárias apresentadas como fatos a favor da TE nas aulas e nos livros".

O 1° Congresso Brasileiro de Design Inteligente aconteceu nos dias 14, 15 e 16 de novembro no hotel The Royal Palm Plaza, em Campinas (São Paulo), e apresentou um ciclo de palestras com os mais diversos aspectos e dados científicos que provam que houve uma mente inteligente na criação e origem do Universo e da Vida.

A Teoria do Design Inteligente
A TDI estuda e analisa os dados científicos mais recentes sobre os eventos que deram origem ao Universo e aos seres vivos, que interpreta como apontando, como padrões de inteligência revelados através da complexidade irredutível, da informação e da antevidência, que produzem as evidências de uma inteligência organizadora. Em seu arcabouço teórico, a TDI reúne metodologia e conhecimentos interdisciplinares de estudos dos seres vivos em nível molecular, e através de inferências baseadas em fatos observáveis, propõe uma reinterpretação da origem da vida.

Leia a íntegra do manifesto da TDI-Brasil:

MANIFESTO PÚBLICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DO DESIGN INTELIGENTE -TDI BRASIL- SOBRE O ENSINO DA TEORIA DA EVOLUÇÃO E DA TEORIA DO DESIGN INTELIGENTE NAS ESCOLAS E UNIVERSIDADES PÚBLICAS E PRIVADAS

A TDI-BRASIL declara, como sua política educacional, não ser favorável, na atual conjuntura acadêmica, ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.
Nossa posição se fundamenta na opinião atual da Academia, que ainda não acata em sua maioria a TDI e o seu ensino, posição essa que nós da TDI BRASIL, como acadêmicos, devemos acatar.

Outro fundamento de nossa posição contrária ao ensino da TDI nas escolas é a não existência, no quadro educacional atual, de professores capacitados para corretamente ensinar os postulados da TDI.

Entendemos, porém, que os alunos têm o direito constitucional de ser informados que há uma disputa já instalada na academia entre a teoria da evolução (TE) e a TDI quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens. Inclusive há outras correntes acadêmicas, além da TDI, que hoje questionam a validade da TE oferecendo uma terceira via.

Quanto ao ensino da TE, a TDI BRASIL defende que este ensino seja feito, porém, de uma forma honesta e imparcial, tanto nos livros didáticos quanto na exposição dos professores em salas de aula. Defendemos que sejam eliminados exemplos fraudulentos ou equivocados atualmente presentes em livros didáticos, e que sejam expostas as deficiências graves que a TE apresenta, e que se agravam a cada dia frente às descobertas científicas mais recentes - o que hoje não ocorre.

Quanto ao criacionismo, na sua versão religiosa e filosófica, por causa de seus pressupostos filosóficos e teológicos, entendemos que deva ser ensinado e discutido, junto com as evidências científicas que porventura o corroborem, em aulas de filosofia e teologia, dando a estas disciplinas o seu devido valor no debate sobre as nossas origens.

Informações: assessoria de comunicação da TDI-Brasil.

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/defensores-do-design-inteligente-nao-apoiam-ensino-da-teoria-nas-escolas-1

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dez Questões sobre o Teste da Fé: uma resposta inicial aos críticos

O lançamento recente do “Teste da Fé” gerou discussões acaloradas, e perguntas foram feitas sobre a nossa identidade teológica. Há muito o que dizer, e não há como resolver isso em um único post. Então decidi organizar os questionamentos em perguntas principais, e vamos começar respondendo a 10 perguntas básicas:

(1) Qual é o propósito do “Teste da Fé Brasil”?
Antes de tudo, reabrir a conversação sobre a relação entre ciência moderna e fé evangélica.
O campo evangélico Brasileiro apresenta uma atitude ambígua em relação à ciência, e em geral não apresenta a estima e a valorização da vida intelectual e da vida científica que caracterizam o protestantismo clássico. No seu extremo mais fundamentalista, tendemos a combinar uma leitura Bíblica questionável com um uso seletivo e pragmático da evidência científica, sem reconhecer o campo científico como um campo legítimo e sem ver a ciência como uma vocação legítima para o Cristão.
Por outro lado, no extremo mais “modernista” do movimento evangélico, onde ele se aproxima do que grosso modo se chama às vezes de “liberalismo teológico”, vê-se a tendência de revisar a fé evangélica sistematicamente, em termos de ideologias e cosmovisões seculares que pululam a academia moderna, apelando-se ao avanço da ciência moderna como prova de que a doutrina e as formas confessionais clássicas da Fé Cristã estariam ultrapassadas.
A essas anomalias soma-se um emprego pouco crítico da tecnologia moderna, em si mesma resultado da ciência, não apenas no uso diário e no entretenimento, como também na organização e atividades eclesiásticas e pastorais, numa atitude paradoxal que “coa” as expressões discursivas da ciência e “engole” seus resultados práticos e sociais.
É urgente, por isso mesmo, uma reconstrução crítica da relação entre fé evangélica e ciência moderna, e a combinação de esforços para inspirar uma possível comunidade de cientistas e intelectuais de fé, capaz de mediar entre a comunidade evangélica e o campo científico e contribuir para uma teologia evangélica pública consistente com a vocação integral da igreja.

(2) “O Teste da Fé” é uma defesa do “Evolucionismo Teísta”?
Não exatamente. O livro “O Teste da Fé” apresenta o testemunho pessoal de dez cientistas sobre como eles chegaram à fé Cristã e como integraram sua fé e sua vocação científica. O DVD, sim, apresenta uma introdução ao diálogo de Religião e Ciência hoje, na forma de um documentário em três partes: na primeira o assunto é cosmologia e a inteligibilidade do universo; na segunda, origens biológicas e meio ambiente; na terceira, neurociências e natureza humana. E na segunda parte, a visão evolucionária é apresentada como plausível.
É verdade que o projeto tem uma atitude positiva em relação à evolução biológica. Mas esse não é o tema do livro. O tema é a possibilidade de ser Cristão e cientista ao mesmo tempo. Nesse sentido, é útil para pessoas de qualquer posição: ateus, católicos, criacionistas científicos e evolucionistas teístas. Destacamos, inclusive, que a obra é extremamente útil para ajudar a apresentar a fé Cristã a pessoas que tem preconceitos intelectuais contra o Cristianismo. Se você quer fazer evangelização na universidade, ou educação sobre fé e ciência, o Teste da Fé é um bom recurso.

(3) Como “O Teste da Fé Brasil” interpreta a Bíblia?
A pergunta é essencial, mas sua resposta direta exigiria um estudo de todos os textos centrais envolvidos na discussão de fé e ciência – algo que queremos fazer aos poucos, mas que não temos espaço para fazer aqui. Então vamos fazer algo indireto e mais rápido: vamos apresentar como pensamos que a Bíblia não deve ser interpretada.
Para começar, quero deixar claro que não arredamos o pé das crenças evangélicas clássicas (como Adão histórico, queda espaço-temporal, Providência de Deus, etc), nem da inerrância bíblica. E que o projeto “Teste da Fé Brasil” está comprometido com uma visão elevada das Escrituras. Mas não acreditamos que a Bíblia seja um manual de ciências e que o literalismo seja uma prática hermenêutica sã. Explico:
Muitos cristãos tem enfatizado corretamente que a redescoberta da interpretação literal das Escrituras foi um grande marco na história da teologia Cristã, quando os Reformadores protestantes superaram a forma católica medieval de ler a Bíblia por meio de alegorizações e da exploração de alegados múltiplos níveis de significado. Esse tipo de leitura se prestava à justificação de doutrinas teológicas, morais e regras institucionais que não tinham nenhum fundamento real na intenção dos autores Bíblicos. A interpretação literal das Escrituras ajudou os teólogos protestantes (e aos poucos os Católicos começaram a reconhecer isso) a desenvolver uma teologia realmente Bíblica, atenta à intenção do texto sagrado, ao invés de introduzir elementos estranhos.
Mas a interpretação “literal” não é o mesmo que a interpretação “literalista”. Interpretar literalmente a Escritura é interpretar cada texto de acordo com a intenção do seu autor e à luz de toda a Escritura Sagrada. Isso significa que precisamos dar atenção ao gênero e à estrutura de cada texto, para determinar sua intenção. Se um texto é, por exemplo, uma prosa, seus elementos narrativos devem ser tomados literalmente (é o caso, por exemplo, do Evangelho de Lucas); se é uma parábola, sua narrativa pode ser puramente fictícia (como as parábolas de Jesus). Literalismo é a prática de tratar toda a Escritura de um modo uniforme, mesmo quando o gênero nos sugere outra leitura.
‘interpretação “literal” não é o mesmo que interpretação “literalista”.’
O caso é que para Gênesis 1 temos uma mistura inusitada, descrita por muitos como “Prosa Exaltada”. Não é nem poesia nem prosa pura, mas uma combinação das duas. Gênesis 2 também apresenta esse traço, mas de um modo completamente diferente. Por isso muitos exegetas evangélicos concordam, hoje, que o próprio texto não foi escrito para ser lido literalmente, em todos os seus detalhes (o espaço não nos permite expôr isso agora, mas eu recomendo o livro “Como Ler Gênesis”, de Tremper Longman, editora Vida Nova). Se isso estiver correto (e creio que está), a leitura literal de Genesis 1 é a de um relato poetizado, ou uma “prosa metafórica” e a leitura literalista seria tão não literal quanto uma leitura alegórica.
A outra questão em jogo é a leitura das Escrituras com a finalidade de construir teorias científicas a partir delas. Isso é o que chamamos, às vezes, de “presunção enciclopédica”. Há muitas evidências de que a Bíblia não apresenta um ponto de vista científico. Um exemplo comum é o emprego do ponto de vista pré-científico, como quando o livro de Josué nos diz que o Sol parou no céu em Gibeom (Js 10.12-13). Cristãos geocentristas atacaram Galileu Galilei alegando que isso seria evidência de o Sol que gira em torno da terra, e não o contrário; mas hoje todo Cristão heliocentrista entende perfeitamente que não se tratava de uma afirmação científica abstrata. A verdade no relato não estava na explicação científica do fenômeno, e sim, unicamente na factualidade do fenômeno (que o sol parou do ponto de vista do observador, o dia foi mais longo, e Josué venceu a batalha).
O mesmo se dá quando Moisés nos diz em Gn 7.11 que “as comportas do céu se abriram” para o dilúvio. Literalmente, significa que havia janelas no céu que se abriram para que as águas exteriores descessem à terra. Ora, os antigos acreditavam que o céu era uma abóbada sólida, assim como acreditavam que o Sol se movia no céu, simplesmente porque parecia assim de seu ponto de vista. O curioso é que Deus, sabendo que alguns cristãos fervorosos leriam esses textos literalisticamente no futuro, nem por isso “corrigiu” a ciência antiga, que nesses casos era apenas um desdobramento do senso comum.
Mas porque Deus não corrigiu a ciência antiga ao inspirar as Escrituras? Simplesmente porque isso não interferiria na intenção do texto. E a intenção do texto não era falar sobre cosmologia antiga ou senso comum, mas anunciar que houve uma chuva e um dilúvio; que o fenômeno aconteceu e era um juízo divino. Como ele aconteceu não faz parte de fato da intenção humano-divina do texto, e a narração pré-científica usada para comunicar a mensagem não corrompe ou diminui a veracidade e factualidade do texto. Por isso mesmo, a interpretação literalista não é uma interpretação fiel do texto. Pelo contrário, ela preenche o texto com um nível de significado científico abstrato que nunca esteve na mente dos autores, assim como os católicos medievais introduziam níveis de sentido moral e teológico para justificar suas doutrinas preferidas. Ela desrespeita a intenção do texto sagrado. O texto Bíblico fala sobre Deus, sobre seus atos criadores e salvadores no tempo e no espaço, e sobre a condição humana diante disso, e apresenta toda a precisão necessária para comunicar essa mensagem de modo infalível.
“a interpretação literalista não é uma interpretação fiel do texto. Pelo contrário, ela preenche o texto com um nível de significado científico abstrato que nunca esteve na mente dos autores, assim como os católicos medievais introduziam níveis de sentido moral e teológico para justificar suas doutrinas preferidas.”
“Mas isso não seria desmitologização?” De jeito nenhum. A noção de desmitologização da religião envolve a negação do sobrenatural, milagres, e providência especial. Isso não se aplica ao nosso caso por duas razões: (1) não negamos que o dilúvio aconteceu, e que foi uma intervenção divina; (2) mito é uma coisa, ciência antiga é outra. Vamos tratar mais disso em outro post.
Essa percepção hermenêutica não é nova; é antiga, tendo origens em Agostinho, e mesmo João Calvino sabia reconhecer o fato de que Deus se “acomodou” às limitações humanas ao inspirar as Escrituras. Acomodou-se, não no sentido de permitir erros factuais, falsidades teológicas ou mitologias, mas no sentido de não eliminar a finitude do autor inspirado (e finitude é criaturidade) ao mostrar por ela sua infinitude; de falar de um modo acessível ao público original, que recebeu a mensagem. Colocando de um outro modo: a inspiração Bíblica é econômica, no sentido de que não implica uma correção sistemática de absolutamente tudo o que o homem antigo pensava, mas de tudo o que era necessário corrigir para que seu discurso fosse a própria palavra de Deus, verdadeiro e infalível em sua intenção.
Mas não quero dizer, com isso, que fatos Bíblicos não tenham em alguns momentos uma sobreposição em relação à ciência moderna. Como muitos evangélicos, reconheço que o ensino Bíblico sobre a natureza do homem, do pecado, e da obra redentiva exigem um Adão histórico, e que o relato de Genesis 2 e 3 tem traços literários que não permitem lê-lo como mera parábola, por exemplo. Isso certamente significa que a doutrina Bíblica do homem tem implicações para uma teoria antropológica Cristã. Ainda assim, ela não significa que a “fonte” primária para uma teoria paleoantropológica seja a Bíblia. Ela não implica, por exemplo, que a Criação do homem foi necessariamente especial, nem nos diz se Deus fez o homem a partir de um ancestral, ou se havia pré-adamitas (entre os quais Caim foi habitar e se casou). A Bíblia fala da água, mas a “fonte” primária para estudar a água é a própria água, e não a Bíblia. Nunca encontraremos a composição química da água na Bíblia. Também não encontraremos uma teoria biológica ou paleoantropológica na Bíblia, embora devamos rejeitar toda teoria biológica ou paleantropológica sobre o homem que seja demonstravelmente incompatível com a antropologia Bíblica.
Entendo que a leitura “enciclopédica” das Escrituras, buscando nelas a fundamentação cognitiva para as ciências (e negando assim a sua soberania relativa), é um erro gravíssimo, corretamente chamado de biblicismo. Eu diria aos meus irmãos criacionistas-da-terra-jovem que eles estão lendo a Bíblia errado, na minha opinião, e com isso estão forçando um conflito inexistente com a ciência moderna.
Enfim, a leitura literalista e enciclopédica das Escrituras pratica uma espécie de “docetismo revelacional”: a Bíblia tem a “aparência” de ser um livro humano, mas na verdade não é; na verdade é um livro puramente divino. O divino absorveu completamente o humano, de modo que não há mais acomodação divina. Essa visão não compreende a natureza das Escrituras, nem o sentido da intepretação literal dos Reformadores protestantes, e cria uma hermenêutica que é ultimamente incompatível com a Cristologia ortodoxa.

(4) O “Teste da Fé” propõe que a interpretação Bíblica seja controlada pela Ciência Moderna?
Essa é uma boa pergunta, e a resposta é não. O questionamento da interpretação literalista da Bíblia não tem o propósito de acomodar as Escrituras à Ciência Moderna. Na verdade a interpretação não-literalista é muito antiga. O teólogo Agostinho de Hipona, reconhecido por Católicos e Protestantes como um dos principais doutores da Igreja, defendeu uma interpretação não literalista de Genesis em seu “Comentário Literal ao Livro de Gênesis” escrito no final do século IV AD. Há uma longa tradição de teólogos e cientistas que se recusaram a usar as Escrituras como os defensores do literalismo Bíblico usam agora.
Mesmo assim, isso não significa que a ciência não possa ter um papel na interpretação da Bíblia. Mesmo os criacionistas científicos admitem que a evidência arqueológica pode nos ajudar a ler a Bíblia e até mesmo alterar detalhes de interpretação, como a descoberta dos rolos do mar morto, por exemplo, que lançaram nova luz sobre o judaísmo antigo. Assim também, um desdobramento da ciência moderna pode mostrar que a nossa interpretação da Bíblia está errada. No caso de Gênesis 1, concordo com os que acreditam que tanto os desdobramentos recentes na interpretação de Gênesis, quanto a evidência científica, são testemunhas independentes e complementares a favor de uma hermenêutica não literalista.

(5) A Teoria da Evolução é incompatível com a Cosmovisão Cristã?
A afirmação de que a teoria da evolução corrompe a cosmovisão cristã é falsa, no meu julgamento. Ela confunde sob um único termo (“evolução”) três (ou até mais) usos distintos:
(i) “Evolução” como representação diacrônica e progressiva da vida na terra, envolvendo aumento de complexidade e de diversidade biológica ao longo do tempo. Vamos chama-la aqui de História Natural Evolucionária (HNE), que simplesmente reconhece essa dimensão temporal e uma ou outra forma de gradualismo. Michael Behe, por exemplo, um dos “pais” do Design Inteligente, aceita a teoria nesse ponto e em outros, como a hipótese do ancestral comum. Isso foi negado recentemente pelos líderes brasileiros do DI, mas Behe é muito claro:
“Muitas pessoas pensam que questionar a evolução darwiniana significa defender o criacionismo. Da forma habitualmente entendida, o criacionismo implica a crença em que a Terra foi formada há apenas dez mil anos, uma interpretação da Bíblia ainda muito popular. Desejo deixar claro que não tenho motivos para duvidar que o universo tem os bilhões de anos de idade que os físicos alegam. Acho a ideia de ascendência comum (que todos os organismos tiveram um mesmo ancestral) muito convincente e não tenho nenhuma razão particular para pô-la em dúvida. Respeito muito o trabalho de meus colegas que estudam o desenvolvimento e o comportamento de organismos dentro do arcabouço evolucionário, e acho que biólogos que assim pensam deram enormes contribuições ao nosso conhecimento do mundo.”
Michael Behe, A Caixa Preta de Darwin. Zahar, 1997, p. 15.
(ii) “Evolução Darwiniana” como mecanismo darwiniano clássico, neodarwiniano ou posdarwiniano. Aqui encontramos o que se pode chamar de Teoria Darwiniana da Evolução (TDE), e seu interesse é explicar porque a história natural sugere uma visão gradual ou semi-gradual do fenômeno da vida terrestre. O mecanismo neodarwiniano envolve processos conhecidos como mutação genética, transformações epigenéticas, seleção natural, deriva genética, especiação, convergência, etc.
(iii) “Evolucionismo”, isto é, evolução transformada em metafísica geral para explicar tudo, e até a moralidade e a racionalidade, como no Naturalismo filosófico. Segundo essa perspectiva, tudo o que o homem é pode ser explicado de forma suficiente por meio das ciências biológicas, e as outras ciências do homem são ultimamente redutíveis à biologia, e esta à física. Essa posição é às vezes chamada de Grande Teoria da Evolução (GTE), e caracteriza a posição, por exemplo, dos neoateístas. Não era essa, no entanto, a posição de Darwin e de muitos cientistas no século XX.
“Respeito muito o trabalho de meus colegas que estudam o desenvolvimento e o comportamento de organismos dentro do arcabouço evolucionário, e acho que biólogos que assim pensam deram enormes contribuições ao nosso conhecimento do mundo.”
Michael Behe, líder do movimento do Design Inteligente
Há muitos biólogos evolucionários evangélicos como Simon Conway Morris (Cambridge University) que aceitam (i), problematizam (ii) movendo-se para posições posdarwinianas (não “anti” darwinianas), e rejeitam (iii), mantendo a fé evangélica clássica sem problemas. A GTE ou “evolucion-ISMO” é certamente incompatível com a fé Cristã. Como qualquer outro “ismo”. Sua falha central é a absolutização de um nível explanatório particular (a partir da abstração de um recorte específico da realidade temporal, que é a dimensão biótica) e a redução dos outros níveis a esse nível. Esse procedimento se baseia no chamado “dogma da autonomia religiosa da razão”, e é um erro intelectual e espiritual.
Mas a HNE não exige o evolucionismo para funcionar, no entanto. Nem mesmo a TDE implica a metafísica evolucionista. Pelo contrário, há evidências de que mesmo a TDE, que tem seus problemas, não pode se manter de pé a não ser dentro de uma cosmovisão teísta, como o filósofo evangélico Alvin Plantinga demonstrou recentemente. Desse modo, mantida estritamente como teoria da história biológica da terra, a teoria da evolução não tem nenhuma força contra a fé evangélica. Se aceita, ela pode e deve ser lida dentro da narrativa Criação-Queda-Redenção que funda a cosmovisão Cristã.
“mantida estritamente como teoria da história biológica da terra, a teoria da evolução não tem nenhuma força contra a fé evangélica.”
Quanto à TDE, eu concordo com o movimento do Design Inteligente em que a síntese neodarwiniana é insuficiente para dar conta da diversidade e complexidade da vida biológica na terra, e por isso me considero posdarwiniano. Mas uma posição posdarwiniana não implica de forma alguma a mera negação de Darwin. Do fato de que o DI apontou o problema, não significa que tenha a solução. O que se espera é uma nova síntese que seja capaz de lidar com as fragilidades da síntese neodarwinana (apontadas pelo DI e por outros críticos) de modo a contê-la e superá-la, mais ou menos como a física relativística de Einstein superou a física newtoniana tornando-a um caso particular de uma teoria maior. Um dos traços de uma teoria posdarwiniana será certamente algo que o DI deseja incluir: a presença de design (mesmo que não seja o microdesign proposto pelos defensores do DI) e a irredutibilidade entre níveis diferentes de realidade (como entre a “vida” e a “matéria”).
Por isso mesmo, a expressão empregada por muitos cristãos que aceitam a teoria da evolução é “criacionismo evolucionário”, ao invés de “evolucionismo teísta”. Destaco ainda que, grosso modo, os criacionistas progressivos e os criacionistas evolucionários concordam em aceitar o ponto (i), concordam em rejeitar o ponto (iii) e discordam no ponto (ii). Além disso, a classificação é difícil. Como eu, por exemplo, acredito que uma singularidade (ou um “milagre”) seria necessário para produzir a primeira forma de vida, sou frequentemente considerado um “criacionista progressivo”. Mas eu mesmo me descrevo como criacionista evolucionário, já que não considero a TDE satisfatória mas nem por isso a considero uma fraude, e aceito a HNE.
Mas o ponto chave, aqui, é que, corretamente compreendida, a teoria da evolução é meramente uma teoria biológica, e não uma cosmovisão. Ela não responde às grandes questões sobre Quem é Deus, de onde veio o mundo, porque ele é inteligível, porque há beleza na Criação, sobre a natureza do mal, sobre o que é o homem, sobre o seu destino, sobre a existência da liberdade, ou mesmo sobre o que é a “vida”. Como ela pode ser uma “cosmovisão”, a não ser se for forçada a trabalhar como escrava para um falso senhor chamado “Naturalismo Filosófico”? O evolucionismo é uma fraude; a teoria da evolução não.
Uma palavra final quanto a esse ponto: há outras questões específicas que precisam de respostas mais detalhadas: por exemplo, a questão do problema do mal dentro de uma visão evolucionária ou não evolucionária da biologia. Vamos tratar dessas questões em artigos posteriores no blog do Teste da Fé Brasil.

(6) Há precedentes para Evangélicos aceitarem a teoria da Evolução?
Muitos cientistas, intelectuais, teólogos e pastores evangélicos aceitaram a possibilidade da teoria da evolução, com graus variados de convicção; homens como Asa Gray, um presbítero e professor de Harvard, colega de Darwin; ou Benjamin Warfield, teólogo presbiteriano de Princeton (com restrições); mesmo Abraham Kuyper ventilou essa possiblidade. Mas podemos citar alguns autores evangélicos populares: C. S. Lewis, John Stott, Alister McGrath, William Lane Craig, N.T. Wright, Alvin Plantinga e o pastor Tim Keller, da Redeemer em NY; e exegetas recentes como Bruce Waltke, editor da Bíblia de Genebra e ex professor do RTS (cujo comentário de Gênesis é publicado pela Cultura Cristã), Tremper Longman (autor do “Como Ler Gênesis”, EVN) e John Walton, do Wheaton College, uma das mais importantes instituições educacionais evangélicas dos Estados Unidos.
“Os nomes não provam nada”, já me disseram. Mormente porque alguns deles têm pontos doutrinários questionáveis. É verdade que nada provam sobre o mérito da questão. Mas indicam, sim, que o criacionismo-da-terra-jovem não é uma ortodoxia. Não tem o status elevado de uma “doutrina agostiniana da queda” ou de uma “cristologia calcedônica”. É apenas uma opinião dominante.
Esse ponto é muito importante, já que muitos líderes cristãos e pastores insistem em tratar esse ponto como um aspecto essencial da fé Cristã histórica, como se o seu questionamento abalasse a fé evangélica. Mas nada poderia estar tão longe da verdade. Pelo contrário, desde o século XIX a tendência geral dos teólogos e intelectuais evangélicos era de aceitar a evidência geológica e física de uma terra muito antiga, ou o “tempo profundo” (deep time), e a viabilidade da evolução biológica, senão aceita por todos e seu discussão, emergia como possibilidade viável para cristãos.
“o criacionismo-da-terra-jovem não é uma ortodoxia. Não tem o status elevado de uma “doutrina agostiniana da queda” ou de uma “cristologia calcedônica”. É apenas uma opinião dominante”
Foi em 1923 que o geólogo amador George McCready Price, membro da igreja Adventista do Sétimo dia, escreveu um livro para defender a posição Adventista sobre geologia, e essa obra acabou influenciando Henry Morris e John Withcomb, fundadores do Criacionismo Científico após a segunda guerra mundial. Poucos cristãos evangélicos sabem que as bases para o moderno Criacionismo Científico foram construídas por Adventistas, cuja leitura do Antigo Testamento era notavelmente literalista não apenas quanto ao Gênesis, mas quanto à aplicação de ordenanças da Lei na Nova Aliança. A história toda foi contada em detalhes no livro de um ex-Adventista que está hoje entre os maiores historiadores do mundo no campo da ciência & religião: Ronald Numbers (The Creationists: from Scientific Creationism to Intelligent Design, Harvard University Press). A vinculação do Criacionismo Científico com uma igreja heterodoxa, às margens da identidade evangélica, não é prova isolada contra essa posição, mas no mínimo deveria nos levar à reflexão.
O fato é que temos mestres o suficiente na igreja Cristã em geral e na igreja evangélica nos dizendo o contrário para suspeitarmos de qualquer um que afirme ser o criacionismo-da-terra-jovem um distintivo evangélico essencial. Repetindo: o criacionismo-da-terra-jovem não é a posição Cristã ou evangélica ortodoxa, mas apenas uma posição entre outras.

(7) Até que ponto o Cristão deve aceitar a autoridade da Comunidade Científica?
Sem dúvida nenhuma a regra final de fé e prática do Cristão é a Bíblia; a ciência moderna é um empreendimento falível, em processo de aperfeiçoamento constante, cheio de becos sem saída e condicionada por pressuposições filosóficas de todo tipo.
Mas essa não é toda a história. Penso que os cristãos evangélicos deveriam mostrar mais respeito pela comunidade científica moderna. Afinal de contas, ela nasceu sob a influência da Reforma Protestante, a partir de um fundamento Bíblico. Foram os protestantes e os calvinistas, principalmente, os atores que libertaram a ciência, tanto do domínio da metafísica aristotélica, abrindo-a para a empiria, quanto das amarras do biblicismo (à época chamado de “ciência mosaica”), reconhecendo (antes de Kuyper explicar o que ocorria) sua “esfera de soberania”. É verdade que a “moderna ciência moderna”, como escreveu Schaeffer, sob o influxo do Naturalismo filosófico, produziu anomalias; mas temos boas razões para considerá-las exceções.
Me parece extremamente contraditório invocar a Reforma e a Bíblia para explicar a ciência moderna, e em seguida negar sua autoridade em seu próprio campo.
Acontece que o reconhecimento da soberania de Cristo sobre o todo da vida nos leva naturalmente a compreender que ele governa cada campo da vida diretamente, e de um modo singular, por meio dos instrumentos que ele mesmo estabeleceu. Ele é o Senhor na Criação e na Redenção, e todas as coisas encontram coerência Nele. E daí veio o reconhecimento da autoridade da ciência pelos protestantes, que viabilizou a revolução científica.
Isso nos leva de volta à questão da hermenêutica enciclopédica, e porque ela nos parece problemática: a Bíblia é a autoridade máxima em nossa vida e pensamento, mas não é a autoridade máxima em matemática, pois as propriedades associativas dos números são realidades objetivas, independentes da nossa interpretação da Bíblia. E na medida em que apreendemos as leis matemáticas, as empregamos na leitura da própria Bíblia. A Bíblia também não é a autoridade máxima em gramática da língua portuguesa. Pelo contrário, precisamos aprender gramática com outras pessoas e outros livros, e então conseguimos ler a Bíblia. As leis da lógica também não se baseiam na Bíblia; nem nossos cinco sentidos. Precisamos aceitar a “autoridade” dos olhos para ler a Bíblia, e não faz sentido depender da visão para ler, dos ouvidos para ouvir, e depois negar que os cinco sentidos sejam formas de conhecimento independentes, sustentadas pelo próprio Deus por meio de Jesus Cristo.
“as Escrituras não substituem as outras fontes de Conhecimento e as outras autoridades cognitivas, mas nos habilitam a reconhecê-las e, eventualmente, a corrigi-las”
Nada disso significa que a Bíblia tenha menos autoridade. É que Deus se revela no livro da Criação e também no livro da Graça, mas o mesmo Deus se revela nos dois livros. As leis da lógica são leis de Deus, não dos lógicos. E não dependem da Bíblia para funcionar. Mas a Bíblia abre os nossos olhos para reconhecer toda a revelação de Deus, e para nos submetermos a todas as autoridades que Deus estabeleceu. Em outras palavras: as Escrituras não substituem as outras fontes de Conhecimento e as outras autoridades cognitivas, mas nos habilitam a reconhecê-las e, eventualmente, a corrigi-las.
“Mas isso torna a Palavra de Deus sujeita à Criação!” De modo algum. A Criação também é o texto da Palavra de Deus. Não foi a Palavra de Deus quem a estabeleceu e a sustenta? Não é o mesmo logos da Bíblia o logos do mundo? Considero perverso procurar meios de colocar a palavra redentiva das Escrituras em contradição com a palavra criativa do espaço-tempo. Além disso, a nossa teologia é a manjedoura da palavra redentiva, assim como a ciência é a manjedoura da palavra criativa. Sejamos humildes quanto às nossas manjedouras.
“a nossa teologia é a manjedoura da palavra redentiva, assim como a ciência é a manjedoura da palavra criativa. Sejamos humildes quanto às nossas manjedouras.”
Sem dúvida todas as nossas experiências cognitivas devem estar submetidas à Palavra de Deus; mas o jugo de Cristo é suave. Sua graça geral não deixou que a experiência humana se tornasse completamente obscura e enganosa. Isso significa que não precisamos ter uma posição “cartesiana”, duvidando de tudo o que conheço até que encontre um versículo da Bíblia para provar aquilo. Essa crença e prática de recusar a legitimidade das outras fontes e autoridades cognitivas, é o que chamamos de biblicismo, que considero uma forma de idolatria cognitiva. Pelo contrário, como as Escrituras já tratam a Criação como obra de Deus, posso estudar a Criação com a expectativa de que minhas descobertas lá serão coerentes, em última instância, com tudo o que a Bíblia diz, mesmo que devido à minha ignorância ou pecado, eu seja incompetente para demonstrar essa coerência.
Enfim, meu sentimento geral é de que a Ciência pertence, em certo sentido, ao solo Cristão, e merece ser ouvida com simpatia e humildade. Isso dito, precisamos reconhecer que a ciência tem becos sem saída, ideológicas estranhas e conflitos de paradigmas.
Recentemente, por exemplo, descobertas arqueológicas na Geórgia (leste europeu) sugeriram que a narrativa paleoantropológica dominante hoje, que distingue, dentro do Gênero “Homo”, várias espécies como “homo habilis”, “homo erectus” e “homo ergaster”, estaria errada – seriam todos variações de uma única espécie, o “homo erectus”, e este, por sua vez, teria dimensões mais próximas do homem moderno do que se pensava. Isso acontece com a ciência; novas descobertas, novas teorias. O mesmo acontece com autoridades políticas: quantas vezes elas já erraram, até mesmo se levantando contra Deus e realizando coisas terríveis? Isso acontece até com a teologia, embora de um modo diferente. A mudança da teologia católica medieval para a teologia da Reforma é um exemplo.
O que fazer então? Eu gosto de uma metáfora frequentemente repetida para dizer isso: assim como um trem só anda sobre dois trilhos, que não podem nem se afastar, nem se unir (do contrário o trem descarrila), devemos manter teologia e ciência paralelas, sem se fundirem nem se ignorarem. Elas devem ficar numa conversação constante, e isso pode ajudar tanto aos cientistas quanto aos teólogos. Em suma: a ciência não é nem absoluta nem irrelevante. Ela tem uma autoridade relativa que deve ser reconhecida, e a própria Bíblia nos dá base para aceita-la.
“a ciência não é nem absoluta nem irrelevante. Ela tem uma autoridade relativa que deve ser reconhecida, e a própria Bíblia nos dá base para aceita-la.”
(8) A editora Ultimato foi “unilateral”, apresentando apenas uma visão das coisas no projeto “O Teste da Fé Brasil”?
A editora Ultimato não foi “desonesta” ou “unilateral”, como alguns irmãos maldosamente declararam, ao publicar “apenas um lado” – no caso, a obra “O Teste da Fé”. Pelo contrário; se não me engano, a querida editora Ultimato é a ÚNICA editora evangélica brasileira que apresenta OS DOIS LADOS da questão! Ela publica um importante livro do Dr. Philip Johnson (“Ciência, Intolerância e Fé”), advogado do “Design Inteligente”, e “O Teste da Fé”, que favorece o Criacionismo Evolucionário. E nos eventos de lançamento do projeto, ambos foram vendidos lado a lado, por decisão minha. Eu desafio os irmãos criacionistas-da-terra-jovem que levantaram essa crítica a fazerem o mesmo com suas editoras, e a terem a honestidade de vender esses livros da editora Ultimato lado a lado em seus eventos daqui em diante.
A propósito, o principal advogado da posição DI no Brasil havia sido convidado para um dos eventos de lançamento do Teste da Fé, e não apenas rejeitou vir no último momento, como declarou nas redes sociais não ter nenhum respeito pela posição representada pelo Teste da Fé. O fundador do movimento do DI no Brasil assumiu comportamento semelhante, com acusações infundadas de “liberalismo teológico” e “heresia”. Tendo em vista o comportamento belicoso e intolerante dos representantes do Design Inteligente no Brasil, só podemos dar por encerrada a conversação antes mesmo de iniciada; mas não sem antes recomendar aos criacionistas-da-terra-jovem que mantém a sobriedade uma atitude melhor – ao menos próxima à de nossos oponentes ateístas.

(9) Mas a Teoria da Evolução não leva à incredulidade e à apostasia?
Como já argumentamos antes, eu não creio que a evolução biológica, em si, seja razão para incredulidade ou apostasia. Acredito que o problema está com seu aprisionamento pelo Naturalismo Filosófico, que é o nosso verdadeiro inimigo. Concordamos com o criacionismo científico no combate ao Naturalismo, mas discordamos quanto a jogar o bebê fora com a água suja do banho.
Na verdade, a julgar por meus contatos pessoais pelo Brasil, temo que o criacionismo-da-terra-jovem seja não o salvador, mas o responsável pela alienação de muitos cientistas em relação à fé cristã, e de muitos jovens cristãos aspirantes à ciência. Certamente muitos falham em manter a ousadia cristã diante da oposição secular; mas para vários o problema é antes o sentimento de não poderem honestamente abandonar a ciência moderna em favor de um criacionismo científico com credenciais questionáveis. Muitos o fazem em campos como a engenharia ou a bioquímica; mas sob a ótica biológica isso parece extremamente difícil, chegando às raias da irracionalidade. Não penso que a explicação seja a falta de fé, apenas. O fato é que a identificação desnecessária de uma fé genuína com o criacionismo científico torna a solução do dilema algo impossível para muitos jovens universitários. E assim eles ganham mais uma razão para abandonar a igreja.
O que acontece, na minha opinião, é que o criacionismo científico torna-se involuntariamente aliado dos Naturalistas e Neoateístas, quando concorda com eles sobre a absoluta incompatibilidade entre a biologia evolucionária e a fé Evangélica. Essa tensão desnecessária acaba dificultando ainda mais a vida do estudante Cristão.
“o criacionismo científico torna-se involuntariamente aliado dos Naturalistas e Neoateístas, quando concorda com eles sobre a absoluta incompatibilidade entre a biologia evolucionária e a fé Evangélica”
(10) O “Teste da Fé” defende a revisão da teologia evangélica à luz da evolução?
De forma alguma. Cada trilho tem que permanecer no seu lugar!
Quanto a isso, devo mencionar um fato interessante. Devido à reação negativa de alguns conservadores contra o Teste da Fé, alguns irmãos que assumem posições revisionistas quanto à teologia evangélica se solidarizaram comigo. Eu agradeço as palavras e apoio, mas quero deixar claro que não pretendo me tornar um revisionista gratuitamente. Continuo sustentando uma visão conservadora sobre autoridade Bíblica e sobre os fundamentos doutrinários do Cristianismo. Não vejo absolutamente nenhum futuro em coisas como “teísmo aberto”, “teologia relacional”, hermenêuticas libertárias da Bíblia, etc. Continuo considerando o anarquismo de esquerda, por exemplo, (como em Ellul) pobre, incompatível com o Cristianismo clássico (católico e evangélico) e insuficiente para uma teologia política evangélica. Digo isso porque aqueles que identificam o criacionismo evolucionário com liberalismo teológico são pessoas desinformadas ou desonestas, estejam elas no extremo fundamentalista ou no extremo liberal do espectro cristão contemporâneo.
“aqueles que identificam o criacionismo evolucionário com liberalismo teológico são pessoas desinformadas ou desonestas, estejam elas no extremo fundamentalista ou no extremo liberal do espectro cristão contemporâneo”
Não quero dizer com isso que o desenvolvimento da ciência não possa, eventualmente, nos ajudar a interpretar melhor um texto Bíblico, ou a pensar melhor sobre uma dimensão da vida humana também tratada nas Escrituras, como já mencionamos anteriormente. Considere, por exemplo, o grande auxílio da arqueologia recente da Corinto Romana nos estudos das Cartas de Paulo realizados por Bruce Winter (em “When Paul Left Corinth”), ou os fabulosos resultados da pesquisa de N. T. Wright em “A Ressurreição do Filho de Deus”. Ocorre que não temos que mudar a teologia para nos tornar palatáveis ao mundo moderno. Se mudarmos a teologia, a mudaremos porque a verdade exige; e a verdade pode aparecer vestida com a ciência moderna. Mas no caso particular da teoria da evolução, aparentemente não há nenhuma necessidade de alterar radicalmente nenhum ponto fundamental da fé Cristã clássica.

Fico por aqui gente. Em posts futuros, tanto originais quanto traduzidos, a equipe do Teste da Fé Brasil continuará a responder a perguntas de teologia, filosofia e ciência relacionadas com esse tema.
E que o Senhor nos ilumine!
Guilherme

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Psicólogo identifica estruturas religiosas escondidas no pensamento freudiano

Seria possível identificar alguma religiosidade em Freud? A resposta mais óbvia é não. Mas o psicólogo José Calderoni pensa diferente. E vale a pena ler o que ele diz em seu livro "Descobrindo o Impensado: a Religiosidade do Ateu Freud (e de Cada Um?!)", da Escuta.

Apesar do título ser pouco claro, o livro em si é bem escrito, com aquele tom comum em bons autores terapeutas preocupados com a clínica: uma escrita solta, nada presunçosa, mas consistente.

A ideia de Calderoni parte da afirmação do filósofo Walter Rehfeld: existem estruturas de consciência religiosa na filosofia mesmo em autores claramente não religiosos ou ateus, como Freud. Daí, ele segue para a obra freudiana a fim de nela identificar indícios dessas estruturas.

continuar lendo na página da Folha de S Paulo

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Copérnico traído


                                                                                                                                      Marcelo Gleiser 

Tendo dedicado seu grande tratado ao próprio papa, provavelmente não era a Igreja Católica que ele temia 


NOS SÉCULOS 16 e 17, o que você pensava sobre o Cosmos podia lhe custar a vida; se não a vida, ao menos a liberdade e a integridade física. Imagine viver numa sociedade na qual o arranjo dos céus, por fazer parte da interpretação teológica da Bíblia, era determinado não pela ciência, mas pela fé. Essa era a época em que viveram Copérnico, Galileu e Johannes Kepler, os pioneiros da chamada Revolução Copernicana.

texto completo em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/74524-copernico-traido.shtml (a Folha de São Paulo não permite a reprodução de seus artigos sem o pagamento de direitos autorais)

domingo, 30 de setembro de 2012

Sobre ser cristão e profissional

Fwd: Comunicado CPPC - Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos

Cristãos, Psicólogos/Psiquiatras
: nossa autodefinição


Ultimamente temos sido perguntados com mais frequência sobre como nos definir e nos apresentar enquanto profissionais psi e também cristãos. Visando um melhor esclarecimento, a Diretoria Nacional do CPPC reuniu-se e preparou este documento:


Prezados profissionais membros do CPPC,


No CPPC temos aprendido a conjugar e fazer conviver ciência psi com a fé cristã há mais de 30 anos, e estamos convictos de que, apesar de tensões que aparecem, não é necessário e não é bom subordinar uma à outra. Em nossa declaração de fé consta que cremos que tanto a verdade revelada quanto a verdade científica vêm de Deus. Assim entendemos que a Ciência da Psicologia e da Psiquiatria tem direito a existir como tal, e a Fé Cristã também tem o direito de existir como tal. Então, quando um cristão como nós se dedica à prática profissional da psicologia ou psiquiatria, o que ele faz será boa ciência, boa psicologia/psiquiatria; ele não criará uma "psicologia cristã" ou "psiquiatria cristã", mas será um bom cristão e um bom psicólogo/psiquiatra.


Para exemplificar: nós não recomendamos utilizar o tempo e o espaço de uma sessão terapêutica para orações, estudos bíblicos, apelos, profecias, imposição de mãos e outras práticas comuns nas igrejas. Inclusive porque o evangelho nós recebemos de graça, e a psicologia/psiquiatria foi uma formação profissional que cursamos, da qual tiramos o sustento para a vida. Outro motivo para não fazê-lo é que a posição de psicoterapeuta já é por si só uma posição de poder na relação; mesclá-la com um atendimento "em nome de Deus" iria levar o terapeuta a assumir uma posição por demais empoderada, que tende a fazer mais mal do que bem para o paciente. Nos casos em que houver questões espirituais a serem tratadas, achamos melhor propor, caso o paciente concorde, que ele procure um pastor, um padre, ou uma igreja para tratar de sua "sede espiritual".


Isso não quer dizer que não sejamos cristãos: Amamos nossos pacientes, colegas de ONGs ou alunos, oramos a Deus por eles, pedimos ao Senhor que nos ajude em nosso trabalho psicológico. Mas no contato profissional nos esmeramos no exercício da psicologia/psiquiatria, em manejar bem os conceitos, técnicas, intervenções, sintomas, significados, transferências, medicações, campanhas, cada um de acordo com sua linha de formação e atuação.


Escrevemos isso para ilustrar porque acreditamos que não é adequado falar que praticamos "Psicologia Cristã/Psiquiatria Cristã", como se fosse uma ciência diferente da que aprendemos nas universidades. Não é. O diferencial nesse caso somos nós, as pessoas que a praticam – nós é que somos cristãos. Mas mesmo como cristãos, somos profissionais da área da saúde, onde praticamos a Psicologia/Psiquiatria, sem adjetivos. Sei que alguns irmãos e irmãs se apresentam de modo diferente, mas não concordamos com essa postura.


A própria Bíblia nos orienta, como em 1Pe 2.11-17, a "manter vosso procedimento exemplar no meio dos gentios, para que, naquilo que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação," e também recomenda o respeito às autoridades legalmente constituídas.


Nesse sentido, ao mesmo tempo em que pertencemos a uma associação de psicólogos e psiquiatras cristãos, não procuramos utilizar nossa fé como arma em conflitos. Quanto às questões que envolvem psicologia/psiquiatria e fé, não nos furtamos ao diálogo acadêmico e científico: transformamos estas questões em pesquisas, dissertações e teses, escrita de artigos e livros, participação em fóruns de debate, cursos, palestras e aulas em diálogos interdisciplinares. Sem preconceito nem contra nem a favor, promovemos encontros, congressos, simpósios e debates, atuamos em ONGs, na saúde pública, em campanhas educativas, participamos de esforços de socorrismo. Os resultados destes esforços respaldam nosso diálogo com os conselhos profissionais e ambientes acadêmicos, como por exemplo, a respeito da importância da fé para a saúde, que não pode ser negligenciada.


Ao longo de tantos anos, o Senhor tem nos ajudado a crescer e discernir melhor essa relação. Ainda temos mais coisas a aprender, mas quanto à auto-denominação, nós sugerimos apresentar-nos primeiramente como profissionais. É verdade que somos psicólogos/psiquiatras e somos cristãos, assim como podemos também dizer que somos casados ou solteiros, pai/mãe de filhos, etc., e não estará errado se nos apresentarmos assim. Mas observem que a recomendação bíblica é para que sejam vistas nossas boas práticas (obras), não palavras, argumentos ou bordões.


Sabemos que dependemos de Deus para todas as áreas de nossa vida, e cremos não só que Ele existe, mas também que é bom para todos os que dele se aproximam. Que nosso bom Deus, portanto, nos ajude a sermos bons profissionais neste mundo caótico, trazendo assim bom testemunho da sua bondade onde estivermos!


Diretoria Nacional do CPPC, 01 de março/2012.

fonte: http://www.cppc.org.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=373

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Enganos no diálogo entre ciência e fé

Às vezes parece ter um choque entre ciência e Bíblia. Isto pode causar até conflitos no coração daqueles que conhecem a Palavra de Deus. Em alguns casos pode levar até ao abandono da fé em Cristo, substituindo-a por uma fé na ciência.

O que tem me ajudado muito neste ponto é este pequeno diagrama ao lado. São quatro livros em duas prateleiras. Na prateleira debaixo encontram-se os livros básicos, a Bíblia (B) e a natureza (N). Na prateleira de cima estão os comentários sobre a Bíblia (cB) e os comentários sobre a natureza (cN). Neste diálogo é bom lembrar que foi o Senhor mesmo que nos deu os dois livros. São livros escritos pelo mesmo Autor sobre assuntos diferentes, e não como uma primeira e uma segunda edição revisada do mesmo livro. Mas esses dois livros têm o mesmo alvo: que os mordomos da natureza cuidem bem dela e louvem ao seu Criador.

Agora, as nossas reflexões sobre algum texto sempre são como comentários, interpretações relacionadas ao texto, escrito ou ágrafo. Entretanto, quem está lendo pode se enganar sobre o significado de uma passagem, particularmente quando se trata de um trecho difícil, até mesmo quando se trata de assuntos relacionados ao seu próprio campo de estudos. Assim, comentaristas da Bíblia (cB↓) podem estar enganados na sua interpretação da Bíblia (B), e intérpretes da natureza (cN↓) podem confundir-se ao lerem os dados da natureza (N). De fato, enganos ocorrem, mais ainda quando alguém faz afirmações sobre assuntos que não pertencem à sua especialização. Assim, teólogos podem enganar-se na sua compreensão da natureza (↘), e cientistas podem iludir-se ao lerem a Bíblia (↙). Além dessas quatro áreas de possíveis equívocos (↓↘ e ↙↓), há uma quinta: a tensão entre os próprios comentaristas sobre o significado dos seus comentários (cB↔cN). Longe de pensar que por isso Derrida teria razão de relativizar o significado de praticamente qualquer discurso, temos de reconhecer que esses equívocos são fatos reais e, por isso, as nossas indagações e dúvidas também são sinceras e reais.

De fato, enganos semelhantes têm ocorrido na discussão entre estudantes da Bíblia e os da natureza. Assim, ao combaterem o cientista Galilei (↔), teólogos se enganaram tanto na leitura da Escritura Sagrada como da natureza (↓↘). Depois reconheceram que a Bíblia não era um manual sobre astronomia, mas falava a língua diária do homem comum. Por outro lado, cientistas ridicularizaram teólogos (↔) por acreditarem na existência de Belsazar registrado na Bíblia (↙↓). Depois eles descobriram que aquele último rei da Babilônia, de fato, era uma figura histórica, e que estava substituindo seu pai arqueólogo (já naquele tempo!).
Agora, apesar de acreditarmos que tanto a Bíblia como a natureza são ‘livros’ dados por Deus para que os estudássemos com submissão e afinco, temos de reconhecer que é possível haver aparentes contradições, devido as limitações dos modelos usados para a análise. Por isso devemos observar três placas nesta estrada de estudos comparativos. São como três lembretes: paciente, crescente e consciente.

Paciente
O primeiro lembrete nos admoesta a sermos pacientes por causa dos nossos próprios limites humanos. C. S. Lewis nos lembrou que há perguntas sem respostas, pois “não dá para responder perguntas tolas [como]: quantas horas cabem num quilômetro? A cor verde é quadrada ou redonda?” E acrescentou: “Talvez metade das nossas perguntas — sobre nossos grandes problemas teológicos e metafísicos — sejam deste tipo”*. As perguntas sobre a Bíblia e a natureza não são tolas, mas dentro desse assunto, há aspectos que beiram o limite do nosso entendimento. Forçar a barra do segredo não leva a nada. Por isso, sejamos pacientes. Esse limite é comum em todas as áreas de conhecimento humano, inclusive nas próprias ciências exatas. Reconhecê-lo não é sinal de fraqueza, mas de franqueza, honestidade e humildade. Na velha Roma, os juízes podiam usar seu “NL” sem constrangimento: uma placa com essas duas letras que abreviavam “Non Liquet”, isto é, o assunto não está claro (líquido). Se, depois de ouvir as testemunhas, o caso ainda não estava claro, eles erguiam as suas plaquinhas “NL” na hora da votação. Não era um atestado de ignorância, nem prova de indecisão, mas de juízo. Não há nada demais quando nós, mortais, não temos coragem de forçar uma resposta e reconhecemos que ainda precisamos de mais luz sobre grandes perguntas. É um sinal honesto de que estamos no limite do nosso conhecimento e compreensão. Precisamos ter sabedoria e coragem para, às vezes, erguer o nosso “NL”, pois o sábio conhece o tempo e o modo (Ec 8.5).

Crescente
Para algumas pessoas, essa tensão é quase insuportável. Assim mesmo, precisamos ter paciência, pois, pouco a pouco, podemos entender melhor esse assunto. Por isso, observemos também o segundo lembrete: crescente. Às vezes tínhamos de dizer aos nossos filhos: “Quando crescerem, vocês vão entender melhor”. Crescimento requer tempo. Por enquanto, cada um pode levantar a sua plaquinha. Porém, mais cedo ou mais tarde, Deus vai lhe dar a resposta, durante esta vida passageira ou depois de entrar nos tabernáculos eternos. Durante minha pereginação, o Senhor me ensinou muitas coisas preciosas. Não que ele tenha respondido todas as minhas indagações; ainda tenho uma lista de perguntas no bolso. Mas sei que, durante esta peregrinação, “Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória” (Sl 73.24). Há apenas um pequeno problema técnico: de certo a listinha ficará para trás.

Consciente
Além dos lembretes “paciente” e “crescente”, há um terceiro: consciente, que aponta para nossa consciência. Temos de reconhecer que nem sempre conseguimos convencer outros do nosso ponto de vista, por mais bíblico que seja; isso pode ocorrer mesmo quando a outra pessoa também quer se submeter à Palavra de Deus (2 Co 10.5). É possível que, ao invés de conseguir convencer você a favor da conjuntura dos ‘dois livros’, o resultado seja você honestamente considerar isto como algo ridículo. Por isso quero lhe mostrar (no próximo artigo) algo sobre a história desta posição antiga, mas não antiquada. Da minha parte, a amizade continua a mesma. Que Deus lhe abençoe, co-peregrino! Somente examinemos ambas, a Bíblia e a natureza, pois ‘Os céus proclamam a glória de Deus. E a lei do Senhor restaura a alma’ (Sl 19.1,7).

* C.S. Lewis, A Grief Observed (Londres: Faber, 1983), p. 55. Em português, "A Anatomia da Dor" (Editora Vida).

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Doutor em história e pastor emérito da Igreja Evangélica Reformada, Francisco Leonardo Schalkwijk mora na Holanda com sua esposa Margarida, com quem serviu como missionário no Brasil por quase 40 anos. É autor de Confissão de Um Peregrino, "Igreja e Estado no Brasil Holandês, 1630 - 1654" e da gramática grega Coine.

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/enganos-no-dialogo-entre-ciencia-e-fe