domingo, 23 de maio de 2010

Sobre a morte e o morrer


Eduardo Ribeiro Mundim

Falar sobre a morte não é fácil. O tema logo provoca desconforto, habitualmente percebido por piadas mais ou menos sem graça, e risos forçados. Os jovens não querem nela falar, porque lhes parece irreal, longe, afeta apenas aos idosos e doentes. Os idosos e doentes frequentemente desejam comentá-la, prepararem-se para ela, para profunda consternação dos familiares e equipes de saúde. Aqueles a negam, na ilusão onipotente da juventude; estes a temem, na certeza de sua proximidade crescente à medida que os dias se passam.

Ela é um evento multifacetado. Várias faces, nenhuma resumindo o todo, e o todo não revelando os detalhes. Elas podem ser agrupadas por similaridade: a forma, o momento, as razões, as pessoas, as repercussões, o luto... Fome, doença, violência, ação estatal, decadência progressiva, etc.

É um evento profundamente humano, inescapável e onipresente.

Um conto lido recentemente marcou meu imaginário a respeito do tema. Provavelmente, ele apenas organizou pensamentos e leituras até então desconexos. Trata-se do “conto dos três irmãos”, de Joane K Rowlingi. Resumidamente: três irmãos bruxos iniciaram uma jornada, onde, a certo momento, encontraram um caudaloso rio. Não havia possibilidade de atravessá-lo à pé ou à nado, nem embarcação disponível. Juntos, conjuraram uma ponte, imediatamente concretizada. Após percorrerem metade da sua extensão, o caminho encontrava-se bloqueado por uma figura negra e encapuzada. Furiosa por não ter conseguido as três vidas (que era o evento habitual para os viajantes naquele ponto da estrada), a Morte se apresentou a eles, dando-lhes o direito de demandarem, individualmente, um desejo. O mais velho, orgulhoso, e o mais forte, exigiu uma varinha mágica imbatível, impossível de ser derrotada, digna daquele que a vencera. Do galho de uma árvore próxima, a Morte tirou um ramo, fabricando dele tal varinha, deixando-o passar. O segundo irmão, arrogante, desejando ampliar a humilhação da inimiga, demandou a capacidade de tornar à vida os mortos. Ela, pegando um pedregulho das margens do rio, infundiu-lhe tal poder, e a entregou. O mais moço a tudo observava, e desconfiado do drama que se desenrolava, pediu-lhe apenas que pudesse dali sair, sem ser achado por ela. Muito a contragosto, a Morte lhe entregou a própria capa. Os irmãos seguiram viajem, e se separaram no devido tempo. O mais velho tinha contas a ajustar com um conhecido. Procurou-o e o venceu em um duelo de mágicos, matando-o. Dirigiu-se a um bar na cidade, onde, em meio aos muitos copos de álcool, vangloriou-se do feito e de sua varinha. Pela madrugada, um dos ouvintes invadiu seu quarto, onde dormia profundamente, roubando-lhe a preciosa varinha. Apenas por precaução, degolou-o. E a Morte recebeu o primeiro irmão. O segundo, sozinho em sua residência, viu, através da pedra, uma moça que sonhara desposar anos antes. Resgatou-a do mundo dos mortos, trazendo-a para junto de si. Contudo, ela não se adaptava ao mundo dos vivos, e preferiu novamente morrer. Desesperado, e como única maneira de reunir-se verdadeiramente a ela, ele se matou. E a Morte recebeu o segundo irmão. Os anos se passaram, e por mais que procurasse, ela não encontrava o caçula. Já muito velho, família constituída até a terceira geração, tendo realizado o que fora possível, o mais novo retirou a capa, passando-a para o filho, e aguardou a Morte. Ela foi recebida como uma velha amiga, e, como amigos e iguais, ele partiu com ela.

Neste conto temos três mortes, três faces. O primeiro, seguindo o ditado popular, morreu como viveu, pela violência. O segundo, incapaz de fazer frente à impossibilidade do seu desejo, suicida-se. O terceiro, sabedor de que o encontro somente poderia ser adiado, viveu a vida com plenitude, e soube encontrar a morte no momento em que ela se encaixava na vida.

O propósito aqui, neste encontro, é refletir sobre a morte e a fé cristã, na sua vertente evangélica. A morte em relação a doença, e a vida como um preparo para a mesma. Estas são as faces que delimitam a presente reflexão.

E a primeira manifestação que vem à mente é o brado do apóstolo Paulo: “onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (I Co 15.55). A morte, torturadora por constituição, é uma inimiga a ser vencida. Mas será esta a única visão possível? Não será a morte nas Escrituras também multifacetada? Será ela sempre a antítese da vida?

A morte carrega o absurdo. O absurdo da não mais existência; o absurdo de chamar o João, falecido há pouco, de corpo; o absurdo de, vendo-lhe a face, não ver-lhe o espírito; o absurdo da cisão, da ruptura, da desagregação violenta de uma unidade bio-psico-espírito-social que se julgava indissociável. O paradoxo de continuar a ser sem um corpo físico, em outra dimensão, separado, na não existência para os que ficam.

A vida é valorizada do início ao fim das Escrituras. Numerosas são as referências bíblicas para desfrutá-la e todo um livro foi escrito para celebrar o amor entre um homem e uma mulher. Em momento algum ordena-se ou estimula-se o suicídio, e uma vida longa é entendida como abençoada. Contudo, mesmo como dom de Deus e dEle procedente, não é valor supremoii. Disto Elas também dão testemunho. O assassinato premeditado era punido, na Antiga Dispensação, com a pena capital, e não havia lugar na face da terra que tal assassino pudesse se refugiar – nem mesmo no altar. Se tal ocorresse, a ordem divina é que ele deveria ser arrastado de lá e executado (Ex 21.14). E mesmo uma vida inocente não valia o preço da apostasia. Sadraque, Mesaque e Abede-nego se recusaram a adorar a estátua de ouro de Nabuconodosor, sabedores da penalidade e do modo de execução (Dn 3), em uma época que a noção de ressurreição não existiaiii. Até então, o destino dos mortos era o “sheol”, o mundo subterrâneo onde não há lembrança de Deus nem o Seu culto, mas uma radical separação dEle – portanto, uma existência que não poderia ser chamada de “vida”iv. Sem nenhuma perspectiva de recompensa posterior, em outra vida, ou naquela, deixam claro ao rei, no julgamento, “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste.” (Dn 3.16-17)

Portanto, temos estes dois eixos: a vida como um dom precioso que não pode ser desperdiçado, e o seu não valor absoluto – há coisas mais valiosas.

As Escrituras são claras em aceitar como fato inquestionável a morte: ela vai ocorrer. Por razões que não nos dizem respeito, apenas dois seres humanos não a sofreram, Enoque e Elias. E Deus mesmo sabe o que ela significa, pois escolheu vestir toda a nossa humanidade em Jesus, sofrendo não só a fome, como a espada e a morte em uma versão cruel e sádica. Ainda que seja um terreno pouco firme usar a atitude dEle diante da morte como parâmetro para nós, é digno de nota o Seu apelo: “se possível, passa de mim este cálice” e “que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” (Jo 12:27). Ainda que seja dito comum de que a morte entrou no mundo através do pecado adâmico, diversos comentaristas apontam que não havia promessa de imortalidade no Éden, e que a morte aconteceria após um longo período de vida frutífera e felizv.

Dentro dos limites propostos, temos a morte como consequência à doença. E nos dias atuais, uma questão é saber quando alguém morreu. Não há dúvida quando o corpo está rompido por um acidente, ou em estado de decomposição. Mas quando a morte (a ruptura bio-psico-espírito-social) chega? Algumas respostas a esta questão são avaliadas pela implicação imediata no extremo oposto: quando a vida começa? Se é possível perscrutar as Escrituras em busca da resposta à segunda questãovi, elas não nos auxiliam na primeira; dependemos exclusivamente de outras fontes para respondê-la.

O avanço tecnológico permite que se mantenha um coração batendo em um corpo incapaz de respirar por si mesmo e sem nenhum contato consciente (e talvez inconsciente) com o mundo exterior (e interior); ou um corpo vivo, que respira espontaneamente, mas absolutamente inconsciente. Paradoxos ocorremvii: “mãe em morte cerebral dá à luz e morre” (é possível um cadáver dar à luz?). Progressos médicos históricos acontecem em um vazio éticoviii: o primeiro transplante cardíaco foi realizado quando não existia o critério de morte encefálicaix. E esta não é uma unanimidade entre os técnicos, a ponto da Federação Evangélica Francesa chamar a atenção para o fato de que “morte encefálica não pode ser considerada por algumas pessoas ou culturas como a verdadeira morte. É um evento mais do que uma realidade.x” E adeptos de teorias conspiratórias vêm nele apenas um mecanismo de lucro no “negócio de transplantes”xi.

Portanto, questões prementes carecem de aprofundamento em todas as áreas do conhecimento (e não somente na de saúde) e aguardam a contribuição cristã evangélica equilibrada, filosófica e abrangente. Por exemploxii:
  1. Quando morre um ser humano?
  2. Quando é lícito deixar de intentar manter vivo um ser humano?
  3. Quando é lícito extrair órgãos de um ser humano com o fim de transplantá-lo a outro?

Na tradição ocidental, a partir da queda do Império Romano, o comportamento em relação àquele que está para morrer, segundo o conhecimento médico do momento, pode ser, genericamente, dividido em quatro fasesxiii:
  1. a da Idade Média, onde prevaleciam os cuidados espirituais, com pouca efetividade sobre os sintomas orgânicos, incluindo a dor;
  2. a do modelo biomédico cartesiano do século XVII, onde a tendência era o abandono por não haver conhecimento suficiente para enfrentar as enfermidades terminais de então;
  3. a do progresso biotecnológico da segunda metade do século XX, onde, após o acúmulo progressivo do conhecimento biológico associado à capacidade de conceber e realizar, resultou na obstinação terapêutica e isolamento daquele que está a morrer;
  4. a da época dos cuidados paliativos (de inspiração cristãxiv), a partir da década de 60, com a busca de se implementar uma série de cuidados planejados buscando atender à todas as necessidades da pessoa “em fase final” (incluindo as biológicas, psicológicas e espirituais) buscando uma melhor qualidade de vida e de morte.

Sendo a morte evento certo, apenas adiável por um período de tempo, não seria arrogância, como aquela do Éden quando o limite imposto foi recusado, esforços médicos heroicos e desesperados, efetuados em nome de uma mínima chance de vida futura e com qualidade questionável? Não seria arrogância a expectativa de um milagre final, evento raro estatisticamente falando? O não deixar morrer interessa a quem: à família, com dívidas por saldar? Ao moribundo, em nome de uma possível “aceitação do Evangelho” nos momentos finais de vida? O que é terapêutico (útil para o paciente)? O que é iatrogênico (causador de mal desnecessário)? O que é útil e o que é fútil?

Qual o impacto que a realidade da ressurreição traz sobre o nosso modo de ver a morte e para ela se preparar? Estamos prontos para vê-la como uma passagem para uma realidade melhor, ainda que desconhecida? A confiança em Nosso Pai Amoroso, definido como sendo Amor (I Jo 4.8), é suficientemente poderosa para que enfrentemos com confiança o desconhecido, terra donde nenhum homem jamais voltou – apenas Jesus? Desejamos ardentemente o corpo espiritual, sucessor deste carnal, cujo exemplo único é aquele testemunhado pelos apóstolos e os seguidores mais próximos?

O momento da morte é cheio de fantasmas: a possibilidade da dor, do isolamento, da falta de significado. Não serão eles que justificam a eutanásia ativa (o fazer morrer, ao contrário da passiva, o deixar morrer), buscando preservar a dignidade da pessoa? Como sustentação deste ponto, há o exemplo do Lar Nossa Senhora da Conceição, dedicado aos cuidados paliativos, onde não houve solicitação de eutanásia ou de interrupção de tratamentoxv, por 14 anos. Cuidados paliativos são definidos como um conjunto de ações multiprofissionais orquestradas que melhoram a qualidade de vida dos pacientes e de seus familiares através da identificação e alívio do sofrimento em suas diferentes dimensões (física, mental, social e espiritual), tratando enfermo e família como uma unidade de tratamento, privilegiando as vivências e valores subjetivosxvi. A equipe deve revestir-se de compaixão, “o não ter medo do sofrimento outro e assumi-lo dentro de si sem deixar-se nele naufragar”. E para isto é necessário que quem cuida “não tenha medo de frequentar seus próprios momentos de luto, de ruptura e de crise”, de tal forma que seja confiante na impermanência desta atual forma de vidaxvii.

A “boa morte” talvez possa ser definida como aquela que ocorre em circunstâncias ondexviii:
  1. viveu-se o máximo do potencial biológico, emocional, espiritual, vocacional e social;
  2. manteve-se alerta e independente até onde foi possível;
  3. o conhecimento sobre suas condições estava disponível para ser apropriado ou não, conforme o desejo da pessoa;
  4. o acompanhamento foi realizado por profissionais competentes, seguros e sensíveis;
  5. a pessoa foi o juiz final de tudo aquilo que lhe dizia respeito;
  6. foi possibilitado o uso criativo do tempo;
  7. as necessidades e temores dos familiares foram também tratados profissionalmente com segurança, competência e sensibilidade, antes, durante e após o óbito;
  8. houve conforto, dignidade e paz.

Desta forma, morrer continua sendo um ato solitário, assim como o nascer, mas somente naquele ponto em que estas vivências não podem ser vividas por outro, apenas por aquele que a experimenta.

iRowling JK Os contos de Beedle, o bardo Editora Rocco, RJ, Rio de Janeiro, 2008
iiiBrown C Ressurreição em Colin Brown (ed) O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, vol IV, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, pg 162, 1989
ivDavids PH Habitação dos mortos em Walter A Elwell (ed) Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol II, Edições Vida Nova, São Paulo, SP, pg 559-60, 1990
v
viiValls ALM Repensando a vida e a morte do ponto de vista filosófico, em www.ufrgs.br/bioetica/morteamv.htm
viii Valls ALM op. cit.
ixResolução do Conselho Federal de Medicina 1480/1997, disponível em http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/1997/1480_1997.htm
x Collange JF, Hentz JG, Lehmkuehler K, Olekhnovitch L, Rive JP, Schweitzer L, Sicard D États généraux de la bioéthique 2009 - Éléments de réflexion proposés par la Commission Église et Société de la FPF, disponível em http://www.protestants.org/index.php?id=31566
xiVer, por exemplo, o blog www.juliosevero.com pesquisando o termo
xiiValls ALM op. cit.
xiiiPeralta A Enfermedad terminal em Juan Carlos Tealdi (dir) Diccionario latinoamericano de bioética, vol III, UNESCO – Red latinoamericano e del Caribe de bioética, Universidad Nacional de Colombia, pg 492-495, 2008
xiv Hennezel M e Leloup JY A Morte de morrer, 5ª ed, Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 2002
xvi Simone G Cuidados paliativos em Juan Carlos Tealdi (dir) Diccionario latinoamericano de bioética, vol III, UNESCO – Red latinoamericano e del Caribe de bioética, Universidad Nacional de Colombia, pg 87-88, 2008
xvii Hennezel M e Leloup JY op. cit.
xviii Peralta A op. cit.

domingo, 16 de maio de 2010

Ação política de cristianizados ou cristãos políticos?

Eduardo Ribeiro Mundim

Qual era o propósito de Jesus para a Igreja, enquanto conjunto dos salvos, em meio a sociedade? Em nenhum momento Ele ordenou o desenvolvimento em separado; em nenhum momento interditou aos seus discípulos a participação na condução dos negócios "mundanos" - não há contradição entre o ser cristão e a atividade política legítima! Mas como deveria ser esta participação?

Na sua evolução histórica, a igreja se alia ao governo civil, e passa a obter dele vantagens: segurança institucional, segurança teológica através da violência estatal (legitimada pelos padrões da época), propriedades. Em troca, subserviência política e apoio irrestrito. Evoluiu ao ponto de se identificar com ele, através dos "estados pontifícios".

Ser cristão passa a ser identificado com o ser batizado na infância, e não uma escolha adulta, madura, fruto da convicção "do pecado, da justiça e do juízo" e do poder perdoador e santificador da morte e ressurreição do Senhor. Portanto, a sociedade se torna repleta de pseudocristãos, e a igreja conta com o Estado para impor seu padrão de conduta a todos, indistintamente. Isto é cristianização...

Entendo que o caminho adotado foi um equivoco, e grave. Equivoco estratégico, do ponto de vista missionário (porque pregar o Evangelho passa a ser também levar o poder público que o financia a reboque) e equivoco teológico, pois a mensagem das Escrituras é adaptada para não ameaçar o poder político dominante. O Diabo efetuou uma jogada de mestre, se é verdade que o imperador romano Constantino viu aquela cruz com a mensagem de vitória...

Entendo que o caminho apontado por Jesus e por seus apóstolos é o da Igreja como sociedade alternativa. Luz e sal para a grande sociedade. Mostra de um caminho melhor no relacionamento entre as pessoas, no trato da propriedade comum, no uso da decisão conciliar, do convencimento pela argumentação no lugar da imposição pela força.

Entendo que o cristão deveria servir aos seus concidadãos, e não buscar proveito pessoal, ou para seu partido político que não fosse legítimo e em igualdade de condições com aqueles que não exercem, no momento, o mandato popular para governar.

Entendo que o cristão deveria defender a moral cristã, dando mostras em si mesmo e através da comunidade dos remidos, de como os efeitos dela são superiores aos da moral secular vigente. Entendo que é um erro tático, do ponto de vista missiológico, e um erro teológico, a imposição dos nossos valores àqueles que não participam do corpo e do sangue de Nosso Senhor.

Entendo como diabólica a busca por privilégios denominacionais na esfera pública. Entendo como não condizente com o Evangelho o uso dos recursos estatais para dificultar ou suprimir outras manifestações religiosas contrárias ao Evangelho.

Entendo que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja enquanto Corpo de Cristo, mas que, muitas vezes, as instituições criadas pelos cristãos atuam segundo os preceitos do Diabo.

Que o Senhor nos renove, nos converta e nos ponha nos caminhos do Seu Reino. Amém.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A tecnociência é a parteria da pós-humanidade, afirma filósofa argentina

Edelberto Behs


Quarta-feira, 12 de maio de 2010 (ALC) - Futurólogos preveem que antes do final do século XXI desaparecerá o último humano da face da Terra, dando lugar aos cyborgs, seres biológicos e maquínicos, anunciou a filósofa argentina Esther Diaz, professora da Universidade Nacional de Lanús.

"A tecnociência é a religião global de hoje e a saúde é o seu bem maior", disse Esther na segunda-feira, 10, para uma platéia de professores e estudantes da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, ao falar sobre "O desejo e a ética como base para a investigação e a docência universitária".

A ciência, enfatizou Diaz, é muito mais do que conhecimento, porque ela lida com o poder. Daí que a biopolítica, ou o biopoder, quer o controle da vida, da saúde, do sexo, da morte.
Antigamente, quando o coração parava de bater era o indicativo de que a pessoa estava morta. Hoje, um aparelho marca o momento da morte encefálica. Na atualidade, a pessoa não morre mais em casa, numa cama rodeada de parentes e num ambiente familiar, mas morre numa Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), solitariamente.

Hoje, o biopoder atua sobre a vida, como aconteceu nos campos de extermínio, e atua sobre a morte, como se verifica nas unidades de terapia intensiva. As UTIs não passam de locais onde se espera a morte, disse.

Se no passado cabia às religiões aspirarem a vida eterna, hoje é a técnica que almeja a vida eterna biológica, disse Diaz. "As promessas de salvação não vêm mais do mundo religioso, mas do mundo científico", agregou.

As pessoas passam a ser, então, uma fusão de natureza e técnica, início da era pós-humana. "A técnica, hoje, se introjeta no corpo por manipulação genética, implante, transplante", arrolou a palestrante.

Parodiando Karl Marx – "a violência é a parteira da história" – a filósofa argentina mencionou que "a tecnociência é a parteira do pós-humano".

Embora o poder tente convencer a humanidade de que a ciência é neutra, universal, é preciso questionar a racionalidade científica, brigar para que a ética perpasse a ciência, e ter claro que a ciência não é neutra nem universal.

Enquanto a Aids se restringiu ao continente africano, o vírus HIV mereceu pouca atenção da indústria de fármacos. Assim que a pandemia chegou a países desenvolvidos, o quadro mudou, ganhou pesquisas e medicamentos, apontou a filósofa, ressaltando, assim, que a ciência não é universal nem neutra, que ela não está aí para todos da mesma forma.

Não se trata de negar a técnica e a ciência, frisou, mas de pensá-las, questioná-las e definir que papel elas desempenharão no futuro.

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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Por que não é difícil compreender os cristãos de esquerda?

 
Joanildo Burity

A desigualdade natural entre os seres humanos é um velho pensamento. Segundo sua lógica, haveria uma ordem das coisas, definida por Deus de antemão e para sempre, e tal ordem é assimétrica: pessoas nascem para mandar, outras para serem oprimidas; pessoas nascem para ter, outras para viverem em privação; pessoas nascem para serem livres, outras para serem escravizadas. O curioso é que o primeiro termo em cada categoria é sempre reservado a um pequeno número e o outro é reservado à grande maioria. Um cinismo fatalista anuncia que esta é a lei da vida e que os perdedores precisam se conformar e tocar os dias à espera da morte. Parte considerável desta atitude tem sido elaborada e defendida em nome da religião. O cristianismo não é exceção. Respeitáveis figuras da história do cristianismo são parte desta visão: ofereceram o céu, no além-túmulo, como lugar onde os miseráveis da terra poderiam esperar compensação por seu infortúnio. Alguns foram às raias do requinte e trabalharam na defesa de Deus (afinal, que Deus poderia patrocinar tamanho escândalo?) na linha da retribuição: se muitos sofrem é porque merecem – ou são moralmente reprováveis, ou são incapazes, resignados, estúpidos, incrédulos. Teologias da desigualdade natural.

Por outro lado, a história humana é violentamente marcada pelas lutas em torno de manter estruturas assentadas na desigualdade ou transformá-las. Não é difícil entender como lutar para manter ou romper a desigualdade tem diretamente a ver com lutar contra ou a favor da liberdade. Isso já nos deveria chamar a atenção para um problema na teologia da desigualdade natural: por que as pessoas resistem? Por que se insubordinam? Ou por que outras, não sendo elas mesmas vitimizadas pela miséria, opressão, discriminação e pelo desprezo, sentem indignação quando veem outros seres humanos sofrerem, independentemente de sua fé? Por que os teólogos e seguidores da desigualdade natural tantas vezes reagiram com impaciência, ira e violência à recusa, por pacífica que fosse, dos desiguais em aceitarem seu destino? Estranho, não? Somente os “de baixo” são desiguais!

Respondo: porque há algo profundamente não-natural no fato de que seres humanos criados pelo mesmo Deus sejam considerados superiores e inferiores entre si e diante de Deus. Porque essa desigualdade foi o resultado de processos históricos concretos e não de um decreto divino atemporal. Porque nem sempre foi assim, não em toda parte, nem em todo tempo. Porque na história da religião judaico-cristã (especifico apenas porque não há espaço para explorar outras tradições religiosas) há um conjunto de imagens, ideias e ideais que explicam perfeitamente o que pode levar à denúncia da desigualdade; à necessidade de construir instituições sociais falíveis e imperfeitas como uma resposta positiva a um Deus que é visto como justo, amoroso e altruísta, mas capaz de tomar partido; à idealização de futuros que nunca chegam, mas que fazem de todo presente um momento de decisão sobre o mundo em que queremos viver. Não são poucos os que, a partir de dentro, bem do fundo desta tradição judaico-cristã, ousaram, inspirados na salvação, no céu e/ou no reino de Deus, chamar a isso de socialismo. O socialismo tem raízes profundamente religiosas, disso sabiam mesmo Marx, Engels, Rosa, Gramsci, mas sobretudo cristãos: franciscanos, valdenses, Munzer e os anabatistas, Maurice, Kingsley, Carlyle, Barth, Tillich, Shaull.

Assim, a despeito de todas as distorções, desmandos e erros cometidos em nome do socialismo tanto quanto em nome do cristianismo, muitos permanecem convictos de que a luta contra a desigualdade vai além dos limites das experiências concretas que buscam enfrentá-la. Seu compromisso, sua leitura da realidade e seus valores não os permitem ignorar o desafio moral e político da opressão. Mas entre estes estão os que interpretam tais posições à luz de sua fé cristã. Não é difícil entender.

Numa edição anterior de Ultimato, Norma Braga varreu para debaixo do tapete tudo isso e se escandalizou com o fato (ao menos isso ela reconhece) de que haja tantos cristãos socialistas ainda hoje. Ignorando que a história das ideias de justiça e igualdade neste mundo está recheada da militância e do sacrifício de milhares de cristãos fieis a Deus, cuja memória temos o dever ético de respeitar, ela julga que os socialistas cristãos são partidários de César. Ora, da Europa nazista à Cuba de Porfírio, Nicarágua de Batista, Angola e Moçambique coloniais, África do Sul do apartheid, o pouco de decência que se tem podido oferecer àqueles povos, ao longo de acidentadas histórias, teve contribuições nunca ausentes desses cristãos socialistas, comunistas e anarquistas. Sua memória não pode ser desprezada e pisada impunemente, em nome de uma leitura torta da liberdade sem o grito da justiça.

Por não achar que o socialismo é a única forma histórica possível de expressão política dos valores bíblicos e cristãos, respeito a opinião de Norma Braga e defendo seu direito a defendê-la. Mas insurjo-me contra sua visão desmemoriada e despolitizada da militância cristã, que se dá num mundo de escolhas preto-no-branco, sem história e sem contingência, sem finitude, mas também sem o gosto e o risco da liberdade e da decisão. Confunde ação eficaz com pregação evangelística. Não é à toa que se autodenomina "missionária de ideias". Bonitas palavras, mas não moverão um milímetro das relações e estruturas que asseguram a desigualdade brutal do Brasil e as poderosas forças que movem o capitalismo contemporâneo em escala global.

A julgar pelas orientações dadas por Norma, Deus precisa mesmo ajudar a igreja brasileira a saber discernir entre a legitimidade das opções históricas e a pretensão de deter um oráculo divino para guiar o destino do mundo. A “genuína cosmovisão cristã” é um projeto plural, resultante de encontros e desencontros de centenas de gerações de cristãos com suas condições históricas e sociais reais. Ninguém tem como resumi-la em fórmulas sintéticas ou pretender ter a chave para separar o joio do trigo. Enquanto isso, milhares de cristãos vão ousando aliar suas esperanças por um mundo mais justo e livre com velhos sonhos de igualdade e emancipação, que sempre escapam às realizações concretas em cada tempo e lugar. Sonhos de socialismo, por que não?


• Joanildo Burity é doutor em ciência política, anglicano e professor na Universidade de Durham (Inglaterra). Escreve mensalmente no blog www.novosdialogos.com.

domingo, 2 de maio de 2010

Evangelização ou cristianização

Eduardo Ribeiro Mundim
Já faz algum tempo que este tema me incomoda. Reportagem recente sobre a última viagem de Bento XVI trouxe uma frase sobre a ilha de Malta: "...cristianizada pelo apóstolo..." E um pré-candidato à presidência da república afirmou, em evento com evangélicos, que a igreja evangélica é importante para a cristianização da sociedade. Será que os dois termos são sinônimos ou expressam diferentes realidades?


Particularmente entendo evangelização como o ato de divulgar o Evangelho de nosso Senhor ressurreto, Cristo Jesus, de modo a possibilitar, a quem com ele toma contato, a possibilidade de livre escolha: aceito ou não o sacrifício voluntário de Jesus na cruz, morrendo a minha morte, pagando o preço do meu pecado? A escolha entre sim e não é informada, livre de constrangimentos de qualquer natureza, que deve acarretar modificações de maior ou menor monta na vida daquele que diz sim (depende de sua história de vida e inserção social); eventualmente, pode significar perda de prestígio, de poder econômico, de poder político, de familiares, e, em alguns rincões, da própria vida.

Esta aceitação, ou nascer de novo no jargão tradicional (emprestado do diálogo entre o carpinteiro Jesus e o fariseu Nicodemos em Jo 3), não é uma troca ou um negócio: minha aceitação do sacrifício para que eu receba a vida eterna; ou receba a bênção A ou a bênção B. Ela é absoluta no sentido de que nada se espera em troca; absoluta porque consequência de uma convicção profunda que nada pode exigir frente à monstruosidade do meu pecado e a imensidão da graça do perdão gratuito e imerecido ofertado pela cruz e pelo túmulo vazio.

Ela é livre por demanda do próprio Senhor Jesus, que livremente aceita a paixão mesmo sabendo que a esmagadora maioria da humanidade a recusará (a partir da ótica do livre arbítrio, por amor de toda a humanidade mesmo daquela porção que negará Seu sacrifício e Seu senhorio). Livre por Sua demanda porque há um preço a pagar - na verdade, consequência ética óbvia. Quem rouba, que não roube mais;quem mente, que não minta mais. Um processo permanente de revisão de vida e de adequação, às vezes sofrida, à ética do Reino de Deus. Este não é a minha parte no acordo - é consequência necessária de toda confissão verdadeira.

Cristianização é quando a ética do Reino é imposta àqueles que não confessam que Jesus morreu pelos seus pecados. É o estabelecimento, por coerção moral, legal ou violenta, das normas do Reino àqueles que não as desejam e que não escolheram viver sob elas. Junto delas vêm os símbolos, as histórias, as datas...

Enquanto evangelização é um dos mandamentos divinos (e não o único, ou o mais importante), cristianização é uma deturpação diabólica, porque traz a aparência de conversão, mas os corações continuam afastados do Evangelho, intocados por Ele. Provavelmente, cristianização é uma pedra de tropeço à evangelização, e imensa.

Muitos acreditam que a salvação da sociedade moderna, que jamais será majoritariamente cristã, seja sua cristianização, que a tornaria menos imperfeita.

Contudo, a história não é evidência desta esperança. Iniciando com o império romano após Constantino, todas as vezes em que a cristianização foi posta em prática, houve violência, sangue, dor e morte. Vide a idade média e as guerras de religião na Europa, assim como a invasão das Américas.

A aliança com Israel é, de certo modo, o protótipo da cristianização. Como ela era? As crianças nasciam no seio de uma sociedade já pronta, com toda cultura e religião, e não a escolhiam; eram forçadas a ela. E qual o juízo dos profetas sobre ela? Que Deus era honrado com os lábios, e não com os corações; que estes eram de pedra, e não de carne. Que havia ajuntamentos solenes, de adoração e culto, os quais Ele não podia suportar pela hipocrisia e falsidade.

A segundo aliança, feita pelo sangue e corpo de Cristo, é o protótipo da evangelização. Adere quem quer, quem atende ao chamado, modificando a si mesmo e, à medida da graça divina, o microambiente imediato no qual esta inserido.

Creio que o mundo está farto de cristianização...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Está na hora de repensar o testemunho evangélico III

Eduardo Ribeiro Mundim

A igreja evangélica cresceu, e cresce, pela evangelização. Esta preocupação, que varia de intensidade entre as diversas denominações e mesmo entre as igrejas locais de uma mesma denominação, é uma das características que a distingue da católica."É necessário nascer de novo", afirmação de Jesus ao fariseu Nicodemos (Jo 3.7) é a motivação básica e razão da, muitas vezes agressiva, pregação do Evangelho.

Nós, cristãos evangélicos, entendemos que as Escrituras ensinam que não é a mera informação do seu conteúdo, o ensino caprichado das doutrinas ou mesmo a leitura caridosa e atenta delas que fazem de uma pessoa um cristão. Nem mesmo o batismo, seja infantil ou adulto. Mas uma operação efetuada pelo Espírito Santo no interior de cada um, que leva o indivíduo à convicção plena de que a morte de Jesus ocorreu no lugar dele, individualmente; que era ele, indivíduo, que deveria morrer em função dos pecados, mas Jesus o substituiu. A informação do fato, a explicação de toda a história, o embasamento bíblico dos fatos é necessário, mas o assentimento intelectual sozinho não parece ser suficiente, sendo necessária uma radical transformação, na pessoa como um todo.

O temor do inferno, e a certeza do destino dos não-cristãos, é, provavelmente, outro responsável pelo estilo evangelizador.

Contudo, não é o medo do inferno, ou o desejo do céu, a motivação para se tornar um cristão. Como bem citou Peter Rollins em seu interessante e provocador livro "How (not) to speak of God" a única razão válida para tal é uma profunda paixão por Jesus Cristo e Sua mensagem, nada mais - sem expectativa de recompensa, sem medo de castigo.

Ocasionalmente um(a) paciente ou outro(a) queixa de, ao ter buscado o doutor(a) X, teve de ouvir um sermão sobre "como sua vida mudaria se fosse se entregasse a Jesus". Nos dizeres de uma senhora, "eu nem mesmo tive tempo de abrir a boca e falar alguma coisa; ele já foi falando!"

Pode um médico, ou qualquer profissional da área de saúde, usar o espaço do atendimento para evangelização desta natureza? Será isto "testemunhar o evangelho" de modo autêntico?

Acredito que não.

Considero o espaço do meu consultório como "santo". Separado para um auxílio de natureza personalíssima, em que uma pessoa me procurará para obter informação e auxílio sobre sua saúde. Serei remunerado por este auxílio, fonte do meu sustento e de minha família. Esta pessoa me procurará habitualmente em situação de fragilidade, muitas vezes com sofrimento orgânico e psíquico. Confiará em mim, exporá situações de sua vida privada que não me é permitido revelar a ninguém (salvo por estrito dever legal).

Sou apaixonado pela mensagem da cruz. O meu Deus é aquele que se transforma em um igual e vive a vida que eu vivo, incluindo a sua pior faceta (que, espero, jamais viverei). E o faz por amor. Deixa de ser Deus para ser homem e morrer anonimamente uma morte vergonhosa (ao contrário dos quadros, os crucificados eram despidos completamente), dolorosa; no lugar de um ombro amigo e de uma mão segurando a sua no momento final, apenas escárnio da multidão e o acompanhar impotente de poucos amigos e de sua mãe.

Seu amor me obriga a receber o paciente como ele(a) vem, em uma atitude terapêutica em que ouvir primeiro é essencial, saber o que falar, quando falar, porque falar e como falar uma obrigação. Substituir o ato médico executado desta forma por um discurso chavão, pasteurizado, é um insulto ao Seu amor e um testemunho a pessoa que sofre da minha insensibilidade ao seu sofrimento...Nada mais contraditório, nada mais anticristão.

Somente o discurso que nasce da empatia com o(a) outro(a) (e para isto é necessário escutá-lo(a)), honesto, compromissado com seu sofrimento, sem ofertas fáceis e mágicas, compreendendo e aceitando a dureza da vida, e oportuno segundo a necessidade que o(a) leva até o médico será realmente evangelizador, testemunho do amor dEle e da capacidade de transformação (não das circunstâncias da vida, sejam econômicas ou sociais, mas do modo de vida e da capacidade de confessar-se um pecador) do Evangelho. O contrário é um insulto, a ele(a) e ao Evangelho do Senhor.

O mistério dos ateus criacionistas da Terra Jovem

Foi um bocado interessante ver os dados da recente pesquisa Datafolha sobre a crença em Deus e a aceitação da teoria da evolução no Brasil. Não sei quanto a vocês, mas o resultado geral me pareceu mais digno de ser considerado boas novas do que más notícias: a proporção de pessoas que vê pelo menos algum espaço para a evolução em seu universo mental é bem superior por aqui do que nos EUA, por exemplo. Levando em conta o que se conseguiu em educação científica lá e cá, é uma boa surpresa. Mas resta um mistério e, sinceramente, não faço a menor ideia de como explicá-lo: o que poderíamos chamar de ateus criacionistas da Terra Jovem. Ou seja: os 7% dos ateus que disseram concordar com a frase "Deus criou os seres humanos de uma só vez praticamente do jeito que são hoje em algum momento nos últimos dez mil anos".
Ora, essa é justamente a definição de um criacionista da Terra Jovem, crente na narrativa bíblica de Adão e Eva, ou algo similar. Quase tão maluco quanto isso é o fato de que 23% dos ateus concordaram com a frase "Os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos evoluídas de vida, mas com Deus guiando esse processo de evolução". Como alguém se diz ateu e ainda assim acha que Deus participa da evolução (sem falar dos que acreditam em Adão e Eva) é algo que me escapa.
O teólogo Eduardo Cruz, da PUC-SP (aliás, ferrenho defensor da teoria da evolução, embora religioso), chegou a propor, na mesma edição, uma hipótese sobre o fenômeno: "O que pode se supor é que o grosso da população brasileira forme suas opiniões não nos jornais, nos cultos ou na escola, mas a partir de uma vaga consciência cristã-católica tradicional que ainda pervade nossas mentes. Valeria o mesmo para os ateus? É claro! Se fosse pelos líderes, tipo Richard Dawkins, poderia se esperar que 100% das respostas seriam C [ou seja, evolução sem 'ajuda' de Deus]. Só 56% o indicaram."
Faz sentido, mas outro ponto importante é que certas questões são filosoficamente complicadas demais, nuançadas demais, para que seu conteúdo seja capturado por pesquisas de opinião. O que significa "Deus guiando" o processo evolutivo, por exemplo? Criar condições no "setup" do Universo para que a vida se desenvolvesse, por exemplo, é "guiar"? É preciso intervenção direta? A intervenção direta precisa ser "detectável"?
Convido o leitor a especular sobre esse divertido e profundo paradoxo nos comentários.
Escrito por Reinaldo José Lopes às 20h18

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Definição de ateísmo

Em minhas discussões com ateus, eles argumentam que “não possuem crença em Deus”. Argumentam que isto é diferente de dizer que não acreditam em Deus ou de afirmar que Deus não existe. Não estou certo da melhor forma de responder a esta questão. A mim, parece que estão fazendo um jogo tolo de palavras que, na verdade, têm o mesmo significado – eles não creem em Deus. Qual seria uma boa resposta a esta questão? Obrigado, Steven...

Dr. William L. Craig, responde:

Seus amigos ateus estão certos no sentido em que há uma importante diferença lógica entre crer que Deus não existe e não possuir a crença de que Deus existe. Artigo completo

sábado, 17 de abril de 2010

E se o cristianismo fosse ilegal?

"Lembro-me de ter visto um adesivo que dizia: 'se o cristianismo fosse ilegal, haveria evidência suficiente para condená-lo?'. Naquela noite eu tive um sonho verdadeiro, e fui convocado à presença de um juiz.

A acusação tinha um caso contra mim. Eles iniciaram oferecendo ao juiz dúzias de fotos onde eu comparecia à igreja, falava em eventos religiosos, participava de orações e louvor. Após, ofertaram  como evidência livros religiosos que eu lera, seguidos por CDs religiosos e botons. Aceleraram o passo e revelaram a corte alguns poemas, textos e anotações de diário que eu escrevera sobre fé. Então, para terminar, a acusação torceu a faca que brilhantemente estavam usando na ferida, oferecendo minha bíblia ao juiz.  Um livro bem encapado, rabiscado, anotado, cheio de desenhos e todo sublinhado - evidência, se fosse necessária, que eu havia lido e relido este livro sagrado.

Durante a apresentação, eu fiquei sentado, tremendo, com medo, impregnado de suor. Sabia, do fundo do coração, que com aquelas evidências contra mim, prisão, ou mesmo a morte, era uma forte possibilidade. Em muitos momentos, eu estivera, por um fio, a levantar e negar Cristo. Mas enquanto esta ideia me assombrava, resisti a tentação e mantive-me centrado.

Após a acusação ter encerrado seu caso, o juiz inquiriu-me se havia algo que desejava acrescentar, mas permaneci em silêncio e resoluto, aterrorizado que, caso abrisse minha boca, seria suficientemente fraco para negar as acusações contra mim. Sou, então, levado enquanto o juiz analisa meu caso.

Após cerca de uma hora, sou novamente convocado de volta a sua presença para ouvir o veredito e a minha sentença. O juiz entrou na sala, ficou defronte mim, olhou profundamente nos meus olhos e declarou: 'das acusações apresentadas eu o declaro inocente'.

'Inocente'. Meu coração para. Então, numa fração de segundo, meu medo e terror são transformados em confusão e raiva. Apesar de mim mesmo, permaneci à frente do juiz e exigi que explicasse porque era inocente das acusações com todas as evidências apresentadas.

'Que evidências?', ele perguntou chochado.

Comecei apontando os vários poemas e as anotações no diário, mas ele simplesmente disse que elas mostravam que eu tinha jeito com as palavras.

Então, falei dos encontros onde discursara, nos cultos que participara e nas conferências que assistira.

Mas novamente ele sorriu simplesmente e disse-me que eram evidências de ser um orador público e com tendências a ator, representando ser o que não era - nada mais. E acrescentou que aquelas bobagens jamais poderiam me condenar.

O sonho termina com ele olhando-me nos olhos, como se informasse de um grande segredo, a muito esquecido: 'a corte é indiferente as suas leituras bíblicas e idas à igreja; não há preocupações em adorar com a boca e com a caneta. Permaneça desenvolvendo sua teologia e pintando telas de amor. Não temos interesses em artistas igrejeiros que usam seu tempo criando imagens de um mundo melhor. Nós existimos para aqueles que desistem da própria vida de modo semelhante ao de Cristo para criar um mundo como aquele.' "

traduzido de How (not) to speak of God, de Peter Rollins, pag 124-5

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Ciência como religião

Eduardo Ribeiro Mundim

Em texto recente (1), concordei com Euler R Westphal que a ciência ocupa o espaço da religião. Baseado emr outro autor (2), pretendo dissecar um pouco mais esta afirmação.

Segundo ele, o que une todas as religiões "é o esforço para pensar a realidade toda a partir da exigência de que a vida faça sentido" (pg 8). Dar sentido significa explicar, dar um esquema de pensamento sobre algo, tornar algo aceitável e compreensível. Frente ao mistério da existência busca-se um sentido. Provavelmente todo ser humano, ao longo de sua existência, pelo menos uma vez se perguntará "de onde eu vim?", "para onde eu vou?", "a morte é tudo?". Estas questões são tão sérias que a biologia tem uma subárea específca, o evolucionismo, que se propõe a responder, como pode, a primeira questão. Estas questões são tão sérias que o homem dedica parte de sua atividade racional, objetiva e supostamente imparcial para analisar algo que não se transformará em produto comercializável, não será vendido, não subsidiará diretamente medicamentos... mas dará uma resposta. A teoria da evolução, neste particular, é um exemplo do que ele afirma ao final da página 11: "o que ocorre com frequência é que as mesma perguntas religiosas do passado se articulam agora, travestidas, pormeio de símbolos secularizados".

Segundo a psicanálise, o ser humano é "um ser em falta". Governado e estimulado pela permanente certeza de que algo lhe escapa permanentemente através dos dedos, sem saber exatamente o que é. Portanto, dá-se a isto o nome de "desejo". E desejo é aquilo que não se tem no espaço e no tempo vividos. Por serem seres racionais, portanto capazes de se tornar independentes das necessidades imediatas do corpo, os seres humanos constroem mundos diferentes conforme o local que habitam, repletos de construções e realizações que não são necessários ao corpo (pinturas, histórias, leis), ao qual se chama cultura. Mas mesmo ela não retém aquilo que se esvai pela mão fechada...

Neste contexto, onde o espanto pela própria existência inexplicável e o desejo nunca satisfeito tensionam a existência, surge o discurso religioso que "...pretende fazer com as coisas: transformá-las,de entidades brutas e vazias, em portadoras de sentido, de tal maneira que elas passem a fazer parte do mundo humano, como se fossem extensões de nós mesmos" (pg 28) e "a religião aparece como a grande hipótese e aposta de qeu o universo inteiro possui uma face humana".

Há mais de dois mil sistemas religiosos ao longo do globo. Três são, aparentemente, hegemônicos, ainda que estejam subdivididos em centenas de subgrupos: cristianismo, islamismo e budismo. Quais as razões pelas quais estes se sobressaem? Não tenho competência para tentar dar uma resposta, mas Rubem Alves aponta uma direção (pg 38): respostas que funcionam, que constroem. Estas são transformadas em verdade, e as que não funcionam, em mentira. O parâmetro não é um juízo de valor, mas de praticidade. E esta praticidade reveste-se de valor moral, tornando-se verdade inquestionável, reduzindo os contraditórios a mentiras.

À medida que a atividade científica vai satisfazendo desejos, ela adquire a aura de verdade...

A atividade racional de observação, experimentação, conclusão, aplicação, questionamentos novos, nova observação, nova experimentação - num ciclo sem fim - tem se mostrado extremamente eficaz no prolongamento da expectativa de vida, no conforto progressivo, na redução do peso do trabalho, na maior disponibilidade para o lazer. Ela funciona, logo é verdadeira...

A atividade científica tornou o conhecimento mais democrático, livre de amarras éticas ou morais. Não é necessário subscrever nenhum códio específico que invada a vida íntima do indivíduo; basta apenas a legislação civil. Não é necessário crer em um ser superior, nem render-lhe culto. A atividade científica exige o chamado "ateísmo metodológico" - deuses não são levados em consideração.

Como explicar a manchete da Revista Época (3) "traídas pela medicina"? Como é possível a ciência trair? Trair é uma ação, e ciência não existe enquanto entidade, apenas como atividade humana. Portanto, o título mais preciso seria "traídas pelos cientistas da medicina". Mas, por que traídas? Trair é ser desleal, infiel. Em que os cientistas atraiçoaram as mulheres? Um conclusão honestamente equivocada pode ser taxada de infâmia? Trair também é decepcionar. Parece que expectativas além do razoável foram postas sobre conclusões científicas. Não é o que se faz nas religiões? Colocar expectativas vistas como irreais por muitos, mas como possíveis pelo que crê?

Não é uma forma de imortalidade (promessa de todas as religiões, de algum modo) a busca incensante pelo sucesso de manipulação do código genético? A clonagem? A chamada dermatologia estética não promete uma pele sempre jovem, a cirurgia plástica um corpo corrigido, a chamada medicina ortomolecular uma luta contra os agentes promotores do envelhecimento (os oxidantes)...e agora, introduziu-se a "medicina anti-idade"!

A verdade não é uma afirmativa das religiões? Mas a ciência diz que "a evolução é verdade inquestionável" (e não é, a teoria é cheia de buracos).

E as possibilidades tecnológicas trazem transformações éticas: é possível diagnosticar a falta de cérebro de uma criança no útero de sua mãe (nesta hora convenientemente chamada "feto"), portanto impedir seu nascimento torna-se possível e...desejável. A capacidade instrumental adquire o status de promulgador da ética. Não é este o espaço da religião?


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(1) Ciência e bioética: um olhar teológico - a ciência como religião
(2) Rubem Alves, O que é religião. 2ª ed Editora Brasiliense 1981
(3) http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT341671-1880,00.html

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ciência e Bioética - um olhar teológico

Ciência e Bioética: diferentes pontos de vista

Eduardo Ribeiro Mundim*

A ciência, enquanto atividade humana, é essencial à sobrevivência desta espécie no planeta Terra. A perspectiva evolucionista aponta que foi com a tecnologia que o Homo sapiens dominou o ambiente, e tornou-se a espécie hominídea única. Mesmo os povos com o menor nível de desenvolvimento tecnológico sobrevivem lastreados pela capacidade inventiva e de solucionar problemas, a partir de alguma análise dos mesmos. E ciência é, antes de tudo, a atividade de observar, questionar, buscar respostas, novamente observar, novamente questionar e novamente buscar respostas. A princípio, é uma atividade sem fim, pois cada nova resposta propõe novas questões, incluindo se a resposta encontrada é a melhor resposta àquela questão específica.

A ciência vive da observação, da prática, do obter resultados. Uma tecnologia qualquer é ciência enquanto está sendo desenvolvida. Terminada, posta em uso, deixa de ser ciência, e passa a ser um produto desta, uma ferramenta, um recurso.

E quando observa, observa uma parte, e não o todo. Observa parcialmente porque aprendemos que trabalhar com o menor número possível de variáveis facilita o raciocínio, e, talvez, conduza a resultados mais rápidos. Observa parcialmente porque frequentemente a pergunta é objetiva e específica: o que é isto? como funciona? como produzir a ferramenta tal? como atingir o objetivo proposto? Observa parcialmente porque o meio utilizado para observar é limitado: a visão não abarca tudo ao mesmo tempo, seja uma montanha (imagem completa, mas sem detalhes) seja uma célula (riqueza de detalhes, mas sem o todo). Ao analisar um monte ele pode ser descrito na sua forma, composição rochosa, tipo de vegetação, fauna presente, microrganismos encontrados, cadeia ecológica existente, impacto sobre o clima da região em que está... O geólogo somente falará das rochas; o botânico, da flora; o zoólogo, na fauna; o biólogo, da ecologia; o microbiologista, dos germes; o meteorologista, do clima. O conhecimento do monte somente será extenso se todos os aspectos forem observados.

E quando o cientista começa com a escolha do objeto de observação, ele construirá uma hipótese, na qual usará de analogia, indução e imaginação. Certo da veracidade dela, verá desdobramentos subsequentes que não foram observados e estudados e "comprovados". Quanto mais longe de sua observação inicial, mais as conjecturas serão frutos de sua imaginação e menos de sua ciência.

E todo este processo, do objetivo ao imaginativo, é mediado pela linguagem - recurso simbólico usado para descrever a realidade por aproximação. E esta sempre parcial, condicionada ao horizonte cultural e imaginário do cientista. A realidade será sempre parcial, e será mais completa quanto mais observadores trabalharem a partir de diferentes instrumentos e áreas de pesquisa (ou, áreas de perguntas). Mas o quadro pintado não é a realidade em si, mas um retrato, e não necessariamente correto no todo, ou em partes.

A bioética compartilha da necessidade de observadores que adotam diferentes pontos de partida. Quanto mais observadores, mais questões e maior grau de riqueza da análise. Ela não pergunta "como?", mas "por que?", "com qual finalidade?", "onde leva?".

A bioética incomoda o cientista quando lhe pergunta se sua metodologia é é moral. Por exemplo, é moral inocular germes em uma pessoa para ver o que se sucede? É moral expor pessoas à radioatividade sabendo dos riscos, "para ver o que acontece"? A bioética questiona se todo conhecimento é um bem; se este suposto bem pertence a todos; se este suposto bem é seguro e traz felicidade a quantos; pergunta por democracia, por autonomia, por liberdade de crença e de vida.

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* reflexões que nascem da leitura do livro "Ciência e bioética: um olhar teológico", de Euler R. Westphal, publicado pela Editora Sinodal

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ciência e Bioética - um olhar teológico

A Ciência como religião
Eduardo Ribeiro Mundim*

A ciência moderna apoderou-se de marcas anteriormente pertencentes à religião: salvação, imortalidade, resposta as angústias da vida, busca de sentidos últimos. Na verdade, quando se fala de ciência neste contexto, há uma generalização obrigatória. E toda generalização é injusta, por afirmar que a menor parte do todo age como a maior parte; e toda generalização revela e esconde. Revela o que a maior parte faz, e esconde o que é realizado pela menor.

A Ciência não existe; existe ciência enquanto atividade humana estruturada que persegue determinado fim. A ciência nada fala; os cientistas, os profissionais que dela tiram seu sustento financeiro, é que falam ancorados na autoridade que a atividade científica verdadeiramente autônoma produz.

Ciência é um meio de entender como a natureza funciona (p.ex., o corpo dos animais), buscando obter os melhores recursos para uma vida mais confortável (p. ex., a engenharia), uma abundância (ou não-escassez) de víveres (p. ex., a agricultura e a meteorologia) e o menor desconforto ou risco ao corpo humano (medicina). É uma atividade que possibilita prever fatos (o que não implica na sua realização em todos os momentos), modificá-los quando possível e necessário.

Quando o cientista salta da observação do seu objeto de trabalho e elabora teorias que não podem ser objeto de experimentação por absoluta impossibilidade real, ele cruza a fronteira que a separa e distingue da religião. Esta prescinde de experimentação clássica, apóia-se em um conhecimento revelado no lugar de um construído, um conhecimento muitas vezes fixo e seguro, no lugar do conhecimento científico, sempre transitório e incerto.

Ao cruzar a linha demarcatória, ciência transforma-se em Ciência, cientista em líder religioso, e há uma subversão da ordem natural de cada instituto. A religião é dogmática, assertiva, não tolera divergentes (que são ora cognominados hereges, ora apóstatas); a ciência é plural, vive da dúvida e alimenta-se do contraditório, crescendo com ele. No coração desta Ciência estão os símbolos  e as estruturas religiosas.

Quando se fala do conflito ciência e religião, está-se falando do conflito Ciência e religião, já que não é possível a esta informar sobre a natureza operacional da matéria, e nem àquela confirmar o dado revelado.

Igualmente, a Ciência tende a apropriar-se da bioética, ditando-lhe os rumos, alijando do debate qualquer outro conhecimento por ela mesma sancionado; na verdade, transforma o debate (que pressupõe diferentes pontos de vista) em monólogo ou, quando muito, diálogo de dois ou três. Ao proceder desta forma, legitima-se através de um círculo vicioso - legitima-se a si mesma. A ciência, ao contrário, é legitimada pela ética quando se processa nos seus limites.

E quais são estes limites?

Infalibilidade, onisciência, onipotência e características semelhantes sempre foram atributos da divindade...

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* reflexões que nascem da leitura do livro "Ciência e bioética: um olhar teológico", de Euler R. Westphal, publicado pela Editora Sinodal

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Religiosos sul-africanos saúdam Kairós palestino

Manuel Quintero


Genebra, quarta-feira, 7 de abril de 2010 (ALC) - Em mensagem de Semana Santa, um grupo de líderes cristãos, judeus e muçulmanos sul-africanos expressou solidariedade aos cristãos palestinos e exortou-os a resistirem contra o despojo e a expulsão de suas terras.

A mensagem saudando o Kairós Palestina é um documento elaborado por cristãos e cristãs da região. Ele afirma que a ocupação militar de suas terras é "um pecado contra Deus e a humanidade", e que qualquer teologia que legitime a ocupação se afasta dos ensinos cristãos.

A mensagem sul-africana recorda as palavras de Nelson Mandela: "Nossa liberdade não será completa sem a liberdade dos palestinos" e expressa a convicção de que "a justiça chegará à Terra Santa, como chegou a nós neste rincão do sul de África".

Os líderes religiosos respaldam o chamado à resistência não violenta do Kairós Palestina, especialmente o chamado a boicotar, desinvertir e aplicar sanções "como uma maneira de exercer máxima pressão não-violenta sobre Israel para que levante a bota de opressão do pescoço dos palestinos".

O Kairós Palestina foi apresentado pela primeira vez em Belém, em dezembro, em evento assistido por representantes de igrejas de todos os continentes. Desde então, mais de 30 organismos e 1.300 cristãos palestinos referendaram o documento, que também recebeu adesões de igrejas, concílios de igrejas e cristãos de outras latitudes.

O bispo Martin Schindehütte, chefe do Departamento de Relações Ecumênicas e Ministérios em Ultramar da Igreja Evangélica Alemã, assinalou a importância do documento para a reflexão interna dessa igreja.

"Por suposto não estamos de acordo em tudo com vocês — e não teria porque ser assim. Mas estamos mais do que desejosos de advogar junto com vocês, e quanto seja possível, pelo direito de existência dos palestinos, bem como o dos israelitas, e a promover sua coexistência pacífica", escreveu Schindehütte.

Em sua resposta ao documento, o teólogo e biblista portorriquenho Samuel Pagán destacou pontos de contato com o contexto latino-americano e a teologia da libertação. Ele sublinhou que o propósito fundamental do mal, tanto na América Latina como na Palestina "é destruir a imagem de Deus que está presente em cada ser humano e em nosso contexto imediato esse mal tenta destruir a alma e o espírito do povo palestino, roubando-lhe sua terra".

O reverendo Arie van der Plas, diretor de programas da Igreja Reformada nos Países Baixos, expressou suas reservas sobre certas seções do documento que se referem à eleição e à presença do povo judeu nessa região, mas advertiu que "os textos bíblicos nunca podem ser uma desculpa ou uma razão para apropriar-se da terra de outro povo ou magoar seus direitos humanos e o direito internacional".

Mark Braverman, um conhecido psicólogo e teólogo judeu, enfatizou que o silêncio dos cristãos frente às violações dos direitos humanos por parte de Israel é um desastre para o cristianismo e a paz mundial.

"Nunca antes foi tão urgente para os cristãos ser fiéis à sua fé na busca de um claro imperativo de justiça social para o povo palestino", destacou.

O rabino Abraham Cooper, decano associado do Centro Simon Wiesenthal, vê neste documento outra tentativa de socavar o apoio a Israel nos Estados Unidos e entende-o como parte de um esforço mancomunado de teólogos e ativistas protestantes para destruir Israel.

Segundo Cooper, o centro da guerra teológica protestante contra Israel é o Conselho Mundial de Igrejas, mas advertiu que há indicações de que alguns cristãos evangélicos estão abandonando sua simpatia por Israel, o que qualificou como "o início de uma perigosa tendência".

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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Pedófilos, celibatários e infalíveis

O psicanalista Contardo Calligaris publicou no dia 1 de abril de 2010, em sua coluna na Folha de S. Paulo (disponível somente para assinantes, mas largamente reproduzido na internete), considerações lúcidas com o título "Pedófilos, celibatários e infalíveis".

Sublinha pontos importantes sobre a recente crise envolvendo padres e pedofilia:
1. toda instituição coloca a si mesma acima de qualquer consideração moral, pois seu projeto dominante é ser eterna. A Igreja Católica não é exceção (e, questiono eu, porque a Evangélica seria? temos comportamento diferente frente aos nossos escândalos, que habitualmente não frequentam, ainda, a imprensa leiga? Não falo daqueles envolvendo ditos evangélicos promotores de falcatruas - políticos, supostos pastores, etc - mas daqueles acontecimentos que ficam restritos aos nossos muros denominacionais).
2. a causa da pedofilia não está no celibato. Sua motivação mais profunda não se resolve na cama com uma mulher, pois o centro da fantasia do pedófilo é "induzir a vítima a aceitar algo que ela desconhece e não entende" - a idade é uma garantia da ignorância e do não entendimento. (Quantas pessoas que publicaram suas opiniões sobre o assunto levaram em conta este dado, pergunto eu. É sempre fácil criticar, "descer o pau" em quem é majoritário, poderoso ou destacado. Mas quantas vezes a crítica mira a si mesma, naquilo que tem de destruidor, sem preocupar em construir?)
3. portanto, propor o fim da exigência do celibato como remédio é um insulto à inteligência, uma redução da sexualidade humana ao seu aspecto animal e uma coisificação da mulher. Resumo meu da argumentação do psicanalista, escrita em outros termos.

No meio da histeria e desejo de manchetes (o que não deixa de ter algum aspecto positivo), o juízo emitido busca colocar a discussão específica nos trilhos próprios a ela, ainda que o autor o encerre com a afirmativa de que a instituição Igreja Católica trata seus membros como criancinhas, e não adultos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Sobre a carta aberta aos que questionam a seriedade da Ultimato

A revista Ultimato publicou, na sua edição 323, uma carta aberta (disponível em http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=2609&secMestre=2607&sec=2634&num_edicao=323 ). No dia 10 de março encaminhei a correspondência abaixo transcrita aos signatários:

"Acredito que a pressão sentida por vocês deve ter sido enorme, a ponto de considerarem sábio e prudente a carta aberta no número 323 da revista.

Diversos pensamentos cruzaram a minha cabeça desde que a li, e resolvi compartilhar com vocês os que considerei relevantes.

Conheço a revista pelo menos a partir do final da adolescência. Há várias outras; por que assino Ultimato?

Porque é uma revista de linha editorial equilibrada; não deprecia ninguém, é honesta nas avaliações e busca ser caridosa nas críticas.

Porque é uma revista capaz de enxergar o mundo e os que nele habitam; capaz de reconhecer que há conhecimento e ciência além das Escrituras; capaz de reconhecer que ciência e fé cristã não são inimigas, nem mesmo adversárias, ainda que existam pontos focais de tensão.

Porque não fica na mesmice, tocando sempre variações sobre os mesmos temas. Busca estimular respostas a novas questões, rever as antigas e reafirmá-las se assim for considerado correto.

Porque não tem medo de errar. A revista não é morna, arrisca-se a ser quente, e por isso erra. E errar não é pecado - desafio os contrários a provarem, biblicamente, que todo erro é pecado. E caso eu esteja errado, e todo erro, sem exceção for pecado, graças a Deus por Jesus Cristo, em quem temos o perdão, a restauração e o crescimento espiritual. Mas se a revista fosse morna, desatenta à época em que vive, surda às questões que pipocam a torto e à direita, medrosa de errar...não seria uma publicação digna do termo "ultimato". Eu não a assinaria, e a destinaria ao lixo reciclável, caso me viesse às mãos.

Porque tem sido um dos recursos para minha santificação pessoal, crescimento no conhecimento e vivência da graça, desafio intelectual e elaboração de ideias.

Porque seus articulistas procuram cumprir o ministério que foram chamados com fidelidade - e só quem não faz não erra! Porque seus articulistas se expõe publicamente (e muitas vezes com coragem admirável - vide Braulia) e arcam com os bônus e ônus desta exposição pela qual não são remunerados. O fazem como parte do trabalho que o Senhor lhes confiou.

Há críticas irritantes. Há críticas pobres. Há críticas analfabetas. Há críticas razoáveis e sensatas. Estas últimas são úteis no crescimento; as primeiras, para o exercicio de uma santa paciência; as segundas, para o exercício da oração; as terceiras, para o exercício da reflexão de como alfabetizar biblicamente quem não tem condições de o ser.

Não caiam na tentação arrogante de se considerarem causadores de divisão do corpo de Cristo. Este não pode ser dividido, é uma impossibilidade(1). Mas nós nos dividimos, e não há pecado nisso! O pecado é a arrogância de considerar minhas posições teológicas como absolutas, e desprezar como refugo as outras. Mas o Senhor nos tem chamado à paz para construirmos comunidades formais que pensam semelhantemente para buscarmos adoração e crescimento dentro daquele modo de pensar, reconhecendo que Ele chama outros para o mesmo em outros esquemas teológicos. Não há pecado na controvérsia predestinação X livre arbítrio; há pecado quando chamo aos primeiros "tolos" e aos segundos "sábios".

Nós precisamos ser desafiados, e somente o somos por novos pensamentos. Os irmãos que desejam permanecer como estão, que nos deixem em paz, ou melhor, que orem por nós - e que o Senhor lhes responda como desejar! Quando Ultimato é caluniada por ser mal interpretada através de uma leitura míope, a reação do leitor caluniador é que causaria divisão do corpo, e não a revista.

Certamente há erros e problemas, e vocês sabem melhor que todos. E daí? Até onde vejo nas entrelinhas das revistas ao longo do tempo, o propósito de conferir Escritura com Escritura permanece; de contextualizar a interpretação da Palavra presente; de ser relevante, uma missão!

Há alimento líquido a sólido, de papinha a feijoada. Os que não me apetecem, não leio; ou leio e esqueço, após fazer um juízo e ver se há algo bom para reter.

Apesar dos sentimentos negativos que críticas não razoáveis possam trazer, sugiro que as usem como termômetro de trabalho. Não para adequar a revista ao exigido, mas para trabalhar, quando necessário, sábio e proveitoso, os argumentos, buscando remodelar a visão do crítico. Mas continuem a ser como são. Continuem buscando acertar, mesmo que errando. Continuem a buscar articulistas que sacudam visões envelhecidas e inúteis, e nos apontem caminhos para um Evangelho integral.

"O Senhor os abençoe e os guarde;
o Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre vocês,
e tenha misericórdia de vocês.
O Senhor sobre vocês levante o Seu rosto,
e lhes dê a paz"

Atenciosamente,

Eduardo Ribeiro Mundim"

(1) ver neste blog  "É possível dividir o Corpo de Cristo?" - não consta da correspondência original

terça-feira, 23 de março de 2010

A ESTRANHA TEORIA DO HOMICÍDIO SEM MORTE

Marcia Suzuki
Conselheira de ATINI – VOZ PELA VIDA

Alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista.  A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos. Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas "interdição" de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha 2, 5 ou 10 anos de idade.

Deixe-me explicar melhor. Em qualquer sociedade, a criança precisa passar por certos rituais de socialização. Em muitos lugares do Brazil, a criança é considerada pagã se não passar pelo batismo católico. Ela precisa passar por esse ritual religioso para ser promovida a "gente" e ter acesso à vida eterna. Mais tarde, ela terá que passar por outro ritual, que comemora o fato dela ter sobrevivido ao período mais vulnerável, que é o primeiro ano de vida. A festa de um aninho é um ritual muito importante na socialização da criança. Alguns anos mais tarde ela vai frequentar a escola e vai passar pelo difícil processo de alfabetização. A primeira festinha de formatura, a da classe de alfabetização, é uma celebração da construção dessa pessoinha na sociedade. Nestas sociedades, só a pessoa alfabetizada pode ter esperança de vir a ser funcional. E assim vai. Ela vai passar por um longo processo de "pessoalização", até se tornar uma pessoa plena em sua sociedade. 
Esse processo de socialização é normal e acontece em qualquer sociedade humana. As sociedades diferem apenas na definição dos estágios e na forma como a passagem de um estágio para outro é ritualizada.
Pois é. Esses antropólogos e missionários estão defendendo a teoria de que, para algumas sociedades, o "ser ainda em construção"  poderá ser morto e o fato não deve ser percebido como morte. Repetindo – caso a "coisa" venha a ser assassinada nesse período, o processo não envolverá morte. Não é possível se matar uma coisa que não é gente. Para estes estudiosos, enterrar viva uma criança que ainda não esteja completamente socializada não envolveria morte.
Esse relativismo é racista por não se aplicar universalmente. Estes estudiosos não aplicam esta equação às crianças deles. Ou seja, aquelas nascidas nas grandes cidades, mas que não foram plenamente socializadas (como crianças de rua, bastardas ou deficientes mentais).  Essa equação racista só se aplicaria àquelas crianças nascidas na floresta, filhas de pais e mães indígenas. Racismo revestido com um verniz de correção política e tolerância cultural.
 Foto: Niawi, menino indígena enterrado vivo no Amazonas aos 5 anos de idade, por não conseguir aprender a andar. Seus pais eram contra o sacrifício e se suicidaram antes.
Tristemente, o maior defensor desta teoria é um líder católico, um missionário. Segundo ele "O infanticídio,  para nós, é crime se houver morte.  O aborto, talvez, seja mais próximo dessa prática dos índios, já que essa não mata um ser humano, mas sim, interdita a constituição do ser humano", afirma." i
Uma antropóloga da UNB, concorda.  "Uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa.  Ela passará por um longo processo de pessoalização para que adquira um nome e, assim, o status de 'pessoa'.  Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é.  Infanticídio, então, nunca"." ii
Mais triste ainda é que esta antropóloga alega ser consultora da UNICEF, tendo sido escolhida para elaborar um relatório sobre a questão do infanticídio nas comunidades indígenas brasileiras iii. Como é que a UNICEF, que tem a tarefa defender os direitos universais das crianças, e que reconhece a vulnerabilidade das crianças indígenas vi, escolheria uma antropóloga com esse perfil para fazer o relatório? Acredito que eles não saibam que sua consultora defende o direito de algumas sociedades humanas de "interditar" crianças ainda não plenamente socializadas. v
 
O papel da UNICEF deveria ser o de ouvir o grito de socorro dos inúmeros pais e mães indígenas dissidentes, grito este já fartamente documentado pelas próprias organizações indígenas e ONG's indigenistas vi
A UNICEF deveria ouvir a voz de homens como Tabata Kuikuro, o cacique indígena xinguano que preferiu abandonar a vida na tribo do que permitir a morte de seus filhos. Segurando seus gêmeos sobreviventes no colo, em um lugar seguro longe da aldeia, ele comenta emocionado:

"Olha prá eles, eles são gente, não são bicho, são meus filhos. Como é que eu poderia deixar matar?" vii

Para esses indígenas, criança é criança e morte é morte. Simples assim.

 

[ii] idem
[iii] Marianna Holanda fez essa declaração em palestra que ministrou em novembro de 2009 no auditório da  UNIDESC , em Brasília.
[iv] Segundo relatório da UNICEF, as crianças indígenas são hoje as crianças mais vulneráveis do planeta. "Indigenous children are among the most vulnerable and marginalized groups in the world and global action is urgently needed to protect their survival and their rights, says a new report from UNICEF Innocenti Research Centre in Florence."
[v] Em algumas sociedades, crianças não socializadas seriam gêmeos, filhos de mãe solteira, de viúvas ou de relações incestuosas, crianças com deficiência física ou mental grave ou moderada, etc. A dita "interdição" do processo pode ocorrer em várias idades, tendo sido registrada com crianças de até 10 anos de idade, entre os Mayoruna, no Amazonas. Marianna defende essa "interdição" em dissertação intitulada "Quem são os humanos dos direitos?"  Estudo contesta criminalização do infanticídio indígena
[vii] Trecho de depoimento do documentário "Quebrando o Silêncio", dirigido pela jornalista indígena Sandra Terena. O  documentário  está disponível no link www.quebrandoosilencio.blog.br




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Eduardo Ribeiro Mundim
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