quarta-feira, 8 de junho de 2011

SOBRE O PL 122

Nos últimos tempos ficou notória a mobilização da Igreja cristã em torno do polêmico projeto de lei 122, a chamada lei da "Homofobia". Embora o projeto traga equívocos claros e mereça ser debatido, gostaria de aproveitar esta oportunidade para fazer uma análise crítica em relação ao posicionamento e a ação da igreja evangélica (falando aqui em termos genéricos) neste episódio. 

Na minha visão, é lamentável que a Igreja, que há muito tempo tem ignorado a questão da homossexualidade, suas complexidades e implicações, esteja se manifestando de forma tão veemente acerca desta questão apenas quando um dos seus direitos (no caso, da livre expressão a partir da liberdade de consciência) é ameaçado. Desta forma, a Igreja age com qualquer outro grupo na defesa dos seus direitos, não representando nenhum diferencial na arena social.

É lícito, numa democracia, um grupo manifestar-se e procurar mobilizar a sociedade em defesa da sua visão de mundo e dos seus ideais. Mas é triste perceber que toda esta capacidade de mobilização da Igreja não se dá da mesma forma em temas–chave da Reforma social e da Justiça do Reino, como pobreza, violência, corrupção, gênero, etc. A verdade é que a Igreja evangélica continua obcecada pela sexualidade e os seus "pecados". Como exemplo, cito o fato de que recentemente, estamos tendo a discussão sobre o novo Código Florestal Brasileiro, tema de fundamental importância relacionado à mordomia da Criação e ao futuro das próximas gerações, mas onde e de que forma está a igreja cristã se mobilizando? 

Como consequência desta tendência, assistimos a uma polarização entre os evangélicos e os movimentos GLBTT e segmentos da imprensa que só tem fortalecido estes últimos. Pior: ao invés de atrair os homossexuais para o amor de Deus, temo que estamos afastando-os cada vez mais da oportunidade de conhecer a graça regeneradora e salvadora de Jesus Cristo, da qual todos ("homos", "héteros", "bis", e o que quer que seja) igualmente carecem desesperadamente.

Ainda estamos muito longe, como Igreja, de um projeto de militância e de reforma social mais abrangente e integral, embasado biblicamente e alicerçado no serviço.

Como Igreja, dizemos que não somos homofóbicos, mas lamento constatar que sim, somos, apesar do velho discurso "condenamos o homossexualismo, mas amamos os homossexuais". O fato é que tememos tudo aquilo que não entendemos bem. E está claro e notório neste episódio que a igreja não tem se aprofundado nas complexas questões ligadas à homossexualidade, pelo discurso que ainda reina de "opção" sexual (como se alguém escolhesse, num joguinho de "par ou ímpar", se vai ser homo ou hétero), e não de "orientação" sexual, profundamente arraigada na identidade pessoal. Ou na confusão entre união civil e casamento, na incompreensão acerca do papel que um Estado laico deve ter na defesa dos direitos dos seus cidadãos (mesmo que esses não professem a mesma moralidade que eu), ou até mesmo por achar que assistir a uma novela vai tornar alguém homossexual.

Não se trata aqui de defender ou não a prática homossexual, tampouco de ignorar as influências da aceitação de determinadas práticas culturais no comportamento de indivíduos. trata-se, sim, de fazer uma análise crítica do posicionamento político da igreja brasileira nesta questão.  Na minha visão, deveria ter sido a Igreja a primeira a propor (através dos seus representantes nas esferas políticas e de seus formadores de opinião) uma lei ou um movimento contra a homofobia, equilibrado e consistente. Aliás, contra qualquer forma de discriminação e violência de toda ordem contra grupos minoritários, formados por pessoas humilhadas, desprezadas, e oprimidas da nossa sociedade. Precisamos entender que a redenção na esfera política (entendida aqui como a esfera de poder e influência na sociedade) vai muito além de defender os próprios direitos e interesses, mas sim lutar pela justiça. Isso sim seria o agir de uma Igreja verdadeiramente transformadora.

Mauricio Cunha
www.mauriciocunha.blogspot.com 

2 comentários:

  1. Então se não saímos às ruas em defesa de nossas florestas ficamos proibidos de denunciar a falácia do PL 122?
    Defender o direito à livre expressão de fé e pensamento é casuísmo, e exigir que o Estado seja realmente laico não o é? Porque, sejamos honestos, nós protestantes só defendemos o Estado laico por conta da influência da maioria católica que mandou e desmandou nesse país ao longo desses 500 anos. Aliás, sobre o Estado laico, é bom que se diga que estamos bem longe disso. Ou não se tem conhecimento de quanto dinheiro público se gasta erigindo estátuas gigantescas em cidadezinhas pobres do nordeste que não têm sequer saneamento básico? Sem falar nas generosas ajudas financeiras que prefeituras prestam às paróquias mensalmente.
    Ora, lei nenhuma me afetará, desde que não me obrigue a fazer algo errado. Se legalizarem o aborto, minha mulher e filhas não serão atingidas. Se aprovarem a união civil homossexual, isso não afetará meu casamento. Se casais gays vão poder adotar crianças, isso não me diz respeito. O que não posso fazer é permitir que esses grupos se arvorem no direito de me fazer calar, de externar o que penso sobre esses assuntos. Como disse um grande filósofo: "Posso até não concordar com a opinião dos outros, mas não posso proibí-los de emití-la." Esse é o "X" da questão.
    E também não concordo que a questão da homossexualidade foi ignorada pelas Igrejas. Esse é o tipo de clichê reducionista que tem me preocupado no meio dos "intelectualmente privilegiados" crentes em Cristo Jesus.
    Evitemos a tentação do generalismo.
    Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Então se não saímos às ruas em defesa de nossas florestas ficamos proibidos de denunciar a falácia do PL 122?
    Defender o direito à livre expressão de fé e pensamento é casuísmo, e exigir que o Estado seja realmente laico não o é? Porque, sejamos honestos, nós protestantes só defendemos o Estado laico por conta da influência da maioria católica que mandou e desmandou nesse país ao longo desses 500 anos. Aliás, sobre o Estado laico, é bom que se diga que estamos bem longe disso. Ou não se tem conhecimento de quanto dinheiro público se gasta erigindo estátuas gigantescas em cidadezinhas pobres do nordeste que não têm sequer saneamento básico? Sem falar nas generosas ajudas financeiras que prefeituras prestam às paróquias mensalmente.
    Ora, lei nenhuma me afetará, desde que não me obrigue a fazer algo errado. Se legalizarem o aborto, minha mulher e filhas não serão atingidas. Se aprovarem a união civil homossexual, isso não afetará meu casamento. Se casais gays vão poder adotar crianças, isso não me diz respeito. O que não posso fazer é permitir que esses grupos se arvorem no direito de me fazer calar, de externar o que penso sobre esses assuntos. Como disse um grande filósofo: "Posso até não concordar com a opinião dos outros, mas não posso proibí-los de emití-la." Esse é o "X" da questão.
    E também não concordo que a questão da homossexualidade foi ignorada pelas Igrejas. Esse é o tipo de clichê reducionista que tem me preocupado no meio dos "intelectualmente privilegiados" crentes em Cristo Jesus.
    Evitemos a tentação do generalismo.
    Abraços!

    ResponderExcluir