Crer não é sinônimo de não pensar. Crer implica em pensar, em relacionar fé com a realidade, questionando uma a partir da outra. O conteúdo são pensamentos às vezes rápidos, em elaboração; outros, já mais elaborados. Ambos buscando provocar discussão e reposicionamentos, partindo sempre da confissão de fé protestante. Os artigos classificados como "originais" podem ser reproduzidos desde que com a menção da fonte e autoria. Ano V
terça-feira, 5 de abril de 2011
Proselitismo em um mundo multirreligioso
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Uma adoração muda
Em nossa vida devocional, seria útil aprendermos algo com um filósofo francês chamado Paul Ricouer. De origem reformada, aquele eminente filósofo, falecido em 2005, dizia: “A fé é essa região da simbólica onde a função de horizonte não cessa de decair à função de objeto, dando origem aos ídolos”. Para exemplificar o que essa frase quer dizer, deixe-me contar um caso que vi essa semana na TV.
Numa igreja da região norte de Belo Horizonte havia, à porta, uma estátua de Santo Expedito. Algum vândalo, tomado de desrespeito pelo próximo, ou algum fundamentalista, cheio de dogmas, mas vazio de misericórdia, achou de jogar ao chão a imagem cultuada por uma legião de fiéis freqüentadores do templo. As pessoas de bom senso vão todas concordar que vilipendiar objeto de culto alheio é um ato de violência e, por isso, deve ser rechaçado.
Mas antes que se reacenda a velha iconoclastia calvinista, é bom lembrar que não só de imagens de santos fazemos ídolos. Ídolos podem ser a Igreja, ou as igrejas, a Bíblia, ou o próprio Deus. Sempre que pensamos haver definido o que Deus é, nossa soberba erige seu próprio altar.
Às vezes, é preciso resgatar o valor de uma adoração muda, de quem reconhece sua ignorância ante o mistério da presença divina em tudo. É preciso deixar o horizonte aberto, não querer aprisioná-lo em nossos conceitos, hábitos e valores. A esperança sempre alarga os limites do presente. A esperança sempre questiona nossa miopia. A esperança não morre, não se deixa matar.
sábado, 2 de abril de 2011
O pastor, o alcorão e algumas reflexões
Um pastor norte-americano resolve colocar fogo em um exemplar do Alcorão. Meses atraś, para marcar o dia 11 de setembro, havia anunciado que o faria. À época, parecia ter atendido aos apelos da razão e desistido. Agora, executa o ato. E algumas pessoas são mortas, por vingança, a milhares de quilômetros de onde ele mora, do outro lado do mundo. Segundo alguns, o exemplar do livro sagrado dos muçulmanos foi executado após ter sido considerado, em um julgamento, culpado de várias acusações, incluindo assassinato (1).Sua congregação é composta por 60 pessoas e tem um perfil fundamentalista. É crença deste pastor, que é visto no terreno da igreja portando uma arma com frequência, que os muçulmanos desejam impor a sharia sobre os Estados Unidos (2).
Usando este lamentável incidente como pretexto, faço algumas considerações.
A atitude de Terry Jones não foi um ato de proclamação do Evangelho de Jesus Cristo. Sua morte substitutiva não foi ensinada, o pecado universal da humanidade não foi apresentado - ainda que o ato do mesmo seja uma demonstração aberta de como o pecado se infiltra em todas as ações humanas. Tão pouco a necessidade de confissão e arrependimento foram proclamadas.
Supostamente o julgamento do livro foi justo - quem o defendeu? O próprio livro? Quem o interpretou e falou no seu lugar?
A encenação foi um ato político, travestido de cerimônia religiosa. O mesmo demônio que apontou a cruz para o imperador Constantino soprou-lhe nos ouvidos este casamento demoníaco: política e religião. Satanás, experiente como é, velou-lhe a mente de modo a ignorar que a Bíblia também poderia ser julgada e condenada ao fogo por diversos crimes, inclusive homicídio. O que impede de um grupo de não-cristãos fazer o mesmo?
Terry Jones é aparentemente cego, se for uma pessoa fundamentalmente honesta; ou um irresponsável, se for um manipulador ou doente em busca de autopromoção.
Apresentando-se como proclamador do Evangelho, não o apresenta, mas faz aquilo que nem Paulo em seus piores momentos humanos se atreveu: insultou a crença básica de alguém. Há este exemplo nas Escrituras? Qual apóstolo escolheu o caminho da violência? Não foram eles, dois mil anos antes de Gandhi, adeptos da não-violência e da desobediência civil?
Cegamente se apresenta aos olhos de milhões de muçulmanos economicamente vulneráveis, alguns em extrema pobreza, cidadãos (se é que o são, ao menos em alguns cantos) sob forte opressão política, como juiz de sua crença, representando uma nação extremamente rica e igualmente opressora (não é ela que sustenta as ditaduras árabes, como o Egito, a Síria, a Jordânia e o Bahrein?). Terry Jones se deu conta do tamanho de sua arrogância?
Os irmãos fundamentalistas já têm problemas suficientes e agora serão confundidos com um tipo de fundamentalismo que rejeita o credo dos apóstolos, maculando uma posição teológica séria e equilibrada com irracionalidade, prepotência e covardia. Sim, covardia, pois é fácil insultar o outro protegido pelos seus. Aos assassinos dos funcionários da ONU pode-se atribuir o calor do ódio despertado pelas chamas no Corão - fruto de um momento habilmente trabalhado por um clérigo islâmico. Mas ao suposto pastor (porque duvido que hoje ele seja um pastor - suas atitudes são de um político insensato e inescrupuloso) nada o desculpa, pois o ato foi gestado por meses, friamente planejado e executado, apesar das advertências de muitos bem mais experimentados nas artimanhas deste mundo que ele.
Nós cristãos temos agora de nos defender de uma atitude assassina - pois foi o fósforo que acendeu as chamas o autor dos disparos que mataram inocentes do outro lado do mundo. Ele não pensou nisto?!
Envergonhado, peço, como cristão, perdão às famílias enlutadas pelo ato consciente e deliberado de alguém que não merece o honroso título de "pastor".
Envergonhado, peço, como cristão, perdão aos muçulmanos pelo ato de hostilidade gratuita e desrespeitoso. Não entendam este ato como motivado pela mensagem da graça de nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte substitutiva e sua ressurreição redentora. É um crime e como tal deveria ser julgado.
terça-feira, 29 de março de 2011
Cristãos em crise com o que julgavam ser a sua fé
segunda-feira, 21 de março de 2011
O rei está nu
O Ocidente está adoecido pelo ódio a si mesmo. Olhamos para nossa história, para o produto de nosso progresso, para nossa sociedade, e não gostamos do que vemos. O rei está nu. A utopia política do início do século passado se tornou uma experiência vergonhosa de domínio de poucos sobre as massas. As mentiras sobre superioridade racial em que acreditamos se transformaram em sangrentos genocídios. O capitalismo que iria permitir ao proletariado qualidade de vida se tornou um monstro de produzir riquezas, que nos engole sem piedade. As propostas religiosas se emaranharam promiscuamente a qualquer ideia que pagasse mais. Enfim, demos com os burros n’água vez após vez. Desiludimo-nos e nos odiamos. Precisamos de uma nova gênese. Por causa disso, olhamos para os índios isolados com uma esperança “rousseauniana”. Serão eles nosso renascimento? No Google você encontra nas referências sobre a tribo Zoé, que vive entre o Pará e o Amazonas, esse tom religioso. Pesquisadores e cineastas franceses veem neles a esperança de um renascimento para a humanidade. Porém, como todas as outras, os Zoé são apenas uma tribo brasileira pequena tentando sobreviver. Foram contatados pela Missão Novas Tribos do Brasil na década de 80. Foram conduzidos com cuidado do isolamento a um estágio intermediário, em que recebiam ajuda da Missão para as necessidades básicas.
O isolamento por si só não garante a sobrevivência de nenhuma tribo, ao contrário do que dizem os sertanistas. Massacres de tribos isoladas inteiras, causados por contaminações de doenças, por seringueiros, madeireiros ou outros predadores amazônicos, ou até por guerras entre tribos ou clãs, acontecem com frequência.
Voltando à história dos Zoé, a Missão acabou sendo expulsa da área. Os Zoé eram bonitos e puros demais para ficarem em contato com uma missão. Afinal, ela institucionaliza tudo o que mais odiamos no Ocidente: sua religião. A religião cristã continua pregando o que mais queremos esquecer, continua representando no mundo acadêmico moderno a cristalização dos valores que nos tornaram (entenda aqui a ironia) capazes de criticar aquilo que somos. Fora com eles.
A missão deu lugar aos “humanistas” da Funai. Verbas internacionais vieram e o projeto Zoé se tornou modelo. Um hotel de selva foi construído em frente à aldeia. Tudo o que dava acesso a outro mundo foi retirado. Eles passaram a viver numa ilha de selva virgem vigiada apenas por observadores bem-acomodados. Os vídeos na internet que retratam a tribo são lindos, feitos com equipamento de alta qualidade só possível devido ao conforto e à tecnologia oferecidos pelo hotel/observatório. A tribo “virgem” agora se torna entretenimento de turistas de alta classe, uma espécie de zoológico humano servindo ao voyerismo de antropólogos e cineastas estrangeiros.
Suprema ironia. Os selvagens são mantidos escravos por causa de sua pureza. Vistos de longe, os Zoé são “na’vi” azuis andando por Pandora com rabos longos, etéreos, perfeitos. De perto, são um povo escravo de um idealismo que não inventaram. Presos a um paleolítico circunstancial, são impedidos de mudar. Não são humanos, não são cidadãos, não são nem índios brasileiros. São uma metáfora internacionalizada do ódio de nossa cultura por si mesma.
O problema é que, não sabendo disso, eles fugiram de seu paraíso terrestre. Em outubro de 2010, os Zoé fugiram para pedir ajuda aos castanheiros locais e ao mundo. Num vídeo tosco filmado por um dono de castanhal, os índios se expressam em português fluente: “A gente quer coisa. A gente quer panela, faca, anzol. A gente quer ter o que os Tirió tem. Funai não dá nada pra nós não, mas a gente quer”.
Tradução? Os Zoé estão dizendo: “A gente quer parar de ser uma coisa, a gente quer ser gente, vocês vão permitir?”.
• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br
quinta-feira, 17 de março de 2011
O valor da vida humana
segunda-feira, 14 de março de 2011
Qualidade de morte
TENDÊNCIAS/DEBATES
09 de março de 2011
Com o avanço da ciência, porém, tudo parece ter mudado. Hoje há muitos que acreditam que o dinheiro, além de comprar uma vida mais "rica", também garante a qualidade da morte: por meio dele, os abastados despedem-se deste mundo no ambiente glamoroso de "hospitais-boutique", sob os cuidados dos "médicos da moda". Mas será que as coisas são tão simples?
Por um lado, ainda que a pobreza torne a vida difícil, é ingênuo pensar que a riqueza, por si só, seja capaz de resolver os enigmas que a existência nos impõe, magnatas ou não. E o remorso não raro corrói a paga que os "eleitos" recebem por sua ganância. Se isso não é tão claro, é porque a maioria das pessoas desconhece a intimidade dos poderosos, sempre dilacerada por conflitos: os psicoterapeutas e os próprios poderosos sabem bem do que falo.
Por outro lado, o acesso à medicina "de ponta" nem sempre é garantia de boa recuperação ou de morte tranquila, além de dar origem a paradoxos.
Um exemplo é a angústia que destrói a saúde dos que sofrem, no presente, com as moléstias que -imaginam- terão no futuro. Martirizam-se, assim, por não terem um plano de saúde "top", o qual já se tornou, ao lado do carro "zero", o atual sonho de consumo. Para essa angústia contribuem, crucialmente, a propaganda dos centros diagnósticos -que não param de crescer- e a ingenuidade de médicos que confundem prevenção com obsessão por doenças.
Outro exemplo é o caso dos doentes terminais mantidos vivos mesmo à custa de muita dor, bem como a insensatez de uma legislação que proíbe a eutanásia para as pessoas que dela necessitam, condenando-as, cruelmente, ao papel de axiomas de grotesca tese: a de que a vida deve ser sempre preservada, "coûte que coûte"...
Mas, já que a morte segue inevitável -muito embora a publicidade procure nos convencer de que somos imortais-, não seria melhor que encarássemos a vida de outro modo, empregando-a não só para "conquistar um lugar ao sol" mas também para aceitar um "cantinho" nas sombras para onde iremos todos? Não seria importante que aprendêssemos a morrer, buscando, se preciso, nas ideias de outras épocas a espiritualidade que tanta falta nos faz?
Infelizmente, não é o que vemos.
Ao ideal da morte honrosa dos gregos, da morte-libertação dos gnósticos, da boa morte dos cristãos medievais, da morte heroica dos românticos, nós contrapomos a "morte segura" no leito high-tech de um hospital chique, transfixados por cateteres e "plugados" na TV. Uma morte que é o símbolo perfeito da doença que acomete a nossa civilização e que, decerto, vai matá-la: o conformismo hedonista.
CLÁUDIO L. N. GUIMARÃES DOS SANTOS, 50, escritor, artista plástico, médico e diplomata, é mestre em artes pela ECA-USP e doutor em linguística pela Universidade de Toulouse-Le Mirail (França). Blog: http://perplexidadesereflexoes.blogspot.com/.
domingo, 13 de março de 2011
Saúde, ética e espiritualidade
A saúde está compartimentada em mil e uma especialidades. Para cada doença um/a especialista. Cada qual sabe muito bem cuidar de determinadas doenças ou órgãos. Mas será possível tratar uma doença sem encarar as suas causas e a complexidade do jogo da vida e tudo aquilo que a envolve?
“Quando uma célula é incapaz de dar e receber, e de estabelecer contínuas trocas com o meio no qual vive, ela se deteriora. Se uma pessoa humana se fecha no seu mundo, sem distribuir, sem intercambiar, sem se relacionar, estará a caminho da loucura e da autodestruição...”
Associação Brasileira de Homepatia Popular. Homeopatia Popular e Solidariedade Planetária; uma nova Saúde é Possível - Documento Base. Cuiabá: ABHP, 2007.
PASSOS, Luiz Augusto (org). O calor que nos une cura nossos corações. São Leopoldo: CEBI, 2010. (Série Palavra na Vida 274).
UETI, Paulo (org.). A vida é o que interessa. Bíblia, Saúde e outros ingredientes. São Leopoldo: CEBI, 2009. (Saúde e Bíblia 1).
UETI, Paulo (Org.). A terapêutica de Jesus. Corpo, poder e fé. São Leopoldo: CEBI, 2010. (Saúde e Bíblia 2).
quinta-feira, 3 de março de 2011
Imposição de mãos sobre bispos marca comunhão plena entre moravos e anglicanos
A relação plena entre as duas denominações foi oficializada em culto celebrado na Igreja Morava Central de Bethlehem, no domingo, 10 de fevereiro, informa o Serviço de Notícias Episcopal. Na celebração, bispos moravos impuseram as mãos sobre os colegas episcopais, ajoelhados em sua frente, e vice-versa. O ato simbolizou o recíproco reconhecimento e reconciliação dos ministros ordenados das duas denominações.
A primaz da Igreja Episcopal Anglicana dos Estados Unidos, Katharine Jefferts Schori, e os presidentes da Conferência de Anciãos Provinciais Moravos, pastora Elizabeth D. Miller, da Província do Norte de sua denominação, e o pastor David Guthrie, da Província do Sul, oficiaram o culto.
O acordo da plena comunhão reconhece mutuamente a validade das ordenações nas duas igrejas, um ponto controvertido no processo. A Igreja Morava não abriu o ministério ordenado a sacerdotes homossexuais, o que é possível na Igreja Episcopal dos Estados Unidos.
A Unitas Fratrum, ou Unidade dos Irmãos, que congrega as igrejas moravas do planeta, posicionou-se a respeito, alegando que a questão posta não é um assunto doutrinal, abrindo caminho, assim, ao acordo de plena comunhão.
"Sabemos que a solidez dessa relação de plena comunhão não depende de documentos nem das resoluções sinodais, mas de descobrir continuamente para o que Deus nos chama como seu povo, e de permitir que o espírito de unidade de Deus atue em nós", disse o bispo episcopal Steven Miller, da Diocese de Milwaukee e co-presidente da Comissão de Diálogo entre as duas denominações.
O diálogo entre as duas igrejas nos Estados Unidos começou em 1997, e desde 2003 acordaram a celebração conjunta da Eucaristia. A Igreja Morava conta com mais de 900 mil membros, em 19 países. Nos Estados Unidos ela é uma denominação pequena, concentrada nos Estados da Pensilvania, Carolina do Norte e Wisconsin.
Esse é o quinto acordo de plena comunhão da Igreja Episcopal Anglicana dos Estados Unidos. Os outros quatro acordos envolvem as igrejas Evangélica Luterana na América, da União de Utrecht, Independente das Filipinas e a Siria Malabar, da Índia.
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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Quero trazer à memória o que pode me dar esperança
E acho que é justamente assim que nos sentimos, quando passamos por uma experiência de perda de algo ou de alguém que significa muito para nós. Soluções nem sempre são encontradas instantaneamente e é aí que temos que demonstrar uma postura crítica e racional, para podermos enxergar melhor a realidade em que estamos inseridos. Saramago disse uma vez que “...para conhecermos uma coisa, devemos circular ela toda”. Ele se referia ao teatro de Lisboa que por fora era muito bonito, mas por dentro era feio. Assim sendo, é preciso olhar atentamente para não sermos enganados pelos nossos sentidos. Porque nem sempre aquilo que nos chega através dos sentidos é a realidade em si. Por isso muitos filósofos consideram a coruja como símbolo da filosofia, pela sua alta capacidade de ver no escuro, como se ela conseguisse ver o que outros não veem.
É salutar nos distanciarmos (no sentido reflexivo) para vermos melhor em meio às trevas das incertezas. E nesse processo de reflexão podemos levantar a seguinte questão: o que este poema (Lm 3.21) pode nos ensinar acerca de Deus?
Primeiramente, que Deus está bem próximo de nós. O povo judeu, em sua teologia, pensava que a presença de Deus se resumia ao espaço geográfico do templo, mas a experiência do cativeiro Babilônico contribuiu para uma nova compreensão de Deus, como aquele que se manifesta em situações humanas. Há um ano, um fato me chamou atenção. Houve um tremor de terra no Haiti e 70% dos prédios da capital desmoronaram. Um repórter conseguiu mostrar que, em meio à quase completa ruína de uma igreja católica, restou intacta, a imagem do Cristo Crucificado. Tudo quebrado no chão e ela lá, em pé, fulgurante, como a mostrar que Ele está presente junto ao povo sofrido. Esta cena é muito significativa. Pode-se compreender muita mensagem de Deus para nós.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Entrevista Pe. Libânio sobre manifesto teólogos alemães
Parte do inegável mal-estar que afetou não só a Igreja Católica alemã e de alguns países por causa do escândalo da pedofilia, mas de toda a Igreja por ver-se nele a ponta de um iceberg de maior amplitude: a falta de liberdade e de transparência no interior da Igreja devido ao cerceamento das instâncias de poder eclesiástico. Por isso, o manifesto bate forte na tecla das estruturas de governo da Igreja Católica.
IHU On-Line – O que significam os casos de pedofilia na Igreja?
fonte: http://www.ihu.unisinos.br/
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Sobre a dor

Enquanto o fagote avança no lúgubre primeiro movimento da Sinfonia 6 de Tchaikovsky, a melodia da dor vai se desenhando. A vida ainda se debate na valsa propositalmente desequilibrada do segundo movimento e na marcha do terceiro. Vida à procura de sentido, de equilíbrio. A vida na dor finalmente cede à morte no quarto movimento e vai se esvaindo até o silêncio.
Picasso brinca com o rosto humano e o descobre torto, desconexo. Então pinta "Guernica", o quadro da dor da guerra, no qual homens e animais, aos pedaços, se debatem no lençol negro da incompreensão. O sol é uma lâmpada sem força. Não há outra expressão além da dor soberana, e as gentes que se entregam à morte. A dor transforma o homem; porém, ainda bela, nos comove e vai comover as gerações que virão.
Na intensa prova do Ironman em Kona, os corpos perfeitos das primeiras horas da chegada dão lugar à beleza da resistência. Os triatletas renomados chegam oito horas depois do início. Porém, não são eles os heróis. Até à meia-noite, dezessete horas depois do início da corrida, os vitoriosos são esperados. Alguns chegam mancando, mal conseguindo caminhar; outros, correndo com as forças finais que não sabiam que tinham. Coloco-me num lugar escuro do percurso, antes da virada dos últimos quatro quilômetros, e com a voz embargada grito "você vai chegar!" para o para-atleta com pernas mecânicas em cima de lâminas, ou para a velhinha claudicante. A pintura no chão diz: "compromisso são 260.3 quilômetros". Eles finalmente passam pela chegada em estado de êxtase. O cansaço e a dor como uma droga os impulsionando para frente. Alguns desmaiam, vomitam. A voz do locutor grita: "Sandra Smith, de 58 anos, você é um Ironman!". E ali, na intensidade da dor do máximo esforço, eles sabem que venceram.
O importante no Ironman não é chegar primeiro. É simplesmente chegar. Cada um vencendo a si mesmo. O sobrevivente do câncer, o jovem que perdeu as pernas, a mulher obesa que perdeu quarenta quilos, o pai que perdeu o filho. Todos são campeões e celebrados como tais. E todos sabem que sem dor na vida não há vitória.
Muitos creem em um Deus compatível com a dor. Seu plano superior justifica tudo e a dor como um mal menor cede lugar à glória do final, a glória inescrutável do divino que triunfará. Deus está no meio da dor. Porém, ele não se alegra nela nem a planejou. A Bíblia não nos mostra um Deus impassível, mas o inspirador da "Guernica". Seu coração se contorce em dores, diz o profeta chorão ao descrevê-lo. Vem o Filho e encarna a descrição profética mostrando-nos o rosto, o corpo, o coração da dor na cruz. Não há dor maior do que a da rejeição suprema àquele que era o amor supremo.
Como o Deus da cruz pode ser impassível? Mel Gibson criou no filme "A paixão", a teologia visual do sofrimento. "Em toda a angústia deles, foi ele angustiado" (Is 63.9). A dor que a humanidade se autocausou em sua rebelião, sempre foi dele também. Todo o universo sofre nosso pecado. Porque Cristo dói, a dor humana é bela como a Sinfonia 6.
Certa amiga perdeu dois de seus três filhos. Encontro com ela depois da morte do segundo, muda, sem saber o que dizer. Ela se queixa do abandono. Ninguém a visita. Além dos filhos, perdeu os amigos. A morte incomoda. Ela diz que as pessoas não sabem como se portar diante da dor que ela carrega e se afastam. Até os cristãos têm medo do contágio da dor, como uma lepra. -- "Por quê? A dor é minha, não é deles", ela diz. -- "Não, amiga. Ela é de todos". Mas um dia, como os Ironman, cruzaremos com dor a linha de chegada para contemplar a vitória de estar com ele.
• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br
fonte: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/sobre-a-dor
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O evangelho transformado em mentira
Assim como George W. Bush cometeu o erro de invadir o Iraque na tentativa de arrancar o joio, provocando, em sete anos de guerra, a morte de 100 mil civis, 13 mil soldados iraquianos, 4.446 soldados americanos, 40 mil feridos e a própria expansão terrorista dos extremistas muçulmanos - qualquer empreitada para separar o joio do trigo sempre será mais cedo ou mais tarde, uma infeliz empreitada.
