quinta-feira, 30 de abril de 2009

Páscoa: creio na ressurreição dos mortos

Derval Dasilio

Sou crente, sabiam? Mas discuto o que se diz sobre a ressurreição do Senhor, sem conformar-me com o engodo biológico, ou “arqueológico”, que expõe sua ressurreição como parte fossilizada da cruz. As relíquias da crucificação, como o Santo Sudário e os túmulos revirados, de longe nos afastaram do sentido original que os primeiros cristãos experimentaram. Cristo vive, apesar da “re-crucificação” cotidiana e do esforço de religiosos de fossilizar a memória da ressurreição! Não sabendo acolher a vida biológica como dom divino, um dado natural na existência dos seres comuns, cuja mortalidade constitui-se na multiplicação da vida (“Se o grão não morre, não produz frutos!” Jo 12.33), a destruição da vida identifica a ênfase de nosso tempo em diluir as referências da verdadeira Páscoa cristã: ressurreição e vida plena para todos, como sinais de ressurreição pelo perdão e reconciliação com Deus (Cl 3.1-3).

Karl Barth, destacado teólogo protestante, disse que a ressurreição de Cristo, enquanto um processo de destruição da morte, também afirma a vida eterna (“éon”), já experimentada no mundo presente. A ressurreição é um fato que transforma tudo em vida nova e abundante. A Páscoa é a novidade de um novo tempo, um novo mundo, em razão da ressurreição do homem Jesus. Uma nova vida começa, o “guia” vitorioso sobre a morte exemplifica. Cristo vive! Os primeiros cristãos viram não apenas a continuação sobrenatural da vida anterior, mas também uma vida completa, em plenitude, na ressurreição. A própria vida, social ou religiosa, ressurge da morte.

Teilhard Chardin escreveu: "Algum dia, quando tivermos dominado os ventos, as ondas, as marés e a gravidade, utilizaremos as energias do amor. Então, pela segunda vez na história do mundo, o homem descobrirá o fogo". Uma nova consciência do mundo comunicando-se, como o Espírito Santo em Pentecostes, na história humana como evolução do simples para o múltiplo, do particular para o comum, do morto para o vivo, nas formas mais complexas da consciência viva. Mas o sábio e interessantíssimo pensador não chegou a deparar-se com intervenções da bioética, ocorridas décadas depois de sua morte. Nem mesmo pressentiu a descoberta do DNA, quando se desvendou segredos hereditários. Transplantes, clonagem, células tronco, pelos quais é possível corrigir defeitos até recentemente considerados irreversíveis, adiando a morte, são ressuscitações comuns nos nossos dias. Não se referem à ressurreição do corpo, como afirma o Credo cristão. Como associar o corpo com esses fatos?

Com fé no progresso humano, Teilhard não percebe a dubiedade da própria evolução. Enfim, genocídios, e não só dos judeus sob o nazismo, são considerados aqui. Populações indígenas, astecas, incas, maias, guaranis; negros trazidos da África (padecendo sob colonizadores cristãos) foram vítimas de genocídio. Em suas cartas, durante a 1ª Guerra Mundial, Teillard se esforçou por convencer seus amigos abalados por massacres cristãos de irmãos a uma compreensão positiva da guerra: “A guerra é uma contribuição honrosa para a evolução natural”. Não imaginou que evolução também significa “seleção” da espécie humana (Jürgen Moltmann).

Evolução, desse modo, é uma espécie de execução biológica, “sentença do forte sobre o mundo no fraco”, excluindo-se o doente, o faminto, o incapaz, fadados ao desaparecimento. Que mérito existe na alternativa evolutiva? Quando o homem assume esta função, ele chega rápido à “eutanásia” (eliminação de vida indigna, do fraco, deficiente, diferente). Esquecemo-nos do Senhor ressuscitado, tipológica e analogicamente também um fraco e oprimido. O Filho do Homem é um homem que sofre todas as dores. Sem a ressurreição pascal, passamos a desejar o mundo seletivo dos bem-sucedidos e bem-postos na vida. E por que, em seu mundo sem dor, se importariam com a ressurreição?


Derval Dasilio é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1028

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pragmatismo religioso

Michael Horton*

Sabe, porém isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles (II Tim. 3:1-9).

A Inglaterra, que uma vez já foi conhecida pela sua vitalidade espiritual, agora está mergulhada numa letargia espiritual e a visão missionária dos Estados Unidos está substituindo aquilo que a Inglaterra deixou de lado. Além disso, muita coisa do que Deus está fazendo hoje está acontecendo fora desses dois países. Eu espero que a Igreja no Brasil esteja em constante oração para que, a partir do Brasil, uma outra reforma e um grande despertamento venha e tome conta do mundo.

Não sabemos o que Deus vai fazer no mundo, mas seria muito emocionante se pudéssemos fazer parte daquilo que Ele deseja fazer no Brasil. É maravilhoso ser um cristão e saber que Deus tem todas as coisas debaixo do Seu controle. Todos nós sabemos da necessidade de um grande avivamento, mas ao mesmo tempo existe uma grande polêmica nesses dias sobre a questão. Sem sombra de dúvidas, se convidássemos as pessoas para uma reunião de avivamento, muitas delas viriam com conceitos diferentes do que é avivamento. Assim sendo, faz-se necessário ter uma definição clara em nossa mente do significado desse termo. Qual a diferença entre avivamento e avivalismo, se assim podemos chamar?

Avivalismo e Pragmatismo - Avivalismo, especialmente na tradição deixada por Carlos Finney, é, na realidade, um fenômeno americano e queremos tratar de parte desse fenômeno. Não somente porque é um produto feito na América, mas porque muitos dos movimentos que estão vindo dos Estados Unidos para outras partes do mundo têm essa visão característica de entender avivamento segundo o modelo de Carlos Finney.

Esse modelo tem como base o que nós chamamos de pragmatismo. Se você for abrir um negócio você tem que ser pragmático e se você vai criar uma família, existe uma série de considerações práticas que você precisa sempre ter em mente; e, certamente, o mesmo se aplica quando nós estamos fundando uma Igreja e queremos desenvolvê-la.

Todos sabemos que há preocupações práticas que devemos considerar, mas o pragmatismo é uma filosofia que empurra para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão: “Isso funciona?”

Quais os perigos do pragmatismo? Voltando para o texto de II Tim. 3: 1-9, consideraremos primeiramente os aspectos relativos à nossa chamada para o ministério. Vejamos, então, o contexto do nosso ministério. Paulo se refere a esse contexto como sendo o dos “últimos dias”. Sabemos que os “últimos dias” começaram com o tempo dos apóstolos, e terminarão com a segunda vinda do nosso Senhor. Portanto, estamos vivendo nos “últimos dias”, como, também, Timóteo estava vivendo nos “últimos dias”. Qual é o contexto, então, do ministério nesse período entre as duas vindas de Cristo? Paulo diz, em primeiro lugar, que nos últimos dias os homens serão amantes de si mesmos.

Narcisimo e Auto-Estima - Christen Lash, um sociólogo americano bastante conhecido, escreveu um livro sobre a cultura americana cujo título é: “O culto do Narcisismo”. Essa é uma acusação difícil de se fazer, porque o que ela implica é que a cultura americana é uma cultura onde as pessoas se endeusam. E como vocês se lembram “Narciso” é o nome daquele jovem da lenda grega que costumava admirar o seu próprio reflexo no espelho das águas. Mas isso não somente é parte da nossa cultura, como também se tornou parte das nossas igrejas. Muitos dos movimentos que se entitulam “avivados”, em nossos dias, simplesmente estão reavivando o narcisismo, ou seja: a adoração do “eu”. Isso pode ser visto na declaração de um desses pastores que afirmou: “A Reforma errou porque foi centralizada em Deus e não no homem, como devia ser”. Esse pastor escreveu um livro cujo título é: “Crendo no Deus Que Crê em Você”. Uma certa ocasião, trouxemos esse cidadão para falar no nosso programa de rádio. Então eu li essa passagem, onde Paulo diz que as pessoas serão amantes de si mesmas, e perguntei-lhe: “Como você pode dizer às pessoas que a salvação começa com o amor próprio, quando Paulo diz que nos últimos dias as pessoas serão amantes de si mesmas? Não estaria ele dizendo que isso é uma coisa errada, e que nós não devíamos ser amantes de nós mesmos? E como Deus vai nos fazer felizes com esse falso evangelho narcisista?”

O que está acontecendo é que a piedade e a santidade deixaram de ser os referenciais pelos quais julgamos se um movimento é ou não é do Espírito. Assim, o critério que tem sido adotado é: “Funciona? Vai me fazer feliz? Vai me ajudar a criar minha família? Vai consertar o meu casamento?”. Todas essas questões são importantes, à luz das Escrituras, mas não são as mais importantes.

Em segundo lugar, Paulo diz que eles serão amantes do dinheiro. Porque as pessoas amam excessivamente a si mesmas, elas criam o evangelho da auto-estima; e porque as pessoas amam excessivamente o dinheiro, elas criam o evangelho da prosperidade.

Rebeldia, desprezo pelo passado e busca do prazer - Paulo diz ainda que haverá muito orgulho e revolta contra as autoridades. Haverá pessoas desobedientes aos pais. Uma geração não se preocupará com a geração anterior. O cantor Bob Marley escreveu uma música sobre a cultura americana dizendo: “Povo do futuro, onde está o teu passado? Povo do futuro, quanto tempo vocês vão durar?” O povo que não tem passado também não tem futuro. Não sei se Bob Marley era crente, mas com certeza esses versos refletem um ponto de vista bíblico ao tentar se segurar naquilo que pede o seu passado.

Eu quero lhes garantir que se levarem a doutrina bíblica a sério, muitos irmãos e irmãs vão lhes dizer que vocês não estão andando nos passos do Espírito; vão lhes dizer que o Espírito Santo hoje quer fazer uma coisa inteiramente nova, tal como nunca fez no passado. E o que vocês vão falar? Vão falar sobre os grandes avivamentos do passado, sobre a Reforma? Qual o valor disso para os amantes de si mesmos e materialistas? Eles responderão que Deus está fazendo algo completamente diferente nos dias de hoje. Mais uma vez eu quero lembrar que isso faz parte do narcisismo que diz o seguinte: - “eu é que sou importante e aqueles da minha geração é que são importantes e não os que vieram antes de nós”.

E ele diz também que as pessoas serão hedonistas, amantes do prazer, nos últimos dias; como ele diz no verso 4, serão mais “amigos dos prazeres que amigos de Deus”. Mais uma vez queremos enfatizar: Se você perguntar em uma Igreja: “Vocês concordam com o hedonismo?” Creio que ninguém vai responder sim a essa pergunta. Mas se você entrar numa livraria evangélica, se ouvir uma emissora de rádio evangélica, se prestar atenção a muitos sermões evangélicos, você ouvirá mensagens afirmando que o Cristianismo é a melhor maneira para você se auto-realizar. Quantos testemunhos temos visto que funcionam como comerciais de televisão? Nos Estados Unidos, temos aquelas propagandas de dieta que mostram uma pessoa antes e depois da dieta. Muitas vezes, os testemunhos dos crentes são assim: “Antes eu era triste, agora sou feliz; antes eu era deprimido, mas agora eu estou extremamente motivado para viver”. Esses são benefícios maravilhosos, mas, por vezes, a verdade é que nós, como cristãos, nos tornamos tristes. Algumas vezes, o caminho da cruz é o caminho do sofrimento, e nem sempre estamos tão entusiasmados a respeito disso. Apesar de tudo isso, a perspectiva que predomina nos nossos dias é que temos que viver para satisfazer a nós mesmos.

Moralidade sem piedade - No verso 5 do texto destacado, Paulo diz: “tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”. Veja bem! O que Paulo está dizendo é que pode haver uma moralidade sem Deus. Existem pagãos que tem uma vida moral excelente, e há ímpios que acreditam ser errado você trair sua esposa. Há pessoas não cristãs que têm famílias muito boas. Mas será que este é o propósito do cristianismo? Consertar tudo aquilo que está moralmente errado no mundo, ou será que o foco está em Deus, nos Seus mandamentos justos, e no Evangelho pelo qual nós devemos viver?

É esse o contexto do nosso ministério. Então respondamos à pergunta: Qual o nosso chamado para o ministério? O exemplo de Paulo é alguma coisa que temos de imitar nesse sentido. Mas agora perguntamos: Como, historicamente, essa filosofia do pragmatismo dominou o pensamento moderno? A figura mais destacada no cenário evangélico, neste sentido, é a de Carlos Finney. Quantos de vocês já ouviram falar de Carlos Finney? Quase todo mundo. Isso é significante porque Finney é uma pessoa muito importante para aqueles que são proponentes do movimento de crescimento da Igreja e do movimento de sinais e prodígios.

Evangelho ou Pragmatismo? - Carlos Finney era presbiteriano, mas atacou a Confissão de Fé de Westminster que ele próprio subscrevera. Ele a chamou de: “um papa de papel”. Ele dizia, no século XIX em que viveu: “Nós já somos pessoas muito ilustradas e racionais para acreditar em todas essas coisas aí que a Confissão de Fé está dizendo”. Vejam algumas das coisas que Carlos Finney escreveu:

Quando o homem se torna religioso - disse Finney - ele não recebe um poder que não tinha antes, ele simplesmente muda a sua vontade, e resolve seguir, agora, numa direção moral. Religião é obra do homem, não é um milagre e nem depende de um milagre em qualquer sentido; é simplesmente um resultado filosófico do uso correto de técnicas. O homem já possui, por natureza, toda a habilidade necessária para prestar perfeita obediência a Deus, portanto o objetivo do ministro é emocionar as pessoas até que se disponham a tomar essas decisões.

Foi dessa filosofia que nasceu o que ficou chamado naquela época de “novas medidas introduzidas por Finney”. Por exemplo: O sistema de apelo para que as pessoas se manifestem fisicamente e caminhem até à frente em resposta à pregação nasceu com Carlos Finney, nesse período. Em sua Teologia Sistemática, Finney nega explicitamente a doutrina do pecado original. Ele diz ainda que a doutrina da substituição vicária de Cristo é uma ficção, e que a justificação pela graça, por meio da fé somente, é “outro evangelho”. Com certeza, é um evangelho diferente daquele que Finney estava pregando.

É isso que Paulo diz a Timóteo, quando fala de pessoas que têm forma de piedade mas negam, entretanto, o seu poder. Afinal de contas, onde reside o poder da piedade? É o poder de Deus para a salvação! E que poder é esse? É o evangelho de Jesus Cristo! Somente o Evangelho pode nos capacitar a viver a vida cristã. Portanto, é possível ter moralidade sem piedade; e esse é o resultado do pragmatismo.

Mais tarde, tornou-se conhecida a idéia de D.L. Moody. Ele disse no século XIX que não faz nenhuma diferença como você leva alguém a Deus; se você conseguir fazer isso, não importa o meio. O importante é levar, de qualquer maneira, a Deus.

Uma vez perguntaram a Moody: Qual é a sua teologia? Ele disse: “Minha teologia? nem sei se eu tenho uma!”. Vejam bem! Moody era um vendedor de sapatos, e um dia ele disse que ao se tornar evangelista não mudou de profissão, o que ele havia feito era trocado de produto.

Como abordamos o pragmatismo corporativo da nossa cultura? Alguns dizem que a contribuição distinta da América para a história da filosofia foi a criação do pragmatismo. Um dos grandes pais do pragmatismo e quem o transferiu da esfera religiosa para a esfera secular foi William James. Ele era filho de pastor; pastor, ele próprio, e também professor da Universidade de Harward. Ele disse: “Faça a seguinte pergunta: Como é que você define que determinada verdade é o que você deve crer?” E acrescentou: “A resposta é que você tem que determinar o seu valor em termos de experiência e resultado”. Então, com princípios pragmáticos, analisou a doutrina de Deus dizendo o seguinte: “Se a doutrina de Deus funciona, então é verdade. O pragmatismo tem que adiar questões dogmáticas porque no começo nós não sabemos qual reivindicação doutrinária vai produzir resultado”.

Acredito que quase ninguém iria marcar essas coisas num exame tipo teste dizendo que acredita nelas, mas, na prática, o que acontece é que esse é o credo do evangelicalismo mundial hoje. Um evangelista americano famoso disse: “Não tente entender, simplesmente comece a desfrutar, porque funciona; eu já tentei”. Ele estava falando a respeito da meditação transcendental da Nova Era. Na década de 50 do nosso século, esse pragmatismo se desenvolveu em termos de pensamento positivo. Foi então publicado um livro chamado “A Mágica do Crer”. Esse livro propõe que há uma certa qualidade mágica no simples ato de crer. Porém, a verdade é outra. No cristianismo, o que salva não é o ato da fé, mas sim o objeto da fé. Nós não somos salvos pela fé, não somos justificados pela fé; nós somos justificados pela justiça de Cristo que nos é imputada. Mas hoje em dia, desenvolveram essa equação de que fé é igual a pensamento positivo. Na realidade, essa última frase que mencionei foi uma citação de Peter Wagner.

Deus como objeto de consumo - Muito bem! Esses conceitos funcionam numa sociedade materialista, que está satisfeita e centralizada no ego; pode funcionar muito bem na América do final do século XX, pode ser até que funcione em São Paulo também, e pode funcionar em Londres. Mas imagine o seguinte quadro: Você vai a um cristão do século I e diz a ele que a razão principal pela qual ele está indo para a boca dos leões é porque o Cristianismo funcionou melhor do que as outras religiões!

Os testemunhos que temos no Novo Testamento são muito diferentes dos testemunhos que nós vemos hoje em dia. No Novo Testamento temos a palavra de testemunhas oculares, que é muito mais importante que o nosso próprio testemunho. O que é que Paulo disse em I Cor. 15? Ele disse: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e é vã a vossa fé... Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”. Ele não diz “pelo menos vocês têm uma vida feliz e saudável!”. E ele também não está dizendo “Bem! o que é que você pode perder?” Por que Paulo não fez isso? porque ele não era um pragmático. Paulo fundamentava todas as reivindicações da fé cristã no Evangelho verdadeiro.

Temos que nos perguntar: “Será que não estamos usando a Deus? Será que, finalmente, não embarcamos nesse consumismo da nossa sociedade? Será que não estamos tratando a Deus como tratamos um produto?” São perguntas muito importantes que devem ser feitas a nós mesmos. “Será que Deus está nos usando ou nós estamos usando a Deus?”

Reavivamento e Reforma não virão à Igreja até que a mentalidade dos crentes seja desviada desse egoísmo humano, da centralização no homem que Paulo descreve, para o verdadeiro Evangelho e para Deus.

Nos Estados Unidos, temos um adesivo que diz: “Jesus é a resposta”. Os incrédulos fizeram um outro adesivo para retrucar a esse: “Qual é a pergunta?” Considere, agora, o que diz o pragmatismo: “Eu não sei qual é o seu problema, mas qualquer que seja, Deus pode resolver. O seu carro está enguiçado? A sua vida familiar não está progredindo como devia? Deus pode consertar em um piscar de olhos!”. Assim, passamos a consumir a Deus. Nós usamos a Deus, ao invés de amá-Lo, servi-Lo e honrá-Lo.

Muito bem! Então qual é o propósito do nosso ministério? Vejamos o que diz Paulo:

Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, procedimento, propósito, fé longanimidade, amor, perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, quais me aconteceram em Antioquia, Icônio e Listra, - que variadas perseguições tenho suportado! De todas, entretanto, me livrou o Senhor. Ora todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção para a educação na justiça. a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, que não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as cousas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério (II Tim. 3:10-4:5)

O modelo apostólico - Em primeiro lugar, o propósito do nosso ministério é seguir o modelo apostólico. Paulo menciona aqui o seu ensino, a sua maneira de viver, o seu propósito, a sua fé, a sua paciência, o seu amor, e a sua perseverança diante das tribulações. Perseguições? Sim! É o que ele diz no verso 12. Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Será que é isso o que estamos ouvindo hoje? Ou será que estamos ouvindo outra mensagem? Algumas vezes você vai pensar que não está dando certo, que as coisas não estão funcionando como deveriam, como lemos em Romanos, capítulo 7. Nós sofreremos como cristãos, e ainda vamos sofrer com os nossos pecados.

A proclamação da Lei e do Evangelho - Além de seguir o seu exemplo, Paulo quer que Timóteo também se firme naquelas verdades que aprendeu quando era jovem. Veja que Paulo, ao invés de nos levar à questão do pragmatismo: “Será que funciona?”, ele nos conduz para as Escrituras. Ele diz: “prega a Palavra”, com muita paciência instruindo as pessoas. Porque haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina. Ao contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como quem sente coceira nos ouvidos (4:3).

Vejam! sempre temos coceira nos ouvidos. Pragmatismo não é uma coisa nova. Na realidade já foi praticado desde o jardim do Éden. Quando Eva viu que a árvore era agradável para se ver, para descobrir o conhecimento e desejável para trazer entendimento; então ela tomou do fruto e comeu. O que significa para nós “pregar a Palavra”? O que Paulo quer dizer no verso 5 “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de evangelista”?. O que ele quer dizer com isso, “pregar a Palavra”? Vez após vez, Paulo e os demais escritores bíblicos nos dizem que isso é a proclamação da lei. Na verdade, é pela proclamação da lei santa de Deus que nós somos tocados e feridos. A lei de Deus vem até nós e ela não vem dizendo assim: “Eu vou transformar a tua vida numa vida feliz!”, ela não vem dizendo: “Vou te dar prosperidade!”. Na realidade, a lei vem para nos dizer exatamente aquilo que Deus tem dito que requer de nós. A lei nos confronta com a glória de Deus e a nossa pecaminosidade torna isso aterrorizante!

Finalmente, o Evangelho vem e causa também impressão em nós. Há uma Igreja no Estado do Arizona, cujo pastor, numa entrevista que foi publicada na revista Newsweek, disse: “As pessoas hoje em dia não estão preocupadas com doutrinas como justificação, salvação ou expiação. Nos dias de hoje, ninguém entende esses termos. O que nós precisamos fazer é atender as necessidades das pessoas!”

Imaginem um professor! Vocês não acham que seria muito estranho se o professor chegasse dizendo assim: “Não posso ensinar o alfabeto para esta criança porque ela ainda não sabe português”. Esse é o tipo de argumento que esse pastor estava apresentando. Tanto que o que hoje se passa com o nome de pregação, na realidade, não é pregação da Palavra. Porque não apresenta nem a Lei nem o Evangelho. Esses pastores começam decidindo o que é que as pessoas de sua igreja desejam ouvir. Quais são os pontos que estão em moda hoje? Quais são as necessidades das pessoas dos dias de hoje? E aí, então, eles vão às Escrituras e procuram e acham passagens que podem ser usadas para apoiar essa necessidade, ao invés de, indo ao texto, perguntarem primeiro como a santidade de Deus nos convence do nosso pecado e como o Evangelho de Cristo pode ser tão claro que até pecadores como nós podem se arrepender e crer.

Mas vocês, irmãos e irmãs, ouçam o que Paulo diz, sejam sóbrios em todas essas coisas, preguem a palavra, suportem as aflições, façam o trabalho de evangelista, e cumpram cabalmente o ministério.

* Palestra apresentada no V Simpósio “Os Puritanos”, realizado em Águas de Lindóia, SP, de 10 a 14 de junho de 1996. O autor é professor no Seminário Reformado em Orlando, Flórida (USA), fundador e presidente do movimento “Cristãos Unidos pela Reforma”, na Califórnia, e autor de diversos livros.

(Publicado em O Presbiteriano Conservador na edição de Maio/Junho de 1997)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Escândalos, políticos e sociedade II

Eduardo Ribeiro Mundim

A Folha de São Paulo do dia 26 de março trouxe alguns dados a mais sobre este tema. O primeiro, a remuneração dos deputados e senadores; o segundo, a curiosa relação ética entre os que mais gastaram com passagens, que reforça a hipótese do texto anterior (eles admitem terem um direito natural, inerente ao cargo); o terceiro, o alerta fundamental de um autor norte-americano.

Salário de senador: R$16.512,09
Salário de deputado federal: R$16.512,09
Cota aérea senadores: R$13.000,00 a 25.000,00 (5 passagens ida e volta para o estado de origem por mês)
Cota aérea deputados federais: R$4.700,00 a 18.700,00 (bilhetes nacionais ou internacionais para deputados ou assessores)
Auxílio moradia mensal senadores: R$3.800,00
Auxílio moradia mensal deputados federais: R$3.000,00
Verba indenizatória mensal senadores: R$15.000,00
Verba indenizatória mensal deputados federais: R$15.000,00
Cota postal e telefônica mensal senadores: R$4.000,00 a R$60.000,00
Cota postal e telefônica mensal deputados federais: R$4.268,55
(Folha de São Paulo, página A4 - disponível na internete para assinantes)

Elio Gaspari, na sua coluna à página A9, no texto "Air Viúva, a preferida dos milionários", informa que os cinco deputados que mais viajaram - 167 passagens ao todo (só não informou o periodo) - são todos milionários.

Carlos Eduardo Lins da Silva, atual ombudsman do jornal, à página A6, no texto "Jornalismo não rima com deboche", cita John B Thompson, autor do livro "O Escândalo Político": "a cultura do escândalo político dificilmente facilitará a tarefa de criar uma forma de democracia mais forte e inclusiva". Carlos Eduardo critica o jornal pelo tom moralista e debochado da cobertuda dos escândalos, lembrando que desta forma aquele veículo não colabora no aprimoramento da democracia.

Levando a adverdtência a sério, reproduzo idéias sobre como os políticos profissionais cristãos deveriam operar:
1. abrindo mão da reeleição como tarefa a ser cumprida
2. abrindo mão da recompensa aos eleitores ou cabos eleitorais
3. mantendo um grupo de pensamento crítico e avaliação criteriosa do seu desempenho parlamentar, desconectado do dia a dia de Brasília
4. mantendo um grupo de intercessão e apoio pastoral permanente, para si e para sua família
5. ....

O restante da lista está por sua conta.

domingo, 26 de abril de 2009

Escândalos, políticos e sociedade

Eduardo Ribeiro Mundim

Os escândalos políticos se sucedem no cenário brasileiro. Pouco provável que exista país sem eles, já que o ser humano é o mesmo em todos os lugares. A pergunta que faço, no cardápio disponível: o que podemos aprender com eles?

Diz um provérbio popular que "o uso do cachimbo faz a boca torta" - o uso do dinheiro público faz o gestor sentir-se dono. O núcleo da questão atual é a definição do que é direito do político, em função do cargo que exerce, e do que extrapola esse direito.

Que "todo trabalhador é digno do seu salário" é algo que não se discute. Questiona-se o valor do salário, a atribuição de valor monetário justo a uma determinada atividade, a disparidade salarial vigente e a consequente desigualdade social, reconhecida como uma das maiores do mundo – se não a maior.

Qual é o salário justo de um político profissional? Porque existem políticos amadores, que não fazem da atividade seu meio de vida: os eleitores. Como atribuir um valor monetário justo? Qual vale mais, é mais útil, é essencial para a sociedade? O lixeiro? O açougueiro? O agricultor? O professor? O militar? O médico?... Nem sempre o tempo de estudo é recompensado adequadamente (os professores que o digam), a insalubridade coberta (como diriam os lixeiros), os riscos compensados (como as famílias dos policiais percebem). A lógica que rege esta escolha é complexa, e passa pelo grau de escolaridade e pela comparação entre diversas atividades profissionais.

O que deve o salário cobrir? A subsistência, a saúde, o progresso familiar e o lazer.

Os políticos profissionais têm um salário que é incomum na nossa sociedade brasileira. O seu valor os coloca na elite econômica, o que implica terem condições excepcionais, em relação aos demais assalariados, de satisfazerem os quatro pontos acima citados.

São funcionários públicos diferenciados – os únicos que dependem do voto para ocuparem uma vaga por, na maioria das vezes, quatro anos. O salário e o emprego saem diretamente do bolso e da vontade do eleitor. Contrariamente aos empregos ordinários, onde o patrão pede contas ao empregado, eles habitualmente não prestam contas. Fica o eleitor encarregado de acompanhar sua atividade (legislativa e executiva), caso deseje alguma satisfação.

Qual funcionário recebe percentual extra para custear sua moradia e sua alimentação? Afinal, salário existe para isto. Qual empregado tem assessoria livremente por ele escolhida paga pelo patrão? Afinal, em todas as empresas supõe-se a lealdade dos funcionários independente do gerente do plantão.

Analisando pelo prisma ético, como fica a igualdade de condições entre o político empregado e aquele que vai lhe disputar o cargo, se o patrão paga ao primeiro para que mantenha contato com seus eleitores (o que significa a possibilidade de conseguir favores – uma das poucas "avaliações" da atividade política empregada) e o segundo começa do nada?

São eleitos por nós para, em nosso nome, escolherem projetos, planejarem o desenvolvimento, patrocinarem a justiça social, em suma, a melhoria para todos em todos os lugares. Para isto, tem acesso ao nosso bolso.

Uma das trágicas lições do atual escândalo (qual será o primeiro evangélico denunciado?) é que os parlamentares federais têm como direito seu uma séries de benefícios que outros trabalhadores não dispõe e nunca os receberão! E são eles que, em nosso nome, afirmam terem direito natural a passagens aéreas para onde quiserem, com quem quiserem, para o que quiserem, somado ao de fazerem o que quiserem com elas. Habituados a verem o cofre permanentemente, passaram a considerar direito seus privilégios inacessíveis aos seus concidadãos, mas não mais iguais.

Enquanto patronos, por dever de ofício, da igualdade social, eles falham; enquanto promotores da justiça social, por dever de ofício, dão péssimo exemplo; enquanto planejadores de nossa sociedade, por vocação inerente a função, dão provas de incompetência. Insensíveis ao clamor geral, à perversa desigualdade brasileira, a origem de sua função e do seu salário, debocham dos milhões de miseráveis e pobres da nação. Consciências anestesiadas, regidas por uma moral estranha ao restante da nação, antibíblica e demoníaca, só lhes resta desocuparem o cargo maculado para uma geração verdadeiramente vocacionada. Não por causa do atual escândalo, mas pela somatória ao longo dos anos.

sábado, 25 de abril de 2009

Carta a um pastor gay

Caro amigo Severino Augusto,

Fiquei muito feliz em reencontrá-lo domingo passado no aeroporto. Assim é a vida, cheia de encontros e desencontros. Há muito tempo que venho procurando através de amigos comuns saber notícias suas, pois você havia sumido do cenário nacional.

Como prometido, estou enviando-lhe aqui o nome do cientista que revolucionou a pesquisa sobre a sexualidade: Alfred Kinsey. E como você me pediu, vou agora expressar o que eu penso disso tudo.

Primeiramente, desculpe-me não ter te respondido prontamente naquela tarde, olhando em sua face, mas precisei gastar algum tempo não só orando, mas refletindo bem sobre o quadro. Tomei tempo também para ler e reler algo sobre o assunto.

Sua situação mexeu muito comigo. Depois de nosso bate papo, enquanto você voava para os Estados Unidos e eu esperava meu vôo para Alemanha fiquei lembrando-me de nossa época de escola. Certa vez você me confidenciara sua primeira(?) experiência homossexual, com um tom de arrependimento e remorso. Nem passava pela minha cabeça que você poderia estar ainda tão envolvido assim nesse tipo de crise. Agradeço-te por ter sido mais uma vez alvo de sua confiança. Alerto-te, todavia, que serei bem franco contigo, coisa que nossa boa e velha amizade não só permite, mas exige.

Sempre estranhei suas constantes investidas atacando o movimento homossexual ou a homossexualidade em si. A princípio pensava que era só um cumprimento da pauta do momento, da agenda evangelical conservadora. Afinal você se tornou um líder evangélico de destaque no Brasil. Mas depois tudo me pareceu muito exagerado.

Também aquele seu medo da solidão, que lhe forçava buscar companhias de rapazes, poderia ter sido tratado de forma mais franca e aberta e não ser sempre camuflado em nome de um suposto discipulado.

Ao contrário do que você me alegou, que foi tudo ataque do maligno para destruir seu ministério, creio que você mesmo foi quem se enveredou por caminhos que não deveria. E não digo isso em relação à homossexualidade propriamente dita, pois você mesmo sabe que não pode mudar muita coisa quanto a isso. Mas sua exposição pública tornou-se por demais obsessiva. O acúmulo de funções chaves e o uso exagerado do discurso moralista poderiam ter sido evitados. Você foi forçado a assumir uma personalidade muito diferente daquele Severino Augusto que conheci antigamente.

Não é de se admirar que você se sinta agora perseguido e que o rapaz de programa esteja lhe chantageado. Se você não estivesse em evidência tudo passaria despercebido pela sociedade. Você teria claro, ainda que lidar com o drama de consciência, mas não com esses inconvenientes de maior vulto e conseqüências mais drásticas. Lembre-se que Davi preferiu cair nas mãos de Deus do que nas de seus inimigos?

Como você me perguntou, lhe responderei: o "sair do armário" como um gay, poderia, de fato, liberá-lo do segredo que você mantém com tamanha angústia. Mas francamente falando, acho pura bobeira qualquer confissão pública de sua identidade. Isso de fato não edificaria ninguém e só atingiria seu ministério.

O seu desejo freqüente de continuar publicamente como um pastor e prossegir, secretamente, desenvolvendo um relacionamento homossexual só agravará mais ainda sua angústia e medos. Sei que é muito duro constatar que não se tem muitas opções, a não ser, por continuar vivendo com sua ferida. Afinal você mesmo sempre procurou a orientação sobre imoralidade sexual na Bíblia e em sua Denominação.

Penso que seu ministério não chegou ao fim. Ele talvez não tenha o vulto e o alcance que você ambicione agora. Entretanto você pode ainda ajudar muito as pessoas. Mas agora é o tempo no qual você precisa de ajuda! Aproveite seu relativo anonimato no exterior e busque auxílio num centro que trabalha com mulheres e homens homossexuais.

Imagino que seu desejo homossexual (reprimido) possa ser redirecionado para melhor compreensão da intimidade, da marginalidade, do amor e da posse (coisas tais que nem todos têm a precisada sensibilidade), mas nunca o direcione novamente para a condenação de seus semelhantes.

Desejo-te um bom recomeço em terras estrangeiras. Aguardo sua resposta e conte comigo.

Fraternalmente,
Roger

(Embora o nome seja fictício qualquer semelhança com fatos reais não seria mera coincidência).

teologia-livre.blogspot.com

reproduzido de http://www.ultimato.com.br/?pg=mural&local=mural_show&util=1&registro=1630

O ABSURDO E A GRACA: BARRIGA É BARRIGA...

O ABSURDO E A GRACA: BARRIGA É BARRIGA...

obrigado pela crônica divertida

talvez mereça um pôster no consultório

abraços

eduardo

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Indígenas pelo infanticídio

Eduardo Ribeiro Mundim

Notícia veiculada pelo portal Cristianismo Hoje, em 21 de abril, mostra que a luta contra o infanticídio traz novos questionamentos. Sob o título "Indigenas acusam organizações evangélicas" a redação informa que lideranças indígenas do Mato Grosso e Pará (respectivamente as nações Yawalapiti e Kayapó) foram à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados acusar a Atni e Jocum de sequestrarem crianças indígenas. Este se daria através de adoções ilegais, contrárias à cultura desses povos. O projeto de lei do deputado Henrique Afonso, que busca cercear a liberdade da prática do infanticídio também foi por eles criticado e solicitada sua retirada de tramitação.

A Atni e a Jocum rechaçaram a acusação, informando que as crianças atualmente hospedadas por elas em Brasília estão acompanhadas pelas mães.

A notícia trouxe-me a seguinte questão: pode a comunidade obrigar um dos seus membros a praticar algo contrário a sua consciência? Seus membros são obrigados a acatar a decisão da maioria em questões pessoais?

Parece que o debate sobre o infanticídio indígena saiu definitivamente da discussão bioética para a luta política entre grupos distintos, todos envolvidos com a comunidade indígena, buscando sua proteção segundo pontos de vista distintos e antagônicos.

Mas a questão não se cala porque transferida para a arena política: pode a comunidade obrigar seus membros a eliminarem crianças doentes para as quais há tratamento (assassinato?), ou doentes para as quais não há cura (eutanásia?), ou a filhos de mães solteiras ou adúlteras, ou a crianças "amaldiçoadas"?

terça-feira, 21 de abril de 2009

Bioética e Fé Cristã, número 1 ano IV

Editorial

Caminhamos para nosso quarto ano. Foram três anos de aprendizado e esperança.

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DISCERNIMENTO ÉTICO – Uma Perspectiva Evangélica de Confissão Luterana

Como chegar a discernimentos éticos responsáveis? Trata-se de pergunta crucial nesses tempos em que a capacidade de distinguir entre bem e mal, direito e dever está definhada.
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POSICIONAMENTO DA IECLB SOBRE BIOÉTICA

A fé cristã entende a vida a partir da ação criadora de Deus.
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ÉTICA, GENÉTICA E PEDIATRIA

Em primeiro lugar, é necessário que delimitemos o que, neste contexto, entendemos por ética.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ante la crisis eclesial

O texto abaixo diz respeito à Igreja Católica Romana. Contudo, acredito que todas as Igrejas cristãs, enquanto instituições, se vejam na crítica, razão pela qual a transcrevo.


Somos conscientes de que este escrito es un procedimiento extraordinario, pero nos parece que también es extraordinaria la causa que lo motiva: la pérdida de credibilidad de la institución católica que, en buena parte, es justificada y que los medios de comunicación han convertido ya en oficial, está alcanzando cotas preocupantes. Este descrédito puede servir de excusa a muchos que no quieren creer, pero es también causa de dolor y desconcierto para muchos creyentes. A ellos nos dirigimos principalmente.

1.- La Iglesia fue definida desde antiguo como santa y pecadora, “casta prostituta”. Crisis graves no han faltado nunca en su historia, y la actual puede dolernos pero no sorprendernos. Toda crisis es siempre una oportunidad de crecimiento, si sabemos en estos momentos “no avergonzarnos del Evangelio” y amar a nuestra madre. Sabiendo que el amor a una madre enferma no consiste en negar o disimular su enfermedad sino en sufrir con ella y por ella. Si deseamos una Iglesia mejor no es para militar en el club de los mejores, sino porque el evangelio de Dios en Jesucristo se la merece.

2.- No hay aquí espacio para largos análisis, pero parece claro que la causa principal de la crisis es la infidelidad al Vaticano II y el miedo ante las reformas que exigía a la Iglesia. Ya durante el Concilio se hicieron durísimas críticas a la curia romana. Más tarde Pablo VI intentó poner en marcha una reforma de esa curia, que ésta misma bloqueó. Es muy fácil después convertir a un papa concreto en cabeza de turco de los fallos de la Curia.

Por eso preferimos expresar desde aquí nuestra solidaridad con Benedicto XVI, a nivel personal y a pesar de las diferencias que puedan existir a niveles ideológicos: porque sabemos que los papas no son más que pobres hombres como todos nosotros, que no deben ser divinizados. Y que si algún error grave se cometió en todos los pontificados anteriores fue precisamente el dejar bloqueada esa urgente reforma del entorno papal.

3.- Una de las consecuencias de ese bloqueo es el injusto poder de la curia romana sobre el colegio episcopal, que deriva en una serie de nombramientos de obispos al margen de las iglesias locales, y que busca no los pastores que cada iglesia necesita, sino peones fieles que defiendan los intereses del poder central y no los del pueblo de Dios.

Ello tiene dos consecuencias cada vez más perceptibles: una es la doble actitud de mano tendida hacia posturas lindantes con la extrema derecha autoritaria (aunque sean infieles al evangelio e incluso ateas), y de golpes inmisericordes contra todas las posturas afines a la libertad evangélica, a la fraternidad cristiana y a la igualdad entre todos los hijos e hijas de Dios, tan clamorosamente negada hoy.

Otra consecuencia es la incapacidad para escuchar, que hace que la institución esté cometiendo ridículos mayores que los del caso Galileo (pues éste, aunque tenía razón en su intuición sobre el movimiento de los astros, no la tenía en sus argumentos; mientras que hoy la ciencia parece suministrar datos que la Curia prefiere desconocer: por ejemplo en problemas referentes al inicio y al fin de la vida). La proclamada síntesis entre fe y razón se ve así puesta en entredicho.

4.- Pero más allá de los diagnósticos, quisiéramos ayudar a actitudes de fe animosa y paciente para estas horas negras del catolicismo romano. Dios es más grande que la institución eclesial, y la alegría que brota del Evangelio capacita hasta para cargar con esos pesos muertos. No vamos a romper con la Iglesia, ni aunque hayamos de soportar las iras de parte de su jerarquía. Pero tememos la lección que nos dejó la historia: las dos veces en que el clamor por una reforma de la Iglesia fue universal y desoído por Roma, están relacionadas con las dos grandes rupturas del cristianismo: la de Focio y la de Lutero.

Ello no significa que la ruptura fuese legítima: sólo queremos decir que no pueden tensarse las cuerdas demasiado. Tampoco vamos a romper, porque la Iglesia a la que amamos es mucho más que la curia romana: sabemos bien que apenas hay infiernos en esta tierra donde no destaque la presencia callada de misioneros, o de cristianos que dan al mundo el verdadero rostro de la Iglesia.

5.- Durante gran parte de su historia, la Iglesia fue una plataforma de palabra libre. Hoy nadie creerá que un santo tan amable como Antonio de Padua pudiera predicar públicamente que mientras Cristo había dicho “apacienta mis ovejas”, los obispos de su época se dedicaban a ordeñarlas o trasquilarlas. Ni que el místico san Bernardo escribiera al papa que no parecía sucesor de Pedro sino de Constantino, para seguir peguntando: “¿hacían eso san Pedro o San Pablo? Pero ya ves cómo se pone a hervir el celo de los eclesiásticos para defender su dignidad”.

Y terminar diciendo: “se indignan contra mí y me mandan cerrar la boca diciendo que un monje no tiene por qué juzgar a los obispos. Más preferiría cerrar los ojos para no ver lo que veo”… Precisamente comentando este tipo de palabras, escribía en 1962 el papa actual (en un artículo titulado “libertad de espíritu y obediencia”): “¿es señal de que han mejorado los tiempos si los teólogos de hoy no se atreven a hablar de esa forma? ¿O es una señal de que ha disminuido el amor, que se ha vuelto apático y ya no se atreve a correr el riesgo del dolor por la amada y para ella?”.
Así quisiéramos hablar: no nos sentimos superiores, pues conocemos bien, en nosotros mismos, cuál es la hondura del pecado humano.

La Escritura, hablando de los grandes profetas, enseña que su destino no es el protagonismo sino la incomprensión; y ante eso nos obligan las palabras del apóstol Pablo: “si nos ultrajan bendeciremos, si nos persiguen aguantaremos, si nos difaman rogaremos”. Pero nos sentimos llamados a gritar porque también hay allí una imprecación impresionante que tememos tenga aplicación a nuestro momento actual: “¡por vuestra causa es blasfemado el nombre de Dios entre las gentes!”.

“Fijos los ojos en Jesús, autor y consumador de la fe” sabemos que podemos superar estos momentos duros sin perder la paciencia ni el buen humor ni el amor hacia todos, incluidos aquellos cuyo gobierno pastoral nos sentimos obligados a criticar. Este es el testimonio que quisiéramos dar con estas líneas.

Juan Antonio Estrada, Imanol Zubero y las firmas que siguen:

fonte: http://www.redescristianas.net/2009/04/09/ante-la-crisis-eclesialjuan-antonio-estrada-imanol-zubero-y-290-firmas-mas/

domingo, 19 de abril de 2009

Hermenêutica com (mais) propósito: interpretação bíblica para hoje

Karl Heinz Kienitz

Hermenêutica1 é uma disciplina muito abrangente, relevante em áreas tão diversas como a teologia e a inteligência artificial. Uma parte da hermenêutica tradicional, a hermenêutica da Bíblia, é especialmente importante também para a coexistência produtiva de fé cristã e ciência. Uma interpretação do texto bíblico, seguindo por exemplo os padrões dos grandes reformadores, provê sólido fundamento cristão para a atividade científica, um fundamento, aliás, que nucleou a revolução científica ocidental2.

No entanto, grande parte da atual prática de interpretação bíblica tem se desviado daquela dos principais reformadores, que não foram dispensacionalistas, pré-milenaristas, pré-tribulacionistas etc. Foram simplesmente cristocêntricos, literais e históricos.

Adotamos o método literal e histórico de interpretação, sim, e vemos com restrições uma interpretação devocional da Bíblia ao estilo do pietismo, que rotulamos de “subjetiva”. Por outro lado, nosso meio é solo fértil para vertentes triunfalistas com típicas inconsistências pós-modernas, pois falhamos na interpretação capaz de alimentar uma vida cristã prática. Falhamos em compatibilizar rigor histórico-literal com propósito devocional. Um exemplo encontra-se nas tão debatidas interpretações dos primeiros capítulos da Bíblia e de passagens escatológicas, em que prazerosamente articulamos complexas especulações sobre o passado e o futuro. Ali atolamos, às vezes em meio a conflitos com a ciência, e, o que é pior, sem obter algo de valor devocional, valor que muitos passam a buscar, com “muita fé”, num inconsistente experiencialismo triunfalista, em “fogo estranho”.

É como se a nós se aplicasse a quarta estrofe da Canção da Noite (“Abendlied”), um dos mais conhecidos poemas da literatura alemã, escrito por Matthias Claudius (1740-1815):

Nós humanos orgulhosos
e pecadores vaidosos
não sabemos muito.
Tecemos teias de ar,
buscamos muitas artes
e do destino continuamos a nos afastar.

Que hermenêutica proveria o foco adequado hoje? Considerando especificamente as passagens proféticas, uma possibilidade é o retorno ao enfoque pietista, que não renega o método literal e histórico, mas enfatiza a esperança (e não os detalhes) da segunda vinda de Jesus, proporcionando assim um poderoso eixo motivador para uma vida cristã prática e dinâmica.

Enfoque semelhante para o contexto geral é apontado por Menno Simons (1496-1562), num texto em que luta pela interpretação de passagens bíblicas sobre a encarnação. Menno percebe que sua formulação ficou rebuscada, de pouco valor prático. Diante do problema diz: “Certamente reconheço haver muito poucos que podem compreender corretamente este assunto, mesmo após ouvir sua exposição precisa. Por isto sou do parecer para mim e todos os professores que é melhor ensinar o assunto […] aos membros da congregação de forma simples e apostólica visando edificação, amor, consolo, santificação e levando-os a seguir a santa doutrina e a vida de Jesus. Queira Deus dar a todos este mesmo sentimento. No entanto, se houver alguém que deseja conhecimento mais profundo, e se lhe for útil e seu entendimento suficiente, então não lhe será escondido; caso contrário ser-lhe-á dito: 'Aplica-te àquilo que te é acessível e não te ocupes com coisas misteriosas. (Eclesiástico 3.22)’” 3,4

Portanto a resposta parece estar numa interpretação e aplicação motivadas pelo propósito de proporcionar edificação, amor, consolo, santificação, pelo desejo de seguir a doutrina e vida de Jesus (e não de algum teólogo) e levar outros a fazer o mesmo.

Fico surpreso com a riqueza das lições que podem ser aprendidas com os reformadores e seus sucessores mais próximos. Há ali potencial para um potente antídoto contra o inconsistente pós-modernismo evangélico, que se deleita com posições intelectualmente sutis e sofisticadas, tem problemas com a ciência e flerta com um experiencialismo inconsistente.


Notas
1. Hermenêutica é o conjunto de princípios, leis e métodos de interpretação, e sua aplicação.
2. L. Haarsma - "Cristianismo como um fundamento para a ciência", disponível em www.freewebs.com/kienitz/Haarsma_pt.pdf
3. Menno Simon – Vollständige Werke (Obras completas), parte 2, pg. 468, Pathway Publishers, 1971.(disponível no Google Books em books.google.com/books?id=c2o0L5Dyv5YC&hl=de). O grifo é meu.
4. Nesta citação Menno usa uma passagem apócrifa, não como palavra de Deus, mas como texto de sabedoria. Ele, Lutero e outros consideravam os apócrifos “livros que não são considerados iguais às Sagradas Escrituras, mas mesmo assim de leitura boa e proveitosa” (Lutero); chegaram até mesmo a pregar sobre eles.


Karl Heinz Kienitz é doutor em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, em 1990, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. (www.freewebs.com/kienitz)

fonte:http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=5&registro=1019

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Da Mediunidade Protestante

Robinson Cavalcanti

Quando tive a honra de ser professor do Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), no Recife, conheci um aluno que nos dias de semana passava a tarde dormindo ou jogando futebol na quadra, enquanto deveria pregar nas congregações. O mesmo era conhecido por se pretender "espiritual" e "renovado". Intrigados, procuramos saber se ele não estudava as Escrituras e preparava os sermões com antecedência. O mesmo considerou tal expediente muito "carnal". Ao dormir a tarde toda ou jogar bola, ele acreditava deixar a mente limpa para o Espírito Santo "baixar" com seu recado, de forma pura e cristalina, logo mais à noite...

Devemos reconhecer a força cultural do espiritismo e dos cultos de origem afro-ameríndia, e como eles influenciaram a percepção de espiritualidade de algumas igrejas protestantes. O Espírito Santo e os anjos funcionam como espécies de "orixás evangélicos", "baixando" sobre pastores e missionários, qual "médium protestante". Isso sem falar em "profetas", principalmente "profetizas", com suas revelações particulares sobre saúde, família e negócio, tomando o lugar simbólico das benzedeiras do catolicismo popular, das cartomantes e dos pais e mães-de-santo. Há uma forte equivalência simbólica.

Nos cultos, ou se tem os "médiuns" ou se tem os "artistas", que lideram o show-da-fé, no centro do palco e das atenções, promovendo o entretenimento.

C.S. Lewis denunciava as gerações que desprezam as outras do passado, supervalorizando o presente (presentismo). Isso não somente atenta contra a herança apostólica e o consenso dos fiéis, vivenciado através dos séculos, como também pretende ser melhor: restauradores da "pureza" e outras formas de arrogância espiritual, que rompem a unidade mística da "comunhão dos santos" (conforme confessamos nos Credos).

John Stott diz que o que faz uma liturgia viva ou morta, seja ela mais ou menos estruturada (não há liturgia informal, pois o "informal" é, apenas, uma outra forma), é o fato de os fiéis serem convertidos ou não e acreditarem ou não no que se pronuncia. A entonação, os sentimentos, a fé fazem a diferença. Foi o mesmo Stott quem disse que "um anglicano carismático não é um pentecostal".

Somos carismáticos porque acreditamos que não há igreja sem o Espírito Santo, e não há presença do Espírito Santos sem carismas. Se Hans Kung disse que uma das marcas do anglicanismo era a sua aversão a extremismos, alguém também afirmou que "na Igreja Anglicana o Espírito Santo sopra como um gentil cavalheiro".

Somos uma igreja que preza dois mil anos de herança litúrgica da igreja, católica e reformada. Herança que é o conjunto do que foi, nas diversas etapas e lugares, fruto da ação do Espírito Santo nas comunidades de fé. Daí o Livro de Oração Comum -- Bíblia pura, ortodoxia pura -- ser uma das marcas distintivas do anglicanismo. Os seus diversos ritos não engessam os crentes, antes os edificam, e podem ser intercalados com orações espontâneas, cantos, declamações, teatro, testemunho, em uma convergência com um presente que não rompe com o passado. Uma das maiores contribuições que a Diocese do Recife está fazendo para a maturidade da igreja no Brasil é a edição (ora no prelo) do Livro de Oração Comum Brasileiro (LOCb).

Há quem goste de culto batista tradicional, e nós os respeitamos. Quem gosta desse tipo de culto é livre para adorar em uma Igreja Batista. Há quem gosta de culto pentecostal "clássico", e nós os respeitamos. Quem gosta desse tipo de culto é livre para ir, por exemplo, e adorar na Assembléia de Deus. Há quem goste do culto neo (pós) pentecostal, com apóstolos, banhos de descarrego, retirada de encostos e três recolhimentos de ofertas, e nós os respeitamos. Quem gosta desse tipo de culto é livre para ir à Igreja universal, Internacional ou Mundial. Agora, pelo amor de Deus, deixem o anglicanismo em paz, com sua liberdade litúrgica, com sua diversidade, sim, porém "com ordem e decência", com a alegria do Espírito Santo e o LOCb na mão. E isso não é "anúncio de missa de sétimo dia" para se adotar como "um doloroso dever", mas uma adesão livre, convicta e entusiástica.

Somos uma igreja sem mediunidade, sem estrelismo e sem "showbiz", graças a Deus!


Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política -- teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo -- desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1018

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Por que usar a ciência para testar Deus?

Guilherme de Carvalho

No dia 9 de abril Ian Sample, correspondente de ciência do "The Guardian", publicou um comentário juntamente com o áudio da entrevista concedida a ele por John Polkinghorne, físico-matemático e sacerdote anglicano, autor de diversos livros de referência sobre o diálogo entre ciência e religião. A entrevista fora motivada pelo lançamento recente do livro "Questions of Truth: God, Science and Belief",de Polkinghorne, no qual vários aspectos do debate sobre ciência e religião são tratados em forma de pergunta e resposta.

No conteúdo da entrevista, nada muito especial, de fato. Sample pergunta sobre as razões para a crença de Polkinghorne em Deus, na encarnação do Verbo, na ressurreição dos mortos, na vida após a morte etc. No finalzinho temos uma questão sobre criacionismo e Design Inteligente na sala de aula, e é só. As respostas de Polkinghorne foram sóbrias, essencialmente ortodoxas e claramente escandalosas para o entrevistador. É o que se depreende de seus brevíssimos, mas esclarecedores, comentários sobre o assunto: "Eu estava interessado em falar com John porque desejava tentar compreender como ele poderia crer em coisas extraordinárias para as quais não há nenhuma evidência. Isso é o que me fascina a respeito de pessoas religiosas [...] Eu não tinha nenhum interesse em atacar as crenças de Polkinghorne, confusas o quanto me pareçam, contudo eu queria saber porque ele sustenta as crenças que sustenta. O irritante foi que eu não alcancei o tipo de insight que esperava", disse Sample, em meio a resumos bastante simplórios e banalizantes das crenças de Polkinghorne.

Nenhum diálogo lúcido, nenhum esforço visível para compreender o sentido da fé cristã. Mas aqui, certamente, precisamos dar ao leitor um pouco mais de orientação contextual. Polkinghorne colaborou com ninguém menos que o Prêmio Nobel Paul Dirac, foi professor de física-matemática na Universidade de Cambridge (como colega de Stephen Hawkings), ex-diretor do Queen's College e fundador da International Society for Science and Religion.

Porém não é apenas o seu currículo que é preocupante para uma pequena mas ruidosa minoria de cientistas céticos; o fato é que o trabalho de Polkinghorne para mostrar as ligações implícitas entre a religião e a ciência já mostrou o seu valor permanente. O verdadeiro motivo da entrevista de Sample foi o livro a que nos referimos, "Questions of Truth: Fifty-one Responses to Questions About God, Science, and Belief" (Westminster John Knox Press), escrito com a assistência de Nicholas Beale. Como se não bastasse o aval de dois Prêmios Nobel ao livro, além de diversas figuras já conhecidas, como Alister McGrath e Francis Collins, o lançamento da obra foi feito na Universidade de Chicago no encontro anual da "American Association for the Advancement of Science" (AAAS, a SBPC americana) e em um evento especial da Royal Society, com a presença de três vice-presidentes e mais de quarenta membros da mais distinta associação científica do mundo (para o desespero dos "Novos Ateus"). O secularista inglês A. C. Grayling acusou Polkinghorne de "desonrar" a Royal Society e considerou a coisa toda um escândalo. Mas a julgar pelo apoio dos FRS (Fellows of the Royal Society) a Polkinghorne, a sua irritação não reflete nem mesmo o "establishment" científico inglês atual.

Não é de se admirar, portanto, que alguns céticos se sintam atônitos. Coisas assim não deveriam acontecer. Cientistas renomados não deveriam ter fé e ser membros da Royal Society. Mas isso nem sempre os leva a considerar seriamente o cristianismo. E alguns deles se lançam a esforços pouco científicos como o de tentar compreender em uma entrevista de treze minutos se este ou aquele cientista crente não tem, afinal de contas, um parafuso solto. Contudo eu posso garantir que Polkinghorne não tem fé devido a um parafuso solto. Eu o conheci pessoalmente em Cambridge e sei que sua lucidez corresponde perfeitamente à sua titulação acadêmica.

Se Ian Sample se desse ao trabalho de investigar o que, afinal de contas, está por trás das crenças de Polkinghorne e de outros cientistas influentes sobre Deus e o cristianismo, descobriria que há, sim, sérias motivações para a crença em Deus e, mais ainda, para a crença no Deus de Jesus Cristo, o Deus-Pai, criador do céu e da terra.

Como Polkinghorne gosta de apontar em seus livros, o fundamento original de todas as coisas não é uma força ou uma substância material, e sim uma pessoa infinita. E pessoas não são conhecidas por meio de metodologias objetificantes, apropriadas apenas a fatos impessoais. Pessoas são conhecidas no interior de relações do tipo eu-tu, nas quais a confiança, e não o teste experimental, é a principal ferramenta cognitiva. Pessoas são invisíveis para a ciência empírica, mas nem por isso são menos reais. Portanto a ciência é inútil para "provar" Deus. No máximo ela pode "falsificar" os falsos deuses.

Não é verdade que Polkinghorne crê em coisas sem nenhuma evidência, como Sample sugere maldosamente. Não apenas há evidências que apontam para Deus, mas experiências de um Deus pessoal que, embora reais, estão além do espectro visível à ciência empírica.

Isso é sem dúvida "irritante", como o disse Sample, para pessoas que gostariam de passar o universo inteiro por tubos de ensaio. Mas se até mesmo eu sou grande demais para um tubo de ensaio, o que dizer do criador de todas as coisas?


Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, pastor da Igreja Esperança em Belo Horizonte, é obreiro de L'Abri no Brasil e presidente da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares. É também organizador e autor de Cosmovisão Cristã e Transformação e membro da associação Christians in Science (CiS). guilhermedecarvalho.blogspot.com/

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Diário de Wesley, maio de 1736

Quarta-feira, 5 de maio. Solicitaram que eu batizasse um dos filhos do Sr. Parker, oficial adjunto de Savannah, mas a Sra. Parker me disse, "Nem o Sr. P. [Parker] nem eu damos permissão que ele seja imerso." Eu respondi, "Se você 'atestar que seu filho esteja fraco, será suficiente (como diz a regra) despejar água sobre ele.'" Ela respondeu, "Não, a criança não está fraca, mas estou decidida que ela não será imersa." Este argumento eu não podia contrariar, então fui para casa, e a criança foi batizada por outra pessoa. 

Domingo, 9. Comecei a dividir as orações públicas, conforme a ordenação original da Igreja (ainda observada em alguns locais da Inglaterra): o culto da manhã começava às cinco, o ofício da comunhão (com o sermão) às onze, o culto do final do dia por volta das três, e neste dia comecei a ler as orações na corte judicial – um lugar amplo e conveniente [Savannah, na época, não tinha nenhum lugar dedicado ao culto]. 

Segunda-feira, 10. Comecei a visitar meus paroquianos em ordem, de casa em casa. Para isso reservei o período em que eles não podiam trabalhar, por causa do calor, a saber, de meio-dia às três da tarde. 

Domingo, 16. À noite fomos surpreendidos pelo meu irmão, que acabou de chegar de Frederica. Depois de alguma conversa, deliberamos sobre como o pobre povo de lá poderia ser cuidado durante sua ausência: e foi finalmente combinado que o Sr. Ingham e eu nos revezaríamos em assisti-los, sendo eu o primeiro. Sendo assim, na terça-feira, 18, caminhei até Thunderbolt, de onde, na tarde seguinte, partimos em um pequeno barco. À noite, atracamos em Skidoway, e tivemos uma pequena mas atenciosa congregação que se uniu a nós na Oração da Noite. 

Sábado, 22. Quatro da tarde aproximadamente, atingimos Doboy Sound. O vento, que estava bem à frente, ficou tão violento quando entramos em seu meio, e o mar tão agitado, estando em redemoinho junto à baía, que o barco esteve a todo momento prestes a afundar. Mas foi a vontade de Deus nos conduzir ilesos até o outro lado em meia hora, e para Frederica na manhã seguinte. Tivemos orações públicas às nove, às quais estiveram presentes dezenoves pessoas, e (acho) nove comungantes. 

Sexta-feira, 28. Li a Oração Comendatória do Sr. Germain, que se encontrava às portas da morte [Inserida em 1662, no Livro da Oração Comum, a prática da oração comendatória deveria ser feita a alguém que estivesse próximo de partir deste mundo]. Ele tinha perdido a fala e os sentidos. Seus olhos estavam imóveis,  e também não se percebia nenhum movimento senão o arfar de seu peito. Enquanto estávamos de pé à sua volta, ele estendeu os braços, coçou a cabeça, recuperou a vista, fala e entendimento, e imediatamente, mandando chamar seus encarregados, pôs em ordem os negócios da família, e então deitou e morreu. 

Ao primeiro culto do domingo, 30 de maio, estiveram presentes somente cinco; no segundo, vinte e cinco. No dia seguinte fiz o testamento do Sr. Lassel, que, apesar de sua imensa fraqueza, foi totalmente restaurado quando se fez alguma menção da morte ou da eternidade.

_______________

Tradução: Paulo Cesar Antunes

fonte: http://www.metodistasonline.kit.net/diariodewesleymaiode1736.htm

terça-feira, 14 de abril de 2009

O Arcebispo de Olinda e Recife

Marcos Monteiro

No artigo "O dogma do aborto e o aborto do dogma" troquei o nome do arcebispo de Olinda e Recife por outro nome; mas já pedi desculpas e agradeci a quem percebeu e me avisou. Talvez tenha sido um ato falho (e Freud sorriria feliz), porém gostaria de eternizar o inesquecível arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, tendo o cuidado de não esquecer a contínua tentativa, por parte do atual arcebispo, de aborto da memória, dos sonhos e das realizações do "irmão dos pobres".

O centenário do nascimento de Dom Hélder já foi comemorado amplamente e a sua vida não será esquecida facilmente, mas ninguém lembrará o nome do atual arcebispo: será mencionado somente como "aquele da mania da excomunhão" e como "aquele que tentou abortar as criações de Dom Hélder".

O regime militar tentou excomungar Dom Hélder, contudo não conseguiu. Porta-voz dos que não tinham voz, acreditava em uma mística que combatia politicamente estruturas injustas e regimes ditatoriais como a primeira fonte de violência existente. "Quando eu dou de comer aos pobres, me chamam de santo. Quando eu pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista!"

Sua denúncia de um mundo onde dois terços vivem na pobreza, era acompanhada por uma atitude de compaixão e de iniciativas concretas em prol dos pobres. O famoso "Banco da Providência" atendia concretamente aos mais pobres, contraponto exemplar de um sistema bancário injusto e concentrador de riquezas. E o "Encontro de Irmãos", difundido pelos bairros mais pobres de Recife e Olinda, era "pobres evangelizando pobres", radicalização do evangelho, encontro com as origens do cristianismo.

Lembro de um momento com Dom Hélder, em Maceió, capital alagoana. O arcebispo já tinha oitenta anos de idade e já havia sido submetido a esse tipo de excomunhão não-oficial que as instituições administram. Na praça inaugurada com o seu nome, em meio a homenagens prestadas pelas autoridades civis e eclesiásticas, mas principalmente pelo povo, alguém lhe ofereceu uma cadeira. Ele perguntou: "O povo tem onde sentar?" e diante da negativa, rejeitou a cadeira. Repentinamente caiu uma grande chuva e alguém trouxe um guarda-chuva. Perguntou novamente: "Há guarda-chuva para o povo?" e não aceitou participar da deferência.

Essa busca de coerência é que lhe fez abandonar em 1968 o palácio episcopal para morar até 1999, até sua morte, em uma pequena e simples dependência da "Igreja das Fronteiras", numa pequena rua do Recife.

Essa migração para uma igreja mais pobre, onde acolhe pacientemente todos os visitantes, é vivência teológica de um compromisso total. "As massas deste continente abrirão um dia os olhos, conosco, sem nós ou contra nós... Ai do cristianismo no dia em que as massas tiverem a impressão de terem sido abandonadas pela Igreja, tornada cúmplice dos ricos e dos poderosos."

Homenageando Dom Hélder tentei (não sei se consegui) abortar e excomungar dessa coluna o atual arcebispo que ocupa o noticiário e a indignação nacional. Se na época do seu nascimento já existisse o combativo grupo feminino de "Católicas pelo direito de decidir", talvez eu não tivesse precisado deste esforço.


Marcos Monteiro, autor de Um Jumentinho na Avenida, é mestre em filosofia, pastor na Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE, e na Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA, e professor no Seminário Teológico Batista do Nordeste em Feira de Santana. É vice-presidente do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr.

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1011

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Ciência paranormal

Eduardo Ribeiro Mundim

Marcelo Leite, na sua coluna semanal no caderno Mais, Folha de S Paulo, do dia 12 de abril mistura, em um mesmo balaio, os céticos sobre o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) e os criacionistas, sob o título "Ciência paranormal".

Segundo o Aulete Digital, paranormal é o fora da normalidade, excluído da explicação científica ou lógica, sobrenatural. Portanto, o texto versa sobre aquilo que está fora do "estado da arte do conhecimento, (do) conjunto variável de explicações sobre o mundo natural apoiado em observações e aceito pela comunidade mundial de pesquisadores". Seguindo a atual filosofia da ciência, didaticamente exposta por Rubem Alves, a ciência é um conjunto do explicações que vigora até que elas não consigam mais explicar todas as dúvidas, sendo sucedidas por outro modelo.

O que ambos compartilham, segundo Marcelo Leite?
  1. "Promovem qualquer artigo obscuro a resultado discordante que vai derrubar a ciência normal"
  2. "Alegam censura e repressão quando sua 'ciência' não é reconhecida"
  3. "Apresentam como prova de refutação as lacunas e incertezas inerentes ao conhecimento científico"
Finalizando, em um estilo agressivo, fora do seu habitual, "os céticos e os criacionistas não param de pé sem uma conspiração repressora de governos,imprensa leiga e periódicos científicos para calar os que bebem a Verdade de fontes a que só eles, os escolhidos, têm acesso".

Para a maioria dos cristãos envolvida no debate evolução/criação é difícil não vestir a carapuça oferecida pelo texto. Criacionistas históricos e antigos, como a ABPC, não criam um modelo novo, mas procuram desmontar a teoria da evolução (notem que disse "teoria", e não "fato") através de suas falhas (até onde eu saiba, reconhecidas amplamente) e de fraudes ocasionais (será que nenhum criacionista se envolveu com fraude? algumas afirmativas teológicas não poderiam ser semelhantes?). Quando se usa o argumento "vontade de Deus" para explicar fatos de forma completa e definitiva o discordante é excluído da discussão, sua opinião ignorada e ele marginalizado.

Tal comportamento não seria uma das pedras de tropeço que somos severamente admoestados a não colocar aos pequeninos? (Mt 18.1-14)

obs.: os textos em itálico são citações da crônica comentada

domingo, 12 de abril de 2009

A Imagem de Cristo


(Escultura que representa Jesus Cristo morto numa cadeira elétrica, exposta na catedral de Gap (sudeste da França), está provocando reações variadas. Batizada de "Pietá", a escultura de Paul Fryer, que representa a paixão de Cristo, valeu críticas ao monsenhor Jean Michel di Falco, bispo de Gap e de Embrun, que organizou a exposição e para quem a polêmica é um fator positivo.

"Ninguém fica indiferente ante essa obra, mas falar de polêmica é algo falso", explicou Di Falco à AFP. Em compensação, a exposição serve de pretexto para um debate sobre Jesus Cristo, reconheceu o bispo.Além do mais, segundo ele, a escultura fez com que muita gente que não ia há tempos a uma igreja resolvesse fazê-lo só para ver a obra.)

Fonte original: Yahoo
copiado de O Absurdo e a Graça

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Perseguidos pelo Evangelho

Eduardo Ribeiro Mundim

A perseguição está escrita, e inscrita, na história da Igreja, assim como na daqueles chamados por Deus para algumas tarefas em especial. Inscrita, porque no Sermão da Montanha Jesus diz "bem aventurados aqueles perseguidos por causa da justiça (ou por amor do Meu Nome)" e o apóstolo Paulo reverbera "todos aqueles que querem viver piedosamente em Jesus Cristo serão perseguidos". Escrita, porque "os profetas que viveram antes de nós" foram perseguidos pelo seu próprio povo; porque os apóstolos o foram pelas autoridades do seu próprio povo; porque os primeiros cristãos gentios o foram pelo Império, que demandava a adoração do imperador. A associação cristianismo-perseguição é tão íntima que Jonh Stott, no seu comentário ao Sermão da Montanha, afirma "a perseguição é um sinal de genuidade, um certificado da autenticidade cristã"i.

Mesmo nas Escrituras, perseguição é resultado de vários fatores, e cada uma merece uma avaliação. Habitualmente os profetas vétero-testamentários expunham a Palavra do Senhor, que também era uma condenação a uma atitude política isolada, ou a um planejamento a longo prazo, ou mesmo à sociedade como um todo. Não havia separação entre Fé e Estado no antigo Israel, já que sua existência como nação era resultado direto da ação divina. A perseguição ao profeta era, sempre, religiosa e política, por consequência.

No Novo Testamento, Jesus sofre oposição cerrada – e não perseguição. A oposição se dá em função da radicalidade da mensagem (o ápice podem ser as 7 sequências do "Eu sou" retratadas pelo Evangelho de João), do questionamento duro da prática dos fariseus e saduceus (curiosamente a nenhum outro grupo de pecadores Ele dirigiu palavras tão enfáticas e agressivas) e da sua autoidentificação como Messias e Filho de Deus.

Os apóstolos são perseguidos: um grupo de ações coordenadas, de longa duração, com o objetivo explícito de destruir a fé. Estêvão, primeiro mártir, é apedrejado por blasfêmia; Pedro ameaçado e ordenado a não ensinar "no Seu nome". E qual era a mensagem? "Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa". A mensagem era puro chamado ao arrependimento, confissão de pecados e aceitação do sacrifício substitutivo da cruz – mais nada. A novidade de vida era um processo permanente, até a morte, onde no dia a dia o cristão deveria fazer morrer sua natureza terrena / carnal e crescer cada vez mais os frutos do Espírito. A epístola aos Corintios, principalmente a primeira, é um exemplo acabado de como nenhuma pessoa torna-se eticamente cristã imediatamente após sua conversão, mas à justificação (não há mais condenação pelo pecado) segue-se a santificação (crescimento dos frutos do Espírito: amor, satisfação, paz, capacidade de suportar com serenidade as incongruências e intempéries da vida, bondade, fé, mansidão, espírito perdoador).

Fatores econômicos, como os artífices de Éfeso, podem originar perseguição sistemática quando a "novidade de vida" implica em modificação de hábitos de consumo, reavaliação das escalas de valores e abandono de práticas culturalmente aceitas. Neste caso, a perseguição não é por causa da mensagem, mas pelas suas inevitáveis consequências.

Pouco provável que no Brasil os cristãos sofram perseguição por proclamarem que "o sangue de Jesus nos limpa de todo pecado", ou por qualquer dos itens do credo apostólico. Mas alguns que se identificam como tal (serão o joio?) enfrentam oposição e/ou perseguição em função de deslizes ético-morais (p. ex., os escândalos ligados ao uso do dízimo ou a arrecadação; a bancada evangélica; o "anão do orçamento" que ganhou na loteria 7 vezes... ) ou de posições agressivas em torno de aspectos teologicamente periféricos, mas moralmente centralizados como a sexualidade. Cabe em um texto cristão expressões repetidas como "gaynazismo" ou simplesmente "gay"? Textos sugerindo que crimes sexuais sejam privilégios de homossexuais? Crimes cometidos por homossexuais tratados de forma folhetinesca?

Talvez esteja na hora de repensarmos a teologia da perseguição, repensarmos se temos proclamado que "todo aquele que nEle crê não perece" em primeiro lugar e tratado as dificuldades dos convertidos com respeito, carinho e confiança no poder e sabedoria do Espírito. Se, quando surge a sombra de alguma perseguição, ela não seja o resultado da nossa vontade de cristianizar a sociedade no lugar de evangelizar os seus cidadãos.

iStott, John RW Contracultura Cristã, 1ª ed, ABU Editora, São Paulo, SP, pag 43

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Não estamos de luto!


Sexta-feira, dia 10 de abril, vamos comemorar mais uma vez a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dois dias depois, no domingo, celebraremos a sua ressurreição. Tomemos cuidado para celebrar as duas datas com a mesma intensidade. Em geral damos mais ênfase à paixão, que é de suma importância, contudo a obra salvífica de Jesus se completa na ressurreição. A não-celebração da ressurreição enfatiza apenas o Jesus morto, gerando melancolia e frustração.

O filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, que custou 30 milhões de dólares, tem a duração de duas horas e seis minutos. Desse tempo, observa Vittorio Messori, duas horas são dedicadas ao martírio de Jesus e à ressurreição, apenas seis minutos. Uma italiana que também assistiu ao filme reclama que Mel Gibson “só mostra Jesus apanhando, apanhando, até morrer”.

Nunca esqueço que, na Semana Santa de 1962, havia duas faixas na entrada da cidade de Ervália (MG). Na primeira estava escrito: “Silêncio: estamos de luto”. Na faixa seguinte vinha a explicação: “Jesus morreu!”. Não é assim.

Acabo de ler na Bíblia a conversa do governador Pórcio Festo com o rei Agripa a propósito da prisão do apóstolo Paulo. O procurador da Judéia conta que um dos pontos de divergência entre os judeus e Paulo era “um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (At 25.25).

Precisamos insistir teimosamente, como Paulo, no Jesus vivo, e não no Jesus morto. É a ressurreição de Jesus que sustenta a nossa fé e a nossa própria ressurreição. “Se Cristo não ressuscitou”, explica o apóstolo, “é inútil a nossa pregação, como também é inútil a fé que vocês têm” (1 Co 15.14, NVI). Não estamos de luto! Veja esta declaração de Urs von Balthasar: “A ressurreição de Cristo é o acontecimento mais decisivo e significativo da história, pois nenhum outro terá jamais tanta importância”. E mais esta de Lucien Cerfaux: “Cristo é chefe de fila na ressurreição dos mortos”.

Em maio de 1994, tive meu primeiro contato com a cruz vazada. Ela estava fincada na entrada da universidade católica Gwynedd-Mercy, na Filadélfia, EUA. Fiquei apaixonado por esse símbolo cristão que une a paixão à ressurreição, a sexta-feira ao domingo. Gostei tanto dessa cruz sem Jesus que solicitei à direção da referida universidade uma planta do monumento e permissão para fornecê-la graciosamente a quem por ela se interessar. Hoje há várias cruzes vazadas por este Brasil afora. A primeira delas está fincada aqui em Viçosa, no gramado do Centro Evangélico de Missões (CEM).

Não estamos de luto. Jesus morreu na sexta-feira à tarde e ressuscitou no domingo de madrugada. É por isso que podemos esperar como absolutamente certa a apoteose que está para vir!

Elben César