quarta-feira, 4 de maio de 2011

Petição reivindica retorno de metodistas ao movimento ecumênico

Quarta-feira, 4 de maio de 2011 (ALC) - Metodistas confessantes estão recolhendo assinaturas para encaminhar petição ao 19o Concílio Geral da Igreja, que terá lugar em Brasília, dias 9 a 17 de julho, reintegrando o metodismo brasileiro em organismos ecumênicos que tenham a participação da Igreja Católica Romana. A retirada da Igreja Metodista de tais organizações foi tomada no 18o Concílio, em 2006. 

A decisão de 2006, alegam metodistas confessantes, "fere princípios fundamentais do Evangelho e da tradição metodista", e afronta o testemunho histórico do metodismo. "Entendemos que as Santas Escrituras expõem ser parte do projeto salvífico de Deus, revelado em Jesus Cristo, que persigamos a unidade da Igreja e que a divisão desta é um escândalo à fé cristã", reza o texto da petição.

Esse segmento do metodismo brasileiro confessa sua incapacidade de obediência à decisão do 18o Concílio, não por indisciplina ou insubmissão, mas porque ela constrange à obediência do mandamento de Cristo para que todos sejam um.

"A busca e vivência da unidade da Igreja, como parte da missão, não é optativa, mas uma das expressões históricas do Reino de Deus. Ela procede do senhor Jesus Cristo e é realizada por meio do Espírito Santo, pela rica diversidade de dons, ministérios, serviços e estruturas que possibilitam aos cristãos trabalhar em amor na construção do Reino de Deus até a sua concretização plena", argumentam os metodistas confessantes.

Eles esclarecem que a "unidade visível" não significa a reunião de todas as igrejas numa única estrutura eclesiástica e nem a adoção de posturas hegemônicas em questões de ritos ou dogmas, mas uma capacidade dialogal típica da que foi defendida por João Wesley, fundador do metodismo.

Os confessantes lembram que nem todos pastores e pastoras que defendem a postura ecumênica assinarão a petição, pois temem "represálias que têm ocorrido em alguns de nossas regiões eclesiásticas."

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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Hitler, Roberto Jefferson e eu

Manu Magalhães

Um estudo feito na universidade há alguns anos, substituiu o texto bíblico de João 8 por uma paráfrase, em que Jesus andava pelas calçadas de Brasília quando a Polícia Federal lhe apresenta Roberto Jefferson. Ao ser questionado sobre a atitude a ser tomada, Jesus rabisca seu bloquinho e responde: "Aquele que nunca cometeu um erro, aperte a primeira algema".

Esse texto, assim interpretado, me causou muito desconforto. Fiquei imaginando se a paráfrase se desse na Alemanha e Jesus dissesse ao exército que deteve Hitler: "Aquele que nunca cometeu um erro, que aperte o primeiro gatilho".

Toda paráfrase é obviamente deficiente, e reconheço a gritante desproporção das consequências sociais do pecado da mulher adúltera, de Jefferson e de Hitler. Entretanto, o ponto não é analisar a crueldade do pecado, mas evidenciar a grandeza e o escândalo do perdão divino.

Houve um Deus que, por causa dos erros dos homens, deixou de lado sua glória e majestade supremas para sentir a fundo a dor e a alegria de ser um humano. Só isso já seria suficiente para nos levar a mão à boca, mas ainda há mais. Esse Deus, em nossa pele, teve desejos tão intensos e tão "incontroláveis" como nós, sede de poder, de aceitação, tentações das mais abomináveis às mais sutis. Entretanto, resistiu. Esse Deus encarnado poderia usar tal prerrogativa para ser implacável com nossas falhas. Porém, para nosso espanto, cedeu misericórdia à justiça e usou sua experiência humana para criar uma ponte. Ele se fez um de nós para fazer de nós um com ele.

É com essa perspectiva que releio o pequeno estudo, confrontando o sentimento do Deus encarnado, o Cristo, com os meus. Por que me causa incômodo pensar que ele perdoaria (ou melhor, perdoa) pessoas tão abomináveis? Por que meu primeiro impulso é encontrar erros nessa paráfrase, fazer ressalvas ou questionar a validade do exercício criativo em vez de me sentir profundamente agradecida por ele haver se importado com pessoas tão desprezíveis como Jefferson, Hitler e "eu"?

O perdão ensinado por Cristo não visava esmigalhar a estima de quem errou, tampouco engrandecer sua própria retidão e justiça. Sua meta era reconciliar. É por isso que o perdão genuíno é tão importante nos relacionamentos. Ainda que alguém tenha cometido alguma injustiça contra mim, não há motivos para que eu a humilhe por seus erros ou louve a correção de minha conduta. O exemplo de Cristo não ignora pecados e virtudes, mas não é a eles que enfatiza. Perdão que não reconcilia não passa de mera desculpa.

O perdão que Cristo propõe é custoso. Engolir o próprio ego e, tendo o poder de castigar, preferir não acusar quem nos prejudicou, não é tarefa indolor. Nossa tendência é pensar que estamos sendo condescendentes com o erro quando, na verdade, estamos apenas promovendo a libertação. Ao perdoar, libertamos o outro da culpa e a nós mesmos do ressentimento e do orgulho. O perdão não faz o outro ascender ao nosso nível, mas eleva ambos ao nível de Cristo. Este, sim, é o verdadeiro escândalo do perdão.

• Manu Magalhães tem 24 anos, é jornalista e gosta de trabalhar com música e discipulado.

fonte: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/329/hitler-roberto-jefferson-e-eu

domingo, 1 de maio de 2011

A teologia arminiana

1. A respeito de Deus
Deus é soberano, sem ninguém para impor-Lhe limites, exceto Ele mesmo. Ele cria o homem e a mulher à sua Imagem e Semelhança, e Se revela a eles das mais variadas formas, sendo a última, definitiva, em Jesus Cristo. A revelação é prova do interesse divino na capacidade receptiva do homem.

2. A predestinação
A predestinação ocorre em função da presciência divina. À medida que Ele sabe quem responderá favoravelmente ao Evangelho, os predestina. Ou seja, a predestinação é uma consequência de uma decisão humana.

3. O homem
Um ser racional, capaz de tomar decisões autônomas e ser responsável por elas.

4. O pecado
Endossando o dito de Agostinho, " pecado é de tal modo um mal voluntário, que não pode ser de modo algum pecado até que seja voluntário", o homem cedeu ao pecado porque assim o escolheu, de modo livre e soberano, sem ser a isso impelido por força nenhuma que não o seu desejo. Ele é, portanto, completamente responsável pelo ato.

5. Decreto eterno de Deus
Deus estabeleceu um "decreto gracioso": desde a eternidade Ele estabelecera que enviaria seu Filho ao mundo, de tal modo que todos os que nEle crescem seriam justificados e salvos. Pela aceitação do sacrifício de Cristo é que o pecador seria eleito, e não eleito para aceitar o sacrifício. A salvação ocorre em duplo movimento: Deus fornece o meio, o homem voluntariamente o aceita.

6. A obra de Cristo
A obra de Cristo tem alcance universal - seu sangue é suficiente para justificar toda a humanidade. Basta o arrependimento individual.

7. A graça de Deus
A graça de Deus é a ação operante do Espírito Santo junto ao homem que, apesar do pecado, ainda retém a capacidade de dizer sim ou não ao chamado divino. Esta graça é dada gratuitamente, sem mérito algum por parte do homem, sendo a todos distribuída.

8. A perseverança
Deus nunca deixa de assistir seus filhos, mas estes podem desviar-se da fé.

fonte: Arminianismo e metodismo, de José Gonçalves Salvador, publicado pela Junta Geral de Educação Cristã da Igreja Metodista do Brasil, disponível em http://perspectivasarminianas.blogspot.com/2011/03/arminianismo-e-metodismo-jose-goncalves.html

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Cruz abala entendimento de um Deus Todo Poderoso

Segunda-feira, 25 de abril de 2011 (ALC) - A morte de Cristo na cruz foi um choque para os primeiros cristãos, que tiveram dificuldade de aceitar o aparente fracasso do Deus que se revelava num Filho crucificado. Esse quadro abala a imagem de Deus Todo Poderoso, afirmou o teólogo suíço Daniel Marguerat, da Igreja Evangélica Reformada. 

Cristãos levaram quatro séculos e meio, tal a dificuldade de aceitação, para ousar representar a morte de Jesus na cruz, como registrada na pintura a óleo no portal de madeira da Basílica de Santa Sabina, em Roma, a mais antiga representação da crucificação que se tem notícia. 

"Essa representação tornou-se tão banal hoje para nós que esquecemos o fato de que, na verdade, a cruz era não somente o símbolo de uma morte, mas, sobretudo, o símbolo de uma execução extremamente cruel", disse o teólogo, que ministrou o curso "Ler Paulo hoje. Um estudo em diálogo com filósofos contemporâneos", nos dias da Quaresma, promovido pelo Instituto Humanitas, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo.

Tal como curiosos diante da crucificação de Jesus, no Gólgota, cristãos gostariam que Deus retirasse de forma mágica o seu Filho da cruz e o salvasse da morte. "No entanto, acontece o inverso: Deus se manifesta sob uma forma última e definitiva nesse momento em que o Filho está mais frágil", afirmou Marguerat.

Segundo o apóstolo Paulo, a revelação de Deus na cruz é um Deus que manifesta sua força de modo totalmente diferente daquele que as pessoas esperariam. A força, no mundo, é empregada, geralmente, para oprimir e afirmar autoridade dos que detêm o poder.

O teólogo suíço apontou para outra força, que é o da resistência, daquela pessoa que enfrenta uma doença e não se deixa destruir por ela, daquela pessoa que consegue se reerguer após um fracasso na vida, que sobrevive a um divórcio, a um câncer, a um fracasso profissional.

"Esta força é interior e não menos admirável ou, ao contrário, conviria dizer, esta força é realmente admirável ante o poder esmagador, hediondo e desumano", disse o professor emérito de Novo Testamento da Universidade de Lausanne em entrevista ao IHU. 

A partir da Sexta-Feira Santa, Deus se revela como aquele que luta com o frágil e o fraco para que a vida, a esperança e o amor triunfem sobre o que contraria sua humanidade. "É o Deus que ajuda o ser humano a permanecer humano no momento em que sua vida desfigura sua humanidade", disse.

A partir da cruz, Deus solidariza-se com aqueles que não têm valor na sociedade, "porque a realização da vida humana não depende daquilo que a sociedade estabelece como critério de êxito econômico, mas depende do valor atribuído a cada existência, da importância da compaixão, da atenção dispensada a cada ser humano."

Marguerat também destacou que a cruz não expressa o valor redentor do sofrimento, mas afirmou, ao contrário, que Deus, na existência em sofrimento, luta pela vida e solidariza-se com aquele que sofre para que ele possa resistir e fazer desse sofrimento um espaço de vida e não de morte.

"Se o sofrimento for proposto como ideal de vida, somente os masoquistas vão aderir a tal programa e, neste caso, precisam ser tratados. Mas o Evangelho não é isso. O dolorismo é que faz do sofrimento um ideal de vida. Jamais o Evangelho", frisou o teólogo suíço. 

Marguerat também admoestou a Igreja, que deveria questionar-se, a partir da cruz, sobre sua política de poder. "A cruz não é compatível com a busca de poder", afirmou, agregando: "É a Igreja a serviço dos pobres, a serviço do mundo, que pode tornar crível o seu discurso."
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domingo, 24 de abril de 2011

Infanticídio e morte intencional de crianças em grupos indígenas

Infanticide in Brazilian indigenous groups: gender and ethnic identity as vulnerability factors

Adinolfi Valeria TS.
vtrigueiro@yahoo.com

Este trabalho discute os sentidos do infanticídio e morte intencional de crianças nos processos de construção da identidade subjetiva e coletiva do feminino em sociedades indígenas brasileiras, sob o referencial da Bioética e Saúde Coletiva. A construção ideológica do feminino e do pertencimento ao grupo aparecem em diversos estudos como associados à prática do infanticídio e morte intencional de crianças, evidenciando gênero como categoria fundamental para compreender esse fenômeno e superá-lo. Dados indicam que a prática de infanticídio e morte intencional de crianças em grupos indígenas deve ser tratada como problema de saúde coletiva, interferindo nos índices de mortalidade infantil nas áreas em que ocorre e tendo consequências para o processo saúde-doença das mulheres indígenas ainda não estudados. Esse fenômeno atinge diretamente as crianças indígenas e em especial meninas, afetando também as mulheres indígenas – sobretudo mas não apenas mães. Em quase todos os grupos nascer com o sexo feminino é um risco de morte por si: meninas são elegíveis para a morte em decorrência unicamente de seu gênero. É um ciclo de abusos atinge crianças – em especial meninas – e mulheres, para quem se constitui parte de um sistema de punição por gravidezes fora do casamento, relacionamentos não permitidos, separação, morte do marido, instabilidade conjugal e concepção de crianças considerados portadoras de maldições, como gêmeos e portadores de necessidades especiais. Assim, mulheres indígenas são expostas a uma vulnerabilidade dupla que ocorre intra e extra-grupos (por gênero) e no contato com a sociedade externa são ainda vulnerabilizadas (por sua condição étnica). Essas mulheres enfrentam a dificuldade de romper com uma prática de afirmação cultural que traz sofrimento e angústia devido a pressões internas e externas, vivenciando um processo de deterioração psicológica. Há portanto uma dupla violência, física e psíquica, contra crianças (em especial meninas) que são mortas e mulheres submetidas a sofrimento psicológico. Essa violência produz morbimortalidade, viola o direito à saúde e à vida saudável para essas mulheres e contraria os princípios do SUS de universalidade de acesso, integralidade das ações e equidade e os direitos humanos fundamentais de crianças e mulheres, constituindo imoralidade, atentado à ética.

fonte: https://cienciassociaisesaud.websiteseguro.com/programacao/exibe_trabalho.php?id_trabalho=15154&id_atividade=2165&tipo=

terça-feira, 19 de abril de 2011

Podemos impor valores cristãos a uma sociedade secularizada?

Por Hermes C. Fernandes

Ultimamente, a Igreja cristã tem procurado resgatar sua relevância na sociedade, manifestando-se contra algumas tendências e comportamentos. Manifestos contrários à Lei de Homofobia, ao aborto, à pesquisa com célula-tronco extraída de embriões humanos, à corrupção, à violência e outros. Não questionamos a motivação que tem levado a Igreja a posicionar-se perante a sociedade com relação a esses assuntos. Contudo, cremos que devemos avaliar a eficácia de tais manifestos.
Antes de buscarmos respostas nas Escrituras Sagradas, devo expor minha insatisfação ao perceber que a Igreja cristã contemporânea parece tão preocupada com questões de cunho moral, ao passo que deixa de dar a devida importância a questões relacionadas à justiça social, tais como, a má distribuição de renda, a reforma agrária, a política econômica, os juros altos, etc.
Cremos piamente que a Igreja faz bem em envolver-se com qualquer questão que diga respeito ao ser humano. Não podemos ser um povo alienado, indiferente aos problemas deste mundo. Temos o dever cristão de participar, arregaçar as mangas e trabalhar por um mundo mais justo, e, consequentemente, mais seguro e próspero.
Como devemos posicionar-nos quanto a temas importantes como esses?
Quando a Igreja Primitiva dava seus primeiros passos, uma das instituições mais antigas e perversas da sociedade estava em pleno vigor. Trata-se da escravidão. Como os crentes deveriam reagir diante da injustiça da escravidão? Não vemos os apóstolos promovendo manifestos públicos para denunciar a escravidão, nem mesmo comparecendo perante as autoridades para reivindicar o seu fim.
Todas as sociedades da época eram constituídas de classes, das quais os escravos eram a base. Se a escravidão fosse abolida repentinamente, o mundo ruiria.
Mesmo sabendo que tal instituição era contrária à justiça do Reino, os cristãos preferiram conviver com ela por algum tempo, até que ela se definhasse por completo, através da proclamação do Evangelho do Reino. À medida que a mensagem libertária de Cristo era pregada, e a sociedade obtinha a consciência de que todos os homens eram iguais, a escravidão ia perdendo sua força.
A carta de Paulo a Filemom nos revela a maneira como o maior evangelista da época tratou deste assunto. Filemom era um novo convertido, que devido à sua privilegiada situação econômica, possuía escravos. Paulo não começa sua epístola criticando-o por isso. Pelo contrário, ele dá testemunho de que o que ouvira falar de Filemom, revelava um homem íntegro, cheio de “amor e fé” para com Cristo e todos os santos (v.5). De maneira discreta, o apóstolo revela sua preocupação através de uma oração:
“Oro para que a comunicação da tua fé seja eficaz no conhecimento de todo o bem que em nós há para com Cristo” (v.6).
Como podemos comunicar a nossa fé de maneira eficaz? Como podemos tornar conhecido todo o bem de que Cristo nos tem feito participantes? Eis a questão principal dessa epístola! E eis a questão sobre a qual quero me debruçar neste artigo. Não basta comunicar nossa fé através de um conjunto de doutrinas. É necessário comunicar a nós mesmos. E para que isso seja possível, devemos amar àqueles com quem desejamos compartilhar os valores do Reino de Deus. O mesmo apóstolo escreve aos Tessalonicenses:
“Antes fomos brandos entre vós, como a mãe que acaricia seus próprios filhos. Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas também as nossas próprias almas, porque nos éreis muito queridos” (1 Ts.2:7-8).
Ninguém vai conquistar corações descrentes tentando impor suas crenças e valores. Temos que conquistar seus corações, antes de tentarmos conquistar suas mentes. Temos que expor nosso amor, antes de propor nossos valores.
Ora, embora Paulo estivesse tratando com um fiel, e não com um descrente, ele preferiu dirigir-se primeiro ao coração de Filemom.
“Pelo que, ainda que tenha em Cristo grande confiança para te mandar o que te convém, prefiro, todavia, solicitar em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho e, também agora, prisioneiro de Cristo Jesus” (vv.8-9).
Se com um fiel deve-se falar desta maneira, imagina com descrentes!
Hoje em dia, muitos pastores, além de quererem dominar o rebanho de Deus, querem também impor sua autoridade ao mundo. Bem fariam se dessem ouvidos ao velho Pedro: “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente, não por torpe ganância, mas de boa vontade; não como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pe.5:2-3).
Impetuosidade não nos leva a lugar algum. Tanto Paulo, quanto Pedro, chegaram a esta conclusão depois de velhos. Em vez de simplesmente “mandar”, “ordenar”, Paulo preferiu “solicitar em nome do amor”.
As pessoas só deixarão determinadas práticas, quando tiverem suas consciências iluminadas pelo amor. Quem pensa, por exemplo, que proibindo o aborto vai coibir o avanço desta prática nefasta, está equivocado. As clínicas clandestinas agradecem qualquer tentativa de impedir que o aborto seja regularizado no País.
A carta de Paulo não tinha a pretensão de condenar a instituição da escravidão. Pelo menos, não diretamente. Seu objetivo era interceder por um escravo em especial, Onésimo.
“Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei em minhas prisões. Outrora ele te foi inútil; mas agora a ti e a mim muito útil. Mando-o de volta a ti, a ele que é o meu coração” (vv.10-12).
Onésimo era escravo de Filemom. Por algum motivo que não é revelado, Onésimo foi preso. Talvez tenha desfalcado seu senhor, ou cometido algum outro crime. Na prisão, conheceu o apóstolo, e acabou se convertendo a Cristo. Após cumprir pena, Onésimo voltaria às ruas. Mas pra onde iria? Um escravo não tinha alternativa, senão a casa de seu amo. Ele trazia marcas em seu corpo que o identificava como escravo, e por isso, estava fadado a ser reconhecido como tal pelo resto de sua vida. Ninguém se atreveria lhe abrir as portas. Na casa de seu amo, ele teria trabalho, comida e moradia. Seu dilema agora era saber se seu amo o receberia de volta. Caso não o recebesse, sua única opção seria a mendicância.
Era assim que a sociedade da época era estruturada. Isso não mudaria de uma hora pra outra. Quando o Brasil, pressionado pela coroa inglesa, promoveu a abolição da escravatura, os escravos alforriados não tiveram pra onde ir, e foi isso que deu origem aos bolsões de miséria, hoje conhecidos como favelas, nas encostas dos morros das grandes cidades.
Imagine como a igreja cristã deveria se portar diante de uma questão social como a poligamia. Em alguns países, a poligamia não apenas é aturada, mas também estimulada. Países onde o número de mulheres é muito maior do que de homens, devido às constantes guerras. Sem a possibilidade da poligamia, muitas mulheres morreriam de fome, pois em algumas dessas sociedades, elas sequer podem trabalhar pela sobrevivência. Não bastaria a igreja se manifestar contrária a este modelo familiar. Se os maridos resolvessem liberar suas várias esposas, pra onde elas iriam? E se os pais não as recebessem de volta? É claro que tanto a escravidão, quanto a poligamia são práticas condenadas pelas Escrituras. Mas isso não nos dá o direito de simplesmente impor nossos valores de maneira inconsequente e irresponsável.
Antes de enviar Onésimo de volta ao seu amo, Paulo apela à sensibilidade de Filemom. “Eu bem quisera conservá-lo comigo, para que por ti me servisse nas prisões do evangelho. Mas nada quis fazer sem o teu consentimento, para que o teu benefício não fosse como que por força, mas voluntário” (vv.13-14).
Pelo jeito, nosso amigo Onésimo deu um grande prejuízo a Filemom. Paulo queria que ele fosse recebido de volta, mas com o valor que lhe era conferido pelo Evangelho. Então, o que fez Paulo? O valorizou. Mostrou ao seu antigo senhor o quão útil Onésimo lhe seria, caso o mantivesse consigo.
Se quisermos revelar ao mundo o valor que tem o casamento, não precisamos sair por aí condenando os adúlteros, mas valorizar nossos cônjuges aos olhos de todos. Feridas não precisam ser ainda mais abertas, mas devidamente tratadas.
“Bem pode ser que ele se tenha separado de ti por algum tempo, para que o retivesses para sempre, não já como escravo, antes, mais do que escravo, como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor” (vv.15-16).
Paulo intentava convencer Filemom que receber Onésimo na condição de irmão representaria lucro em vez de prejuízo. Precisamos convencer o mundo que o casamento não é uma instituição falida, e que é melhor ter uma esposa do que uma amante. Temos que mostrar ao mundo o prejuízo que é fazer as coisas de maneira inversa àquilo que Deus planejou. As pessoas devem ser convencidas de que vale a pena fazer as coisas do jeito certo.
Um filho é melhor do que um aborto. Um casamento é melhor do que uma aventura amorosa. É melhor a justiça com segurança e paz, do que a corrupção acompanhada de pavor e violência.
Finalmente, Paulo dá o retoque final ao seu argumento em nome do amor:
“Portanto, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, lança-o na minha conta. Eu, Paulo, escrevo de meu próprio punho, eu o pagarei, para não te dizer que ainda a ti mesmo a mim te deves” (vv.17-19).
Quem paga a conta?

Todos sonhamos ver este mundo restaurado, com suas instituições devidamente reformadas, livre da injustiça, da corrupção, e de todo mal. Entretanto, quem se dispõe a pagar o preço por isso? Ninguém quer ficar no prejuízo. É muito fácil dizermos a uma menina grávida de seu estuprador para que não aborte. Mas quem se dispõe a ajudá-la a criar seu filho?
Lembro de uma mulher que ligou para um programa de rádio que eu conduzia. Ela chorava muito, e dizia que estava diante de uma janela, pronta a se arremessar. Tentei acalmá-la, e pedi que me contasse o que estava havendo. Ela me explicou que havia crescido em uma igreja evangélica extremamente legalista, mas que se desviara e se tornara numa garota de programa. Pra piorar as coisas, ela se engravidou de uma dos seus clientes, mas tinha a menor ideia de qual deles era a criança. Foi um momento muito difícil para mim, pois nossa conversa estava sendo ouvida por milhares de pessoas, e se ela resolvesse pular da janela, eu me sentira culpado pro resto de minha vida. Deixei que o Espírito Santo pusesse palavras em meus lábios, que a dissuadiram de pular. Instei com ela para que voltasse pra igreja. Ela argumentou comigo, dizendo que todas as vezes que ela pôs os pés em sua antiga igreja, as pessoas lhe olhavam de cima a baixo, julgando-a e condenando-a. Em vez de amor, ela só encontrava juízo. Mesmo sustentando sua família com o dinheiro advindo da prostituição e de filmes pornográficos, sua família a rejeitava.
Depois de muitas lágrimas, ela aceitou orar comigo, reconciliando-se com Deus. Após a oração, ela pediu pra conversar comigo fora do ar. Contou-me que tinha um contrato com uma produtora internacional de filmes pornôs, e que, se ela resolvesse abandonar aquela vida, teria que pagar uma alta soma por quebra de contrato. Procurei mostrar a ela que todo o dinheiro que aquela vida lhe dava não valia a pena, e que, mesmo sofrendo eventuais prejuízos, nada seria melhor do que voltar-se para Cristo. Será que a igreja está preparada para receber pessoas assim?
Outra vez, recebi um homossexual em meu gabinete. Ele começou a chorar, e a dizer que sentiu confiança em nos ouvir pelo rádio. Segundo ele, todas as igrejas por onde passara, o rejeitaram. Ninguém se dispusera a ajudá-lo. É muito fácil julgar, condenar, ou mesmo ignorar tais pessoas. Difícil é amá-las e acolhê-las como Jesus teria feito em nosso lugar.
Paulo se dispôs a pagar por qualquer prejuízo que Onésimo houvesse dado a Filemom. E quanto a nós, será que estamos prontos a arcar com os custos e implicações da mensagem do Reino de Deus?
Estaríamos prontos para lidar com os efeitos colaterais de um verdadeiro avivamento, como aquele que varreu o País de Gales, encerrando as portas dos prostíbulos e bares?

domingo, 17 de abril de 2011

O cristão e a liberdade de expressão

Eduardo Ribeiro Mundim

"Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo" é uma frase atribuída ao enciclopedista francês Voltaire. Alguns fóruns de discussão, notadamente alguns blogs cristãos, parecem exigir que esta liberdade seja completa e irrestrita. E certamente nossa legislação permite - mas há mecanismos para conter abusos.

A liberdade de expressão é, em si, valor absoluto? E para o cristão?

Não há dúvidas de que quando há uma decisão a ser tomada o direito de livre expressão é a base onde a própria democracia repousa. Todos que desejarem explicitar seu ponto de vista têm o direito sagrado de fazê-lo. E o termo sagrado não é mera retórica. Fazer-se conhecer, através de opiniões e atitudes, é um ato de afirmação da existência de um ser racional (e, portanto, autônomo) e de igualdade com todos os outros seres racionais. Opinar é uma forma de existir.

Provavelmente pouca discussão há sobre afirmativas de caráter moral ou que impliquem em testemunho de transgressão à lei. Opinar que fulano é ladrão obriga a produzir a prova que baliza o dito, sob pena de injúria. Mas expressões como reacionário, conservador, liberal, fundamentalista e semelhantes não incorrem no mesmo risco. Outras têm nitidamente um caráter dúbio, ofensivo/não ofensivo. E outros parecem ofender e dizer que não o fizeram - esta parece ser a especialidade do deputado federal Jair Bolsonaro (cf. http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/03/29/preta-gil-vai-processar-jair-bolsonaro-por-declaracoes-em-programa-de-tv-924115474.asp e o vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=HyaqwdYOzQk).

Didaticamente, as opiniões cumprem ao menos três funções: participação no processo democrático, insulto ao próximo e desabafo.

É o direito à livre expressão valor absoluto?

Pela ótica racional, objetivando organizar a sociedade, não há porque absolutizar o direito dentro do debate democrático - aqui entendido como a análise e discussão de um problema/tema para o qual se busca uma solução. A mesma racionalidade permite antever que, se absolutizado o direito ao insulto, poucas sociedades humanas ficariam em pé. E o reconhecimento da nossa fragilidade e humanidade tolera o desabafo, desde que a fronteira com o ultraje não seja ultrapassada.

Para o cristão, as Escrituras ditam a norma:
- a palavra tem de ser agradável e temperada com sal, e individualizada de acordo com o interlocutor (Cl 4.6)
- insultos (palavras que visam humilhar o próximo, ou negar-lhe a capacidade de entendimento, ou negar-lhe o próprio direito de existir) são irmãos consanguíneos do homicídio (Mt 5.21-25). E o autor da epístola de Judas afirma que nem mesmo arcanjos insultam Satanás! (Jd 1.9)
- no juízo palavras fúteis, ociosas, inúteis e vãs terão de ser explicadas (Mt 12.36)
- a correção, exortação e repreensão devem ser pacientes e amparadas na Palavra (II Tm 4.2), não anulando o tempero, a individualização e a proibição do desejar destruir (e o que é a humilhação senão uma destruição social?)
- entre outras funções, a palavra é para animar e fortalecer (II Ts 2.17)

Por este apanhado é correto assumir que também do ponto de vista do Reino (e este ponto só é compulsório para aqueles que livremente aceitam o Senhorio de Jesus Cristo) o direito à expressão não é absoluto.

Debates ferozes ocorrem atualmente, tanto dentro da Igreja, quanto entre ela e "o mundo". Temas especialmente delicados, que tocam sensibilidades e susceptibilidades (aborto e homossexualismo para ficar em dois exemplos), levam os cristãos, frequentemente, a não dominarem a língua (e Tiago fala muito dela: Tg 1.26, e todo o capítulo 3). Intolerância recebe o nome de amor, argumentos contrários não são discutidos, mas desqualificados sem justificativa, adjetivos pejorativos usados como substantivos. Nestes momentos, caímos no erro de nos moldarmos ao mundo, no lugar de moldá-lo, de desobedecer o ensino do Evangelho (que assumimos livremente como nosso guia ético) e de dificultarmos a sua pregação.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Proselitismo em um mundo multirreligioso

O termo "proselitismo" significa o empenho para conseguir adeptos a uma idéia, uma religião ou a um partido político. A palavra "evangelizar", para o cristão, resume a atitude de espalhar a boa nova que se tornou homem na pessoa de Jesus Cristo, morto e ressurreto. Estas atividades, proselitismo e evangelização, são concorrentes no mundo de hoje - a bem da verdade, desde sempre. Talvez a grande diferença do mundo contemporâneo para as épocas pregressas seja a velocidade com que a informação é transmitida, a queda das barreiras da geografia, da distância e mesmo da língua. Segundo alguns, existem mais de 2.000 religiões e todas, baseadas no princípio da solidariedade, buscam prosélitos.

Muito se falou, no último quartel do século XX, que Deus morrera, e que o secularismo era a nova religião que mudaria a face do mundo. O século XXI veio, e Deus permanece bem vivo. Apesar da imprecisão das estatísticas quando o assunto é fé religiosa, alguns pesquisadores estimam que no ano de 2025 80% da população mundial estarão filiados a uma das quatro grandes religiões: cristianismo, islamismo, budismo e hinduísmo. Portanto, cenário bem próximo é de alguns bilhões de indivíduos formalmente comprometidos com visões de vida e de mundo distintas, com repercussões na vida cultural, política e entre as diferentes nações.

Qual é o comportamento adequado na evangelização dentro deste contexto? E neste momento pergunto pensando apenas no fato de que os 80% de religiosos (e neste caso os secularistas não estão incluídos) são seres humanos, iguais em dignidade perante o Criador, por Ele amados a ponto de Cristo ter por eles morrido e ressuscitado. A discussão sobre o poder político, e militar, de cada um desses grupos religiosos não está no foco, assim como a questão da emigração e convivência de diferentes culturas.

Deus nos respeita, e nos chama pelo nome, mesmo quando O rejeitamos. Somos únicos mesmo em nossa rebeldia. Adão e Eva não perderam seus nomes, nem Balão, muito menos Judas Iscariotes. Se Ele não nos tira nossa individualidade, nossa natureza extremamente singular que nos faz diferentes uns dos outros (mesmo entre gêmeos idênticos), como poderíamos nós, que clamamos sermos Seus filhos por adoção, atuar de modo contrário?

Agimos de modo diferente quando não respeitamos a religião do outro. E há vários modos de fazê-lo. Supor que a conhecemos sem nunca a termos estudado nas suas fontes mais originais possíveis é uma forma. Imagine o diálogo: um hindu diz adorar o boi, razão pela qual é vegetariano; portanto, deduz, a partir de si mesmo, que o muçulmano adora o porco, pois é proibido ao islâmico consumir a carne deste animal! Conseguiria um muçulmano explicar o conceito cristão de Trindade? Para ele, nós adoramos três deuses! Se quisermos saber o que o nosso vizinho não cristão crê, devemos perguntar a ele e lermos seus textos sagrados.

Uma segunda forma de desrespeitarmos o nosso próximo é alardearmos que sua crença é diabólica, ou fundamentalmente errada, ou está a serviço das forças do mal. Jesus fez isto? alguns dos apóstolos? ou dos profetas do Velho Testamento? Antes que algum apressado cite Elias e os profetas de Baal, lembro do exato contexto do fato: o povo de Israel que viola o pacto celebrado com o Deus de seus pais. A luta última dos profetas não eram contra os deuses estrangeiros, mas contra aqueles que deixavam Jeová por outros deuses. As palavras de condenação, ironia e sarcasmo sempre foram dirigidas aos domésticos da fé, e não aos de fora (pelo menos nos textos bíblicos).

Outro aspecto importante na evangelização em um mundo multirreligioso é que a proclamação do Evangelho é para pessoas, indivíduos, e não para expressões religiosas abstratas. E cada pessoa tem a sua fé por uma série de razões distintas. Entre elas, seu histórico de vida, sua cultura familiar e local, suas aspirações e sonhos de juventude e infância. E cada um vive sua fé de modo particular, ainda que comunitário. E muitas expressões religiosas estão em contradição com os princípios. E isto é verdadeiro para todo radical das quatro maiores religiões citadas: os textos sagrados do cristianismo, islamismo, budismo e hinduísmo não autorizam o uso da força para fazer prosélitos, ou sobressair sobre as outras. Portanto, não podemos julgar os muçulmanos pelos radicais do Irã, os cristãos pelo comportamento de George W Bush, os budistas pelos seus radicais, muito menos os hinduístas. Se formos personalizar a experiência de fé, então usemos Ganhdi, o Dalai Lama e Nelson Mandela, dentre outros.

Não é possível sermos testemunhas do caráter regenerador do Evangelho se desrespeitamos a crença alheia, queimando seus livros sagrados, violando hábitos, ridicularizando crenças específicas e disseminando inverdades (conceitos que assumo serem verdadeiros mas que não verifiquei) ou mentiras (não necessita esclarecimento). Agir assim não significa concordância com o outro, mas respeito pela sua individualidade, história pessoal e desejos íntimos. Há uma diferença entre cobrir a cabeça, em sinal de respeito, junto a uma comunidade que assim entende ser correto estar na presença divina e abraçar a crença daquela sociedade.

E assim como é um dever cristão evangelizar, pois há um mandamento específico para tal, todos os adeptos das outras religiões se sentem compelidos ao mesmo, seja por obediência a um preceito, seja pela simples solidariedade. Se eu acredito em algo que possa beneficiar meu próximo, eu me calaria? Proselitismo sincero é, antes de mais nada, um ato de solidariedade e amor ao próximo. Caso contrário, ou minha crença não é verdadeira, ou falta a mim o amor ao próximo. Qual sistema religioso que defende o não amor recíproco entre a humanidade? Portanto, a livre divulgação da fé de cada um é direito decorrente da nossa condição humana e, em última análise, decorrente do próprio Deus.

Liberdade para pregar, liberdade para crer, liberdade para viver a fé. Deus jamais usou a força para chamar seus eleitos a si. E a nova e eterna aliança celebrada através do corpo e sangue de Cristo busca corações convertidos, e não obediência escrava; busca adesão livre e voluntária, e não opção interesseira. Não vejo autorização das Escrituras para condenarmos os não cristãos, ou desejar-lhes mal por não aceitarem o Evangelho. Não é isto que Jesus ensina quando Tiago e João sugeriram que descesse fogo do céu sobre os samaritanos que se recusaram a recebê-Lo?

este texto foi escrito inspirado pelo artigo "Proselytizing in a multi-faith world", de Ed Stetzer, publicado na página da Christianity Today em 28/03/11. As idéias centrais são do texto em inglês, que foram reescritas com liberdade pelo proprietário deste blog. O texto base está disponível em http://www.christianitytoday.com/ct/2011/april/proselytizingmultifaith.html

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Uma adoração muda

Rev. Éser Pacheco*

É preciso ficar mudo diante de Deus. Bem fazem os judeus, que proíbem que se diga o nome do Senhor. Toda tentativa de definir Deus contém um germe de idolatria.

Em nossa vida devocional, seria útil aprendermos algo com um filósofo francês chamado Paul Ricouer. De origem reformada, aquele eminente filósofo, falecido em 2005, dizia: “A fé é essa região da simbólica onde a função de horizonte não cessa de decair à função de objeto, dando origem aos ídolos”. Para exemplificar o que essa frase quer dizer, deixe-me contar um caso que vi essa semana na TV.

Numa igreja da região norte de Belo Horizonte havia, à porta, uma estátua de Santo Expedito. Algum vândalo, tomado de desrespeito pelo próximo, ou algum fundamentalista, cheio de dogmas, mas vazio de misericórdia, achou de jogar ao chão a imagem cultuada por uma legião de fiéis freqüentadores do templo. As pessoas de bom senso vão todas concordar que vilipendiar objeto de culto alheio é um ato de violência e, por isso, deve ser rechaçado.

Por outro lado, não podemos também deixar de tirar algumas lições, ao observar a reação dos fiéis perante a estátua estatelada e fragmentada no chão. Uns choravam e se comoviam diante da imagem, como quem chora à beira da urna funerária de um parente querido. Outros passavam a mão na cabeça do Santo, como quem consola um ferido que aguarda os paramédicos. Houve ainda quem jogasse sobre o ícone uma manta, como se faz quando alguém morre em espaço público e deixa seu corpo exposto ao olhar dos curiosos e das intempéries do dia.

Naquele momento, para aqueles que confundem o horizonte aberto da Graça de Deus com a precariedade de nossas representações, a esperança de que alguém, neste ou em outro mundo, interceda a nosso favor, diante de causas que nos parecem impossíveis, havia se esfarinhado com o gesso. Construímos ídolos sempre que tentamos aprisionar a misteriosa presença de Deus nos esquemas de adoração adaptáveis ao nosso gosto, nossas expectativas, nossa miopia.

Mas antes que se reacenda a velha iconoclastia calvinista, é bom lembrar que não só de imagens de santos fazemos ídolos. Ídolos podem ser a Igreja, ou as igrejas, a Bíblia, ou o próprio Deus. Sempre que pensamos haver definido o que Deus é, nossa soberba erige seu próprio altar.

Há pastores que se gabam de haverem tido uma revelação especial de Deus, o qual lhes falou “em primeira pessoa”. Perdoem-me o apressado juízo, mas fico sempre a pensar no quanto isso tem de delírio narcisista ou de retórica manipuladora. Não convém julgar, mas, também, é preciso acender nosso espírito crítico sempre que alguém se apresenta como um tradutor especial de Deus, um porta-voz privilegiado. Melhor seria confessar que estamos todos às apalpadelas (Jó 5.14, Is 59.10, At 17.27).
 
Às vezes, é preciso resgatar o valor de uma adoração muda, de quem reconhece sua ignorância ante o mistério da presença divina em tudo. É preciso deixar o horizonte aberto, não querer aprisioná-lo em nossos conceitos, hábitos e valores. A esperança sempre alarga os limites do presente. A esperança sempre questiona nossa miopia. A esperança não morre, não se deixa matar.

* pastor colaborador da Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, professor universitário

sábado, 2 de abril de 2011

O pastor, o alcorão e algumas reflexões

Eduardo Ribeiro Mundim

Um pastor norte-americano resolve colocar fogo em um exemplar do Alcorão. Meses atraś, para marcar o dia 11 de setembro, havia anunciado que o faria. À época, parecia ter atendido aos apelos da razão e desistido. Agora, executa o ato. E algumas pessoas são mortas, por vingança, a milhares de quilômetros de onde ele mora, do outro lado do mundo. Segundo alguns, o exemplar do livro sagrado dos muçulmanos foi executado após ter sido considerado, em um julgamento, culpado de várias acusações, incluindo assassinato (1).

Sua congregação é composta por 60 pessoas e tem um perfil fundamentalista. É crença deste pastor, que é visto no terreno da igreja portando uma arma com frequência, que os muçulmanos desejam impor a sharia sobre os Estados Unidos (2).

Usando este lamentável incidente como pretexto, faço algumas considerações.

A atitude de Terry Jones não foi um ato de proclamação do Evangelho de Jesus Cristo. Sua morte substitutiva não foi ensinada, o pecado universal da humanidade não foi apresentado - ainda que o ato do mesmo seja uma demonstração aberta de como o pecado se infiltra em todas as ações humanas. Tão pouco a necessidade de confissão e arrependimento foram proclamadas.

Supostamente o julgamento do livro foi justo - quem o defendeu? O próprio livro? Quem o interpretou e falou no seu lugar?

A encenação foi um ato político, travestido de cerimônia religiosa. O mesmo demônio que apontou a cruz para o imperador Constantino soprou-lhe nos ouvidos este casamento demoníaco: política e religião. Satanás, experiente como é, velou-lhe a mente de modo a ignorar que a Bíblia também poderia ser julgada e condenada ao fogo por diversos crimes, inclusive homicídio. O que impede de um grupo de não-cristãos fazer o mesmo?

Terry Jones é aparentemente cego, se for uma pessoa fundamentalmente honesta; ou um irresponsável, se for um manipulador ou doente em busca de autopromoção.

Apresentando-se como proclamador do Evangelho, não o apresenta, mas faz aquilo que nem Paulo em seus piores momentos humanos se atreveu: insultou a crença básica de alguém. Há este exemplo nas Escrituras? Qual apóstolo escolheu o caminho da violência? Não foram eles, dois mil anos antes de Gandhi, adeptos da não-violência e da desobediência civil?

Cegamente se apresenta aos olhos de milhões de muçulmanos economicamente vulneráveis, alguns em extrema pobreza, cidadãos (se é que o são, ao menos em alguns cantos) sob forte opressão política, como juiz de sua crença, representando uma nação extremamente rica e igualmente opressora (não é ela que sustenta as ditaduras árabes, como o Egito, a Síria, a Jordânia e o Bahrein?). Terry Jones se deu conta do tamanho de sua arrogância?

Os irmãos fundamentalistas já têm problemas suficientes e agora serão confundidos com um tipo de fundamentalismo que rejeita o credo dos apóstolos, maculando uma posição teológica séria e equilibrada com irracionalidade, prepotência e covardia. Sim, covardia, pois é fácil insultar o outro protegido pelos seus. Aos assassinos dos funcionários da ONU pode-se atribuir o calor do ódio despertado pelas chamas no Corão - fruto de um momento habilmente trabalhado por um clérigo islâmico. Mas ao suposto pastor (porque duvido que hoje ele seja um pastor - suas atitudes são de um político insensato e inescrupuloso) nada o desculpa, pois o ato foi gestado por meses, friamente planejado e executado, apesar das advertências de muitos bem mais experimentados nas artimanhas deste mundo que ele.

Nós cristãos temos agora de nos defender de uma atitude assassina - pois foi o fósforo que acendeu as chamas o autor dos disparos que mataram inocentes do outro lado do mundo. Ele não pensou nisto?!

Envergonhado, peço, como cristão, perdão às famílias enlutadas pelo ato consciente e deliberado de alguém que não merece o honroso título de "pastor".

Envergonhado, peço, como cristão, perdão aos muçulmanos pelo ato de hostilidade gratuita e desrespeitoso. Não entendam este ato como motivado pela mensagem da graça de nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte substitutiva e sua ressurreição redentora. É um crime e como tal deveria ser julgado.



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terça-feira, 29 de março de 2011

Cristãos em crise com o que julgavam ser a sua fé

Eduardo Ribeiro Mundim

Já é lugar comum falar sobre a crise de fé trazida pela pós-modernidade, descrita como uma situação onde inexistem verdades absolutas por serem algo inatingível ou inexistente. O cristão tradicional, ou seja, que subscreve o credo de Niceia, crê em verdades absolutas, sintetizadas por esta declaração de fé. Ele é, na sociedade contemporânea, uma "anomalia".

E não é de hoje que o cristão evangélico é caracterizado como algo em vias de extinção por sua absoluta dissintonia com o mundo atual, seja por crer em verdades absolutas e universais, seja por defender posturas morais incompatíveis com a atual onda do politicamente correto. Não é por acaso que novelas usam personagens religiosos (com frequência Testemunhas de Jeová, um grupo que não assina o credo niceno-constantinopolitano) para retratar situações particulares como exemplo de norma geral: transfusão de sangue é o prato predileto. Qual personagem cristão evangélico foi retratado em algum filme ou novela com aspecto positivo? Este personagem, se existente, ficou retido na memória comum?

Não se pode fugir ao fato de que pastores e políticos tem fornecido munição suficiente para o descrédito, quando assumindo a filiação evangélica (e, às vezes, por parte de igrejas feitas sob encomenda e de caráter cristão bastante questionável) e tendo um comportamento público de imoralidade flagrante e de incoerência explícita com o Evangelho.

Contudo, percebo que há uma crise sobre a qual pouco se fala. Talvez porque não exista, e seja apenas minha experiência pessoal; talvez porque não é, dentro do arraial cristão evangélico, politicamente correto se levantar determinadas questões.

É a crise do se crer naquilo que não se deve crer, naquilo que o Evangelho e o restante das Escrituras jamais ensinaram. Dentre outras:

1. A única pessoa capaz de um ato de amor desinteressado é o cristão
2. Somente os cristãos têm virtudes
3. O cristão é o modelo que deve ser seguido pelo restante da sociedade
4. Não cristãos não agradam a Deus
5. Não cristãos somente são alvos do amor de Deus através da pregação do Evangelho, buscando convertê-los à verdadeira fé.

Qual apóstolo foi exemplo de amor desinteressado em absoluto? Esta é uma impossibilidade humana, pelo que ensina a psicologia (que explicita o caráter eternamente conflituoso do ser humano); as Escrituras não fazem esta afirmação em lugar algum, e qualquer tentativa de encontrar tal perfeição é tão sólida quanto gelatina no forno acesso. Na era da informação rápida, quantos atos heroicos foram praticados, ao preço da própria vida, por pessoas religiosas de outras confissões e não-religiosas? E quantos atos covardes foram cometidos por cristãos em nome da segurança pessoal e/ou familiar?

Não é prudente confundir as revelações das Escrituras. Elas são claras: nenhum homem pode agradar a Deus por suas próprias atitudes, pois todas estão marcadas pelo pecado, por mais puras que conscientemente elas sejam. Não é este o ensino das Escrituras? E neste quesito não é o ensino das mesmas que este agrado diz respeito ao fato de sermos aceitos por Deus enquanto rebeldes a Suas vontade e ensino? E que estas atitudes não apagam os erros que cometemos? E que somente pelo sacrifício de Jesus na cruz, com Sua ressurreição, apagam diante dEle nossas transgressões?

E não são as mesmas Escrituras que revelam que toda atitude correta, mesmo não tendo valor salvífico, agrada a Deus, não importa quem a pratique?

Não é ensino legítimo de que Deus faz nascer Seu sol sobre justos e injustos, e que por amor de todos "deu Seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crer não pereça, mas tenha a vida eterna?" E que Ele ordenou aos cristãos que sirvam ao mundo incrédulo como testemunhas do Seu amor constante para com ele, mesmo que permaneça na incredulidade, até o dia do juízo final?

Quando criança, há quarenta anos, fui ensinado que o crente não fuma, não bebe não dança, não... Fui ensinado, nas entrelinhas, que santidade era não; e que minhas atitudes definiriam se era ou não salvo (ou seja, um cristão).

Dura realidade quando as Escrituras demonstram que a única diferença entre o cristão e o não-cristão é que o primeiro é um pecador perdoado que constantemente peca e pede perdão, não existindo pecado que não possa cometer. O não-cristão é um pecador que não se considera como tal, porque suas referências não incluem este conceito; tão pouco o Deus da Bíblia existe. Nada mais os separa, nada.

Dura realidade quando a experiência mostra cristãos doentemente neuróticos, presos a culpas imaginárias, com o comportamento prisioneiro do recalque, onde as evidências de santificação pessoal são pouco evidentes e o sofrimento por ter prazer na lei de Deus e não praticá-la muito óbvio. Repito que a única diferença entre este sofredor e o não-cristão é que aquele é perdoado pelo sacrifício da cruz e este ainda não, até a confissão de que Jesus é Senhor de sua vida.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O rei está nu

Bráulia Ribeiro

O Ocidente está adoecido pelo ódio a si mesmo. Olhamos para nossa história, para o produto de nosso progresso, para nossa sociedade, e não gostamos do que vemos. O rei está nu. A utopia política do início do século passado se tornou uma experiência vergonhosa de domínio de poucos sobre as massas. As mentiras sobre superioridade racial em que acreditamos se transformaram em sangrentos genocídios. O capitalismo que iria permitir ao proletariado qualidade de vida se tornou um monstro de produzir riquezas, que nos engole sem piedade. As propostas religiosas se emaranharam promiscuamente a qualquer ideia que pagasse mais. Enfim, demos com os burros n’água vez após vez. Desiludimo-nos e nos odiamos. Precisamos de uma nova gênese.

Por causa disso, olhamos para os índios isolados com uma esperança “rousseauniana”. Serão eles nosso renascimento? No Google você encontra nas referências sobre a tribo Zoé, que vive entre o Pará e o Amazonas, esse tom religioso. Pesquisadores e cineastas franceses veem neles a esperança de um renascimento para a humanidade. Porém, como todas as outras, os Zoé são apenas uma tribo brasileira pequena tentando sobreviver. Foram contatados pela Missão Novas Tribos do Brasil na década de 80. Foram conduzidos com cuidado do isolamento a um estágio intermediário, em que recebiam ajuda da Missão para as necessidades básicas.

O isolamento por si só não garante a sobrevivência de nenhuma tribo, ao contrário do que dizem os sertanistas. Massacres de tribos isoladas inteiras, causados por contaminações de doenças, por seringueiros, madeireiros ou outros predadores amazônicos, ou até por guerras entre tribos ou clãs, acontecem com frequência.

Voltando à história dos Zoé, a Missão acabou sendo expulsa da área. Os Zoé eram bonitos e puros demais para ficarem em contato com uma missão. Afinal, ela institucionaliza tudo o que mais odiamos no Ocidente: sua religião. A religião cristã continua pregando o que mais queremos esquecer, continua representando no mundo acadêmico moderno a cristalização dos valores que nos tornaram (entenda aqui a ironia) capazes de criticar aquilo que somos. Fora com eles.

A missão deu lugar aos “humanistas” da Funai. Verbas internacionais vieram e o projeto Zoé se tornou modelo. Um hotel de selva foi construído em frente à aldeia. Tudo o que dava acesso a outro mundo foi retirado. Eles passaram a viver numa ilha de selva virgem vigiada apenas por observadores bem-acomodados. Os vídeos na internet que retratam a tribo são lindos, feitos com equipamento de alta qualidade só possível devido ao conforto e à tecnologia oferecidos pelo hotel/observatório. A tribo “virgem” agora se torna entretenimento de turistas de alta classe, uma espécie de zoológico humano servindo ao voyerismo de antropólogos e cineastas estrangeiros.

Suprema ironia. Os selvagens são mantidos escravos por causa de sua pureza. Vistos de longe, os Zoé são “na’vi” azuis andando por Pandora com rabos longos, etéreos, perfeitos. De perto, são um povo escravo de um idealismo que não inventaram. Presos a um paleolítico circunstancial, são impedidos de mudar. Não são humanos, não são cidadãos, não são nem índios brasileiros. São uma metáfora internacionalizada do ódio de nossa cultura por si mesma.

O problema é que, não sabendo disso, eles fugiram de seu paraíso terrestre. Em outubro de 2010, os Zoé fugiram para pedir ajuda aos castanheiros locais e ao mundo. Num vídeo tosco filmado por um dono de castanhal, os índios se expressam em português fluente: “A gente quer coisa. A gente quer panela, faca, anzol. A gente quer ter o que os Tirió tem. Funai não dá nada pra nós não, mas a gente quer”.
Tradução? Os Zoé estão dizendo: “A gente quer parar de ser uma coisa, a gente quer ser gente, vocês vão permitir?”.

• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br

fonte: http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/328/o-rei-esta-nu-1

quinta-feira, 17 de março de 2011

O valor da vida humana

Eduardo Ribeiro Mundim

Atribuir valor à vida humana é algo extremamente corriqueiro e, simultaneamente, extremamente difícil. E esta valoração ocorre ditada pelo fato de vivermos em sociedade, co-dependentes mútuos, permeados pela nossa ambiguidade nata (que na sua forma atual está enraizada em nossa natureza aversa a Deus). As nossas leis precisam regulamentar o fato de que somos uma ameaça uns aos outros, apesar da nossa interdependência (cada vez menos visível aos olhos), seja diretamente através de uma ação planejada ou não, seja indiretamente através de algum incidente aleatório. Na esfera cível, a vida é valorada de modo a se estabelecer indenizações no caso de morte ou lesão que cause incapacidade; na criminal, para se estabelecer a punição por um crime perpetrado. 

As notícias veiculadas recentemente nos jornais de Belo Horizonte me fazem pensar sobre como nossa sociedade dá um valor bem baixo à vida, no sentido da existência real e continuada até o seu fim natural, das pessoas:
- um motorista alcoolizado mata um casal que se dirigia ao aeroporto para aproveitar recente aposentadoria. Era por volta das 05:30 da manhã, em uma rodovia sinuosa e reconhecidamente perigosa.
- um assaltante toma uma mulher como refém durante um assalto a um supermercado em uma cidade. Enquanto uma negociação, infrutífera, era tentada, um policial consegue atingi-lo com um tiro, e o mata. Ele ameaçava a mulher com uma faca.
- um jovem de 24 anos é assassinado na principal avenida da capital mineira, às 18 horas da tarde. Pela manhã, havia iniciado o período de regime semiaberto de sua condenação pela participação em duas mortes em uma favela da cidade, ocorrida há poucos anos.

Qual o valor que o alcoolizado motorista dá à existência do seu próximo quando decide dirigir sem estar em condições, em alta velocidade, em uma rodovia tida e havida como das mais perigosas da metrópole mineira? Pelas nossas leis, jamais será condenado, ou pelo menos, julgado, por homicídio doloso...

Qual o valor que nossos policias dão à existência dos criminosos? Matar se torna uma rotina, tipo "acidente de trabalho"? É um caminho mais fácil que uma negociação bem planejada, trabalhada, de modo a evitar um crime e poupar duas vidas? A solução para a criminalidade, principalmente aquela exercida pelos mais pobres, é a execução dos mesmos? Fosse o desesperado criminoso um "doutor" a história teria sido a mesma?

Qual o valor que nossos legisladores dão à existência quando criam leis e códigos que permitem o retorno à sociedade em tempo curto de assassinos confessos? O tempo atrás das grades não ressuscita os mortos. Mas ele não revela, mesmo que indiretamente, quão barata é a vida da população pobre (já que é a maioria dos brasileiros não está nas classes A e B, a C, D e E é que são as mais frequentes vítimas e atores dos homicídios). E eu pensava que somente os assassinos de aluguel usassem tabelas de preços...

Após muitos anos, talvez décadas, reencontrei o texto de Ex 21.14. Nunca havia parado para pensar no peso deste mandamento, ressaltado pela tradução da Nova Versão Internacional: para o assassinato premeditado, não haveria cidade de refúgio, lugar santo, ou desculpa que lhe abrandasse a pena. Somente a morte do assassino evidenciaria a importância da vida que fora tirada por razões absolutamente humanas, através de uma atitude planejada. Nem mesmo o altar o protegeria, porque havia eliminado um ser humano.

Não sou defensor da pena de morte - ainda que, frequentemente, ouça sobre crimes que bem a mereceriam. Talvez não seja defensor com medo da execução de um inocente, da nossa incapacidade de prover recursos de defesa iguais a todos os brasileiros, da própria crueldade de matar planejadamente alguém. Mas que o texto sagrado se posiciona de modo muito diferente que nós frente a vida humana, não há dúvida.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Qualidade de morte

CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS

FOLHA DE SÃO PAULO

TENDÊNCIAS/DEBATES

09 de março de 2011

Ainda que a pobreza torne a vida difícil, é ingênuo pensar que a riqueza, por si só, seja capaz de resolver os enigmas que a existência nos impõe
Até meados do século 20, dava quase na mesma ser pobre ou rico na hora de morrer: iam-se todos de modo semelhante, pois as doenças ignoravam privilégios. Diante da tuberculose, por exemplo, não havia ouro que comprasse sofrimento menor ou alguma sobrevida: morriam afogados, na derradeira hemoptise, tanto os operários de Manchester estudados por Engels como os burgueses dos quais nos fala Thomas Mann em "A Montanha Mágica".

Com o avanço da ciência, porém, tudo parece ter mudado. Hoje há muitos que acreditam que o dinheiro, além de comprar uma vida mais "rica", também garante a qualidade da morte: por meio dele, os abastados despedem-se deste mundo no ambiente glamoroso de "hospitais-boutique", sob os cuidados dos "médicos da moda". Mas será que as coisas são tão simples?

Por um lado, ainda que a pobreza torne a vida difícil, é ingênuo pensar que a riqueza, por si só, seja capaz de resolver os enigmas que a existência nos impõe, magnatas ou não. E o remorso não raro corrói a paga que os "eleitos" recebem por sua ganância. Se isso não é tão claro, é porque a maioria das pessoas desconhece a intimidade dos poderosos, sempre dilacerada por conflitos: os psicoterapeutas e os próprios poderosos sabem bem do que falo.
Por outro lado, o acesso à medicina "de ponta" nem sempre é garantia de boa recuperação ou de morte tranquila, além de dar origem a paradoxos.

Um exemplo é a angústia que destrói a saúde dos que sofrem, no presente, com as moléstias que -imaginam- terão no futuro. Martirizam-se, assim, por não terem um plano de saúde "top", o qual já se tornou, ao lado do carro "zero", o atual sonho de consumo. Para essa angústia contribuem, crucialmente, a propaganda dos centros diagnósticos -que não param de crescer- e a ingenuidade de médicos que confundem prevenção com obsessão por doenças.

Outro exemplo é o caso dos doentes terminais mantidos vivos mesmo à custa de muita dor, bem como a insensatez de uma legislação que proíbe a eutanásia para as pessoas que dela necessitam, condenando-as, cruelmente, ao papel de axiomas de grotesca tese: a de que a vida deve ser sempre preservada, "coûte que coûte"...

Mas, já que a morte segue inevitável -muito embora a publicidade procure nos convencer de que somos imortais-, não seria melhor que encarássemos a vida de outro modo, empregando-a não só para "conquistar um lugar ao sol" mas também para aceitar um "cantinho" nas sombras para onde iremos todos? Não seria importante que aprendêssemos a morrer, buscando, se preciso, nas ideias de outras épocas a espiritualidade que tanta falta nos faz?

Infelizmente, não é o que vemos.

Ao ideal da morte honrosa dos gregos, da morte-libertação dos gnósticos, da boa morte dos cristãos medievais, da morte heroica dos românticos, nós contrapomos a "morte segura" no leito high-tech de um hospital chique, transfixados por cateteres e "plugados" na TV. Uma morte que é o símbolo perfeito da doença que acomete a nossa civilização e que, decerto, vai matá-la: o conformismo hedonista.


CLÁUDIO L. N. GUIMARÃES DOS SANTOS, 50, escritor, artista plástico, médico e diplomata, é mestre em artes pela ECA-USP e doutor em linguística pela Universidade de Toulouse-Le Mirail (França). Blog: http://perplexidadesereflexoes.blogspot.com/.

domingo, 13 de março de 2011

Saúde, ética e espiritualidade


Saúde é bem-estar, não é mercadoria.

João Inácio Wenzel* Cuiabá, segunda-feira, 14 de março de 2011


Contam os anais da história que no antigo Oriente havia médicos contratados para cuidar da saúde da família. E quando alguém da família ficava doente, o médico deixava de receber salário, porque não estava fazendo bem o seu trabalho.

Quão distante ficamos desta visão holística da saúde em nossos tempos modernos! A saúde não é mais vista em sua integridade e integralidade. Ela é vista como ausência de doenças. A ênfase não está mais no cuidado da vida, das pessoas e do que nos envolve, mas em tratar doenças. Saúde virou mercadoria que se garante com planos de saúde. Na impossibilidade de pagar estes, se recorre ao SUS.

A saúde está compartimentada em mil e uma especialidades. Para cada doença um/a especialista. Cada qual sabe muito bem cuidar de determinadas doenças ou órgãos. Mas será possível tratar uma doença sem encarar as suas causas e a complexidade do jogo da vida e tudo aquilo que a envolve?

Felizmente os impulsos pela vida e os apelos em defesa e promoção da vida vêm resistindo e ganhando terreno a cada dia, quer seja pela recuperação do conhecimento de práticas de medicina popular de domínio comum, como a fitoterapia e a geoterapia, seja a valorização de novas práticas populares como a utilização da homeopatia e a introdução de ciências orientais, como a acupuntura.

Tal resistência também acontece no embate político, na compreensão do conceito de saúde e com a contribuição da bioética. A Organização Mundial da Saúde assume a seguinte conceituação: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”.

A diferença é enorme. Há uma preocupação não simplesmente com a doença física, mas também com as suas causas e o seu contexto social. Mas há um limite: O que se entende mesmo por “bem estar”? Poder aquisitivo, qualidade de vida, frequentar o shopping? Pode-se estar bem quando as pessoas a nossa volta estão mal? Fadigadas, estressadas, sempre correndo atrás de coisas e mais coisas, com medo de ser assaltada/o, violentada/o?

A concepção dialética da saúde e doença do médico panamenho José Renan Esquivel supera a visão parcelada e fragmentada do corpo humano, como vem apresentado no documento base da Associação Brasileira de Homeopatia Popular - ABHP: “Partimos do fato que a célula mais sã é a célula com capacidade de defender-se dos vírus, tóxicos, bactérias e contra tudo que a agride, da mesma forma, o homem saudável deve organizar-se contra tudo o que o agride, vírus, bactérias, tóxicos, e até mesmo contra o próprio homem...”

“Para nós, o conceito de saúde atinge desde a menor célula do corpo até a grande organização da sociedade. Ora, se saúde é o ‘resultado das condições de organização de uma determinada sociedade’, na sociedade enferma em que vivemos - saúde não é bem-estar, saúde é luta.”

“Quando uma célula é incapaz de dar e receber, e de estabelecer contínuas trocas com o meio no qual vive, ela se deteriora. Se uma pessoa humana se fecha no seu mundo, sem distribuir, sem intercambiar, sem se relacionar, estará a caminho da loucura e da autodestruição...”

Ao lado deste conceito que relaciona a saúde da pessoa com a saúde da sociedade e do planeta, ganha força outro paradigma que vem das tradições milenares dos povos indígenas da América Latina: o princípio do bem-viver e do viver bem, incluídos nas Constituições do Equador e da Bolívia em 2008 e 2009, e que pode ser traduzido como “vida em plenitude”.

“Quando se fala de vida em plenitude, está se fazendo uma referência a viver em harmonia entre o material e o espiritual, consigo mesmo e com a Mãe Terra. Em última instância, saber conviver com tudo o que nos rodeia, com a comunidade”, afirma Katu Arkonada (Revista IHU Online 340).

Neste conceito, o que importa não é ter a melhor casa, carro do ano, acesso aos últimos lançamentos, conforto, “qualidade de vida” como ter mais coisas, mas a capacidade de criar relações humanas de qualidade, geradoras de humanidades. Portanto, não dá para falar em saúde, em cuidar da própria saúde sem cuidar da saúde dos outros e da saúde do planeta.

Na Bíblia hebraica a palavra que mais se aproxima deste paradigma de bem-viver é a palavra shalom, geralmente traduzida por paz. Perguntar alguém como vai - como está o teu shalom – significa perguntar algo que tem a ver com a sua condição existencial, abrangente e integral, que inclui a saúde.

Jesus assumiu este shalom como missão: “Eu vim para que todos tenham vida plena” (Jo 10,10). As pessoas percebiam nele uma força dinâmica (dynamis) que cura e liberta. Uma força curadora que pode ser ativada pela fé. Ele mesmo dizia à pessoa restabelecida: “Tua fé te salvou”.

São pessoas populares que se põem em movimento para buscar o toque curador, por vezes intermediadas por pessoas da comunidade. Justamente as pessoas excluídas pelo convívio salutar da comunidade, com os leprosos e as mulheres com fluxos de sangue, eram as que recebiam mais cuidados e com quem expressava mais afeto e misericórdia.

Dizia-lhes, como traduz muito bem André Churaquy: “Em marcha os pobres em espírito..., em marcha os que choram...” Para Jesus, elas não são “pacientes” objetos de cura, e sim sujeitas do processo que interagem com o terapeuta. Houve um caso em que uma mulher conseguiu tocar suas vestes, sem ninguém notar, e ela sentiu-se curada.

Jesus também sentiu uma força dinâmica sair dele e quis saber quem a tocou. Quando ela se apresentou e contou tudo o que aconteceu em sua vida, Jesus a chamou de filha: “minha filha, a tua fé te salvou; vai em paz e estejas curada desse teu mal” (Mc 5,34). Jesus não queria apenas sua cura física, mas quis também a sua cura sociocultural. Quis devolvê-la à comunidade como exemplo de fé e de lutadora de dignidade.

O que Jesus fez não foi declinar um código moral, mas estabelecer novas relações com as pessoas que as restabeleceram por inteiro, beneficiando-as em sua saúde corporal, psíquica, social, cultural, política e religiosa. É assim que vive e se expressa a justiça divina ou, como diríamos hoje, sua ética terapêutica.

Hoje esta reflexão é avivada pela discussão dos princípios éticos, especialmente a bioética, como nos mostra José Antônio Ferreira num instigante artigo sobre o diálogo com as ciências da saúde (Bíblia e Saúde 1, 2009). Há certo consenso entre princípios como a beneficência, a autonomia e a justiça. O primeiro vem do pai da medicina ocidental, Hipócrates de Cós (460-377 aC), que disse que a finalidade da medicina é “aliviar o sofrimento do doente, diminuir a violência das suas doenças...”.

Esse princípio milenar da beneficência é complementado pelo segundo, da autonomia. O médico não é mais o único sujeito que faz o diagnóstico e determina sozinho o tipo de tratamento que o “paciente” – objeto - deve sofrer, mas ambos, médico e pessoa adoecida são sujeitos autônomos que estabelecem uma relação de parceria e amadurecem juntos as decisões e as escolhas cabíveis, respeitando os direitos de cada um.

O terceiro princípio que ajuda a humanizar as relações é o da justiça. Saúde é para todos e não somente para quem tem condições de pagar planos de saúde.
Há, porém, um quarto princípio particularmente significativo para nós latino-americanos: o princípio da alteridade, o respeito à diversidade de gênero, de etnia, cor, sexualidade, de ciclista e pedestre...

Pensar e agir a partir da vida dos pobres e excluídos e da situação de violência social que as pessoas estão submetidas é a única forma de não excluir ninguém. Princípio que também é estendido para o respeito à diversidade dos seres vivos e o respeito ao planeta Terra. Todas as espécies têm direito à vida.

Por último, um princípio que é caro aos cristãos, a sacralidade da vida humana, que vem da concepção de sermos “criados à imagem e semelhança de Deus”, assumidos pelo “Verbo que se faz carne e habitou no meio de nós”. Não há mais espaço para o sagrado separado da vida. No momento em que Jesus entregou o seu Espírito, “o véu do templo” que separava o santo dos santos, “se rasgou do alto a baixo”. Agora sagrada é a vida.

Há um fato narrado por Marcos que representa bem como Jesus aplicou este princípio ético na sua comunidade em Cafarnaum (Mc 3,1-6). Estava em meio à assembleia um homem da mão paralisada. Jesus o chamou para o meio, justamente onde se costumava ler e explicar a Sagrada Escritura. Depois de fazer a pergunta retórica se é permitido no sábado salvar a vida ou matar, pediu que ele estendesse a mão. Desta forma, Jesus colocou a Bíblia e o doente no mesmo patamar e sacralizou a vida humana.

Uma imagem que vem do hinduísmo, trazida a nós pelo jesuíta indiano Antony de Mello, pode nos ajudar a compreender a sacralidade da vida e de toda a criação. A terra é sagrada (Ex 3,5), a água é a sagrada (Jo 4,14), o ar é sagrado (1 Rs 19,12), o fogo é sagrado (At 2, 3).

Diz a tradição hindu que “Deus dança a criação. Ele é o bailarino e a criação a dança. A dança é diferente do bailarino, e, no entanto, não pode viver sem ele. No momento que o dançarino pára, a dança deixa de existir...” Não é Deus que precisa de nós, somos nós que precisamos Dele para seguir sendo a dança que cuida da vida, das pessoas, de si mesmo, da mãe terra...

Bibliografia:
Associação Brasileira de Homepatia Popular. Homeopatia Popular e Solidariedade Planetária; uma nova Saúde é Possível - Documento Base. Cuiabá: ABHP, 2007.
PASSOS, Luiz Augusto (org). O calor que nos une cura nossos corações. São Leopoldo: CEBI, 2010. (Série Palavra na Vida 274).
UETI, Paulo (org.). A vida é o que interessa. Bíblia, Saúde e outros ingredientes. São Leopoldo: CEBI, 2009. (Saúde e Bíblia 1).
UETI, Paulo (Org.). A terapêutica de Jesus. Corpo, poder e fé. São Leopoldo: CEBI, 2010. (Saúde e Bíblia 2).
 
* Padre jesuíta, Mestre em Teologia (FAJE/BH), coordenador do Centro Burnier Fé e Justiça, e professor no Studium Eclesiástico Dom Aquino Correia (SEDAC).

quinta-feira, 3 de março de 2011

Imposição de mãos sobre bispos marca comunhão plena entre moravos e anglicanos

Nova Iorque, quinta-feira, 3 de março de 2011 (ALC) - Moravos e episcopais anglicanos dos Estados Unidos formalizaram relação plena de comunhão, reconhecendo mutuamente doutrinas essenciais, como a do Batismo e da Eucaristia, a aceitação mútua do clero e a realização de trabalho conjunto de evangelismo e missão. As duas denominações continuam autônomas, mas interdependentes.

A relação plena entre as duas denominações foi oficializada em culto celebrado na Igreja Morava Central de Bethlehem, no domingo, 10 de fevereiro, informa o Serviço de Notícias Episcopal. Na celebração, bispos moravos impuseram as mãos sobre os colegas episcopais, ajoelhados em sua frente, e vice-versa. O ato simbolizou o recíproco reconhecimento e reconciliação dos ministros ordenados das duas denominações.

A primaz da Igreja Episcopal Anglicana dos Estados Unidos, Katharine Jefferts Schori, e os presidentes da Conferência de Anciãos Provinciais Moravos, pastora Elizabeth D. Miller, da Província do Norte de sua denominação, e o pastor David Guthrie, da Província do Sul, oficiaram o culto.

O acordo da plena comunhão reconhece mutuamente a validade das ordenações nas duas igrejas, um ponto controvertido no processo. A Igreja Morava não abriu o ministério ordenado a sacerdotes homossexuais, o que é possível na Igreja Episcopal dos Estados Unidos.

A Unitas Fratrum, ou Unidade dos Irmãos, que congrega as igrejas moravas do planeta, posicionou-se a respeito, alegando que a questão posta não é um assunto doutrinal, abrindo caminho, assim, ao acordo de plena comunhão.

"Sabemos que a solidez dessa relação de plena comunhão não depende de documentos nem das resoluções sinodais, mas de descobrir continuamente para o que Deus nos chama como seu povo, e de permitir que o espírito de unidade de Deus atue em nós", disse o bispo episcopal Steven Miller, da Diocese de Milwaukee e co-presidente da Comissão de Diálogo entre as duas denominações.

O diálogo entre as duas igrejas nos Estados Unidos começou em 1997, e desde 2003 acordaram a celebração conjunta da Eucaristia. A Igreja Morava conta com mais de 900 mil membros, em 19 países. Nos Estados Unidos ela é uma denominação pequena, concentrada nos Estados da Pensilvania, Carolina do Norte e Wisconsin.

Esse é o quinto acordo de plena comunhão da Igreja Episcopal Anglicana dos Estados Unidos. Os outros quatro acordos envolvem as igrejas Evangélica Luterana na América, da União de Utrecht, Independente das Filipinas e a Siria Malabar, da Índia.


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