segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Feira dos rins

Governo iraniano permite e controla o comércio do órgão, mas fila de espera criou mercado negro 
SAMY ADGHIRNI DE TEERÃ


O funcionário público iraniano Alireza Noruzi (nome fictício), 45, tem um irmão doente que precisa de um transplante de rim. Em qualquer outro país, Noruzi dependeria da morte de algum doador compatível para aliviar o sofrimento da família. 


No Irã, porém, ele pode comprar legalmente o órgão de uma pessoa viva. 


O comércio de rins é permitido, incentivado e controlado pelas autoridades da república islâmica há mais de 20 anos. Por meio de sua Associação Caritativa de Apoio aos Pacientes de Rins, o governo promove encontros entre doadores e compradores, que, uma vez em contato, definem o preço da transação em comum acordo. 


Quem quiser vender seu órgão receberá em média 90 milhões de riais, equivalentes a US$ 3.000, dos quais US$ 300 são pagos pelo Estado como "retribuição" fixa por ajudar a diminuir filas de espera. 

restante em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/139362-feira-dos-rins.shtml (a Folha de São Paulo não permite a reprodução gratuita dos seus artigos)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Entre a cruz e o arco-íris


Não posso deixar de estimulá-los à leitura do livro Entre a cruz e o arco-íris da jornalista Marília Camargo César, pela Editora Gutemberg, lançado a duas semanas. Livro que, sem dúvida, se tornará uma referência para todos que queiram entender melhor tantas controvérsias envolvendo a condição homossexual humana e suas repercussões religiosas, políticas, jurídicas e culturais. 
No interior das igrejas cristãs tem-se silencioso sofrimento de homens e mulheres que se descobriram homo-orientados, independente de suas vontades, e que se sentem atingidos por profunda contradição entre suas crenças e desejos. O ensinamento clássico das igrejas cristãs, de condenação do comportamento homossexual, claramente se choca com o extenso ativismo gay, fenômeno contemporâneo por excelência - que tem obrigado as denominações históricas a reestudarem seus posicionamentos públicos, suas exegeses dos textos bíblicos e a repensarem suas práticas pastorais diante da demanda de homossexuais que em número crescente esperam ser acolhidos nas igrejas. Ou que criam suas próprias igrejas.
Pode-se dizer que antes do Levante Gay em São Francisco, na década de 60, praticamente não havia uma Pastoral para pessoas com questões de identidade sexual e de gênero; era como se estas pessoas simplesmente não existissem; as que não se continham eram vistas como casos excêntricos e sofriam bullying. E a pedofilia homossexual, prática multissecular, revelou-se como o mais grave problema na Igreja Católica, motivando a inédita renúncia do Papa Bento XVI no início de 2013. Como terapeuta a quarenta anos, constato que a imensa maioria dos pastores não querem se envolver no cuidado de alguém homossexual. Gostam de ficar em regiões celestiais e tratar de amenidades. Mas o barulho das ruas e da mídia chega aos templos e questiona a fé, o corpo doutrinário e especialmente a prática pastoral e eclesial. Ninguém quer ser visto como homofóbico, hostil a homossexuais, mas algumas lideranças pentecostais e neopentecostais ganharam notoriedade justamente por se contraporem agressivamente ao movimento GLTTB. Com alguma dificuldade o grande público distingue a fala destes atores midiáticos da voz de milhares de pastores comuns. Registre-se contudo que pastores e terapeutas cristãos continuam sendo procurados por pessoas que não abrem mão de seus desejo por Deus e confessam a vivência de um impasse existencial profundo. Exemplos assim estão documentados no livro Entre a cruz e o arco-íris .
Paralelo a esta demanda de inclusão na igreja, lugar onde abafavam suas identidades, homossexuais igualmente batalham, e estão conquistando vitórias significativas em Cortes Supremas, pelo reconhecimento de direitos a casamento e adoção de filhos como qualquer heterossexual. Posições milenares que implicavam na clandestinidade, exclusão e até morte de homossexuais tem sido revistas nos países ocidentais. O movimento gay se tornou um gigantesco movimento de massas em âmbito mundial, muito bem articulado, e com crescente simpatia das populações heterossexuais dos países democráticos. Isto e muito mais é mostrado no livro da Marília, resultado de boa pesquisa em fontes históricas, teológicas e científicas. Entrevistou gays e pessoas que viveram como homossexuais parte de sua história, militantes gays e seus críticos, terapeutas e teólogos de variadas tendências, mães perplexas e pastores. Colocou-se favor das pessoas que estão em busca de sentido e de integridade. Entregou-nos histórias reais cheias de humanidade. Seu livro é fruto de sua busca pessoal para se aproximar do mistério da questão mais espinhosa da igreja de nosso tempo. Avançou com bastante clareza num caminho que poucos cristãos ousam caminhar. Deixou que diversas situações se apresentassem, costurando elos entre as falas, nos brindando com delicado e amoroso texto. Poderá ser vítima de apressados julgadores ou de gente insatisfeita com sua falta de dogmatismo, mas alegrará o coração de muitos por apresentar o rosto paterno-maternal de Deus.
Ageu Heringer Lisboa, psicólogo [31 out.2013].

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Profissionais de saúde discutem testemunho cristão


Os Médicos de Cristo, organização filiada a RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) e ao ICMDA (International Christian and Dental Association), realizou nos dias 7 a 12 de outubro uma experiência inédita: promoveu um Seminário Internacional Itinerante nas cidades do Rio de Janeiro, Campinas, São Paulo e Belo Horizonte. Somando os eventos, obtivemos a participação de quase 200 profissionais de saúde.

Além dos preletores locais, o médico indiano Vinod Shah, CEO do ICMDA, e a médica holandesa Josephine Maat, membro da coordenação do Congresso Mundial do ICMDA que acontecerá em 2014, em Rotterdam, Holanda, trouxeram relevantes contribuições para capacitação dos presentes.

A temática “Desafios do profissional de saúde cristão no mundo pós-moderno” possibilitou a discussão e a tomada de posição dos profissionais de saúde presentes em torno da importância de mantermos a integridade em ambientes de corrupção. É digno de nota o fato que quanto o acesso e a qualidade dos serviços de saúde são prejudicados com o desvio de verbas destinadas à saúde.

Dilemas éticos, integralidade da missão e proclamação do evangelho no atendimento à saúde foram debatidos na perspectiva da expansão do reino de Deus, entendendo o campo de trabalho como campo missionário.

Frente a frente com os determinantes sociais da saúde (condições sociais nas quais as pessoas nascem, vivem, trabalham e envelhecem que influenciam na ocorrência de problemas de saúde e fatores de risco para a população) e iniquidades em saúde – evitáveis, injustas e desnecessárias – compreendeu-se porque os mais vulneráveis adoecem mais e morrem mais cedo. As discussões nos conduziram a uma reflexão profunda sobre a estrutura do sistema de saúde brasileiro, que requer participação ativa dos profissionais na defesa do direito constitucional à saúde.

Esse simpósio possibilitou também uma análise das clínicas de curto prazo realizadas sem planejamento e sem parceria com a comunidade local, com um cunho puramente assistencialista, sem ações que promovam uma participação ativa da população. A metodologia consistiu na análise de cartas de missionários relatando sua experiência e o retorno da liderança local. Essa atividade proporcionou um aprendizado fundamental no sentido de qualificar as clínicas de curta duração, uma das principais contribuições dos profissionais de saúde.

Todos foram conscientizados da relevância da incidência em políticas públicas, controle social e defesa de direitos. Ressaltou-se que os conselhos de direito podem ser importantes espaços de testemunho, serviço e exercício de nossa fé numa perspectiva cidadã e podem contribuir para o bem comum, especialmente no que tange ao acesso à saúde e ao fortalecimento do SUS (Sistema Único de Saúde).

Nosso próximo encontro será em Campinas (SP) por ocasião do V CENPS – Congresso Evangélico Nacional de Profissionais de Saúde, no Lar Luterano Belém, que ocorrerá de 17 a 19 de outubro de 2014.

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Soraya Dias é presidente dos Médicos de Cristo e integra o Grupo Coordenador da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social).

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Japão não é o paraíso que se pensa...

Eu muitas vezes me pergunto: Por que o Japão?

O Japão não parece enquadrar-se no modelo de um campo missionário. O Japão é o lar de algumas das empresas mais respeitadas do mundo, incluindo a Toyota, Sony, Nintendo, Panasonic, Nissan e Honda. Os japoneses são educados, organizados, e são conhecidos por trabalharem duro e serem honrados. O Japão é uma das nações mais ricas do planeta, é a terceira maior economia do mundo, depois dos EUA e da China. O Japão é pacífico e totalmente uma nação de 1º mundo. É uma bela nação de muitas ilhas e também tem uma das mais baixas taxas de criminalidade do mundo.

Entretanto, Há um lado escuro...

1. O Japão tem uma das maiores taxas de suicídio do mundo. Com exceção de 2012, quando a taxa foi de pouco meno que 30 mil pessoas , a cada ano nos últimos 14 anos do Japão taxa de suicídio superou 30 mil pessoas. Mais de 18.000 japoneses morreram no terremoto e tsunami no Japão em 2011, e mais de 35.000 pessoas cometeram suicídio naquele ano. O Japão tem um tsunami de mortes todos os anos...

2. Hikikomori (def = puxando para dentro / estar confinado) é um tipo de depressão extrema que parece existir apenas no Japão. Embora os números oficiais são em torno de 700 mil, por muitos casos não serem relatados alguns estimam que mais de 1,5 milhões de jovens (a maioria homens) são em hikikomori e completamente afastado da sociedade. Alguns apenas se trancaram em uma sala e mal saem uma vez por dia para comer. Alguns não têm falado ou visto alguém por mais de 2 anos, tendo se retirado completamente do contato humano. Alguns dizem que é um suicídio interno ou viver como um cadáver.


3. "A Indústria do sexo do Japão vale cerca de ¥ 2.500.000.000.000 (EUA US $ 30 bilhões), perdendo apenas para a indústria automobilística do país."(via CNN ). Japão tem a maior indústria do sexo no mundo por valor financeiro e alcance pois tem distritos da luz vermelha em todo Japão. [ Patricia Green, ex-diretor de Raabe Ministérios , em Bangkok, na Tailândia, disse uma vez que 90% da indústria do sexo, em Banguecoque, é financiado por empresários japoneses. Não que os homens japoneses estão envolvidos em 90% de todas as atividades, mas sim em financiá-lo, devido às suas contas bancárias de grande porte, gastando em atividades relacionadas a esta indústria, um grande número de turistas sexuais à Tailândia, etc ] Também não é raro para japoneses de meia idade pagar para meninas do ensino médio ou juniores para agir como companheiras em um ato conhecido como Enjo Kosai , que significa "encontro por recompensa", mas muitas vezes leva a favores sexuais pagos / prostituição na adolescência. Os jovens japoneses não precisa do dinheiro, mas muitas vezes têm sido dominado pela necessidade de comprar os mais recentes produtos eletrônicos e da moda. Clique aqui para um gráfico, mas informativo BBC curto documentário sobre Enjo Kosai / prostituição na adolescência. (http://www.youtube.com/watch?v=S8mdYtd6t_8)

4. Muitos jovens no Japão vivem sem esperança e sem vontade de fazer qualquer mudança. A muitos jovens não poderiam se importar menos sobre a política do país ou políticas econômicas. A afluência às urnas é extremamente baixa para uma democracia de primeiro mundo. Há apatia em todo lugar. Apenas 36% dos estudantes japoneses do ensino médio sentem que tem valor como individuo, baseado numa pesquisa recente, contra 75% para a Coreia do Sul, 88% para a China e 89% para os EUA.

O Japão é uma nação em mudança:

5. O Japão tem uma das menores taxas de natalidade do mundo, juntamente com a maior longevidade na terra, o que significa que há muitas pessoas idosas e poucos jovens. Há mais gatos e cães no Japão do que as crianças com idade inferior a 16 anos. 

6. O Japão é um dos países mais caros do mundo para os estrangeiros viverem. Em 2012, Tóquio foi considerada a cidade mais cara do mundo para estrangeiros e Osaka foi 3ª. O governo japonês, por meio de políticas econômicas do primeiro-ministro Abe conhecidos como Abenomics, tem desvalorizado o iene, fazendo no ano passado os custos caírem em 20% para quem utiliza o dólar americano. O Japão é ainda um dos países mais caros do mundo.

7. O Japão tem duas das maiores áreas metropolitanas do mundo . Tóquio é a maior área metropolitana do mundo, com mais de 35 milhões de pessoas vivendo em sua área metropolitana. A população da área metropolitana de Tóquio é equivalente a população de todo Canadá, e 50% maior do que a de todo continente da Australiano. Se Tokyo fosse uma nação, seria o 35º maior país mais populoso do mundo. Osaka é 9 ª maior área metropolitana do mundo, com mais de 17,5 milhões de pessoas em sua área metropolitana. Se Osaka fosse uma nação, seria maior do que 134 nações do mundo, incluindo a Dinamarca, Países Baixos, Portugal, Bélgica, Camboja, Guatemala, e Níger. O Japão em 2011 foi a única nação do mundo com mais de uma área metropolitana entre as 10 maiores do mundo. (Tóquio, Osaka). Nagoya é a terceira maior área metropolitana no Japão, com mais de 6 milhões de pessoas. O Japão é uma nação densamente povoada, com cerca de metade de seus 125 milhões de habitantes vivendo apenas três regiões metropolitanas: Tóquio, Osaka e Nagoya.

O Japão é um país com muito poucos cristãos:

8. A Igreja Protestante do Japão tem uma taxa comparecimento de 0,22%. A percentagem total de cristãos, incluindo os católicos, é inferior a 1%. Além disso, missionários dizem que cerca de 75% destes poucos cristãos realmente se declaram como cristãos. Cerca de 75-80% desse número são cristãos evangélicos, e cerca de 10% são cristãos com menos de 30 anos. Mesmo que ainda estes dados não estão confirmados, se for realmente verdade, significa que menos de 1 em 4.000-5.000 as pessoas com idade inferior a 30 são cristãos evangélicos. (Quase todos os jovens cristãos japoneses que tive contato não conheceram um único cristão em toda sua vida - nem mesmo um primo, tio, tia ou membro da família, nem um colega de trabalho ou de estudo, nem um vizinho, e a maioria considera Cristianismo como algo dos americanos/estrangeiros ocidentais, até terem encontrado um missionário ou colega cristão japonês.)

* Somente comparação com algumas nações vizinhas, a porcentagem de cristãos da Coréia do Sul é de 25% ou superior. A China tem cerca de uma taxa de 9% de cristãos, com mais de 100 milhões de cristãos, tanto na igreja do estado como na igreja subterrânea. Mesmo a Coreia do Norte é conhecida por ter uma população cristã entre 1 a 2%, apesar de os missionários não terem permissão para trabalhar na Coréia do Norte. Houve, no entanto, muito crescimento dos cristãos na fronteira da Coréia do Norte com a China devido aos esforços dos missionários sul-coreanos nessa área.

9. O Projeto Joshua define um povo não-alcançado como o que possui um percentual cristãos menor que 2%. Este é aproximadamente o percentual em que um grupo de pessoas é incapaz, ou acha muito difícil propagar/evangelizar por conta própria sem a ajuda missionária. O Japão é o segundo maior grupo de pessoas não alcançadas no mundo. Entre os 10 maiores grupos de povos não alcançados, os japoneses não são apenas os mais ricos, mas o único grupo de pessoas que tem 100% de liberdade de religião - até mesmo para emissão de vistos de missionários.

10. As maiores igrejas no Japão são predominantemente coreanas. A maior igreja no Japão tem cerca de 2.000 pessoas, Yohan Christ Church, em Tóquio , com a maioria dos membros coreanos. A maior igreja japonesa no Japão é cerca de metade desse tamanho, Yamato Calvary Chapel . Ambas as igrejas são na área metropolitana de Tóquio.Na minha cidade, Osaka, a maior igreja japonesa tem 400 japoneses que adoram lá todos os domingos. A segunda maior igreja é uma igreja coreana, com cerca de 40 japoneses entre os seus 380 fiéis todos os domingos. (O resto são coreanos, etc) Em Nagoya, a terceira maior área metropolitana, a maior igreja é uma igreja coreana com mais de 350 fiéis que frequentam todos os domingos. A maior igreja japonesa tem cerca de 250 pessoas. Todos esses números incluem crianças. O tamanho médio de uma igreja japonesa é de aproximadamente 15-20 japoneses, com a maioria das pessoas com mais de 50 anos.

11. Há um trabalhador cristão por 150.000 japoneses. Esta é a segunda menor taxa do mundo, ao lado de nações islâmicas fechadas, que tem um trabalhador cristão por 500 mil pessoas. (Dados de Michael Oh , Diretor do Movimento de Lausanne ).

Por que o Japão?

Simplificando, há tão poucos cristãos (tanto cristãos japoneses quanto missionários) no Japão - mesmo com 100% de liberdade de religião - que a igreja não consegue crescer por conta própria. Os cristãos nos EUA, muitas vezes me perguntam: "Por que o percentual de cristãos no Japão é tão baixo?". A resposta é simples:"O Japão precisa de mais trabalhadores cristãos. Nós o encorajamos a - "Peçam, pois, ao Senhor da seara que envie trabalhadores para a sua seara", como ele diz em Mateus 9:38 .

fonte: http://blogs.law.harvard.edu/josephkimx/2013/08/12/why-japan/

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dez Questões sobre o Teste da Fé: uma resposta inicial aos críticos

O lançamento recente do “Teste da Fé” gerou discussões acaloradas, e perguntas foram feitas sobre a nossa identidade teológica. Há muito o que dizer, e não há como resolver isso em um único post. Então decidi organizar os questionamentos em perguntas principais, e vamos começar respondendo a 10 perguntas básicas:

(1) Qual é o propósito do “Teste da Fé Brasil”?
Antes de tudo, reabrir a conversação sobre a relação entre ciência moderna e fé evangélica.
O campo evangélico Brasileiro apresenta uma atitude ambígua em relação à ciência, e em geral não apresenta a estima e a valorização da vida intelectual e da vida científica que caracterizam o protestantismo clássico. No seu extremo mais fundamentalista, tendemos a combinar uma leitura Bíblica questionável com um uso seletivo e pragmático da evidência científica, sem reconhecer o campo científico como um campo legítimo e sem ver a ciência como uma vocação legítima para o Cristão.
Por outro lado, no extremo mais “modernista” do movimento evangélico, onde ele se aproxima do que grosso modo se chama às vezes de “liberalismo teológico”, vê-se a tendência de revisar a fé evangélica sistematicamente, em termos de ideologias e cosmovisões seculares que pululam a academia moderna, apelando-se ao avanço da ciência moderna como prova de que a doutrina e as formas confessionais clássicas da Fé Cristã estariam ultrapassadas.
A essas anomalias soma-se um emprego pouco crítico da tecnologia moderna, em si mesma resultado da ciência, não apenas no uso diário e no entretenimento, como também na organização e atividades eclesiásticas e pastorais, numa atitude paradoxal que “coa” as expressões discursivas da ciência e “engole” seus resultados práticos e sociais.
É urgente, por isso mesmo, uma reconstrução crítica da relação entre fé evangélica e ciência moderna, e a combinação de esforços para inspirar uma possível comunidade de cientistas e intelectuais de fé, capaz de mediar entre a comunidade evangélica e o campo científico e contribuir para uma teologia evangélica pública consistente com a vocação integral da igreja.

(2) “O Teste da Fé” é uma defesa do “Evolucionismo Teísta”?
Não exatamente. O livro “O Teste da Fé” apresenta o testemunho pessoal de dez cientistas sobre como eles chegaram à fé Cristã e como integraram sua fé e sua vocação científica. O DVD, sim, apresenta uma introdução ao diálogo de Religião e Ciência hoje, na forma de um documentário em três partes: na primeira o assunto é cosmologia e a inteligibilidade do universo; na segunda, origens biológicas e meio ambiente; na terceira, neurociências e natureza humana. E na segunda parte, a visão evolucionária é apresentada como plausível.
É verdade que o projeto tem uma atitude positiva em relação à evolução biológica. Mas esse não é o tema do livro. O tema é a possibilidade de ser Cristão e cientista ao mesmo tempo. Nesse sentido, é útil para pessoas de qualquer posição: ateus, católicos, criacionistas científicos e evolucionistas teístas. Destacamos, inclusive, que a obra é extremamente útil para ajudar a apresentar a fé Cristã a pessoas que tem preconceitos intelectuais contra o Cristianismo. Se você quer fazer evangelização na universidade, ou educação sobre fé e ciência, o Teste da Fé é um bom recurso.

(3) Como “O Teste da Fé Brasil” interpreta a Bíblia?
A pergunta é essencial, mas sua resposta direta exigiria um estudo de todos os textos centrais envolvidos na discussão de fé e ciência – algo que queremos fazer aos poucos, mas que não temos espaço para fazer aqui. Então vamos fazer algo indireto e mais rápido: vamos apresentar como pensamos que a Bíblia não deve ser interpretada.
Para começar, quero deixar claro que não arredamos o pé das crenças evangélicas clássicas (como Adão histórico, queda espaço-temporal, Providência de Deus, etc), nem da inerrância bíblica. E que o projeto “Teste da Fé Brasil” está comprometido com uma visão elevada das Escrituras. Mas não acreditamos que a Bíblia seja um manual de ciências e que o literalismo seja uma prática hermenêutica sã. Explico:
Muitos cristãos tem enfatizado corretamente que a redescoberta da interpretação literal das Escrituras foi um grande marco na história da teologia Cristã, quando os Reformadores protestantes superaram a forma católica medieval de ler a Bíblia por meio de alegorizações e da exploração de alegados múltiplos níveis de significado. Esse tipo de leitura se prestava à justificação de doutrinas teológicas, morais e regras institucionais que não tinham nenhum fundamento real na intenção dos autores Bíblicos. A interpretação literal das Escrituras ajudou os teólogos protestantes (e aos poucos os Católicos começaram a reconhecer isso) a desenvolver uma teologia realmente Bíblica, atenta à intenção do texto sagrado, ao invés de introduzir elementos estranhos.
Mas a interpretação “literal” não é o mesmo que a interpretação “literalista”. Interpretar literalmente a Escritura é interpretar cada texto de acordo com a intenção do seu autor e à luz de toda a Escritura Sagrada. Isso significa que precisamos dar atenção ao gênero e à estrutura de cada texto, para determinar sua intenção. Se um texto é, por exemplo, uma prosa, seus elementos narrativos devem ser tomados literalmente (é o caso, por exemplo, do Evangelho de Lucas); se é uma parábola, sua narrativa pode ser puramente fictícia (como as parábolas de Jesus). Literalismo é a prática de tratar toda a Escritura de um modo uniforme, mesmo quando o gênero nos sugere outra leitura.
‘interpretação “literal” não é o mesmo que interpretação “literalista”.’
O caso é que para Gênesis 1 temos uma mistura inusitada, descrita por muitos como “Prosa Exaltada”. Não é nem poesia nem prosa pura, mas uma combinação das duas. Gênesis 2 também apresenta esse traço, mas de um modo completamente diferente. Por isso muitos exegetas evangélicos concordam, hoje, que o próprio texto não foi escrito para ser lido literalmente, em todos os seus detalhes (o espaço não nos permite expôr isso agora, mas eu recomendo o livro “Como Ler Gênesis”, de Tremper Longman, editora Vida Nova). Se isso estiver correto (e creio que está), a leitura literal de Genesis 1 é a de um relato poetizado, ou uma “prosa metafórica” e a leitura literalista seria tão não literal quanto uma leitura alegórica.
A outra questão em jogo é a leitura das Escrituras com a finalidade de construir teorias científicas a partir delas. Isso é o que chamamos, às vezes, de “presunção enciclopédica”. Há muitas evidências de que a Bíblia não apresenta um ponto de vista científico. Um exemplo comum é o emprego do ponto de vista pré-científico, como quando o livro de Josué nos diz que o Sol parou no céu em Gibeom (Js 10.12-13). Cristãos geocentristas atacaram Galileu Galilei alegando que isso seria evidência de o Sol que gira em torno da terra, e não o contrário; mas hoje todo Cristão heliocentrista entende perfeitamente que não se tratava de uma afirmação científica abstrata. A verdade no relato não estava na explicação científica do fenômeno, e sim, unicamente na factualidade do fenômeno (que o sol parou do ponto de vista do observador, o dia foi mais longo, e Josué venceu a batalha).
O mesmo se dá quando Moisés nos diz em Gn 7.11 que “as comportas do céu se abriram” para o dilúvio. Literalmente, significa que havia janelas no céu que se abriram para que as águas exteriores descessem à terra. Ora, os antigos acreditavam que o céu era uma abóbada sólida, assim como acreditavam que o Sol se movia no céu, simplesmente porque parecia assim de seu ponto de vista. O curioso é que Deus, sabendo que alguns cristãos fervorosos leriam esses textos literalisticamente no futuro, nem por isso “corrigiu” a ciência antiga, que nesses casos era apenas um desdobramento do senso comum.
Mas porque Deus não corrigiu a ciência antiga ao inspirar as Escrituras? Simplesmente porque isso não interferiria na intenção do texto. E a intenção do texto não era falar sobre cosmologia antiga ou senso comum, mas anunciar que houve uma chuva e um dilúvio; que o fenômeno aconteceu e era um juízo divino. Como ele aconteceu não faz parte de fato da intenção humano-divina do texto, e a narração pré-científica usada para comunicar a mensagem não corrompe ou diminui a veracidade e factualidade do texto. Por isso mesmo, a interpretação literalista não é uma interpretação fiel do texto. Pelo contrário, ela preenche o texto com um nível de significado científico abstrato que nunca esteve na mente dos autores, assim como os católicos medievais introduziam níveis de sentido moral e teológico para justificar suas doutrinas preferidas. Ela desrespeita a intenção do texto sagrado. O texto Bíblico fala sobre Deus, sobre seus atos criadores e salvadores no tempo e no espaço, e sobre a condição humana diante disso, e apresenta toda a precisão necessária para comunicar essa mensagem de modo infalível.
“a interpretação literalista não é uma interpretação fiel do texto. Pelo contrário, ela preenche o texto com um nível de significado científico abstrato que nunca esteve na mente dos autores, assim como os católicos medievais introduziam níveis de sentido moral e teológico para justificar suas doutrinas preferidas.”
“Mas isso não seria desmitologização?” De jeito nenhum. A noção de desmitologização da religião envolve a negação do sobrenatural, milagres, e providência especial. Isso não se aplica ao nosso caso por duas razões: (1) não negamos que o dilúvio aconteceu, e que foi uma intervenção divina; (2) mito é uma coisa, ciência antiga é outra. Vamos tratar mais disso em outro post.
Essa percepção hermenêutica não é nova; é antiga, tendo origens em Agostinho, e mesmo João Calvino sabia reconhecer o fato de que Deus se “acomodou” às limitações humanas ao inspirar as Escrituras. Acomodou-se, não no sentido de permitir erros factuais, falsidades teológicas ou mitologias, mas no sentido de não eliminar a finitude do autor inspirado (e finitude é criaturidade) ao mostrar por ela sua infinitude; de falar de um modo acessível ao público original, que recebeu a mensagem. Colocando de um outro modo: a inspiração Bíblica é econômica, no sentido de que não implica uma correção sistemática de absolutamente tudo o que o homem antigo pensava, mas de tudo o que era necessário corrigir para que seu discurso fosse a própria palavra de Deus, verdadeiro e infalível em sua intenção.
Mas não quero dizer, com isso, que fatos Bíblicos não tenham em alguns momentos uma sobreposição em relação à ciência moderna. Como muitos evangélicos, reconheço que o ensino Bíblico sobre a natureza do homem, do pecado, e da obra redentiva exigem um Adão histórico, e que o relato de Genesis 2 e 3 tem traços literários que não permitem lê-lo como mera parábola, por exemplo. Isso certamente significa que a doutrina Bíblica do homem tem implicações para uma teoria antropológica Cristã. Ainda assim, ela não significa que a “fonte” primária para uma teoria paleoantropológica seja a Bíblia. Ela não implica, por exemplo, que a Criação do homem foi necessariamente especial, nem nos diz se Deus fez o homem a partir de um ancestral, ou se havia pré-adamitas (entre os quais Caim foi habitar e se casou). A Bíblia fala da água, mas a “fonte” primária para estudar a água é a própria água, e não a Bíblia. Nunca encontraremos a composição química da água na Bíblia. Também não encontraremos uma teoria biológica ou paleoantropológica na Bíblia, embora devamos rejeitar toda teoria biológica ou paleantropológica sobre o homem que seja demonstravelmente incompatível com a antropologia Bíblica.
Entendo que a leitura “enciclopédica” das Escrituras, buscando nelas a fundamentação cognitiva para as ciências (e negando assim a sua soberania relativa), é um erro gravíssimo, corretamente chamado de biblicismo. Eu diria aos meus irmãos criacionistas-da-terra-jovem que eles estão lendo a Bíblia errado, na minha opinião, e com isso estão forçando um conflito inexistente com a ciência moderna.
Enfim, a leitura literalista e enciclopédica das Escrituras pratica uma espécie de “docetismo revelacional”: a Bíblia tem a “aparência” de ser um livro humano, mas na verdade não é; na verdade é um livro puramente divino. O divino absorveu completamente o humano, de modo que não há mais acomodação divina. Essa visão não compreende a natureza das Escrituras, nem o sentido da intepretação literal dos Reformadores protestantes, e cria uma hermenêutica que é ultimamente incompatível com a Cristologia ortodoxa.

(4) O “Teste da Fé” propõe que a interpretação Bíblica seja controlada pela Ciência Moderna?
Essa é uma boa pergunta, e a resposta é não. O questionamento da interpretação literalista da Bíblia não tem o propósito de acomodar as Escrituras à Ciência Moderna. Na verdade a interpretação não-literalista é muito antiga. O teólogo Agostinho de Hipona, reconhecido por Católicos e Protestantes como um dos principais doutores da Igreja, defendeu uma interpretação não literalista de Genesis em seu “Comentário Literal ao Livro de Gênesis” escrito no final do século IV AD. Há uma longa tradição de teólogos e cientistas que se recusaram a usar as Escrituras como os defensores do literalismo Bíblico usam agora.
Mesmo assim, isso não significa que a ciência não possa ter um papel na interpretação da Bíblia. Mesmo os criacionistas científicos admitem que a evidência arqueológica pode nos ajudar a ler a Bíblia e até mesmo alterar detalhes de interpretação, como a descoberta dos rolos do mar morto, por exemplo, que lançaram nova luz sobre o judaísmo antigo. Assim também, um desdobramento da ciência moderna pode mostrar que a nossa interpretação da Bíblia está errada. No caso de Gênesis 1, concordo com os que acreditam que tanto os desdobramentos recentes na interpretação de Gênesis, quanto a evidência científica, são testemunhas independentes e complementares a favor de uma hermenêutica não literalista.

(5) A Teoria da Evolução é incompatível com a Cosmovisão Cristã?
A afirmação de que a teoria da evolução corrompe a cosmovisão cristã é falsa, no meu julgamento. Ela confunde sob um único termo (“evolução”) três (ou até mais) usos distintos:
(i) “Evolução” como representação diacrônica e progressiva da vida na terra, envolvendo aumento de complexidade e de diversidade biológica ao longo do tempo. Vamos chama-la aqui de História Natural Evolucionária (HNE), que simplesmente reconhece essa dimensão temporal e uma ou outra forma de gradualismo. Michael Behe, por exemplo, um dos “pais” do Design Inteligente, aceita a teoria nesse ponto e em outros, como a hipótese do ancestral comum. Isso foi negado recentemente pelos líderes brasileiros do DI, mas Behe é muito claro:
“Muitas pessoas pensam que questionar a evolução darwiniana significa defender o criacionismo. Da forma habitualmente entendida, o criacionismo implica a crença em que a Terra foi formada há apenas dez mil anos, uma interpretação da Bíblia ainda muito popular. Desejo deixar claro que não tenho motivos para duvidar que o universo tem os bilhões de anos de idade que os físicos alegam. Acho a ideia de ascendência comum (que todos os organismos tiveram um mesmo ancestral) muito convincente e não tenho nenhuma razão particular para pô-la em dúvida. Respeito muito o trabalho de meus colegas que estudam o desenvolvimento e o comportamento de organismos dentro do arcabouço evolucionário, e acho que biólogos que assim pensam deram enormes contribuições ao nosso conhecimento do mundo.”
Michael Behe, A Caixa Preta de Darwin. Zahar, 1997, p. 15.
(ii) “Evolução Darwiniana” como mecanismo darwiniano clássico, neodarwiniano ou posdarwiniano. Aqui encontramos o que se pode chamar de Teoria Darwiniana da Evolução (TDE), e seu interesse é explicar porque a história natural sugere uma visão gradual ou semi-gradual do fenômeno da vida terrestre. O mecanismo neodarwiniano envolve processos conhecidos como mutação genética, transformações epigenéticas, seleção natural, deriva genética, especiação, convergência, etc.
(iii) “Evolucionismo”, isto é, evolução transformada em metafísica geral para explicar tudo, e até a moralidade e a racionalidade, como no Naturalismo filosófico. Segundo essa perspectiva, tudo o que o homem é pode ser explicado de forma suficiente por meio das ciências biológicas, e as outras ciências do homem são ultimamente redutíveis à biologia, e esta à física. Essa posição é às vezes chamada de Grande Teoria da Evolução (GTE), e caracteriza a posição, por exemplo, dos neoateístas. Não era essa, no entanto, a posição de Darwin e de muitos cientistas no século XX.
“Respeito muito o trabalho de meus colegas que estudam o desenvolvimento e o comportamento de organismos dentro do arcabouço evolucionário, e acho que biólogos que assim pensam deram enormes contribuições ao nosso conhecimento do mundo.”
Michael Behe, líder do movimento do Design Inteligente
Há muitos biólogos evolucionários evangélicos como Simon Conway Morris (Cambridge University) que aceitam (i), problematizam (ii) movendo-se para posições posdarwinianas (não “anti” darwinianas), e rejeitam (iii), mantendo a fé evangélica clássica sem problemas. A GTE ou “evolucion-ISMO” é certamente incompatível com a fé Cristã. Como qualquer outro “ismo”. Sua falha central é a absolutização de um nível explanatório particular (a partir da abstração de um recorte específico da realidade temporal, que é a dimensão biótica) e a redução dos outros níveis a esse nível. Esse procedimento se baseia no chamado “dogma da autonomia religiosa da razão”, e é um erro intelectual e espiritual.
Mas a HNE não exige o evolucionismo para funcionar, no entanto. Nem mesmo a TDE implica a metafísica evolucionista. Pelo contrário, há evidências de que mesmo a TDE, que tem seus problemas, não pode se manter de pé a não ser dentro de uma cosmovisão teísta, como o filósofo evangélico Alvin Plantinga demonstrou recentemente. Desse modo, mantida estritamente como teoria da história biológica da terra, a teoria da evolução não tem nenhuma força contra a fé evangélica. Se aceita, ela pode e deve ser lida dentro da narrativa Criação-Queda-Redenção que funda a cosmovisão Cristã.
“mantida estritamente como teoria da história biológica da terra, a teoria da evolução não tem nenhuma força contra a fé evangélica.”
Quanto à TDE, eu concordo com o movimento do Design Inteligente em que a síntese neodarwiniana é insuficiente para dar conta da diversidade e complexidade da vida biológica na terra, e por isso me considero posdarwiniano. Mas uma posição posdarwiniana não implica de forma alguma a mera negação de Darwin. Do fato de que o DI apontou o problema, não significa que tenha a solução. O que se espera é uma nova síntese que seja capaz de lidar com as fragilidades da síntese neodarwinana (apontadas pelo DI e por outros críticos) de modo a contê-la e superá-la, mais ou menos como a física relativística de Einstein superou a física newtoniana tornando-a um caso particular de uma teoria maior. Um dos traços de uma teoria posdarwiniana será certamente algo que o DI deseja incluir: a presença de design (mesmo que não seja o microdesign proposto pelos defensores do DI) e a irredutibilidade entre níveis diferentes de realidade (como entre a “vida” e a “matéria”).
Por isso mesmo, a expressão empregada por muitos cristãos que aceitam a teoria da evolução é “criacionismo evolucionário”, ao invés de “evolucionismo teísta”. Destaco ainda que, grosso modo, os criacionistas progressivos e os criacionistas evolucionários concordam em aceitar o ponto (i), concordam em rejeitar o ponto (iii) e discordam no ponto (ii). Além disso, a classificação é difícil. Como eu, por exemplo, acredito que uma singularidade (ou um “milagre”) seria necessário para produzir a primeira forma de vida, sou frequentemente considerado um “criacionista progressivo”. Mas eu mesmo me descrevo como criacionista evolucionário, já que não considero a TDE satisfatória mas nem por isso a considero uma fraude, e aceito a HNE.
Mas o ponto chave, aqui, é que, corretamente compreendida, a teoria da evolução é meramente uma teoria biológica, e não uma cosmovisão. Ela não responde às grandes questões sobre Quem é Deus, de onde veio o mundo, porque ele é inteligível, porque há beleza na Criação, sobre a natureza do mal, sobre o que é o homem, sobre o seu destino, sobre a existência da liberdade, ou mesmo sobre o que é a “vida”. Como ela pode ser uma “cosmovisão”, a não ser se for forçada a trabalhar como escrava para um falso senhor chamado “Naturalismo Filosófico”? O evolucionismo é uma fraude; a teoria da evolução não.
Uma palavra final quanto a esse ponto: há outras questões específicas que precisam de respostas mais detalhadas: por exemplo, a questão do problema do mal dentro de uma visão evolucionária ou não evolucionária da biologia. Vamos tratar dessas questões em artigos posteriores no blog do Teste da Fé Brasil.

(6) Há precedentes para Evangélicos aceitarem a teoria da Evolução?
Muitos cientistas, intelectuais, teólogos e pastores evangélicos aceitaram a possibilidade da teoria da evolução, com graus variados de convicção; homens como Asa Gray, um presbítero e professor de Harvard, colega de Darwin; ou Benjamin Warfield, teólogo presbiteriano de Princeton (com restrições); mesmo Abraham Kuyper ventilou essa possiblidade. Mas podemos citar alguns autores evangélicos populares: C. S. Lewis, John Stott, Alister McGrath, William Lane Craig, N.T. Wright, Alvin Plantinga e o pastor Tim Keller, da Redeemer em NY; e exegetas recentes como Bruce Waltke, editor da Bíblia de Genebra e ex professor do RTS (cujo comentário de Gênesis é publicado pela Cultura Cristã), Tremper Longman (autor do “Como Ler Gênesis”, EVN) e John Walton, do Wheaton College, uma das mais importantes instituições educacionais evangélicas dos Estados Unidos.
“Os nomes não provam nada”, já me disseram. Mormente porque alguns deles têm pontos doutrinários questionáveis. É verdade que nada provam sobre o mérito da questão. Mas indicam, sim, que o criacionismo-da-terra-jovem não é uma ortodoxia. Não tem o status elevado de uma “doutrina agostiniana da queda” ou de uma “cristologia calcedônica”. É apenas uma opinião dominante.
Esse ponto é muito importante, já que muitos líderes cristãos e pastores insistem em tratar esse ponto como um aspecto essencial da fé Cristã histórica, como se o seu questionamento abalasse a fé evangélica. Mas nada poderia estar tão longe da verdade. Pelo contrário, desde o século XIX a tendência geral dos teólogos e intelectuais evangélicos era de aceitar a evidência geológica e física de uma terra muito antiga, ou o “tempo profundo” (deep time), e a viabilidade da evolução biológica, senão aceita por todos e seu discussão, emergia como possibilidade viável para cristãos.
“o criacionismo-da-terra-jovem não é uma ortodoxia. Não tem o status elevado de uma “doutrina agostiniana da queda” ou de uma “cristologia calcedônica”. É apenas uma opinião dominante”
Foi em 1923 que o geólogo amador George McCready Price, membro da igreja Adventista do Sétimo dia, escreveu um livro para defender a posição Adventista sobre geologia, e essa obra acabou influenciando Henry Morris e John Withcomb, fundadores do Criacionismo Científico após a segunda guerra mundial. Poucos cristãos evangélicos sabem que as bases para o moderno Criacionismo Científico foram construídas por Adventistas, cuja leitura do Antigo Testamento era notavelmente literalista não apenas quanto ao Gênesis, mas quanto à aplicação de ordenanças da Lei na Nova Aliança. A história toda foi contada em detalhes no livro de um ex-Adventista que está hoje entre os maiores historiadores do mundo no campo da ciência & religião: Ronald Numbers (The Creationists: from Scientific Creationism to Intelligent Design, Harvard University Press). A vinculação do Criacionismo Científico com uma igreja heterodoxa, às margens da identidade evangélica, não é prova isolada contra essa posição, mas no mínimo deveria nos levar à reflexão.
O fato é que temos mestres o suficiente na igreja Cristã em geral e na igreja evangélica nos dizendo o contrário para suspeitarmos de qualquer um que afirme ser o criacionismo-da-terra-jovem um distintivo evangélico essencial. Repetindo: o criacionismo-da-terra-jovem não é a posição Cristã ou evangélica ortodoxa, mas apenas uma posição entre outras.

(7) Até que ponto o Cristão deve aceitar a autoridade da Comunidade Científica?
Sem dúvida nenhuma a regra final de fé e prática do Cristão é a Bíblia; a ciência moderna é um empreendimento falível, em processo de aperfeiçoamento constante, cheio de becos sem saída e condicionada por pressuposições filosóficas de todo tipo.
Mas essa não é toda a história. Penso que os cristãos evangélicos deveriam mostrar mais respeito pela comunidade científica moderna. Afinal de contas, ela nasceu sob a influência da Reforma Protestante, a partir de um fundamento Bíblico. Foram os protestantes e os calvinistas, principalmente, os atores que libertaram a ciência, tanto do domínio da metafísica aristotélica, abrindo-a para a empiria, quanto das amarras do biblicismo (à época chamado de “ciência mosaica”), reconhecendo (antes de Kuyper explicar o que ocorria) sua “esfera de soberania”. É verdade que a “moderna ciência moderna”, como escreveu Schaeffer, sob o influxo do Naturalismo filosófico, produziu anomalias; mas temos boas razões para considerá-las exceções.
Me parece extremamente contraditório invocar a Reforma e a Bíblia para explicar a ciência moderna, e em seguida negar sua autoridade em seu próprio campo.
Acontece que o reconhecimento da soberania de Cristo sobre o todo da vida nos leva naturalmente a compreender que ele governa cada campo da vida diretamente, e de um modo singular, por meio dos instrumentos que ele mesmo estabeleceu. Ele é o Senhor na Criação e na Redenção, e todas as coisas encontram coerência Nele. E daí veio o reconhecimento da autoridade da ciência pelos protestantes, que viabilizou a revolução científica.
Isso nos leva de volta à questão da hermenêutica enciclopédica, e porque ela nos parece problemática: a Bíblia é a autoridade máxima em nossa vida e pensamento, mas não é a autoridade máxima em matemática, pois as propriedades associativas dos números são realidades objetivas, independentes da nossa interpretação da Bíblia. E na medida em que apreendemos as leis matemáticas, as empregamos na leitura da própria Bíblia. A Bíblia também não é a autoridade máxima em gramática da língua portuguesa. Pelo contrário, precisamos aprender gramática com outras pessoas e outros livros, e então conseguimos ler a Bíblia. As leis da lógica também não se baseiam na Bíblia; nem nossos cinco sentidos. Precisamos aceitar a “autoridade” dos olhos para ler a Bíblia, e não faz sentido depender da visão para ler, dos ouvidos para ouvir, e depois negar que os cinco sentidos sejam formas de conhecimento independentes, sustentadas pelo próprio Deus por meio de Jesus Cristo.
“as Escrituras não substituem as outras fontes de Conhecimento e as outras autoridades cognitivas, mas nos habilitam a reconhecê-las e, eventualmente, a corrigi-las”
Nada disso significa que a Bíblia tenha menos autoridade. É que Deus se revela no livro da Criação e também no livro da Graça, mas o mesmo Deus se revela nos dois livros. As leis da lógica são leis de Deus, não dos lógicos. E não dependem da Bíblia para funcionar. Mas a Bíblia abre os nossos olhos para reconhecer toda a revelação de Deus, e para nos submetermos a todas as autoridades que Deus estabeleceu. Em outras palavras: as Escrituras não substituem as outras fontes de Conhecimento e as outras autoridades cognitivas, mas nos habilitam a reconhecê-las e, eventualmente, a corrigi-las.
“Mas isso torna a Palavra de Deus sujeita à Criação!” De modo algum. A Criação também é o texto da Palavra de Deus. Não foi a Palavra de Deus quem a estabeleceu e a sustenta? Não é o mesmo logos da Bíblia o logos do mundo? Considero perverso procurar meios de colocar a palavra redentiva das Escrituras em contradição com a palavra criativa do espaço-tempo. Além disso, a nossa teologia é a manjedoura da palavra redentiva, assim como a ciência é a manjedoura da palavra criativa. Sejamos humildes quanto às nossas manjedouras.
“a nossa teologia é a manjedoura da palavra redentiva, assim como a ciência é a manjedoura da palavra criativa. Sejamos humildes quanto às nossas manjedouras.”
Sem dúvida todas as nossas experiências cognitivas devem estar submetidas à Palavra de Deus; mas o jugo de Cristo é suave. Sua graça geral não deixou que a experiência humana se tornasse completamente obscura e enganosa. Isso significa que não precisamos ter uma posição “cartesiana”, duvidando de tudo o que conheço até que encontre um versículo da Bíblia para provar aquilo. Essa crença e prática de recusar a legitimidade das outras fontes e autoridades cognitivas, é o que chamamos de biblicismo, que considero uma forma de idolatria cognitiva. Pelo contrário, como as Escrituras já tratam a Criação como obra de Deus, posso estudar a Criação com a expectativa de que minhas descobertas lá serão coerentes, em última instância, com tudo o que a Bíblia diz, mesmo que devido à minha ignorância ou pecado, eu seja incompetente para demonstrar essa coerência.
Enfim, meu sentimento geral é de que a Ciência pertence, em certo sentido, ao solo Cristão, e merece ser ouvida com simpatia e humildade. Isso dito, precisamos reconhecer que a ciência tem becos sem saída, ideológicas estranhas e conflitos de paradigmas.
Recentemente, por exemplo, descobertas arqueológicas na Geórgia (leste europeu) sugeriram que a narrativa paleoantropológica dominante hoje, que distingue, dentro do Gênero “Homo”, várias espécies como “homo habilis”, “homo erectus” e “homo ergaster”, estaria errada – seriam todos variações de uma única espécie, o “homo erectus”, e este, por sua vez, teria dimensões mais próximas do homem moderno do que se pensava. Isso acontece com a ciência; novas descobertas, novas teorias. O mesmo acontece com autoridades políticas: quantas vezes elas já erraram, até mesmo se levantando contra Deus e realizando coisas terríveis? Isso acontece até com a teologia, embora de um modo diferente. A mudança da teologia católica medieval para a teologia da Reforma é um exemplo.
O que fazer então? Eu gosto de uma metáfora frequentemente repetida para dizer isso: assim como um trem só anda sobre dois trilhos, que não podem nem se afastar, nem se unir (do contrário o trem descarrila), devemos manter teologia e ciência paralelas, sem se fundirem nem se ignorarem. Elas devem ficar numa conversação constante, e isso pode ajudar tanto aos cientistas quanto aos teólogos. Em suma: a ciência não é nem absoluta nem irrelevante. Ela tem uma autoridade relativa que deve ser reconhecida, e a própria Bíblia nos dá base para aceita-la.
“a ciência não é nem absoluta nem irrelevante. Ela tem uma autoridade relativa que deve ser reconhecida, e a própria Bíblia nos dá base para aceita-la.”
(8) A editora Ultimato foi “unilateral”, apresentando apenas uma visão das coisas no projeto “O Teste da Fé Brasil”?
A editora Ultimato não foi “desonesta” ou “unilateral”, como alguns irmãos maldosamente declararam, ao publicar “apenas um lado” – no caso, a obra “O Teste da Fé”. Pelo contrário; se não me engano, a querida editora Ultimato é a ÚNICA editora evangélica brasileira que apresenta OS DOIS LADOS da questão! Ela publica um importante livro do Dr. Philip Johnson (“Ciência, Intolerância e Fé”), advogado do “Design Inteligente”, e “O Teste da Fé”, que favorece o Criacionismo Evolucionário. E nos eventos de lançamento do projeto, ambos foram vendidos lado a lado, por decisão minha. Eu desafio os irmãos criacionistas-da-terra-jovem que levantaram essa crítica a fazerem o mesmo com suas editoras, e a terem a honestidade de vender esses livros da editora Ultimato lado a lado em seus eventos daqui em diante.
A propósito, o principal advogado da posição DI no Brasil havia sido convidado para um dos eventos de lançamento do Teste da Fé, e não apenas rejeitou vir no último momento, como declarou nas redes sociais não ter nenhum respeito pela posição representada pelo Teste da Fé. O fundador do movimento do DI no Brasil assumiu comportamento semelhante, com acusações infundadas de “liberalismo teológico” e “heresia”. Tendo em vista o comportamento belicoso e intolerante dos representantes do Design Inteligente no Brasil, só podemos dar por encerrada a conversação antes mesmo de iniciada; mas não sem antes recomendar aos criacionistas-da-terra-jovem que mantém a sobriedade uma atitude melhor – ao menos próxima à de nossos oponentes ateístas.

(9) Mas a Teoria da Evolução não leva à incredulidade e à apostasia?
Como já argumentamos antes, eu não creio que a evolução biológica, em si, seja razão para incredulidade ou apostasia. Acredito que o problema está com seu aprisionamento pelo Naturalismo Filosófico, que é o nosso verdadeiro inimigo. Concordamos com o criacionismo científico no combate ao Naturalismo, mas discordamos quanto a jogar o bebê fora com a água suja do banho.
Na verdade, a julgar por meus contatos pessoais pelo Brasil, temo que o criacionismo-da-terra-jovem seja não o salvador, mas o responsável pela alienação de muitos cientistas em relação à fé cristã, e de muitos jovens cristãos aspirantes à ciência. Certamente muitos falham em manter a ousadia cristã diante da oposição secular; mas para vários o problema é antes o sentimento de não poderem honestamente abandonar a ciência moderna em favor de um criacionismo científico com credenciais questionáveis. Muitos o fazem em campos como a engenharia ou a bioquímica; mas sob a ótica biológica isso parece extremamente difícil, chegando às raias da irracionalidade. Não penso que a explicação seja a falta de fé, apenas. O fato é que a identificação desnecessária de uma fé genuína com o criacionismo científico torna a solução do dilema algo impossível para muitos jovens universitários. E assim eles ganham mais uma razão para abandonar a igreja.
O que acontece, na minha opinião, é que o criacionismo científico torna-se involuntariamente aliado dos Naturalistas e Neoateístas, quando concorda com eles sobre a absoluta incompatibilidade entre a biologia evolucionária e a fé Evangélica. Essa tensão desnecessária acaba dificultando ainda mais a vida do estudante Cristão.
“o criacionismo científico torna-se involuntariamente aliado dos Naturalistas e Neoateístas, quando concorda com eles sobre a absoluta incompatibilidade entre a biologia evolucionária e a fé Evangélica”
(10) O “Teste da Fé” defende a revisão da teologia evangélica à luz da evolução?
De forma alguma. Cada trilho tem que permanecer no seu lugar!
Quanto a isso, devo mencionar um fato interessante. Devido à reação negativa de alguns conservadores contra o Teste da Fé, alguns irmãos que assumem posições revisionistas quanto à teologia evangélica se solidarizaram comigo. Eu agradeço as palavras e apoio, mas quero deixar claro que não pretendo me tornar um revisionista gratuitamente. Continuo sustentando uma visão conservadora sobre autoridade Bíblica e sobre os fundamentos doutrinários do Cristianismo. Não vejo absolutamente nenhum futuro em coisas como “teísmo aberto”, “teologia relacional”, hermenêuticas libertárias da Bíblia, etc. Continuo considerando o anarquismo de esquerda, por exemplo, (como em Ellul) pobre, incompatível com o Cristianismo clássico (católico e evangélico) e insuficiente para uma teologia política evangélica. Digo isso porque aqueles que identificam o criacionismo evolucionário com liberalismo teológico são pessoas desinformadas ou desonestas, estejam elas no extremo fundamentalista ou no extremo liberal do espectro cristão contemporâneo.
“aqueles que identificam o criacionismo evolucionário com liberalismo teológico são pessoas desinformadas ou desonestas, estejam elas no extremo fundamentalista ou no extremo liberal do espectro cristão contemporâneo”
Não quero dizer com isso que o desenvolvimento da ciência não possa, eventualmente, nos ajudar a interpretar melhor um texto Bíblico, ou a pensar melhor sobre uma dimensão da vida humana também tratada nas Escrituras, como já mencionamos anteriormente. Considere, por exemplo, o grande auxílio da arqueologia recente da Corinto Romana nos estudos das Cartas de Paulo realizados por Bruce Winter (em “When Paul Left Corinth”), ou os fabulosos resultados da pesquisa de N. T. Wright em “A Ressurreição do Filho de Deus”. Ocorre que não temos que mudar a teologia para nos tornar palatáveis ao mundo moderno. Se mudarmos a teologia, a mudaremos porque a verdade exige; e a verdade pode aparecer vestida com a ciência moderna. Mas no caso particular da teoria da evolução, aparentemente não há nenhuma necessidade de alterar radicalmente nenhum ponto fundamental da fé Cristã clássica.

Fico por aqui gente. Em posts futuros, tanto originais quanto traduzidos, a equipe do Teste da Fé Brasil continuará a responder a perguntas de teologia, filosofia e ciência relacionadas com esse tema.
E que o Senhor nos ilumine!
Guilherme

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Abuso sexual: evangélicos em pior situação que os católicos? (1)


O campo missionário é um “ímã” para abusadores sexuais, disse Boz Tchividjian, professor de direito na Liberty University, que investiga abusos, nesta quinta-feira (26 de setembro) a uma sala cheia de jornalistas por ocasião da conferência da Religious Writers Association (Associação de Escritores Religiosos) em Austin, Texas, EUA.

Ao comparar a resposta dos evangélicos ao abuso em relação à reação dos católicos ele afirmou, “Eu acho que estamos pior “, e continuou dizendo que muitos evangélicos “sacrificam as almas” de jovens vítimas . “Protestantes podem ser muito arrogantes quando apontam os erros dos católicos “, disse Tchividjian, neto do evangelista Billy Graham e diretor-executivo da organização GRACE (Godly response to Abuse in Christian Environment), organização que conduz investigações onde há denúncias de abuso sexual .

No início deste verão, GRACE liderou uma petição online criticando o “silêncio” e “desatenção” dos líderes evangélicos ao abuso sexual em suas igrejas. Agências missionárias, “onde o abuso é mais prevalente”, muitas vezes não relatam o abuso , porque temem ser impedidos de trabalhar em países estrangeiros, disse ele. Abusadores são enviados para casa e podem se juntar a uma outra agência. Dos dados conhecidos de casos de abuso sexual, 25 por cento são reincidências, disse ele. Ainda assim, ele vê alguns movimentos positivos entre alguns protestantes. Bob Jones University contratou GRACE para investigar alegações de abuso sexual. Este iniciativa anima Tchividjian, um ex-promotor de justiça da Flórida. “Bob Jones University é como a nave-mãe do fundamentalismo “, disse ele. Seu avô rompeu com Bob Jones University num conflito entre fundamentalistas e evangélicos.

“A cultura protestante é definida pela independência”, disse Tchividjian. Evangélicos freqüentemente desaprovam a transparência e a prestação de contas.  Ele afirmou ainda que muitos protestantes confiam mais nas Escrituras do que em seus líderes religiosos, em comparação com os católicos .

Abusadores desencorajam a denúncia, condenando a fofoca para tentar impedir que as pessoas denunciem abusos, disse ele. As vítimas também são instruídos a proteger a reputação de Jesus. Muitas instituições protestantes têm sacrificado almas, a fim de proteger suas instituições, disse ele. “É um evangelho de traz pra frente,” afirmou. Tchividjian disse que ele está em conversas com Pepperdine University, uma escola filiada à Igreja de Cristo na Califórnia, sobre a criação de um centro GRACE de âmbito nacional.

fonte: http://ultimato.com.br/sites/maosdadas/2013/10/02/abuso-sexual-evangelicos-em-pior-situacao-que-os-catolicos-1/

ver, sobre abuso espiritual, http://crerpensar.blogspot.com.br/2009/07/feridos-em-nome-de-deus.html 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Entrevista com "Meu nome não é Johnny"

O carioca João Guilherme Estrella tem uma história como poucas. Entre 1989 e 1995, chegou a ser o principal distribuidor de drogas para a elite do Rio de Janeiro, credencial que lhe franqueou acesso às melhores festas da cidade e a transações milionárias. No auge de sua carreira, recebeu 150 000 dólares em uma única partida de cocaína para a Europa. Em seguida, foi preso e condenado a dois anos de reclusão. Primeiro, na carceragem da Polícia Federal, espremido numa cela com integrantes da facção criminosa Comando Vermelho. Depois, num manicômio judiciário. Aos 46 anos, está casado com uma advogada, pretende ter um filho, trabalha como produtor musical, prepara-se para lançar um CD e é o protagonista do livro que virou filme de sucesso. Meu Nome Não É Johnny (Ed. Record), escrito pelo jornalista Guilherme Fiuza, vendeu 22 000 exemplares desde 2004. O filme homônimo, com Selton Mello no papel principal, estreou no início de janeiro e já foi visto por quase 1 milhão de pessoas. Na semana passada, Estrella recebeu VEJA em sua produtora, em Ipanema, para a seguinte entrevista.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Um rei em Washington

Para começar, o texto é uma peça notável de oratória cristã. O fato é por vezes ignorado: Luther King foi sobretudo influenciado por Thoreau e Gandhi, dizem os especialistas, e a sua estratégia de resistência não violenta é tributária dos dois.

Certo, certíssimo. Mas, antes de Thoreau e Gandhi, recordo aos especialistas que Luther King foi formado na adolescência pelo teólogo Benjamin Mays, que incutiu no pupilo uma ideia revolucionária e simples: se os ensinamentos da Bíblia não servem para mudar os homens, então a Bíblia serve para muito pouco.

Luther King aprendeu a lição: primeiro, ao tornar-se também teólogo e pastor batista no Alabama. E, depois, ao aplicar o arsenal teológico à causa dos direitos civis.

A cadência e o vigor retórico de Luther King são próprios de um pastor em frente ao seu rebanho.

texto completo em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/126014-um-rei-em-washington.shtml

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Eu tenho um sonho


Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a história como a maior manifestação pela liberdade na história de nossa nação. 

Cem anos atrás, um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a proclamação da emancipação [dos escravos]. Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro. 

Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana, como exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda. 

Em certo sentido, viemos à capital de nossa nação para sacar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república redigiram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, assinaram uma nota promissória de que todo americano seria herdeiro. Essa nota era a promessa de que todos os homens, negros ou brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade. 

É evidente hoje que a América não pagou esta nota promissória no que diz respeito a seus cidadãos de cor. Em lugar de honrar essa obrigação sagrada, a América deu ao povo negro um cheque que voltou marcado "sem fundos". 

Mas nós nos recusamos a acreditar que o Banco da Justiça esteja falido. Nos recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes depósitos de oportunidade desta nação. Por isso voltamos aqui para cobrar este cheque --um cheque que nos garantirá, a pedido, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. 

Também viemos para este lugar santificado para lembrar à América da urgência ferrenha do agora. Não é hora de se dar ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo. Agora é a hora de fazermos promessas reais de democracia. Agora é a hora de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o caminho ensolarado da justiça racial. É hora de arrancar nossa nação da areia movediça da injustiça racial e levá-la para a rocha sólida da fraternidade. Agora é a hora de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus. 

Seria fatal para a nação passar por cima da urgência do momento e subestimar a determinação do negro. Este verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará enquanto não chegar um outono revigorante de liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo. 

Os que esperam que o negro precisasse apenas extravasar e agora ficará contente terão um despertar rude se a nação voltar à normalidade de sempre. Não haverá descanso nem tranquilidade na América até que o negro receba seus direitos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a abalar as fundações de nossa nação até raiar o dia iluminado da justiça. 

Mas há algo que preciso dizer a meu povo posicionado no morno limiar que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso lugar de direito, não devemos ser culpados de atos errados. Não tentemos saciar nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura e do ódio. 

Temos de conduzir nossa luta para sempre no alto plano da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar nosso protesto criativo degenerar em violência física. Precisamos nos erguer sempre e mais uma vez à altura majestosa de combater a força física com a força da alma. 

A nova e maravilhosa militância que tomou conta da comunidade negra não deve nos levar a suspeitar de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos, conforme evidenciado por sua presença aqui hoje, acabaram por entender que seu destino está vinculado ao nosso destino e que a liberdade deles está vinculada indissociavelmente à nossa liberdade. 

Não poderemos caminhar sozinhos. 

E, enquanto caminhamos, precisamos fazer a promessa de que caminharemos para frente. Não poderemos retroceder. Há quem esteja perguntando aos devotos dos direitos civis: Quando vocês ficarão satisfeitos?'. Jamais estaremos satisfeitos enquanto o negro continuar sendo vítima dos desprezíveis horrores da brutalidade policial. 

Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados da fadiga de viagem, não puderem hospedar-se nos hotéis de beira de estrada e nos hotéis das cidades. Não estaremos satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for apenas de um gueto menor para um maior. Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossas crianças tiverem suas individualidades e dignidades roubadas por cartazes que dizem exclusivo para brancos'. 

Jamais estaremos satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova York acreditar que não tem nada em que votar. 

Não, não estamos satisfeitos e só ficaremos satisfeitos quando a justiça rolar como água e a retidão correr como um rio poderoso. 

Sei que alguns de vocês aqui estão, vindos de grandes provações e atribulações. Alguns vieram diretamente de celas estreitas. Alguns vieram de áreas onde sua busca pela liberdade os deixou feridos pelas tempestades da perseguição e marcados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês têm sido os veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor. 

Voltem ao Mississippi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à Louisiana, voltem aos guetos e favelas de nossas cidades do norte, cientes de que de alguma maneira a situação pode ser mudada e o será. Não nos deixemos atolar no vale do desespero. 

Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho. 

É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. 

Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá em realidade o verdadeiro significado de seu credo: Consideramos essas verdades manifestas: que todos os homens são criados iguais'. 

Tenho um sonho de que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade. 

Tenho um sonho de que um dia até o Estado do Mississippi, um Estado desértico que sufoca no calor da injustiça e da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e de justiça. 

Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter. 

Tenho um sonho hoje. 

Tenho um sonho de que um dia o Estado do Alabama, cujo governador hoje tem os lábios pingando palavras de rejeição e anulação, será transformado numa situação em que meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas e caminharem juntos, como irmãs e irmãos.
Tenho um sonho hoje. 

Tenho um sonho de que um dia cada vale será elevado, cada colina e montanha será nivelada, os lugares acidentados serão aplainados, os lugares tortos serão endireitados, a glória do Senhor será revelada e todos os seres a enxergarão juntos. 

Essa é nossa esperança. Essa é a fé com a qual retorno ao Sul. Com esta fé poderemos talhar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar os acordes dissonantes de nossa nação numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé podemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, ir à cadeia juntos, defender a liberdade juntos, conscientes de que seremos livres um dia. 

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com novo significado:"["Meu país, é de ti, doce terra da liberdade, é de ti que canto. Terra em que morreram meus pais, terra do orgulho do peregrino, que a liberdade ressoe de cada encosta de montanha". 

E, se quisermos que a América seja uma grande nação, isso precisa se tornar realidade. 

Então que a liberdade ressoe dos prodigiosos picos de New Hampshire. 

Que a liberdade ecoe das majestosas montanhas de Nova York! 

Que a liberdade ecoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia! 

Que a liberdade ecoe das Nevadas Rochosas do Colorado! 

Que a liberdade ecoe das suaves encostas da Califórnia! 

Mas não só isso --que a liberdade ecoe da Montanha de Pedra da Geórgia! 

Que a liberdade ecoe da Montanha Sentinela do Tennessee! 

Que a liberdade ecoe de cada monte e montículo do Mississippi. De cada encosta de montanha, que a liberdade ecoe. 

E quando isso acontecer, quando deixarmos a liberdade ecoar, quando a deixarmos ressoar em cada vila e vilarejo, em cada Estado e cada cidade, poderemos trazer para mais perto o dia que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestante e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, "livres, enfim! Livres, enfim! "Louvado seja Deus Todo-Poderoso. Estamos livres, enfim!" 

Martin Luther King, 28/08/63

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Painel sobre paternidade afetiva e paternidade biológica

Especialistas discutem principais desafios jurídicos, médicos e éticos que os avanços para determinar origem genética trazem para a questão da filiação
altUma série de avanços no campo da genética tem trazido questões complexas para a sociedade, a área médica e o judiciário, como as que envolvem a paternidade afetiva e a paternidade biológica.
No judiciário, a genética, que passou a ser uma via de responsabilização importada de outras áreas do Direito Civil para proteção da criança, começa agora a ser evocada pelos próprios filhos ou outros envolvidos, para “desamparar” esses pais afetivos em casos de adoção, reprodução assistida, ou mesmo filhos concebidos fora do matrimônio, mas reconhecidos pelos cônjuges no âmbito de uma família.
Essa questão será tema de um painel promovido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) com renomados profissionais durante o IV Congresso Brasileiro de Direito Médico, dias 28 e 29 de agosto de 2013, em Brasília (DF). Participam a ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Nancy Andrighi; o desembargador federal Roger Raupp Rios; e a professora da Universidade de Brasília (UnB), Débora Diniz.
O mediador desse debate (que acontece no segundo dia do evento, às 10h), procurador de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), Diaulas Costa Ribeiro, explica que “a ideia da paternidade biológica foi criada para proteger a criança, atribuir responsabilidade, que é objetiva dos pais, sem nenhuma chance de discutir se queriam ou não o filho. Era a solução para amparar os mais fracos. Hoje, essa regra geral está sendo evocada por filhos já criados (ou outros envolvidos), que, por razões das mais diversas, começam a rejeitar a parentalidade afetiva e requerer a biológica”.
Um caso notório é o de dois irmãos que brigam na Justiça pelo direito a parte da herança do fundador da rede de joalherias H. Stern.  O entendimento que prevaleceu nesse caso (na primeira instância, na segunda instância, e no STJ) é o de que o exame de DNA não pode autorizar a mudança no registro de nascimento deles (e o consequente direito à herança), dada a relação de afeto com o pai (socioafetivo) responsável pela criação dos dois no âmbito de uma outra família.
A questão, no entanto, é polêmica, está longe de ser esgotada e tem repercussões importantes para a relação médico-paciente (crianças originadas por algumas técnicas de reprodução assistida que requerem acesso a prontuários para descobrir sua ascendência biológica), para a sociedade (desamparo de pais afetivos), jurídica (direitos sucessórios), éticas (sigilo médico) etc.
Acompanhe esse debate no IV Congresso Brasileiro de Direito Médico do Conselho Federal de Medicina e saiba a opinião de especialistas sobre o que vai prevalecer nesse mundo da parentalidade.
Outros debates – O IV Congresso Brasileiro de Direito Médico será uma oportunidade para profissionais vinculados às áreas da medicina, do direito, da bioética, da justiça, procuradorias federais, procuradorias da república e Ministério Público debaterem perspectivas e experiências sobre temas como judicialização da saúde, direito do consumidor na relação médico-paciente, confidencialidade, testamentos vitais, paternidade afetiva versus paternidade biológica, reforma do sistema de saúde em Portugal e responsabilidade do diagnóstico em Psiquiatria Forense. Organizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o evento acontece no Auditório JK da Procuradoria Geral da República, em Brasília (DF). “O nosso objetivo é promover o diálogo científico, interdisciplinar e profissional sobre importantes questões do Direito Médico que afetam as práticas médica, jurídica e social”, relata o 1º vice-presidente do CFM, Carlos Vital, coordenador da Comissão de Direito Médico, responsável pela organização do evento.
Serviço:
IV Congresso Brasileiro de Direito Médico
Data: 28 e 29 de agosto de 2013
Local: Auditório JK da Procuradoria-Geral da República (PGR), SAF Sul, Quadra 4, Conjunto C, Bloco C, Brasília (DF)
Inscrições e programação:  http://www.eventos.cfm.org.br/
Informações à imprensa: (61) 3445-5940   imprensa@portalmedico.org.br