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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Jonas, um profeta ressentido ou Você tem razão em estar irado?

Eduardo Ribeiro Mundim

Introdução

A história do profeta Jonas é bem conhecida, talvez por duas diferentes razões. A primeira, o grande peixe que o engole e o vomita, inteiro e incólume, três dias depois. A segunda, sua experiência é citada frequentemente como um exemplo a ser evitado – não desobedeça a Deus, ou você será perseguido por Ele, que moverá céus e terra para obrigá-lo a fazer a Sua vontade.

Mas será que estes dois pontos ocupam o principal lugar neste curto livro profético de quatro capítulos e 48 versículos?

Meu objetivo nesta reflexão é mostrar que, do meu ponto de vista, não. A mensagem é bem diferente das duas ideias citadas.

Se fosse reduzir o livro todo em um único título, várias propostas seriam possíveis: Jonas, um profeta ressentido; Jonas, um profeta transparente; Jonas, um profeta como você; Jonas, o profeta que não amava...

Se fosse escolher o versículo chave da sua história, seria “você tem alguma razão para esta fúria?”, que aparece pela primeira vez em 4.4 e é repetida em 4.9.

Algumas questões precisam ser pinceladas.

Seria o livro de Jonas todo ele uma alegoria? Ou uma história literal?

Seria possível aceitá-la como uma história real com todos os encadeamentos de atos miraculosos que o perpassam do início ao fim?

Como situá-lo historicamente? Quando os eventos teriam ocorrido? A Nínive descrita existiu? Se existiu, porque não há registros extrabíblicos da sua conversão?

Estas dificuldades acadêmicas frequentemente dominam as discussões, deixando à margem a real mensagem do livro. E este fenômeno não ocorre somente com este profeta, mas com muitos outros textos bíblicos. Certamente estas, e outras, questões são pertinentes, e merecem ser avaliadas. E não é incomum usar a história de Jonas como ilustração dos absurdos históricos e científicos que estariam disseminados por toda a bíblia. Mas o objetivo desta reflexão é a mensagem que o livro traz, as reflexões que levanta, o Deus que ele mostra, e os homens que ele retrata.

Como concessão aos mais exigentes, digo que aceito com tranquilidade a possibilidade de toda a história de Jonas ser literal. Afinal, quando creio no credo apostólico do início ao fim, creio em milagres específicos do início ao fim que tornam os deste livro um tanto quanto insignificantes.

Partindo do ponto de vista tradicional, este profeta é o mesmo citado em II Rs 14.25. Seu ministério se insere no reinado de Jeroboão II, o último grande rei de Israel. Pelo menos duas circunstâncias externas deram a ele a possibilidade de restaurar as fronteiras de Salomão e trazer prosperidade econômica há muito não vista: a fraqueza da Síria, pelos conflitos com o Império Assírio, e a preocupação deste Império com sua fronteira noroeste. Contudo, a prosperidade não foi igualmente distribuída, tendo Jeroboão enfrentado as profecias de Amós, que denunciavam sua iniquidade, a religiosidade vazia e a segurança sob falsas premissasi. E foi ele quem predisse o sucesso político de Jeroboão II – seria ele um nacionalista?

Apenas a fração do ministério de Jonas retratado pelo livro é conhecido. E do pouco que se sabe sobre ele, é que se pode construir algumas hipóteses sem, aparentemente, possibilidades de verificação.

A Missão

Jonas foge de uma outra comissão! A ele é ordenado se dirigir à maior potência militar da região, um verdadeiro perigo para sua nação (o Império Assírio teve longa duração, com diversas fases, e seu exército era conhecido pela dureza com que tratava os vencidos), para levar-lhe uma palavra profética. E esta, segundo o narrador da história, deve ser dura: “anuncia junto a ela que a sua maldade chegou até mim” (BJ).

Não há mais detalhes sobre o conteúdo – o que nos é diretamente contado é apenas a revelação de que a maldade da cidade é conhecida por Deus, Juiz de toda a terra, e que por isto seria destruída 40 dias após a pregação pelo profeta (3.4).

Contudo, a Pomba (o significado do nome Jonas) entende que o objetivo de sua missão não era a destruição da nação rival e ameaçadora, mas a sua conversão. Ao discutir com Aquele que o comissionou, semanas mais tarde, conta a razão de sua fuga: "Senhor, não foi isso que eu disse quando ainda estava em casa? Foi por isso que me apressei em fugir para Társis. Eu sabia que tu és Deus misericordioso e compassivo, muito paciente, cheio de amor e que promete castigar mas depois se arrepende.” (Jn 4.2)

Este coração perdoador deixava sinais evidentes na história do povo eleito. Afinal, apesar da desobediência de toda a nação, Israel ainda não tinha sido destruído. Diversas vezes ao longo de sua história, o Deus de Abraão ensinara que o pecado traria castigo, mas o arrependimento, perdão. E Jonas foi capaz de intuir que esta palavra de salvação, o perdão divino como consequência do real arrependimento do homem, dada ao povo da aliança, tinha um alcance universal! Era destinada inclusive aos inimigos de morte do seu próprio povo!

A Nova Versão Internacional traduz o versículo 2 com uma urgência explícita: “vá depressa à grande cidade de Nínive” (na segunda comissão, não há urgência, na mesma tradução: “vá à grande cidade de Nínive”). Reunindo as informações espalhadas ao longo da história podemos intuir como Jonas entendeu sua missão: o Juiz de toda a terra abrira uma demanda contra a opressora e iníqua cidade de Nínive, a quase 1000 km de Jerusalém, prometendo-lhe a destruição em muito pouco tempo caso não houvesse uma conversão e era urgente que esta mensagem lá chegasse. Teria a Pomba entendido como ironia suprema o fato dele, profeta filho do pacto com os patriarcas, um estrangeiro aos olhos assírios, súdito de uma nação pequena que poderia ser engolida por eles assim que possível, que havia informado a Jeroboão II que a glória dos tempos iniciais da monarquia unida seria parcialmente retomada, o agente de perdão e transformação do inimigo?

Sendo o Império extenso e poderoso, sua maldade afetava milhares de pessoas naquele mundo conhecido. Uma possível conversão daquele povo levantaria a possibilidade de benefícios indiretos a outros...

Jonas rompe com seu Senhor. Este fato é explicitado pelo texto por duas informações complementares: “Mas Jonas fugiu da presença do Senhor, dirigindo-se para Társis.” Ele escolhe um destino que, para o hebreu daquela época, significava o fim do mundo do ponto de vista geográficoii. A localização desta cidade é incerta, havendo várias candidatas, como o litoral da atual Espanha e a ilha de Sardenhaiii. E ele não quer simplesmente ficar bem mais longe do seu alvo missionário – ele quer fugir da presença de Deus. Esta presença não deve ser como a imaginada pelo general sírio Naamã, que ligava Deus a um local geográfico (II Rs 5.17-18), já que ele claramente aceitava a jurisdição dEle sobre a longínqua cidade. Muito provavelmente sinaliza uma completa ruptura de comunhãoiv,v. Rejeitava a comissão dada por discordância fundamental sobre um tema que lhe era muito caro. E no lugar de debater, como Jó, ou de ficar parado onde estava, foge como para demonstrar a força de sua decisão, sua irrevogabilidade. A vontade do profeta não estava em sintonia com a divina, e recusou uma reavaliação frente àquela novidade. Por quê? A explicação mais lógica é que ele não deseja nenhum bem aos assírios, e considerava que qualquer benefício aos povos conquistados seria muito melhor pela destruição dos conquistadores, e não pela sua conversão. Jonas era um profeta que odiava; um profeta que deixava-se governar por suas emoções; uma pessoa que tinha maior prazer na destruição do não crente que na sua regeneração Um profeta que não lia a história do relacionamento do seu povo com o Deus de seus pais por diversos pontos de vista complementares, nem atentando para particularidades e seus desdobramentos. Qual seria sua opinião sobre Rute, a moabita, ou Raabe, a prostituta?

Não deve ser acidental o jogo de palavras que se repete no primeiro capítulo: levantar / descer são dois verbos que se repetemvi. O primeiro, relacionado à comissão divina; o segundo, a reação humana.

A Fuga

É importante tentar se colocar dentro do coração de Jonas, e pensar com seus sentimentos. Sem isto, a história fica um tanto quanto incompreensível nos detalhes; e se estes não são importantes, por que estão no texto?

Como compreender o fenômeno de Jonas ser encontrado dormindo? Ainda que a tradução para o português use o termo “porão”, o original poderia ser literalmente traduzido como “partes internas da coberta inferior”4. E não se está falando de um moderno navio de aço, mas de uma embarcação do século VII antes de Cristo, onde toda a agitação deveria ter sido percebida (como parece estar nas entrelinhas do texto). O uso de qualquer droga potente pode ser descartada, já que não há nenhuma menção deste recurso no livro, nem em toda a Escritura. Pode ser levantada a possibilidade de uma exaustão física e emocional intensa. A primeira, pela fuga para Tarsis, via Jope (uma fuga apressada?), cidade costeira distante de Jerusalém ou do Reino do Norte. A segunda por um conflito interno. Seu pai era Amitai, “minha verdade”. O profeta rompe relações com seu Deus que lhe revela uma verdade que ele não está disposto a aceitar (há perdão disponível até mesmo para os ninivitas – não há pessoas excluídas desta possibilidade) mas que ele não pode negar como sendo a vontade de quem tem o direito e poder de tê-la. Pode ser acrescida a profunda desilusão de um profeta nacionalista, inspirado pelo renascimento econômico e militar de sua pátria.

A tripulação daquele navio mercante era religiosa – o que não é de se estranhar. Após terem feito tudo o que sabiam fazer, com perdas financeiras significativas (afinal, as mercadorias que eram o seu ganha pão foram para o mar), põe-se a orar, cada um a seu deus. E o capitão busca a todos para, ecumenicamente, pedirem auxílio divino. O desespero de todos os tripulantes não os impede de tecer elucubrações teológicas – já que não estamos vencendo esta tempestade, ela deve ser sobrenatural; portanto, deve ter um causador. O sorteio aponta Jonas. E a religiosidade dos marinheiros é ética, pois mesmo com a ameaça real à sobrevivência de todos, recusa a solução apontada pela pomba: “Peguem-me e joguem-me ao mar, e ele se acalmará. Pois eu sei que é por minha causa que esta violenta tempestade caiu sobre vocês". Somente a aceitam, a contragosto, quando percebem que não será possível vencer a tempestade, que aumenta de intensidade, e que a morte chegaria a todos, inocentes e culpado. Sobra apenas o sacrifício humano proposto por aquele que ofendera o seu próprio Deus: ”o que foi que você fez?”. E o fazem aceitando como divinamente inspirada a sugestão do profeta: "Senhor, nós suplicamos, não nos deixes morrer por tirarmos a vida deste homem. Não caia sobre nós a culpa de matar um inocente, porque tu, ó Senhor, fizeste o que desejavas".

Mas, por que Jonas lhes dá esta solução, estranha ao modo hebraico de culto, no lugar de se ajoelhar, confessar sua culpa e seu pecado, prometer mudar de atitude?

Apenas conjecturas podem ser feitas, já que a narrativa não fornece pistas a este respeito. Talvez considerasse seus pecados (desobediência aberta, recusa de conversão e ruptura de relacionamento) como merecedores da pena de morte. Afinal, quando o casal adâmico pecou, a ruptura do relacionamento foi assim punida. Talvez o mortífero fosse uma característica do profeta, pois ao final de sua história (4.1-3) ele pede para morrer (e não parece que era figura de linguagem) porque sua missão tinha sido bem sucedida, ao contrário do que desejava de coração. Talvez ele ainda não tivesse convencido (se é que em algum momento ficou) de que estava errado, e preferisse a morte (que ele imaginava salvar os tripulantes inocentes) a mudar de ideia.

O Peixe

Lançado ao mar, o profeta é engolido por um grande peixe. E este ponto da história é o preferido para questioná-la. Como é possível?

O texto é claro, inclusive no original: um grande peixe. Grande o suficiente para reter, no seu interior, um homem adulto por três dias. Novamente, apenas hipóteses podem ser levantadas sobre o animal. Aparentemente, o único animal marinho capaz seria uma baleia. Mas este termo não é encontrado em nenhum lugar nas Escrituras.

Teria ele ficado na boca do grande peixe, ou no seu estômago? Segundo o narrador, de uma posição onisciente, foram três dias e três noites; portanto, um bom período de tempo. A leitura do salmo proclamado pelo profeta sugere que ele foi engolido já prestes a morrer afogado. É aceitável imaginar que a última lembrança que ele tinha era estar perdido, sem senso de direção (como ocorre nos afogamentos), sem ar e, repentinamente, acordado em um lugar absolutamente escuro. Deve ter consumido uma boa porção do tempo ele conscientizar-se de que, de alguma forma, estava vivo. Pensava, recordava, provavelmente conseguia palpar-se em alguma extensão. Imaginando que o peixe tenha tentado comer outras vezes com ele no seu interior, ocasionalmente grandes quantidades de água salgada deveriam passar por ele, junto com os animais marinhos escolhidos como alimento.

Jonas mostra-se grato por estar vivo, além de desejar retomar o relacionamento rompido. O momento de tensão, ou seja, a fuga e o mar revolto, ficam para trás e no tempo, que deve ter sido do tamanho da eternidade para ele, disponível, ele parece reconsiderar, ao menos parcialmente, sua atitude. Sua oração, na forma de salmo de louvor, termina com “o que eu prometi, cumprirei totalmente”. Exatamente qual foi a promessa, não se sabe.

Sua vida é mantida, ganha um tempo para reconsiderar, absolutamente sozinho, apenas consigo mesmo. É, então, devolvido à terra pelo vômito do peixe – foi aí que ele descobriu como tinha sido salvo? Teria ele se dado conta de que houvera pelo menos dois milagres? A tempestade no mar por sua culpa, e a salvação por um meio absolutamente inusual e absolutamente seguro? Teria ele pensado diferente, caso tivesse ficado à deriva no mar, apoiado em algo que flutuasse, com frio à noite e exposto ao sol durante o dia? Seria o ventre do grande peixe algo semelhante ao útero materno, ou ao berço de um recém-nascido?

A Missão II

Curiosamente, é necessário que Deus novamente o chame. Por quê? Não parece um desenvolvimento lógico da história que Jonas fosse a Nínive assim que se visse em terra? Não era isto que as entrelinhas do seu salmo permitiam supor? Afinal, o que ele quis dizer com “o que eu prometi cumprirei totalmente”(2.9).

Parece que a gratidão pela preservação da sua vida, o reconhecimento da extensão do poder do Deus de seus pais (afinal, enviara uma tempestade ao seu encalço, fizera-o ser sorteado como responsável pela mesma, providenciou um peixe para salvá-lo do afogamento, manteve-o vivo e são no seu interior e por fim, por sua ordem, foi vomitado na praia), o perdão inerente a este fato, não foram suficientes para predispô-lo à missão. É necessário ser novamente chamado, e desta vez ele se dispõe imediatamente.

A mensagem entregue era condicional: estabelecia um prazo de autoavaliação dos ninivitas frente à proclamação divina entregue pelo profeta. Bem diferente da situação de Sodoma e Gomorra, onde a destruição das duas cidades era assunto decidido, sem espaço para arrependimento (Gn 18 e 19). Teria Jonas a mesma compaixão que Abraão teve daquelas duas cidades? Ou esperava ele que o destino de Nínive, arqui-inimiga de sua pátria, fosse o mesmo do daquelas cidades?

Ele faz um serviço mal feito e propositadamente. Afinal, Nínive era uma cidade a ser percorrida em três dias (3.3) e ele a percorre em apenas um (3.4). Sendo a mensagem de vida ou morte para eles (o núcleo dela era “ainda quarenta dias e Nínive será destruída”) pareceria lógico que um pregador misericordioso tentasse por todos os modos convencer seus ouvintes – e havendo tempo suficiente, quarenta dias, poderia esforçar-se diligentemente. Logo, sua rapidez não era altruísta.

E o resultado do seu trabalho mal feito, e repleto de más intenções, é a conversão dos ninivitas. Talvez este seja o maior dentre todos os milagres da história: centenas de pessoas mudaram seu modo de agir após uma mensagem ameaçadora, pouco elaborada e, provavelmente, pouco racional aos seus olhos. E frente a mais esta maravilha, no lugar de reconhecer o poder de Deus, Jonas “ficou profundamente descontente...e enfureceu-se” (4.1). No lugar de alegrar-se com as inúmeras possibilidades que a vida traz, sempre sob a direção santa de Deus, ele pede “tira a minha vida, eu imploro, porque para mim é melhor morrer do que viver". E por quê? Porque seus sonhos homicidas não foram satisfeitos. E não há a menor sugestão no texto de que a sua reação fosse ditada por razões “de Estado” - sobram apenas as razões pessoais.

A Lição Final

Jonas se retira da cidade, e se instala a uma certa distância, esperando os acontecimentos. Talvez ainda houvesse alguma expectativa de que o arrependimento não era “p'ra valer”. Constrói um abrigo no deserto, não completamente suficiente. O que lhe faltava, um abrigo do calor, é-lhe dado gratuitamente, em mais um ato milagroso. Satisfeito e afeiçoado a situação, vê a planta morrer e o calor aumentar, a ponto de, novamente, pedir a morte.

O contexto sugere uma certa afeição pela planta e é a esta situação que Deus lhe apresenta a última lição: como é possível ele ter misericórdia de uma planta (ser de curta duração, vegetal e não gente) e Ele, Deus, não ter de centenas de pessoas que podem mudar suas vidas?

Deus e Jonas

Jonas é um profeta que necessita de conversão. Apesar de dialogar com seu Deus com bastante familiaridade, não se deixa contaminar pelo que Ele é – procura preservar o máximo que pode de suas opiniões e inclinações.

Por duas vezes Deus lhe pergunta “você tem alguma razão...?”. Parece que nenhuma vez Jonas se pergunta por qual razão Deus se empenha tanto para que Nínive ouça a Sua voz; por qual razão Deus se empenha tanto para que Jonas seja o mensageiro.

O que a Pomba-que-é-um-falcão não percebe é que ele também é campo de missão! Tanto quanto Nínive! A mensagem de condenação e de esperança poderia ser entregue por qualquer um, mas a mensagem para Jonas somente poderia ser entregue pelos ninivitas! Ele, com tanta intimidade com Deus, é cru sobre a mais básica característica divina: a santidade. Santidade que é descrita nas Escrituras principalmente em termos de justiça, misericórdia e verdadevii. E a justiça de Deus é a salvação de uma situação de opressão para que se possa viver melhor, dentro do pacto a que Ele chama. A Sua misericórdia, o Amor que a tudo sustenta, inclusive a relação com a humanidade absolutamente depravada. A Sua verdade a plena confiança de que Ele é o que é, sem “mudança nem sombra de variação” (Tg 1.17).

Apesar da desobediência declarada e da obediência incompleta, Jonas não é eliminado, como poderia ter sido se a ele fossem aplicados seus próprios conceitos sobre como Deus deveria agir para com os pecadores. O ensino é igual para o profeta e para os ninivitas: Deus os ama e os chama ao arrependimento.

Dentro do seu orgulho de ser descendente dos patriarcas, da arrogância de ser verdadeiro profeta em uma terra cheia da falsos profetas (que, inclusive, bajulavam Jeroboão II, o rei que Jonas talvez prezasse tanto), da prepotência de ser porta-voz do Altíssimo, ele não se via como deveria ver.

Estar perto de Deus, ser por Ele comissionado, entender Sua mensagem e pregar seu Evangelho não são garantias de retidão pessoal, de amor ao próximo e de não ser cego.

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i Novo Dicionário da Bíblia, vol II, pag 803-4, 3ª ed, 1979, Ed Vida Nova
ii Bíblia de Jerusalém, nota a, pag 1.765, 9ª ed, 1985, Ed Paulinas
iii Novo Dicionário da Bíblia, vol III, pag 1.563, 3ª ed, 1979, Ed Vida Nova
iv Novo Comentário da Bíblia, vol II, pag 871-7, 1ª ed, 1963, Ed Vida Nova
v Alison, J. Fé sem ressentimento, pag. 137-61, 1ª ed, 2010, É Realizações
vi Wondracek K, Hoch LC, Heimann T. Sombras da alma: tramas e tempos da depressão, pag. 205-22, 1ª ed, 2012, Ed Sinodal
vii Lillie W. Studies in new testament ethics, pag.4-6, 1ª ed, 1963, Westminster Press

compartilhado com a Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte no culto matutino de 04/11/12

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A cura do cego desde o nascimento



ou
Enxergar ou não, eis a questão


Eduardo Ribeiro Mundim


Este episódio talvez seja um dos mais conhecidos do Evangelho segundo João.

O Cego

Diferente do cego de Jericó (Lc 18.35-43) que bradou insistentemente “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim” e, respondendo ao questionamento de Jesus solicitou-lhe a cura, o de Jerusalém (Jo 9) nada pediu. Parece que ele foi involuntariamente convocado a participar de um drama de alta carga emocional, simbólica e teológica. Cego de nascença (9.1,20), era figura conhecida onde esmolava (9.8). Não é possível determinar sua idade, mas já contava com anos suficientes para responder por si (9.21) – e a introdução o coloca como “homem”, e não jovem. Portanto, uma pessoa que nunca enxergou, supostamente avaliada pelos médicos da época e submetida aos tratamentos oficiais e populares1 de então (o que inclui o uso de barro sobre os olhos2). Sua situação familiar não é discutida no texto, mas é bastante curiosa a reação dos seus pais frente ao milagre. Ao contrário do filho, que enfrentou com ousadia crescente as autoridades da época, estes acovardaram-se (9.21) não o defendendo nem se posicionando sobre um milagre extraordinário na vida do filho. Este dado permite imaginar que o cego não estava inserido em um ambiente familiar de proteção e de amor.

Cegueira, seja congênita ou adquirida, não era incomum no oriente médio naquela época, por diversos fatores. A lei mosaica não dispunha de uma regulamentação especifica sobre o cuidado com os cegos. Provavelmente porque sua ideia básica era a de que não deveria haver pobre na terra, sendo a solidariedade uma ação efetiva, e não uma vaga ideia. Especificamente, a libertação de todos os escravos no ano do jubileu, a proibição de tratar o devedor que se vendia a si mesmo como escravo (Lv 25.39) e a obrigação de sustentar aquele que empobrecia (Lv 25.35). É curiosa a evolução para o conceito de desonra da mendicância profissional (que, segundo a Lei, não deveria existir): os fundos caritativos das comunidades judaicas não podiam ser usados para auxiliá-los3. A situação na época de Jesus deve ter se acentuado pela falta de uma política de cuidados para com o pobre, assim como pela excessiva taxação romana4.

Ainda que excluído de diversas situações sociais pela deficiência visual, estava inserido na sinagoga – pois dela foi expulso (9.34). Se fosse descendente de Arão, estaria excluído do ofício sacerdotal (Lv 21.17-20).


Os Fariseus5

Como grupo dentro do judaísmo daquela época, sua origem pode remontar ao tempo de Esdras, e da construção do segundo templo. Eles parecem ter surgido como consequência do estupor provocado pelo exílio: como era possível para a raça dos filhos de Abraão, Isaac e Jacó amargarem o exílio? como era possível que das doze tribos, dez tenham desaparecido enquanto tais? A resposta, biblicamente enraizada, encontrada por eles, foi "não termos cumprido a lei" (Dt 28)6.

Impactados pela dura lição da realidade, diligentemente procuram um recurso para nunca mais caírem no mesmo erro. Cheios de desejo de fazerem a vontade de Deus, escrutinam a Lei e dela extraem regras para que jamais um judeu piedoso não tivesse referência sobre qual era a vontade expressa de Deus para uma determinada situação. Tornam-se, assim, os maiores especialistas nas escrituras de então. Dentre as diversas escolas, ou seitas judaicas desta época, parecem ser os mais populares entre o povo (os saduceus, por exemplo, eram elitistas e muito mais favoráveis a aplicação literal da Lei) e os mais democráticos.

Frente ao milagre, o povo conduz o ex-cego aos fariseus; não aos saduceus (classe economicamente mais abastada e com ligação política com o dominador romano), ou aos sacerdotes (que eram do partido dos saduceus), já que, diferentemente da “lepra”, não havia disposição legal para que a cura fosse investigada. E por que o fazem?


O Milagre

Esta cura não pode ser classificada como de uma “doença psicossomática”, já que o cego assim o era desde seu nascimento – portanto, fora de uma das definições modernas de doença psicossomática: o corpo adoece, verdadeiramente (e não em uma simulação, como na histeria), em função de conflitos sobre os quais nada pode saber (chamados de inconscientes7).

Diversas pessoas que o conheceram cego o veem agora enxergando, incluindo os pais. Mas muitos duvidaram da sua identidade. Portanto, não pode ser tratada como um caso de hipnose ou histeria coletiva, e nada há no texto que corrobore esta tese.

A história poderia ser encarada como uma lenda piedosa, com o intuito de infundir bons sentimentos e ideais altruístas, além de transmitir um ensino importante (por exemplo, que as doenças ou eventos ruins não são, necessariamente, castigo divino). Se assim fosse, o milagre seria um “recurso pedagógico”, Jesus seria então um homem com boas ideias, destituído de poder real, proclamando, em uma permanente loucura, ser o que não era (Jo 4.26, Mc 8.29, Jo 8.58). O evangelista, um contador de lendas, destituído de comportamento a altura daquele estimulado pelo seu texto – um embuste. Se este milagre não é verdadeiro, então não há razão para se acreditar na gravidez sem relação sexual de nenhuma espécie por parte de Maria, assim como a ressurreição deixaria de ser crível. Estes dois eventos, por si só, minam todo o edifício do Evangelho, tornando toda a esperança que ele traz uma fantasia sem consequência nenhuma (I Co 15).

Por outro lado, por qual razão esta história não seria verdadeira? Assumindo a identidade de Jesus como Filho de Deus que se fez homem uma única ocasião na história da humanidade (portanto, fora da possibilidade de verificação “científica”) qual a dificuldade em acreditar no evento? A disposição preconceituosa de não se acreditar em milagres?

Mas este texto não fala do milagre em si, que é o aspecto de menor importância, mas do que estava envolvido nele.


Os dois principais atores do drama

Curiosamente, neste evento Jesus não é o ator principal – é o secundário. O centro do drama é o cego, ou as consequências da sua cura. E as primeiras palavras dEle nesta história informam que ela é uma manifestação da obra de Deus (9.3).

Contracenando com ele, o segundo personagem, desta vez coletivo, os fariseus. Não todos certamente, mas um certo número deles. Aqueles que acompanhavam Jesus estariam entre eles (9.40)?

É necessário observar como Jesus se ausenta da cena, e como Ele retorna. Em contraste com a cura de outro cego (Mc 8), Ele não está presente para ser encontrado pelo ex-cego na sua volta do tanque de Siloé. A ausência é a chave para que a multidão8, que não sabe o que ocorre, procurar aqueles que melhor poderiam explicar fenômenos miraculosos – os fariseus. Estudiosos e intérpretes experientes da Lei, poderiam fornecer a orientação sobre o que acontecera, já que o provocador – Jesus, se retirara. Este detalhe também parece único entre todos os milagres que Ele realizou.

Jesus retorna após o clímax, e se apresenta ao ex-cego aparentemente de forma discreta, sem alarde. Em contraste com Mc 8, a cura se tornou objeto de uma acalorada e apaixonada discussão, com implicações sociais sobre a parte mais fraca.


Uma Questão teológica

Qual é a questão nesta história?

Ela se inicia com a palavra “pecado”9, e se encerra com ela: “Mestre, quem pecou...” (2) e “não seriam culpados de pecado” (41).

Quem pecou, o cego ou os pais? A questão sugere uma tensão teológica. O profeta Ezequiel deixa claro que cada um leva as consequências do seu pecado (Ez 18), mas, pelo menos do ponto de vista coletivo, toda a nação amargava a derrota e a humilhação porque os pais não seguiram a Lei como deveriam, e foram castigados com o exílio. É provável que esta tensão estivesse no inconsciente de todos10.

Segundo Josefo, fazia parte da crença dos fariseus a reencarnação como modo de castigo11. Esta crença não era uma unanimidade entre os judeus (os essênios e os saduceus tinham pontos de vista diferentes). Mas o conceito de calamidades enquanto castigo pelo pecado, assim como a possibilidade da criança pecar ainda dentro do ventre materno, eram compartilhados por muitos12. Portanto, a questão levantada não era absurda, ainda que fosse estranha às Escrituras veterotestamentárias.

E a resposta de Jesus foi contrária a estes conceitos. Aquela cegueira não era resultado do pecado de ninguém, mas era uma oportunidade para a obra de Deus se manifestar naquela vida. Ou seja, às ideias de então que procuravam explicar a presença do mal no mundo, Jesus retoma o mistério dos sofrimentos do justo Jó. Assim como todas as suas desventuras não tinham explicação nos seus atos, mas em fatos muito além da sua possibilidade de conhecimento, todo o sofrimento daquele homem faria sentido pela ação manifesta de Deus nele, e que, até aquele momento, estava encoberta para todos13.

Jesus introduz uma outra questão teológica, inédita – Ele era a luz do mundo, e estava no tempo de realizar a obra de quem O enviou (9.4-5). A questão não era o pecado cometido por alguém, mas que Deus tinha uma obra a realizar / completar.

A rigor, um cego de nascença é uma obra inacabada. Segundo Gênesis, o homem foi formado do pó da terra, e é este pó que vai completar aquela criação não terminada14. Ao aplicar-lhe lama, feita com sua própria saliva, Ele invoca o ato criador primordial de Deus – invocação poética e teológica através de um ato que, naqueles tempos, poderia ser encarado com “médico”.

Neste ato inédito (9.32), Ele apresenta, dentro da tradição do Velho Testamento de revelação a partir de aspectos cotidianos ordinários (vide o profeta Oseias), a questão teológica que interessa: Ele veio completar a revelação de Deus através de si mesmo, e esta cura é uma demonstração de poder humilde (não há fanfarra, fogos de artifício, trilha sonora ou aplauso da multidão) e de afirmação de autoridade enquanto Filho Unigênito.


Uma vida transformada

Até que voltasse do banho em Siloé, o cego não se pronuncia. Ao retornar, pelo milagre de não mais ser cego, ele passa a ser percebido de modo diferente por aqueles que antes o conheceram.

A cegueira o excluía da vida em comunidade. Caracterizava-o como um fardo social, incapaz de produzir seu próprio sustento e necessitando da “caridade alheia”. Ritualmente, o tornava inapto para o sacerdócio, se fosse descendente de Arão – apenas os fisicamente sem defeitos podiam oficiar. Aquele com algum defeito estava ritualmente inadequado e como impedir que uma impureza litúrgica fosse entendida como defeito moral?15

O ato de completar a criação que Jesus executa o introduz na sociedade do seu tempo. E a adoração do ex-cego a Jesus, ao final da história, reconhecendo-o, o introduz na nova comunidade que Deus propõe, a ser formada após as morte, ressurreição e ascensão de Jesus.

Por outro lado, o ato de completar a criação que Jesus executa o direciona a um rápido caminho de exclusão. Conduzido aos doutores da Lei para que aquele ato, que não tinha paralelo até então, fosse explicado, ele corajosamente toma parte em um acalorado debate sobre uma segunda questão teológica: sua cura era obra divina?

Os fariseus se dividem: de um lado, um ato maravilhoso, inacreditável – portanto, somente poderia ser divina; do outro, o questionamento se Deus atuaria ao arrepio da Lei, que ordenava o descanso no sábado (e o autor do milagre parecia tê-la violado em dois atos: praticado um ato de cura não emergencial através de barro recentemente feito).

Em poucas horas, o ciclo exclusão / inclusão se repete: excluído pela cegueira congênita, incluído pelo milagre de receber a visão (e não de restaurá-la, porque nunca a tivera), excluído por decisão política da sinagoga, incluído na Igreja por sua confissão.


O preço da unidade farisaica16

Os especialistas na Lei são provocados pela multidão a explicar aquele fato. O primeiro passo na investigação, é ouvir o causador do problema. Como os fatos se sucederam? (9.15). Fora feita lama e aplicada aos olhos, no sábado. Eis a primeira questão: um suposto milagre realizado através da violação da Lei – e, no caso desta lei específica, instituída no ato da criação do mundo, muito antes da outorgada no monte Sinai. Se houve uma violação, há um pecador – pode Deus atuar através de um pecador? (9.16) Há uma divisão em função de um fato que desafia a teologia estabelecida. A vida questiona a teoria.

A dúvida não era sobre o fato de Jesus ser pecador – nisto parece que todos estavam de acordo. A dúvida era se Deus todo santo poderia agir através de um pecador. O que foi feito do restante das Escrituras? Neste momento, a critica de Jesus17 ao sistema ético-teológico dos fariseus de sua época ganha um exemplo prático: o sistema casuístico que deveria protegê?-los de infringir a Lei (e, portanto, desagradar a Deus) a substitui.

Não sendo possível encontrar uma saída teórica, devolvem a questão ao curado: “você, que sofreu a ação, qual é o seu parecer?” (9.17) E ele lhes devolve o problema: “é um profeta”. Sem entrar na disputa teológica, ele assume o caráter miraculoso da cura e sua origem divina.

O próximo passo é questionar o fato (9.18). Os pais são convocados a responder dois quesitos: aquela pessoa era o filho deles nascido cego? Como deixou de sê-lo? Não sendo possível negar a paternidade nem a maternidade, temerosos, respondem afirmativamente à primeira, mas se esquivam da segunda (9.20,21). E por que o fazem? Para não serem excluídos, pois a decisão de expulsar quem conferisse autenticidade divina ao fato fora tomada e parece que era pública (9.22). A unidade restaurada às custas da negação da realidade, da recusa de rever conceitos, do medo de abandonar a zona de conforto.

Restava o teimoso do curado, e para ele é direcionado um ultimato conciliador: “dê a glória do fato a Deus, mas negue a autoridade do agente” (9.24). Honestamente, ele responde não ter condições para falar do agente, que ele apenas conhece pelo nome de Jesus – e não há indicação de algum outro conhecimento. Mantem a única verdade que conhece: “eu era cego, e agora vejo” (9.25).

Concedendo-lhe, talvez didaticamente, uma nova chance, os fariseus requerem novamente um relato dos fatos (9.26). Talvez na expectativa de perceberem algo de demoníaco, ou do ex-cego perceber. No lugar de morder a isca, ou aceitar a sugestão, ele demonstra sua compreensão crescente dos fatos. Talvez por não ser fariseu, o que o liberava da lealdade a um esquema fixo para interpretar a vida e seus fatos. Mas não sem uma compreensão teológica da questão que dividira o grupo. E ele a retoma nos termos deles: o milagre aconteceu → é absolutamente inédito → retoma o ato criador primordial → Deus não opera através de pecadores, mas foi este Jesus que conduziu a história → não há explicação para sua origem → logo, não é possível ser ele pecador (9.30-33).

Mantendo a unidade do grupo, escamoteiam a questão teológica inicial e se refugiam no desafio a autoridade. Expulsam-no após desacreditá-lo, ancorados em uma teoria não unânime: suas palavras não podem ser divinamente inspirada porque ele nascera cego em função dos inúmeros pecados cometidos intraútero. E o fazem comparando-o a eles mesmos, como cheios de retidão (Lc 18.10-14).


Conclusão

O que deve ser enxergado?

Os fariseus que acompanhavam Jesus foram alertados: manter-se cego quando se vê a possibilidade de enxergar, é pecado.

Por extensão, as atitudes embasadas na visão que poderia ser transformada, mas é escolhido não fazê-lo, são pecado.

Foi pecado os fariseus terem negado a questão teológica trazida por um fato novo.

Foi pecado contra o seu próprio sistema os fariseus terem excluído o fraco, no lugar de buscarem compreender o novo fato e reavaliarem seu sistema a partir de uma nova compreensão. Não que fossem obrigados a remodelá-lo, mas a tarefa que puseram sobre seus próprios ombros, um sistema que lhes permitisse sempre descobrir / cumprir a vontade de Deus em todas as situações, os obrigava a um exercício intelectual ao qual se recusaram.


1não há razão para se imaginar que aquela sociedade se comportasse, no tocante à busca de saúde, diferente da nossa atual, usando recursos domésticos e profissionais
2Novo dicionário da bíblia, vocábulo “doença e cura”, vol I, pag 440, 3ª ed, Edições Vida Nova, 1979
6HLE, vocábulo “fariseus”, em JD Douglas O Novo dicionário da bíblia, Edições Vida Nova, vol II, 1979, pg 605.
7Filho, Júlio Melo. Psicossomática hoje. Ed Artes Médicas, Porto Alegre, RS. 1992
8É possível falar de duas multidões. Aquela que andava atrás de Jesus e aquela que estava estática no local onde o cego esmolava. A primeira deve ter acompanhado os atos, mas seguiu com Ele em frente; a segunda, talvez nem tenha tomado conhecimento até o retorno do não mais cego.
9Alison, James. Fé além do ressentimento – fragmentos católicos em voz gay. É Realizações. SP, SP, 2010, pg 36.
10Por outro lado, como bem me lembrou o Rev Jorge Eduardo Diniz, o que deveria estar na mente de todos eram os versos “porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. “ (Ex 20.5)
11Josefo, Flávio. História dos hebreus. Casa Publicadora das Assembleias de Deus, vl 2, pg 154, 1990, RJ, RJ.
13O Rev Jorge Eduardo Diniz corretamente apontou que a resposta de Jesus afasta por completo a possibilidade da reencarnação ser uma possibilidade bíblica
14Alison, op cit, pg 39
15Alison, op cit, pg 38
16Alison, op cit. Pg 42-49
17http://crerpensar.blogspot.com.br/2010/07/jesus-e-os-fariseus-uma-analise-de-um.html

texto atualizado em 15/07/12 com as observações 10 e 13

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Ética da Igreja, como Corpo de Cristo

Eduardo Ribeiro Mundim*

A Igreja é o Corpo de Cristo. Esta metáfora é empregada mais de uma vez nas Escrituras, de forma suficientemente claro para que não ser tomada como um acidente, uma ideia passageira. É uma realidade indiscutível, ainda que não visível, mas revelada pelas Escrituras. E esta é uma das funções das Escrituras: revelar aquilo que não pode ser conhecido pelos meios que dispomos, pela nossa tecnologia, pelos nossos órgãos do sentido, pelo nosso intelecto.

Somos Corpo. O que isto significa? Como isto é possível? Quais os desdobramentos deste fato?

São estas as questões que proponho apresentar a vocês esta noite, usando a epístola de Paulo aos efésios como fio condutor.

Como o Corpo é constituído

Ef 1.4-6: “Porque Deus nos escolhe nEle antes da criação do mundo...em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos.”

O corpo é constituído livre e soberanamente por Deus Pai. É Ele que destina antes da criação do mundo o nosso destino, e o faz única e exclusivamente por amor. Não para o louvor de Sua glória, mas porque sua definição é Amor, ou como um teólogo prefere, Amor Santo.

A quem pede Ele conselho? A ninguém, que eu saiba. Portanto, Ele chama, predestina, escolhe a quem deseja, no momento histórico que deseja, do modo como deseja. Se não é assim, como explicar a lista daqueles a quem Ele chamou para si?
    • os mentirosos e ardilosos patriarcas
    • o assassino Moisés
    • os invejosos e fofoqueiros Arão e Mirian
    • a prostituta Raabe
    • o permanentemente infantil Sansão
    • o adúltero homicida Davi
    • o rebelde Jonas
    • o covarde Pedro
    • o sádico assassino Paulo
    • eu
    • você

Acertadamente o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer escreveu que quando o pecado do meu irmão parece maior que o meu, é porque, na verdade, eu não conheço o tamanho do meu pecado.

A teologia evangélica ensina que não há, na presença do Amor Santo, pecado maior ou menor: mentira, assassínio, rebeldia, covardia, fofoca, sadismo etc, tudo isto é desagradável a Ele, tudo isto nos separa dEle. Mas apesar disto, Ele nos chama. Na Sua presença, quem somos nós para julgarmos o pecado do irmão que está ao nosso lado? Na Sua presença, quem somos nós para avaliarmos nosso pecado como menos ofensivo que o do irmão do lado?

No nosso pecado somos todos iguais, e não há outra atitude possível além daquela exemplificada pela parábola do fariseu e do publicano: “oh Deus, sê propício a mim pecador”.

Porventura nossos belos olhos, ou nossas boas ações, ou nossos bons sonhos, ou qualquer outra coisa ou fato que possamos ter a petulância de considerar bom na presença de Deus foram as razões de sermos escolhidos?

As Escrituras afirmam que Deus deseja que todos sejam salvos (I Tm 2.4) – o que eu tenho, pois, de especial, se Ele almeja o bem de todos?

E na carta aos Efésios, 2.8-9, toda a esperança ou expectativa em algo de bom residente em nós cai por terra: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.

O Corpo é constituído por pessoas que nós não escolhemos, mas Deus Amor Santo é que escolheu. E se fomos escolhidos, isto se deve única e exclusivamente ao fato dEle nos amar apesar de sermos, na sua presença, intrinsecamente maus. E não há um melhor que o outro, ou mais amado que o outro – alguém consegue uma base nas Escrituras para ista ilusão?

Aliás, deveríamos tomar cuidado em desejarmos ser o “queridinho de Papai do Céu”. O que foi mesmo que Ele mandou Seu Filho Amado, em quem se alegrava, fazer?

Talvez estejamos mal acostumados em vermos apenas os mesmos irmãos todo domingo, vestidos com aquelas roupas especiais e certamente estamos nos esquecendo que, enquanto Corpo, temos a função de levar a mensagem de arrependimento e conversão a quem nós não gostamos, a que nos incomoda com suas vestes, ou adereços, ou comportamento escandaloso, ou pelo exercício inesperado da sexualidade, ou pelas suas dificuldades sociais, ou pelo seu odor, ou pelo que faz para garantir seu sustento. E a mensagem deve ser levada não para que este outro que me incomoda se transforme em alguém que me agrade, mas porque Deus Amor Santo espera que nós o façamos, de forma espontânea, como consequência natural da descoberta de sermos perdoados e aceito por Ele.

Fazemos parte do Corpo? Como ter disto certeza?

Ritos externos, como batismo e profissão de fé, nada garantem. Deveriam ser, sempre, evidências exteriores de duas verdades bíblicas. A de que o Espírito de Deus diz ao meu espírito que dele sou filho, e a de que pelos frutos, ou seja, pelo que fazemos e transpiramos, seremos conhecidos como filhos dEle. Uma, evidência interna, que pode ser enganadora, apenas uma certeza psicologicamente construída; outra, evidência externa, que também pode ser enganadora, pois não cristãos têm diversos bons frutos para mostrar. Mas é de suspeitar do cristão que teme o inferno e apresenta frutos podres.

Porque o Corpo é constituído

As duas grandes alianças estabelecidas por Deus com a humanidade, via Israel e via Cristo, compartilham semelhanças, mas têm diferenças importantes. Uma delas é o seu modo de entrada. Na primeira, entrava-se via nascimento natural, sem direito de escolha. Crescia-se e era-se educado dentro da Aliança, não podendo dela se afastar. A identidade do povo de Israel, assim como sua posterior constituição como federação de tribos e monarquia unida, pedia uma adesão universal a ela. Na segunda, entra-se através do novo nascimento, sobrenatural, individual, solitário, não testemunhado, parcialmente subjetivo, anunciado por Jesus ao fariseu Nicodemos em Jo 3: “ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo / nascer de cima”. É uma decisão a ser conscientemente tomada, porque ouvir o chamado de Deus, responder positivamente à eleição realizada em Cristo antes da criação do mundo, implica em dois desdobramentos óbvios:

- Ef 1.4, “porque Deus nos escolhe nEle antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença”. Não é possível desejar a aproximação com o Deus que é Amor Santo sem que se deseje tomá-Lo como exemplo e desafio, com vistas à santificação pessoal.

      - Ef 2.10, “porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos”. Não é somente nossa predestinação em Cristo que antecede nossa própria existência consciente, mas o objetivo de nossa existência consciente como eleitos é “fazermos boas obras”. A Aliança feita pelo sangue de Cristo não visa nosso próprio umbigo, mas o cumprimento da vontade de Deus; ela não se constitui por palavras, mas por ações que necessariamente são boas.

O Corpo é constituído porque era desejo dEle desde a eternidade tornar todos “concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar-se um santuário santo no Senhor. Nele vocês também estão sendo edificados juntos, para se tornarem morada de Deus por seu Espírito” (Ef 2.19-22).

A ética do corpo

Portanto, fazer parte do corpo tem duas grandes dimensões éticas.

A primeira, da relação dos membros do Corpo com o Cabeça, Cristo, e com aquele que o constituiu, Deus Pai: (Ef 4.16) “crescer e edificar-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza sua função”. E isto somente pode ocorrer se (Ef 3.18-19) “estando arraigados e alicerçados em amor, vocês possam, juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus”.

A segunda, da relação dos membros do Corpo uns para com os outros. A metáfora do corpo, ilustração da sua realidade, obriga que os membros trabalhem em sintonia e concordância, cada um em sua função, a seu tempo. Obriga também que cada seja saudável, para que o corpo inteiro o seja. E para isto, atitudes pró-ativas são necessárias. Ef 4.22-24 apresenta verbos na voz ativa, aquela que faz, que assume o ato, e não na passiva, aquela que sofre a ação: “despir-se do velho homem”, “revestir-se do novo homem”. Despir-se do velho homem “que se corrompe por desejos enganosos”, endurecido de coração, insensível, entregue à depravação, sem entendimento das coisas de Deus, em especial da Sua radical santidade e da nossa radical pecaminosidade.

Ef 5.3 ss comanda que ativamente se evite, mesmo que se deseje, a imoralidade sexual, a impureza, a cobiça, as obscenidades, as conversas tolas, os gracejos imorais e inconvenientes. Porque aqueles que não evitam, mas que buscam de forma continuada atitudes semelhantes a estas, “não têm herança no Reino de Cristo e de Deus”, pois a ele não pertencem por não terem, verdadeiramente, “nascido da água e do Espírito”. Porque aqueles a quem o Espírito de Deus testifica que são Seus filhos buscam a bondade, a justiça, a verdade, o que é agradável a Deus, inclusive no trato com as mui humanas e inevitáveis vivências da raiva, das tentações do enriquecimento desonesto (seja roubando o irmão, seja fraudando o imposto de renda) e do palavreado agressivo e ofensivo, da atração pela amargura, gritaria, calúnia.

Para que o Corpo cresça em harmonia não pode haver quem passe fome ou necessidade, tendo todos os membros de se relacionarem com bondade, identificando-se com o outro em suas dificuldades estejam elas onde estiverem (incluindo aquelas áreas tabus), exercitando o perdão mútuo (do contrário, orar para que “perdoe as nossas dívidas como perdoamos aos nossos devedores” passa a ser, na melhor das hipóteses, tentativa de suicídio) – condição inegociável para se participar da Ceia do Senhor.

Enquanto corpo estamos todos no mesmo barco, pois somos pecadores permanentes em busca permanente de santidade, tanto na nossa vida pessoal quanto na nossa vida social. Somos braço efetivo de Deus neste mundo caído, assim como Seu braço efetivo entre nós, para nos curarmos mutuamente e permanentemente, até que o Cabeça do Corpo venha, ou nós nos reunamos com ele em nossa morte.

Que Ele nos ajude.

Amém.



* apresentado no culto vespertino do dia 29/04/12, na Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte