terça-feira, 5 de abril de 2011

Proselitismo em um mundo multirreligioso

O termo "proselitismo" significa o empenho para conseguir adeptos a uma idéia, uma religião ou a um partido político. A palavra "evangelizar", para o cristão, resume a atitude de espalhar a boa nova que se tornou homem na pessoa de Jesus Cristo, morto e ressurreto. Estas atividades, proselitismo e evangelização, são concorrentes no mundo de hoje - a bem da verdade, desde sempre. Talvez a grande diferença do mundo contemporâneo para as épocas pregressas seja a velocidade com que a informação é transmitida, a queda das barreiras da geografia, da distância e mesmo da língua. Segundo alguns, existem mais de 2.000 religiões e todas, baseadas no princípio da solidariedade, buscam prosélitos.

Muito se falou, no último quartel do século XX, que Deus morrera, e que o secularismo era a nova religião que mudaria a face do mundo. O século XXI veio, e Deus permanece bem vivo. Apesar da imprecisão das estatísticas quando o assunto é fé religiosa, alguns pesquisadores estimam que no ano de 2025 80% da população mundial estarão filiados a uma das quatro grandes religiões: cristianismo, islamismo, budismo e hinduísmo. Portanto, cenário bem próximo é de alguns bilhões de indivíduos formalmente comprometidos com visões de vida e de mundo distintas, com repercussões na vida cultural, política e entre as diferentes nações.

Qual é o comportamento adequado na evangelização dentro deste contexto? E neste momento pergunto pensando apenas no fato de que os 80% de religiosos (e neste caso os secularistas não estão incluídos) são seres humanos, iguais em dignidade perante o Criador, por Ele amados a ponto de Cristo ter por eles morrido e ressuscitado. A discussão sobre o poder político, e militar, de cada um desses grupos religiosos não está no foco, assim como a questão da emigração e convivência de diferentes culturas.

Deus nos respeita, e nos chama pelo nome, mesmo quando O rejeitamos. Somos únicos mesmo em nossa rebeldia. Adão e Eva não perderam seus nomes, nem Balão, muito menos Judas Iscariotes. Se Ele não nos tira nossa individualidade, nossa natureza extremamente singular que nos faz diferentes uns dos outros (mesmo entre gêmeos idênticos), como poderíamos nós, que clamamos sermos Seus filhos por adoção, atuar de modo contrário?

Agimos de modo diferente quando não respeitamos a religião do outro. E há vários modos de fazê-lo. Supor que a conhecemos sem nunca a termos estudado nas suas fontes mais originais possíveis é uma forma. Imagine o diálogo: um hindu diz adorar o boi, razão pela qual é vegetariano; portanto, deduz, a partir de si mesmo, que o muçulmano adora o porco, pois é proibido ao islâmico consumir a carne deste animal! Conseguiria um muçulmano explicar o conceito cristão de Trindade? Para ele, nós adoramos três deuses! Se quisermos saber o que o nosso vizinho não cristão crê, devemos perguntar a ele e lermos seus textos sagrados.

Uma segunda forma de desrespeitarmos o nosso próximo é alardearmos que sua crença é diabólica, ou fundamentalmente errada, ou está a serviço das forças do mal. Jesus fez isto? alguns dos apóstolos? ou dos profetas do Velho Testamento? Antes que algum apressado cite Elias e os profetas de Baal, lembro do exato contexto do fato: o povo de Israel que viola o pacto celebrado com o Deus de seus pais. A luta última dos profetas não eram contra os deuses estrangeiros, mas contra aqueles que deixavam Jeová por outros deuses. As palavras de condenação, ironia e sarcasmo sempre foram dirigidas aos domésticos da fé, e não aos de fora (pelo menos nos textos bíblicos).

Outro aspecto importante na evangelização em um mundo multirreligioso é que a proclamação do Evangelho é para pessoas, indivíduos, e não para expressões religiosas abstratas. E cada pessoa tem a sua fé por uma série de razões distintas. Entre elas, seu histórico de vida, sua cultura familiar e local, suas aspirações e sonhos de juventude e infância. E cada um vive sua fé de modo particular, ainda que comunitário. E muitas expressões religiosas estão em contradição com os princípios. E isto é verdadeiro para todo radical das quatro maiores religiões citadas: os textos sagrados do cristianismo, islamismo, budismo e hinduísmo não autorizam o uso da força para fazer prosélitos, ou sobressair sobre as outras. Portanto, não podemos julgar os muçulmanos pelos radicais do Irã, os cristãos pelo comportamento de George W Bush, os budistas pelos seus radicais, muito menos os hinduístas. Se formos personalizar a experiência de fé, então usemos Ganhdi, o Dalai Lama e Nelson Mandela, dentre outros.

Não é possível sermos testemunhas do caráter regenerador do Evangelho se desrespeitamos a crença alheia, queimando seus livros sagrados, violando hábitos, ridicularizando crenças específicas e disseminando inverdades (conceitos que assumo serem verdadeiros mas que não verifiquei) ou mentiras (não necessita esclarecimento). Agir assim não significa concordância com o outro, mas respeito pela sua individualidade, história pessoal e desejos íntimos. Há uma diferença entre cobrir a cabeça, em sinal de respeito, junto a uma comunidade que assim entende ser correto estar na presença divina e abraçar a crença daquela sociedade.

E assim como é um dever cristão evangelizar, pois há um mandamento específico para tal, todos os adeptos das outras religiões se sentem compelidos ao mesmo, seja por obediência a um preceito, seja pela simples solidariedade. Se eu acredito em algo que possa beneficiar meu próximo, eu me calaria? Proselitismo sincero é, antes de mais nada, um ato de solidariedade e amor ao próximo. Caso contrário, ou minha crença não é verdadeira, ou falta a mim o amor ao próximo. Qual sistema religioso que defende o não amor recíproco entre a humanidade? Portanto, a livre divulgação da fé de cada um é direito decorrente da nossa condição humana e, em última análise, decorrente do próprio Deus.

Liberdade para pregar, liberdade para crer, liberdade para viver a fé. Deus jamais usou a força para chamar seus eleitos a si. E a nova e eterna aliança celebrada através do corpo e sangue de Cristo busca corações convertidos, e não obediência escrava; busca adesão livre e voluntária, e não opção interesseira. Não vejo autorização das Escrituras para condenarmos os não cristãos, ou desejar-lhes mal por não aceitarem o Evangelho. Não é isto que Jesus ensina quando Tiago e João sugeriram que descesse fogo do céu sobre os samaritanos que se recusaram a recebê-Lo?

este texto foi escrito inspirado pelo artigo "Proselytizing in a multi-faith world", de Ed Stetzer, publicado na página da Christianity Today em 28/03/11. As idéias centrais são do texto em inglês, que foram reescritas com liberdade pelo proprietário deste blog. O texto base está disponível em http://www.christianitytoday.com/ct/2011/april/proselytizingmultifaith.html

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Uma adoração muda

Rev. Éser Pacheco*

É preciso ficar mudo diante de Deus. Bem fazem os judeus, que proíbem que se diga o nome do Senhor. Toda tentativa de definir Deus contém um germe de idolatria.

Em nossa vida devocional, seria útil aprendermos algo com um filósofo francês chamado Paul Ricouer. De origem reformada, aquele eminente filósofo, falecido em 2005, dizia: “A fé é essa região da simbólica onde a função de horizonte não cessa de decair à função de objeto, dando origem aos ídolos”. Para exemplificar o que essa frase quer dizer, deixe-me contar um caso que vi essa semana na TV.

Numa igreja da região norte de Belo Horizonte havia, à porta, uma estátua de Santo Expedito. Algum vândalo, tomado de desrespeito pelo próximo, ou algum fundamentalista, cheio de dogmas, mas vazio de misericórdia, achou de jogar ao chão a imagem cultuada por uma legião de fiéis freqüentadores do templo. As pessoas de bom senso vão todas concordar que vilipendiar objeto de culto alheio é um ato de violência e, por isso, deve ser rechaçado.

Por outro lado, não podemos também deixar de tirar algumas lições, ao observar a reação dos fiéis perante a estátua estatelada e fragmentada no chão. Uns choravam e se comoviam diante da imagem, como quem chora à beira da urna funerária de um parente querido. Outros passavam a mão na cabeça do Santo, como quem consola um ferido que aguarda os paramédicos. Houve ainda quem jogasse sobre o ícone uma manta, como se faz quando alguém morre em espaço público e deixa seu corpo exposto ao olhar dos curiosos e das intempéries do dia.

Naquele momento, para aqueles que confundem o horizonte aberto da Graça de Deus com a precariedade de nossas representações, a esperança de que alguém, neste ou em outro mundo, interceda a nosso favor, diante de causas que nos parecem impossíveis, havia se esfarinhado com o gesso. Construímos ídolos sempre que tentamos aprisionar a misteriosa presença de Deus nos esquemas de adoração adaptáveis ao nosso gosto, nossas expectativas, nossa miopia.

Mas antes que se reacenda a velha iconoclastia calvinista, é bom lembrar que não só de imagens de santos fazemos ídolos. Ídolos podem ser a Igreja, ou as igrejas, a Bíblia, ou o próprio Deus. Sempre que pensamos haver definido o que Deus é, nossa soberba erige seu próprio altar.

Há pastores que se gabam de haverem tido uma revelação especial de Deus, o qual lhes falou “em primeira pessoa”. Perdoem-me o apressado juízo, mas fico sempre a pensar no quanto isso tem de delírio narcisista ou de retórica manipuladora. Não convém julgar, mas, também, é preciso acender nosso espírito crítico sempre que alguém se apresenta como um tradutor especial de Deus, um porta-voz privilegiado. Melhor seria confessar que estamos todos às apalpadelas (Jó 5.14, Is 59.10, At 17.27).
 
Às vezes, é preciso resgatar o valor de uma adoração muda, de quem reconhece sua ignorância ante o mistério da presença divina em tudo. É preciso deixar o horizonte aberto, não querer aprisioná-lo em nossos conceitos, hábitos e valores. A esperança sempre alarga os limites do presente. A esperança sempre questiona nossa miopia. A esperança não morre, não se deixa matar.

* pastor colaborador da Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, professor universitário

sábado, 2 de abril de 2011

O pastor, o alcorão e algumas reflexões

Eduardo Ribeiro Mundim

Um pastor norte-americano resolve colocar fogo em um exemplar do Alcorão. Meses atraś, para marcar o dia 11 de setembro, havia anunciado que o faria. À época, parecia ter atendido aos apelos da razão e desistido. Agora, executa o ato. E algumas pessoas são mortas, por vingança, a milhares de quilômetros de onde ele mora, do outro lado do mundo. Segundo alguns, o exemplar do livro sagrado dos muçulmanos foi executado após ter sido considerado, em um julgamento, culpado de várias acusações, incluindo assassinato (1).

Sua congregação é composta por 60 pessoas e tem um perfil fundamentalista. É crença deste pastor, que é visto no terreno da igreja portando uma arma com frequência, que os muçulmanos desejam impor a sharia sobre os Estados Unidos (2).

Usando este lamentável incidente como pretexto, faço algumas considerações.

A atitude de Terry Jones não foi um ato de proclamação do Evangelho de Jesus Cristo. Sua morte substitutiva não foi ensinada, o pecado universal da humanidade não foi apresentado - ainda que o ato do mesmo seja uma demonstração aberta de como o pecado se infiltra em todas as ações humanas. Tão pouco a necessidade de confissão e arrependimento foram proclamadas.

Supostamente o julgamento do livro foi justo - quem o defendeu? O próprio livro? Quem o interpretou e falou no seu lugar?

A encenação foi um ato político, travestido de cerimônia religiosa. O mesmo demônio que apontou a cruz para o imperador Constantino soprou-lhe nos ouvidos este casamento demoníaco: política e religião. Satanás, experiente como é, velou-lhe a mente de modo a ignorar que a Bíblia também poderia ser julgada e condenada ao fogo por diversos crimes, inclusive homicídio. O que impede de um grupo de não-cristãos fazer o mesmo?

Terry Jones é aparentemente cego, se for uma pessoa fundamentalmente honesta; ou um irresponsável, se for um manipulador ou doente em busca de autopromoção.

Apresentando-se como proclamador do Evangelho, não o apresenta, mas faz aquilo que nem Paulo em seus piores momentos humanos se atreveu: insultou a crença básica de alguém. Há este exemplo nas Escrituras? Qual apóstolo escolheu o caminho da violência? Não foram eles, dois mil anos antes de Gandhi, adeptos da não-violência e da desobediência civil?

Cegamente se apresenta aos olhos de milhões de muçulmanos economicamente vulneráveis, alguns em extrema pobreza, cidadãos (se é que o são, ao menos em alguns cantos) sob forte opressão política, como juiz de sua crença, representando uma nação extremamente rica e igualmente opressora (não é ela que sustenta as ditaduras árabes, como o Egito, a Síria, a Jordânia e o Bahrein?). Terry Jones se deu conta do tamanho de sua arrogância?

Os irmãos fundamentalistas já têm problemas suficientes e agora serão confundidos com um tipo de fundamentalismo que rejeita o credo dos apóstolos, maculando uma posição teológica séria e equilibrada com irracionalidade, prepotência e covardia. Sim, covardia, pois é fácil insultar o outro protegido pelos seus. Aos assassinos dos funcionários da ONU pode-se atribuir o calor do ódio despertado pelas chamas no Corão - fruto de um momento habilmente trabalhado por um clérigo islâmico. Mas ao suposto pastor (porque duvido que hoje ele seja um pastor - suas atitudes são de um político insensato e inescrupuloso) nada o desculpa, pois o ato foi gestado por meses, friamente planejado e executado, apesar das advertências de muitos bem mais experimentados nas artimanhas deste mundo que ele.

Nós cristãos temos agora de nos defender de uma atitude assassina - pois foi o fósforo que acendeu as chamas o autor dos disparos que mataram inocentes do outro lado do mundo. Ele não pensou nisto?!

Envergonhado, peço, como cristão, perdão às famílias enlutadas pelo ato consciente e deliberado de alguém que não merece o honroso título de "pastor".

Envergonhado, peço, como cristão, perdão aos muçulmanos pelo ato de hostilidade gratuita e desrespeitoso. Não entendam este ato como motivado pela mensagem da graça de nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte substitutiva e sua ressurreição redentora. É um crime e como tal deveria ser julgado.



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terça-feira, 29 de março de 2011

Cristãos em crise com o que julgavam ser a sua fé

Eduardo Ribeiro Mundim

Já é lugar comum falar sobre a crise de fé trazida pela pós-modernidade, descrita como uma situação onde inexistem verdades absolutas por serem algo inatingível ou inexistente. O cristão tradicional, ou seja, que subscreve o credo de Niceia, crê em verdades absolutas, sintetizadas por esta declaração de fé. Ele é, na sociedade contemporânea, uma "anomalia".

E não é de hoje que o cristão evangélico é caracterizado como algo em vias de extinção por sua absoluta dissintonia com o mundo atual, seja por crer em verdades absolutas e universais, seja por defender posturas morais incompatíveis com a atual onda do politicamente correto. Não é por acaso que novelas usam personagens religiosos (com frequência Testemunhas de Jeová, um grupo que não assina o credo niceno-constantinopolitano) para retratar situações particulares como exemplo de norma geral: transfusão de sangue é o prato predileto. Qual personagem cristão evangélico foi retratado em algum filme ou novela com aspecto positivo? Este personagem, se existente, ficou retido na memória comum?

Não se pode fugir ao fato de que pastores e políticos tem fornecido munição suficiente para o descrédito, quando assumindo a filiação evangélica (e, às vezes, por parte de igrejas feitas sob encomenda e de caráter cristão bastante questionável) e tendo um comportamento público de imoralidade flagrante e de incoerência explícita com o Evangelho.

Contudo, percebo que há uma crise sobre a qual pouco se fala. Talvez porque não exista, e seja apenas minha experiência pessoal; talvez porque não é, dentro do arraial cristão evangélico, politicamente correto se levantar determinadas questões.

É a crise do se crer naquilo que não se deve crer, naquilo que o Evangelho e o restante das Escrituras jamais ensinaram. Dentre outras:

1. A única pessoa capaz de um ato de amor desinteressado é o cristão
2. Somente os cristãos têm virtudes
3. O cristão é o modelo que deve ser seguido pelo restante da sociedade
4. Não cristãos não agradam a Deus
5. Não cristãos somente são alvos do amor de Deus através da pregação do Evangelho, buscando convertê-los à verdadeira fé.

Qual apóstolo foi exemplo de amor desinteressado em absoluto? Esta é uma impossibilidade humana, pelo que ensina a psicologia (que explicita o caráter eternamente conflituoso do ser humano); as Escrituras não fazem esta afirmação em lugar algum, e qualquer tentativa de encontrar tal perfeição é tão sólida quanto gelatina no forno acesso. Na era da informação rápida, quantos atos heroicos foram praticados, ao preço da própria vida, por pessoas religiosas de outras confissões e não-religiosas? E quantos atos covardes foram cometidos por cristãos em nome da segurança pessoal e/ou familiar?

Não é prudente confundir as revelações das Escrituras. Elas são claras: nenhum homem pode agradar a Deus por suas próprias atitudes, pois todas estão marcadas pelo pecado, por mais puras que conscientemente elas sejam. Não é este o ensino das Escrituras? E neste quesito não é o ensino das mesmas que este agrado diz respeito ao fato de sermos aceitos por Deus enquanto rebeldes a Suas vontade e ensino? E que estas atitudes não apagam os erros que cometemos? E que somente pelo sacrifício de Jesus na cruz, com Sua ressurreição, apagam diante dEle nossas transgressões?

E não são as mesmas Escrituras que revelam que toda atitude correta, mesmo não tendo valor salvífico, agrada a Deus, não importa quem a pratique?

Não é ensino legítimo de que Deus faz nascer Seu sol sobre justos e injustos, e que por amor de todos "deu Seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna?" E que Ele ordenou aos cristãos que sirvam ao mundo incrédulo como testemunhas do Seu amor constante para com ele, mesmo que permaneça na incredulidade, até o dia do juízo final?

Quando criança, há quarenta anos, fui ensinado que o crente não fuma, não bebe não dança, não... Fui ensinado, nas entrelinhas, que santidade era não; e que minhas atitudes definiriam se era ou não salvo (ou seja, um cristão).

Dura realidade quando as Escrituras demonstram que a única diferença entre o cristão e o não-cristão é que o primeiro é um pecador perdoado que constantemente peca e pede perdão, não existindo pecado que não possa cometer. O não-cristão é um pecador que não se considera como tal, porque suas referências não incluem este conceito; tão pouco o Deus da Bíblia existe. Nada mais os separa, nada.

Dura realidade quando a experiência mostra cristãos doentemente neuróticos, presos a culpas imaginárias, com o comportamento prisioneiro do recalque, onde as evidências de santificação pessoal são pouco evidentes e o sofrimento por ter prazer na lei de Deus e não praticá-la muito óbvio. Repito que a única diferença entre este sofredor e o não-cristão é que aquele é perdoado pelo sacrifício da cruz e este ainda não, até a confissão de que Jesus é Senhor de sua vida.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O rei está nu

Bráulia Ribeiro

O Ocidente está adoecido pelo ódio a si mesmo. Olhamos para nossa história, para o produto de nosso progresso, para nossa sociedade, e não gostamos do que vemos. O rei está nu. A utopia política do início do século passado se tornou uma experiência vergonhosa de domínio de poucos sobre as massas. As mentiras sobre superioridade racial em que acreditamos se transformaram em sangrentos genocídios. O capitalismo que iria permitir ao proletariado qualidade de vida se tornou um monstro de produzir riquezas, que nos engole sem piedade. As propostas religiosas se emaranharam promiscuamente a qualquer ideia que pagasse mais. Enfim, demos com os burros n’água vez após vez. Desiludimo-nos e nos odiamos. Precisamos de uma nova gênese.

Por causa disso, olhamos para os índios isolados com uma esperança “rousseauniana”. Serão eles nosso renascimento? No Google você encontra nas referências sobre a tribo Zoé, que vive entre o Pará e o Amazonas, esse tom religioso. Pesquisadores e cineastas franceses veem neles a esperança de um renascimento para a humanidade. Porém, como todas as outras, os Zoé são apenas uma tribo brasileira pequena tentando sobreviver. Foram contatados pela Missão Novas Tribos do Brasil na década de 80. Foram conduzidos com cuidado do isolamento a um estágio intermediário, em que recebiam ajuda da Missão para as necessidades básicas.

O isolamento por si só não garante a sobrevivência de nenhuma tribo, ao contrário do que dizem os sertanistas. Massacres de tribos isoladas inteiras, causados por contaminações de doenças, por seringueiros, madeireiros ou outros predadores amazônicos, ou até por guerras entre tribos ou clãs, acontecem com frequência.

Voltando à história dos Zoé, a Missão acabou sendo expulsa da área. Os Zoé eram bonitos e puros demais para ficarem em contato com uma missão. Afinal, ela institucionaliza tudo o que mais odiamos no Ocidente: sua religião. A religião cristã continua pregando o que mais queremos esquecer, continua representando no mundo acadêmico moderno a cristalização dos valores que nos tornaram (entenda aqui a ironia) capazes de criticar aquilo que somos. Fora com eles.

A missão deu lugar aos “humanistas” da Funai. Verbas internacionais vieram e o projeto Zoé se tornou modelo. Um hotel de selva foi construído em frente à aldeia. Tudo o que dava acesso a outro mundo foi retirado. Eles passaram a viver numa ilha de selva virgem vigiada apenas por observadores bem-acomodados. Os vídeos na internet que retratam a tribo são lindos, feitos com equipamento de alta qualidade só possível devido ao conforto e à tecnologia oferecidos pelo hotel/observatório. A tribo “virgem” agora se torna entretenimento de turistas de alta classe, uma espécie de zoológico humano servindo ao voyerismo de antropólogos e cineastas estrangeiros.

Suprema ironia. Os selvagens são mantidos escravos por causa de sua pureza. Vistos de longe, os Zoé são “na’vi” azuis andando por Pandora com rabos longos, etéreos, perfeitos. De perto, são um povo escravo de um idealismo que não inventaram. Presos a um paleolítico circunstancial, são impedidos de mudar. Não são humanos, não são cidadãos, não são nem índios brasileiros. São uma metáfora internacionalizada do ódio de nossa cultura por si mesma.

O problema é que, não sabendo disso, eles fugiram de seu paraíso terrestre. Em outubro de 2010, os Zoé fugiram para pedir ajuda aos castanheiros locais e ao mundo. Num vídeo tosco filmado por um dono de castanhal, os índios se expressam em português fluente: “A gente quer coisa. A gente quer panela, faca, anzol. A gente quer ter o que os Tirió tem. Funai não dá nada pra nós não, mas a gente quer”.
Tradução? Os Zoé estão dizendo: “A gente quer parar de ser uma coisa, a gente quer ser gente, vocês vão permitir?”.

• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br

fonte: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/328/o-rei-esta-nu-1

quinta-feira, 17 de março de 2011

O valor da vida humana

Eduardo Ribeiro Mundim

Atribuir valor à vida humana é algo extremamente corriqueiro e, simultaneamente, extremamente difícil. E esta valoração ocorre ditada pelo fato de vivermos em sociedade, co-dependentes mútuos, permeados pela nossa ambiguidade nata (que na sua forma atual está enraizada em nossa natureza aversa a Deus). As nossas leis precisam regulamentar o fato de que somos uma ameaça uns aos outros, apesar da nossa interdependência (cada vez menos visível aos olhos), seja diretamente através de uma ação planejada ou não, seja indiretamente através de algum incidente aleatório. Na esfera cível, a vida é valorada de modo a se estabelecer indenizações no caso de morte ou lesão que cause incapacidade; na criminal, para se estabelecer a punição por um crime perpetrado. 

As notícias veiculadas recentemente nos jornais de Belo Horizonte me fazem pensar sobre como nossa sociedade dá um valor bem baixo à vida, no sentido da existência real e continuada até o seu fim natural, das pessoas:
- um motorista alcoolizado mata um casal que se dirigia ao aeroporto para aproveitar recente aposentadoria. Era por volta das 05:30 da manhã, em uma rodovia sinuosa e reconhecidamente perigosa.
- um assaltante toma uma mulher como refém durante um assalto a um supermercado em uma cidade. Enquanto uma negociação, infrutífera, era tentada, um policial consegue atingi-lo com um tiro, e o mata. Ele ameaçava a mulher com uma faca.
- um jovem de 24 anos é assassinado na principal avenida da capital mineira, às 18 horas da tarde. Pela manhã, havia iniciado o período de regime semiaberto de sua condenação pela participação em duas mortes em uma favela da cidade, ocorrida há poucos anos.

Qual o valor que o alcoolizado motorista dá à existência do seu próximo quando decide dirigir sem estar em condições, em alta velocidade, em uma rodovia tida e havida como das mais perigosas da metrópole mineira? Pelas nossas leis, jamais será condenado, ou pelo menos, julgado, por homicídio doloso...

Qual o valor que nossos policias dão à existência dos criminosos? Matar se torna uma rotina, tipo "acidente de trabalho"? É um caminho mais fácil que uma negociação bem planejada, trabalhada, de modo a evitar um crime e poupar duas vidas? A solução para a criminalidade, principalmente aquela exercida pelos mais pobres, é a execução dos mesmos? Fosse o desesperado criminoso um "doutor" a história teria sido a mesma?

Qual o valor que nossos legisladores dão à existência quando criam leis e códigos que permitem o retorno à sociedade em tempo curto de assassinos confessos? O tempo atrás das grades não ressuscita os mortos. Mas ele não revela, mesmo que indiretamente, quão barata é a vida da população pobre (já que é a maioria dos brasileiros não está nas classes A e B, a C, D e E é que são as mais frequentes vítimas e atores dos homicídios). E eu pensava que somente os assassinos de aluguel usassem tabelas de preços...

Após muitos anos, talvez décadas, reencontrei o texto de Ex 21.14. Nunca havia parado para pensar no peso deste mandamento, ressaltado pela tradução da Nova Versão Internacional: para o assassinato premeditado, não haveria cidade de refúgio, lugar santo, ou desculpa que lhe abrandasse a pena. Somente a morte do assassino evidenciaria a importância da vida que fora tirada por razões absolutamente humanas, através de uma atitude planejada. Nem mesmo o altar o protegeria, porque havia eliminado um ser humano.

Não sou defensor da pena de morte - ainda que, frequentemente, ouça sobre crimes que bem a mereceriam. Talvez não seja defensor com medo da execução de um inocente, da nossa incapacidade de prover recursos de defesa iguais a todos os brasileiros, da própria crueldade de matar planejadamente alguém. Mas que o texto sagrado se posiciona de modo muito diferente que nós frente a vida humana, não há dúvida.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Qualidade de morte

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS

FOLHA DE SÃO PAULO

TENDÊNCIAS/DEBATES

09 de março de 2011

Ainda que a pobreza torne a vida difícil, é ingênuo pensar que a riqueza, por si só, seja capaz de resolver os enigmas que a existência nos impõe
Até meados do século 20, dava quase na mesma ser pobre ou rico na hora de morrer: iam-se todos de modo semelhante, pois as doenças ignoravam privilégios. Diante da tuberculose, por exemplo, não havia ouro que comprasse sofrimento menor ou alguma sobrevida: morriam afogados, na derradeira hemoptise, tanto os operários de Manchester estudados por Engels como os burgueses dos quais nos fala Thomas Mann em "A Montanha Mágica".

Com o avanço da ciência, porém, tudo parece ter mudado. Hoje há muitos que acreditam que o dinheiro, além de comprar uma vida mais "rica", também garante a qualidade da morte: por meio dele, os abastados despedem-se deste mundo no ambiente glamoroso de "hospitais-boutique", sob os cuidados dos "médicos da moda". Mas será que as coisas são tão simples?

Por um lado, ainda que a pobreza torne a vida difícil, é ingênuo pensar que a riqueza, por si só, seja capaz de resolver os enigmas que a existência nos impõe, magnatas ou não. E o remorso não raro corrói a paga que os "eleitos" recebem por sua ganância. Se isso não é tão claro, é porque a maioria das pessoas desconhece a intimidade dos poderosos, sempre dilacerada por conflitos: os psicoterapeutas e os próprios poderosos sabem bem do que falo.
Por outro lado, o acesso à medicina "de ponta" nem sempre é garantia de boa recuperação ou de morte tranquila, além de dar origem a paradoxos.

Um exemplo é a angústia que destrói a saúde dos que sofrem, no presente, com as moléstias que -imaginam- terão no futuro. Martirizam-se, assim, por não terem um plano de saúde "top", o qual já se tornou, ao lado do carro "zero", o atual sonho de consumo. Para essa angústia contribuem, crucialmente, a propaganda dos centros diagnósticos -que não param de crescer- e a ingenuidade de médicos que confundem prevenção com obsessão por doenças.

Outro exemplo é o caso dos doentes terminais mantidos vivos mesmo à custa de muita dor, bem como a insensatez de uma legislação que proíbe a eutanásia para as pessoas que dela necessitam, condenando-as, cruelmente, ao papel de axiomas de grotesca tese: a de que a vida deve ser sempre preservada, "coûte que coûte"...

Mas, já que a morte segue inevitável -muito embora a publicidade procure nos convencer de que somos imortais-, não seria melhor que encarássemos a vida de outro modo, empregando-a não só para "conquistar um lugar ao sol" mas também para aceitar um "cantinho" nas sombras para onde iremos todos? Não seria importante que aprendêssemos a morrer, buscando, se preciso, nas ideias de outras épocas a espiritualidade que tanta falta nos faz?

Infelizmente, não é o que vemos.

Ao ideal da morte honrosa dos gregos, da morte-libertação dos gnósticos, da boa morte dos cristãos medievais, da morte heroica dos românticos, nós contrapomos a "morte segura" no leito high-tech de um hospital chique, transfixados por cateteres e "plugados" na TV. Uma morte que é o símbolo perfeito da doença que acomete a nossa civilização e que, decerto, vai matá-la: o conformismo hedonista.


CLÁUDIO L. N. GUIMARÃES DOS SANTOS, 50, escritor, artista plástico, médico e diplomata, é mestre em artes pela ECA-USP e doutor em linguística pela Universidade de Toulouse-Le Mirail (França). Blog: http://perplexidadesereflexoes.blogspot.com/.

domingo, 13 de março de 2011

Saúde, ética e espiritualidade


Saúde é bem-estar, não é mercadoria.

João Inácio Wenzel* Cuiabá, segunda-feira, 14 de março de 2011


Contam os anais da história que no antigo Oriente havia médicos contratados para cuidar da saúde da família. E quando alguém da família ficava doente, o médico deixava de receber salário, porque não estava fazendo bem o seu trabalho.

Quão distante ficamos desta visão holística da saúde em nossos tempos modernos! A saúde não é mais vista em sua integridade e integralidade. Ela é vista como ausência de doenças. A ênfase não está mais no cuidado da vida, das pessoas e do que nos envolve, mas em tratar doenças. Saúde virou mercadoria que se garante com planos de saúde. Na impossibilidade de pagar estes, se recorre ao SUS.

A saúde está compartimentada em mil e uma especialidades. Para cada doença um/a especialista. Cada qual sabe muito bem cuidar de determinadas doenças ou órgãos. Mas será possível tratar uma doença sem encarar as suas causas e a complexidade do jogo da vida e tudo aquilo que a envolve?

Felizmente os impulsos pela vida e os apelos em defesa e promoção da vida vêm resistindo e ganhando terreno a cada dia, quer seja pela recuperação do conhecimento de práticas de medicina popular de domínio comum, como a fitoterapia e a geoterapia, seja a valorização de novas práticas populares como a utilização da homeopatia e a introdução de ciências orientais, como a acupuntura.

Tal resistência também acontece no embate político, na compreensão do conceito de saúde e com a contribuição da bioética. A Organização Mundial da Saúde assume a seguinte conceituação: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”.

A diferença é enorme. Há uma preocupação não simplesmente com a doença física, mas também com as suas causas e o seu contexto social. Mas há um limite: O que se entende mesmo por “bem estar”? Poder aquisitivo, qualidade de vida, frequentar o shopping? Pode-se estar bem quando as pessoas a nossa volta estão mal? Fadigadas, estressadas, sempre correndo atrás de coisas e mais coisas, com medo de ser assaltada/o, violentada/o?

A concepção dialética da saúde e doença do médico panamenho José Renan Esquivel supera a visão parcelada e fragmentada do corpo humano, como vem apresentado no documento base da Associação Brasileira de Homeopatia Popular - ABHP: “Partimos do fato que a célula mais sã é a célula com capacidade de defender-se dos vírus, tóxicos, bactérias e contra tudo que a agride, da mesma forma, o homem saudável deve organizar-se contra tudo o que o agride, vírus, bactérias, tóxicos, e até mesmo contra o próprio homem...”

“Para nós, o conceito de saúde atinge desde a menor célula do corpo até a grande organização da sociedade. Ora, se saúde é o ‘resultado das condições de organização de uma determinada sociedade’, na sociedade enferma em que vivemos - saúde não é bem-estar, saúde é luta.”

“Quando uma célula é incapaz de dar e receber, e de estabelecer contínuas trocas com o meio no qual vive, ela se deteriora. Se uma pessoa humana se fecha no seu mundo, sem distribuir, sem intercambiar, sem se relacionar, estará a caminho da loucura e da autodestruição...”

Ao lado deste conceito que relaciona a saúde da pessoa com a saúde da sociedade e do planeta, ganha força outro paradigma que vem das tradições milenares dos povos indígenas da América Latina: o princípio do bem-viver e do viver bem, incluídos nas Constituições do Equador e da Bolívia em 2008 e 2009, e que pode ser traduzido como “vida em plenitude”.

“Quando se fala de vida em plenitude, está se fazendo uma referência a viver em harmonia entre o material e o espiritual, consigo mesmo e com a Mãe Terra. Em última instância, saber conviver com tudo o que nos rodeia, com a comunidade”, afirma Katu Arkonada (Revista IHU Online 340).

Neste conceito, o que importa não é ter a melhor casa, carro do ano, acesso aos últimos lançamentos, conforto, “qualidade de vida” como ter mais coisas, mas a capacidade de criar relações humanas de qualidade, geradoras de humanidades. Portanto, não dá para falar em saúde, em cuidar da própria saúde sem cuidar da saúde dos outros e da saúde do planeta.

Na Bíblia hebraica a palavra que mais se aproxima deste paradigma de bem-viver é a palavra shalom, geralmente traduzida por paz. Perguntar alguém como vai - como está o teu shalom – significa perguntar algo que tem a ver com a sua condição existencial, abrangente e integral, que inclui a saúde.

Jesus assumiu este shalom como missão: “Eu vim para que todos tenham vida plena” (Jo 10,10). As pessoas percebiam nele uma força dinâmica (dynamis) que cura e liberta. Uma força curadora que pode ser ativada pela fé. Ele mesmo dizia à pessoa restabelecida: “Tua fé te salvou”.

São pessoas populares que se põem em movimento para buscar o toque curador, por vezes intermediadas por pessoas da comunidade. Justamente as pessoas excluídas pelo convívio salutar da comunidade, com os leprosos e as mulheres com fluxos de sangue, eram as que recebiam mais cuidados e com quem expressava mais afeto e misericórdia.

Dizia-lhes, como traduz muito bem André Churaquy: “Em marcha os pobres em espírito..., em marcha os que choram...” Para Jesus, elas não são “pacientes” objetos de cura, e sim sujeitas do processo que interagem com o terapeuta. Houve um caso em que uma mulher conseguiu tocar suas vestes, sem ninguém notar, e ela sentiu-se curada.

Jesus também sentiu uma força dinâmica sair dele e quis saber quem a tocou. Quando ela se apresentou e contou tudo o que aconteceu em sua vida, Jesus a chamou de filha: “minha filha, a tua fé te salvou; vai em paz e estejas curada desse teu mal” (Mc 5,34). Jesus não queria apenas sua cura física, mas quis também a sua cura sociocultural. Quis devolvê-la à comunidade como exemplo de fé e de lutadora de dignidade.

O que Jesus fez não foi declinar um código moral, mas estabelecer novas relações com as pessoas que as restabeleceram por inteiro, beneficiando-as em sua saúde corporal, psíquica, social, cultural, política e religiosa. É assim que vive e se expressa a justiça divina ou, como diríamos hoje, sua ética terapêutica.

Hoje esta reflexão é avivada pela discussão dos princípios éticos, especialmente a bioética, como nos mostra José Antônio Ferreira num instigante artigo sobre o diálogo com as ciências da saúde (Bíblia e Saúde 1, 2009). Há certo consenso entre princípios como a beneficência, a autonomia e a justiça. O primeiro vem do pai da medicina ocidental, Hipócrates de Cós (460-377 aC), que disse que a finalidade da medicina é “aliviar o sofrimento do doente, diminuir a violência das suas doenças...”.

Esse princípio milenar da beneficência é complementado pelo segundo, da autonomia. O médico não é mais o único sujeito que faz o diagnóstico e determina sozinho o tipo de tratamento que o “paciente” – objeto - deve sofrer, mas ambos, médico e pessoa adoecida são sujeitos autônomos que estabelecem uma relação de parceria e amadurecem juntos as decisões e as escolhas cabíveis, respeitando os direitos de cada um.

O terceiro princípio que ajuda a humanizar as relações é o da justiça. Saúde é para todos e não somente para quem tem condições de pagar planos de saúde.
Há, porém, um quarto princípio particularmente significativo para nós latino-americanos: o princípio da alteridade, o respeito à diversidade de gênero, de etnia, cor, sexualidade, de ciclista e pedestre...

Pensar e agir a partir da vida dos pobres e excluídos e da situação de violência social que as pessoas estão submetidas é a única forma de não excluir ninguém. Princípio que também é estendido para o respeito à diversidade dos seres vivos e o respeito ao planeta Terra. Todas as espécies têm direito à vida.

Por último, um princípio que é caro aos cristãos, a sacralidade da vida humana, que vem da concepção de sermos “criados à imagem e semelhança de Deus”, assumidos pelo “Verbo que se faz carne e habitou no meio de nós”. Não há mais espaço para o sagrado separado da vida. No momento em que Jesus entregou o seu Espírito, “o véu do templo” que separava o santo dos santos, “se rasgou do alto a baixo”. Agora sagrada é a vida.

Há um fato narrado por Marcos que representa bem como Jesus aplicou este princípio ético na sua comunidade em Cafarnaum (Mc 3,1-6). Estava em meio à assembleia um homem da mão paralisada. Jesus o chamou para o meio, justamente onde se costumava ler e explicar a Sagrada Escritura. Depois de fazer a pergunta retórica se é permitido no sábado salvar a vida ou matar, pediu que ele estendesse a mão. Desta forma, Jesus colocou a Bíblia e o doente no mesmo patamar e sacralizou a vida humana.

Uma imagem que vem do hinduísmo, trazida a nós pelo jesuíta indiano Antony de Mello, pode nos ajudar a compreender a sacralidade da vida e de toda a criação. A terra é sagrada (Ex 3,5), a água é a sagrada (Jo 4,14), o ar é sagrado (1 Rs 19,12), o fogo é sagrado (At 2, 3).

Diz a tradição hindu que “Deus dança a criação. Ele é o bailarino e a criação a dança. A dança é diferente do bailarino, e, no entanto, não pode viver sem ele. No momento que o dançarino pára, a dança deixa de existir...” Não é Deus que precisa de nós, somos nós que precisamos Dele para seguir sendo a dança que cuida da vida, das pessoas, de si mesmo, da mãe terra...

Bibliografia:
Associação Brasileira de Homepatia Popular. Homeopatia Popular e Solidariedade Planetária; uma nova Saúde é Possível - Documento Base. Cuiabá: ABHP, 2007.
PASSOS, Luiz Augusto (org). O calor que nos une cura nossos corações. São Leopoldo: CEBI, 2010. (Série Palavra na Vida 274).
UETI, Paulo (org.). A vida é o que interessa. Bíblia, Saúde e outros ingredientes. São Leopoldo: CEBI, 2009. (Saúde e Bíblia 1).
UETI, Paulo (Org.). A terapêutica de Jesus. Corpo, poder e fé. São Leopoldo: CEBI, 2010. (Saúde e Bíblia 2).
 
* Padre jesuíta, Mestre em Teologia (FAJE/BH), coordenador do Centro Burnier Fé e Justiça, e professor no Studium Eclesiástico Dom Aquino Correia (SEDAC).

quinta-feira, 3 de março de 2011

Imposição de mãos sobre bispos marca comunhão plena entre moravos e anglicanos

Nova Iorque, quinta-feira, 3 de março de 2011 (ALC) - Moravos e episcopais anglicanos dos Estados Unidos formalizaram relação plena de comunhão, reconhecendo mutuamente doutrinas essenciais, como a do Batismo e da Eucaristia, a aceitação mútua do clero e a realização de trabalho conjunto de evangelismo e missão. As duas denominações continuam autônomas, mas interdependentes.

A relação plena entre as duas denominações foi oficializada em culto celebrado na Igreja Morava Central de Bethlehem, no domingo, 10 de fevereiro, informa o Serviço de Notícias Episcopal. Na celebração, bispos moravos impuseram as mãos sobre os colegas episcopais, ajoelhados em sua frente, e vice-versa. O ato simbolizou o recíproco reconhecimento e reconciliação dos ministros ordenados das duas denominações.

A primaz da Igreja Episcopal Anglicana dos Estados Unidos, Katharine Jefferts Schori, e os presidentes da Conferência de Anciãos Provinciais Moravos, pastora Elizabeth D. Miller, da Província do Norte de sua denominação, e o pastor David Guthrie, da Província do Sul, oficiaram o culto.

O acordo da plena comunhão reconhece mutuamente a validade das ordenações nas duas igrejas, um ponto controvertido no processo. A Igreja Morava não abriu o ministério ordenado a sacerdotes homossexuais, o que é possível na Igreja Episcopal dos Estados Unidos.

A Unitas Fratrum, ou Unidade dos Irmãos, que congrega as igrejas moravas do planeta, posicionou-se a respeito, alegando que a questão posta não é um assunto doutrinal, abrindo caminho, assim, ao acordo de plena comunhão.

"Sabemos que a solidez dessa relação de plena comunhão não depende de documentos nem das resoluções sinodais, mas de descobrir continuamente para o que Deus nos chama como seu povo, e de permitir que o espírito de unidade de Deus atue em nós", disse o bispo episcopal Steven Miller, da Diocese de Milwaukee e co-presidente da Comissão de Diálogo entre as duas denominações.

O diálogo entre as duas igrejas nos Estados Unidos começou em 1997, e desde 2003 acordaram a celebração conjunta da Eucaristia. A Igreja Morava conta com mais de 900 mil membros, em 19 países. Nos Estados Unidos ela é uma denominação pequena, concentrada nos Estados da Pensilvania, Carolina do Norte e Wisconsin.

Esse é o quinto acordo de plena comunhão da Igreja Episcopal Anglicana dos Estados Unidos. Os outros quatro acordos envolvem as igrejas Evangélica Luterana na América, da União de Utrecht, Independente das Filipinas e a Siria Malabar, da Índia.


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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Quero trazer à memória o que pode me dar esperança

 Carlos Eduardo de Lima Santos

A poesia de “Lamentações de Jeremias” é um relato do olhar do profeta para a cidade de Jerusalém, assolada, destruída e com cheiro de morte. Tanto os que permaneceram em Judá como os que partiram para o exílio experimentaram um abalo existencial por verem aquilo que amavam tanto ser queimado e destruído à sua frente. Penso que eles se sentiram como se estivessem no centro de um nevoeiro, com impossibilidade de ver qualquer esperança.

E acho que é justamente assim que nos sentimos, quando passamos por uma experiência de perda de algo ou de alguém que significa muito para nós. Soluções nem sempre são encontradas instantaneamente e é aí que temos que demonstrar uma postura crítica e racional, para podermos enxergar melhor a realidade em que estamos inseridos. Saramago disse uma vez que “...para conhecermos uma coisa, devemos circular ela toda”. Ele se referia ao teatro de Lisboa que por fora era muito bonito, mas por dentro era feio. Assim sendo, é preciso olhar atentamente para não sermos enganados pelos nossos sentidos. Porque nem sempre aquilo que nos chega através dos sentidos é a realidade em si. Por isso muitos filósofos consideram a coruja como símbolo da filosofia, pela sua alta capacidade de ver no escuro, como se ela conseguisse ver o que outros não veem.
 
É salutar nos distanciarmos (no sentido reflexivo) para vermos melhor em meio às trevas das incertezas. E nesse processo de reflexão podemos levantar a seguinte questão: o que este poema (Lm 3.21) pode nos ensinar acerca de Deus?

Primeiramente, que Deus está bem próximo de nós. O povo judeu, em sua teologia, pensava que a presença de Deus se resumia ao espaço geográfico do templo, mas a experiência do cativeiro Babilônico contribuiu para uma nova compreensão de Deus, como aquele que se manifesta em situações humanas. Há um ano, um fato me chamou atenção. Houve um tremor de terra no Haiti e 70% dos prédios da capital desmoronaram. Um repórter conseguiu mostrar que, em meio à quase completa ruína de uma igreja católica, restou intacta, a imagem do Cristo Crucificado. Tudo quebrado no chão e ela lá, em pé, fulgurante, como a mostrar que Ele está presente junto ao povo sofrido. Esta cena é muito significativa. Pode-se compreender muita mensagem de Deus para nós.

Em segundo lugar, este poema nos ensina que podemos recomeçar de novo sendo nós mesmos. O exílio babilônico teve um papel muito importante na religiosidade e espiritualidade do povo judeu, pois, Deus não deixou de falar com o Seu povo e isso contribuiu para que a identidade israelita fosse reafirmada de forma diferente. Desse modo, houve um novo recomeço na espiritualidade de Israel. Isso nos provoca a mergulharmos no silêncio, para ouvirmos a voz de Deus, pois, Deus fala através do silêncio. Santo Agostinho diz “in interiore homini habitat veritas”, ou seja, “ no interior do homem habita verdade” (De vera Religione). Para Agostinho, a transcendência está instalada na interioridade do homem, basta o homem se recolher ao silêncio para ouvir a voz de Deus.

E, finalmente, esse poema nos ensina que não devemos ser precipitados em nossas conclusões. O povo judeu pensava que o cativeiro babilônico seria seu fim, mas o tempo, que é o senhor da razão, mostrou que ele estava errado.
E quantas vezes nós somos precipitados em nossos juízos de valor acerca de outras pessoas e de situações que achamos intransponíveis? Mas, com o passar do tempo, percebemos que estávamos errados. Portanto, entre o desespero e a esperança vem à memória a fé de um Deus benigno.

Carlos Eduardo de Lima Santos – Graduado em Teologia e estudante de filosofia na faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia- FAJE. Atualmente é membro da Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte.

fonte: http://www.segundaigreja.org.br/noticias_view.asp?id=419

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Entrevista Pe. Libânio sobre manifesto teólogos alemães


Recentemente, teólogos e teólogas alemães, suíços e austríacos, lançaram um manifesto propondo reformas para a Igreja em 2011. A convite da IHU On-Line, o teólogo João Batista Libânio leu o documento e analisou as propostas, concedendo por e-mail a entrevista a seguir. Resumindo, ele é enfático: “A tônica do projeto do Papa e a do manifesto divergem”. 

Com a experiência de quem presenciou “nítidos momentos no processo eclesiástico” da Igreja nas últimas décadas, Libanio ressalta que o manifesto “alude ao fato de que em 2010 ‘tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição’”. A constatação do êxodo cristão, entretanto, “não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica”, assinala. 

Para ele, Roma reforça a autoridade sobre as igrejas locais porque elas a solicitam. “A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte”, lamenta.

Libânio também comenta a nomeação de bispos brasileiros para integrarem a Cúria Romana e diz que as atuais nomeações “respondem ao atual perfil de Roma. (...) Isso não vem de nenhum prestígio especial do episcopado brasileiro, como tal, além do peso estatístico”.

João Batista Libânio é padre jesuíta, escritor e teólogo. É doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) de Roma. Atualmente, leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e é Membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. É autor de inúmeros livros, dentre os quais Teologia da revelação a partir da Modernidade (5. ed. Rio de Janeiro: Loyola, 2005), Qual o caminho entre o crer e o amar? (2. ed. São Paulo: Paulus, 2005) e Qual o futuro do Cristianismo? (2. ed. São Paulo: Paulus, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual sua reação ao manifesto que propõe reformas para a Igreja em 2011, elaborado por teólogos alemães, suíços e austríacos?
João Batista Libânio – Impressiona, logo à primeira vista, o conjunto de assinaturas de teólogos da mais alta competência e responsabilidade. Portanto, não subscreveriam nenhum manifesto superficial, imprudente. Concordemos ou não com as proposições, ele merece séria consideração e detida atenção.
Parte do inegável mal-estar que afetou não só a Igreja Católica alemã e de alguns países por causa do escândalo da pedofilia, mas de toda a Igreja por ver-se nele a ponta de um iceberg de maior amplitude: a falta de liberdade e de transparência no interior da Igreja devido ao cerceamento das instâncias de poder eclesiástico. Por isso, o manifesto bate forte na tecla das estruturas de governo da Igreja Católica. 

IHU On-Line – A partir da sua trajetória sacerdotal, o senhor também concorda que a Igreja precisa ser reformada? Quais seriam as reformas urgentes?
João Batista Libânio – Os anos me permitem perceber três nítidos momentos no processo eclesiástico das últimas décadas. Ainda conheci estruturas hieráticas no pontificado de Pio XII, que lançava a imagem do poder eclesiástico onisciente e onipotente. Roma pronunciava-se sobre os mais diversos assuntos e com a consciência de dizer verdades inquestionáveis. Não se percebia sinal de dúvida ou perplexidade. Isso acontecia com duplo efeito. Positivamente, oferecia aos católicos fieis enorme segurança sobre temas desde a astronomia até a intimidade da vida conjugal. Para aqueles que já tinham recebido o impacto da modernidade liberal, democrática, marcada pela subjetividade, autonomia das pessoas, consciência história, práxis transformadora, tais declarações romanas produziam enormes dificuldades e mal-estar. 

Veio então João XXIII. Convoca o Concílio Vaticano II que inicia, com certa coragem, o diálogo da Igreja com a modernidade. Usando a imagem da música “andante ma non troppo”, a Igreja caminha em direção ao repensamento doutrinal e pastoral, provocado pelos questionamentos teóricos e práticos levantados nos últimos séculos. No entanto, o tempo de aggiornamento não durou muito. Já no próprio Pontificado de Paulo VI, a partir de 1968, despontam sinais de contenção e retrocesso. E depois a Igreja Católica mergulha em longo processo neoconservador que dura até hoje. As inovações iniciadas no Vaticano II se interromperam e outras não surgiram, exceto em um ou outro gesto ousado de João Paulo II, como a Oração pela Paz em Assis com os líderes das diferentes religiões do mundo. Ainda que o clima geral não fala de abertura, entretanto percebe-se-lhe a necessidade.

IHU On-Line – O manifesto também propõe uma reconversão da Igreja. O que o senhor entende por esta proposta?
João Batista Libânio – A Igreja tem a enorme graça de pôr como referência última, principal, insuperável a pessoa de Jesus Cristo. E quanto mais se conhece o Jesus histórico, mais se percebe a força revolucionária de sua pessoa. Ele não deixa nenhuma estrutura esclerosar-se, sem que lhe seja acicate de mudança. Menciono de passagem o maravilhoso livro de J. Pagola, Jesus: aproximação histórica (Petrópolis: Vozes, 2010), que nos descreve e narra um Jesus colado à realidade no projeto maior de devolver às pessoas a dignidade. 

Diante dessa figura de Jesus, muitas estruturas eclesiásticas sofrem terrível crítica. A partir dele, cabe falar de contínua reconversão da Igreja. Basta comparar a figura de Jesus andarilho, de Pedro pescador e crucificado em Roma com certas aparências poderosas clericais para ver a gigantesca distância e a força crítica de Jesus. Santo Inácio de Loyola apostava na força de conversão da contemplação dos mistérios de Jesus. Isso vale em nível pessoal, comunitário e eclesiástico. Em confronto com a pessoa de Jesus, a Igreja se vê questionada continuamente a assumir formas de humildade, simplicidade, pobreza, abandonando o luxo, o esplendor, a arrogância triunfante.

IHU On-Line – O manifesto diz ainda que somente através de uma comunicação aberta a Igreja pode reconquistar confiança. Em que consistiria uma comunicação aberta com a sociedade? 
João Batista Libânio – Só existe comunicação aberta se se abrem canais de entrada e saída. De entrada nos recônditos dos segredos, nas manipulações e jogadas maquiavélicas, nas tramas urdidas na noite do anonimato. Existe limite difícil de ser traçado do direito ao sigilo de consciência, de reputação das pessoas e comunicação transparente. Portanto, não se trata de questão fácil. Entre os extremos da cultura Big Brother – da total e perversa transparência – e dos sigilos cabalísticos de verdades a que os fiéis têm direito de conhecer, existe um meio termo de clareza e de possibilidade de acesso. O canal de saída refere-se à liberdade de expressão das pessoas no interior da Igreja a respeito da vida da Igreja. No embate da discussão encontram-se melhores caminhos que na proibição da mesma.

IHU On-Line – É possível a Igreja romper com tradições, se renovar sem perder seus princípios básicos?
João Batista Libânio – Não se trata nem de romper nem de engessar a Tradição, ou mais corretamente as tradições. Na polêmica com Mgr. Lefebvre, que defendia a literalidade da Tradição e das tradições, Paulo VI insistia na necessidade de interpretá-la (s). Eis a questão! Os princípios permanecem no nível universal, abstrato. Importa ver como eles são entendidos nas situações concretas. E aí está o problema. O trabalho interpretativo tem exigências. Implica esforço da inteligência de captar três coisas. O significado da questão no contexto primeiro em que ela foi formulada e respondida. Esta mesma questão como se entende hoje. E, então, como o significado de ontem se reinterpreta para hoje. Por exemplo, a usura, cobrar mais do que se emprestava, até o nascimento do capitalismo se considerava roubo, portanto eticamente condenável. Hoje, ela se chama juros e ninguém os considera imorais. Então, como se fez a transposição de um princípio ético no pré-capitalismo para o capitalismo? 

Numa economia estável sem circulação monetária parecia injusto receber mais do que se emprestava. Nisso consistia a injustiça. Numa sociedade em que o dinheiro se tornou fonte de renda, se considera injustiça só quando as taxas de juros superam de muito a força de rentabilidade. Recebe o nome de agiotagem. Mas cobrar taxas razoáveis não contradiz o princípio ético pré-capitalista no significado, embora materialmente pareça opor-se a ele (usura). Problemas semelhantes se levantam em muitos campos.

IHU On-Line – O documento também chama a atenção para a necessidade de reconhecer a liberdade de consciência individual, referindo-se também a opção sexual dos indivíduos. Entretanto, observa que “a alta consideração da Igreja pelo matrimônio e pela força de vida sem matrimônio está fora de discussão”. Parece algo contraditório?
João Batista Libânio – A consideração anterior que fiz no campo das finanças vale no campo da sexualidade. Os ensinamentos morais da Igreja sobre o matrimônio permanecem válidos na linha dos princípios. E cabe perguntar-nos pelo seu significado profundo que diz respeito à dignidade humana, ao respeito das relações afetivas. Que significam o respeito e a dignidade nas relações humanas na união homoafetiva? Não se responde em abstrato, mas a partir das experiências que se fazem no concreto da vida. Tanto nas relações matrimoniais como nas homoafetivas existem tanto dignidade, respeito como o oposto. E as considerações éticas descem ao concreto de tais relações para aí interpretar o princípio fundamental da dignidade humana, do respeito entre as pessoas, o projeto de amor de Deus.

IHU On-Line – O que significam os casos de pedofilia na Igreja?
João Batista Libânio – Revelam a face pecadora dos homens e mulheres de Igreja em todos os níveis: do simples fiel até pessoas da alta hierarquia. Em face do pecado, cabem, em primeiro lugar, a conversão e o perdão de Deus. Quando o direito de outras pessoas é lesado, como no caso da pedofilia que fere gravemente a criança envolvida, entram fatores de reparação desde a econômica até a judicial. Nada justifica o ocultamento, mas importa tomar as medidas concretas para evitar outros casos, sanear o acontecido, reparar o estrago feito. 

Evidentemente, não tem sentido entrar no sensacionalismo da mídia. Está em jogo algo sério demais para ser simplesmente assunto de folha policial em ocasião para jogar pedras na Igreja. Não se pensa em acabar com a família, embora nela aconteça a imensa maioria dos casos de pedofilia. A mesma mídia que divulga, “escandalizada” casos de pedofilia, termina sendo uma das causas importantes da decadência moral da sociedade com a enxurrada de programas de banalização do amor, de sexualização das crianças, de exibicionismo e voyeurismo sexual, da perda de senso de responsabilidade social. A luta contra a pedofilia exige programa complexo de purificação das fantasias, de presença maior de educação sadia, de melhoria de cultura veiculada pela mídia.

IHU On-Line – Quais são as perspectivas e os desafios da Igreja para esta segunda década do século XXI?
João Batista Libânio – Distingamos os níveis. No momento, em nível das estruturas internas da Igreja não se veem perspectivas animadoras. Durante o longo pontificado de João Paulo II, a Igreja Católica viveu o paradoxo, de um lado, de rasgos de abertura na prática do diálogo inter-religioso, na defesa dos direitos humanos, na oposição a toda guerra enfrentando, inclusive, as pretensões americanas, na proximidade com o mundo dos pobres e, de outro, de enrijecimento doutrinal e disciplinar interno. No horizonte, não se percebe que a Igreja enfrentará os novos desafios da cultura contemporânea por meio de mudanças internas, como fez, em parte, logo depois do Concílio Vaticano II. Falta o clima de abertura, de otimismo e de profetismo para lançar-se em transformações profundas. Em termo de hierarquia, reina antes momento de silêncio, de prudência sem muita inspiração e lanço de coragem inovadora. A geração profética do porte de Dom Helder deixou-nos ou já está envelhecida. E a nova safra eclesiástica revela outro corte.

No universo dos leigos há sinais de esperança nas comunidades de base, na crescente participação consciente e ativa das mulheres, no maior desejo de espiritualidade e teologia, na vitalidade de novos ministérios, na criatividade litúrgica, no acesso amplo às Escrituras pela via da leitura orante. Em algumas igrejas particulares a Assembleia do povo de Deus anuncia algo de novo, desde que a clericalização não a prejudique.

IHU On-Line – O senhor concorda com a tese de que o Vaticano está enquadrando a Igreja no Brasil?
João Batista Libânio – Cícero chamou a história “mestra da vida”. Lancemos um olhar para os últimos séculos a fim de entender a relação entre o Vaticano e as igrejas locais. Gregório VII, no século XI, deu a decisiva guinada da autonomia das igrejas locais para crescente poder de Roma. Ele pautou o governo pontifício pelo dictatus papae, que ressuda centralismo, autoritarismo desmedido. Esse longo processo de quase mil anos marcou uma linha de comportamento em que Roma exerce imensa influência sobre as Igrejas particulares ou regionais. O Concílio Vaticano II, com a colegialidade, tentou diminuir tal tendência, mas com pouco resultado. Faz parte, portanto, da consciência comum eclesiástica a dependência em relação a Roma. E a dialética de dependência de uma parte pede o exercício de domínio da outra. 

A criança que pergunta a mãe que meia vai usar pede uma mãe cada vez mais absorvente que termina ditando-lhe tudo. Assim na Igreja. Roma responde com autoridade e a reforça porque as próprias igrejas locais a solicitam e ficam à espera. A liberdade se entende como relação entre duas liberdades. Não há liberdade de um lado só. Que o diga Erich Fromm no magistral livro Medo da liberdade. As análises que lá faz, baseadas em sua experiência do nazismo, valem para toda relação de submissão e de autoritarismo, onde ela se dê. No dia, porém, em que as igrejas locais tomarem maior consciência de outra eclesiologia, então a Igreja de Roma também lentamente afinar-se-á com ela. O processo se institui de ambas as partes simultaneamente em mútua relação e influência. 

Quanto mais a Igreja do Brasil marcar a originalidade, a liberdade, a autonomia, tanto mais Roma a reconhecerá. Se ela, porém, está a esperar para cada palavra que disser um sorriso aprobatório de Roma, a liberdade se encurtará e a autonomia se dissolverá. Quem age sob o olhar de um outro, termina condicionando-se de tal modo que perde a própria identidade.

IHU On-Line – Como avalia a notícia de três nomeações de bispos brasileiros para ocupar cargos importantes na Cúria Romana? O que isto significa? Terá algum impacto na CNBB?
João Batista Libânio – A nomeação dos membros da Cúria Romana obedece ao difícil jogo de interesses e preocupações. Não creio que o caráter nacional, no caso, o fato de ser brasileiro, seja predominante. Entram em questão outros critérios de linha teológica, ideológica, de indicações de pessoas influentes, de vinculação a movimentos de igreja, de serviço prestado. Em termos modernos, falamos de “perfil”. As firmas, as instituições contratam ou dispensam funcionários dando como razão o fato de corresponderem ou não ao seu perfil. Analogamemte vale no caso da Igreja. Julgo que os bispos brasileiros escolhidos para cargos romanos respondem ao atual perfil de Roma. Coincide que vários brasileiros corresponderam a tal retrato e então foram escolhidos. Isso não vem de nenhum prestígio especial do episcopado brasileiro, como tal, além do peso estatístico. 

IHU On-Line – Como vê a atual internacionalização da Cúria Romana? Como propõe o manifesto, a sociedade deveria ajudar a escolher os representantes?
João Batista Libânio – A internacionalização traz vantagens. Mas não decide por si mesma. Acontece que a cor internacional desaparece facilmente por homogeneização ideológica por força da instituição. Se cada nação levasse para dentro da Cúria Romana a própria originalidade e a conservasse em contínuo diálogo com a predominante cultura europeia e romana, então a internacionalização causaria outro efeito.
Bispos latino-americanos, africanos ou asiáticos que arribam a Roma se romanizam a ponto de não se distinguir muito dos outros. Outra coisa significaria se as igrejas locais se fizessem presentes em Roma por meio de seus representantes, escolhendo-os e eles fazendo-se porta-voz delas. Mais: se elas mesmas decidissem na escolha dos ministros que as servem ou vetassem aqueles que não as satisfizessem. Assim evitaríamos casos desastrosos que tivemos de bispos, párocos ou pessoas em outras funções que durante décadas exerceram funções com detrimento da vida eclesial em vez de construí-la e os fieis tiveram de suportá-los calados e sem poder de mudança. Certos aspectos da sociedade democrática não contradizem, teologalmente falando, a maneira de designar membros da hierarquia. A escolha pode ser democrática, embora a conferição se faça pela graça do sacramento.

IHU On-Line – O que significa, para a Igreja brasileira, a nomeação de Dom Odilo Scherer no Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização?
João Batista Libânio – Como disse acima, os critérios de escolha das pessoas respondem antes ao perfil buscado pelo Vaticano para determinada função e ao peso de influências indicativas que à origem nacional. E o perfil se define pela combinação do histórico do bispo em questão e as conveniências da Instituição. Para alguém que está fora desse jogo fica muito difícil fazer juízo objetivo sobre as indicações. No início de cada governo no mundo da política, assistimos ao delicado jogo da escolha das pessoas para os cargos. Nem todos os indicados e escolhidos respondem ao desejo do presidente ou do papa, no caso da Igreja, mas entram na lista para cumprir uma série de acordos necessários para o governo. A política eclesiástica não escapa totalmente dessa regra.

IHU On-Line – Está em curso a consolidação do programa ratzingeriano para a Igreja do Brasil?
João Batista Libânio – Teríamos que conhecer de antemão o programa do Papa. Os papas, em geral, não fazem discursos programáticos, mas dogmáticos. E supõe-se arguta análise para perceber sob as afirmações doutrinais que tipo de prática de governo subjaz. Aventuraria dizer que Bento XVI atribui relevância especial à qualidade da pertença à Igreja e não se impressiona tanto com a diminuição estatística. O manifesto dos teólogos alude ao fato de que em 2010 “tantos cristãos, o que jamais ocorrera antes, deixaram a Igreja e apresentaram à autoridade da Igreja a desistência de sua pertença ou privatizaram sua vida de fé para defendê-la da instituição”. Enquanto percebo, tal constatação não abala a convicção do projeto de manter uma Igreja, embora minoritária, mas fiel aos ensinamentos dogmáticos, morais e à prática disciplinar eclesiástica. 

No projeto de Igreja em curso, a fidelidade, a exatidão doutrinal e a coerência prática disciplinar merecem relevo preponderante mesmo que à custa de êxodo de católicos.

O manifesto pondera a questão do isolamento da Igreja em relação à sociedade. Tal fato, porém, não se entende na percepção pontifícia de modo negativo, enquanto fechamento, mas como exigência de coerência com a própria mensagem a despeito da incompreensão por parte da mentalidade moderna. 

Outra coisa, como parece supor o manifesto, tal aspecto implicaria incongruência com o projeto salvífico de Jesus. A questão teológica se desloca. Até onde tal programa eclesiástico afasta-se do reino anunciado por Jesus? Acusação grave que precisa ser bem pensada e discutida de ambos os lados. A tônica do projeto do Papa e a do manifesto são divergentes. No primeiro caso, volta-se para a Igreja e quer mantê-la na sua atual estrutura e, a partir daí, cumprir melhor sua função. No outro, propõe-se o projeto de Jesus e se pergunta como adequar as estruturas da Igreja a ele. Pontos divergentes que geram leituras diferenciadas. Só o diálogo mostra o limite e a positividade de cada perspectiva. O manifesto acentua: primeiro a liberdade individual e de consciência e a partir dela a fidelidade. A atual disciplina eclesiástica: primeiro a fidelidade à doutrina e à prática e aí dentro a liberdade. 

O mesmo vale de outros pontos acentuados pelo manifesto: participação dos fiéis, comunidade de partilha, reconciliação dos pecadores e celebração ativa, enquanto o projeto eclesiástico em curso entende tais demandas a partir dos quadros jurídicos traçados para a participação, para a vida de comunidade, para a reconciliação e celebração e não à sua revelia ou à exigência da sua mudança. Nessa tensão consiste, segundo minha leitura, a divergência maior entre o manifesto e o que está em curso atualmente no seio da Igreja Católica. 

fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=40698

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sobre a dor

Bráulia Ribeiro


Enquanto o fagote avança no lúgubre primeiro movimento da Sinfonia 6 de Tchaikovsky, a melodia da dor vai se desenhando. A vida ainda se debate na valsa propositalmente desequilibrada do segundo movimento e na marcha do terceiro. Vida à procura de sentido, de equilíbrio. A vida na dor finalmente cede à morte no quarto movimento e vai se esvaindo até o silêncio.

Picasso brinca com o rosto humano e o descobre torto, desconexo. Então pinta "Guernica", o quadro da dor da guerra, no qual homens e animais, aos pedaços, se debatem no lençol negro da incompreensão. O sol é uma lâmpada sem força. Não há outra expressão além da dor soberana, e as gentes que se entregam à morte. A dor transforma o homem; porém, ainda bela, nos comove e vai comover as gerações que virão.

Na intensa prova do Ironman em Kona, os corpos perfeitos das primeiras horas da chegada dão lugar à beleza da resistência. Os triatletas renomados chegam oito horas depois do início. Porém, não são eles os heróis. Até à meia-noite, dezessete horas depois do início da corrida, os vitoriosos são esperados. Alguns chegam mancando, mal conseguindo caminhar; outros, correndo com as forças finais que não sabiam que tinham. Coloco-me num lugar escuro do percurso, antes da virada dos últimos quatro quilômetros, e com a voz embargada grito "você vai chegar!" para o para-atleta com pernas mecânicas em cima de lâminas, ou para a velhinha claudicante. A pintura no chão diz: "compromisso são 260.3 quilômetros". Eles finalmente passam pela chegada em estado de êxtase. O cansaço e a dor como uma droga os impulsionando para frente. Alguns desmaiam, vomitam. A voz do locutor grita: "Sandra Smith, de 58 anos, você é um Ironman!". E ali, na intensidade da dor do máximo esforço, eles sabem que venceram.

O importante no Ironman não é chegar primeiro. É simplesmente chegar. Cada um vencendo a si mesmo. O sobrevivente do câncer, o jovem que perdeu as pernas, a mulher obesa que perdeu quarenta quilos, o pai que perdeu o filho. Todos são campeões e celebrados como tais. E todos sabem que sem dor na vida não há vitória.

Muitos creem em um Deus compatível com a dor. Seu plano superior justifica tudo e a dor como um mal menor cede lugar à glória do final, a glória inescrutável do divino que triunfará. Deus está no meio da dor. Porém, ele não se alegra nela nem a planejou. A Bíblia não nos mostra um Deus impassível, mas o inspirador da "Guernica". Seu coração se contorce em dores, diz o profeta chorão ao descrevê-lo. Vem o Filho e encarna a descrição profética mostrando-nos o rosto, o corpo, o coração da dor na cruz. Não há dor maior do que a da rejeição suprema àquele que era o amor supremo.

Como o Deus da cruz pode ser impassível? Mel Gibson criou no filme "A paixão", a teologia visual do sofrimento. "Em toda a angústia deles, foi ele angustiado" (Is 63.9). A dor que a humanidade se autocausou em sua rebelião, sempre foi dele também. Todo o universo sofre nosso pecado. Porque Cristo dói, a dor humana é bela como a Sinfonia 6.

Certa amiga perdeu dois de seus três filhos. Encontro com ela depois da morte do segundo, muda, sem saber o que dizer. Ela se queixa do abandono. Ninguém a visita. Além dos filhos, perdeu os amigos. A morte incomoda. Ela diz que as pessoas não sabem como se portar diante da dor que ela carrega e se afastam. Até os cristãos têm medo do contágio da dor, como uma lepra. -- "Por quê? A dor é minha, não é deles", ela diz. -- "Não, amiga. Ela é de todos". Mas um dia, como os Ironman, cruzaremos com dor a linha de chegada para contemplar a vitória de estar com ele.


• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br

fonte: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/sobre-a-dor

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O evangelho transformado em mentira

"A grande missão da igreja", declara Marcos Schimdt, pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Novo Hamburgo, RS, "sempre será semear e não ceifar, evangelizar e não moralizar". ele lembra as palavras enfáticas de Jesus Cristo na parábola do trigo e do joio: "Quem semeia a boa semente é o Filho do Homem. O terreno é o mundo, a boa semente são as pessoas que pertencem ao reino, o joio são os que pertencem ao Maligno, o inimigo é o próprio diabo, a colheita é o fim dos tempos, e os que fazem a colheita são os anjos." (Mt 13.37-39)

Para Marcos Schmidt, "basta ao discípulo ser a boa semente que germine, cresça e fortifique. Deixem que os anjos separem o joio do trigo e façam a colheita."

Assim como George W. Bush cometeu o erro de invadir o Iraque na tentativa de arrancar o joio, provocando, em sete anos de guerra, a morte de 100 mil civis, 13 mil soldados iraquianos, 4.446 soldados americanos, 40 mil feridos e a própria expansão terrorista dos extremistas muçulmanos - qualquer empreitada para separar o joio do trigo sempre será mais cedo ou mais tarde, uma infeliz empreitada.

Marcos tem certeza de que aquele pastor norte-americano que quase queimou o Alcorão estava tentando separar o joio do trigo. No site da igreja desse pastor afirma-se: "Devemos nos levantar contra o pecado e chamar as pessoas ao arrependimento. O aborto é um homicídio, a homossexualidade é um pecado". "Isso que pregam está na Bíblia e é a mais pura verdade", considera o pastor luterano brasileiro. "No entanto, há um problema: a foma como enunciam transforma o evangelho em mentira".

Em seu feliz artigo publicado no Mensageiro Luterano, Marcos declara que desobedecer ao imperativo da parábola de Jesus "é arrancar o trigo em vez de colhê-lo, é semear o ódio no lugar do amor, a injustiça no lugar da justiça, a lei no lugar do evangelho". ele acrescenta na última linha: "É voltar para casa igual aos soldados que estão saindo do Iraque".

fonte: Revista Ultimato, nº 328, pag 62, sob o título "Pastor luterano abomina a tarefa inglória de arrancar o joio antes do tempo"
negritos por conta deste blog.