segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Santíssima Trindade é a melhor comunidade

Marcos Aurélio de Matos Barcellos

Recentemente estive lendo um livro de Leonardo Boff, com o título “A Santíssima Trindade é a melhor comunidade”, um livro muito interessante. Gostaria de partilhar com vocês o meu comentário sobre a sitada obra e à visão de Boff referente a trindade.

Leonardo Boff

Não posso iniciar um comentário sobre a presente obra, sem antes apresentar tão importante teólogo nacional, autor da mesma. Leonardo Boff cursou Filosofia em Curitiba-PR e Teologia em Petrópolis-RJ. Doutorou-se em Teologia e Filosofia na Universidade de Munique-Alemanha, em 1970. Ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959.
Em 1984, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro “Igreja: Carisma e Poder”, foi submetido a um processo pela Sagrada Congregação para a Defesa das Fé, ex Santo Ofício, no Vaticano. Em 1985, foi condenado a um ano de “silêncio obsequioso” e deposto de todas as suas funções editoriais e de magistério no campo religioso. Dada a pressão mundial sobre o Vaticano, a pena foi suspensa em 1986, podendo retomar algumas de suas atividades. Em 1992, sendo de novo ameaçado com uma segunda punição pelas autoridades de Roma, renunciou às suas atividades de padre e se auto-promoveu ao estado leigo.
Esteve presente nos inícios da reflexão que procura articular o discurso indignado frente à miséria e à marginalização com o discurso promissor da fé cristã gênese da conhecida Teologia da Libertação. Foi sempre um ardoroso defensor da causa dos Direitos Humanos, tendo ajudado a formular uma nova perspectiva dos Direitos Humanos a partir da América Latina, com “Direitos à Vida e aos meios de mantê-la com dignidade”. Agraciado com vários prêmios no Brasil e no exterior, por causa de sua luta em favor dos fracos, dos oprimidos e marginalizados e dos Direitos Humanos.
É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística.

A Santíssima Trindade na visão de Leonardo Boff

Leonardo Boff, teólogo da Escola Católica Romana, brasileiro, ou seja, nascido em um país, porque não falar em um continente, claramente marcado pela desigualdade social. Tendo em vista isto, Boff encontrou campo fértil para a Teologia da Libertação, onde a proposta é a difusão do evangelho, voltado para o âmbito social. Nesta teologia, a proposta da trindade é, acima de tudo, trabalhar a sociedade, enfatizando a conquista da libertação para o pobre, marginalizado e oprimido. É sobre este prisma que fundamenta suas opiniões teológicas.
Boff, deixa muito clara sua forma de compreender a verdade trinitária, ele parte da experiência específica da fé cristã que, primeiramente, afirma a trindade. Isto significa que é irrefutável, para ele, a existência de Pai, Filho e Espírito Santo.
Entretanto, Leonardo Boff acredita, que não basta afirmar que existem três pessoas. Afirmar tão somente a existência de três pessoas poderia resultar na existência de três deuses, o que seria triteísmo, incompatível com a fé cristã.
Segundo Boff, é importante, para se evitar o triteísmo, sustentar o fato de que cada pessoa da Trindade, está plena e totalmente na outra. Para melhor entendimento deste ponto, é fundamental a pericórese trinitária, que consiste no “ínter-relacionamento eterno que existe entre os divinos Três”.
Assim como definiu o concílio de Florença, Leonardo Boff também entende que, “O Pai está todo no Filho e todo no Espírito Santo; o Filho está todo no Pai e todo no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo no Pai e todo no Filho; ninguém procede ao outro em eternidade ou o excede em grandeza ou o sobrepuja em poder”.
Ele destaca um ponto importante ao falar da unidade das pessoas da Trindade. Diz ele que não devemos imaginar que as três divinas pessoas são como que três indivíduos que, posteriormente, se relacionam em comunhão e se unem. Por que, então, afirmar que as pessoas são distintas? Sendo a principal característica delas, segundo argumenta Boff, a unidade promovida pela comunhão das partes, porque três pessoas e não uma somente? O teólogo responde a esta indagação alegando que a distinção é fundamental porque as pessoas são distintas para se unir e se unem, não para se confundir, mas para uma conter a outra.
Portanto, a distinção na Trindade é apenas para possibilitar a comunhão. A Trindade das pessoas, unidas pela distinção e distintas pela união, designa uma diferença que não se opõe, mas se põe, pondo as outras.
Para Leonardo Boff, a comunhão reciproca, é o fator para a compreensão do mistério que se esconde por detrás da doutrina da Santíssima Trindade. A palavra comunhão é de fundamental importância para compreender o pensamento de Boff à respeito da Trindade, tanto em suas relações internas, quanto nas relações com os seres humanos.
Quando analisa o mistério da Trindade, o autor parte do princípio de que somente sendo Deus-Trindade, pode-se entendê-la como mistério de inclusão. Ele confronta a tese trinitária com o monoteísmo e com o politeísmo, para explicar tal proposição.
De forma que a Trindade expressa inclusão, Leonardo Boff afirma que tal inclusão e que a unidade das pessoas residem na comunhão entre os divinos Três. “Comunhão, que é a natureza da Trindade, significa crítica a todas as formas de exclusão e não participação”. E isto é algo que pode haver somente entre pessoas, uma vez que elas se abrem intrinsecamente umas às outras. “Pai, Filho e Espírito Santo vivem em comunidade por causa da comunhão”, conclui o autor.
O Pai, O Filho e o Santo Espírito, vivendo em perfeita harmonia, definem a essência da Trindade. “A interpenetração permanente, a correlacionalidade eterna, a auto-entrega das Pessoas umas às outras constitui a união trinitária, a união das Pessoas”.
Uma das linhas de pensamento importante de Leonardo Boff com relação à Trindade como mistério de inclusão é o fato de esta comunhão trinitária se abrir “para fora”. Portanto, esta comunhão não existe em uma dimensão tão somente interna. Visto que o aspecto mais importante da Trindade, para o autor, é a comunhão, seria incompleto se tal comunhão fosse desenvolvida apenas internamente.
Devido a isto, é que o autor afirma que a comunhão trinitária convida as criaturas, especialmente as humanas a se inserir na vida divina. Desta forma, quando se refere a Trindade, para ele, é o mesmo que falar de comum união. Reside em enxergar a possibilidade de coexistência da pluralidade no único, da diferença na igualdade.
A Trindade é composta por pessoas e levando-se em conta que é normal à pessoa o fato de relacionar-se, Boff argumenta, que as relações desenvolvidas pelas pessoas que a compõem se dão também nas dimensões externas ao seu ser. “Esta união-comunhão-pericórese se abre para fora… ‘que todos estejam em nós… a fim de que sejam uma coisa só como nós somos uma coisa só’ (Jo 17.21-22)”.
Segundo Boff, tomando como ponto de partida o fato de que Deus criou o homem, à sua imagem e semelhança, é correto afirmar, que o modelo de vida comunitária, deve se espelhar na Santíssima Trindade. Por isso, a grande influência exercida por esta na humanidade.
A Trindade atua como modelo para libertação, reformulação e reconstrução de uma nova sociedade. Pelo fato de ser ela uma comunhão perfeita, a maneira como as pessoas que a integram se relacionam se dá de modo igualmente perfeito. Assim, nada mais correto, para se promover relações mais saudáveis entre os homens, do que espelhar-se nas relações trinitárias.
Por isso, conclui o autor, a comunhão é a primeira e a última palavra do mistério trinitário. Traduzindo socialmente esta verdade de fé pode-se dizer como já foi feito: “A Santíssima Trindade é a melhor comunidade”.

Considerações Finais

A interpretação “Social” que Boff realiza da Trindade é muito interessante e convidativa. A maneira como o autor descreve e exemplifica o mistério da Trindade é interessante, porque ele nos leva a vislumbrar a perfeita comunhão dos diferentes e distintos a ponto de serem uma só realidade divina.
Convidativa, porque ele nos incentiva a olharmos para a Trindade, como modelo perfeito de sociedade e anelar por uma transformação, de forma que venhamos a manter relações de comunhão com todos, dando e recebendo e juntos construindo uma convivência rica, aberta respeitosa das diferenças e benéfica para todos.
Quando fala sobre a distinção das pessoas, Leonardo Boff destaca que tal distinção ocorre, também, para que se perceba as principais características da Trindade: A comunhão e o amor. Entretanto entendimentos errôneos do Deus Trino, podem acarretar problemas, como por exemplo: Totalitarismo político, autoritarismo religioso, machismo familiar, vanguardismo, espiritualismo, modalismo, subordinacionismo e triteísmo, são abordados com muita propriedade pelo autor.
Podemos com certeza, entender, concordar e aceitar quando o autor faz referência a existência de uma dimensão feminina do Deus Triúno. Entretanto Boff se perde, quando na tentativa de dar um lugar para a mulher em Deus, ele utiliza a figura de Maria, como um “quarto elemento”, elevado à altura do divino. Tal “elevação” não encontra amparo nas escrituras.
Leonardo Boff reduz a revelação bíblica, ainda que misteriosa, da Trindade a um modelo de relacionamento. Aponta como principal função e característica do Deus Trinitário servir de modelo para relações verdadeiras e livres da opressão a qual muitos são e foram, em todas as épocas, submetidos.
Lembro ainda que, Boff ressalta que “a comunhão é a primeira e última palavra do mistério trinitário… Ela é a melhor comunidade”. Conquanto seja verdade que a Trindade, sendo ela o único sistema relacional que funciona em harmoniosa perfeição, deva ser o modelo para as relações sociais desenvolvidas pelos homens, não se pode desconsiderar que sua existência não pode ser reduzida a tal papel, visto que ela não existe para o homem, mas este por causa dela.
Outro ponto, é que em sua tentativa de encaixar a Trindade como paradigma para a libertação social, Boff romantiza a necessidade do número três nesta comunhão divina. Realiza isto quando fala: “A Trindade impede um frente a frente do Pai e do Filho, numa contemplação narcisista. A terceira figura é o diferente, o aberto, a comunhão. A Trindade é inclusiva, pois une o que separava e excluía.” Neste ponto, mostra seu romantismo tentando compreender a misteriosa verdade ocultada em parte acerca do ser divino. No desejo de mostrar a importância da comunhão, por exemplo, Boff faz afirmações que não guardam relação com as verdades escriturísticas.
É bem verdade que a Bíblia afirma a existência de três pessoas no ser de Deus. Isto, no entanto, biblicamente, não pode ser explicado pelo fato de que, existindo dois, estes estariam expostos a um conflito narcísico, como se a existência de três pessoas fosse a razão pela qual a comunhão se estabelece, e não o fato de Deus, em seu Ser, ser perfeito em todos os seus atributos, refletindo-se isto em suas relações.
Entendo que além de se apoiar sobre as revelações escriturísticas, Boof procurou compreender a Trindade, também, pelo prisma das necessidades sociais, chegando a dar uma certa supremacia deste aspecto social, quanto a esta doutrina e quando, para isto, fundamentou seus argumentos, em especulações românticas, que acabaram em determinados momentos, levando-o a se afastar das revelações da Sagradas Escrituras.

fonte: http://holofote.net/materias-e-estudos/

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