terça-feira, 16 de setembro de 2008

"E Sereis minhas testemunhas"

Eduardo Ribeiro Mundim

Escrito em 13/05/99

 

         Esse mandamento, um dos últimos que Jesus nos deixou, é tido por muitos como o mais importante, estando sempre agregado ao "ide por todo o mundo". Testemunhar, pois, sempre foi uma preocupação do povo chamado evangélico. E essa noção é sempre ressaltada, tanto a nível da escola bíblica dominical quanto a nível do púlpito. Talvez como conseqüência da esperada conversão, não apenas das idéias, mas das atitudes (a vida do cristão passa a ter um novo referencial ético), e também com a necessidade sentida de fazer-se ímpar frente à sociedade pagã, somos conhecidos, em alguns lugares, pela negativa: crentes são aqueles que NÃO dançam, NÃO fumam, NÃO bebem...

 

         Mas o que é testemunhar?

 

         O que temos a testemunhar?

 

         O Aurélio nos ensina que testemunhar pode ser tanto intransitivo, quanto transitivo direto e/ou indireto. Em todas as regências, alguém testemunha quando declara, ou depõe em um tribunal, fatos que conhece, seja pelo ouvir ou pelo ver. No primeiro caso, ela é dita "auricular"; no segundo, ocular. Como exigência formal em alguns procedimentos legais, alguém pode ser convocado, chamado, para validar certo ato, que somente será válido juridicamente porque foi assistido por outra pessoa; é a testemunha instrumentária. Quem presta depoimento, testemunha sobre aquilo que sabe por conhecimento próprio, ou advindo de terceiros, mas, fundamentalmente, fala daquilo que tem por verdade, segundo sua capacidade interpretativa.

 

         O ministério de Jesus foi bem planejado. Não só seu final, voluntário e não obra do acaso, mas todo o seu desenrolar. Cristo selecionou e reuniu junto a si um grupo de homens, a fim de que fossem instrumentos, testemunhas instrumentárias do que Ele faria/não faria, ensinaria/ordenaria. Não que Seu ensino dependesse da autenticação do grupo. Mas a Sua existência, origem e trabalho históricos necessitavam ser autenticados pelo depoimento de quem havia participado diariamente, intensamente, dos Seus últimos três anos de vida terrena . E que grupo! Um coletor de impostos (e todos duvidavam da honestidade dos publicanos), um ladrão com vocação terrorista (que se tornou traidor), dois irmãos "capitalistas" que exploravam uma empresa pesqueira (seriam eles pobres como sempre imaginamos?)... Jesus tinha uma maneira bem peculiar de acercar-se de pessoas contrastantes, sem fazer distinção entre elas. Um círculo menos íntimo também foi chamado a ser depoente, constituído por mulheres (algumas prostitutas inclusive; ou, ex-prostitutas), outros funcionários da burocracia romana e os mais variados tipos de pecadores confessos, bem como algumas autoridades religiosas judaicas.

 

         Aos apóstolos cabia testificar, comprovar, assegurar:

1.   que aquele Jesus, filho de José e Maria, descendente de Davi, da antiga tribo de Judá, era o Messias, aquele que havia de vir, como predito pelos profetas:
      "Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes.
      Sobre ele repousará o Espírito de Iahweh, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e de temor de Iahweh: no temor de Iahweh estará a sua inspiração.
      Ele não julgará segundo a aparência.
      Ele não dará sentença apenas por ouvir dizer.
      Antes, julgará os fracos com justiça,
com eqüidade pronunciará uma sentença.
      Ele ferirá a terra com o bastão da sua boca
e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio.
      A justiça será o cinto dos seus lombos
e a fidelidade, o cinto dos seus rins"
(Is 11.1-5)

2.   que a Sua morte não fora obra das forças políticas, mas deliberadamente planejada e executada, como Ele advertira os incrédulos apóstolos em Lc 18.31-33:
      "...Eis que estamos subindo a Jerusalém e vai cumprir-se tudo o que foi escrito pelos Profetas a respeito do Filho do Homem. De fato, ele será entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros; depois de o açoitar, eles o matarão".

Também todo o sucedido fora anunciado pelo menos 500 anos antes, como está escrito em Is 53:
      "Mas Iahweh quis feri-lo, submetê-lo a enfermidade." (v 9)
      "Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca...
      Após detenção e julgamento, foi preso."
(V 7,8)

3.   que Sua morte e ressurreição cumpriam um plano urdido por Deus Pai desde a fundação do mundo, tendo ambas um significado único na história da humanidade. No mesmo "IV canto do servo", em Isaías, lemos
      "E no entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si,
as nossas dores que ele carregava...
      Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões,
esmago em virtude das nossas iniqüidades;
o castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele,
sim, pelas suas pisaduras fomos curados."
(v  4,5)

e o apóstolo Pedro, no discurso no dia de pentecostes, afirma:
      "Davi... sendo, pois, profeta,... previu e anunciou a ressurreição de Cristo... A esse Jesus Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas... Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, esse Jesus a quem vós crucificastes" (At 2.29-36)

Paulo, escrevendo à igreja que estava em Corinto, por ele iniciada, alerta:
      "E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados... Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens." (I Co 15.17-19)

         Enquanto Igreja, somos constituídos sobre o fundamento lançado por Cristo Jesus e seus apóstolos. Temos acesso a Deus pelo sangue da cruz, e vida eterna pela Sua ressurreição. Este é o testemunho básico que eles nos deixaram, por conhecê-lo em primeira mão, e não por ouvir falar. E todo o restante dos cristãos testemunham essa mesma verdade, após tê-la experenciado pessoalmente, de modo íntimo e único (assim como cada ser humano é único em si mesmo), como relatado na carta de Paulo aos romanos: "o próprio Espírito (de Deus) se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus" (Rm 8.16). Nosso testemunho é, a rigor, de segunda mão. Mas isso de modo algum lhe tira o valor, pois Jesus já nos autorizou a dá-lo, quando disse a Tomé: "Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!" (Jo 20.29)

 

         Nos nossos dias é muito popular testemunhar sobre o que Deus tem feito nas nossas vidas. Habitualmente, tal depoimento diz respeito à saúde orgânica/psicológica ou financeira. Ainda que tenha seu valor, não é esse relato para o  qual fomos comissionados; relatos subjetivos, emotivos, muitas vezes bonitos, que carregam em si o vírus de atrair pelos benefícios, e não pela verdade dos fatos. E o próprio Senhor se irritou com esse tipo de atitude, como narra João: "em verdade, em verdade, vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes" (Jo 6.26).Se a nossa declaração se resume nas maravilhas e nos "lucros" que a conversão pode significar, traímos o verdadeiro sentido do Evangelho, ou seja:

 

                   1)"Não há homem justo,

                        não há um sequer,

                  não há quem entenda,

                  não há quem busque a Deus.

                  Todos se transviaram,

                  todos juntos se corromperam;

                  não há quem faça o bem,

                  não há um sequer." (Rm 3.10-12)

 

                   2)"Nisto consiste o amor:

                  não fomos nós que amamos a Deus,

                  mas foi Ele quem nos amou

                  e enviou-nos o Seu Filho

                  como vítima de expiação pelos nossos pecados" (I Jo 4.10)

 

                  3)"Tendo sido, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.1) e "Portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus" (Rm 8.1)

 

         O Evangelho não é um apelo ao nosso conhecimento dito científico. Portanto, Deus e Cristo não precisam provar nada. É um apelo aos nossos sentimentos mais interiores, de natureza puramente "filosófica": ou nos consideramos afastados de Deus ou não; ou aceitamos a morte substitutiva de Cristo na cruz, ou não. Mas não solicetemos provas, pois o apóstolo já nos advertiu: "Deus não tornou louca a sabedoria deste século? Com efeito, visto que o mundo por meio da sabedoria não reconheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que crêem. Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tantos judeus quanto gregos, é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (I Co 1.21-23).

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Os excluídos do caminho de Jericó e o infanticídio indígena

Ronaldo Lidório

Erramos ao pensar que decisões são tomadas com base em nossa vontade. Apesar do desejo humano de exercer papel fundamental em nossas escolhas, tal sentimento não é forte o suficiente para gerar e manter iniciativas complexas — muitas vezes nem mesmo as mais simples. 

Decisões são tomadas com base em princípios. Aquilo que cremos e que nos impele a manter uma posição, por mais desconfortável ou improvável que pareça. As decisões mais duradouras são tomadas sob a motivação da Palavra de Deus. 

Lucas nos apresenta quatro personagens distintos no capítulo 10. O necessitado caído ao longo do caminho com feridas e dores era a figura de um judeu, assaltado e inconsciente entre Jerusalém e Jericó. Um sacerdote viajava por este caminho e provavelmente iria cultuar a Deus na sinagoga de Jericó. Possuía em sua bagagem um sermão pronto, usava suas vestes cerimoniais e tinha uma agenda a cumprir. Era seguido por um levita que talvez também caminhasse para Jericó para o mesmo evento cúltico. Se assim fosse poderíamos encontrar em sua bolsa o repertório de cânticos de adoração e palavras de exortação a uma vida mais santa. Talvez até pensasse em expressões poéticas que levassem o povo a buscar ao Senhor com mais intensidade. 

Passava por ali um samaritano. Possuía todos os motivos sociais para fechar os olhos, pois o homem caído era um judeu, intruso em sua terra e opressor do seu povo. Poderia ser esta a oportunidade de vingança, mesmo que silenciosa. Também não cairia bem a um samaritano ajudar um judeu. Mas ele se compadeceu e decidiu ajudar. Não parou puramente pela vontade. Talvez nem tivesse vontade de parar. Parou por seus princípios. Assim ele salvou o ferido, o que nos leva a entender que algumas iniciativas podem transformar vidas. E estas são as iniciativas que devemos buscar ao longo da nossa existência. 

O sacerdote e o levita, absortos pela institucionalização de seus ministérios, esqueceram que pessoas são mais importantes que coisas e compromissos, que uma alma vale mais que o mundo inteiro. Embora tivessem a roupagem e a função sacerdotal e levítica, esqueceram-se da missão e já não choravam pelos homens caídos em caminhos vazios. 

Em 2005, Edson e Márcia Suzuki, co-fundadores da ONG ATINI — Voz pela Vida, atendendo ao apelo dos pais, colaboraram com a retirada de dois bebês da tribo Suruwahá para tratamento apropriado em São Paulo. A retirada dos bebês os liberava do sacrifício por iniciativa da comunidade Suruwahá. Iganani, uma das crianças, chegou a ser deixada na mata para morrer, mas foi resgatada pela mãe, por convencimento da avó. Tititu, a outra criança, quase foi flechada pelo pai, que decidiu levá-la aos brancos à procura de ajuda. A mãe de Iganani desejava, a despeito da prática comunitária de seu grupo, preservar a vida da filha. Os Suzuki, que vivem entre os Suruwahá há vinte anos, contabilizam cerca de 28 casos de infanticídio no grupo. Este fato social (a preservação da vida, por iniciativa indígena, de crianças que seriam sacrificadas na comunidade) abriu um precedente ético e comportamental entre os Suruwahá: quando um povo repensa suas soluções para o sofrimento e as ajusta a práticas mais humanizadoras na cosmovisão do próprio grupo. A ATINI tem sido também promotora da conscientização sobre o direito à vida em cerca de cinqüenta etnias no Brasil através de cartilhas sobre os direitos humanos aplicados ao universo indígena. 

No Brasil convivemos com a injustiça humana todo o tempo: a injustiça do trabalho escravo, do abuso sexual, do infanticídio tolerado, da prostituição forçada, do alcoolismo induzido, dos que não têm nada nem chance de nada ter, nem esperança. Não é preciso olhar muito longe. Basta olhar ao redor. 

Para se envolver é preciso decidir. Decisões tomadas pelos princípios de Deus, que nos movem, não apenas pelo impulso do coração, pois para cada iniciativa há um preço a pagar. 

Que Deus nos guarde de ser uma Igreja de sacerdotes e levitas apressados, com sermões prontos, vestes bem passadas e agenda inflexível. Que o Senhor nos ajude a ser uma Igreja de samaritanos, que tenha olhos abertos, que se arrisque a parar, que pague o preço e tome decisões que transformam.

Leia também o texto Não há morte sem dor; uma visão antropológica sobre a prática do infanticídio indígena no Brasil. 


• Ronaldo Lidório é doutor em antropologia pela Royal London University e organizador de Indígenas do Brasil — avaliando a missão da igreja (Editora Ultimato). Atuou durante 9 anos no norte de Gana, na África, como plantador de igrejas, tradutor bíblico e coordenador de programas sociais nas áreas de saúde e educação.

Reprodução permitida. Mencione a fonte.
Editora Ultimato - Caixa Postal 42 - 36570-000 - Viçosa-MG


Capturado de http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=1943&secMestre=2042&sec=2053&num_edicao=309&palavra=ind%EDgena#

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A ciência (des) humana, os indígenas e as missões

Isaac Costa de Souza

Introdução
Alguns setores da imprensa e da academia brasileira têm repassado ao país uma imagem extremamente distorcida da problemática dos indígenas no Brasil. Nessa projeção, os missionários evangélicos e os próprios indígenas que se converteram são tratados como peste a ser banida.

Este artigo é uma tentativa de demonstrar quão desvinculadas estão a produção acadêmica e a postura ético-humanitária de boa parte dos pesquisadores que atuam nas áreas indígenas.

1. Ética But Not for All
Em tom de crítica lúdica ao conhecimento lingüístico dos missionários evangélicos, dois pesquisadores intitularam um subcapítulo de um libelo seu de Linguistics not for all (Lingüística não para todos).¹ O rótulo "Ética But Not for All" (Ética, mas não para todos) é uma paródia ao título maroto elaborado pelos referidos acadêmicos. Com isso, pretende-se chamar a atenção para o fato de que bem mais grave do que uma possível limitação em lingüística é o estreitamento em questões de ética.

A sobriedade ética de pessoas como os referidos autores é tão minúscula que um antropólogo, por não gostar do chefe de um posto indígena da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), incitava os Araweté a referir-se à esposa dele usando a expressão "boca de cari" (peixe de abertura bucal indiscretamente diminuta).

Um outro estudioso, orientando do referido pesquisador, exteriorizou meninice semelhante quando escreveu: "os missionários da ALEM (emissários do além?)".² O que parece brincadeira de péssimo gosto revela, na realidade, uma vergonhosa discriminação física e religiosa por parte desses representantes acadêmicos.

Dominique Tilkins Gallois, uma das autoras da expressão marota Linguistics not for all, fez a seguinte acusação: "[...] os funcionários da ADR [Administração Regional, FUNAI], os missionários evangélicos e seus aliados políticos promovem a discórdia entre grupos locais e lideranças."³

Porém, um indígena do povo supostamente vitimado pela atividade disjuntiva dos missionários (e de outros) denunciou a antropóloga Dominique à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da FUNAI como a responsável direta pelos cismas internos de sua comunidade: "Nunca vi uma antropóloga dividir um povo indígena. É a primeira vez que isso acontece no Brasil. Povo Waiãpi, tá dividido: parente com raiva dos parentes. É muito ruim isso. Só problema mesmo" (Kaubi Waiãpi, CPI-FUNAI, 22/11/99:59).

Diante dos fatos, também em depoimento à CPI da FUNAI, Dominique Tilkins Gallois reconsidera sua acusação de que os missionários eram agentes de discórdias: "Quer dizer, divisões, dissensões, disputas são parte da história e da estrutura do povo Waiãpi [...]. Portanto, eu acho que é muito importante considerar que não é a questão das Novas Tribos ou uma e outra que promove uma cisão, uma divisão, uma facção. Estas diferenças existem por história, por natureza, dentro desta e de todas as comunidades indígenas, né? (CPI-FUNAI, 1/12/99:34.)

Ao defender a Missão Novas Tribos do Brasil, a pesquisadora estava, na verdade, tentando se defender. Anteriormente, ela achava que os missionários eram os agentes de divisão; depois percebeu que os indígenas tinham outra opinião: era ela a causadora das dissensões.

A etiqueta lingüística classifica a inverdade (em linguagem mais popular: mentira) de "infração à máxima de qualidade de Grice", que na verdade é composta de uma super máxima que diz: "Trate de fazer uma contribuição que seja verdadeira", e de duas máximas mais específicas que falam: (1) "Não diga o que você acredita ser falso" e (2) "Não diga senão aquilo para que você possa fornecer evidência adequada".4 Por mais superficial que seja, um estudo dos escritos político-ideológicos da antropóloga Dominique logo demonstra que ela padece de um problema crônico: infringe com freqüência, intensamente abusiva e estúpida, a máxima de qualidade de Grice.

2. Critérios acadêmicos em uma quase publicação
No final de 1999, uma professora de uma universidade do Norte do Brasil rejeitou a publicação de um artigo técnico de minha autoria em uma revista da instituição da qual faz parte. Sua justificativa em carta aberta, de abril deste ano, foi que eu era missionário. Por inabilidade político-jurídica, registrou ainda em sua missiva: "[...] opinei pela não aceitação de nenhum dos três textos, independente do valor intrínseco deles".5

Em apoio a essa carta, muitos outros acadêmicos se manifestaram em nome de vários órgãos acadêmicos. Uma professora do Rio de Janeiro, que cursou uma única disciplina comigo em 1984, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), aproveitou o ensejo e afirmou que fui um "mau aluno" e que duvidava de que eu tivesse me tornado um bom lingüista. Outros dois professores imediatamente se utilizaram desse parecer maldoso para indicarem a incompetência científica dos missionários evangélicos em geral.

Na parte inicial de sua carta, um outro professor asseverou: "As atividades dos missionários das igrejas evangélicas são nocivas para os povos indígenas e para toda a humanidade". No entanto, em manifestação de ambigüidade ideológica própria de alguns segmentos acadêmicos, é ele o primeiro a indicar o caráter preconceituoso da rejeição de meu artigo. Segundo ele, nesse caso houve "limitação da democracia participativa entre intelectuais". Aí denuncia: "Você abriu o flanco para a acusação de 'discriminação'".

3. O símbolo antes de tudo
Anos atrás, o governo brasileiro ameaçou processar um grupo de videomakers que filmou a morte de um indígena sem prestar-lhe assistência médica aparente, em nome de uma reportagem que provasse o descaso do Estado em relação à saúde do aborígene. Com a iminência do processo, a equipe defendeu-se asseverando que (acredite quem quiser) havia prestado socorro longe das câmeras.

Bem antes disso, na região de Altamira, uma antropóloga tentou impedir um médico de ministrar soro antiofídico a um indígena que havia sido picado por uma cobra extremamente peçonhenta. Segundo ela, os silvícolas possuíam ervas apropriadas para o tratamento. Ao perceber que a vítima estava a ponto de expirar, o médico mandou a antropóloga e a antropologia às favas e medicou o paciente à revelia dos argumentos da especialista em ciências humanas. Para arrematar a polêmica, ele asseverou: "Se eu deixar esse indígena morrer em minha presença, sem assisti-lo, serei processado". Não fosse a firmeza do profissional de saúde, a antropóloga sacrificaria o ser indígena real em favor da simbologia por este vivida e representada.

Na ausência do profissional de saúde, filma-se a morte; na sua presença, tenta-se impedir a sua ação.

4. Pesquisas duvidosas
As pesquisas entre o povo Araweté iniciaram em 1982, por meio de um antropólogo. Depois, pelo menos cinco doutoras em lingüística pesquisaram a língua desse povo. Depois de dez anos de insucesso na escola indígena e sem receber auxílio substancial algum dessas estudiosas, a professora do grupo apelou para o autor deste artigo para ajudá-la a melhorar o programa escolar Araweté. Foi constatado que as pesquisas desenvolvidas não contribuíram em nada com o povo. Assim, em três meses (final de 1999 a março de 2000), com base em nosso próprio estudo, elaboramos um alfabeto e confeccionamos material preliminar de alfabetização no idioma indígena. Os materiais de algumas dessas pesquisadoras, aos quais tivemos acesso, padecem de limitação no básico: registro fonético. Por isso, não poderiam mesmo elaborar um alfabeto funcional para o povo indígena.

Certo pesquisador entre os Arara, povo indígena com o qual trabalho, errou em sua dissertação de mestrado e em sua tese de doutorado quase cem por cento de sua transcrição fonética/fonológica. Esse desastroso equívoco o levou a fazer interpretações etnológicas absurdas da cultura dos Arara: imputou-lhes um etnônimo (nome étnico tradicional) baseado em aves psitacídeas (arara vermelha), quando, na verdade, a autodesignação significa apenas "nós inclusivo". Além disso, concedeu status de divindade (não cristã) à alma de um Arara morto, refletindo mais uma análise da cultura ocidental do que da cultura indígena. Com base em parônimos (palavras que apresentam quase a mesma grafia e quase a mesma pronúncia, encerrando significados diferentes), propôs uma bebida alcoólica celeste para essa suposta divindade, revelando profunda inabilidade lingüística. Em neologismos inconseqüentes, criou termos para casamento "geral, primário e secundário" nos processos matrimoniais dos Arara, algo que inexiste na cultura dessa comunidade. Ainda, inventou um desbotamento melânico (perda de cor negra) nos felinos reais, com implicações no mundo metafísico: as onças resultantes das almas de mortos teriam sua ferocidade diminuída à proporção que perdessem a coloração escura, passando pela pintada até chegar à parda suçuarana. Imprudentemente, propôs um esquartejamento espiritual de um defunto masculino em três espectros metafísicos (almas), em que um se originaria na cabeça, outro, nas extremidades (mãos e pernas) e outro, nas vísceras (umbigo) — algo não reconhecido por nenhum Arara. Finalmente, estruturou uma morfologia celestial (de carne e pele rodeada por água), também não identificada pelos indígenas.

Conclusão
Fica patente que, antes de qualquer atividade relacionada à questão indígena deste país, os pesquisadores precisam urgentemente revisitar o que deveria caraterizar seus trabalhos em área indígena: qualidade e ética acadêmica.


Isaac Costa de Souza é missionário entre o povo Arara, do Pará.

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=457&secMestre=1380&sec=1401&num_edicao=266&palavra=isaac

Pascal e as Razões do Coração



João Heliofar de Jesus Villar


Quem leu a revista Veja, edição de 18 de junho, encontrou a entrevista do matemático John Allen Paulos, que escreveu o livro Irreligion, para demonstrar que os argumentos clássicos que sustentam a existência de Deus são absolutamente inconsistentes do ponto de vista lógico. Nas respostas dadas nas páginas amarelas, ele garante que se as pessoas gostassem mais de matemática, “pensariam com mais rigor. Isso faria com que pusessem suas crenças em xeque”.

A opinião do matemático é interessante, porque reflete uma concepção comum no meio acadêmico: a de que a fé normalmente é filha da falta de reflexão intelectual mais madura. Houvesse maior rigor lógico no pensamento da massa, a fé tenderia a desaparecer.

Esse ponto de vista de que o crente não pensa com rigor, e só por isso permanece crente, não é incomum no pensamento secular, especialmente na classe culta. Segundo esse paradigma as pessoas acreditam em Deus porque lêem muito pouco. No final das contas a fé decorre de um problema de falta de conhecimento.

A base para essa postura não decorre da irrazoabilidade dos argumentos favoráveis à existência de Deus, todos perfeitamente plausíveis. É que, ainda que razoáveis, esses argumentos não oferecem a prova definitiva que satisfaria um investigador que seguisse rigorosamente o método científico ou o raciocínio lógico.

Mas não vamos nos ocupar disso. A discussão entre ateus e crentes, já observou Donald Miller, está ficando cansativa e há muito deixou de ser sobre Deus e se tornou mais um espetáculo de ostentação onde cada lado procura mostrar que é mais inteligente do que o outro.

A menção ao livro de John Allen Paulos serve apenas de mote para observar que nem o rigor lógico nem o método científico de investigação constituem o instrumento adequado para se buscar a Deus. Talvez a inteligência não seja a ferramenta mais adequada para municiar o explorador que parte nessa aventura de investigação.

É que o objeto de investigação parece não ser um objeto. É alguém que, ao que tudo indica, não está disposto a ser esquadrinhado pela inteligência fria e objetiva, própria da investigação científica. É interessante notar a afirmação de Isaías 45.15 ao Deus que se oculta, o Deus Absconditus. Neste tempo, em que alguns líderes cristãos se sentem tão seduzidos pelo brilho espetacular da inteligência secular, é importante afirmar a impotência dessa ferramenta para perscrutar as coisas de Deus.

O intelecto humano é incapaz de, por si só, encontrar a Deus. Se há alguém por trás da cortina do mundo material, não será descoberto pelos nossos sentidos ou pelo exercício do pensamento lógico.

Na história do pensamento humano quem destacou essa verdade com admirável precisão foi Pascal, destaca Edward Tingley, filósofo canadense, num brilhante artigo publicado na edição da revista Touchstone de junho. Segundo Pascal, “é o coração e não a razão que percebe a Deus”.

Quando Pascal fala no coração não está se referindo simplesmente aos sentimentos, que são trapaceiros e nos enganam freqüentemente, mas à convicção que nasce no âmago do ser, que responde a um anseio muito mais profundo que a simples curiosidade intelectual. Ao contrário do que pensa o matemático citado no início deste artigo, não há como pôr em xeque a crença de quem foi convencido no coração, ainda que essa pessoa seja treinada a “pensar com mais rigor”. O autor de Pensamentos adverte contra dois excessos: “excluir a razão; admitir só a razão”; e ao dizer que “o coração tem razões que a própria razão desconhece” não está afirmando a prevalência dos sentimentos, mas tão-somente estabelecendo que o coração tem o poder de conhecer certas realidades que a razão não pode demonstrar.

Talvez quando Deus usa a boca de Jeremias para afirmar que será encontrado por aqueles que o buscam de todo o coração, esteja querendo afirmar que não pretende ser examinado pela curiosidade intelectual de ninguém. O que ele deseja é relacionamento. E relacionamento só é possível quando há encontro de corações.


• João Heliofar de Jesus Villar, 45, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

publicado em http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=787

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A Oração não Respondida

(Tg 4.1-10)

 

Escrito em 16/03/99

 

         Não importando o seu credo, todo ser humano que se confessa religioso usa, de alguma forma e em alguma rotina (em situações ordinárias ou extraordinárias), uma prática que se pode denominar genericamente de oração. Na fé cristã, não se imagina o crescimento espiritual (ou seja, o assemelhar-se gradativamente a Jesus) sem a oração. Nas confissões não cristãs, esse objetivo já não existe (pois Cristo não é o seu centro), ainda que possa existir um semelhante (o fiel deseja tornar-se como imagina que seu deus seja).

 

         Jesus sempre exigiu que seus seguidores orassem. Diversas instâncias do seu ministério foram registradas para que soubéssemos, hoje, a importância e o lugar dessa prática. Lembrando alguns:

1.   certos feitos somente são alcançados com muita oração e jejum (Mt 17.14-20)

2.   há certa atitudes aceitáveis no orar (Mt 6.5-8)

3.   há um modelo de oração (Mt 6.9-15)

4.   orar em circunstâncias de grande tensão/angústia ou de dramas pessoais (Mc 14.32-42)

5.   Deus ouve as orações (Mt 7.7-11)

6.   Deus ouve as orações realizadas no Nome de Jesus (Jo 14.13-14)

 

         Tomando a prece sacerdotal em Jo 17, sem dúvida a maior oração do Senhor registrada, pode-se afirmar que a oração cristã é, sobretudo, um diálogo. Um diálogo estranho, é certo, pois um lado não usa, necessariamente, a mesma linguagem que nós; um diálogo de uma vida inteira, se lembrarmos quantas e quantas vezes os Evangelhos dizem "e se retirou para orar". A prece cristã não é, em nenhuma hipótese:

*      uma troca, para se conseguir o que se deseja

*      uma chantagem, para se obter um fim planejado

*      uma manipulação, para se controlar o mundo em volta

 

         Uma das regras hermenêuticas diz que uma doutrina bíblica não pode ser firmada com o uso de um único texto, sem apoio doutras partes das Escrituras. Um versículo (e o termo quer dizer pequeno verso) que lembramos freqüentemente, e fora de contexto, é Lc 11.9: "... pedi e dar-se-vos-á...". Quem sabe Tiago tinha em mente essa lição de Seu irmão quando escreveu sua carta aos judeus cristãos dispersos no seu tempo...

 

         Faz parte de nossa humanidade caída (e teremos de conviver com isto por toda nossa vida até a única morte que sofreremos) desejos profundamente arraigados no nosso ser, que contrariam os propósitos e desejos do Pai. Tão perigosos que nosso aparelho psíquico os guarda em locais secretos, pois tememos, muitas vezes, as conseqüências de cedermos a eles. Tão atraentes que em muitas ocasiões os acalentamos, secretamente. Tão poderosos que apesar de serem trancafiados no nosso porão psíquico sua influência se faz sentir nas nossas atitudes, muitas vezes sem que nos apercebamos do fato.

 

         A psicologia e a psicanálise esclareceram essa dinâmica, que os autores sagrados conheciam, e nomeavam de modo diverso. Para eles, a questão era "pois a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne. Eles se opõe reciprocamente, de sorte que não fazeis o que quereis" (Gl 5.17). Para as ciências psicológicas atuais, o "fundo do nosso coração" é chamado de "inconsciente", onde guardamos nossa memória. Há fragmentos que, por serem dolorosos/traumatizantes, são guardados "a sete chaves" (o termo técnico é "são recalcados"). Esse recalcado, por ser poderoso e/ou atraente, pode retornar disfarçado, através de sonhos, pensamentos, palavras ou atos.

 

         Nossa conversão, em hipótese nenhuma, anula essa característica humana. Ela nos dá a chance de modificá-la ou de lidar com ela partindo de novas premissas.

 

         "Pedi e dar-se-vos-á", e Tiago alerta "pedis, mas não recebeis, porque pedis mal, com o fim de gastardes nos vossos prazeres", pois "cobiçais e não tendes? Então matais. Buscais com avidez, mas não conseguis obter? Então vos entregais à luta e à guerra" (e Tiago estava falando a cristãos antes do ano 62 a.C...) Usando a gíria profissional, as orações em foco são feitas visando a satisfação pessoal moralmente inadequada (moral do ponto de vista da Revelação, não da sociedade) pois o fruto desse desejo é chamado de "amigo do mundo" e, portanto, "inimigo de Deus". O desejo é tão forte que Tiago usa expressões pesadas: "litigais e fazeis guerra" (em outra versão). É quase como se dissesse "matais para tentar obter o que desejais".

 

         O contraste com o Pai Nosso, a oração modelo, é gritante. Nela somos ensinados a pedir, por ordem hierárquica:

1.   que todos reconheçam a santidade de Deus (v. 9)

2.   que o Reino dEle se instaure na Terra (v. 10a)

3.   que a vontade dEle seja realizada em todo o mundo criado (v. 10b)

4.   que tenhamos o necessário para viver hoje (v. 11)

5.   que nossos pecados sejam perdoados condicionalmente (v. 12)

6.   que fiquemos afastados das situações difíceis e de todo mal (v. 13)

 

         Paulo lembra que "(a caridade) não procura o seu próprio interesse" (I Co 13.5). Por isso, Jesus não recrimina quando alguém solicita um milagre de cura para os outros (Mc 6.53-56), nem para si (Mc 10.46-52), mas rechaça a oração de Tiago e do "discípulo amado", que buscavam honras e glórias para si (Mc 10.35-45).

 

         O que nos motiva a orar?

 

         O que pedimos?

 

         Por que pedimos?

 

         O que podemos aprender sobre nós mesmos a partir de nossas orações e das respostas que temos?

 

         Devemos ser críticos severos de nós mesmos, pois, em última análise, não temos nada a perder. Ou melhor, o que temos de perder é lucro: nossa autoimagem inflacionada na presença do nosso próximo e de Deus. Além do mais, temos a promessa de que "se confessarmos os nossos pecados, ele, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça" (I Jo 1.9).

*      Quando oramos pela salvação de alguém, é por esse alguém ou é por nós? Que motivação egoísta pode (não significa que exista uma) estar nos movendo?

*      Quando intercedemos pelos governantes pensamos nos benefícios que um governo justo traz a toda sociedade ou apenas esperamos obter benefícios?

*      Quando pedimos pela saúde do nosso próximo é nele que pensamos ou na oportunidade de mostrarmos "como nosso deus é poderoso"?

*      Quando rogamos alguma coisa não será por preguiça de correr atrás dela?

 

         Contudo, nossa natureza é complexa o suficiente para termos, dentro de nós mesmos, desejos/sonhos ambíguos e contraditórios. Boas intenções estão, freqüentemente, maculadas por egoísmo. Acredito que devemos orar e discernir bem os propósitos do nosso coração, e aproveitar a oportunidade de expô-los ao Pai, como parte do nosso processo de santificação e crescimento espiritual.

 

         Longe de qualquer um de nós nos constituirmos juízes da oração alheia. Sejamos, unicamente, juízes de nós mesmos e oremos: "Senhor, ensina-nos a orar".

domingo, 7 de setembro de 2008

Para sobreviver no mundo gospel

"O mundo gospel se torna cada dia mais patético; distante do protestantismo; em rota de colisão com o cristianismo apostólico; transformado numa gozação perigosa; adoecendo e enlouquecendo milhares que são moídos numa engrenagem que condena a um duplo inferno.   Não consigo responder a todas as mensagens que entopem minha caixa postal. Milhares pedem socorro.  Eu precisaria ter uma equipe de especialistas, todos ajudando a atender os que me perguntam: "A maldição do pastor vai pegar mesmo?" " É preciso aceitar as patadas que recebo do púlpito?"  "Em nome da evangelização, devo aturar esses sermões ralos?" Realmente não dá mais.  A grande mídia propaga o que há de pior entre os evangélicos com petição de dinheiro, venda de "Bíblias Fantásticas", milagres no atacado e simplismos hermenêuticos.  As bobagens alcançaram níveis intoleráveis.   O que fazer? Tenho algumas idéias:

Aconselho aos crentes pararem de consumir produtos evangélicos por um tempo. Não comprem CD's de música ou pregação - inclusive os meus.  Deixem os livros evangélicos encalharem nas prateleiras - ídem, para os meus.  Depois de baixar a poeira do prejuízo, ficará notória a diferença entre os que fazem missão e os que só negociam.

Não vá a congressos - inclusive aos que eu promovo.

Passe ao largo dos "louvorzões".

Não sintonize o rádio. Boicote todos os programas na televisão.

Não comente, nem critique, a pregação de pastores, bispos, evangelistas e apóstolos.  Afaste-se! Silencie! Desintoxique mente, alma e espírito da linguagem, pressupostos e lógicas da "teologia da prosperidade".  Volte a ler a Bíblia sem nenhum comentário de rodapé.  Alimente seu interior em pequenos grupos.  Reúna-se com gente de bom senso.

Estanque seus dízimos e ofertas imediatamente.  Repense com absoluta isenção onde vai dar dinheiro.  Mas prepare-se; no instante em que diminuírem as entradas, os lobos vestidos de pastor subirão o tom das intimidações.  NÃO TENHA MEDO!

Faça essa simples auditoria antes de investir o seu suor em qualquer igreja ou ministério: Quanto tempo é gasto no culto para pedir dinheiro? A hora do ofertório vem acompanhada de uma linguagem com "maldição, gafanhoto ou licença legal para ataques do diabo? Prometem-se prosperidade, colheita abundante, bênção, riqueza, para os que forem fiéis? Existem algumas suspeitas na administração dos recursos arrecadados? - Lembre-se de que há dois níveis de integridade:  O ético e o contábil. Não basta manter os livros em ordem, o dinheiro também só pode ser gasto no que foi arrecadado.

Se a resposta para algumas dessas perguntas foi sim, ninguém deve se sentir culpado quando não der oferta.   Só haverá arrependimento no dia em que os auditórios se esvaziarem junto com uma crise financeira - o monumentas ufanismo evangélico precisa deflacionar.   Concordo, ninguém agüenta mais o jeito como as coisas estão.


SOLI DEO GLORIA!


Ricardo Gondim."

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A Parábola do Filho

(Mt 7.11)

 

Eduardo Ribeiro Mundim

Escrito em 15/03/99

 

            Jesus sempre teve um cuidado e um carinho especial para com as crianças. Todos que são familiarizados com as Sagradas Escrituras conhecem os textos como Mt 19.13-15: "deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, pois delas é o Reino dos Céus". Freqüentemente Jesus as usava como parábola. Por exemplo, na situação desagradável causada pelos doze, quando discutiam sobre quem seria o maior no Reino dos Céus: "Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18.3). E no texto em foco, o exemplo é retirado do dia a dia ordinário: "Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? Ou lhe dará uma cobra, se este lhe pedir peixe? Ora, se vós que sois maus sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedem!"

 

            Um dos modos de definirmos Deus (e enquanto seres humanos necessitamos de conceitos, sejam eles claramente formulados ou não) é através de Seus atributos: amor, justiça, bondade, misericórdia, etc. E sem dúvida, temos uma dificuldade muito grande em lidarmos com os aspectos contrastantes: amor e justiça. A dificuldade é evidente nas nossas dicotomias: intelectualmente, O reconhecemos como Pai amoroso, mas no nosso coração predomina aquela figura de um quadro muito famoso, onde a Trindade é representada por um olho que tudo vê (e pune). Nossa boca confessa o perdão que a morte e a ressurreição trouxeram, mas nossas atitudes demonstram a pouca confiança que temos nele. Constantemente nosso lado mórbido é chamado a expressar-se.

 

            Temos pouca tolerância com nossos erros e pecados. Erroneamente o chamado para sermos santos "como Deus é Santo" é compreendido, na prática, como uma proibição de falhar. E qualquer falha como um desastre, cujas proporções são ditadas mais pelo nosso sentimento de culpa patológico que por uma avaliação honesta do significado dela em nossa vida e em confronto com as Escrituras.

 

            A partir do momento que me tornei pai comecei a ter experiências únicas, difíceis de descrever, tanto objetivamente como subjetivamente. Aqueles que têm a mesma experiência (incluindo as mães) as reconhecerão com facilidade. Penso naquela fase onde a linguagem está começando a se desenvolver, e portanto, o raciocínio está iniciando sua complexidade. Um dos meus prazeres na paternidade é ver meu filho de 2-3 anos crescer e se desenvolver; adquirir novas habilidades; dar gritos de alegria quando consegue vencer algum obstáculo. Meu coração se enche de ternura quando ele se aborrece por não conseguir alguma coisa que arduamente tenta e não consigo me irritar por demonstrar inumeráveis vezes o que deve e o que não deve ser feito.

 

            Determinado dia, flagrei a mim mesmo pensando que, na verdade, Deus deve agir conosco do mesmo modo com agimos com nossos filhos nessa idade. A diferença entre eles e nós é óbvia; nossa estatura, física, intelectual e emocional é bem "superior". Parece existir uma grande distância entre nós. Talvez seja óbvio que é uma distância bem menor que o abismo que nos separa do Pai: "Com efeito, os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos, oráculo de Iahweh. Quanto os céus estão acima da terra, tanto os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos"(Is 55.8,9). Mas o fato é que a distância, para nossos filhos, é intransponível, nesse momento, tão intransponível quanto a nossa distância para o Pai. É claro que o tempo e uma educação adequada a farão diminuir, mas, mesmo assim, ela sempre existirá, com cores e ênfases diferentes. Em relação a Deus, é óbvio, nosso progresso é e sempre será infinitamente menor.

 

            Ora, se nós, com nossas imperfeições, nosso cansaço e nossa frustração diária sabemos nos comportar assim quanto mais nosso Pai Celeste? Não seremos nós juízes severos demais de nós mesmos? Quantos dos nossos pecados não serão tão graves quanto a dificuldade das crianças em permanecer em pé enquanto tomam banho sobre um piso escorregadio? Quantos dos nossos erros não serão simples e inocentes travessuras?

 

            Não estou afirmando que Deus não é justiça e que não há punição para erros (e, habitualmente, elas são mais conseqüências naturais das nossas escolhas que uma ação direta, pessoal, única, a nós dirigida). Mas questiono o rosto por demais severo de Deus que muitos de nós temos cultivado e transmitido a nossos conhecidos e pior, a nossos filhos. Muitos de nós, devido as nossas características mórbidas pessoais preferimos ouvir falar sobre o juízo que sobre o perdão, sobre o castigo que sobre o abraço amoroso. Desequilibradamente enfatizamos mais o versículo "sou um Deus ciumento, que puno a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam" e não nos deixamos penetrar, até o fundo de nossa alma doentia, pelo seu complemento "mas que também ajo com amor até a milésima geração para aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos" (Ex 20.5,6).

terça-feira, 2 de setembro de 2008

“Não podemos mais ignorar o sofrimento causado pelo infanticídio indígena”

[ Entrevista com o casal Márcia e Edson Suzuki ]

Apresentação: Eu, Márcia, sou carioca, tenho 44 anos e sou metodista. Sou bacharel em etnolinguística pela University of the Nations, Universidade da Jocum com sede no Havaí, e mestre em linguística pela UNIR (Universidade Federal de Rondônia). Edson é paulista, tem 45 anos e é batista. É formado em geologia e tem mestrado em linguística pela UNICAMP. Eu trabalho com povos indígenas desde 1982 e falo duas línguas indígenas, Sateré Mawé e Suruwahá. O Edson trabalha com indígenas desde 1986 e fala a língua suruwahá. Nosso trabalho na aldeia sempre consistiu de pesquisa linguística, elaboração de material didático e de registro dessas línguas, elaboração de ortografias e de projetos de educação diferenciada para as populações indígenas. Trabalhamos também na área de saúde, prestando socorro em situações de emergência e atuando como intérpretes para os órgãos do governo em expedições de vacinação e de tratamento médico.

Junto com tudo isso, procuramos viver e comunicar os princípios do Evangelho num contexto transcultural, testemunhando o reino e comunicando a mensagem de maneira culturalmente sensível, principalmente através da convivência.

Mãos Dadas: Vocês estão envolvidos numa luta em favor de crianças recém-nascidas indígenas que correm o risco de serem mortas pela família por razões como: deficiência física, gravidez fora do "casamento", etc. Quando isso começou? Por que vocês decidiram lutar por esta causa?

Casal Suzuki: Depois de anos convivendo com povos indígenas e conhecendo mulheres que passaram pela dor de ter que sacrificar uma criança, decidimos enfrentar de frente esse problema. Na verdade nos tornamos mais sensíveis para essa causa após adotarmos a indiazinha suruwahá Hakani. O drama da família dela, que culminou com o suicídio dos pais e com um irmão de 5 anos enterrado vivo, passou a fazer parte da história da nossa própria família. Não pudemos mais ignorar o sofrimento causado por essa prática e decidimos tomar posição ao lado de mães que desejassem salvar a vida de seus bebês do sacrifício.

Mãos Dadas: Vocês criaram a ONG ATINI. Quando ela surgiu e a que exatamente se propõe?

Casal Suzuki: Apesar de estarmos envolvidos há vários anos nessa luta, resolvemos oficializar as ações através da criação de uma organização específica de direitos humanos. A ATINI, como tal, é novinha – fez um ano nesse mês de setembro. A missão da ATINI é "erradicar o infanticídio nas comunidades indígenas brasileiras, promovendo conscientização, fomentando a educação e providenciando apoio assistencial às crianças em situação de risco."

Mãos Dadas: É certo usarmos o termo "infanticídio indígena" para a questão?

Casal Suzuki: Do ponto de vista legal, o termo não é apropriado porque infanticídio no Brasil se refere a recém-nascidos mortos pela mãe em estado puerperal. Mesmo assim, o termo infanticídio indígena vem sido usado informalmente para se referir ao assassinato de crianças indígenas praticado nas aldeias contra crianças que são indesejadas em suas comunidades. Como o termo assassinato é evitado nos textos antropológicos para se referir a esses casos, optamos seguir a mesma linha, respeitando a tradição da literatura indigenista

Mãos Dadas: Uma das críticas à luta de vocês é que quem deve decidir o que fazer diante destes casos de assassinatos de crianças indígenas são os próprios indígenas. Por isso, o Governo não poderia interferir, nem criar leis sobre o assunto. O que vocês acham disso?

Casal Suzuki: Essa é uma falsa questão que tem sido levantada por algumas pessoas para desviar o foco das discussões. Digo que é uma falsa questão porque levanta a hipótese de que nós estaríamos forçando os indígenas a mudar sua tradição. E nós não estamos fazendo isso. Nunca fizemos nem vamos precisar impor nada a eles. Todo esse movimento começou através da reinvidicação dos próprios indígenas, mães e pais que decidiram pelo tratamento médico de suas crianças, mesmo desafiando a tradição em suas comunidades. A iniciativa tem partido sempre deles, e a ATINI só interfere quando solicitada pelos próprios indígenas.

Quanto à lei Muwaji, ela deve atingir principalmente os funcionários que trabalham em áreas indígenas. Negar socorro a uma criança em situação de risco de vida já é caracterizado como crime de omissão pelo código penal. O que essa lei, do deputado Henrique Afonso faz, é reforçar essa posição. E ela vai um passo além ao tornar obrigatória a notificação dos casos de crianças em situação de risco, bem como a promoção de programas de educação em direitos humanos nas aldeias. A lei não criminaliza as mulheres indígenas, cuja inimputabilidade penal já é prevista pela legislação vigente. Mas ela força as pessoas que trabalham nas aldeias a prestar atenção no problema e oferecer ajuda às famílias, com o objetivo de evitar as mortes.

Mesmo que não seja votada, a lei Muwaji tem um papel simbólico muito importante. Ela está ajudando a quebrar o silêncio sobre essa questão – e isso em si já é muito positivo.

Mãos Dadas: Atini significa "voz" na língua suruwahá. O que os indígenas têm dito sobre a luta de vocês? Quem é a favor e quem é contra?

Casal Suzuki: Justamente porque a ONG surgiu a partir da voz das mães indígenas, nós decidimos chamá-la de ATINI. Nossa sociedade tradicionalmente não escuta a voz dos povos indígenas. Com a ATINI entendemos que essas vozes têm que ser ouvidas, mesmo quando são vozes dissidentes dentro de suas próprias comunidades. O que temos percebido, em diversas aldeias, é que os indígenas dessa geração não aceitam mais a prática do infanticídio, e que anseiam por alternativas para resolver os conflitos sociais que causam o infanticídio. Temos sido procurados por indígenas de diversas etnias, pais e mães que pedem ajuda para manter vivos filhos que deveriam ser sacrificados pela tradição cultural. Tudo o que eles querem é uma oportunidade para sair da aldeia com essas crianças para que elas tenham uma oportunidade de vida física, em alguns casos, e vida social em outros. Temos colhido inúmeros depoimentos, de membros de diversas etnias, de indígenas que não aceitam mais a prática do infanticídio e exigem ajuda do Estado para que consigam mudar essa situação. Por exemplo, um dos mais respeitados líderes indígenas do Xingu, Kotok Kamayurá, disse que "o tempo de enterrar crianças já passou, hoje precisamos de ajuda para criar todas essas crianças."

A vozes indígenas dissidentes têm sido poucas, mas vem de indígenas em situação urbana, que se distanciaram da situação real nas suas aldeias de origem, e que repetem a cantilena dos antropólogos de "respeito irrestrito às diferenças culturais". São, infelizmente, indígenas que estudaram, que sabem se mover em nossa sociedade, e que acabam sabendo se expressar melhor que o pessoal das aldeias.

Mãos Dadas: E Deus, o que ele tem dito a vocês sobre esta luta?

Casal Suzuki: O interessante é que entramos nessa luta sem planejar. Acho que nunca escolheríamos essa bandeira, justamente por causa da nossa história de uma vida inteira de "encarnação" junto aos povos indígenas. Mas Deus nos colocou no meio disso à medida que entendíamos que tínhamos que ser coerentes com o a mensagem que pregávamos. Como negar ajuda às mães indígenas que nos procuravam para salvar a vida de seus filhos, sem ser incoerentes com a mensagem do Reino? O que Deus tem colocado em nosso coração é o desejo de continuar caminhando em obediência, passo a passo. Só Ele sabe aonde essa obediência vai nos levar.

Mãos Dadas: Vocês são missionários evangélicos. Qual a missão de vocês?

Casal Suzuki: Somos missionários da JOCUM (Jovens por uma Missão), cujo lema é "Conhecer a Deus e fazê-lo conhecido". Eu, Márcia, sou também missionária designada pela Igreja Metodista, atuando na REMA – Região Missionária da Amazônia. Entendemos que o Evangelho é integral e que deve ser comunicado através tanto de palavras de amor quanto de atos de amor.

Mãos Dadas: Os números sobre mortes de crianças indígenas são confusos e sem concordância de todos. Vocês têm dados confiáveis?

Casal Suzuki: É muito difícil ter esses números, e inclusive essa é uma das tarefas da ATINI. Sabemos que ter números confiáveis é indispensável para qualquer luta. O que temos no momento são dados da FUNASA de Roraima e dados de uma pesquisadora da UNB sobre o Xingu. Só essas duas áreas indígenas dão conta de mais de 100 mortes por ano. Juntando isso com o que sabemos dos suruwahá e das informações que nos chegam de missionários, estamos falando no momento em pelo menos 200 mortes por ano. Mas sabemos que esse número deve ser muito mais alto. Precisamos trabalhar com os dados da FUNASA, com um número enorme de registros de morte por "causas indefinidas". A taxa de mortalidade infantil entre índios e não-índios registrou uma diferença de 124%, segundo o IBGE – precisamos saber a causa dessa diferenças, que se observa mesmo em povos onde as condições gerais de saúde da população são excelentes.

Mãos Dadas: Há heróis na luta contra o assassinato de crianças indígenas?

Casal Suzuki: Para nós, heróis são os pais e mães indígenas que têm coragem de desafiar a norma por amor de seus filhos. Temos conhecido mulheres indígenas que, apesar de vulneráveis dentro de suas próprias culturas, têm enfrentado sozinhas tradições milenares para manter vivas crianças indesejadas. Há o caso de Kamiru Kamayurá, por exemplo. Ela entrou na casa de um avô enfurecido e desenterrou com as mãos um bebê que ele havia acabado de enterrar. Era a terceira criança que esse avô enterrava. Ou outros haviam chorado debaixo da terra até que seu choro se calasse. Dessa vez Kamiru chegou a tempo e encontrou o menino ainda com vida. Ela adotou Amalé como filho e hoje vive conosco em Brasília.

Essas mulheres são as Sifrás e Puás dos dias de hoje, aquelas parteiras hebréias que desafiaram o Faraó para salvar bebês destinados à morte. Por sua coragem, a Bíblia diz que Deus "lhes fez bem".

Mãos Dadas: Há culpados pelo assassinato de crianças indígenas?

Casal Suzuki: Nós não estamos preocupados em encontrar culpados, mas o código penal brasileiro é claro quanto ao crime de omissão de socorro. Os pais e mães indígenas não podem ser penalizados numa situação como essa, por causa da própria inimputabilidade penal prevista na lei para eles. Mas qualquer outra pessoa presente e com conhecimento do risco de infanticídio deve procurar um meio de notificar as autoridades e fazer o possível para salvar a vida da criança. Essa intervenção deve ser feita sempre com muita sensibilidade cultural, com respeito e através do diálogo.

Mãos Dadas: Talvez, pela primeira vez, missões protestantes ganham projeção nacional e iniciam diálogo público por lutarem por direitos de indígenas. Está sendo difícil caminhar neste espaço tão abrangente e cheio de interesses diversificados? De onde está vindo a oposição e por quê?


 

Casal Suzuki: Sim, é difícil porque não fomos preparados para isso. Não sabemos como lidar com a mídia, não entendemos bem a dinâmica dos meios políticos, somos confrontados com diferentes visões do papel do Estado. Temos que nos mover num mundo onde são pouquíssimos os que vivem os princípios do Reino. A cada dia somos surpreendidos por manifestações de indignação e de raiva contra nós pelo que estamos fazendo. Não tínhamos idéia de que trabalhar com direitos humanos despertasse tanto ódio. Aos poucos estamos tomando consciência da luta ferrenha no mundo espiritual pela vida dessas crianças.

Mas, por outro, lado percebemos que as missões e as igrejas estão maduras e solidárias com essa luta. Recebemos manifestações de apoio e muita oração de todo o Brasil, de diversas denominações e organizações missionárias diferentes. Além disso, percebemos que a opinião pública é muito sensível à causa das crianças e tem empatia com os povos indígenas. Para o cidadão comum, a maioria dos brasileiros com quem conversamos, é óbvio que essas crianças têm direito à vida e que devemos fazer o possível para apoiar essas mães, independente de qualquer questão cultural. A repercussão de artigos como que saiu na VEJA deixam isso bem claro.

A oposição vem principalmente daqueles que tradicionalmente sempre se opuseram ao trabalho missionário realizado por evangélicos. São organizações católicas extremistas, antropólogos e indigenistas que não se preocupam com a legitimidade do que estamos dizendo. Eles não conseguem nos ouvir simplesmente porque sabem que somos missionários evangélicos. O preconceito faz com que eles questionem nossos motivos, nosso discurso, nossos métodos. E são justamente esses os representantes do pensamento relativista xiita, isso é, aqueles que confundem respeito à diversidade cultural com tolerância universal. Acham que tudo é possível em nome da cultura. Queria saber o que mais eles defenderiam em nome da cultura. Tortura, escravidão, mutilação feminina?

Mãos Dadas: De todos os personagens existentes, qual vocês destacariam como exemplo sobre o assassinato de crianças indígenas?

Casal Suzuki: A Muwaji Suruwaha. O caso dela é emblemático porque ela seria a mais vulnerável das mulheres, do ponto de vista social, cultural, econômico, etc. Mas justamente ela tem se levantado com coragem e tem influenciado mulheres indígenas do Brasil inteiro. A vida dela é um desafio àqueles que tratam das relações entre autonomia e vulnerabilidade. É uma celebração à capacidade humana de reagir, de reinventar, de ser sujeito de sua história. Você pode encontrar a historia dela no site (www.vozpelavida.blogspot.com  ).

Mãos Dadas: Como a Igreja, as associações e as organizações sociais evangélicas também poderiam lutar em favor das crianças indígenas? Há possibilidades e caminhos a seguir?

Casal Suzuki: Cremos que a Igreja terá um papel importante nessa luta, como teve na luta pela igualdade racial nos Estados Unidos e em outras lutas semelhantes. Acredito que Deus está dando uma oportunidade à Igreja, não só de pedir perdão aos povos indígenas pelo passado sangrento, mas de ir um passo além. É hora da reparação. E hora de oferecermos nossas mãos, nossos pés, nossas cabeças e nossos recursos para ajudar essas mulheres e homens que querem romper com esse passado de sacrifício humano. A ATINI precisa de gente, de voz, de espaço, de brinquedos, educação para essas famílias… muita coisa. As pessoas interessadas podem entrar no site para entender melhor como ajudar.

Mãos Dadas: Que oração vocês fariam a Deus diante desta luta? Que texto(s) bíblico(s) está(ão) sustentando vocês?

Casal Suzuki: Estamos aqui Senhor e nos ajude a não desanimar e desistir de lutar. Um dos textos que tem estado no nosso coração é Pv. 31.8, especialmente na versão Douay-Rhelms, que diz "Abre a tua boca a favor dos que não têm voz e pelo direito de todas as crianças destinadas à morte."


 

Mãos Dadas: Que valor tem a vida de uma criança?

Casal Suzuki: Com nossa filha descobrimos que uma vida não tem preço. Hakani, uma indiazinha suruwahá rejeitada pelo seu povo, mas cujo nome significa "sorriso", mudou nossa vida. Depois de ter escapado da morte, literalmente arrancada do túmulo, hoje ela enche nossa vida de alegria e nossa casa de sorrisos.

Entrevista concedida em outubro de 2007 para o assistente editorial da revista Mãos Dadas, Lissânder Dias. As perguntas foram respondidas por e-mail.

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Mãos Dadas Revista de Apoio aos que trabalham pela dignidade de nossas crianças e adolescentes. Caixa Postal 88 – Cep: 36.570-000 Viçosa MG Brasil cartas@maosdadas.net

 

Baixado de  http://www.maosdadas.org/arquivos/file/Recursos%20oferecidos/Entrevista_Suzuki.pdf  em 01/09/08

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

“Mane, Mane, Tecel, Parsin”

(Dn 6)


 Eduardo Ribeiro Mundim


 

            Esta é uma história conhecida, e trágica. Trágica porque fala de fracasso, julgamento, ruína e morte. É uma história, desde o início, pessimista, onde apenas aspectos e fatos negativos são claramente visíveis.

 

            Também é uma história que traz suas perguntas. Se a própria historicidade do livro de Daniel é colocada em dúvida por alguns, que diriam deste capítulo? Objeções históricas há, mas nada que não possa ser contornado: por que Baltazar chama a Nabucodonozor pai, se não era seu filho? A história geral desconhece Dario, o medo; o rei persa que tomou Babilônia foi Ciro.

 

            O relato igualmente alerta para a variedade de prismas sob os quais a história humana, e as nossas histórias individuais, podem ser olhadas.  É importante comentar que o fato de existirem óticas diversas não implica em exclusão mútua, como se apenas uma visão fosse o retrato acabado e completo da realidade. Diversas visões implicam sim, em riqueza de acontecimentos e em complementariedade entre eles.

 

            Babilônia já existia quando Hamurabi, um dos primeiros grandes legisladores, reinou, no século XVII a.c.. Passou por altos e baixos, sendo Nabucodonozor II seu último grande rei. Ele sitiou Jerusalém e, em duas ocasiões, promoveu uma deportação maciça das elites judaicas para a Babilônia. Baltazar, que aparentemente não tinha direito ao título de rei, foi governante em uma época de decadência.

 

            O texto traz algumas informações a respeito dos personagens envolvidos:

-  A festa promovida pelo rei contava com um grande número de convidados (pelo menos 1000 dignatários, fora as concubinas) e de bebida. (v. 1)

-  A decisão de Baltazar foi tomada estando ele "sob o influxo do vinho", após ele ter "bebido vinho diante desses mil", o que sugere, no mínimo embriaguez. (v. 2)

-  Aparentemente, apenas Baltazar preocupou-se com o escrito miraculoso na parede, que estava facilmente visível aos convidados. (v. 5)

-  Ele perdeu o controle sobre si (ficou apavorado): empalideceu, não sabia o que pensar, perdeu as forças e pôs-se a tremer, chamando os sábios aos berros. (v. 6 e 7)

-  Curiosamente, parece que os convidados estavam mais preocupados com o bem estar real que com o milagre. (v. 8 e 9) Pode-se supor que a consciência deles estava bem mais adormecida que a do seu senhor.

 

            E qual o pecado, que foi tão duramente punido?

 

            O primeiro: cegueira frente a história. Baltazar conhecia o relato do capítulo 5 (v. 18-22), mas não o levou em conta, na hora de escolher e adotar os princípios morais pelos quais agiria. Quem sabe, tomou a interpretação do seu nome (Bel-shar-uçur,  "Bel proteja o rei") como um privilégio do qual era merecedor (seu deus, Bel, era seu servo), e não uma dádiva, pela qual deveria ser grato. A humilhação de Nabucodonozor não lhe abriu os olhos para o fato de que, maior que o poder real, era o um Deus que ele nem conhecia. Se Nabucodonozor II, conquistador de Jerusalém, que matava e deixava viver segundo seu próprio juízo, foi transformando em animal, o que poderia se suceder a ele, Baltazar, seguramente um governante bem menor?

 

            Segundo: desrespeito para com as coisas sagradas. Baltazar ordena que os utensílios separados para o culto em Jerusalém fossem utilizados como copos para ele e seus convidados se embriagarem, em um desprezo óbvio pelo significado dos objetos. Daniel traduz o comportamento deles como desafio: "tu te levantaste contra o Senhor do céu" (v. 23). Não foram os utensílios sagrados que foram profanados, mas Aquele a quem serviam.

 

            Terceiro: idolatria e cegueira espiritual. O versículo 23, em sua parte final, resume bem: "...mas o Deus que detém teu respiro entre suas mãos e de quem dependem todos os teus caminhos, tu não o glorificaste!" Ele poderia desconhecer o que Iahweh dissera por intermédio do profeta Isaías, cerca de 200 anos antes: "Eu sou Iahvweh; este é o meu nome! Não cederei a outrem a minha glória, nem a minha honra aos ídolos" (Is 42.8). Mas não desconhecia a história de "seu pai". Usando da linguagem teológica, Baltazar talvez não conhecesse a revelação sobrenatural, mas conhecia a natural. Paulo comenta sobre essa situação na carta à igreja em Roma: "Sua realidade invisível... tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa. Pois tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus nem lhe renderam graças... tornaram-se tolos e trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível" (Rm 1.20-22).

 

            Na verdade, os três pecados formam um roteiro tão lógico, que mais parecem ser um só, numa cadeia de causas e conseqüências.

 

            O juízo vem pesado. Baltazar foi avaliado, diretamente e indiretamente. Diretamente, pela sua conduta individual, já que sua atitude no festim não deve ter sido exceção, mas sim regra. O álcool, quando muito, eliminou o resto de censura que poderia existir. Portanto, "foste achado deficiente". Indiretamente, seu reino "foi medido e (Deus) deu-lhe fim". A história mais uma vez se repetiria em ciclos: um império cairia pelas mãos doutro, mais competente no momento:"seu reino foi dividido e entregue aos medos e aos persas". Curiosamente, os motivos espirituais das quedas de Israel e Judá foram bem semelhantes...

 

            A história geral nos dá duas informações extras, que nos auxiliam a compor um quadro maior. A população aclamou o conquistador como libertador e, se houve resistência, essa deve ter sido débil. O tecido social estava frouxo, e a incompetência política-administrativa de Baltazar foi um dos lados que levaram a sua queda. Paralelamente, houve um juízo divino severo. A história geral nos informa a respeito das causas acessíveis por meio de métodos organizados; o escritor sagrado, a respeito das causas acessíveis somente pela Revelação.