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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Profissionais de saúde discutem testemunho cristão


Os Médicos de Cristo, organização filiada a RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) e ao ICMDA (International Christian and Dental Association), realizou nos dias 7 a 12 de outubro uma experiência inédita: promoveu um Seminário Internacional Itinerante nas cidades do Rio de Janeiro, Campinas, São Paulo e Belo Horizonte. Somando os eventos, obtivemos a participação de quase 200 profissionais de saúde.

Além dos preletores locais, o médico indiano Vinod Shah, CEO do ICMDA, e a médica holandesa Josephine Maat, membro da coordenação do Congresso Mundial do ICMDA que acontecerá em 2014, em Rotterdam, Holanda, trouxeram relevantes contribuições para capacitação dos presentes.

A temática “Desafios do profissional de saúde cristão no mundo pós-moderno” possibilitou a discussão e a tomada de posição dos profissionais de saúde presentes em torno da importância de mantermos a integridade em ambientes de corrupção. É digno de nota o fato que quanto o acesso e a qualidade dos serviços de saúde são prejudicados com o desvio de verbas destinadas à saúde.

Dilemas éticos, integralidade da missão e proclamação do evangelho no atendimento à saúde foram debatidos na perspectiva da expansão do reino de Deus, entendendo o campo de trabalho como campo missionário.

Frente a frente com os determinantes sociais da saúde (condições sociais nas quais as pessoas nascem, vivem, trabalham e envelhecem que influenciam na ocorrência de problemas de saúde e fatores de risco para a população) e iniquidades em saúde – evitáveis, injustas e desnecessárias – compreendeu-se porque os mais vulneráveis adoecem mais e morrem mais cedo. As discussões nos conduziram a uma reflexão profunda sobre a estrutura do sistema de saúde brasileiro, que requer participação ativa dos profissionais na defesa do direito constitucional à saúde.

Esse simpósio possibilitou também uma análise das clínicas de curto prazo realizadas sem planejamento e sem parceria com a comunidade local, com um cunho puramente assistencialista, sem ações que promovam uma participação ativa da população. A metodologia consistiu na análise de cartas de missionários relatando sua experiência e o retorno da liderança local. Essa atividade proporcionou um aprendizado fundamental no sentido de qualificar as clínicas de curta duração, uma das principais contribuições dos profissionais de saúde.

Todos foram conscientizados da relevância da incidência em políticas públicas, controle social e defesa de direitos. Ressaltou-se que os conselhos de direito podem ser importantes espaços de testemunho, serviço e exercício de nossa fé numa perspectiva cidadã e podem contribuir para o bem comum, especialmente no que tange ao acesso à saúde e ao fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde).

Nosso próximo encontro será em Campinas (SP) por ocasião do V CENPS – Congresso Evangélico Nacional de Profissionais de Saúde, no Lar Luterano Belém, que ocorrerá de 17 a 19 de outubro de 2014.

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Soraya Dias é presidente dos Médicos de Cristo e integra o Grupo Coordenador da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social).

terça-feira, 11 de junho de 2013

Sobre a violência e suas causas

Eduardo Ribeiro Mundim

Violência é um tema sempre presente. Todos nós já sofremos por sua causa, direta ou indiretamente, em algum grau. Suas origens são múltiplas e não é um assunto fácil de ser dissecado. Mas é um assunto sacado oportunamente em toda campanha eleitoral – apenas com intenções de angariar votos.

Em última análise, a violência nasce do coração pecaminoso do ser humano. Ou seja, ela tem sua origem na revolta da criatura, o ser humano, contra o Seu Criador.

Mas há outras análises possíveis, e que não contradizem a anterior. Mas frequentemente esclarecem que mecanismos operam no seio desta rebelião para que ela venha a existir de modo concreto na vida das pessoas.

Sendo tema fartamente utilizado a cada ano eleitoral, clichês se tornaram comuns a seu respeito. E é enfrentando estes ditos exaustivamente repetidos que duas reportagens do jornal Folha de São Paulo, do dia 09 de junho de 2013, trazem à tona novas (?) informações.

“Nem o avanço da economia livra o Brasil da violência”1 informa o aumento em 6 vezes dos homicídios nos últimos 30 anos, com o seu deslocamento para as regiões norte e nordeste. Coloca como causas a desigualdade econômica e social, o aumento da capacidade de consumo (com a consequente ampliação do desejo de ter e de desfrutar) e as dificuldades judiciárias no enfrentamento da situação.

“Nem a recessão impede a queda de crimes na Inglaterra”2 conta que o órgão estatal responsável pela estatística mostrou o mais baixo nível de violência naquele país nos últimos 30 anos. E isto apesar da situação econômica do Reino Unido não estar, atualmente, muito favorável. Situação semelhante ocorrem em outros países europeus. Os fatores levantados são a redução do uso de drogas, a queda no consumo de álcool, uso de melhores tecnologias de segurança, modernas técnicas de policiamento e o controle do porte de armas.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

“Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui”


A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão  
ELIANE BRUM

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA)




 - Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais. 

O trecho pertence à carta de um grupo de 170 indígenas que vivem à beira de um rio no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia dos Guaranis Caiovás), após receberem a notícia de que a Justiça Federal decretou sua expulsão da terra. São 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Decidiram ficar. E morrer como ato de resistência – morrer com tudo o que são, na terra que lhes pertence.

Há cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, que são documentos de fundação do Brasil: fundam uma nação, ainda sequer imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e sobre os habitantes que nela vivem. E há cartas, como a dos Guaranis Caiovás, escritas mais de 500 anos depois, que são documentos de falência. Não só no sentido da incapacidade do Estado-nação constituído nos últimos séculos de cumprir a lei estabelecida na Constituição hoje em vigor, mas também dos princípios mais elementares que forjaram nosso ideal de humanidade na formação do que se convencionou chamar de “o povo brasileiro”. A partir da carta dos Guaranis Caiovás, tornamo-nos cúmplices de genocídio. Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é. 

Os Guaranis Caiovás avisam-nos por carta que, depois de tantas décadas de luta para viver, descobriram que agora só lhes resta morrer. Avisam a todos nós que morrerão como viveram: coletivamente, conjugados no plural. 

Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os indígenas afirmam: 
- Queremos deixar evidente ao Governo e à Justiça Federal que, por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo. Não acreditamos mais na Justiça Brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy, onde já ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de suicídio, 2 em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano. Estamos sem assistência nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários de nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali está o cemitérios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (…) Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.

Como podemos alcançar o desespero de uma decisão de morte coletiva? Não podemos. Não sabemos o que é isso. Mas podemos conhecer quem morreu, morre e vai morrer por nossa ação – ou inação. E, assim, pelo menos aproximar nossos mundos, que até hoje têm na violência sua principal intersecção.

Desde o ínicio do século XX, com mais afinco a partir do Estado Novo (1937-45) de Getúlio Vargas, iniciou-se a ocupação pelos brancos da terra dos Guaranis Caiovás. Os indígenas, que sempre viveram lá, começaram a ser confinados em reservas pelo governo federal, para liberar suas terras para os colonos que chegavam, no que se chamou de “A Grande Marcha para o Oeste”. A visão era a mesma que até hoje persiste no senso comum: “terra desocupada” ou “não há ninguém lá, só índio”.  

Era de gente que se tratava, mas o que se fez na época foi confiná-los como gado, num espaço de terra pequeno demais para que pudessem viver ao seu modo – ou, na palavra que é deles, Teko Porã (“o Bem Viver”). Com a chegada dos colonos, os indígenas passaram a ter três destinos: ou as reservas ou trabalhar nas fazendas como mão de obra semiescrava ou se aprofundar na mata. Quem se rebelou foi massacrado. Para os Guaranis Caiovás, a terra a qual pertencem é a terra onde estão sepultados seus antepassados. Para eles, a terra não é uma mercadoria – a terra é. 

Na ditadura militar, nos anos 60 e 70, a colonização do Mato Grosso do Sul se intensificou. Um grande número de sulistas, gaúchos mais do que todos, migrou para o território para ocupar a terra dos índios. Outros despacharam peões e pistoleiros, administrando a matança de longe, bem acomodados em suas cidades de origem, onde viviam – e vivem até hoje – como “cidadãos de bem”, fingindo que não têm sangue nas mãos.  

Com a redemocratização do país, a Constituição de 1988 representou uma mudança de olhar e uma esperança de justiça. Os territórios indígenas deveriam ser demarcados pelo Estado no prazo de cinco anos. Como sabemos, não foi. O processo de identificação, declaração, demarcação e homologação das terras indígenas tem sido lento, sensível a pressões dos grandes proprietários de terras e da parcela retrógrada do agronegócio. E, mesmo naquelas terras que já estão homologadas, em muitas o governo federal não completou a desintrusão – a retirada daqueles que ocupam a terra, como posseiros e fazendeiros –, aprofundando os conflitos.

Nestas últimas décadas testemunhamos o genocídio dos Guaranis Caiovás. Em geral, a situação dos indígenas brasileiros é vergonhosa. A dos 43 mil Guaranis Caiovás, o segundo grupo mais numeroso do país, é considerada a pior de todas. Confinados em reservas como a de Dourados, onde cerca de 14 mil, divididos em 43 grupos familiares, ocupam 3,5 mil hectares, eles encontram-se numa situação de colapso. Sem poder viver segundo a sua cultura, totalmente encurralados, imersos numa natureza degradada, corroídos pelo alcoolismo dos adultos e pela subnutrição das crianças, os índices de homicídio da reserva são maiores do que em zonas em estado de guerra. 

A situação em Dourados é tão aterradora que provocou a seguinte afirmação da vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat: “A reserva de Dourados é talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo”. Segundo um relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que analisou os dados de 2003 a 2010, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 para cada 100 mil habitantes – no Iraque, o índice é de 93 assassinatos para cada 100 mil. Comparado à média brasileira, o índice de homicídios da Reserva de Dourados é 495% maior.  

A cada seis dias, um jovem Guarani Caiová se suicida. Desde 1980, cerca de 1500 tiraram a própria vida. A maioria deles enforcou-se num pé de árvore. Entre as várias causas elencadas pelos pesquisadores está o fato de que, neste período da vida, os jovens precisam formar sua família e as perspectivas de futuro são ou trabalhar na cana de açúcar ou virar mendigos. O futuro, portanto, é um não ser aquilo que se é. Algo que, talvez para muitos deles, seja pior do que a morte. 

Um relatório do Ministério da Saúde mostrou, neste ano, o que chamou de “dados alarmantes, se destacando tanto no cenário nacional quanto internacional”. Desde 2000, foram 555 suicídios, 98% deles por enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos. No Brasil, o índice de suicídios em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes. Entre os indígenas, no mesmo ano, foi de 65,68 por 100 mil. Em 2008, o índice de suicídios entre os Guaranis Caiovás chegou a 87,97 por 100 mil, segundo dados oficiais. Os pesquisadores acreditam que os números devem ser ainda maiores, já que parte dos suicídios é escondida pelos grupos familiares por questões culturais. 

As lideranças Guaranis Caiovás não permaneceram impassíveis diante deste presente sem futuro. Começaram a se organizar para denunciar o genocídio do seu povo e reivindicar o cumprimento da Constituição. Até hoje, mais de 20 delas morreram assassinadas por ferirem os interesses privados de fazendeiros da região, a começar por Marçal de Souza, em 1983, cujo assassinato ganhou repercussão internacional. Ao mesmo tempo, grupos de Guaranis Caiovás abandonaram o confinamento das reservas e passaram a buscar suas tekohá, terras originais, na luta pela retomada do território e do direito à vida. Alguns grupos ocuparam fundos de fazendas, outros montaram 30 acampamentos à beira da estrada, numa situação de absoluta indignidade. Tanto nas reservas quanto fora delas, a desnutrição infantil é avassaladora. 

A trajetória dos Guaranis Caiovás que anunciaram sua morte coletiva ilustra bem o destino ao qual o Estado brasileiro os condenou. Homens, mulheres e crianças empreenderam um caminho em busca da terra tradicional, localizada às margens do Rio Hovy, no município de Iguatemi (MS). Acamparam em sua terra no dia 8 de agosto de 2011, nos fundos de fazendas. Em 23 de agosto foram atacados e cercados por pistoleiros, a mando dos fazendeiros. Em um ano, os pistoleiros já derrubaram dez vezes a ponte móvel feitas por eles para atravessar um rio com 30 metros de largura e três de fundura. Em um ano, dois indígenas foram torturados e mortos pelos pistoleiros, outros dois se suicidaram.  

Em tentativas anteriores de recuperação desta mesma terra, os Guaranis Caiovás já tinham sido espancados e ameaçados com armas de fogo. Alguns deles tiveram seus olhos vendados e foram jogados na beira da estrada. Em outra ocasião, mulheres, velhos e crianças tiveram seus braços e pernas fraturados. O que a Justiça Federal fez? Deferiu uma ordem de despejo. Em nota, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) afirmou que “está trabalhando para reverter a decisão”. 

Os Guaranis Caiovás estão sendo assassinados há muito tempo, de todas as formas disponíveis, as concretas e as simbólicas. “A impunidade é a maior agressão cometida contra eles”, afirma Flávio Machado, coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul. Nas últimas décadas, há pelo menos duas formas interligadas de violência no processo de recuperação da terra tradicional dos indígenas: uma privada, das milícias de pistoleiros organizadas pelos fazendeiros; outra do Estado, perpetrada pela Justiça Federal, na qual parte dos juízes, sem qualquer conhecimento da realidade vivida na região, toma decisões que não só compactuam com a violência , como a acirram.  

“Quando os pistoleiros não conseguem consumar os despejos e massacres truculentos dos indígenas, os fazendeiros contratam advogados para conseguir a ordem de despejo na Justiça”, afirma Egon Heck, indigenista e cientista político, num artigo publicado em relatório do CIMI. “No momento em que ocorre a ordem de despejo, os agentes policiais agem de modo similar ao dos pistoleiros, visto que utilizam armas pesadas, queimam as ocas, ameaçam e assustam as crianças, mulheres e idosos.”  

Ao fundo, o quadro maior: os sucessivos governos que se alternaram no poder após a Constituição de 1988 foram incompetentes para cumpri-la. Ao final de seus dois mandatos, Lula reconheceu que deixava o governo com essa dívida junto ao povo Guarani Caiová. Legava a tarefa à sua sucessora, Dilma Rousseff. Os indígenas escreveram, então, uma carta: “Presidente Dilma, a questão das nossas terras já era para ter sido resolvida há décadas. Mas todos os governos lavaram as mãos e foram deixando a situação se agravar. Por ultimo, o ex-presidente Lula prometeu, se comprometeu, mas não resolveu. Reconheceu que ficou com essa dívida para com nosso povo Guarani Caiová e passou a solução para suas mãos. E nós não podemos mais esperar. Não nos deixe sofrer e ficar chorando nossos mortos quase todos os dias. Não deixe que nossos filhos continuem enchendo as cadeias ou se suicidem por falta de esperança de futuro (…) Devolvam nossas condições de vida que são nossos tekohá, nossas terras tradicionais. Não estamos pedindo nada demais, apenas os nossos direitos que estão nas leis do Brasil e internacionais”. 

A declaração de morte dos Guaranis Caiovás ecoou nas redes sociais na semana passada. Gerou uma comoção. Não é a primeira vez que indígenas anunciam seu desespero e seu genocídio. Em geral, quase ninguém escuta, para além dos mesmos de sempre, e o que era morte anunciada vira morte consumada. Talvez a diferença desta carta é o fato de ela ecoar algo que é repetido nas mais variadas esferas da sociedade brasileira, em ambientes os mais diversos, considerado até um comentário espirituoso em certos espaços intelectualizados: a ideia de que a sociedade brasileira estaria melhor sem os índios. 

Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui. 

Toda a História do Brasil, a partir da “descoberta” e da colonização, é marcada pelo olhar de que o índio é um entrave no caminho do “progresso” ou do “desenvolvimento”. Entrave desde os primórdios – primeiro, porque teve a deselegância de estar aqui antes dos portugueses; em seguida, porque se rebelava ao ser escravizado pelos invasores europeus. A sociedade brasileira se constituiu com essa ideia e ainda que a própria sociedade tenha mudado em muitos aspectos, a concepção do índio como um entrave persiste. E persiste de forma impressionante, não só para uma parte significativa da população, mas para setores do Estado, tanto no governo atual quanto nas gestões passadas.  
 “Entraves” precisam ser removidos. E têm sido, de várias maneiras, como a História, a passada e a presente, nos mostra. Talvez essa seja uma das explicações possíveis para o impacto da carta de morte ter alcançado um universo maior de pessoas. Desta vez, são os índios que nos dizem algo que pode ser compreendido da seguinte forma: “É isso o que vocês querem? Nos matar a todos? Então nós decidimos: vamos morrer”. Ao devolver o desejo a quem o deseja, o impacto é grande.  

É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas: 
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.” 
A fala, diz o antropólogo Spensy Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo, é a parte mais sublime do ser humano para os Guaranis Caiovás. “A palavra é o cerne da resistência. Tem uma ação no mundo – é uma palavra que age. Faz as coisas acontecerem, faz o futuro. O limite entre o discurso e a profecia é tênue.”

Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela palavra escrita, é interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis Caiovás mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, é o invasor/colonizador/conquistador/estrangeiro quem estranha e olha para os índios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis Caiovás, são os índios que olham para nós. O que nos dizem aqueles que nos veem? (Ou o que veem aqueles que nos dizem?)
A declaração de morte dos Guaranis Caiovás é “palavra que age”. Antes que o espasmo de nossa comoção de sofá migre para outra tragédia, talvez valha a pena uma última pergunta: para nós, o que é a palavra?

fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/10/decretem-nossa-extincao-e-nos-enterrem-aqui.html 

visão / versão radicalmente diferente do mesmo episódio em http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/titulo-falso-a-ilusao-de-um-paraiso

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Universidade rejeita acusações contra estudo que revela drama da "paternidade" gay

http://www.acidigital.com/noticia.php?id=24097#.UEuYkaFZRYI.facebook
Universidade rejeita acusações contra estudo que revela drama da "paternidade" gay

Mark Regnerus
Texas, 03 Set. 12 / 04:32 pm (ACI/EWTN Noticias).- Depois de uma pesquisa oficial, a Universidade do Texas em Austin (Estados Unidos) rejeitou as acusações de má conduta científica realizada por um ativista homossexual contra o professor de sociologia Mark Regnerus, logo depois da publicação de um estudo no qual encontrou resultados negativos na vida de crianças cujos pais eram casais do mesmo sexo.

O responsável de integridade da pesquisa da universidade, Robert Peterson, indicou que "revisou cuidadosamente" toda a informação disponível, e discutiu o caso com outros membros da mesa de pesquisa.

"Concluí que o professor Regnerus não cometeu má conduta científica", assinalou em um memorando dirigido às autoridades da universidade, em 24 de agosto.

O estudo de Regnerus recolheu informação do Estudo de Novas Estruturas Familiares, que examinou os resultados da vida de 3000 americanos entre 18 e 39 anos.

Regnerus encontrou que os lares encabeçados por pais de qualquer sexo, que estão comprometidos em relações homossexuais, mostram grande instabilidade.

O estudo descobriu diferenças "estatisticamente significativas" em 25 dos 40 resultados, entre crianças que cresceram com pais casados, de sexos opostos, e aquelas que cresceram com uma relação que tinha uma mãe envolvida em uma relação homossexual.

As crianças de lares com relações homossexuais femininas mostraram mais problemas de saúde física e mental, mais instabilidade nas relações românticas, e uma média inferior de ganhos econômicos ao alcançar a vida adulta.

Estas pessoas também mostraram altos níveis de desemprego, vício ao cigarro, necessidade de assistência pública e vinculação em crimes.

O ativista e blogueiro Scott Rose denunciou a Regnerus por supostas violações éticas, em uma carta remetida ao presidente da Universidade do Texas, Bill Powers. As autoridades universitárias se reuniram com Rose para dialogar sobre suas acusações.

Entretanto, Robert Peterson assinalou que "nenhuma das acusações de má conduta científica realizadas por Rose foi fundamentada, já seja por informação física, materiais escritos ou informação provida durante as entrevistas".

"Muitas das acusações estiveram expressamente fora do âmbito da pesquisa", indicou.

Peterson disse que Rose achava que a pesquisa de Regnerus tinha "graves deficiências" e "inferiu que poderia haver má conduta científica".

"De qualquer forma, não há evidencia para apoiar essa inferência", indicou.

Peterson acrescentou que qualquer problema com a pesquisa e a análise de Regnerus deveria ser deixado aos debates acadêmicos e futuras pesquisas.

Por sua parte, David Hacker, advogado principal do grupo de liberdade religiosa Alliance Defending Freedom, elogiou o resultado da pesquisa.

"As universidades dos Estados Unidos devem servir sempre para buscar a verdade, mercados de ideias livres", disse em 29 de agosto.

"Discrepar com as conclusões de um estudo não é campo para denúncias de má conduta científica; portanto não estamos surpreendidos de que essas acusações fossem declaradas sem fundamento".

A pesquisa envolveu um tempo e esforço significativo. Toda a informação dos computadores de Regnerus, incluindo seu correio eletrônico e documentos foram sequestrados.

A universidade criou um grupo de membros principais da faculdade para assessorar o processo de pesquisa, e a universidade manteve um consultor experiente independente, para monitorar a pesquisa.

As autoridades pesquisadoras entrevistaram tanto a Regnerus como a Rose. As entrevistas foram gravadas e transcritas por um jornalista da corte, revelou o memorando do Peterson.

O diretor e vice-presidente da Universidade, Steven Leslie, disse que aceitou a conclusão de Peterson, de que não há evidência de má conduta, em um memorando de 28 de agosto.

"Consequentemente, o caso está fechado", disse Leslie.

O relatório inicial sobre as descobertas de Regnerus gerou a reação do lobby gay. A Campanha de Direitos Humanos e a Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação criticaram o relatório da pesquisa.

Um grupo de 18 cientistas sociais assinaram uma declaração de apoio a Regnerus em junho. Eles admitiram que seu estudo tem limitações, mas eles consideraram que muitas das críticas contra ele eram "injustificadas".

Em uma entrevista dada a EWTN News em 12 de junho, Regnerus disse que começou seu projeto "sem ideia do que a informação revelaria".

Em seu anúncio da pesquisa em junho, Regnerus disse que sua descoberta "mais significativa" é "discutivelmente que as crianças parecem mais aptas para ter êxito como adultos quando passam suas vidas com seu pai e mãe casados, e especialmente quando os pais permanecem casados até a atualidade".

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Na cadeia, máfia de evangélicos denunciada por tortura, cobrança de dízimo e ameaça Leia Mais em: http://www.genizahvirtual.com/2012/09/na-cadeia-mafia-de-evangelicos.html#ixzz27hgLLnV1 Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial Share Alike

Universal do Reino de Deus emitia boletos para serem pagos por familiares, que por sua vez eram cobrados por leões de chácara bombados. Homossexuais eram obrigados a virarem machos na marra, caso contrário, tinham aval para serem estuprados



Dezesseis presos da Ala Evangélica do Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC) foram denunciados, pelo Ministério Público, por tortura, tráfico de influência e extorsão. Outros 3 servidores de todos os níveis da unidade foram identificados na prática do crime de corrupção e serão investigados. Promotor de Justiça responsável pelo caso, Célio Wilson de Oliveira explica que representantes de duas das 3 denominações religiosas que realizam trabalhos junto aos presos estão envolvidos com o esquema.

Os acusados cobravam para que outros presos permanecessem na ala, além de obrigá- los a frequentar cultos. Ficavam com 40% dos alimentos e produtos de higiene levados por familiares e vendiam regalias por meio do pagamento de propina. Uma das “facilidades” oferecida com a conivência e suposta participação dos servidores eram indicações para o trabalho externo.

O esquema, que arrecadava mensalmente cerca de R$ 15 mil, consistia na cobrança de cotas diversas, para motivos estabelecidos pelos líderes das alas. Entre eles a aquisição de televisores, geladeira, a manutenção do prédio e outras reformas. Aqueles que se negavam a pagar eram alvo de retaliações, como a perda do direito a dormir em um dos colchões da unidade, além de sofrerem agressões físicas e ameaças, inclusive de morte.

Em outra frente, 40% de tudo o que os familiares dos presos levavam nas visitas eram recolhidos pelos líderes e vendido aos reeducandos. Dos valores arrecadados, uma parte era destinada aos líderes do esquema. Uma das igrejas, a Universal do Reino de Deus, emitia boletos que deveriam ser pagos por familiares utilizando, inclusive, dinheiro do auxílio-reclusão, benefício concedido pelo Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) para presos condenados que estavam trabalhando com carteira assinada. Faturas foram apreendidas durante operação realizada na unidade em 13 de abril deste ano.

As igrejas escolhiam como líderes das alas pessoas de porte físico avantajado, que se impunham sobre os outros presos, tudo para garantir o pagamento de dízimo diariamente além de cotas quinzenais. Apenas uma das ações descobertas pelo MP arrecadou mais de R$ 1 mil.

O tipo de reeducando escolhido para liderar a denominação facilitava todo o trabalho de arrecadação. “Se sozinho ele já se impunha perante os outros, formando um grupo coeso e com o apoio ou a conivência da direção da unidade eles se tornaram intocáveis dentro do CRC. Isso impedia qualquer reação dos outros presos”.

Para Oliveira, o domínio de reeducandos nas atividades do CRC, a exemplo do que ocorre em outros presídios, é motivado pela falta de discernimento dos gestores sobre o que deve ficar a cargo dos presos, aliado ao fato de que o Poder Público é omisso quando se trata do sistema prisional. “A concessão de regalias, a conivência com determinadas condutas e a necessidade de pactuar com lideranças nem sempre positivas é uma constante para que seja possível manter um mínimo de tranquilidade.”

O trabalho do Ministério Público foi possibilitado por uma denúncia formal de um familiar de um reeducando, ameaçado pela organização. Após o início das investigações, pais, mães e esposas de presos relataram os problemas. Mãe de um reeducando, que prefere não ser identificada, uma dona de casa conta como tudo começou. “Cheguei um dia para visitar meu filho e toda a alimentação que levei para ele, além de roupas, ficou retido com um ‘líder’. Perguntei para o meu filho e ele explicou que tinha que levar dinheiro para resgatar os produtos. Era o dízimo”.

A mulher conta que quando não conseguia juntar o dinheiro, recebia um boleto para o pagamento durante a semana. O comprovante deveria ser levado na visita seguinte. “Quando não chegava com o dinheiro, meu filho ficava apavorado, porque sabia que ia ser humilhado, maltratado e até agredido ou morto”.

Além do pagamento, a mulher relata que os familiares eram também obrigados a participar dos cultos promovidos nos dias de visitas.

Servidores

A participação dos funcionários, explica o promotor Célio Wilson, ajuda a tornar claro por qual motivo a rede de extorsão atingiu praticamente toda a unidade prisional. Sem a conivência de servidores, era impossível aos evangélicos conseguir atingir a ala conhecida como “contêiner”, uma das melhores, na opinião dos presos.

Além de supostamente corromper os funcionários da unidade - o caso será investigado pela 14ª Promotoria de Justiça Criminal - os líderes do esquema utilizavam da proximidade com a direção da unidade para realizar as indicações. “Eles negociavam as vagas e se valiam da proximidade com a direção da unidade para fazer as indicações, que muitas vezes eram acatadas”.

Quem também era obrigado a seguir as determinações da organização criminosa eram os homossexuais. Matéria de 4 de março denunciava o “leilão” de travestis que eram usados como “moeda” em trocas envolvendo os presos. Na reportagem, o presidente da Organização Não Governamental (ONG) LivreMente, Clóvis Arantes, explicava que os presos da ala evangélica comandavam os leilões dentro do CRC.


Destaca que a violência contra os travestis começa na entrada da unidade prisional, quando são obrigados a raspar a cabeça e abandonar o nome social, adotado, além de utilizar roupas masculinas. “É uma violência simbólica exigida pelos detentos que irão conviver com os travestis e ocorre, principalmente, onde existem as organizações evangélicas”. Aqueles que não aceitam a imposição de reprimir a homossexualidade e decidem manter sua orientação sexual, passam a ser considerados aptos a serem estuprados por outros presos.


Leia Mais em: http://www.genizahvirtual.com/2012/09/na-cadeia-mafia-de-evangelicos.html#ixzz27hg9Jm00
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domingo, 16 de setembro de 2012

Tráfico humano é a segunda fonte de riqueza, aponta teóloga

Micael Vier B.


Quinta-feira, 13 de setembro de 2012 (ALC) - A professora Wanda Deifelt, do Luther College, de Decorah, Iowa, revelou, no painel sobre Tarefas da Teologia na América Latina, atividade realizada hoje no I Congresso Internacional da Faculdades EST, que o tráfico humano é a segunda fonte de riquezas no mundo, atrás apenas do narcotráfico.

"Identificar que essa realidade está ao nosso redor, sendo vivenciada inclusive aqui em São Leopoldo, também é tarefa da teologia", disse. Wanda destacou que a teologia está desafiada a oferecer esperança numa sociedade individualista, a nomear a realidade e explicá-la a todos.

"Não precisamos cometer suicídio intelectual para sermos cristãos, porque a nossa fé busca compreensão", destacou no mesmo painel o professor da Universidade de Stellenbosch, Nico Koopman, da África do Sul, ao afirmar a necessidade da religião e da ciência "cantarem juntas um dueto" ao invés de duelarem entre si.

Advindo da tradição reformada, Koopman enalteceu a importância da religião fomentar e promover a dignidade humana no contexto da integridade da Criação. "A religião que gostaríamos de vivenciar na esfera pública também precisa conviver com a realidade dual, ou seja, reconhecer a diversidade de etnias, gêneros, confissões e nacionalidades", frisou.

Oferecendo eco às declarações de Koppmann, o presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã, Dennis Smith, argumentou que o reconhecimento da diferença pode fazer com que "encontremos em outra expressão de fé algo que nos complete, sem abandonarmos o específico da nossa própria religiosidade."

Ao direcionar sua mirada para o contexto latino-americano, mas também global, Wanda Deifelt agregou que a teologia precisa promover a esperança, ser contextualizada, profética e dialogal. Além disso, pontuou, ela está diretamente relacionada aos espaços que a pessoa ocupa, seja o corpo físico, o corpo social, o corpo eclesiástico ou o corpo cósmico.

Na análise da professora do Luther College, pensar a teologia em termos dialogais significa ir ao encontro das diferenças para que "possamos pensar além daquilo que é previsto".


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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Religião e sociedade" reúne autoridades e teólogos

Quinta-feira, 23 de agosto de 2012 (ALC) - O teólogo brasileiro Vítor Westhelle será o conferencista de abertura do I Congresso Internacional da Faculdades EST, evento que reunirá, de 10 a 14 de setembro, pesquisadores, estudantes e pessoas interessadas na temática Religião e sociedade: desafios contemporâneos.

Estarão presentes à cerimônia de abertura, agendada para às 20h do dia 10, no auditório do Colégio Sinodal, em São Paulo, o governador do Estado do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, e o embaixador da África do Sul, M.N. Mbete.

"A cerimônia de abertura evidencia o entrelaçamento da reflexão teológica e da prática religiosa com a sociedade", disse o coordenador do Congresso, professor Rudolf von Sinner,  ao destacar a presença de autoridades no evento, o que evidencia a percepção do campo político sobre as contribuições oferecidas pelas religiões à sociedade.

Entre os palestras do Congresso estão o professor Dennis Smith, presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC, a sigla em inglês) de Buenos Aires, a ex-professora da EST, Dra. Wanda Deifelt, agora lotada no Luther College, Decorah, EUA, o professor Nico Koopman, da Universidade de Stellenbosch, África do Sul, o professor José de Souza Martins, da Universidade de São Paulo (USP), e a professora Magali Nascimento Cunha, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

As inscrições para o congresso podem ser efetuadas até o dia 3 de setembro, acessando http://www.est.edu.br/noticias/visualiza/vitor-westhelle-palestrara-na-abertura-do-i-congresso-internacional-da-faculdades-est

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terça-feira, 31 de julho de 2012

Cientistas dizem que aves e até polvos têm alguma consciência


Neurocientistas de prestígio lançam manifesto reforçando evidências sobre consciência dos animais 

Tecnologia permitiu ver que comportamentos afetivos e intencionais também acontecem nos bichos, diz o grupo

quais os impactos sobre a bioética (principalmente no campo de redução de sofrimento dos animais, e na defesa dos seus direitos)?

notícia completa em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/56042-cientistas-dizem-que-aves-e-ate-polvos-tem-alguma-consciencia.shtml

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pastor propõe campos de concentração para homossexuais

Hélio Pariz


O pastor Charles L. Worley da Igreja Batista de Providence Road em Maiden, na Carolina do Norte, provocou uma enorme polêmica nos Estados Unidos ao propor, no púlpito de sua igreja (vídeo abaixo) no último dia 13 de maio, a criação de campos de concentração com cercas eletrificadas, de cerca de 100 a 150 milhas (de 155 a 233 km) de diâmetro, reunindo em um deles todas as lésbicas, em outro todos os gays, jogar comida para eles (de avião ou helicóptero, provavelmente), até que eles morram por causas naturais e - assim - não existam mais homossexuais no país.

Por mais que seja um exagero de retórica de profundo mau gosto contra a declaração do presidente Barack Obama a favor do casamento gay, a pregação do pastor Worley revela o quanto o discurso evangélico atual se tornou refém de um debate político-ideológico sobre identidade sexual cujos excessos e grosserias em nada contribuem para que vidas - inclusive dos homossexuais - sejam transformadas pelo puro e simples evangelho de Cristo. Mais afasta do que atrai.

Além disso, o pastor Worley imagina que, uma vez confinados e exterminados todos os homossexuais do seu país (ou do mundo, quiçá) por este método que, digamos, lembra certas práticas alemãs de meados do século XX contra judeus e homossexuais (entre outros), as novas gerações não produzirão mais homossexuais. A não ser que já prevejam reaproveitar futuramente os campos de concentração que - a essa altura do campeonato - estarão vazios e sem serventia.

Se é esta a mensagem do evangelho para o século XXI, algo muito estranho está acontecendo com o cristianismo.





fonte: http://www.genizahvirtual.com/2012/05/pastor-americano-propoe-criar-campos-de.html#ixzz1vkLjLJXF

domingo, 6 de maio de 2012

Povos indígenas se articulam para impedir megaprojetos

Brasília, sexta-feira, 4 de maio de 2012 (ALC) - Pelo menos 13 megaprojetos, em dez países da América Latina, preocupam e mobilizam povos indígenas do continente, que recorrem à internet para alinhar posições e organizar a resistência. "Nossos problemas são praticamente idênticos aos dos indígenas de outros países", disse o líder da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Marcos Apurinã. 

Do Brasil, entram no rol de megaprojetos que atingem populações indígenas diretamente a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, no Pará, e a transposição do Rio São Francisco, na região Nordeste. Movimentos sociais alegam que indígenas de 28 etnias que vivem na bacia do Rio Xingu serão atingidos pela usina, que diminuirá o fluxo do rio, reduzindo a quantidade de peixes. Na transposição, 18 povos, alguns deles sem território demarcado ainda, também terão suas áreas afetadas.

"Hoje os povos indígenas não podem mais fugir do homem branco, da tecnologia. Temos que nos atualizar, preparar-nos para encarar esse novo mundo", declarou o líder da Associação Sociocultural Yawanawá, Taschka Yawanawá, do Acre, ao repórter João Fellet, da BBC Brasil. Tashka tem um blog (awavena.blog.uol.com.br) na rede mundial de computadores e recorre à internet para realizar videoconferências com representantes de povos indígenas de países vizinhos.

A exploração de cobre em terras da comunidade mapuche de Mellao Morales e Huenctru Trawel Leufú, em Neuquén, Argentina, a exploração de cobre na reserva de Jach´a Suyu Pakajaqui, em Pacajes, a exploração de ouro no Chile na fronteira com a Argentina, trazem prejuízos ambientais aos indígenas huascas, são todos projetos que merecem a contestação do movimento indígena continental.

Embora cancelada momentaneamente, preocupa indígenas bolivianos a construção de rodovia cujo trajeto corta o Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis), na Província de Beni e Cochabamba. O corredor de transporte intermodal que deve ligar Tucamo, na Colômbia banhada pelo Pacífico, à Belém, no Pará, também é contestado por indígenas, assim como o corredor de Manta, no Equador, ligando esse porto a Manaus.

A construção de rodovia em Bolaños a Jueuquilla, no Estado de Jalisco, México, da rodovia que liga a América Central à Colômbia, a rodovia interoceânica prevista para ligar o Peru e o Brasil, o plano Puebla-Panamá são projetos de grande envergadura que têm impacto em áreas indígenas, que não querem ver seus territórios prejudicados.

"Preocupa-nos a nova forma de desenvolvimento conhecida com economia verde. Entendemos isso como um esforço para a exploração dos recursos naturais nos territórios indígenas", declarou à BBC Brasil o técnico da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), Rodrigo de La Cruz. A Coica agrupa indígenas do Equador, Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

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sábado, 10 de março de 2012

Despedida de Robinson Cavalcanti

Os jornais de Recife informavam: foram sepultados no fim da tarde de quarta-feira, 29/02, os corpos do Revmo. Bispo Edward Robinson de Barros Cavalcanti e sua esposa, Miriam Cotias Cavalcanti, no cemitério Morada da Paz em Paulista, Região Metropolitana do Recife (PE). Os dois caixões foram levados no veículo do Corpo de Bombeiros.

Igreja lotada no culto fúnebre do casal Cavalcanti
Espremida no meio de muitos, eu participei do culto fúnebre na Paróquia Anglicana Emanuel, na Praça Dantas Barreto, em Olinda, onde me encontrei entre uma legião de amigos, parentes, representantes de organizações, o prefeito da cidade e fiéis de várias igrejas e denominações da cidade. Muitos vieram de outros estados para prestar homenagem a este tão querido casal. A mãe de dom Robinson, dona Geruza, de 92 anos, veio de União dos Palmares, Alagoas, para acompanhar o sepultamento do filho.

Cerca de quinhentas pessoas estavam no espaço com capacidade para trezentas pessoas. O calor era intenso. A cerimônia foi conduzida pelos bispos auxiliares Evilásio Tenório e Flávio Adair. Emocionados, os presentes cantaram e ouviram relatos bíblicos lidos pelos celebrantes. O Rev. Márcio José Souza Simões trouxe uma bela mensagem. Ele disse que mesmo nos trinta anos que trabalhou como bombeiro, nunca tinha sido tão comovido e impactado por uma tragédia. Falou sobre a vida dedicada do bispo Robinson em movimentos, no ensino universitário, em livros e artigos e pelas Dioceses Anglicanas pelo Brasil das quais, segundo ele, haviam sido todas visitadas pessoalmente pelo bispo. Também foi lida a mensagem enviada pelo Arcebispo de Cantuária, Rowan Williams.

Miriam Cavalcanti foi muito elogiada durante a mensagem. Olhei em volta de mim e vi que não eram poucas as mulheres vestidas com a camiseta do ministério feminino da igreja. Antes dos caixões serem levados para o cemitério, este grupo de mulheres cantou uma canção com muita emoção. Uma participante do grupo nos contou depois que esta mesma música seria cantada no mesmo dia e horário em um ensaio dirigido pela própria Miriam. Robinson e Miriam eram muito amados e suas ausências serão sentidas profundamente em Olinda, Recife e outras cidades.

O culto terminou com a benção que dom Robinson gostava de dar. Todos falaram juntos: “Portanto irmãos e irmãs, vamos na paz de Cristo, sejamos fortes e corajosos no testemunho do Evangelho entre todas as pessoas, sirvamos ao Senhor com alegria! No poder do Espírito Santo! Aleluia!”
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Alison M Worrall mora em Recife (PE) e é representante da Rede Mãos Dadas no Nordeste.

fonte: http://ultimato.com.br/sites/paralelo10/2012/03/despedida/ 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tempo de partir

Ricardo Gondim

Não perdi o juízo. Minha espiritualidade não foi a pique. Minhas muitas tarefas não me esgotaram. Entretanto, não cessam os rótulos e os diagnósticos sobre minha saúde espiritual. Escrevo, mas parece que as minhas palavras chegam a ouvidos displicentes. Para alguns pareço vago, para outros, fragmentado e inconsistente nas colocações (talvez seja mesmo). Várias pessoas avisam que intercedem a Deus para que Ele me acuda.
Minha peregrinação cristã está, há muito,  marcada por rompimentos. O primeiro, rachei com a Igreja Católica, onde nasci, fui batizado e fiz a Primeira Comunhão. Em premonitórias inquietações não aceitava dogmas. Pedi explicações a um padre sobre certas práticas que não faziam muito sentido para mim. O sacerdote simplesmente deu as costas, mas antes advertiu: “Meu filho, afaste-se dos protestantes, eles são um problema!”.
Depois de ler a Bíblia, decidi sair do catolicismo; um escândalo para uma família que se orgulhava de ter padres e freiras na árvore genealógica –  e nenhum “crente”. Aportei na Igreja Presbiteriana Central de Fortaleza.  Meus únicos amigos crentes vinham dessa denominação. Enfronhei em muitas atividades. Membro ativo, freqüentei a escola dominical, trabalhei com outros jovens na impressão de boletins, organizei retiros e acampamentos. No cúmulo da vontade de servir, tentei até cantar no coral – um desastre. Liderei a União de Mocidade. Enfim, fiz tudo o que pude dentro daquela estrutura. Fui calvinista.  Acreditei por muito tempo que Deus, ao criar todas as coisas, ordenou que o universo inteiro se movesse de acordo com sua presciência e soberania. Aceitei tacitamente que certas pessoas vão para o céu e para o inferno devido a uma eleição. Essa doutrina fazia sentido para mim até porque eu me via um dos eleitos. Eu estava numa situação bem confortável. E podia descansar: a salvação da minha alma estava desde sempre garantida. Mesmo que caísse na gandaia, no último dia, de um jeito ou de outro, a graça me resgataria. O propósito de Deus para minha vida nunca seria frustrado, me garantiram.
Em determinada noite, fui a um culto pentecostal. O Espírito Santo me visitou com ternura. Em êxtase, imerso no amor de Deus, falei em línguas estranhas – um escândalo na comunidade reverente e bem comportada. Sob o impacto daquele batismo, fui intimado a comparecer à versão moderna da Inquisição. Numa minúscula sala, pastores e presbíteros exigiram que eu negasse a experiência sob pena de ser estigmatizado como reles pentecostal. Ameaçaram. Eu sofreria o primeiro processo de expulsão, excomunhão, daquela igreja desde que se estabelecera no século XIX. Ainda adolescente e debaixo do escrutínio opressivo de uma gerontocracia inclemente, ouvi o xeque mate: “Peça para sair, evite o trauma de um julgamento sumário. Poupe-nos de sermos transformados em carrascos”. Às duas da madrugada, capitulei. Solicitei, por carta, a saída. A partir daquele momento, deixei de ser presbiteriano.
De novo estava no exílio. Meu melhor amigo, presidente da Aliança Bíblica Universitária, pertencia a Assembleia de Deus e para lá fui. Era mais um êxodo em busca de abrigo. Eu só queria uma comunidade onde pudesse viver a fé. Cedo vi que a Assembleia de Deus estava engessada. Sobravam legalismo, politicagem interna e ânsia de poder temporal. Não custou e notei a instituição acorrentada por uma tradição farisaica. Pior, iludia-se com sua grandeza numérica. Já pastor da Betesda eu me tornava, de novo, um estorvo. Os processos que mantinham o povo preso ao espírito de boiada me agrediam. Enquanto denunciava o anacronismo assembleiano eu me indispunha. A estrutura amordaçava e eu me via inibido em meu senso crítico. A geração de pastores que ascendia se contentava em ficar quieta. Balançava a cabeça em aprovação aos desmandos dos encastelados no poder. Mais uma vez, eu me encontrava numa sinuca. De novo,  precisei romper. Eu estava de saída da maior denominação pentecostal do Brasil. Mas, pela primeira vez, eu me sentia protegido. A querida Betesda me acompanhou.
Agora sinto necessidade de distanciar-me do Movimento Evangélico. Não tenho medo. Depois de tantas rupturas mantenho o coração sóbrio. As decepções não foram suficientes para azedar a minha alma, sequer fortes para roubar a minha fé. “Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso”.
Estou crescentemente empolgado com as verdades bíblicas que revelam Jesus de Nazaré. Aumenta a minha vontade de caminhar ao lado de gente humana que ama o próximo. Sinto-me estranhamente atraído à beleza da vida. Não cesso de procurar mentores. Estou aberto a amigos que me inspirem a alma.
Então por que uma ruptura radical? Meus movimentos visam preservar a minha alma da intolerância.  Saio para não tornar-me um casmurro rabugento. Não desejo acabar um crítico que nunca celebra e jamais se encaixa onde a vida pulsa. Não me considero dono da verdade. Não carrego a palmatória do mundo. Cresce em mim a consciência de que sou imperfeito. Luto para não permitir que covardia me afaste do confronto de meus  paradoxos. Não nego: sou incapaz de viver tudo o que prego – a  mensagem que anuncio é muito mais excelente do que eu. A igreja que pastoreio tem enormes dificuldades. Contudo, insisto com a necessidade de rescindir com o que comumente se conhece como Movimento Evangélico.
1.     Vejo-me incapaz de tolerar que o Evangelho se transforme em negócio e o nome de Deus vire marca que vende bem. Não posso aceitar, passivamente, que tentem converter os cristãos em consumidores e a igreja, em balcão de serviços religiosos. Entendo que o movimento evangélico nacional se apequenou. Não consegue vencer a tentação de lucrar como empresa. Recuso-me a continuar esmurrando as pontas de facas de uma religião que se molda à Babilônia.
2.       Não consigo admirar a enorme maioria dos formadores de opinião do movimento evangélico (principalmente os que se valem da mídia). Conheço muitos de fora dos palcos e dos púlpitos. Sei de histórias horrorosas, presenciei fatos inenarráveis e testemunhei decisões execráveis. Sei que muitas eleições nas altas cupulas denominacionais acontecem com casuísmos eleitoreiros imorais. Estive na eleição para presidente de uma enorme denominação. Vi dois zeladores do Centro de Convenções aliciados com dinheiro. Os dois receberam crachá e votaram como pastores. Já ajudei em “cruzadas” evangelísticas cujo objetivo se restringiu filmar a multidão, exibir nos Estados Unidos e levantar dinheiro. O fim último era sustentar o evangelista no luxo nababesco. Sou testemunha ocular de pastores que depois de orar por gente sofrida e miserável debocharam delas, às gargalhadas. Horrorizei-me com o programa da CNN em que algumas das maiores lideranças do mundo evangélico americano apoiaram a guerra do Iraque. Naquela noite revirei na cama sem dormir. Parecia impossível acreditar que homens de Deus colocam a mão no fogo por uma política beligerante e mentirosa de bombardear outro país. Como um movimento, que se pretende portador das Boas Novas, sustenta uma guerra satânica, apoiada pela indústria do petróleo.
3.       No momento em que o sal perde o sabor para nada presta senão para ser jogado fora e pisado pelos homens. Não desejo me sentir parte de uma igreja que perde credibilidade por priorizar a mensagem que promete prosperidade. Como conviver com uma religião que busca especializar-se na mecânica das “preces poderosas”? O que dizer de homens e mulheres que ensinam a virtude como degrau para o sucesso? Não suporto conviver em ambientes onde se geram culpa e paranoia como pretexto de ajudar as pessoas a reconhecerem a necessidade de Deus.
4.       Não consigo identificar-me com o determinismo teológico que impera na maioria das igrejas evangélicas. Há um fatalismo disfarçado que enxerga cada mínimo detalhe da existência como parte da providência. Repenso as categorias teológicas que me serviam de óculos para a leitura da Bíblia. Entendo que essa mudança de lente se tornou ameaçadora. Eu, porém, preciso de lateralidade. Quero dialogar  com as ciências sociais. Preciso variar meus ângulos de percepção. Não gosto de cabrestos. Patrulhamento e cenho franzido me irritam . Senti na carne a intolerância e como o ódio está atrelado ao conformismo teológico. Preciso me manter aberto à companhia de gente que molda a vida, consciente ou inconsciente, pelos valores do Reino de Deus sem medo de pensar, sonhar, sentir, rir e chorar. Desejo desfrutar (curtir)  uma espiritualidade sem a canga pesada do legalismo, sem o hermético fundamentalismo, sem os dogmas estreitos dos saudosistas e sem a estupidez dos que não dialogam sem rotular.
Não, não abandonarei a vocação de pastor. Não negligenciarei a comunidade onde sirvo. Quero apenas experimentar a liberdade prometida nos Evangelhos. Posso ainda não saber para onde vou, mas estou certo dos caminhos por onde não devo seguir.
 Soli Deo Gloria

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

D. Robinson Cavalcanti e esposa são assassinados

(Diário de Pernambuco) O pastor da Igreja Anglicana, cientista político e ex-reitor da Universidade Federal Rual de Pernambuco (UFRPE), Edward Robison Cavalcanti, de 64 anos, e a esposa dele, a professora aposentada Mirian Nunes Machado Cotias Cavalcanti, também de 64 anos foram assassinados na casa da família, na Rua Barão de São Borja, número 305, em Jardim Fragoso, Olinda.

De acordo com a policia, o autor do crime é o filho adotivo do casal Eduardo Olímpio Cotias Cavalcanti, de 29 anos. O rapaz morava nos Estados Unidos desde os 16 anos de idade e teria voltado ao Brasil há cerca de 15 dias depois de ter sido preso no país estrangeiro várias vezes por envolvimento com drogas e outros delitos.
 
Segundo o reverendo Hermany Soares, amigo da família, quando Eduardo chegou ao Brasil, ele foi buscá-lo no aeroporto e ainda no desembarque teria perguntado onde compraria uma arma.
 
Ontem pela manhã, o rapaz saiu de casa, foi beber na praia e voltou à tarde. À noite ele foi visto amolando uma faca na frente do portão de  casa. Por volta das 22 horas da noite, Eduardo começou a discutir com o pai, pegou a faca e começou a golpear o idoso. A mãe foi defender o marido e também foi esfaqueada.
 
O bispo Robison morreu no quarto. Já a mãe ainda foi levada para o Hospital Tricentenário, em Olinda, com uma facada no peito esquerdo, mas já chegou morta. Após o crime, Eduardo tentou cometer suicídio ingerindo uma substância não identificada e aplicando vários golpes de faca no próprio peito. Ele foi levado para o Hospital da Restauração (HR) em uma viatura da Polícia Militar. Eduardo estava passando por um processo de deportação.
 
Segundo informações de parentes, o bispo Robinson foi o coordenador regional da primeira campanha do ex-presidente Lula para presidente da República, que o teria visitado em casa depois de eleito. O bispo também foi candidato a deputado federal e proferiu palestras na ONU.

Morre D. Robinson Cavalcante

 
É com grande pesar que a Igreja Anglicana - Diocese do Recife, comunica o trágico falecimento do  Reverendíssimo Bispo Diocesano, Dom Edward Robinson de Barros Cavalcanti, e de sua esposa Miriam Cavalcanti, ocorrido neste domingo 26/02/2012 por volta das 22h na cidade de Olinda-PE.
A família diocesana agradece a Deus pela vida e devotado ministério do seu Pai em Deus, pastor, mestre e amigo, um verdadeiro profeta e mártir do nosso tempo, que lutou pela causa do evangelho de Cristo, por Sua igreja, bem como pela Comunhão Anglicana, e que contou sempre com sua esposa que, como fiel ajudadora, o apoiou em todos os anos de seu ministério.
Partiu para a Eternidade deixando um legado de serviço, amor e firmeza doutrinária, pelos quais essa Diocese continuará.
Oportunamente estaremos divulgando dia, horário e local do seu sepultamento.
Revmº Bispo Evilásio Tenório – Bispo Sufragâneo Eleito
Revmº Bispo Flávio Adair – Bispo Sufragâneo Eleito
Rev. Márcio Simões – Presidente do Conselho Diocesano

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Psicóloga perseguida por razões religiosas? Algumas questões

Eduardo Ribeiro Mundim

A página Genizah trouxe a notícia de que a psicóloga Marisa Lobo está sob pressão do Conselho Regional de Psicologia ao qual está jurisdicionada. Esta pressão foi efetivada na forma de uma convocação à sede do CRP para tomar ciência de acusações de desvio ético profissional feitas por ativistas homossexuais e ateus. As supostas infrações seriam, pelo menos:
  • fazer proselitismo evangélico através do seu trabalho como psicóloga
  • defender posturas preconceituosos em relação aos homossexuais enquanto psicóloga
 Marisa se diz vítima de perseguição religiosa - será?

Não parece sensato supor que nossos conselhos profissionais sejam instituições compostas por anjos destituídos de opiniões e agendas individuais; que ao avaliarem o comportamento ético profissional o façam sem nenhum viés pessoal; que ao interpretarem os códigos de deontologia inexistam opções filosóficas subsidiando esta atividade; que eles sejam corporativistas ao extremo para ignorar os clamores da sociedade multifacetada sobre o comportamento profissional de seus inscritos.

O episódio parece ter como fonte de informação a própria Marisa, e as falas atribuídas a ela mesma e ao CRP-8 são do seu próprio relato, sem o contexto no qual foram geradas. Nesta data, a página da instituição não se manifesta sobre o assunto (como é de se esperar em uma atuação legal de um conselho regional).

Há óbvias questões legais envolvidas sobre as quais nada é possível falar por falta de informações.

O mote parecer ser o posicionamento de Marisa a respeito da homossexualidade, em desacordo com o estabelecido por resolução do Conselho Federal de Psicologia em 1999:

Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e bem estar das pessoas e da humanidade.

Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.

Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.

Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.

Esta resolução foi alvo de ação judicial quanto a sua constitucionalidade, e que deu ganho de causa ao CFP.

A situação de  Marisa Lobo não é inédita. A psicóloga Rosângela Justino foi punida através de censura pública pelo CRP-5 pela mesma razão (não deve ser por acaso que, em seu perfil do blogger, ela explicite ser seguidora do blog da mesma).

Marisa foi intimada a reformar suas páginas na internet (blog e página pessoal) em consonância com os ditames da resolução acima. Segundo o divulgado, ela não o fará, pois caso o fizesse, negaria sua identidade como psicóloga cristã.

Serão todos os outros psicólogos cristãos apóstatas? Por que apenas Marisa e Rosângela enfrentam problemas ético profissionais? Será a psicologia ciência de segunda categoria, incapaz de auxiliar aqueles que a procuram sem o auxílio da fé cristã? Segundo outra fonte, Marisa teria relatado: 

“Quando mandei que me dessem um exemplo de cura da dependência química só pela ajuda psicológica, ficaram em silêncio, eu disse que conheço centenas de casos, falei das estatísticas das comunidades e serviços que trabalham a fé, e dos meus 15 anos de trabalho na área vendo os milagres da transformação, apenas por dar essa oportunidade as mães e usuários de saberem que existe um Deus que pode tirá-los desse lixo que a psicologia não tem conseguido. Claro que a situação ficou mais crítica.”

Arrisco alinhavar algumas ideias:
  1. há uma confusão generalizada sobre o que é pregar o Evangelho. Grupos estão em luta aberta contra o que chamam de "ditadura gay-nazista" e tomam um ponto focal, a sexualidade, como o cerne da mensagem da cruz, "que Jesus Cristo veio salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal". Confundem discipulado de novos cristãos com cristianização da sociedade, ou, dito de outra forma, o Reino de Deus é para ser imposto a todos, mesmo contra a vontade de todos. Exemplo maior, Júlio Severo, elogiado em um blog como o "primeiro exilado da ditadura gay brasileira". O blog em questão é um dos acompanhados por Marisa (será por acaso?)
  2. falta a Marisa no mínimo jogo de cintura: onde está a prudência das serpentes e a simplicidade das pombas, recomendação que Jesus deu aos Seus discípulos ao enviá-los como ovelhas entre os lobos (Mt 10.16)
  3. a página pessoal, psicologia cristã, a apresenta como profissional da psicologia, vende seus livros, fala de sua agenda junto a igrejas evangélicas, divulga entrevistas concedidas e seu curso sobre dependência química. A quem ela serve: à pessoa ou as ideias por ela defendidas? Qual a necessidade de publicar sua identidade profissional junto com estas ideias? para dar-lhes credibilidade e respeitabilidade?
  4. como ela está sendo questionada diretamente sobre o cumprimento de uma resolução do seu Conselho Federal (quem, além da Rozângela Justino, desafiou sua legalidade?) dizer-se vítima de perseguição religiosa é deturpar os fatos. Há, certamente, um conflito entre a sua ideia de como deve ser o exercício profissional de uma pessoa com convicção religiosa e o órgão que disciplina este exercício profissional que se destina a todos os brasileiros, teístas ou não. Novamente pergunto: todos os outros psicólogos cristãos são apóstatas e covardes?

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sobre os haitianos no Brasil

Marcelo Coelho, em sua coluna semanal na Folha de São Paulo, em 25/01/12, página E12 (caderno Ilustrada), traz, sob o título "Indesejáveis, porém cheirosos", algumas reflexões sobre a entrada dos mesmos no Brasil. Destaco alguns trechos:

"O primeiro passo para a degradação definitiva do ser humano é reduzi-lo a isso: um mero ser, sem papeis, sem língua, sem mais que a roupa do corpo.
Antes que sua aniquilação física seja vista como 'natural', 'inevitável' e mesmo 'desejável' (afinal, quem tem paciência para conviver com uma escória animalizada?), é preciso ocorrer a sua aniquilação civil
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Destituídos de sua cidadania, os judeus da Alemanha entraram inicialmente num limbo legal. O processo continuou até que...já não eram nada mais que corpos, cadáveres vivos, para os quais a única 'solução' era acabar de vez com eles.
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"Para o Estado, o imigrante sem papéis não existe'. Como não existe, sua morte - em última análise - não fará a menor diferença.
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Na medida em que a liberdade do homem deixa de ser levada em consideração e se dá mais peso às determinações do meio ambiente ou da genética, oque existe de único em cada indivíduo perde valor."

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Os vagabundos de Pinheirinho?

No último domingo, 22 de janeiro, uma área em São José dos Campos (SP) conhecida como “Pinheirinho” foi alvo de uma grande operação da Polícia Militar de São Paulo, que cumpriu um mandado de reintegração de posse, retirando 6 mil moradores do terreno. Durante a ação policial houve mortes, incluindo a de uma criança de três anos, que não foram noticiadas na imprensa, mas foram confirmadas pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São José dos Campos, Aristeu César Pinto Neto. O Pinheirinho, que tem mais de um milhão de metros quadrados, é uma das maiores ocupações urbanas da América Latina e é o centro de uma enorme disputa judicial. De um lado, figura Naji Nahas, dono do terreno, mega especulador financeiro que deve milhões aos cofres públicos, tendo sido preso na Operação Satiagraha, em 2008, por evasão de divisas e lavagem de dinheiro. De outro lado, 1.600 famílias que ocuparam a área há cerca de oito anos.
 
Não quero entrar no mérito sobre a ilegalidade das ações da polícia paulista em Pinheirinho. Não que elas não mereçam análise de mérito, mas a deixo a cargo daqueles que, com o cinismo característico, perdem-se num interminável complexo de Adão, que comeu a maçã por culpa de Eva, que a comeu por culpa da serpente. E a serpente... bem, a serpente são os outros. O soldado matou porque o coronel mandou. O coronel mandou porque o governador assim o requereu. E para o governador, que descumpriu uma ordem federal para que suspendesse a reintegração de posse, a culpa é da justiça.
 
Minha pequena nota dirige-se, então, especificamente a algumas observações que li nas redes sociais nos últimos dias sobre esse caso. Muitos comentaram que todos os moradores do Pinheirinho são “vagabundos e preguiçosos” por morarem em terreno “dos outros”, e, portanto, mereceram ser expulsos de lá, mesmo à bala. Fiquei pensando no seguinte: segundo dados recentes da ONU (The Chronic Poverty Report 2008-09), 1,2 bilhões de pessoas no mundo vivem abaixo da linha da pobreza, isto é, com menos de US$ 1,00 (um dólar) por dia para satisfazer todas as necessidades pessoais. Desse total, cerca de 1 bi (um bilhão) vive em favelas (UN-Habitat 2010), sendo que mais da metade está em áreas privadas sem regularização por parte do Estado, como é o caso do Pinheirinho. Ou seja, estamos falando em 500 milhões de “vagabundos e preguiçosos” ao redor do mundo que precisam ser expulsos de suas casas com urgência.
 
Outros comentários alegavam que os “vagabundos” desobedeceram à lei ao ocuparem um terreno privado. Não lhes culpo por acharem assim, mas talvez desconheçam que estamos aqui diante de uma colisão de normas do sistema jurídico. A propriedade privada merece, sim, a proteção constitucional e efetiva do Estado. Mas esta mesma Constituição estabelece como máxima que a propriedade urbana somente deve ser passível de proteção pelo Estado se atender à sua função social, o que não é o caso do Pinheirinho, cujo terreno é mantido unicamente como fruto de especulação financeira imobiliária. A ordem judicial paulista de reintegração de posse, além de desconsiderar esse princípio constitucional, descumpriu acordos internacionais firmados pelo Brasil em matéria de moradia. Alguns deles são: Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 25); Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (artigo 11); Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (artigo 4, artigo 17); Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (artigo 5, e, iii); Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres (artigo 14.2); Convenção dos Direitos das Crianças (artigo 27.3).
 
Deduzo que há nas entrelinhas de tais comentários, e, principalmente no senso comum dos brasileiros, uma falsa ideia de que o crescimento econômico faz/fará automaticamente, e por si só, com que desapareçam as favelas. Entretanto, se, como propaga o governo, dez milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema no Brasil, outros vinte milhões ainda continuam à margem. Tudo num contexto em que é extremamente rarefeita a ligação de pessoas sem moradia com o acesso à saúde, à educação, ao trabalho digno. Defender a fundamentalidade transcendente do direito à moradia a essas pessoas é reconhecer, portanto, que a moradia traça uma linha divisória entre a pobreza e a miséria extrema, entre a vulnerabilidade e absoluta vulnerabilidade, de modo que um melhor acesso à segurança social requer de igual modo um melhor acesso à moradia.
 
Ver a questão do Pinheirinho e de outras comunidades, tais como “Dandara” em Belo Horizonte (MG), fora das lentes da justiça social é caminhar por um viés que privilegia um discurso monocromático, unilateral, indiferente a outras condicionantes, e que flerta com a assimetria do poder de polícia numa síntese da visão do mundo nietzchiana, que glorifica o poder e a força. Atitudes semelhantes às do Governo Paulista tornam o Brasil, tão avesso e carente de respostas globais a problemas coletivos, mais impermeável ainda às condicionantes históricas de pobreza, miséria, escravidão, pseudo-empregos, precário sistema de saúde, analfabetismo total e funcional e déficit de maturidade democrática de sua população. Quando se atenua a justiça, a democracia torna-se delgada. Onde seres humanos são mortos por defenderem seu abrigo, a liberdade perde a sua casa e a justiça é destinada a ser morta também.
 
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Áquila Mazzinghy é professor de Direito Internacional e Direitos Humanos.