quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A história do blog que pode virar igreja

Suzel Tunes
terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os brasileiros estão entre os povos que mais utilizam redes sociais como twitter e facebook. Mas um dia antes da realização do Eclesiocom, no dia 17 de agosto, os jornais publicaram a informação de que esse vigor todo está arrefecendo.

Ao lado dos russos, os brasileiros também estão entre os mais cansados das redes sociais. Um levantamento realizado pela consultoria Garner em 11 países aponta que no Brasil e na Rússia, 30% a 40% dos usuários usam menos esses sites agora do que quando se inscreveram.

A revista UMA, publicação feminina da Editora Escala, também destaca em sua edição de agosto o surgimento de um movimento contrário à onda virtual, com o surgimento de grupos de mulheres que buscam espaço em suas agendas para os contatos reais, organizando reuniões de bate-papo, meditação, estudo e até prática de tricô.

Na reportagem abaixo você vai conhecer a história de um blogueiro, pastor evangélico, que depois de arrebanhar um rebanho virtual está vendo o movimento se materializar.

Em 2008, o então estudante de teologia Paulo Siqueira resolveu lançar dois blogs de uma só vez: um mais teológico, no qual pudesse publicar seus trabalhos acadêmicos (http://pedrasclamam.wordpress.com) e um outro de caráter mais “laico”. (http://estrangeira.wordpress.com).  Ambos abertos ao diálogo sobre a cena evangélica brasileira com o mesmo espírito crítico diante do pensamento e práticas influenciadas pela teologia da prosperidade.

Como diligente blogueiro, Paulo começou a interagir com os seus leitores, respondendo dúvidas e comentários. Ficou quase doido. O número de comentários começou a crescer tanto que nem mesmo de celular em punho, acessando o blog em todos os momentos livres, ele conseguia dar conta de acompanhar as mensagens que chegavam. Paulo Siqueira comprou, então, mais um computador para a casa, ganhou o apoio ativo da esposa Vera, que assumiu o “Estrangeira”, e viu nascer, quase perplexo, um novo movimento pela ética eclesial.

Os blogs do casal Paulo e Vera catalisaram especialmente o descontentamento de jovens evangélicos ansiosos pelo retorno ao “Cristianismo puro e simples” – título de um livro de C.S.Lewis com o qual explicam seu objetivo. (CLIQUE AQUI para fazer o download do livro). São pessoas decepcionadas com a mercantilização da fé, muitas delas feridas por doutrinas e práticas estapafúrdias, mas que mantiveram viva a sua fé.
A própria blogueira Vera é uma dessas sobreviventes. Vera havia pertencido a diferentes grupos religiosos, antes de se tornar evangélica, mas, por maior que fosse a sua fé, não conseguia se livrar de um mal que a afligia: sentia cheiros desagradáveis onde quer que fosse.

“Espíritos” foi a explicação que ela ouviu durante o tempo em que freqüentou  centros espíritas. “Demônios”, disseram-lhe pastores evangélicos. Foi na Unifesp (antiga Escola Paulista de Medicina) que Vera se descobriu portadora de uma rara síndrome. Agora, espera ajudar outros portadores desta síndrome, contando sua experiência em um livro que já tem até título escolhido: “Algo não cheira bem na Igreja”.

O virtual no caminho do real

Inspirados pelas reflexões compartilhadas pelos blogs e mobilizados por intermédio das redes sociais, os blogueiros e seus leitores participaram, em junho, da última Marcha para Jesus (evento capitaneado pela Igreja Renascer) ostentando faixas que pediam ética às igrejas evangélicas brasileiras. “O show tem que parar”, exortavam. Quase apanharam dos seguranças da Marcha. O vídeo da confusão, gravado por celulares, foi para o youtube. “Em seis minutos, comecei a receber e-mails e ligações do Brasil e do exterior”, diz Paulo.

Um desses contatos era de uma repórter do Christian Post, site evangélico de notícias com sede nos Estados Unidos, que o entrevistou. Paulo conta que recebeu convite para se tornar um colaborador do site.

Dois dias depois da Marcha para Jesus, os participantes do Movimento pela Ética Evangélica fizeram o que eles chamam de “antimarcha”: organizaram uma visita, em grupo, a centros de doação de sangue, para sinalizar a “responsabilidade social da Igreja”. “As pessoas querem fazer algo em prol do Reino, mas não são estimuladas pela instituição”, afirma Paulo.

O que eram apenas contatos on line já se tornaram reuniões de reflexão e estudo bíblico. Participam desses encontros, conta Paulo Siqueira, jovens oriundos de todas as tribos e tendências, incluindo um ex-neonazista convertido ao Evangelho. “O virtual está se materializando em nossa frente”, diz o teólogo que já recebeu pedidos para fundar uma Igreja.

A sociologia da religião ensina que os movimentos tendem a se institucionalizar. O que era profeta, contestando a ordem vigente, pode se transformar em sacerdote, legitimando uma nova ordem. Esse é o desafiador quadro que se apresenta ao blogueiro e pastor Paulo. Que Deus o ajude.

fonte:  http://www.alcnoticias.net/interior.php?lang=689&codigo=20235&format=columna

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Igreja Evangélica elogiou Adolf Eichmann

Hamburgo, terça-feira, 23 de agosto de 2011 (ALC) - A revista Der Spiegel divulgou carta em que a Igreja Evangélica da Alemanha (EKD) dos anos 60, dirigida ao Governo Federa, elogia Adolf Eichmann, organizador do Holocausto. Segundo a denúncia, "o assassino em massa foi descrito como um 'homem com um coração bondoso'".

A carta tem cerca de 50 anos, mas lança uma luz negativa sobre a Igreja Protestante, afirmou a revista. As informações prestadas pela Igreja em 1960 ao governo de Konrad Adenauer aparecem em documentos do Arquivo Político do Ministério das Relações Exteriores.


Uma carta de William Mensing-Brown, superintendente de Linz - cidade austríaca em que o assassino em massa havia crescido - foi enviada ao Ministério das Relações Exteriores referindo-se a Eichmann como "decente", um "bom coração" e "com grande disponibilidade para ajudar".


Mensing-Brown escreveu que não poderia "imaginar" que o ex-tenente-coronel SS Adolf Eichmann, estivesse "de acordo ou teria sido capaz de praticar crueldades ou atos criminosos." Ele foi sequestrado na Argentina e levado para Israel. Os irmãos dele  tentaram conseguir um tribunal internacional e não um israelense, e pediram ajuda à Igreja.

Isso levou o bispo Hermann Kunst, representante da EKD no governo federal, a enviar a carta de Mensing-Braun para o Ministério das Relações Exteriores pedindo uma votação "pelo menos interessante." Mas a tentativa foi mal sucedida. Em Jerusalém, Eichmann foi condenado e executado em 1962.

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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)

Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O pecado da era pós-cristã

Num desses dias, alguém me perguntou como se deve proceder quando em pecado. Respondi o óbvio: arrepender-se. A pessoa contestou dizendo que o pecador também é vítima e precisa ser entendido como tal.

Essa me parece ser a discussão dos dias correntes: pecador ou vítima?

A Bíblia reconhece que qualquer pessoa pode ser vítima do pecado de alguém ou mesmo da conjuntura social, ou da estrutura politico-econômico-social, porém, não entende que isso possa justificar qualquer ato pecaminoso. Para a Bíblia todo ser humano é sujeito da e na história, principalmente, de sua história. Todos são pessoalmente responsáveis, ainda que possa haver atenuantes ou agravantes.

Para a Escritura Sagrada o que se pede do pecador é que se arrependa, isto é, que assuma o seu erro e a sua responsabilidade. Arrepender-se é aceitar a punição da lei. Um pecador arrependido é aquele que admite merecer a punição que a Lei de Deus prescreve para ele. Que, em última instância, é a morte: “A alma que pecar, morrerá” (Ez 18.4).

O Novo Testamento, entretanto, nos ensina que todo o pecador que se arrepender, isto é, todo o que admitir e confessar o seu pecado será por Deus perdoado, como ensina o apóstolo João (1 Jo 1.9). E, por ser perdoado por Deus, deve ser perdoado pelo ser humano a quem ofendeu. Entretanto, o pecador não tem como exigir o ser perdoado. O pecador pede perdão, mas, não o exige; pelo simples fato de que perdão não é um direito do pecador, é uma benesse do ofendido. Porque perdão é graça.

É verdade que o cristão não tem como não perdoar (Mt 6.12). Contudo, essa é uma questão entre a vítima e Deus. Além disso, o pecador não tem o direito de reclamar do sofrimento de que foi acometido como consequência de seus atos - no relacionamento ofensor e ofendido (isso não justifica o ofendido, caso sua reação seja pecaminosa). É a lei da semeadura: “Semeia-se vento, colhe-se tempestade” (Os 8.7). E é preciso que se diga que, por pior que seja o sofrimento que o pecado venha a provocar sobre o pecador, ainda é menor do que o Inferno ao qual ele fez jus.

Todo o que confessa o seu pecado será perdoado e restaurado por Deus (1 Jo 1.9). Porém, confessar é assumir a responsabilidade e admitir a justiça da punição pelo que fez. Ainda que a punição não virá pelo fato de já ter sido sofrida por Cristo.

Nesta época tal reflexão está se tornando impensável: porque vivemos numa era de vítimas. Hoje, não importa o erro que a pessoa cometa, ela é sempre vítima: seja da sociedade, seja da história, seja da economia, seja da política, seja das instituições, seja da família. Ninguém é culpado. Logo, como alguém disse: é uma época em que ninguém assume a responsabilidade, nem adia prazeres e nem se presta a sacrifícios.

Essa época é pós-cristã não porque não se fale mais de Deus (pelo contrário, provavelmente, poucas vezes na história se falou tanto de Deus), mas, porque não se fala e nem mais se admite a realidade do pecado. Esta é uma era onde não há mais pecadores, só há enfermos. É o auge do humanismo: o pressuposto de que o ser humano é intrinsecamente bom venceu; e, ora, gente intrinsecamente boa não peca, adoece. E doentes são vítimas.

O que ainda não se percebeu nesta presente época é que doentes não podem ser perdoados. Só pecadores podem ser perdoados. Logo, só pecadores podem ser restaurados; só pecadores podem ser tornados puros de toda a injustiça que cometeram. O que será dos que estão prontos para assumir que estão enfermos, mas, jamais que são pecadores? A probabilidade maior é a de continuar pecando cada vez mais e pior, contraindo, aí sim, uma doença para a qual não há cura: a voracidade de ser aceito de qualquer jeito, por julgar ter o direito de ser de jeito qualquer. Essa enfermidade coloca a pessoa a deriva dos mais grotescos apetites, tornando-a escrava dos instintos, que se tornarão cada vez mais irresistíveis. É a escravidão do pecado (Jo 8.34). E disso só se escapa quando, finalmente, a todos os pulmões o pecador confessa: “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”.

Texto publicado originalmente no portal Irmãos.com


fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/o-pecado-da-era-pos-crista

domingo, 14 de agosto de 2011

Tributo a Deus

† Péricles Pereira Couto – 23/09/1946 – 07/08/2011

(Rm 14:8) Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos;
Se morremos, para o Senhor morremos.
Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor.

Por Estêvão Ferreira Couto

Em Belo Horizonte, em 9 de agosto de 2011.

Não consegui dormir muito na noite de 7 para 8 de agosto. Assim, exatamente às 03:17 horas da madrugada do dia 08, comecei a trabalhar com o que eu estava sentindo escrevendo, uma das milhares de coisas que aprendi com meu pai.

As minhas notas deram origem a parte do que falei na tarde do dia 8 de agosto, no culto em agradecimento a Deus pela vida de meu pai, e são a base do que escrevo agora. É um depoimento muito pessoal. Se você está buscando um “perfil” estruturado sobre quem foi Péricles Couto, pode parar de ler por aqui.
Agradeço mais uma vez, em meu nome e no nome de minha mãe e de minha irmã, todas as mensagens, telefonemas e demais comunicações de carinho e solidariedade que estamos recebendo da cidade, do Brasil e do mundo desde as 17:42 horas do dia 07/08.

Na certidão de óbito consta que meu pai faleceu às 17:40 horas do dia 07/08. Nesse momento, eu estava na porta do CTI e havia acabado de receber a notícia e conversar com o médico. Meu celular tocou às 17:42 horas com a seguinte mensagem de um casal de amigos que mora em Buenos Aires, Argentina:

Olá Estêvão. Marcela e eu estamos acompanhando vocês em oração. Eric.

Respondi com o post:

Meu pai acabou de entrar na presença do Pai. Louvado seja o nome do Senhor!

Eles me retornaram:

Deus esteja com você, Estêvão, sua irmã e sua mãe. Por meio do Péricles muita gente foi abençoada ao longo de toda a vida dele. Conte com Marcela e comigo. Um grande abraço, Eric.

Desculpo-me com os amigos e amigas que mandaram outras mensagens. Ainda não consegui responder.

Volto no tempo. No último dia 29 de junho, mais ou menos na mesma época em que meu pai recebeu a notícia de que precisaria passar por uma cirurgia, estive em um funeral de um bebê recém-nascido de um casal de amigos (Arthur e Quésia) que me impactou muito por causa do exemplo de fé em Deus, uma fé como a que Jó teve, que não dependia das circunstâncias. Na ocasião, pensei:

Quero ter uma fé como essa.

Persisto de forma negligente em muitos erros e pecados recorrentes. Preciso viver a minha vida aqui nesta terra de outra forma, cada dia mais condizente com a transformação que Deus já fez na minha vida.

Sabia que certamente guardaria na memória aquele momento por toda a minha vida, mas não podia imaginar que Deus já estava me preparando para estes dias...

(Tg 4:13-17) Atendei agora, vós que dizeis: Hoje, ou amanhã iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros.
Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa.
Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como faremos isto ou aquilo.
Agora, entretanto, vos jactais das vossas arrogantes pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna.
Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando.
 
A cirurgia do dia 04/08 durou quatro horas. Minha mãe, uma tia e uma prima conversaram com ele logo que saiu da sala de cirurgia. Estava ansioso, mas aparentemente bem. O médico avisou que ele precisaria ser entubado e sedado. Na noite daquele dia eu iria visitá-lo, mas não conseguiria mais conversar com ele...
 
No dia 05/08, o primeiro momento em que o estado dele piorou, oramos junto ao seu leito (eu e minha mãe) o Salmo 23. Comuniquei a Deus que desejava que ele permanecesse mais alguns anos entre nós, mas que se tivesse de ir, que o Senhor nos desse capacidade de discernir e ver a Sua Vontade Soberana.
 
Nesse mesmo dia, minha mãe orou pedindo que ele ficasse porque tinha ainda muitos planos e projetos para realizar na obra do Senhor.
 
No dia 06/08, quando havia uma perspectiva de melhora, orei a Deus junto ao leito de meu pai, pedindo que ele confirmasse aqueles sinais positivos, mas que fosse feita a vontade Dele. Minha mãe orou e leu em voz alta algumas devocionais que meu pai tinha registrado em diário, verbis:

Devocionais Agosto 2011

01.08.2011. Segunda, 10:00.

Bendirei o Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus lábios. Engrandecei o Senhor comigo e todos à uma lhe exaltemos o nome. Clamam os justos e o Senhor os escuta e os livra de todas as suas tribulações.
Salmo 34 (1,3 e 17).

Um novo mês que inicia e estamos em Belo Horizonte hospedados pelo Israel e Nilse. Tempo de espera. Hoje, uma semana depois da cirurgia. Graças te dou ó Deus por Tua presença e encorajamento.

03.08.2011, Quarta, 20:15.

Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre. Salmo 136 (1).

Este foi o Salmo que meditei hoje pela manhã com Alva após ter feito o retorno com o médico cirurgião ontem ao final da tarde e definido a nova cirurgia para amanhã.
 
Interessante ver ao longo do salmo os diferentes motivos pelos quais dar graças ao Senhor. Vejo que o Salmista me inspira a também render graças ao Senhor pela recuperação da primeira etapa da cirurgia e agora, quando me preparo para amanhã muito cedo. A sua misericórdia dura para sempre é o refrão e isso tenho experimentado, louvado seja o Senhor!!!
 
Volto a pedir ao Senhor sua misericórdia e bondade para comigo no sentido de:
(1) me proteger durante todo o processo de cirurgia... os profissionais, os equipamentos, materiais, sala cirurgia, etc.
(2) antes, durante essa noite, tranqüilizar a minha mente, corpo, emoções e espírito, capacitando-me a descansar no Senhor.
(3) guardar a minha estrutura física para todo o processo cirúrgico e para os procedimentos de anestesia, transfusão de sangue, oxigênio e cuidados pós-cirúrgicos na UTI.
(4) guardar Alva e Nilse que estarão inicialmente me acompanhando e Alva durante a espera até que eu possa ir para o apartamento.
(5) assistência e fortalecimento para que eu suporte o tempo de hospitalização.
(6) orientar os procedimentos para minha alta e recuperação na casa do Estêvão. A maneira como conciliar a dinâmica da casa com minhas necessidades. Paciência e força para Alva aguardar este tempo.
(7) dirigir o acompanhamento médico e de enfermagem, alimentação, higiene durante o tempo no Hospital. Oro para que o Senhor me dê resistência mesmo quando estiver muito desconfortável – proteção nos procedimentos de enfermagem.
(8) agradecimento ao Israel, à Nilse por todo seu carinho e cuidado para comigo. Aos irmãos e amigos que tem acompanhado com suas orações.

Rendei graças ao Senhor porque Ele é bom!

03.08.2011. Quarta, 22:25.

Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda.
Salmo 139 (16)

Pai querido, eu te louvo e agradeço por Tua bondade e misericórdia. Por tudo que venho sendo agraciado nestas semanas. Pela Tua Palavra como o texto acima. O Senhor conhece todos os meus dias e assim vou dormir esperando e ansiando por teu descanso. Guarda-me nesta noite e no amanhecer de AMANHÃ.

No dia 07/08, pela manhã, ao visitá-lo, não queria orar. O estado de sua saúde tinha piorado muito. O médico disse que a luz no fim do túnel que tinha se acendido no dia anterior, naquele dia havia se apagado. Minha mãe insistiu para que eu orasse. Balbuciei algo como: “Senhor, não confiamos em homens. Confiamos apenas no Senhor. Os homens são meros instrumentos seus.”
 
Liguei em seguida para um grande amigo, médico, intensivista, que já vinha acompanhando o caso de longe (mora em Brasília), e disse: “Carlinhos, acho que meu pai está indo...”. Ele respondeu: “Estêvão, aguarde alguns minutos que já lhe dou um retorno”.
 
Logo depois, ele retornou: “Estêvão, vou pegar um avião. Chego em Belo Horizonte às 16:10 horas”. Busquei-o no aeroporto e deixei-o na porta do hospital às 16:59 horas. Aproximadamente vinte minutos depois ele me ligou: “Estêvão, venha com sua mãe rapidamente. Ele não vai resistir.” Chegamos rapidamente no hospital, mas ele já tinha chegado na Glória. Carlinhos me disse depois que o coração dele foi diminuindo o ritmo lentamente, até que parou...

***

Minha esperança em Jesus Cristo, o Filho do Deus Vivo, não está abalada. Eu somente queria ter um pouco mais de tempo para me despedir dele. Porém, Deus sabe de todas as coisas. Se o chamou agora, e de forma tão abrupta, é porque tem algum propósito. Quem sou eu para questionar o Deus Vivo?
 
Meu pai, como qualquer ser humano, não foi perfeito. Como filho que o amava, eu conhecia muitos de seus defeitos, e também suas qualidades. Por isso, este tributo somente pode ser AO DEUS QUE EU CONHEÇO, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus dos Profetas, o Deus dos Apóstolos, o Deus que se encarnou em Jesus Cristo, o Alfa e o Ômega.
 
O culto celebrado ontem foi em memória de meu pai, mas em louvor a esse Deus. Não foi uma cerimônia para ficar somente exaltando suas qualidades (como se todos os seus defeitos tivessem se desvanecido diante da morte), mas para relembrar que as qualidades que ele tinha brilhavam pela graça e pela misericórdia do Senhor na vida dele, pela atuação de Deus nele, pela disposição que ele tinha de sempre alinhar a agenda da vida dele com a agenda do Nosso Deus.
 
Meu pai cumpriu a promessa que fez a Deus muitos anos atrás, de me inculcar a Palavra do Senhor (Dt 6:7). Meu pai foi meu primeiro professor de teologia (Sim! Leigos também “fazem” teologia, como os protestantes anunciaram lá no século XVI). Ele lançou os fundamentos. Quando os fundamentos estavam consolidados, ele fazia perguntas, e quando eu pedia a resposta, ele dizia: “Se vira”. Depois, se deliciava com o que eu tinha aprendido...

(Tg 1:27) A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

(Salmo 1:1-2) Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite.

Esses são dois dos inúmeros versículos e textos bíblicos que meu pai impregnou no meu coração e na minha mente.
 
Me lembro agora mesmo das várias noites, eu e minha irmã Soninha, sentados na beirada da cama de meus pais, tentando recitar o Salmo 1 completo, de cor, lutando com aquelas palavras difíceis e, finalmente, completando a tarefa. O começo era desanimador, mas a conclusão era pura felicidade.
 
Fui um privilegiado por ter Péricles Couto como meu pai. Ele não é somente meu pai de sangue. É também meu pai na fé. Converti-me ao Senhor Jesus Cristo em um carro, no trânsito. Meu pai dirigia e eu conversava com ele. De repente, eu disse: “Pai, eu quero receber Jesus no meu coração. O que devo fazer?” Meu pai encostou o carro e ali fizemos uma oração. Eu era pequeno, mas esse momento está gravado na minha mente em flashes.
 
Muitos irmãos em Cristo já me disseram isso e eu mesmo já pude testemunhar em várias oportunidades: que o dom que Deus deu ao meu pai no Corpo de Cristo era a profecia. Dizer verdades em voz alta. Colocar o dedo nas feridas. Não se calar diante da opressão e do erro, muitas vezes comprometendo a sua própria posição. Ele era assim. Às vezes ríspido demais. Mas às vezes a rispidez era necessária.
 
Deus me ensinou muitas coisas através dele (não somente através do que falava, mas principalmente através do modo como vivia): perseverança; método; organização; prestar atenção aos detalhes sem perder a visão do todo; perceber a realidade ao meu redor (não somente aquilo que é afetado pelas contingências sociais e políticas, mas também aquilo que só pode ser discernido espiritualmente – anos depois eu vim a saber, por John Stott, que isso se chamava double listening); quando cometer um erro, assumir, não esconder, e tomar imediatamente providências para corrigi-lo, fazendo tudo ao alcance para isso; jogar bola (brincávamos em um grande gramado na frente de nossa antiga casa; ele me driblava e eu me irritava por não conseguir tirar a bola dele; acompanhei incontáveis partidas dele agarrado na cerca, do lado de fora; ele realmente jogava muito bem); cuidar da minha saúde; cuidar da natureza que Deus criou (um de seus hobbies, que nos últimos tempos não praticava mais, era a jardinagem).
 
A Igreja Presbiteriana foi onde meus avós, meus pais, eu e minha irmã fomos formados e experimentamos comunhão. Portanto, apesar de decepções com os vícios arraigados na estrutura institucional dessa igreja visível, esse ainda é um espaço inicial de referência para entender meu pai e minha família.
Deve ser mencionado aqui também o tempo que ele teve junto com minha mãe e minha irmã (eu já estava fora de Belo Horizonte) na Comunidade Evangélica do Castelo. Nas suas próprias palavras, “um tempo dado por Deus para transição e restauração”.
 
Mas meu pai me ensinou a ver além dos muros denominacionais. Desde pequeno, sempre conversávamos em família sobre os encontros e os desencontros do mundo evangélico e sobre aquilo que precisava ser essencial. Meu pai teve papel destacado nos primeiros debates sobre fé cristã e política (INESP, etc) e também em movimentos que buscavam unir as denominações evangélicas (AEVB, etc). Era um visionário. Às vezes, depois de uma grande articulação, queixava-se comigo que as pessoas não conseguiram perceber tudo aquilo que ele queria passar. Mas quem disse que isso o desanimava? Algum tempo depois, lá estava ele fazendo outra “articulação”.
 
Para ele, sua profissão tinha de ter um componente direto de transformação social. Era parte intrínseca de sua vocação cristã. Nesse sentido, economista por formação, com especialização em administração, abriu mão de uma carreira em grandes empresas (o que poderia trazer maior estabilidade pessoal) para mergulhar em projetos que procurassem trazer justiça social para o bairro, a cidade, a região, o Brasil, o mundo. Nesse ponto, teve em minha mãe Alva uma companheira maior ainda, pois ela, assistente social, debatia e partilhava os mesmos sonhos, em sua carreira de quase vinte anos na Visão Mundial e depois.
 
Esse “jeito de ser” dos meus pais me influenciou profundamente. Sempre me lembro da graça que eles acharam quando descobriram que eu estava brincando com um amiguinho de escola sobre uma imaginária “Associação Comunitária de Agentes Secretos – ACAS”. As conversas de meus pais transbordavam para as minhas brincadeiras.
 
Aqui preciso falar de uma experiência seminal em sua vida profissional (ele sempre voltava a ela; lembrava com carinho e nostalgia): a gerência de um projeto do Fundo Cristão para Crianças no Bairro Cabana de Belo Horizonte. Ali ele fez algo que influenciou toda a sua vida posterior; ali ele formou uma equipe (era exímio nesse trabalho) que até hoje o vê como uma referência de líder.
 
Em abril de 2005, meu pai saiu de Belo Horizonte para Curitiba para o que se tornou o último grande desafio de sua vida: implantar a Missão Aliança da Noruega no Brasil, uma organização diaconal evangélica que apóia igrejas locais que desenvolvam algum trabalho de transformação social na realidade em que estão inseridas.
 
Entrando nos sessenta anos, incansável, consolidou e iniciou vários projetos e, junto com a Fundação Kairós e outras organizações (bem ao estilo dele, articulando várias cabeças pensantes e conciliando idéias), procurou fazer com que as igrejas evangélicas voltassem a pensar e a praticar a missão integral, o que culminou com o livro “Igreja: agente de transformação”, organizado por ele em conjunto com René Padilla, lançado recentemente.
 
Não posso esquecer de mencionar sua vinculação histórica à Aliança Bíblica Universitária do Brasil – ABUB: participante do Congresso de 1976, articulador de grupos estudantis e profissionais, Diretor Financeiro, participou com maior ou menor intensidade sempre, com e sem cargos (todo legítimo ABUense sabe que não é necessário cargo para trabalhar no movimento, basta comparecer à reunião). Dizia-me que aprendeu a viver a fé no dia-a-dia na ABUB (e eu segui seus passos: aprendi também a viver a minha fé no dia-a-dia na ABUB). Orgulhava-se em dizer que eu freqüentava a ABU desde que aprendi a andar e que era apelidado de “rodinha” pelos grupos de estudantes e profissionais.
 
Nos últimos anos, ficamos distantes fisicamente (fui morar fora de BH e, quando voltei, ele foi para Curitiba), mas ele ficava horas comigo no telefone contando o que tinha acontecido com ele, o que tinha feito, suas impressões, seus planos e seus sonhos, como se estivéssemos sentados à mesa da sala de jantar de nossa antiga casa em BH, após uma refeição.
 
Querido papai. Vamos sentir muitas saudades, principalmente porque a partida foi muito rápida e sem aviso. Mas não é um “adeus”. É um “até logo”. Nossa vida neste mundo é passageira. Somos peregrinos em terra estranha. Daqui a pouco nos encontramos na Glória com Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Lá não haverá mais choro. Lá seremos verdadeiramente felizes.

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos capacite a viver de modo digno para com a vocação para a qual fomos chamados. Somente a Ele toda a Glória!


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Evangélicos sem espetáculo

Pessoas religiosas e seculares fazem um grande trabalho humanitário, mas às vezes não trabalham juntas por suspeitas mútuas

08 de agosto de 2011 | 0h 00
Nicholas D. Kristof, The New York Times - O Estado de S.Paulo
 
Nesta época de polarizações, poucas palavras provocam tanta aversão nos ambientes liberais quanto "cristão evangélico".

Em parte, isto se explica porque, nos últimos 25 anos, os evangélicos foram associados a personagens rabugentos e fanfarrões. Quando os reverendos Jerry Falwell e Pat Robertson debateram na televisão se os ataques de 11 de Setembro foram uma punição de Deus contra as feministas, os gays e os secularistas, Deus deveria tê-los processado por difamação.

Anteriormente, Falwell defendera que a aids é "o julgamento de Deus sobre a promiscuidade". Esta presunção religiosa permitiu que o vírus da aids se espalhasse, constituindo uma imoralidade maior do que tudo o que poderia acontecer nas saunas gays.

Em parte, por causa desta postura bem-pensante, todo o movimento evangélico frequentemente foi condenado pelos progressistas como reacionário, míope, irracional e até mesmo imoral.

Entretanto, esse menosprezo casual é profundamente injusto, se considerarmos o movimento como um todo. Ele reflete um tipo de intolerância às avessas, às vezes um fanatismo às avessas, dirigido contra dezenas de milhões de pessoas que na realidade se envolveram cada vez mais na luta contra a pobreza e na defesa da justiça global.

Essa linha compassiva da corrente evangélica foi dotada de bases extremamente sólidas pelo reverendo John Stott, um moderado estudioso inglês que influiu de maneira muito mais importante no cristianismo do que astros da mídia como Robertson ou Falwell. Stott, que morreu há alguns dias aos 90 anos, foi incluído na lista das cem pessoas mais influentes do globo da revista Time. Em termos de estatura, às vezes foi considerado o equivalente do papa entre os evangélicos de todo o mundo.

Stott não pregou acenando com a ameaça das penas do inferno numa rede cristã de televisão. Ele foi um humilde estudioso cujos 50 livros aconselham os cristãos a emular a vida de Jesus - principalmente sua preocupação com os pobres e os oprimidos - e a se opor a mazelas sociais como a opressão racial e a poluição ambiental.

"Os bons samaritanos sempre serão necessários para socorrer os que foram assaltados e roubados; entretanto, seria melhor acabar com os bandoleiros na estrada de Jerusalém a Jericó", escreveu Stott em seu livro A Cruz de Cristo. "Por isso, a filantropia cristã em termos de alívio e ajuda é necessária, mas muito melhor seria um aprimoramento a longo prazo, e nós não podemos fugir da nossa responsabilidade política e da necessidade de participar da transformação das estruturas que inibem este aprimoramento. Os cristãos não podem olhar com tranquilidade as injustiças que arruínam o mundo de Deus e degradam suas criaturas".

Stott deu exemplos das injustiças contra as quais os cristãos precisam lutar: "os traumas da pobreza e do desemprego", "a opressão das mulheres", e na educação, "a negação de iguais oportunidades a todos".

Para muitos evangélicos que sempre se retraíam quando um "televangélico" ganhava as manchetes, Stott era um guru intelectual e uma inspiração. Richard Cizik, presidente da Nova Igreja Evangélica Parceria para o Bem Comum, que trabalhou heroicamente para combater desde o genocídio até a mudança climática, me disse: "Contra a charlatanice e a irracionalidade no nosso movimento, Stott permitiu afirmar que você é "evangélico" e não deve se arrepender".

O reverendo Jim Wallis, diretor de uma organização cristã chamada Sojourners (Os visitantes), que trabalha em prol da justiça social, acrescentou: "John Stott foi o primeiro líder evangélico importante que defendeu o nosso trabalho na Sojourners". Stott, que foi um aluno brilhante em Cambridge, também ressaltou que a fé e o intelecto não precisam ser conflitantes.

Há muitos séculos, o estudo profundo da religião era extraordinariamente exigente e rigoroso; por outro lado, qualquer um podia declarar-se cientista e passar a exercer a alquimia, por exemplo. Hoje, é o contrário. Um título de doutor em química exige uma formação rigorosa, enquanto um pregador pode explicar a Bíblia pela televisão sem dominar o hebraico ou o grego - ou mesmo sem mostrar interesse pelas nuances dos textos originais.

Os que se denominam líderes evangélicos revelam-se hipócritas, transformando Jesus em lucro em lugar de emulá-lo. Alguns parecem inclusive homofóbicos, e muitos que se declaram "a favor da vida" parecem pouco preocupados com a vida humana depois que ela sai do útero. São os pregadores que aparecem nas manchetes e são menosprezados.

Escrevendo sobre a pobreza, as doenças e a opressão, encontrei outros ainda. Os evangélicos estão desproporcionalmente dispostos a doar o dízimo do que ganham a obras de caridade, em geral ligadas à igreja. O mais importante é que se procuramos nas linhas de frente, nos EUA ou no exterior, nas batalhas contra a fome, a malária, as violações nas prisões, a fístula obstétrica, o tráfico de pessoas ou o genocídio, alguns dos mais corajosos que encontramos são cristãos evangélicos (ou católicos conservadores, que a eles se assemelham de muitas maneiras) que vivem verdadeiramente a sua fé.

Não sou particularmente religioso, mas reverencio os que vi arriscando sua vida dessa maneira - e me enoja ver esta fé ridicularizada em coquetéis em Nova York.
Por que tudo isto é importante?

Porque tanto as pessoas religiosas quanto as seculares fazem um trabalho fantástico em questões humanitárias - mas elas frequentemente não trabalham juntas em razão das suspeitas mútuas. Se pudermos superar este "abismo divino", poderemos progredir muito mais no combate às mazelas do mundo.

E esta seria, realmente, uma dádiva divina. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA


fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,evangelicos-sem-espetaculo,755510,0.htm

domingo, 7 de agosto de 2011

In memorian Péricles Couto

†
Péricles Couto, um amigo que foi para o céu.

Na tarde deste domingo, dia 07 de agosto de 2011, após uma breve e intensa batalha contra um câncer descoberto a menos de quinze dias, tendo passado por duas cirurgias, Péricles  "Coutinho" veio a falecer em Belo Horizonte. Residia com a esposa Alva nos últimos anos em Curitiba de onde coordenavam a Missão Aliança, ong social cristã.

Morreu na cidade onde cresceu e trabalhou grande parte de sua vida e onde reside sua mãe nonagenária, D. Geraldina Couto. São seus irmãos o Lutero (Curitiba, PR) e o Ebenezer (Uberlândia,MG). Honrando seu legado temos seus filhos Estevão e Sonia.

Certamente o Péricles será lembrado pela sua paixão por Cristo de quem foi constante  servidor. E por seu largo coração que acolhia a todos com uma rara gentileza e honestidade. Bom de prosa e hospitaleiro, abria sua casa para grupos de estudantes estudarem a Bíblia ou para vizinhos discutirem ações de melhorias no bairro. Ou simplesmente juntava amigos para festejar a vida. Desenvolveu e manteve o precioso hábito de visitar antigos amigos. Em trabalhos de grupo, em
negociações ou debates raramente se exaltava ou era ríspido com alguém. Sua fala às vezes era entrecortada por explosões de riso, numa alegria pura. Juntamente com a esposa, suportou  situações difíceis e sofreu angústias em diversos momentos justamente por não compactuar com pecados institucionais e incorreção ética de igrejas e organizações.

Como cidadão brasileiro colocou-se vivencial e profissionalmente a serviço dos pobres e excluídos de nosso país. Centenas de pessoas se entristecerão por um tempo pela sua partida, guardando a lembrança de sua caridosa, amiga e terapêutica presença. Sempre era visto com a sua companheira de décadas, a Alva, com quem dividia as lutas e conquistas e a quem abraçamos neste momento.  Podemos falar dele como o tipo do qual o mundo, com suas mazelas e corrupção não era digno. O Eterno o chamou e os anjos cantam alegremente por mais um remido por Cristo entrar nos céus.

Margarete e Ageu Heringer Lisboa

veja também: http://crerpensar.blogspot.com/2011/08/tributo-deus.html

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ateus espalham outdoors com mensagens polêmicas em Porto Alegre

(Estado de Minas) Com a intenção de combater o preconceito contra quem não acredita em nenhum deus, uma associação de Porto Alegre (RS), que reúne ateus, tomou uma atitude inusitada. Seus membros espalharam outdoors pelas ruas da cidade com as mensagens "Religião não define caráter." "Somos todos ateus com os deuses dos outros."


(Reprodução)

De acordo com a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, quatro outdoors já foram fixados nas ruas da capital gaúcha, que é a primeira do país a receber a iniciativa. A expectativa é de que o número de outdoors aumente, o que vai depender principalmente de doações. Ao todo, a entidade já gastou R$ 7.000, valor bancado por doares. A associação espera ainda expandir o projeto para outras cidades, mas isso vai depender também de doações.

Lá fora, a campanha não é novidade e há dois anos, as mensagens são divulgadas em ônibus. Na Inglaterra, em 2009, foram publicadas mensagens dizendo: "Deus provavelmente não existe". No Brasil, a associação informou que empresas de transporte de Porto Alegre, Salvador, Florianópolis e São Paulo rejeitaram a proposta de publicidade, feita no final do ano passado.

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/ateus-espalham-outdoors-com-mensagens-polemicas-em-porto-alegre

domingo, 31 de julho de 2011

CARTA EM APOIO AO REV. RICARDO GONDIM

O Conselho de Presbíteros da Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, reunido em 09 de julho de 2011, por decisão unânime dos presentes, vem a público expressar seu apoio e solidariedade ao Rev. Ricardo Gondim em relação aos desdobramentos de sua entrevista à Revista Carta Capital publicada em 27 de Abril deste ano no qual defende o reconhecimento jurídico da união homoafetiva no Brasil.

Repudiamos, em primeiro lugar, a onda de insinuações, julgamentos e insultos  que o pastor fundador da Assembléia de Deus Betesda vem sofrendo. Em sua grande maioria, tais críticas carecem de profundidade além de, em alguns casos, de um mínimo de respeito e amor cristão. Denunciamos tais discursos como espúrios e carentes de qualquer conexão com o espírito que emana dos Evangelhos. O reverendo Gondim, por sua humanidade, trajetória e contribuição ao meio evangélico brasileiro, merece tratamento respeitoso e menos leviano, mesmo em meio ao mais acalorado debate.

Lamentamos também a decisão da revista Ultimato de “des-continuar” a coluna do Reverendo Gondim. Por cerca de 20 anos ele foi voz profética coerente e aplaudida por editores e leitores dessa que já foi considerada a mais progressista publicação evangélica.  Por seu tom crítico e arejado, a Ultimato tem sido um espaço de encontro, debate e acolhimento das vozes dissonantes do senso comum conservador e autoritário do meio evangélico. Nosso lamento não tem deriva da expectativa de que a Revista Ultimato endossasse as posições do pastor Gondim relativas aos direitos civis dos homossexuais. Assinantes por anos dessa publicação, sabemos e valorizamos a pluralidade e a liberdade de seus articulistas. Temos clareza também de que o tema tocado pelo reverendo é complexo e terreno fértil para polarizações. Por isso mesmo e acostumados que estávamos a ver em suas páginas temas polêmicos e questionamentos honestos nos decepcionou a opção dos editores da Ultimado pela exclusão de um colaborador da envergadura e honestidade intelectual de Ricardo Gondim. Empobrecedora escolha.  Silêncio e exclusão justo em um momento em que é necessário aprofundar e qualificar o debate relativo à tensão entre o sagrado direito de crença de uns e o democrático respeito aos direitos civis (laicos) de outros.

Perdemos muito com tudo isso. Como evangélicos mais uma vez passamos a nosso país a noção de que somos uma massa conservadora homogênea incapaz de ouvir qualquer voz divergente mesmo da boca de seus próprios filhos.

Por rejeitar como vocalização de nossas posições os discursos simplificadores de questões complexas, por negar como legitimas toda retórica do ódio e por desejar que não se repitam  inquisições (com ou sem fogueiras) nos solidarizamos com o Reverendo Gondim, relembrando a máxima de Agostinho “No essencial, a unidade; na dúvida, a liberdade; em tudo, a caridade!".

Wertson Brasil de Souza, Presb.
Moderador do Conselho

Jorge Eduardo Diniz, Rev.
Pastor Titular

fonte: http://www.segundaigreja.org.br/noticias_view.asp?id=525

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Contestações ao noticiário sobre supostas pesquisas secretas

As contestações abaixo foram enviadas por correio eletrônico. Divulgo omitindo o remetente das mesmas - entre outras razões porque as argumentações são válidas independentemente de quem as faça.

Qui, 28 de Jul de 2011 5:02 pm

1a. contestação

Sejam mais céticos. Duvidem mais das coisas que leem na Internet. Sempre que querem dar credibilidade a algo dizem que "cientistas afirmam" (no indefinido) ou "é segredo ou secreto", ou " a Nasa não quer revelar...", ou atribuem a Einstein coisas que ele nunca falou, falam que Darwin, Freud, Einstein, Marx se arrependeram no final da vida ...Ciência vive de comprovação e certezas, por isso é diferente da fé.

2a contestação.

Como esta notícia vem de um blog cristão conservador de direita, traduzida de um site de mesma ideologia, com fonte em um tablóide inglês de cunho conservador e textos resumidos; acho importante esclarecer algumas coisas para quem está formando opinião sobre o assunto.

“cientistas britânicos criaram mais de 150 embriões híbridos de seres humanos com animais”

Em nenhum momento da notícia é comentado que estes embriões nunca chegam a 14 dias de idade e se desenvolvem no máximo até este ponto:

http://www.sciencephoto.com/image/313928/530wm/P6800679-Human_blastocyst-SPL.jpg

Acho que este tipo de informação não deveria faltar numa notícia que mexe com o sentimento de tantos; que também são, em sua maioria, leigos.

“155 embriões “mesclados”, contendo material genético tanto humano quanto animal, foram criados durante os passados três anos”

Estes embriões são formados por um óvulo animal sem núcleo, que é fecundado por um núcleo celular 100% humano. O único DNA não-humano que existe neste embrião está nas mitocôndrias restantes do óvulo que constituem no máximo 0,1% de todo material. Estas não adicionam em nada ao material genético responsável pelas divisões celulares que são 100% humanas. Será que todos que lêem esta notícia entendem o nível dessa “mescla”? Será que todos entendem que SE este embrião pudesse ser desenvolvido em uma gestação ele resultaria em um ser humano normal e não numa suposta quimera metade humano metade besta? Usam-se óvulos de animais não-humanos apenas para evitar o uso de óvulos humanos que são mais difíceis de adquirir.

“As pesquisas secretas foram reveladas depois que uma comissão de cientistas alertou sobre um cenário de pesadelo em que a criação de híbridos de seres humanos com animais poderia ir longe demais.”

As pesquisas não eram secretas (apenas para o tabloide sensacionalista), e o que esta comissão de cientistas veio alertar se referia ao uso de transgenia de características humanas para animais. A objeção ética no caso é em relação ao sofrimento de animais; não com os “embriões mesclados”.

A comissão está preocupada com questões relacionadas aos animais humanos e não-humanos que já estão vivos e podem experimentar sofrimento. Estes cientistas não se opõe a pesquisa promissora que é feita com um amontoado de células com menos de 2 semanas de idade.

Na notícia traduzida escrevem:

“O Prof. Robin Lovell-Badge do Instituto Nacional de Pesquisas Médicas e coautor de um relatório feito pela comissão de cientistas, avisou sobre os experimentos e pediu uma vigilância mais rigorosa desse tipo de pesquisa.”

Na notícia original escrevem assim (traduzi para facilitar):

“ Professor Robin Lovell-Badge (…) disse que os cientistas não estavam preocupados com relação aos embriões humanos-animais porque pela lei estes tem de ser destruídos em até 14 dias (...) Ele diz: ‘A razão de fazer estes experimentos é entender mais sobre o desenvolvimento humano inicial e encontrar formas de curar doenças sérias, e como um cientista eu sinto que existe um imperativo moral em continuar com esta pesquisa.”

Como percebem, a informação correta não causa o mesmo efeito que o texto que foi traduzido de forma convenientemente errada.

“Dos 80 tratamentos e curas que ocorreram a partir das células-tronco, todos vieram das células-tronco adultas, não das embrionárias. Na base da ética e moralidade, [os experimentos com células-tronco embrionárias] fracassam; e na base da ciência e medicina também”.

Esta é a opinião de um político católico pró-vida sem qualquer especialidade no assunto. Ele ignora o fato de que a produção de células-tronco adultas só foi possível graças às pesquisas em células-tronco embrionárias. Além disso, avanços em vários estudos vieram indiretamente desse tipo de pesquisa, e o potencial de novas descobertas ainda existe. Na base da ciência e medicina estão longe de ser um fracasso, e na verdade tem grande potencial de continuar a ser um sucesso. Com base na “ética e moral” que defende um blastocisto por este supostamente possuir uma alma, em detrimento da cura potencial de inúmeras doenças que certamente vão matar milhões de seres humanos formados e conscientes; talvez ela fracasse mesmo. Ainda bem.

“Josephine Quintavalle, da organização pró-vida Comment on Reproductive Ethics (Corethics), disse para o Daily Mail, “Estou horrorizada com o fato de que isso esteja ocorrendo e não sabíamos nada disso. Por que eles guardaram isso como segredo? Se eles têm orgulho do que estão fazendo, por que precisamos fazer ao Parlamento perguntas para que isso seja trazido à luz?”

Não guardaram nada em segredo. Agiram de acordo com a legislação de embriologia vigente desde 2008, como a própria reportagem ressalta. Bastava que as organizações pró-vida (pró-vida de quem?) incomodadas com esse tipo de pesquisa tivessem checado a informação 3 anos atrás. Cientistas estão ocupados com coisas mais importantes que informar todo novo procedimento científico de maneira simples, para organizações e pessoas que estão longe de querer entender ciência. Quem acredita que um amontoado de algumas dezenas de células merece mais respeito que a cura de seres em plena consciência/senciência precisa se informar. Caso o problema não seja falta de informação, mas sim, excesso de crenças pessoais, espero que estas se mantenham aonde pertencem: no subjetivo de cada um.

De uma forma geral a ‘notícia’ vem mais para obscurecer do que para esclarecer, contendo várias informações incorretas e tendenciosas; além de ser baseada em um tabloide de reputação duvidosa e linguagem simplista, sem qualquer compromisso com a divulgação científica correta.

3- comentário -

Muito legal Pedro essa discussão. Isso me motiva a continuar sócio do Debulhar. Parabenizo ao Ageu por tê-la iniciado. Os seres humanos são animais vertebrados, bípedes, polegar opositor, encéfalo bem desenvolvido e mamíferos. Com DNA com lógicas similares a de outros mamíferos. Essa separação dita entre humanos e animais tem a mesma origem da separação feita para alimentar a discriminação sofrida por Darwin.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cientistas da Inglaterra alertam sobre pesquisas secretas de híbridos de seres humanos com animais

LONDRES, Inglaterra, 25 de julho de 2011 (Notícias Pró-Família) — Num cenário que um grupo de cientistas da Academia de Ciências Médicas avisou se assemelha ao “Frankenstein” de Mary Shelley, cientistas britânicos criaram mais de 150 embriões híbridos de seres humanos com animais em pesquisas secretas conduzidas em laboratórios britânicos.
De acordo com o jornal Daily Mail, 155 embriões “mesclados”, contendo material genético tanto humano quanto animal, foram criados durante os passados três anos por cientistas que disseram que dava para se colher células-tronco para serem usadas em pesquisas com a finalidade de alcançar possíveis curas para uma grande variedade de doenças.
As pesquisas secretas foram reveladas depois que uma comissão de cientistas alertou sobre um cenário de pesadelo em que a criação de híbridos de seres humanos com animais poderia ir longe demais.
O Prof. Robin Lovell-Badge do Instituto Nacional de Pesquisas Médicas e coautor de um relatório feito pela comissão de cientistas, avisou sobre os experimentos e pediu uma vigilância mais rigorosa desse tipo de pesquisa. De forma especial ele concentrou a atenção em material genético humano que vem sendo implantado em embriões animais, e tentativas de dar atributos humanos aos animais de laboratórios injetando células-tronco nos cérebros de macacos.
Revelou-se que os laboratórios da Universidade King’s College de Londres, da Universidade de Newcastle e da Universidade de Warwick receberam autorizações para realizar as pesquisas após a introdução da Lei de Embriologia e Fertilização Humana de 2008 que legalizou a criação de híbridos de seres humanos com animais, bem como “cíbridos”, em que um núcleo humano é implantado numa célula animal, e “quimeras”, em que células humanas são misturadas com embriões animais.
Entretanto, os cientistas não pediram nenhuma lei adicional para regulamentar tais pesquisas polêmicas, mas pediram, em vez disso, uma comissão de especialistas para supervisioná-las. O Prof. Martin Bobrow, presidente do grupo de trabalho da Academia que produziu o relatório, disse: “A vasta maioria dos experimentos não apresenta questões além do uso geral de animais em pesquisas e esses experimentos devem prosseguir sob os regulamentos atuais. Um número limitado de experimentos deveria ser permitido e sujeito a análises por parte do órgão de especialistas que recomendamos; e só um número muito pequeno de experimentos deveria ser empreendido, até que pelo menos as consequências potenciais sejam mais plenamente compreendidas”.
Peter Saunders, presidente da Federação Médica Cristã, uma organização com sede na Inglaterra com 4.500 médicos ingleses, expressou ceticismo acerca de tal órgão regulador.
“Cientistas regulando cientistas é preocupante porque os cientistas geralmente não são especialistas em teologia, filosofia e ética e muitas vezes têm interesses especiais de natureza ideológica ou financeira em suas pesquisas. Além disso, eles não gostam que coloquem restrições em seu trabalho”, observou Saunders.
Numa sessão de perguntas e respostas no Parlamento sob a direção do Lorde David Alton depois da divulgação do relatório, revelou-se que as pesquisas envolvendo híbridos de seres humanos com animais pararam devido à falta de financiamento.
“Argumentei no Parlamento contra a criação de seres meio humanos e meio animais como assunto de princípio”, disse lorde Alton. “Nenhum dos cientistas que apareceu diante de nós conseguiu nos dar qualquer justificativa em termos de tratamento. Em toda fase a justificação dos cientistas foi: se tão somente vocês nos derem permissão para fazer isso, encontraremos curas para todas as doenças que a humanidade conhece. Isso é chantagem emocional”.
“Eticamente, nunca dá para justificar isso — isso nos tira o crédito como um país. É envolver-se com coisas bizarras”, acrescentou lorde Alton. “Dos 80 tratamentos e curas que ocorreram a partir das células-tronco, todos vieram das células-tronco adultas, não das embrionárias. Na base da ética e moralidade, [os experimentos com células-tronco embrionárias] fracassam; e na base da ciência e medicina também”.
Josephine Quintavalle, da organização pró-vida Comment on Reproductive Ethics (Corethics), disse para o Daily Mail, “Estou horrorizada com o fato de que isso esteja ocorrendo e não sabíamos nada disso. Por que eles guardaram isso como segredo? Se eles têm orgulho do que estão fazendo, por que precisamos fazer ao Parlamento perguntas para que isso seja trazido à luz?”
“O problema com muitos cientistas é que eles querem fazer coisas porque querem fazer experiências. Essa não é uma justificativa boa o suficiente”, concluiu Quintavalle.
 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

John Stott Has Died

An architect of 20th-century evangelicalism shaped the faith of a generation.

Editor's Note: John Stott died today at 3:15 London time (about 9:15 a.m. CST), according to John Stott Ministries President Benjamin Homan. Homan said that Stott's death came after complications related to old age and that he has been in discomfort for the last several weeks. Family and close friends gathered with Stott today as they listened to Handel's Messiah. Homan said that John Stott Ministries has been preparing for his death for the past 15 years. "I think he set an impeccable example for leaders of ministries of handing things over to other leaders," Homan said. "He imparted to many a love for the global church and imparted a passion for biblical fidelity and a love for the Savior." This story will be updated as more information becomes available.

domingo, 24 de julho de 2011

O inicio da vida humana e o status do embrião

Gottfried Brakemeier

Apesar das igrejas cristãs não terem uma opinião unânime sobre o "status do embrião" (e, à exceção da Católica Romana, não terem uma fonte dogmática final), conjuntamente afirmam que a vida é um dom de Deus. Ninguém existe por decisão dos pais, mas porque Ele é que dá origem à própria vida. O ser humano, na verdade, nada cria, mas compreende os mecanismos e os copia, não sendo a origem primordial de nada. "Apenas maneja, manipula".

Biblicamente a dignidade humana não nasce na sua condição como tal, mas é fruto de um dom divino. A dignidade não está vinculada ao grau de evolução biológica, ou à capacidade de intervir na natureza (para o bem e para o mal), mas simplesmente em virtude da eleição de Deus. E esta eleição visa o serviço no mundo, sob Suas orientações. E pelo relato bíblico, tal dignidade é anterior a qualquer atitude humana. Por extensão, o embrião humano também é revestido desta mesma dignidade.
Contudo, há divergências sobre o início da vida em si, que devem ser levadas em consideração.

Assumir que a vida humana se inicia completamente na fecundação exclui diversos determinantes óbvios: a necessidade do embrião ser recebido e implantado no útero e a da existência de um meio ambiente propício ao seu desenvolvimento e crescimento, o que incluiu laços interpessoais (uma "biosfera"). Definir a vida humana sem levar em consideração os relacionamentos sociais é ignorar a sua complexidade, reduzindo-a a meras expressões do genoma. Estariam mais próximos à verdade aqueles que defendem não ser possível definir o início da vida humana, sendo este, por definição, "indefinido"? E se assim o for, quais as repercussões práticas?

 A nidação, o momento no qual o ovo se fixa à parede uterina, é a primeira experiência de socialização e de acolhimento. A mãe acolhe aquele ser, e estabelece vínculos que progressivamente se tornarão mais complexos, com repercussões em toda a vida futura da pessoa. Também é a etapa final de um rigoroso processo seletivo, já que entre 40 e 70% dos zigotos não são acolhidos pelo útero. Este número impressiona quando se pensa em dar ao ovo o mesmo status moral de um ser humano já nascido. Se o óvulo fecundado, antes da nidação, é equivalente moral de um já nascido, tal estatística refletiria verdadeira catástrofe humana!

Mas não sendo moralmente equivalente ao ser humano plenamente desenvolvido, o zigoto permanece como semente que tem como alvo sua nidação e completo desenvolvimento. Este "ser humano que será" não é uma "coisa", um objeto, devendo ser tratado com respeito e reverência. E isto deve ser levado em conta na fertilização in vitro, no uso da pílula do dia seguinte, na clonagem, na busca por células tronco, dentre outras.

Ainda que a natureza não endosse a tese de que o direito à vida é absoluto (se assim o fosse, não existiriam embriões não implantados") este direito não pode ser negado, exceto quando confrontado com o direito à vida de outra pessoa (a mãe, no caso dos embriões).

A igreja luterana entende decisão ética como aquela que é tomada após avaliação cuidadosa dos argumentos favoráveis e desfavoráveis, dos prejuízos e dos benefícios, assim como para as consequências. "O critério passa a ser o conveniente, o adequado, o fruto de uma ação, a fim de que seja preferida a ação menos danosa

argumentação desenvolvida em "Bioética: avanços e dilemas numa ótica interdisciplinar - do inicio ao crepúsculo da vida: esperanças e temores, disponível em http://www.google.com/url?sa=X&q=http://books.google.com/books/about/Bio%25C3%25A9tica.html%3Fid%3DJfia0AD8dLkC&ct=ga&cad=CAcQAhgAIAEoBDAAOABAm5iU8QRIAVgAYgVwdC1CUg&cd=j6LBf3-Cu7w&usg=AFQjCNFV7a53eo2S95IbIP4bh9I6OE6hkA
resumo  e comentários adicionais de inteira responsabilidade deste blog - não revisado pelo autor do capítulo

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Apelo à desobediência. Manifesto de párocos austríacos

A recusa de Roma a uma reforma da Igreja há muito esperada e a
inatividade dos nossos bispos não só nos permitem, mas também nos
obrigam a seguir a nossa consciência e a agir de forma independente.

Nós, padres, queremos estabelecer, no futuro, os seguintes sinais:

1. Rezaremos, no futuro, em todas as Missas, uma oração pela reforma
da Igreja. Levaremos a sério a palavra da Bíblia: pedi e receberei.
Diante de Deus, existe a liberdade de expressão.

2. Não recusaremos, em princípio, a Eucaristia aos fiéis de boa
vontade. Isso é especialmente verdadeiro aos divorciados de segunda
união, aos membros de outras Igrejas cristãs e, em alguns casos,
também aos católicos que abandonaram a Igreja.

3. Evitaremos celebrar, se possível, nos domingos e dias de festa,
mais de uma Missa ou de encarregar padres em viagem ou não residentes.
É melhor uma liturgia da Palavra organizada localmente do que turnês
litúrgicas.

4. No futuro, vamos considerar uma liturgia da Palavra com
distribuição da comunhão como uma "Eucaristia sem padre", e assim nós
a chamaremos. Dessa forma, cumpriremos a nossa obrigação dominical em
tempos de escassez de padres.

5. Rejeitaremos também a proibição da pregar estabelecida para leigos
competentes e qualificados e para professoras de religião.
Especialmente em tempos difíceis, é necessário anunciar a Palavra de
Deus.

6. Comprometer-nos-emos a que cada paróquia tenha o seu próprio
superior: homem ou mulher, casado ou solteiro, de tempo integral ou
parcial. Isso, no entanto, não por meio das fusões de paróquias, mas
sim mediante um novo modelo de padre.

7. Por isso, vamos aproveitar todas as oportunidades para nos
manifestar publicamente em favor da ordenação de mulheres e e de
pessoas casadas. Vemo-los como colegas, e colegas bem-vindos, ao
serviço pastoral.

Além disso, sentimo-nos solidários com aqueles colegas que, por causa
do seu casamento, não podem mais exercer as suas funções, mas também
com aqueles que, apesar de um relacionamento, continuam prestando seu
serviço como padres.

Ambos os grupos, com sua decisão, seguem a sua consciência – como nós
fazemos com o nosso protesto. Nós os vemos, assim como o papa e os
bispos, como "nossos irmãos". Não sabemos o que mais deve ser um
"coirmão". Um é o nosso Mestre – mas somos todos irmãos. "E irmãs" –
se deveria dizer, no entanto, entre os cristãs e cristãos.

É por isso que queremos nos levantar, é isso que queremos que
aconteça, é por isso que queremos rezar. Amém.

Domingo da Trindade, 19 de junho de 2011

fonte: www.pfarrer-initiative.at

tradução de Moisés Sbardelotto.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Brasil: Nunca Mais! Mas ainda Não

A repatriação de documentos do período da ditadura militar, vindos de Genebra, foi celebrada no dia 14 de junho de 2011 num ato público dos mais belos e comoventes. O acervo Brasil: Nunca Mais, guardado a sete chaves pelo Conselho Mundial de Igrejas, lançará luz sobre o período de exceção dos direitos humanos, onde todas as formas de violência sobre a vida humana eram usadas sem piedade pelos “auto-intitulados” defensores da pátria brasileira.


Dentre as inimagináveis formas de tortura, a violência sexual, de homens e mulheres, muitas vezes acontecia diante de cônjuges e filhos de prisioneiros; uma verdadeira destituição da humanidade, tantos dos algozes como das vítimas.


Não se questiona o fato de que a repatriação desses documentos traz um mínimo de justiça para a memória dos mortos, seus familiares e um conforto indescritível de dever comprido para tantas pessoas que sobreviveram e ainda continuam atuantes na defesa dos direitos humanos.



Caberia à nação brasileira e seus governantes uma homenagem mais contumaz a esses heróis e heroínas: eliminando toda forma de tortura na sociedade brasileira.


Não obstante, os governantes desse Brasil, absolutamente livres dos algozes da ditadura militar, vergonhosamente entregam-se para outros tipos de algozes: O poder, o dinheiro e o conforto. E por isso, fecham os olhos para a tortura sistemática que ocorre nas prisões de todo o País.  


E nem é preciso estatísticas para elucidar esse triste fato. É sabido e notório que violentadores de mulheres e crianças são julgados por parceiros de cárcere, em cenas com estupro coletivo e que parte da população aplaude esse tipo de “justiça”.  Isso, sem contar as torturas proferidas por agentes policiais, que via de regra, são pagos para garantir que haja tratamento justo para todo ser humano.


Do outro lado das celas fétidas e super lotadas, estão juízes, desembargadores, governadores de Estado; etc... Ou seja, existe todo um aparato para tortura nas prisões desse Brasil “supostamente”, zeloso dos direitos humanos. Maior hipocrisia que essa? Somente a propagada nos porões ditadura militar.


Segundo o Instituto Brasil Verdade, entre 1997 e 2009, foram registrados 211 casos de tortura em prisões brasileiras. Evidentemente, esses dados não ilustram completamente a realidade dos presídios superlotados onde as condições de vida e higiene estão aquém do que seria aceito até para animais. Segundo o Instituto Brasil Verdade “Apesar de o Brasil ter ratificado diversos tratados e convenções de combate à tortura, a prática ainda continua sendo recorrente no país.”


Todas as denúncias sobre torturas no Brasil entre pessoas que vivem em cárcere encontram fôlego no relatório da Organização das Nações Unidas – ONU de 2006.


Dito isso, fica o alerta: Vivemos tempos de Brasil: Nunca mais; mais ainda não! Pois enquanto houver tortura em solo brasileiro, só resta  a nós brasileiros/as o papel de cúmplices ou agentes de transformação.


De que lado você está? Pense! Faça todo possível para que Nunca Mais, haja tortura no Brasil.

___________

Para aprofundar leia:


fonte: http://metodistaconfessante.blogspot.com/2011/07/brasil-nunca-mais-mas-ainda-nao.html

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Metodistas elegem bispos e aprovam plano de expansão missionária

Brasília, quarta-feira, 13 de julho de 2011 (ALC) - Após oito turnos, em oito horas de escrutínio, a Igreja Metodista do Brasil escolheu o Colégio Episcopal para os próximo quatro anos. A eleição transcorreu no 19. Concílio Geral, reunido de 9 a 17 de julho em Brasília, que também aprovou projeto estratégico missionário para o Brasil, prevendo para daqui a 15 anos instalação de uma Região Eclesiástica em 26 Estados da Federação.

A meta inicial é a de consolidar uma Região Eclesiástica em Minas Gerais, criar uma Região em Santa Catarina, outra em Mato Grosso do Sul, e promover a autonomia das congregações do interior de São Paulo até o próximo Concílio Geral, em 2016. 

Dos oito bispos que integram o Colégio Episcopal, cinco foram reeleitos: Paulo Tarso de Oliveira Lockmann, João Carlos Lopes, a bispa Marisa de Freitas Ferreira, Luiz Vergílio Batista da Rosa e Adolfo Evaristo de Souza. São novos integrantes do Colégio: Adonias Pereira do Lago, Roberto Alves de Souza e José Carlos Peres.
Dados apresentados no Concílio indicam que a Igreja Metodista experimentou crescimento de 20,84% de 2006 a 2011, somando agora 214,7 mil membros, que dispõem de 1.038 igrejas, 373 congregações, 400 pontos missionários no país, atendidos por 209 pastores e pastoras, dez diáconos e diaconisas, e 1.073 presbíteros e presbíteras. Nos últimos cinco anos, foram incorporados ao ministério 360 ministros.

O presidente do Concílio, bispo João Carlos Lopes, e o secretário executivo do Colégio Episcopal, pastor Stanley da Silva Moraes, não permitiram a distribuição de Carta Aberta dirigida aos conciliares emitida pela Rede Metodista Confessante. A carta contém uma série de questionamentos dirigidos à igreja.

A Rede pede autonomia do gerenciamento dos recursos humanos, dos recursos financeiros e a admissão de gestores técnicos nas instituições de ensino vinculadas à Igreja Metodista sem a interferência do Colégio Episcopal.
Confessantes comparam os “gastos astronômicos” para construir templos com os recursos destinados a projetos sociais, lembrando que muitas igrejas locais sequer possuem projeto social. “É preciso recordar que Jesus nasceu num estábulo e que, portanto, não faz sentido que o investimento de energia missionária e de recursos financeiros se sobreponha ao investimento maior que é o resgate de pessoas”, justificam.

Eles criticam o plano missionário, aprovado no Concílio, pois segue uma lógica de mercantilização da fé, priorizando cidades com mais de 100 mil habitantes e desconsiderando pequenas cidades desprovidas de assistência dos poderes públicos, e abandonadas pelas mega-igrejas que apenas buscam o crescimento numérico e financeiro.

Frisam que o episcopado na Igreja Metodista é encargo de “serviço especial”, portanto temporário. Não entendem, pois, porque bispos não reassumem funções pastorais em congregações após findarem o período de serviço no bispado. Eles sugerem que os bispos não eleitos “voltem a assumir suas condições primárias de presbíteros”, proporcionando, assim, uma “soma de saberes e vivências que muito contribuirão para o desenvolvimento do caminhar missionário das igrejas locais em todo o Brasil”.

Mas a Rede Confessante foi autorizada a distribuir no conclave manifesto pedindo a anulação de decisão do 18. Concílio, que retirou a Igreja Metodista de todos os organismos ecumênicos que contavam com a presença da Igreja Católica Apostólica Romana. A decisão, argumentam, fere princípios fundamentais do Evangelho – para que todos sejam um - e da tradição metodista. Eles reivindicam a anulação dessa decisão.
Cerca de 250 pessoas participaram, no sábado, 9, do culto de abertura do Concílio, reunido no templo metodista da Asa Sul de Brasília. Na pregação, o bispo João Carlos disse que nada é mais importante do que o reino de Deus e que todos devem se vestir de humildade para que os interesses do alto sobressaiam.  
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quinta-feira, 7 de julho de 2011

O que os repórteres viram, mas a igreja não

Nesta terça-feira, 5 de julho, o programa Profissão Repórter (Rede Globo), conduzido pelo premiado jornalista Caco Barcellos, trouxe ao público o drama da violência doméstica contra mulheres. Com relatos e números difíceis de aceitar, os repórteres viram um problema grave e pouco enfrentado pela sociedade e pela igreja.

Segundo o programa, de janeiro a março deste ano duas mil mulheres registraram boletim de ocorrência por agressão apenas na região da grande Vitória, no Espírito Santo. É o estado onde morreram mais mulheres assassinadas em dez anos.

Há dois anos, a justiça de São Paulo criou um juizado especial só para julgar casos de violência doméstica. Setenta e cinco mulheres foram chamadas para um mutirão de audiências. A maioria desiste do processo. Das 42 que vieram, só oito resolveram manter o processo contra o companheiro agressor.

Ao contrário do que se pode pensar, a igreja evangélica não está imune ao problema. Muito menos isenta de responsabilidade. O livro Até Quando?, de Aileen Silva Carroll e Sérgio Andrade, discute a questão: mostra mitos e verdades, aponta caminhos de ajuda às vítimas e encoraja a igreja a assumir o seu papel na proteção e defesa das mulheres que sofrem.

Já na introdução os autores esclarecem: “Em geral, quando se fala de ‘violência doméstica’, a impressão que podemos ter é que ela acontece necessariamente no contexto do lar. Quando falamos da ‘violência praticada por parceiro íntimo’, deixamos claro que embora muitos atos de agressão aconteçam no lar, eles também podem ocorrer em lugares públicos e privados”.

O livro surgiu de um projeto de pesquisa desenvolvido pela ONG Diaconia e pela Comissão Central Menonita na região metropolitana de Recife. Oitenta e dois pastores, pastoras e líderes de igrejas evangélicas foram entrevistados sobre o tema da violência contra a mulher. Cinquenta mulheres que frequentavam igrejas também foram ouvidas.

Leia alguns depoimentos
“Meu marido deixava marcas roxas em mim de tanto bater. Tínhamos muito envolvimento na igreja. Eu não podia falar do meu problema lá, porque todo mundo nos conhecia, e tinha que ser uma fachada. Na rua era uma coisa, e em casa era outra.”
Mulher evangélica

“Já fui procurado por mulheres que sofrem violência várias vezes. Outro dia, uma moça foi agredida pelo marido. Ele quebrou a perna dela e lhe cortou o braço com uma faca.”
Pastor evangélico

“Muitos pastores não têm tido a coragem de tratar estas situações”.
Pastor evangélico

No prefácio do livro, o Pr. Carlos Queiroz, diz que “não há como celebrar os depoimentos, pois eles geram revolta e indignação. Arraigados na certeza de que temos uma missão a cumprir, todos os cristãos devem estar dispostos a seguir firmemente até as últimas consequências na luta em defesa das mulheres que sofrem violência”.

A violência doméstica e familiar contra a mulher é, segundo a lei Maria da Penha (lei nº 11.340/06, Art 5º), “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.
 
fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/o-que-os-reporteres-viram-mas-a-igreja-nao

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Não só evangélicos foram delatores e torturadores

Poderíamos contar histórias escabrosas de quando fomos perseguidos, presos e mortos pela ditadura militar (Inquisição Sem Fogueiras, J. D. Araújo). Houve muitos evangélicos envolvidos com denúncia e tortura, na história recente do Brasil. Escandalizam até os parentes dos pastores apontados como informantes e delatores. Abduzidos, presos, torturados, impedidos de trabalhar, exilados, perseguidos, fomos discriminados ideológica e eclesiasticamente, no ambiente evangélico. Nenhuma denominação foi inocente, posso afirmar.

Parte da história de cristãos que foram vítimas da ditadura aterrissou na terça-feira, 14 de junho, no Ministério Público Federal de São Paulo. O pastor presbiteriano brasileiro Charles Roy Harper, funcionário do CMI por 22 anos, concedeu-me uma entrevista, que o leitor encontrará no livro que escrevo (Jaime Wright - O Pastor dos Torturados). O trabalho de repatriação dos documentos componentes do Projeto “Brasil: Nunca Mais”, sustentado em todos os sentidos por protestantes do Conselho Mundial de Igrejas, devolve ao Brasil aquilo que lhe pertence.

Cristãos conhecem, hoje, a história pioneira do ecumenismo no Brasil e, com ela, Jaime Wright, o presbiteriano que maior visibilidade teve na sociedade brasileira no século 20, com revelações que ajudaram a derrubar a ditadura. É preciso também esclarecer que não houve ajuda financeira das entidades católicas, pois dom Paulo Evaristo Arns, que abrigou o grupo do projeto “Brasil: Nunca Mais” (e o do projeto CLAMOR!), era suspeito dentro da própria comunidade, vigiado por colegas do episcopado. É preciso também lembrar que foi ele e dom Aloísio Lorscheider que foram a Roma defender Leonardo Boff, condenado ao silêncio na ditadura. Só protestantes do CMI financiaram os dois projetos, segundo afirmou dom Paulo Evaristo, que estava idoso e doente e não pode comparecer à cerimônia da repatriação. Foi aplaudido mesmo assim, por vários minutos.

A Igreja Católica, tida como aliada de primeira hora do golpe de estado, teve 9 bispos, 84 sacerdotes, 13 seminaristas e 6 freiras, além de 273 agentes de pastoral, presos, dos quais 34 sofreram tortura com choque elétrico, pau-de-arara e ameaças psicológicas. Entre os religiosos, 400 presos, houve pessoas com lesões físicas e psicológicas permanentes. O suicídio de Frei Tito, em função da tortura, é dos casos mais conhecidos. Como esse número se multiplicava às dezenas pela população e sem a mídia, ideologicamente atrelada ao regime, viu-se a necessidade de levar denúncias ao exterior (cf.Alc-Notícias/Clai-Brasil). Nenhuma igreja evangélica reclamou, no Brasil, de quaisquer dos pastores, seminaristas, presbíteros e membros comuns, que foram perseguidos, presos ou torturados pela ditadura. Exceção para a PC-USA, sendo Jaime Wright coordenador da Missão Central do Brasil, responsável por dezenas de igrejas presbiterianas.

São verdadeiras as referências e muito mais amplas do que se pensa, como no caso do líder da juventude da IPB, membro da ecumênica UCEB – União Cristã de Estudantes do Brasil, Ivan Mota Dias. Ele foi preso e desapareceu em 1971. O reverendo Zwinglio, seu irmão, também preso, torturado e, posteriormente, exilado, lembra de observadores indo à sua igreja para saber do comportamento de outros presbiterianos. Esperavam que ele delatasse alguém, como vários fizeram. O caso que mais chamou a atenção das organizações cristãs protestantes do exterior foi o do presbítero Paulo Stuart Wright, da IPB de Florianópolis, SC, deputado cassado pela ditadura. Phillip Poter, secretário geral do CMI (Conselho Mundial de Igrejas), tomou-o como símbolo entre os mártires protestantes sob as ditaduras militares na América Latina. Havia sido morto antes de 1973, provavelmente, como depôs dom Paulo Evaristo Arns, que ajudara nas buscas: “Sempre havia novas notícias dizendo que ele estava vivo; disseram que ele estava no Chile. Jaime Wright foi infatigável na procura do irmão”. As consequências dessa procura resultaram na maior movimentação em favor dos direitos humanos realizada no Brasil.

Leonildo Silveira Campos, teólogo presbiteriano e sociólogo, era um seminarista na IPI e um dos mais envolvidos com a repressão. Ficou dez dias preso em 1969. Não se esqueceu de quem “evangelizava” e torturava ao mesmo tempo: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas”, dizia, apontando a pistola debaixo do paletó. O assunto, porém, não se restringe a evangélicos delatores – incontáveis – e torturadores, que ninguém sabe como distinguir de outros que fizeram o mesmo: católicos, espíritas, umbandistas. Na verdade, foi responsável a sociedade repressiva e covarde que acomodou-se à ditadura. Mas é importante revelar o quanto as denominações evangélicas, sem nenhuma distinção, apoiaram e serviram o poder militar naquele momento.

Informações sobre as pessoas citadas como delatores e torturadores estarão à disposição de quaisquer interessados, publicamente, na internet e nos órgãos do Ministério Público Federal. Foi criada a Comissão da Verdade, que vai atuar nesse sentido. O protestantismo ecumênico também se empenha agudamente no assunto.no entanto, notícias recentes têm preocupado.

A Operação Silenciamento está em andamento. O vice-presidente Michel Temer, o senador José Sarney e o ministro Nelson Jobim formam o bloco promotor da impunidade e do silenciamento. Pleiteiam o sigilo eterno sobre crimes contra a humanidade, cometidos nos porões da ditadura. A repatriação dos documentos do projeto “Brasil: Nunca Mais” não incomoda somente às igrejas evangélicas e católicas omissas. Melhor silenciar, pensam alguns. Porém, nunca ouvimos tantos gritos, apesar das tantas velas apagadas nas tumbas dos torturados.

Derval Dasilio
É pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor do livro “O Dragão que Habita em Nós” (2010).