Crer não é sinônimo de não pensar. Crer implica em pensar, em relacionar fé com a realidade, questionando uma a partir da outra. O conteúdo são pensamentos às vezes rápidos, em elaboração; outros, já mais elaborados. Ambos buscando provocar discussão e reposicionamentos, partindo sempre da confissão de fé protestante.
Os artigos classificados como "originais" podem ser reproduzidos desde que com a menção da fonte e autoria.
Ano V
Os Médicos de Cristo,
organização filiada a RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) e
ao ICMDA (International Christian and Dental Association), realizou nos
dias 7 a 12 de outubro uma experiência inédita: promoveu um Seminário
Internacional Itinerante nas cidades do Rio de Janeiro, Campinas, São
Paulo e Belo Horizonte. Somando os eventos, obtivemos a participação de
quase 200 profissionais de saúde.
Além dos preletores
locais, o médico indiano Vinod Shah, CEO do ICMDA, e a médica holandesa
Josephine Maat, membro da coordenação do Congresso Mundial do ICMDA que
acontecerá em 2014, em Rotterdam, Holanda, trouxeram relevantes
contribuições para capacitação dos presentes.
A temática
“Desafios do profissional de saúde cristão no mundo pós-moderno”
possibilitou a discussão e a tomada de posição dos profissionais de
saúde presentes em torno da importância de mantermos a integridade em
ambientes de corrupção. É digno de nota o fato que quanto o acesso e a
qualidade dos serviços de saúde são prejudicados com o desvio de verbas
destinadas à saúde.
Dilemas éticos, integralidade da missão e
proclamação do evangelho no atendimento à saúde foram debatidos na
perspectiva da expansão do reino de Deus, entendendo o campo de trabalho
como campo missionário.
Frente a frente com os determinantes
sociais da saúde (condições sociais nas quais as pessoas nascem, vivem,
trabalham e envelhecem que influenciam na ocorrência de problemas de
saúde e fatores de risco para a população) e iniquidades em saúde –
evitáveis, injustas e desnecessárias – compreendeu-se porque os mais
vulneráveis adoecem mais e morrem mais cedo. As discussões nos
conduziram a uma reflexão profunda sobre a estrutura do sistema de saúde
brasileiro, que requer participação ativa dos profissionais na defesa
do direito constitucional à saúde.
Esse simpósio possibilitou
também uma análise das clínicas de curto prazo realizadas sem
planejamento e sem parceria com a comunidade local, com um cunho
puramente assistencialista, sem ações que promovam uma participação
ativa da população. A metodologia consistiu na análise de cartas de
missionários relatando sua experiência e o retorno da liderança local.
Essa atividade proporcionou um aprendizado fundamental no sentido de
qualificar as clínicas de curta duração, uma das principais
contribuições dos profissionais de saúde.
Todos foram
conscientizados da relevância da incidência em políticas públicas,
controle social e defesa de direitos. Ressaltou-se que os conselhos de
direito podem ser importantes espaços de testemunho, serviço e exercício
de nossa fé numa perspectiva cidadã e podem contribuir para o bem
comum, especialmente no que tange ao acesso à saúde e ao fortalecimento
do SUS (Sistema Único de Saúde).
Nosso próximo encontro será em
Campinas (SP) por ocasião do V CENPS – Congresso Evangélico Nacional de
Profissionais de Saúde, no Lar Luterano Belém, que ocorrerá de 17 a 19
de outubro de 2014.
___________ Soraya Dias é presidente dos Médicos de Cristo e integra o Grupo Coordenador da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social).
Violência
é um tema sempre presente. Todos nós já sofremos por sua causa,
direta ou indiretamente, em algum grau. Suas origens são múltiplas
e não é um assunto fácil de ser dissecado. Mas é um assunto
sacado oportunamente em toda campanha eleitoral – apenas com
intenções de angariar votos.
Em
última análise, a violência nasce do coração pecaminoso do ser
humano. Ou seja, ela tem sua origem na revolta da criatura, o ser
humano, contra o Seu Criador.
Mas
há outras análises possíveis, e que não contradizem a anterior.
Mas frequentemente esclarecem que mecanismos operam no seio desta
rebelião para que ela venha a existir de modo concreto na vida das
pessoas.
Sendo
tema fartamente utilizado a cada ano eleitoral, clichês se tornaram
comuns a seu respeito. E é enfrentando estes ditos exaustivamente
repetidos que duas reportagens do jornal Folha de São Paulo, do dia
09 de junho de 2013, trazem à tona novas (?) informações.
“Nem
o avanço da economia livra o Brasil da violência”1
informa o aumento em 6 vezes dos homicídios nos últimos 30 anos,
com o seu deslocamento para as regiões norte e nordeste. Coloca como
causas a desigualdade econômica e social, o aumento da capacidade de
consumo (com a consequente ampliação do desejo de ter e de
desfrutar) e as dificuldades judiciárias no enfrentamento da
situação.
“Nem
a recessão impede a queda de crimes na Inglaterra”2
conta que o órgão estatal responsável pela estatística mostrou o
mais baixo nível de violência naquele país nos últimos 30 anos. E
isto apesar da situação econômica do Reino Unido não estar,
atualmente, muito favorável. Situação semelhante ocorrem em outros
países europeus. Os fatores levantados são a redução do uso de
drogas, a queda no consumo de álcool, uso de melhores tecnologias de
segurança, modernas técnicas de policiamento e o controle do porte
de armas.
A declaração de morte coletiva feita por um
grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro
para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices
de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão
ELIANE BRUM
- Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de
despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos
aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa
extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um
grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido
aos juízes federais.
O trecho pertence à carta
de um grupo de 170 indígenas que vivem à beira de um rio no município
de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As
palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia
dos Guaranis Caiovás), após receberem a notícia de que a Justiça
Federal decretou sua expulsão da terra. São 50 homens, 50 mulheres e 70
crianças. Decidiram ficar. E morrer como ato de resistência – morrer com
tudo o que são, na terra que lhes pertence.
Há cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, que
são documentos de fundação do Brasil: fundam uma nação, ainda sequer
imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e
sobre os habitantes que nela vivem. E há cartas, como a dos Guaranis
Caiovás, escritas mais de 500 anos depois, que são documentos de
falência. Não só no sentido da incapacidade do Estado-nação constituído
nos últimos séculos de cumprir a lei estabelecida na Constituição hoje
em vigor, mas também dos princípios mais elementares que forjaram nosso
ideal de humanidade na formação do que se convencionou chamar de “o povo
brasileiro”. A partir da carta dos Guaranis Caiovás, tornamo-nos
cúmplices de genocídio. Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é.
Os Guaranis Caiovás avisam-nos por carta que, depois de tantas décadas
de luta para viver, descobriram que agora só lhes resta morrer. Avisam a
todos nós que morrerão como viveram: coletivamente, conjugados no
plural.
Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os indígenas afirmam:
- Queremos deixar evidente ao Governo e à Justiça Federal que, por fim,
já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em
nosso território antigo. Não acreditamos mais na Justiça Brasileira. A
quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para
qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e
alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação
atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. Não
temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na
margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do
rio Hovy, onde já ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de
suicídio, 2 em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das
fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano. Estamos
sem assistência nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos
até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia
para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato,
sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão
enterrados vários de nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali está o
cemitérios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato
histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos
nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (…) Não temos outra
opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da
Justiça Federal de Navirai-MS.
Como podemos alcançar o desespero de uma decisão de morte coletiva? Não
podemos. Não sabemos o que é isso. Mas podemos conhecer quem morreu,
morre e vai morrer por nossa ação – ou inação. E, assim, pelo menos
aproximar nossos mundos, que até hoje têm na violência sua principal
intersecção.
Desde o ínicio do século XX, com mais afinco a partir do Estado Novo
(1937-45) de Getúlio Vargas, iniciou-se a ocupação pelos brancos da
terra dos Guaranis Caiovás. Os indígenas, que sempre viveram lá,
começaram a ser confinados em reservas pelo governo federal, para
liberar suas terras para os colonos que chegavam, no que se chamou de “A
Grande Marcha para o Oeste”. A visão era a mesma que até hoje persiste
no senso comum: “terra desocupada” ou “não há ninguém lá, só índio”.
Era de gente que se tratava, mas o que se fez na época foi confiná-los
como gado, num espaço de terra pequeno demais para que pudessem viver ao
seu modo – ou, na palavra que é deles, Teko Porã (“o Bem Viver”). Com a
chegada dos colonos, os indígenas passaram a ter três destinos: ou as
reservas ou trabalhar nas fazendas como mão de obra semiescrava ou se
aprofundar na mata. Quem se rebelou foi massacrado. Para os Guaranis
Caiovás, a terra a qual pertencem é a terra onde estão sepultados seus
antepassados. Para eles, a terra não é uma mercadoria – a terra é.
Na ditadura militar, nos anos 60 e 70, a colonização do Mato Grosso do
Sul se intensificou. Um grande número de sulistas, gaúchos mais do que
todos, migrou para o território para ocupar a terra dos índios. Outros
despacharam peões e pistoleiros, administrando a matança de longe, bem
acomodados em suas cidades de origem, onde viviam – e vivem até hoje –
como “cidadãos de bem”, fingindo que não têm sangue nas mãos.
Com a redemocratização do país, a Constituição de 1988 representou uma
mudança de olhar e uma esperança de justiça. Os territórios indígenas
deveriam ser demarcados pelo Estado no prazo de cinco anos. Como
sabemos, não foi. O processo de identificação, declaração, demarcação e
homologação das terras indígenas tem sido lento, sensível a pressões dos
grandes proprietários de terras e da parcela retrógrada do agronegócio.
E, mesmo naquelas terras que já estão homologadas, em muitas o governo
federal não completou a desintrusão – a retirada daqueles que ocupam a
terra, como posseiros e fazendeiros –, aprofundando os conflitos. Nestas
últimas décadas testemunhamos o genocídio dos Guaranis Caiovás. Em
geral, a situação dos indígenas brasileiros é vergonhosa. A dos 43 mil
Guaranis Caiovás, o segundo grupo mais numeroso do país, é considerada a
pior de todas. Confinados em reservas como a de Dourados, onde cerca de
14 mil, divididos em 43 grupos familiares, ocupam 3,5 mil hectares,
eles encontram-se numa situação de colapso. Sem poder viver segundo a
sua cultura, totalmente encurralados, imersos numa natureza degradada,
corroídos pelo alcoolismo dos adultos e pela subnutrição das crianças,
os índices de homicídio da reserva são maiores do que em zonas em estado
de guerra.
A situação em Dourados é tão aterradora que provocou a seguinte
afirmação da vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat: “A
reserva de Dourados é talvez a maior tragédia conhecida da questão
indígena em todo o mundo”. Segundo um relatório do Conselho Indigenista Missionário
(CIMI), que analisou os dados de 2003 a 2010, o índice de assassinatos
na Reserva de Dourados é de 145 para cada 100 mil habitantes – no
Iraque, o índice é de 93 assassinatos para cada 100 mil. Comparado à
média brasileira, o índice de homicídios da Reserva de Dourados é 495%
maior.
A cada seis dias, um jovem Guarani Caiová se suicida. Desde 1980, cerca
de 1500 tiraram a própria vida. A maioria deles enforcou-se num pé de
árvore. Entre as várias causas elencadas pelos pesquisadores está o fato
de que, neste período da vida, os jovens precisam formar sua família e
as perspectivas de futuro são ou trabalhar na cana de açúcar ou virar
mendigos. O futuro, portanto, é um não ser aquilo que se é. Algo que,
talvez para muitos deles, seja pior do que a morte.
Um relatório do Ministério da Saúde mostrou, neste ano, o que chamou de
“dados alarmantes, se destacando tanto no cenário nacional quanto
internacional”. Desde 2000, foram 555 suicídios, 98% deles por
enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15
aos 29 anos. No Brasil, o índice de suicídios em 2007 foi de 4,7 por 100
mil habitantes. Entre os indígenas, no mesmo ano, foi de 65,68 por 100
mil. Em 2008, o índice de suicídios entre os Guaranis Caiovás chegou a
87,97 por 100 mil, segundo dados oficiais. Os pesquisadores acreditam
que os números devem ser ainda maiores, já que parte dos suicídios é
escondida pelos grupos familiares por questões culturais.
As lideranças Guaranis Caiovás não permaneceram impassíveis diante
deste presente sem futuro. Começaram a se organizar para denunciar o
genocídio do seu povo e reivindicar o cumprimento da Constituição. Até
hoje, mais de 20 delas morreram assassinadas por ferirem os interesses
privados de fazendeiros da região, a começar por Marçal de Souza, em
1983, cujo assassinato ganhou repercussão internacional. Ao mesmo tempo,
grupos de Guaranis Caiovás abandonaram o confinamento das reservas e
passaram a buscar suas tekohá, terras originais, na luta pela
retomada do território e do direito à vida. Alguns grupos ocuparam
fundos de fazendas, outros montaram 30 acampamentos à beira da estrada,
numa situação de absoluta indignidade. Tanto nas reservas quanto fora
delas, a desnutrição infantil é avassaladora.
A trajetória dos Guaranis Caiovás que anunciaram sua morte coletiva
ilustra bem o destino ao qual o Estado brasileiro os condenou. Homens,
mulheres e crianças empreenderam um caminho em busca da terra
tradicional, localizada às margens do Rio Hovy, no município de Iguatemi
(MS). Acamparam em sua terra no dia 8 de agosto de 2011, nos fundos de
fazendas. Em 23 de agosto foram atacados e cercados por pistoleiros, a
mando dos fazendeiros. Em um ano, os pistoleiros já derrubaram dez vezes
a ponte móvel feitas por eles para atravessar um rio com 30 metros de
largura e três de fundura. Em um ano, dois indígenas foram torturados e
mortos pelos pistoleiros, outros dois se suicidaram.
Em tentativas anteriores de recuperação desta mesma terra, os Guaranis
Caiovás já tinham sido espancados e ameaçados com armas de fogo. Alguns
deles tiveram seus olhos vendados e foram jogados na beira da estrada.
Em outra ocasião, mulheres, velhos e crianças tiveram seus braços e
pernas fraturados. O que a Justiça Federal fez? Deferiu uma ordem de
despejo. Em nota, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) afirmou que “está
trabalhando para reverter a decisão”.
Os Guaranis Caiovás estão sendo assassinados há muito tempo, de todas
as formas disponíveis, as concretas e as simbólicas. “A impunidade é a
maior agressão cometida contra eles”, afirma Flávio Machado, coordenador
do CIMI no Mato Grosso do Sul. Nas últimas décadas, há pelo menos duas
formas interligadas de violência no processo de recuperação da terra
tradicional dos indígenas: uma privada, das milícias de pistoleiros
organizadas pelos fazendeiros; outra do Estado, perpetrada pela Justiça
Federal, na qual parte dos juízes, sem qualquer conhecimento da
realidade vivida na região, toma decisões que não só compactuam com a
violência , como a acirram.
“Quando os pistoleiros não conseguem consumar os despejos e massacres
truculentos dos indígenas, os fazendeiros contratam advogados para
conseguir a ordem de despejo na Justiça”, afirma Egon Heck, indigenista e
cientista político, num artigo publicado em relatório do CIMI. “No
momento em que ocorre a ordem de despejo, os agentes policiais agem de
modo similar ao dos pistoleiros, visto que utilizam armas pesadas,
queimam as ocas, ameaçam e assustam as crianças, mulheres e idosos.”
Ao fundo, o quadro maior: os sucessivos governos que se alternaram no
poder após a Constituição de 1988 foram incompetentes para cumpri-la. Ao
final de seus dois mandatos, Lula reconheceu que deixava o governo com
essa dívida junto ao povo Guarani Caiová. Legava a tarefa à sua
sucessora, Dilma Rousseff. Os indígenas escreveram, então, uma carta:
“Presidente Dilma, a questão das nossas terras já era para ter sido
resolvida há décadas. Mas todos os governos lavaram as mãos e foram
deixando a situação se agravar. Por ultimo, o ex-presidente Lula
prometeu, se comprometeu, mas não resolveu. Reconheceu que ficou com
essa dívida para com nosso povo Guarani Caiová e passou a solução para
suas mãos. E nós não podemos mais esperar. Não nos deixe sofrer e ficar
chorando nossos mortos quase todos os dias. Não deixe que nossos filhos
continuem enchendo as cadeias ou se suicidem por falta de esperança de
futuro (…) Devolvam nossas condições de vida que são nossos tekohá,
nossas terras tradicionais. Não estamos pedindo nada demais, apenas os
nossos direitos que estão nas leis do Brasil e internacionais”.
A declaração de morte dos Guaranis Caiovás ecoou nas redes sociais na
semana passada. Gerou uma comoção. Não é a primeira vez que indígenas
anunciam seu desespero e seu genocídio. Em geral, quase ninguém escuta,
para além dos mesmos de sempre, e o que era morte anunciada vira morte
consumada. Talvez a diferença desta carta é o fato de ela ecoar algo que
é repetido nas mais variadas esferas da sociedade brasileira, em
ambientes os mais diversos, considerado até um comentário espirituoso em
certos espaços intelectualizados: a ideia de que a sociedade brasileira
estaria melhor sem os índios.
Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na
qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão
recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite
escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre
eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como
“atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra
lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível.
Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa
riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das
230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui.
Toda a História do Brasil, a partir da “descoberta” e da colonização, é
marcada pelo olhar de que o índio é um entrave no caminho do
“progresso” ou do “desenvolvimento”. Entrave desde os primórdios –
primeiro, porque teve a deselegância de estar aqui antes dos
portugueses; em seguida, porque se rebelava ao ser escravizado pelos
invasores europeus. A sociedade brasileira se constituiu com essa ideia e
ainda que a própria sociedade tenha mudado em muitos aspectos, a
concepção do índio como um entrave persiste. E persiste de forma
impressionante, não só para uma parte significativa da população, mas
para setores do Estado, tanto no governo atual quanto nas gestões
passadas.
“Entraves” precisam ser removidos. E têm sido, de várias maneiras,
como a História, a passada e a presente, nos mostra. Talvez essa seja
uma das explicações possíveis para o impacto da carta de morte ter
alcançado um universo maior de pessoas. Desta vez, são os índios que nos
dizem algo que pode ser compreendido da seguinte forma: “É isso o que
vocês querem? Nos matar a todos? Então nós decidimos: vamos morrer”. Ao
devolver o desejo a quem o deseja, o impacto é grande.
É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte
coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo
menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto
muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas:
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para
os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As
experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O
nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si
um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano.
Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na
cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com
isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises
da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um
afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os
rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a
sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a
palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um
devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu
podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo
significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...)
Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em
palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida
como um todo.”
A fala, diz o antropólogo Spensy Pimentel, pesquisador do Centro de
Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo, é a parte mais sublime
do ser humano para os Guaranis Caiovás. “A palavra é o cerne da
resistência. Tem uma ação no mundo – é uma palavra que age. Faz as
coisas acontecerem, faz o futuro. O limite entre o discurso e a profecia
é tênue.”
Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela
palavra escrita, é interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis
Caiovás mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, é o
invasor/colonizador/conquistador/estrangeiro quem estranha e olha para
os índios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis Caiovás,
são os índios que olham para nós. O que nos dizem aqueles que nos veem?
(Ou o que veem aqueles que nos dizem?)
A declaração de morte dos Guaranis Caiovás é “palavra que age”. Antes
que o espasmo de nossa comoção de sofá migre para outra tragédia, talvez
valha a pena uma última pergunta: para nós, o que é a palavra?
Universidade rejeita acusações contra estudo que revela drama da "paternidade" gay
Mark Regnerus
Texas, 03 Set. 12 / 04:32 pm (ACI/EWTN Noticias).- Depois de uma pesquisa oficial, a Universidade do Texas em Austin (Estados Unidos) rejeitou as acusações de má conduta científica realizada por um ativista homossexual contra o professor de sociologia Mark Regnerus, logo depois da publicação de um estudo no qual encontrou resultados negativos na vida de crianças cujos pais eram casais do mesmo sexo.
O responsável de integridade da pesquisa da universidade, Robert Peterson, indicou que "revisou cuidadosamente" toda a informação disponível, e discutiu o caso com outros membros da mesa de pesquisa.
"Concluí que o professor Regnerus não cometeu má conduta científica", assinalou em um memorando dirigido às autoridades da universidade, em 24 de agosto.
O estudo de Regnerus recolheu informação do Estudo de Novas Estruturas Familiares, que examinou os resultados da vida de 3000 americanos entre 18 e 39 anos.
Regnerus encontrou que os lares encabeçados por pais de qualquer sexo, que estão comprometidos em relações homossexuais, mostram grande instabilidade.
O estudo descobriu diferenças "estatisticamente significativas" em 25 dos 40 resultados, entre crianças que cresceram com pais casados, de sexos opostos, e aquelas que cresceram com uma relação que tinha uma mãe envolvida em uma relação homossexual.
As crianças de lares com relações homossexuais femininas mostraram mais problemas de saúde física e mental, mais instabilidade nas relações românticas, e uma média inferior de ganhos econômicos ao alcançar a vida adulta.
Estas pessoas também mostraram altos níveis de desemprego, vício ao cigarro, necessidade de assistência pública e vinculação em crimes.
O ativista e blogueiro Scott Rose denunciou a Regnerus por supostas violações éticas, em uma carta remetida ao presidente da Universidade do Texas, Bill Powers. As autoridades universitárias se reuniram com Rose para dialogar sobre suas acusações.
Entretanto, Robert Peterson assinalou que "nenhuma das acusações de má conduta científica realizadas por Rose foi fundamentada, já seja por informação física, materiais escritos ou informação provida durante as entrevistas".
"Muitas das acusações estiveram expressamente fora do âmbito da pesquisa", indicou.
Peterson disse que Rose achava que a pesquisa de Regnerus tinha "graves deficiências" e "inferiu que poderia haver má conduta científica".
"De qualquer forma, não há evidencia para apoiar essa inferência", indicou.
Peterson acrescentou que qualquer problema com a pesquisa e a análise de Regnerus deveria ser deixado aos debates acadêmicos e futuras pesquisas.
Por sua parte, David Hacker, advogado principal do grupo de liberdade religiosa Alliance Defending Freedom, elogiou o resultado da pesquisa.
"As universidades dos Estados Unidos devem servir sempre para buscar a verdade, mercados de ideias livres", disse em 29 de agosto.
"Discrepar com as conclusões de um estudo não é campo para denúncias de má conduta científica; portanto não estamos surpreendidos de que essas acusações fossem declaradas sem fundamento".
A pesquisa envolveu um tempo e esforço significativo. Toda a informação dos computadores de Regnerus, incluindo seu correio eletrônico e documentos foram sequestrados.
A universidade criou um grupo de membros principais da faculdade para assessorar o processo de pesquisa, e a universidade manteve um consultor experiente independente, para monitorar a pesquisa.
As autoridades pesquisadoras entrevistaram tanto a Regnerus como a Rose. As entrevistas foram gravadas e transcritas por um jornalista da corte, revelou o memorando do Peterson.
O diretor e vice-presidente da Universidade, Steven Leslie, disse que aceitou a conclusão de Peterson, de que não há evidência de má conduta, em um memorando de 28 de agosto.
"Consequentemente, o caso está fechado", disse Leslie.
O relatório inicial sobre as descobertas de Regnerus gerou a reação do lobby gay. A Campanha de Direitos Humanos e a Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação criticaram o relatório da pesquisa.
Um grupo de 18 cientistas sociais assinaram uma declaração de apoio a Regnerus em junho. Eles admitiram que seu estudo tem limitações, mas eles consideraram que muitas das críticas contra ele eram "injustificadas".
Em uma entrevista dada a EWTN News em 12 de junho, Regnerus disse que começou seu projeto "sem ideia do que a informação revelaria".
Em seu anúncio da pesquisa em junho, Regnerus disse que sua descoberta "mais significativa" é "discutivelmente que as crianças parecem mais aptas para ter êxito como adultos quando passam suas vidas com seu pai e mãe casados, e especialmente quando os pais permanecem casados até a atualidade".
Universal
do Reino de Deus emitia boletos para serem pagos por familiares, que
por sua vez eram cobrados por leões de chácara bombados. Homossexuais
eram obrigados a virarem machos na marra, caso contrário, tinham aval
para serem estuprados
Dezesseis
presos da Ala Evangélica do Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC)
foram denunciados, pelo Ministério Público, por tortura, tráfico de
influência e extorsão. Outros 3 servidores de todos os níveis da unidade
foram identificados na prática do crime de corrupção e serão
investigados. Promotor de Justiça responsável pelo caso, Célio Wilson de
Oliveira explica que representantes de duas das 3 denominações
religiosas que realizam trabalhos junto aos presos estão envolvidos com o
esquema.
Os acusados
cobravam para que outros presos permanecessem na ala, além de obrigá-
los a frequentar cultos. Ficavam com 40% dos alimentos e produtos de
higiene levados por familiares e vendiam regalias por meio do pagamento
de propina. Uma das “facilidades” oferecida com a conivência e suposta
participação dos servidores eram indicações para o trabalho externo.
O esquema, que
arrecadava mensalmente cerca de R$ 15 mil, consistia na cobrança de
cotas diversas, para motivos estabelecidos pelos líderes das alas. Entre
eles a aquisição de televisores, geladeira, a manutenção do prédio e
outras reformas. Aqueles que se negavam a pagar eram alvo de
retaliações, como a perda do direito a dormir em um dos colchões da
unidade, além de sofrerem agressões físicas e ameaças, inclusive de
morte.
Em outra
frente, 40% de tudo o que os familiares dos presos levavam nas visitas
eram recolhidos pelos líderes e vendido aos reeducandos. Dos valores
arrecadados, uma parte era destinada aos líderes do esquema. Uma das
igrejas, a Universal do Reino de Deus, emitia boletos que deveriam ser
pagos por familiares utilizando, inclusive, dinheiro do
auxílio-reclusão, benefício concedido pelo Instituto Nacional da
Seguridade Social (INSS) para presos condenados que estavam trabalhando
com carteira assinada. Faturas foram apreendidas durante operação
realizada na unidade em 13 de abril deste ano.
As igrejas
escolhiam como líderes das alas pessoas de porte físico avantajado, que
se impunham sobre os outros presos, tudo para garantir o pagamento de
dízimo diariamente além de cotas quinzenais. Apenas uma das ações
descobertas pelo MP arrecadou mais de R$ 1 mil.
O tipo de
reeducando escolhido para liderar a denominação facilitava todo o
trabalho de arrecadação. “Se sozinho ele já se impunha perante os
outros, formando um grupo coeso e com o apoio ou a conivência da direção
da unidade eles se tornaram intocáveis dentro do CRC. Isso impedia
qualquer reação dos outros presos”.
Para Oliveira, o
domínio de reeducandos nas atividades do CRC, a exemplo do que ocorre
em outros presídios, é motivado pela falta de discernimento dos gestores
sobre o que deve ficar a cargo dos presos, aliado ao fato de que o
Poder Público é omisso quando se trata do sistema prisional. “A
concessão de regalias, a conivência com determinadas condutas e a
necessidade de pactuar com lideranças nem sempre positivas é uma
constante para que seja possível manter um mínimo de tranquilidade.”
O trabalho do
Ministério Público foi possibilitado por uma denúncia formal de um
familiar de um reeducando, ameaçado pela organização. Após o início das
investigações, pais, mães e esposas de presos relataram os problemas.
Mãe de um reeducando, que prefere não ser identificada, uma dona de casa
conta como tudo começou. “Cheguei um dia para visitar meu filho e toda a
alimentação que levei para ele, além de roupas, ficou retido com um
‘líder’. Perguntei para o meu filho e ele explicou que tinha que levar
dinheiro para resgatar os produtos. Era o dízimo”.
A mulher conta
que quando não conseguia juntar o dinheiro, recebia um boleto para o
pagamento durante a semana. O comprovante deveria ser levado na visita
seguinte. “Quando não chegava com o dinheiro, meu filho ficava
apavorado, porque sabia que ia ser humilhado, maltratado e até agredido
ou morto”.
Além do
pagamento, a mulher relata que os familiares eram também obrigados a
participar dos cultos promovidos nos dias de visitas.
Servidores
A participação
dos funcionários, explica o promotor Célio Wilson, ajuda a tornar claro
por qual motivo a rede de extorsão atingiu praticamente toda a unidade
prisional. Sem a conivência de servidores, era impossível aos
evangélicos conseguir atingir a ala conhecida como “contêiner”, uma das
melhores, na opinião dos presos.
Além de
supostamente corromper os funcionários da unidade - o caso será
investigado pela 14ª Promotoria de Justiça Criminal - os líderes do
esquema utilizavam da proximidade com a direção da unidade para realizar
as indicações. “Eles negociavam as vagas e se valiam da proximidade com
a direção da unidade para fazer as indicações, que muitas vezes eram
acatadas”.
Quem também era
obrigado a seguir as determinações da organização criminosa eram os
homossexuais. Matéria de 4 de março denunciava o “leilão” de travestis
que eram usados como “moeda” em trocas envolvendo os presos. Na
reportagem, o presidente da Organização Não Governamental (ONG)
LivreMente, Clóvis Arantes, explicava que os presos da ala evangélica
comandavam os leilões dentro do CRC.
Destaca que a
violência contra os travestis começa na entrada da unidade prisional,
quando são obrigados a raspar a cabeça e abandonar o nome social,
adotado, além de utilizar roupas masculinas. “É uma violência simbólica
exigida pelos detentos que irão conviver com os travestis e ocorre,
principalmente, onde existem as organizações evangélicas”. Aqueles que
não aceitam a imposição de reprimir a homossexualidade e decidem manter
sua orientação sexual, passam a ser considerados aptos a serem
estuprados por outros presos.
Quinta-feira, 13 de setembro de 2012 (ALC) - A professora Wanda Deifelt, do Luther College, de Decorah, Iowa, revelou, no painel sobre Tarefas da Teologia na América Latina, atividade realizada hoje no I Congresso Internacional da Faculdades EST, que o tráfico humano é a segunda fonte de riquezas no mundo, atrás apenas do narcotráfico.
"Identificar que essa realidade está ao nosso redor, sendo vivenciada inclusive aqui em São Leopoldo, também é tarefa da teologia", disse. Wanda destacou que a teologia está desafiada a oferecer esperança numa sociedade individualista, a nomear a realidade e explicá-la a todos.
"Não precisamos cometer suicídio intelectual para sermos cristãos, porque a nossa fé busca compreensão", destacou no mesmo painel o professor da Universidade de Stellenbosch, Nico Koopman, da África do Sul, ao afirmar a necessidade da religião e da ciência "cantarem juntas um dueto" ao invés de duelarem entre si.
Advindo da tradição reformada, Koopman enalteceu a importância da religião fomentar e promover a dignidade humana no contexto da integridade da Criação. "A religião que gostaríamos de vivenciar na esfera pública também precisa conviver com a realidade dual, ou seja, reconhecer a diversidade de etnias, gêneros, confissões e nacionalidades", frisou.
Oferecendo eco às declarações de Koppmann, o presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã, Dennis Smith, argumentou que o reconhecimento da diferença pode fazer com que "encontremos em outra expressão de fé algo que nos complete, sem abandonarmos o específico da nossa própria religiosidade."
Ao direcionar sua mirada para o contexto latino-americano, mas também global, Wanda Deifelt agregou que a teologia precisa promover a esperança, ser contextualizada, profética e dialogal. Além disso, pontuou, ela está diretamente relacionada aos espaços que a pessoa ocupa, seja o corpo físico, o corpo social, o corpo eclesiástico ou o corpo cósmico.
Na análise da professora do Luther College, pensar a teologia em termos dialogais significa ir ao encontro das diferenças para que "possamos pensar além daquilo que é previsto".
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Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Quinta-feira, 23 de agosto de 2012 (ALC) - O teólogo brasileiro Vítor Westhelle será o conferencista de abertura do I Congresso Internacional da Faculdades EST, evento que reunirá, de 10 a 14 de setembro, pesquisadores, estudantes e pessoas interessadas na temática Religião e sociedade: desafios contemporâneos.
Estarão presentes à cerimônia de abertura, agendada para às 20h do dia 10, no auditório do Colégio Sinodal, em São Paulo, o governador do Estado do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, e o embaixador da África do Sul, M.N. Mbete.
"A cerimônia de abertura evidencia o entrelaçamento da reflexão teológica e da prática religiosa com a sociedade", disse o coordenador do Congresso, professor Rudolf von Sinner, ao destacar a presença de autoridades no evento, o que evidencia a percepção do campo político sobre as contribuições oferecidas pelas religiões à sociedade.
Entre os palestras do Congresso estão o professor Dennis Smith, presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC, a sigla em inglês) de Buenos Aires, a ex-professora da EST, Dra. Wanda Deifelt, agora lotada no Luther College, Decorah, EUA, o professor Nico Koopman, da Universidade de Stellenbosch, África do Sul, o professor José de Souza Martins, da Universidade de São Paulo (USP), e a professora Magali Nascimento Cunha, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
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O pastor Charles
L. Worley da Igreja Batista de Providence Road em Maiden, na Carolina do
Norte, provocou uma enorme polêmica nos Estados Unidos ao propor, no
púlpito de sua igreja (vídeo abaixo) no último dia 13 de maio, a criação
de campos de concentração com cercas eletrificadas, de cerca de 100 a
150 milhas (de 155 a 233 km) de diâmetro, reunindo em um deles todas as
lésbicas, em outro todos os gays, jogar comida para eles (de avião ou
helicóptero, provavelmente), até que eles morram por causas naturais e -
assim - não existam mais homossexuais no país.
Por mais que seja
um exagero de retórica de profundo mau gosto contra a declaração do
presidente Barack Obama a favor do casamento gay, a pregação do pastor
Worley revela o quanto o discurso evangélico atual se tornou refém de um
debate político-ideológico sobre identidade sexual cujos excessos e
grosserias em nada contribuem para que vidas - inclusive dos
homossexuais - sejam transformadas pelo puro e simples evangelho de
Cristo. Mais afasta do que atrai.
Além disso, o
pastor Worley imagina que, uma vez confinados e exterminados todos os
homossexuais do seu país (ou do mundo, quiçá) por este método que,
digamos, lembra certas práticas alemãs de meados do século XX contra
judeus e homossexuais (entre outros), as novas gerações não produzirão
mais homossexuais. A não ser que já prevejam reaproveitar futuramente os
campos de concentração que - a essa altura do campeonato - estarão
vazios e sem serventia.
Se é esta a mensagem do evangelho para o século XXI, algo muito estranho está acontecendo com o cristianismo.
Brasília, sexta-feira, 4 de maio de 2012 (ALC) - Pelo menos 13 megaprojetos, em dez países da América Latina, preocupam e mobilizam povos indígenas do continente, que recorrem à internet para alinhar posições e organizar a resistência. "Nossos problemas são praticamente idênticos aos dos indígenas de outros países", disse o líder da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Marcos Apurinã.
Do Brasil, entram no rol de megaprojetos que atingem populações indígenas diretamente a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, e a transposição do Rio São Francisco, na região Nordeste. Movimentos sociais alegam que indígenas de 28 etnias que vivem na bacia do Rio Xingu serão atingidos pela usina, que diminuirá o fluxo do rio, reduzindo a quantidade de peixes. Na transposição, 18 povos, alguns deles sem território demarcado ainda, também terão suas áreas afetadas.
"Hoje os povos indígenas não podem mais fugir do homem branco, da tecnologia. Temos que nos atualizar, preparar-nos para encarar esse novo mundo", declarou o líder da Associação Sociocultural Yawanawá, Taschka Yawanawá, do Acre, ao repórter João Fellet, da BBC Brasil. Tashka tem um blog (awavena.blog.uol.com.br) na rede mundial de computadores e recorre à internet para realizar videoconferências com representantes de povos indígenas de países vizinhos.
A exploração de cobre em terras da comunidade mapuche de Mellao Morales e Huenctru Trawel Leufú, em Neuquén, Argentina, a exploração de cobre na reserva de Jach´a Suyu Pakajaqui, em Pacajes, a exploração de ouro no Chile na fronteira com a Argentina, trazem prejuízos ambientais aos indígenas huascas, são todos projetos que merecem a contestação do movimento indígena continental.
Embora cancelada momentaneamente, preocupa indígenas bolivianos a construção de rodovia cujo trajeto corta o Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis), na Província de Beni e Cochabamba. O corredor de transporte intermodal que deve ligar Tucamo, na Colômbia banhada pelo Pacífico, à Belém, no Pará, também é contestado por indígenas, assim como o corredor de Manta, no Equador, ligando esse porto a Manaus.
A construção de rodovia em Bolaños a Jueuquilla, no Estado de Jalisco, México, da rodovia que liga a América Central à Colômbia, a rodovia interoceânica prevista para ligar o Peru e o Brasil, o plano Puebla-Panamá são projetos de grande envergadura que têm impacto em áreas indígenas, que não querem ver seus territórios prejudicados.
"Preocupa-nos a nova forma de desenvolvimento conhecida com economia verde. Entendemos isso como um esforço para a exploração dos recursos naturais nos territórios indígenas", declarou à BBC Brasil o técnico da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), Rodrigo de La Cruz. A Coica agrupa indígenas do Equador, Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.
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Os jornais de Recife informavam: foram sepultados no fim da tarde de
quarta-feira, 29/02, os corpos do Revmo. Bispo Edward Robinson de Barros
Cavalcanti e sua esposa, Miriam Cotias Cavalcanti, no cemitério Morada
da Paz em Paulista, Região Metropolitana do Recife (PE). Os dois caixões
foram levados no veículo do Corpo de Bombeiros.
Igreja lotada no culto fúnebre do casal Cavalcanti
Espremida no meio de muitos, eu participei do culto fúnebre na
Paróquia Anglicana Emanuel, na Praça Dantas Barreto, em Olinda, onde me
encontrei entre uma legião de amigos, parentes, representantes de
organizações, o prefeito da cidade e fiéis de várias igrejas e
denominações da cidade. Muitos vieram de outros estados para prestar
homenagem a este tão querido casal. A mãe de dom Robinson, dona Geruza,
de 92 anos, veio de União dos Palmares, Alagoas, para acompanhar o
sepultamento do filho.
Cerca de quinhentas pessoas estavam no espaço com capacidade para
trezentas pessoas. O calor era intenso. A cerimônia foi conduzida pelos
bispos auxiliares Evilásio Tenório e Flávio Adair. Emocionados, os
presentes cantaram e ouviram relatos bíblicos lidos pelos celebrantes. O
Rev. Márcio José Souza Simões trouxe uma bela mensagem. Ele disse que
mesmo nos trinta anos que trabalhou como bombeiro, nunca tinha sido tão
comovido e impactado por uma tragédia. Falou sobre a vida dedicada do
bispo Robinson em movimentos, no ensino universitário, em livros e
artigos e pelas Dioceses Anglicanas pelo Brasil das quais, segundo ele,
haviam sido todas visitadas pessoalmente pelo bispo. Também foi lida a
mensagem enviada pelo Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams.
Miriam Cavalcanti foi muito elogiada durante a mensagem. Olhei em
volta de mim e vi que não eram poucas as mulheres vestidas com a
camiseta do ministério feminino da igreja. Antes dos caixões serem
levados para o cemitério, este grupo de mulheres cantou uma canção com
muita emoção. Uma participante do grupo nos contou depois que esta mesma
música seria cantada no mesmo dia e horário em um ensaio dirigido pela
própria Miriam. Robinson e Miriam eram muito amados e suas ausências
serão sentidas profundamente em Olinda, Recife e outras cidades.
O culto terminou com a benção que dom Robinson gostava de dar. Todos
falaram juntos: “Portanto irmãos e irmãs, vamos na paz de Cristo,
sejamos fortes e corajosos no testemunho do Evangelho entre todas as
pessoas, sirvamos ao Senhor com alegria! No poder do Espírito Santo!
Aleluia!”
___________________ Alison M Worrall mora em Recife (PE) e é representante da Rede Mãos Dadas no Nordeste.
Não perdi o juízo. Minha espiritualidade não foi a pique. Minhas
muitas tarefas não me esgotaram. Entretanto, não cessam os rótulos e os
diagnósticos sobre minha saúde espiritual. Escrevo, mas parece que as
minhas palavras chegam a ouvidos displicentes. Para alguns pareço vago,
para outros, fragmentado e inconsistente nas colocações (talvez seja
mesmo). Várias pessoas avisam que intercedem a Deus para que Ele me
acuda.
Minha peregrinação cristã está, há muito, marcada por rompimentos. O
primeiro, rachei com a Igreja Católica, onde nasci, fui batizado e fiz a
Primeira Comunhão. Em premonitórias inquietações não aceitava dogmas.
Pedi explicações a um padre sobre certas práticas que não faziam muito
sentido para mim. O sacerdote simplesmente deu as costas, mas antes
advertiu: “Meu filho, afaste-se dos protestantes, eles são um
problema!”.
Depois de ler a Bíblia, decidi sair do catolicismo; um escândalo para
uma família que se orgulhava de ter padres e freiras na árvore
genealógica – e nenhum “crente”. Aportei na Igreja Presbiteriana
Central de Fortaleza. Meus únicos amigos crentes vinham dessa
denominação. Enfronhei em muitas atividades. Membro ativo, freqüentei a
escola dominical, trabalhei com outros jovens na impressão de boletins,
organizei retiros e acampamentos. No cúmulo da vontade de servir, tentei
até cantar no coral – um desastre. Liderei a União de Mocidade. Enfim,
fiz tudo o que pude dentro daquela estrutura. Fui calvinista. Acreditei
por muito tempo que Deus, ao criar todas as coisas, ordenou que o
universo inteiro se movesse de acordo com sua presciência e soberania.
Aceitei tacitamente que certas pessoas vão para o céu e para o inferno
devido a uma eleição. Essa doutrina fazia sentido para mim até porque eu
me via um dos eleitos. Eu estava numa situação bem confortável. E podia
descansar: a salvação da minha alma estava desde sempre garantida.
Mesmo que caísse na gandaia, no último dia, de um jeito ou de outro, a
graça me resgataria. O propósito de Deus para minha vida nunca seria
frustrado, me garantiram.
Em determinada noite, fui a um culto pentecostal. O Espírito Santo me
visitou com ternura. Em êxtase, imerso no amor de Deus, falei em
línguas estranhas – um escândalo na comunidade reverente e bem
comportada. Sob o impacto daquele batismo, fui intimado a comparecer à
versão moderna da Inquisição. Numa minúscula sala, pastores e
presbíteros exigiram que eu negasse a experiência sob pena de ser
estigmatizado como reles pentecostal. Ameaçaram. Eu sofreria o primeiro
processo de expulsão, excomunhão, daquela igreja desde que se
estabelecera no século XIX. Ainda adolescente e debaixo do escrutínio
opressivo de uma gerontocracia inclemente, ouvi o xeque mate: “Peça para
sair, evite o trauma de um julgamento sumário. Poupe-nos de sermos
transformados em carrascos”. Às duas da madrugada, capitulei. Solicitei,
por carta, a saída. A partir daquele momento, deixei de ser
presbiteriano.
De novo estava no exílio. Meu melhor amigo, presidente da Aliança
Bíblica Universitária, pertencia a Assembleia de Deus e para lá fui. Era
mais um êxodo em busca de abrigo. Eu só queria uma comunidade onde
pudesse viver a fé. Cedo vi que a Assembleia de Deus estava
engessada. Sobravam legalismo, politicagem interna e ânsia de poder
temporal. Não custou e notei a instituição acorrentada por uma tradição
farisaica. Pior, iludia-se com sua grandeza numérica. Já pastor da
Betesda eu me tornava, de novo, um estorvo. Os processos que mantinham o
povo preso ao espírito de boiada me agrediam. Enquanto denunciava o
anacronismo assembleiano eu me indispunha. A estrutura amordaçava e eu
me via inibido em meu senso crítico. A geração de pastores que ascendia
se contentava em ficar quieta. Balançava a cabeça em aprovação aos
desmandos dos encastelados no poder. Mais uma vez, eu me encontrava numa
sinuca. De novo, precisei romper. Eu estava de saída da maior
denominação pentecostal do Brasil. Mas, pela primeira vez, eu me sentia
protegido. A querida Betesda me acompanhou.
Agora sinto necessidade de distanciar-me do Movimento Evangélico. Não
tenho medo. Depois de tantas rupturas mantenho o coração sóbrio. As
decepções não foram suficientes para azedar a minha alma, sequer fortes
para roubar a minha fé. “Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso”.
Estou crescentemente empolgado com as verdades bíblicas que revelam
Jesus de Nazaré. Aumenta a minha vontade de caminhar ao lado de gente
humana que ama o próximo. Sinto-me estranhamente atraído à beleza da
vida. Não cesso de procurar mentores. Estou aberto a amigos que me
inspirem a alma.
Então por que uma ruptura radical? Meus movimentos visam preservar a
minha alma da intolerância. Saio para não tornar-me um casmurro
rabugento. Não desejo acabar um crítico que nunca celebra e jamais se
encaixa onde a vida pulsa. Não me considero dono da verdade. Não carrego
a palmatória do mundo. Cresce em mim a consciência de que sou
imperfeito. Luto para não permitir que covardia me afaste do confronto
de meus paradoxos. Não nego: sou incapaz de viver tudo o que prego – a
mensagem que anuncio é muito mais excelente do que eu. A igreja que
pastoreio tem enormes dificuldades. Contudo, insisto com a necessidade
de rescindir com o que comumente se conhece como Movimento Evangélico.
1. Vejo-me incapaz de tolerar que o Evangelho se
transforme em negócio e o nome de Deus vire marca que vende bem. Não
posso aceitar, passivamente, que tentem converter os cristãos em
consumidores e a igreja, em balcão de serviços religiosos. Entendo que o
movimento evangélico nacional se apequenou. Não consegue vencer a
tentação de lucrar como empresa. Recuso-me a continuar esmurrando as
pontas de facas de uma religião que se molda à Babilônia.
2. Não consigo admirar a enorme maioria dos
formadores de opinião do movimento evangélico (principalmente os que se
valem da mídia). Conheço muitos de fora dos palcos e dos púlpitos. Sei
de histórias horrorosas, presenciei fatos inenarráveis e
testemunhei decisões execráveis. Sei que muitas eleições nas altas
cupulas denominacionais acontecem com casuísmos eleitoreiros imorais.
Estive na eleição para presidente de uma enorme denominação. Vi dois
zeladores do Centro de Convenções aliciados com dinheiro. Os dois
receberam crachá e votaram como pastores. Já ajudei em “cruzadas”
evangelísticas cujo objetivo se restringiu filmar a multidão, exibir nos
Estados Unidos e levantar dinheiro. O fim último era sustentar o
evangelista no luxo nababesco. Sou testemunha ocular de pastores que
depois de orar por gente sofrida e miserável debocharam delas, às
gargalhadas. Horrorizei-me com o programa da CNN em que algumas das
maiores lideranças do mundo evangélico americano apoiaram a guerra do
Iraque. Naquela noite revirei na cama sem dormir. Parecia impossível
acreditar que homens de Deus colocam a mão no fogo por uma política
beligerante e mentirosa de bombardear outro país. Como um movimento, que
se pretende portador das Boas Novas, sustenta uma guerra satânica,
apoiada pela indústria do petróleo.
3. No momento em que o sal perde o sabor para
nada presta senão para ser jogado fora e pisado pelos homens. Não
desejo me sentir parte de uma igreja que perde credibilidade por
priorizar a mensagem que promete prosperidade. Como conviver com uma
religião que busca especializar-se na mecânica das “preces poderosas”? O
que dizer de homens e mulheres que ensinam a virtude como degrau para o
sucesso? Não suporto conviver em ambientes onde se geram culpa e
paranoia como pretexto de ajudar as pessoas a reconhecerem a necessidade
de Deus.
4. Não consigo identificar-me com o
determinismo teológico que impera na maioria das igrejas evangélicas. Há
um fatalismo disfarçado que enxerga cada mínimo detalhe da existência
como parte da providência. Repenso as categorias teológicas que me
serviam de óculos para a leitura da Bíblia. Entendo que essa mudança de
lente se tornou ameaçadora. Eu, porém, preciso de lateralidade. Quero
dialogar com as ciências sociais. Preciso variar meus ângulos de
percepção. Não gosto de cabrestos. Patrulhamento e cenho franzido me
irritam . Senti na carne a intolerância e como o ódio está atrelado ao
conformismo teológico. Preciso me manter aberto à companhia de gente que
molda a vida, consciente ou inconsciente, pelos valores do Reino de
Deus sem medo de pensar, sonhar, sentir, rir e chorar. Desejo desfrutar
(curtir) uma espiritualidade sem a canga pesada do legalismo, sem o
hermético fundamentalismo, sem os dogmas estreitos dos saudosistas e sem
a estupidez dos que não dialogam sem rotular.
Não, não abandonarei a vocação de pastor. Não negligenciarei a
comunidade onde sirvo. Quero apenas experimentar a liberdade prometida
nos Evangelhos. Posso ainda não saber para onde vou, mas estou certo dos
caminhos por onde não devo seguir.
(Diário de Pernambuco) O
pastor da Igreja Anglicana, cientista político e ex-reitor da
Universidade Federal Rual de Pernambuco (UFRPE), Edward Robison
Cavalcanti, de 64 anos, e a esposa dele, a professora aposentada Mirian
Nunes Machado Cotias Cavalcanti, também de 64 anos foram assassinados na
casa da família, na Rua Barão de São Borja, número 305, em Jardim
Fragoso, Olinda.
De acordo com a policia, o autor do crime é
o filho adotivo do casal Eduardo Olímpio Cotias Cavalcanti, de 29 anos.
O rapaz morava nos Estados Unidos desde os 16 anos de idade e teria
voltado ao Brasil há cerca de 15 dias depois de ter sido preso no país
estrangeiro várias vezes por envolvimento com drogas e outros delitos.
Segundo
o reverendo Hermany Soares, amigo da família, quando Eduardo chegou ao
Brasil, ele foi buscá-lo no aeroporto e ainda no desembarque teria
perguntado onde compraria uma arma.
Ontem pela manhã, o
rapaz saiu de casa, foi beber na praia e voltou à tarde. À noite ele foi
visto amolando uma faca na frente do portão de casa. Por volta das 22
horas da noite, Eduardo começou a discutir com o pai, pegou a faca e
começou a golpear o idoso. A mãe foi defender o marido e também foi
esfaqueada.
O bispo Robison morreu no quarto. Já a mãe
ainda foi levada para o Hospital Tricentenário, em Olinda, com uma
facada no peito esquerdo, mas já chegou morta. Após o crime, Eduardo
tentou cometer suicídio ingerindo uma substância não identificada e
aplicando vários golpes de faca no próprio peito. Ele foi levado para o
Hospital da Restauração (HR) em uma viatura da Polícia Militar. Eduardo
estava passando por um processo de deportação.
Segundo
informações de parentes, o bispo Robinson foi o coordenador regional da
primeira campanha do ex-presidente Lula para presidente da República,
que o teria visitado em casa depois de eleito. O bispo também foi
candidato a deputado federal e proferiu palestras na ONU.
É
com grande pesar que a Igreja Anglicana - Diocese do Recife, comunica o
trágico falecimento do Reverendíssimo Bispo Diocesano, Dom Edward
Robinson de Barros Cavalcanti, e de sua esposa Miriam Cavalcanti,
ocorrido neste domingo 26/02/2012 por volta das 22h na cidade de
Olinda-PE.
A
família diocesana agradece a Deus pela vida e devotado ministério do
seu Pai em Deus, pastor, mestre e amigo, um verdadeiro profeta e mártir
do nosso tempo, que lutou pela causa do evangelho de Cristo, por Sua
igreja, bem como pela Comunhão Anglicana, e que contou sempre com sua
esposa que, como fiel ajudadora, o apoiou em todos os anos de seu
ministério.
Partiu para a Eternidade deixando um legado de serviço, amor e firmeza doutrinária, pelos quais essa Diocese continuará.
Oportunamente estaremos divulgando dia, horário e local do seu sepultamento.
A página Genizah trouxe a notícia de que a psicóloga Marisa Lobo está sob pressão do Conselho Regional de Psicologia ao qual está jurisdicionada. Esta pressão foi efetivada na forma de uma convocação à sede do CRP para tomar ciência de acusações de desvio ético profissional feitas por ativistas homossexuais e ateus. As supostas infrações seriam, pelo menos:
fazer proselitismo evangélico através do seu trabalho como psicóloga
defender posturas preconceituosos em relação aos homossexuais enquanto psicóloga
Marisa se diz vítima de perseguição religiosa - será?
Não parece sensato supor que nossos conselhos profissionais sejam instituições compostas por anjos destituídos de opiniões e agendas individuais; que ao avaliarem o comportamento ético profissional o façam sem nenhum viés pessoal; que ao interpretarem os códigos de deontologia inexistam opções filosóficas subsidiando esta atividade; que eles sejam corporativistas ao extremo para ignorar os clamores da sociedade multifacetada sobre o comportamento profissional de seus inscritos.
O episódio parece ter como fonte de informação a própria Marisa, e as falas atribuídas a ela mesma e ao CRP-8 são do seu próprio relato, sem o contexto no qual foram geradas. Nesta data, a página da instituição não se manifesta sobre o assunto (como é de se esperar em uma atuação legal de um conselho regional).
Há óbvias questões legais envolvidas sobre as quais nada é possível falar por falta de informações.
Art.
1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da
profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação
e a promoção e bem estar das pessoas e da humanidade.
Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu
conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o
desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra
aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.
Art.
3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a
patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem
adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para
tratamentos não solicitados.
Parágrafo
único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que
proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art.
4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de
pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de
modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos
homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.
Esta resolução foi alvo de ação judicial quanto a sua constitucionalidade, e que deu ganho de causa ao CFP.
A situação de Marisa Lobo não é inédita. A psicóloga Rosângela Justino foi punida através de censura pública pelo CRP-5 pela mesma razão (não deve ser por acaso que, em seu perfil do blogger, ela explicite ser seguidora do blog da mesma).
Marisa foi intimada a reformar suas páginas na internet (blog e página pessoal) em consonância com os ditames da resolução acima. Segundo o divulgado, ela não o fará, pois caso o fizesse, negaria sua identidade como psicóloga cristã.
Serão todos os outros psicólogos cristãos apóstatas? Por que apenas Marisa e Rosângela enfrentam problemas ético profissionais? Será a psicologia ciência de segunda categoria, incapaz de auxiliar aqueles que a procuram sem o auxílio da fé cristã? Segundo outra fonte, Marisa teria relatado:
“Quando mandei que me dessem um exemplo de cura da dependência química
só pela ajuda psicológica, ficaram em silêncio, eu disse que conheço
centenas de casos, falei das estatísticas das comunidades e serviços que
trabalham a fé, e dos meus 15 anos de trabalho na área vendo os
milagres da transformação, apenas por dar essa oportunidade as mães e
usuários de saberem que existe um Deus que pode tirá-los desse lixo que a
psicologia não tem conseguido. Claro que a situação ficou mais
crítica.”
Arrisco alinhavar algumas ideias:
há uma confusão generalizada sobre o que é pregar o Evangelho. Grupos estão em luta aberta contra o que chamam de "ditadura gay-nazista" e tomam um ponto focal, a sexualidade, como o cerne da mensagem da cruz, "que Jesus Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal". Confundem discipulado de novos cristãos com cristianização da sociedade, ou, dito de outra forma, o Reino de Deus é para ser imposto a todos, mesmo contra a vontade de todos. Exemplo maior, Júlio Severo, elogiado em um blog como o "primeiro exilado da ditadura gay brasileira". O blog em questão é um dos acompanhados por Marisa (será por acaso?)
falta a Marisa no mínimo jogo de cintura: onde está a prudência das serpentes e a simplicidade das pombas, recomendação que Jesus deu aos Seus discípulos ao enviá-los como ovelhas entre os lobos (Mt 10.16)
a página pessoal, psicologia cristã, a apresenta como profissional da psicologia, vende seus livros, fala de sua agenda junto a igrejas evangélicas, divulga entrevistas concedidas e seu curso sobre dependência química. A quem ela serve: à pessoa ou as ideias por ela defendidas? Qual a necessidade de publicar sua identidade profissional junto com estas ideias? para dar-lhes credibilidade e respeitabilidade?
como ela está sendo questionada diretamente sobre o cumprimento de uma resolução do seu Conselho Federal (quem, além da Rozângela Justino, desafiou sua legalidade?) dizer-se vítima de perseguição religiosa é deturpar os fatos. Há, certamente, um conflito entre a sua ideia de como deve ser o exercício profissional de uma pessoa com convicção religiosa e o órgão que disciplina este exercício profissional que se destina a todos os brasileiros, teístas ou não. Novamente pergunto: todos os outros psicólogos cristãos são apóstatas e covardes?
Marcelo Coelho, em sua coluna semanal na Folha de São Paulo, em 25/01/12, página E12 (caderno Ilustrada), traz, sob o título "Indesejáveis, porém cheirosos", algumas reflexões sobre a entrada dos mesmos no Brasil. Destaco alguns trechos:
"O primeiro passo para a degradação definitiva do ser humano é reduzi-lo a isso: um mero ser, sem papeis, sem língua, sem mais que a roupa do corpo.
Antes que sua aniquilação física seja vista como 'natural', 'inevitável' e mesmo 'desejável' (afinal, quem tem paciência para conviver com uma escória animalizada?), é preciso ocorrer a sua aniquilação civil
...
Destituídos de sua cidadania, os judeus da Alemanha entraram inicialmente num limbo legal. O processo continuou até que...já não eram nada mais que corpos, cadáveres vivos, para os quais a única 'solução' era acabar de vez com eles.
...
"Para o Estado, o imigrante sem papéis não existe'. Como não existe, sua morte - em última análise - não fará a menor diferença.
...
Na medida em que a liberdade do homem deixa de ser levada em consideração e se dá mais peso às determinações do meio ambiente ou da genética, oque existe de único em cada indivíduo perde valor."
No
último domingo, 22 de janeiro, uma área em São José dos Campos (SP)
conhecida como “Pinheirinho” foi alvo de uma grande operação da Polícia
Militar de São Paulo, que cumpriu um mandado de reintegração de posse,
retirando 6 mil moradores do terreno. Durante a ação policial houve
mortes, incluindo a de uma criança de três anos, que não foram
noticiadas na imprensa, mas foram confirmadas pelo presidente da
Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de
São José dos Campos, Aristeu César Pinto Neto. O Pinheirinho, que tem
mais de um milhão de metros quadrados, é uma das maiores ocupações
urbanas da América Latina e é o centro de uma enorme disputa judicial.
De um lado, figura Naji Nahas, dono do terreno, mega especulador
financeiro que deve milhões aos cofres públicos, tendo sido preso na
Operação Satiagraha, em 2008, por evasão de divisas e lavagem de
dinheiro. De outro lado, 1.600 famílias que ocuparam a área há cerca de
oito anos.
Não quero entrar no mérito sobre a
ilegalidade das ações da polícia paulista em Pinheirinho. Não que elas
não mereçam análise de mérito, mas a deixo a cargo daqueles que, com o
cinismo característico, perdem-se num interminável complexo de Adão, que
comeu a maçã por culpa de Eva, que a comeu por culpa da serpente. E a
serpente... bem, a serpente são os outros. O soldado matou porque o
coronel mandou. O coronel mandou porque o governador assim o requereu. E
para o governador, que descumpriu uma ordem federal para que
suspendesse a reintegração de posse, a culpa é da justiça.
Minha
pequena nota dirige-se, então, especificamente a algumas observações
que li nas redes sociais nos últimos dias sobre esse caso. Muitos
comentaram que todos os moradores do Pinheirinho são “vagabundos e
preguiçosos” por morarem em terreno “dos outros”, e, portanto, mereceram
ser expulsos de lá, mesmo à bala. Fiquei pensando no seguinte: segundo
dados recentes da ONU (The Chronic Poverty Report 2008-09), 1,2 bilhões
de pessoas no mundo vivem abaixo da linha da pobreza, isto é, com menos
de US$ 1,00 (um dólar) por dia para satisfazer todas as necessidades
pessoais. Desse total, cerca de 1 bi (um bilhão) vive em favelas
(UN-Habitat 2010), sendo que mais da metade está em áreas privadas sem
regularização por parte do Estado, como é o caso do Pinheirinho. Ou
seja, estamos falando em 500 milhões de “vagabundos e preguiçosos” ao
redor do mundo que precisam ser expulsos de suas casas com urgência.
Outros
comentários alegavam que os “vagabundos” desobedeceram à lei ao
ocuparem um terreno privado. Não lhes culpo por acharem assim, mas
talvez desconheçam que estamos aqui diante de uma colisão de normas do
sistema jurídico. A propriedade privada merece, sim, a proteção
constitucional e efetiva do Estado. Mas esta mesma Constituição
estabelece como máxima que a propriedade urbana somente deve ser
passível de proteção pelo Estado se atender à sua função social, o que
não é o caso do Pinheirinho, cujo terreno é mantido unicamente como
fruto de especulação financeira imobiliária. A ordem judicial paulista
de reintegração de posse, além de desconsiderar esse princípio
constitucional, descumpriu acordos internacionais firmados pelo Brasil
em matéria de moradia. Alguns deles são: Declaração Universal dos
Direitos Humanos (artigo 25); Pacto Internacional dos Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais (artigo 11); Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos (artigo 4, artigo 17); Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (artigo 5, e,
iii); Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
Contra as Mulheres (artigo 14.2); Convenção dos Direitos das Crianças
(artigo 27.3).
Deduzo que há nas entrelinhas de
tais comentários, e, principalmente no senso comum dos brasileiros, uma
falsa ideia de que o crescimento econômico faz/fará automaticamente, e
por si só, com que desapareçam as favelas. Entretanto, se, como propaga o
governo, dez milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema no Brasil,
outros vinte milhões ainda continuam à margem. Tudo num contexto em que é
extremamente rarefeita a ligação de pessoas sem moradia com o acesso à
saúde, à educação, ao trabalho digno. Defender a fundamentalidade
transcendente do direito à moradia a essas pessoas é reconhecer,
portanto, que a moradia traça uma linha divisória entre a pobreza e a
miséria extrema, entre a vulnerabilidade e absoluta vulnerabilidade, de
modo que um melhor acesso à segurança social requer de igual modo um
melhor acesso à moradia.
Ver a questão do
Pinheirinho e de outras comunidades, tais como “Dandara” em Belo
Horizonte (MG), fora das lentes da justiça social é caminhar por um viés
que privilegia um discurso monocromático, unilateral, indiferente a
outras condicionantes, e que flerta com a assimetria do poder de polícia
numa síntese da visão do mundo nietzchiana, que glorifica o poder e a
força. Atitudes semelhantes às do Governo Paulista tornam o Brasil, tão
avesso e carente de respostas globais a problemas coletivos, mais
impermeável ainda às condicionantes históricas de pobreza, miséria,
escravidão, pseudo-empregos, precário sistema de saúde, analfabetismo
total e funcional e déficit de maturidade democrática de sua população.
Quando se atenua a justiça, a democracia torna-se delgada. Onde seres
humanos são mortos por defenderem seu abrigo, a liberdade perde a sua
casa e a justiça é destinada a ser morta também.
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Áquila Mazzinghy é professor de Direito Internacional e Direitos Humanos.