quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Milagres?

  Karl Heinz Kienitz

Somos um povo alegre e festeiro o ano todo, mas é por ocasião do Natal e da Páscoa, que a maioria das famílias brasileiras passa momentos especialmente agradáveis; é quando visitas de parentes e amigos, decoração especial e mesas fartas tornam palpável o aconchego festivo que se instala em nossos lares. O clima de festa de fato se justifica, pois, embora às vezes passe desapercebido, as duas datas existem para a comemoração de dois grandes feitos inusitados de Deus. No Natal comemoramos o nascimento de Jesus, no qual Deus "tornou-se homem e viveu aqui na Terra entre nós, cheio de amor e perdão, cheio de verdade".1 Na Páscoa recordamos um evento absolutamente extraordinário, resumido por Simão Pedro em uma de suas célebres frases: "Deus ressuscitou este Jesus, e todos nós somos testemunhas disso".2


Mesmo assim, para muitos o cristianismo é pedra de tropeço justamente por resultar de uma fé alicerçada em feitos inusitados de Deus, ou milagres, entre os quais os do Natal e da Páscoa são os mais significativos. Foram eventos marcantes – acontecimentos que selaram a fé cristã como única. O problema é que milagres parecem pertencer a uma visão de mundo estranha, pré-científica, supersticiosa, talvez adequada para a Antiguidade ou Idade Média, mas não para hoje.


Ceticismo com milagres já existiu na Antiguidade. Sua manifestação contemporânea, porém, tomou forma durante o Iluminismo. O filósofo David Hume (1711-1776), um dos primeiros mentores do ceticismo atual, dizia, referindo-se ao cristianismo, que "nossa mais santa religião é fundamentada na fé, não na razão", completando em tom de deboche que "a religião cristã não somente foi inicialmente atendida com milagres, mas até este dia não pode ser crida por uma pessoa razoável sem um milagre. Simples razão é insuficiente para convencer-nos da sua veracidade; e quem é movido por fé para aceitá-la, está consciente de um milagre contínuo em sua própria pessoa, que subverte todos os princípios de seu entendimento, e dá-lhe uma determinação para crer o que é o mais contrário ao costume e à experiência".3


Será que, como propalado por Hume e outros, a fé cristã depende de uma "subversão dos princípios do entendimento"? É esclarecedor ler o que o físico Alessandro Volta (1745-1827, homenageado no Volt, a unidade de tensão elétrica do Sistema Internacional de Unidades) tem a dizer sobre o assunto: "Submeti as verdades fundamentais da fé a um estudo minucioso. Li as obras dos apologetas e de seus adversários, avaliei as razões a favor e contra e assim obtive argumentos relevantes que tornam a religião [bíblica] tão digna de confiança ao espírito científico que uma alma com pensamentos nobres ainda não pervertida por pecado e paixão não pode senão abraçá-la e afeiçoar-se a ela".4


Como explicar esta enorme diferença entre as convicções de Hume e de Volta? C.S. Lewis (1898-1963), professor da Universidade de Cambridge e criador de "Narnia", aponta o problema de Hume: "É claro que devemos concordar com Hume que, se ...[milagres] jamais aconteceram, então realmente nunca aconteceram. Infelizmente, só sabemos que a experiência contra eles é uniforme se conhecemos que todos os relatos sobre eles são falsos. E só podemos saber que todos os relatos são falsos se já sabemos que milagres jamais ocorreram. Na verdade estamos argumentando num círculo vicioso".5


G. K. Chesterton, um dos mais prolíficos escritores ingleses do século 20, arremata: "Surgiu de algum modo a ideia extraordinária de que os descrentes de milagres os analisam com frieza e justiça, ao passo que os crentes em milagres os aceitam apenas em conexão como algum dogma. O fato é totalmente o contrário. Os que creem em milagres os aceitam (com ou sem razão) porque têm provas deles. Os que não creem neles os negam (com ou sem razão) porque têm uma doutrina contra eles... Somos nós, os cristãos, que aceitamos todas as provas reais – são vocês, os racionalistas, que refutam as provas reais e são obrigados a fazê-lo pelo seu credo".6


O ceticismo debochado do filósofo Hume é, pois, insustentável. Cientistas cristãos como Volta, sabendo que milagres são eventos extraordinários com significância religiosa, operados por Deus e inacessíveis ao método científico, não têm problemas com eles, pois sabem que não é sua tarefa explicá-los; limitam-se a verificar evidências de sua ocorrência. Francis Collins, cientista chefe do Projeto Genoma Humano, confirma este entendimento: "Eu não tenho problemas com o conceito que milagres podem ocasionalmente ocorrer em momentos de grande significado, onde há uma mensagem sendo transmitida a nós por Deus onipotente. Mas como cientista adotei padrões muito elevados para milagres".7


Por outro lado, um cristão algumas vezes se pergunta onde estão hoje todos aqueles milagres relatados na Bíblia e qual sua relevância para nós. Nessas ocasiões convém recordar como Asafe, o cantor, se dirigiu a Deus numa frase que expressa uma certeza experimentada e compartilhada por muitas outras pessoas: "Deus, eu lembrarei dos teus feitos maravilhosos! ...Tu és o Deus que faz milagres".8


Quanto mais presente tivermos Deus como um Deus que opera também coisas inusitadas, mais confiantes estaremos ao enfrentarmos tempos difíceis. No outro extremo há cristãos pós-modernos que esperam de Deus uma solução para cada dificuldade por meio de milagres sob encomenda e medida. A Bíblia não induz a tal expectativa. Ela ensina que Deus cuida de nós e manifesta seu cuidado conosco até mesmo nas pequenas coisas do dia-a-dia, mas que seus pensamentos e ações estão muito acima dos nossos.9 Em resumo, no caminhar constante com Deus, o cristão reconhece de forma humilde e grata que tudo de bom provém de Deus e que ele é "socorro que não falta em tempos de aflição".10 Pois fé cristã alicerça-se nos milagres de Deus, mas é fé em Deus; não é fé no poder de Deus, nem nos milagres de Deus.


Notas
1. O Livro, em João 1.14.
2. Nova Bíblia na Linguagem de Hoje, em Atos 2.32.
3. David Hume, Enquiry Concerning Human Understanding.
4. Traduzido de J. Gutzwiller, Das Herz etwas zu wagen, Friedrich Bahn Verlag, 2000. Também citado em K.A. Kneller, Christianity and the leaders of modern science, B. Herder, 1911 (disponível em books.google.com.br).
5. C.S. Lewis, Miracles.
6. G.K. Chesterton, Ortodoxia, 1a edição, Mundo Cristão, 2008.
7. Em entrevista à revista National Geographic, número de fevereiro de 2007.
8. Nova Bíblia na Linguagem de Hoje, em Salmo 77.11 e 14.
9. Pode-se ler sobre isto na Bíblia em 1. Pedro 5.7, Atos 14.17 e Isaías 55.7.
10. Nova Bíblia na Linguagem de Hoje, em Salmo 46.1.



• Karl Heinz Kienitz recebeu o doutorado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça. É professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica em São José dos Campos. Karl mantém uma página na internet sobre fé e ciência no endereço www.freewebs.com/kienitz


fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=5&registro=1327#  (há comentários neste atalho sobre o texto)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O que impede a unidade da Igreja é o pecado, e não a ortodoxia

Aconteceu no dia 18 de junho no templo da Igreja Metodista Central de Belo Horizonte. Dois pastores (Valdir Steuernagel e Welinton Pereira) estavam prestando algumas informações sobre a pré-organização da Aliança Cristã Evangélica do Brasil a um pequeno grupo de líderes da capital mineira.

Steuernagel leu a famosa oração de Jesus sobre a unidade cristã: "Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17.20-21). Em seguida, lembrou que Deus não desiste daquilo que ele quer e pretende fazer. Uma dessas coisas é aproximar os verdadeiros crentes entre si. Para tanto, é preciso mudar a cultura predominante de cada um por si. Ele foi muito convincente ao lembrar que a igreja brasileira já experimentou uma mudança de mentalidade no que diz respeito a missões. Até pouco tempo atrás, quando se falava em missionários, só se pensava na figura do missionário estrangeiro que vinha para o Brasil. A geração atual entende de outra maneira: o missionário é o brasileiro que sai do país para fazer missões em outro lugar. A igreja deixou de ser recebedora para ser enviadora de missionários. É uma porta aberta ou um incentivo para outras mudanças.

No final, Welinton Pereira convidou um dos pastores presentes para orar. Ele agradeceu pelo esforço em favor da unidade da igreja evangélica em torno de Cristo e confessou mais ou menos assim:

O apego demasiado de cada denominação à sua história, teologia, tradições, liturgia, princípios, alvos, tem dificultado a aproximação maior de seus membros. Porém, os maiores obstáculos são menos importantes e mais carnais. Estamos separados por causa do pecado. A inveja, o ciúme, a vaidade, a concorrência, a competição, a briga pelo poder denominacional nos separam. A falta de amor, a ausência de perdão, as picuinhas, o não esquecimento de problemas anteriores nos separam. O crescimento numérico nos separa. Ficamos no mínimo intranquilos quando outra igreja da mesma denominação é diferente da nossa e "ameaça" crescer mais e mais rápido. Perdoa-nos! Faze-nos chorar! Vence-nos! Amém.

fonte: http://www.ultimato.com.br/?pg=show_artigos&artigo=2696&secMestre=2687&sec=2713&num_edicao=325

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A diabolização do outro só para esconder o pecado!

Luiz Sayão
 
Quando acompanhamos o texto do Evangelho de Mateus discorrendo sobre a condenação de Jesus, falta-nos o fôlego. É muita injustiça e maldade. O texto é forte: “Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio estavam procurando um depoimento falso contra Jesus para que pudessem condená-lo à morte” (Mt 26.59). Alguns versículos adiante, a conclusão dos acusadores é sumária e cruel: “‘O que acham?’ ‘É réu de morte,’ responderam eles” (Mt 26.66). Como se diz na linguagem popular, é brincadeira?!

Não é difícil de captar o vetor orientador do julgamento de Jesus aqui. Qualquer que fossem suas palavras, sua prova de inocência, ele já era culpado para os seus acusadores. Esse padrão de perversidade do mal é marcado pela recusa de avaliação dos fatos e da verdade. É tecnicamente uma postura anticientífica! Não me interessam os fatos; eu já sei! A verdade cede espaço para a conveniência. Vale a pena observar a resposta dos fariseus dada a Jesus quando falavam sobre o ministério de João Batista em Mateus 21. Eles pensavam apenas em serem bem aceitos pelo povo. E responderam descaradamente: “Não sabemos” (Mt 21.27).

A grande pergunta que precisa ser levantada diante de tudo isso é por que os líderes religiosos, tão sábios e instruídos, fizeram isso. O que lhes cegou tanto? Como puderam perder o bom senso? A resposta é simples: foi o amor ao pecado e o desejo de escondê-lo. Jesus deixa isso claro em Mateus 23.13-15, quando os chama de hipócritas! A verdade é que o pecado e o desejo de escondê-lo produz uma loucura e uma cegueira na alma. Essa cegueira produz ódio e o desejo de destruição. O mecanismo psicológico, que brota da autodefesa, leva à “diabolização do outro”. O próprio Jesus foi equiparado a Belzebu pelos fariseus da época (Mt 12.24). Historicamente, isso tem produzido milhares e milhares de mortes e muita desgraça.

JOGO MANIQUEÍSTA

Transportados para um cenário mais amplo, o cenário da história, vamos encontrar muitos processos de “diabolização do outro”, geralmente motivados pelo pecado e pelo sentimento de culpa não trabalhado pela graça divina. Como isso tem produzido sofrimento e dor! Há uma espécie de jogo maniqueísta entre “bem-mal”. Muitas dessas polarizações maniqueístas foram bem conhecidas na história. Os judeus sofreram bastante com esse processo. Principalmente no ambiente católico medieval, nos pogroms da Rússia, na época da Inquisição e na Alemanha nazista, eles eram considerados culpados dos problemas da sociedade, e muitas vezes foram castigados e perseguidos injustamente. Os fatos não interessavam. Eles foram diabolizados! Os protestantes também foram diabolizados pelo catolicismo do século 16. A noite de São Bartolomeu ficou na história. Os protestantes devolveram na mesma moeda! Assim que o pensamento racionalista e humanista tomou conta do cenário europeu, foi a vez da cristandade ser diabolizada. Nietzsche deve estar se remexendo no caixão! Todos os problemas da sociedade ocidental têm origem na “ignorância” e no “absurdo conceito de culpa e de pecado” do cristianismo! Hoje, muitos cidadãos secularizados olham com desprezo para os “tolos e ignorantes” religiosos.

Os capitalistas norte-americanos diabolizaram todos os socialistas. Eram vistos como comunistas ateus, filhos de Stálin e Mao-Tsé-Tung.

A “barba” ainda é malvista entre muitos evangélicos, por ser considerada sinal de “apoio ao regime de Fidel Castro”. Já os esquerdistas latino-americanos “sabem” que a culpa dos problemas do mundo é dos Estados Unidos! Todos os americanos são imperialistas, perversos e merecem a morte! Muitos teólogos da libertação diabolizam os EUA e divinizam ditadores esquerdistas cruéis!

INTOLERÂNCIA ENRAIZADA

Nos tempos da Igreja Primitiva, principalmente sob a inspiração de Tertuliano, as mulheres foram bastante diabolizadas. A mulher é o diabo! Essa era a sugestão de muitos cristãos platônicos que transferiam seus pecados e tentações para o elemento feminino. Muitas “bruxas” morreram com base nesse “temor masculino perturbado”. Em nossos dias, a coisa mudou! Agora o homem é o diabo! A mulher é “mais sensível e menos corrupta”, afirmam muitas feministas. Os homens são agressores e violentos e, apesar de milhões de abortos e de crimes praticados por mulheres, o mito prossegue.

Talvez um dos maiores disseminadores desse processo de diabolização das últimas décadas foi o cinema americano. Quase sempre passou-se a idéia “de modo divertido” que os “alemães são frios e racistas”, “os russos são maus e perigosos”, “os italianos são bandidos e mafiosos”, “os chineses e japoneses são frios e maus”, “os latino-americanos são preguiçosos e corruptos”, “os africanos são selvagens e ignorantes”. O pressuposto é que o único “povo normal” é o norte-americano. A intolerância fica enraizada na mente do povo comum. É lamentável!

Essa tendência problemática é assustadora porque justifica a maldade em nome de Deus. O cenário de hoje começa a ficar muito perigoso por causa do crescimento dessa tendência. A direita norte-americana já definiu “o eixo do mal” a ser combatido.

Os radicais islâmicos convocam todos os muçulmanos para a batalha contra os “infiéis”. O mundo árabe é diabolizado pela maioria dos cristãos ocidentais. Os israelitas são diabolizados pelos árabes e pelos anti-semitas de plantão. Para onde iremos se prosseguirmos por esse caminho perverso? Não podemos cair na armadilha desse maniqueísmo escravo de interesses econômicos e políticos. A igreja não pode jamais justificar a violência em nome de Deus. Nem com supostas profecias! A nossa luta não é de natureza física.
O único caminho para resolver tal situação é o humilde arrependimento. É a busca sincera dos próprios erros e falhas. Se isso não acontece no íntimo do nosso ser, nós nos tornaremos vítimas de um processo psicológico perverso que já não raciocina mais, que não quer saber a verdade e que não conhece mais a palavra “ponderação”. Infelizmente, tais polarizações maniqueístas marcam o mundo evangélico. Calvinistas e arminianos, pentecostais e tradicionais, “conservadores e abertos”, modernos e antigos, são algumas dicotomias perigosas que nos têm levado a pecar. Muitos cristãos já diabolizaram seus próprios irmãos de fé! Até uma versão bíblica chega a ser diabolizada!

Está na hora de dar uma parada, meditar um pouco, vasculhar o interior, buscar a humildade e procurar os próprios erros, pois a grande verdade é que quando diabolizamos o outro sem qualquer convicção de nossos erros e limitações, nós o fazemos, apenas, para esconder o nosso próprio pecado!


Fonte: http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=62&materia=544

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Luteranos pedem perdão aos menonitas

Stuttgart, quarta-feira, 21 de julho de 2010 (ALC) - A Assembléia da Federação Luterana Mundial (FLM) programou celebração na qual pedirá perdão a Deus e aos irmãos menonitas de tradição anabatista, pela perseguição que foram vítimas no século XVI. Anabatistas foram executados por seguidores do reformador Martim Lutero.

A Comissão Internacional de Estudos Luterana-Menonita (2005-2008) levantou essa parte dolorosa da história, conduzindo os luteranos ao reconhecimento das injustiças então cometidas e da falsa imagem construída sobre os anabatistas, que perdura até hoje.

Com base nesse estudo, o Conselho de FLM foi unânime em aprovar, na sua reunião de outubro de 2009, o encaminhamento do pedido de perdão aos menonitas, embora persistam diferenças teológicas entre as duas famílias denominacionais.

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domingo, 18 de julho de 2010

Jesus e os fariseus: uma análise de um sistema ético

Eduardo Ribeiro Mundim

Jesus e os fariseus têm um longo histórico de contendas. Certos trechos das Escrituras parecem transmitir, ao menos superficialmente, uma relação de quase-inimigos. É certo que disputas com eles serviram de pano de fundo, ou quadro, para diversos ensinos de Jesus. Igualmente correto é que entre os seus seguidores havia fariseus. Inquestionavelmente fariseus e escribas arquitetaram o falso julgamento, e a condenação, dEle à morte.

Como grupo dentro do judaísmo daquela época, sua origem pode remontar ao tempo de Esdras, e da construção do segundo templo. Eles parecem ter surgido como consequência do estupor provocado pelo exílio: como era possível para a raça dos filhos de Abraão, Isaac e Jacó amargarem o exílio? como era possível que das doze tribos, dez tenham desaparecido enquanto tais? A resposta, biblicamente enraizada, encontrada por eles, foi "não termos cumprido a lei" (Dt 28).

Impactos pela dura lição da realidade, diligentemente procuram um recurso para nunca mais caírem no mesmo erro. Cheios de desejo de fazerem a vontade de Deus, escrutinam a Lei e dela extraem regras para que jamais um judeu piedoso não tivesse referência sobre qual era a vontade expressa de Deus para uma determinada situação. Eles criam um sistema ético.

O evangelista Mateus, no capítulo 23, registra um dos embates mais duros entre Jesus e os fariseus. Duro por causa das palavras, explícitas: hipócritas não é um termo facilmente entendido como gentil ou caridoso. E Jesus o usa 7 a 8 vezes. Contudo, é importante atentar para os versos finais do capitulo (37-39): "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... e tu não quiseste!" Parece a mim que neste momento Ele chora, porque as palavras ditas são de amor e carinho, de fragilidade e de cuidado para com o indefeso... Longe de chicotear os fariseus com sua força moral e a dureza das palavras, na melhor da tradição bíblica (Pv 3.12), Jesus procura corri-los, e a nós.

E não pode ser esquecido que o debate público, como este registrado pelo Evangelho, era recurso didático naquela época para ensinar e dirimir as dúvidas que existiam.

Jesus não inicia sua argumentação lançando ao lixo o sistema ético cunhado pelos fariseus. Ao contrário, de alguma forma Ele o chancela: "Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem". O defeito não parece estar no sistema, mas na incongruência de quem o prega e mantem: "Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam." A atitude predominante era, ao final, de opressão e de ausência de solidariedade: "Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los."

A opressão e a ausência de solidariedade se materializam no escândalo condenado no verso 14: "Vocês devoram as casas das viúvas e, para disfarçar, fazem longas orações." Na contramão do que ensina do sermão do monte (Mt 6.7) os fariseus se comportam como se fosse pelo muito falar que seriam ouvidos, e não pela insistência da oração diligente (Lc 18.1-8). Também se esqueciam dos berros dos profetas: "Eu odeio e desprezo as suas festas religiosas; não suporto as suas assembleias solenes...Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras." (Am 5.21-23) e "não posso suportar a iniquidade e o ajuntamento solene!" (Is 1.13). Ao procurarem fazer a vontade de Deus, criaram hipocrisia, opressão e solidão.

E quais são as consequências deste sistema ético, puro nas suas intenções, incoerentemente posto na prática? No verso 13 Jesus lhes diz: "Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo." O testemunho do Reino tem efeito inverso ao desejado, e perverso, segundo o verso 15: "percorrem terra e mar para fazer um convertido e, quando conseguem, vocês o tornam duas vezes mais filho do inferno do que vocês." Este sistema ético mina e destrói o reflexo do Reino do qual deveria ser o mais perfeito espelho.

E Jesus aponta três prováveis causas para este projeto divino que fracassa em direção ao inferno.

Os fariseus de então perderam seus valores básicos: não é mais o sagrado que santifica, aquilo que vem do alto, superior a eles mesmos, mas apenas suas ações. O templo nada significa em si mesmo - ele é santificado pela oferta que nele é depositada! (Mt 23.16-22)

Perderam os valores básicos: o dízimo do mais insignificante detalhe é superior à justiça, à misericórdia e à fidelidade (Mt 23.23-24) Sim, o dízimo é para ser praticado, mas o resumo de toda a Lei é "'ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento" e "ame o seu próximo como a si mesmo" (Mt 22.36-40). Sobre estes dois pilares se desdobra a próxima etapa da relação humana vertical, entre seres humanos: justiça, misericórdia e fidelidade àquele que a tudo origina. Um sistema ético cristão não pode perder seu contato com sua origem, não pode perder a visão de sua base, não pode lançar fora os pilares da justiça e da misericórdia.

A segunda causa apontada por Jesus é perda da autocrítica (versos 29-32): "Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos antepassados, não teríamos tomado parte com eles no derramamento do sangue dos profetas". Sim, não teriam tomado parte, assim como nãotomarão parte na crucificação próxima de Jesus, que Ele mesmo lhes anuncia: "Acabem, pois, de encher a medida do pecado dos seus antepassados!".

E a terceira causa é mostrada logo nos primeiros versos (5-12): perderam a motivação real do sistema. O sistema ético farisaico existe apenas para lhes dar visibilidade e respeito, como um texto bem urdido, bonito de se ver, agradável aos ouvidos, mas para ser mantido longe da prática do dia a dia.

O resultado final da incongruência, do velamento do Reino de Deus, da perda dos valores básicos, da capacidade de autocrítica humilde e da motivação verdadeira, é o julgamento público dentro da ideia de que "as próprias pedras clamam". Alguns comentaristas apontam que a visão dos fariseus como sepulcros caiados (versos 25-28) era comum aquela época. Ou Jesus foi o iniciador da ironia, ou dela se apropriou, e, com o peso de Sua autoridade ímpar, lançou-lhes no rosto, em lágrimas, a zona de total descrédito que eles mesmos se colocaram.

Dentro do melhor estilo protestante, usar as Escrituras contra nós mesmos, pontuo quatro aplicações:
a) somos solidários com a grávida em dificuldades, sejam elas de que natureza forem, de modo que a alternativa ao aborto realmente exista, de modo executável, sem fantasias e "pé no chão?" O dono do espermatozoide é chamado, e amparado, ao exercício das suas responsabilidades?
b) somos solidários com aqueles que estão morrendo, amparando-os de modo profissional, a fim de que não exista a necessidade de se cogitar na eutanásia como recurso de reduzir o sofrimento?
c) somos impregnados pelo Evangelho a ponto de nos adaptarmos de forma saudável às limitações que podem (e elas acontecem) cair sobre nós, e que não podem ser revertidas (a chamada resiliência)?
d) como somos conhecidos por nossa ação no nosso meio profissional e social? e enquanto políticos? somos coerentes como sistema ético que livremente abraçamos em resposta ao amor de Deus?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Reconciliação para superar a violência

Antonio Carlos Ribeiro


Belo Horizonte, quarta-feira, 14 de julho de 2010 (ALC) - A comunicóloga Magali do Nascimento Cunha, da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), apresentou palestra sobre Religião e violência: conflitos e contribuições à paz, refletindo sobre o conflito religioso e a violência, assunto que se insere no tema Religiões e paz mundial, do 23º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter), reunido na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).
A conferencista é doutora em ciências da comunicação, mestre em memória social, jornalista, professora de comunicação na Universidade Metodista de São Paulo e membro do Conselho Mundial de Igrejas.
Ela partiu da ideia de que os movimentos ecumênicos da atualidade surgem na esteira da proposta da Conferência Mundial de Missão, realizada em Edimburgo em 1910. Este é o momento de elaboração do germe do que é chamado de teologia das religiões, baseado na universalidade que marca a influência da cultura céltica. Neste contexto surgem esforços pela unidade visível dos cristãos, na busca pela paz entre povos cristãos, gerando reflexões que provocaram o surgimento de organismos ecumênicos, das ações diaconais e teológico-doutrinárias.

A professora assumiu como motivação a noção de memória de Cornelius Castoriadis, para quem o homem não existe para dizer o que é, mas para ser e fazer além do que é. Magali baseou-se na noção de ecumenismo com ênfase na paz e na vida, retomando o conceito de oikoumene, como tratado por Julio de Santa Ana no livro Ecumenismo e Libertação. Com isso, mostra as raízes, a partir das quais reflete sobre o movimento cristão pela paz e a justiça, e o esforço para superar conflitos religiosos e, após a Conferência de Edimburgo, como ação missionária.

No seu desenvolvimento, a noção de ecumenicidade apóia-se em Leibniz, o filosofo e matemático luterano, afirmando que o cristianismo deva ser compreendido como uma igreja universal que defenda e abrigue os sentidos da fé cristã. Daí se desenvolve uma preocupação com a vida e com a universalidade da fé. Isso fez crescer a preocupação com a intervenção e o testemunho cristão num mundo que começa a ser marcado por tensões.
Após a Conferência Mundial de Missão, realizada em Edimburgo, surgiram outros eventos, como a Conferência de Paz, de 1926, da qual participou o eclesiólogo católico Yves Congar. Em seguida, ocorreu também a Conferência de Paz 1929, em Praga, com a participação de 500 delegados. Esse encontro assumiu como afirmação categórica o "supremo dever da igreja cristã de lutar pelo desarmamento mental e moral dos povos em todos os países", observou a jornalista.
É nesse contexto político, social e religioso europeu, profundamente abalado pela Segunda Guerra Mundial (1939-45), que se desenvolveu a noção de responsabilidade social cristã frente ao mundo. A reflexão sobre o tema se torna a base para o surgimento do Conselho Mundial de Igrejas, em 1948. Em seguida, surgiu a Conferência Mundial sobre Igreja e Sociedade (Genebra, 1966), tendo como tema Paz e Justiça se beijam, na qual a América Latina esteve presente através do teólogo presbiteriano Richard Shaull.
Na etapa final da palestra, a professora concentrou-se na Década Ecumênica de Superação da Violência (2001-2010), que trouxe à tona a violência nas suas diversas formas: interpessoal, econômica, ambiental, militar, mostrando-se presente na sociedade, nas famílias e nas igrejas. Também tornou-se a primeira grande campanha de igrejas a afirmar com ênfase a reconciliação. O encerramento dessa década será celebrado na Jamaica em 2011.
A autora ressaltou questões candentes como a situação dos dalits (impuros), também conhecidos como intocáveis, na mesma esteira da qual surgiram as redes de defesa das pessoas com deficiência e o programa de acompanhamento do conflito entre palestinos e israelenses, propugnando pela paz com justiça e instituindo o Programa Kairos Palestina (www.eappi.org), com acompanhantes ecumênicos, em número de 100 por ano.
Ela concluiu sua fala referindo-se às questões da América Latina, para as quais recorreu à metáfora da tentativa de represamento do rio ecumênico, em que "as águas correm, fracas, mas correm". Reportou-se ao Projeto Brasil: nunca mais e, chegando à atualidade, denunciou o reforço do individualismo, do conservadorismo, da competição, do individualismo, que ganham forma no jogo de computador Guerra Espiritual, produzido e vendido pela Nintendo, que predomina na mídia cristã e é baseado na teologia do Reinado do Antigo Testamento, enfatizou.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Das Heresias no “Louvor”

Robinson Cavalcante
Vamos fazer um exercício de honestidade intelectual e espiritual? Selecione 100 das mais populares músicas, “gospel” ou “não-gospel”, cantadas nas igrejas das mais diversas denominações protestantes. As mais populares pérolas da nossa Corinhologia.  Fez a Lista? Muito bem! Agora observe quantas delas um muçulmano não teria problema em cantá-las. Achou várias, não é? Agora veja quantas um judeu se sentiria à vontade entoando. São muitas, não é verdade? Continue com os espíritas kardecistas. Se o eixo das musicas é uma ode à Divindade (Deus, Pai, Senhor, Javé) e a recepção de bênçãos para quem canta, há muito de teísmo, de unitarismo, e os seguidores daquelas religiões não-cristãs não veriam problemas em seu canto, na realidade pan-religioso, mas que transmite muita “energia”, “luz”, “paz”.

Continue com a lista na mão, e procure aqueles em que há a palavra Jesus. Agora pense em nossos “parentes distantes” religiosos, das seitas para-cristãs: Mórmons, Testemunhas de Jeová, os da Ciência Cristã, ou os sincréticos como os do Santo Daime. Eles ficariam à vontade cantando essas músicas de um “Cristo genérico”? Numa boa. Ou seja, como o negócio é alimentar o subjetivo com sentimentos positivos, promover catarse e, até, transe, não há conteúdo doutrinário, com os pilares conceituais do Cristianismo bíblico, apostólico, ortodoxo. Por outro lado, aquelas músicas que falam de Jesus Cristo, cantadas nas igrejas protestantes, são adotadas, tranquilamente, por católicos romanos ou orientais, porque nelas não há nada de especificamente reformado.

Se não há musicas específicas para o Calendário Cristão (Advento, Natal, Quaresma, etc.), fica difícil harmonizá-las com os temas dos sermões, exatamente porque elas se destinam ao sentir e não ao pensar.

A rejeição aos Hinos históricos não se dá porque eles têm melodias “antiquadas”, mas porque eles são teologia cantada, o que é uma chatice... Ninguém está a fim de refletir, mas de curtir! Como uma igreja é a sua teologia, e é o que ela canta, estamos numa pior.

Mas, os pastores não estão nem aí, pois não querem contrariar a freguesia, nem atingir o que traz resultados. Enquanto isso, uma música recente, que fala em Zaqueu, era tocada em radiola de ficha no “Bar do Zé”, alternada com clássicos de Reginaldo Rossi, enquanto a galera prosseguia em seus exercícios lúdico-erótico-etílicos.

Canta meu povo!
Olinda (PE), 11 de julho de 2010

fonte: http://www.dar.org.br/bispo/50-artigos/1280--das-heresias-no-louvor-reflexao-episcopal.html

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A resposta de Deus ao mal

Eduardo Ribeiro Mundim

Há enigmas que, enquanto o Reino de Deus não vier em sua completa plenitude, permanecerão objeto das mais variadas especulações. E, honestamente, não sei se, frente à grandeza deste Reino (afinal, o apóstolo Paulo afirma que "Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam" - cf I Co 2.9) estaremos preocupados em buscar respostas às então velhas questões que nos aborreciam nos dias de hoje. Um deles é a presença constante do mal.

O mal acompanha o ser humano por onde quer que ele vá. É inescapável. Tanto pelas suas próprias ações, quanto pelas ações exteriores, os chamados "desastres naturais" (ainda que muitos possam ser, direta ou indiretamente, atribuídos a sua ação, outros seguramente não o são) atingem a todos, sem distinção facilmente perceptível.

Há diversas explicações, nenhuma satisfatória. Uma, baseada no livro da Antiga Aliança, propõe que o mal é resposta de Deus as ações inadequadas ou pecaminosas do homem. Raciocínio que remete a cada um de nós à infância, onde havia muito da relação boa ação = premiação e má ação = punição. Poderosa regressão, que transmite a subjetiva certeza de que o raciocínio está correto.

Contudo, Jesus adverte no Sermão da Montanha de que Deus Pai "faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos" (cf. Mt 5.45). Ele desafia a noção simplista de que todo (e este advérbio é que faz diferença) mal é punição. Sim, pode acontecer, e exemplos bíblicos não faltam. Mas há uma certa porção de mal distribuída a todos, indistintamente (aparentemente), sem que faça sentido muitas vezes. Por que Estêvão tinha de morrer? e o apóstolo Tiago? por que Paulo sofreu tanto no seu ministério*? por que boas pessoas, incluindo cristão verdadeiros, morrem em terremotos, tsunamis, enchentes, acidentes, doenças potencialmente curáveis...?

Outra explicação afirma que Deus aperfeiçoa seus filhos através do sofrimento. Ideia algo trágica...por que o crescimento em santidade e caráter somente pode ser moldado por graus extremos de sofrimento? Não seria moldado pelas pequenas (ao menos na superficialidade) dificuldades do cotidiano, sendo o mal maior apenas o efeito colateral de vivermos neste mundo que "jaz no maligno"? Contudo, as Escrituras afirmam que "o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho" (cf. Hb 12.6). Mas o contexto do versículo é a luta do cristão contra o pecado, sua busca de santificação, e não o mal...

Na oração do Pai Nosso Jesus ensina a orar suplicando para sermos livres do mal (cf Mt 6.13) e na sua oração na última ceia, intercedeu para que não fôssemos retirados do mundo, mas, sim, livres do mal (cf Jo 17.15). A oração dEle não é ouvida? Ou nós entendemos errado o significado da palavra "mal"?

A encarnação de Deus em Jesus me parece ser a única resposta adequada, mas insatisfatória frente ao nosso sofrimento. Ele se faz homem, e habita entre nós. Por livre e soberana decisão, opta por ser companheiro de seus compatriotas em todos os sofrimentos da época. E por livre e soberana decisão, tomada mesmo antes da criação do mundo, aceita ser vítima de injustiça: não foi julgado por um crime ou ofensa real, mas inventada - portanto, sua morte não foi consequência de suas ações humanamente falando. Identificando-se com nossa necessidade de redenção, aceita ser o sacrifício perfeito. Associando-se ao nosso sofrimento, sua execução não é rápida, mas lenta e dolorosa. Ele não sentiu todos os sofrimentos que somos capazes de experimentar, mas vivenciou duríssimas provas, tanto físicas como psicológicas e espirituais.

A resposta de Deus ao mal é solidariedade. É empatia. É estar junto. É oferecer ombro amigo. É oferecer compaixão. Não fala da origem, ou da razão, do mal. Mas combate-o da forma mais poderosa possível, destruindo a solidão, a falta de sentido, dando suporte firme as nossas fraquezas e temores.

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* cf II Co 11.23ss: entre outros, 195 açoites,1 apedrejamento, 3 naufrágios

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A visão cristã do Estado

Guilherme de Carvalho

"Ai dos que descem ao Egito em busca de socorro e se estribam em cavalos; que confiam em carros, porque são muitos, e em cavaleiros, porque são mui fortes, mas não atentam para o Santo de Israel, nem buscam ao SENHOR! Pois os egípcios são homens e não deuses; os seus cavalos, carne e não espírito. Quando o SENHOR estender a mão, cairão por terra tanto o auxiliador como o ajudado, e ambos juntamente serão consumidos." (Is 31.1,3)

Há uma perspectiva cristã do Estado? Há quem pense que o cristianismo não tem nada que ver com Estado - nem com política; que a religião não tem nada a ver com política. Não no sentido de que a religião não se mescle com a política, pois isso sim, acontece sempre, mas no sentido de que a religião não deveria se misturar com a política nem se intrometer em coisas de Estado. Alguns mais radicais sustentam, inclusive, que a verdadeira política é incompatível com a religião.

As razões para isso variam; uns pensam que a política poderia macular a pureza da religião; outros entendem que a religião é irracional e corrompe a racionalidade da boa política. De um jeito ou de outro, os dois lados podem até chegar a uma espécie de cessar fogo pragmático: "cada um no seu quadrado". Na igreja Deus é Jesus; na câmara, é o Estado.

Mas há quem realmente tome essa solução pragmática como princípio teológico/ideológico – que Jesus nos leva para o céu, e o Estado cuida de nós aqui na terra. Portanto o bom cristão deveria ver em um projeto de Estado secular a cura para as mazelas da sociedade.

Mas será isso possível? Que intenções têm o Estado moderno ao propor (ou impor) essa solução à religião? É possível identificar a política cristã com uma aceitação tranquila dessa ordem de coisas?

A política secular: religião em cárcere privado
Tomemos como referência aqui, um filósofo contemporâneo; um francês, (previsivelmente): Christian Delacampagne. Não porque ele seja muito importante no campo (não é), mas porque representa bem o tipo de mentalidade que pretendemos pôr em questão. Podemos nos sentir gratos pela sua formulação sucinta e clara do problema: "como o religioso, na sua ambição de constituir o 'laço' social por excelência (esse é o sentido do latim "religio"), pode coexistir com o político, cuja ambição é análoga?"1

Delacampagne tenta lidar seriamente com o problema, perguntando se o poder político "deve", e se "pode" se separar do poder religioso. A sua resposta à primeira questão é que ele deve se livrar da tutela religiosa, por uma questão de sobrevivência. Porque, segundo ele, a democracia depende, para funcionar, de uma abordagem pragmática das questões; um partido, por exemplo, deve representar os interesses de certo grupo, não uma verdade absoluta, que deva ser imposta a todos. A política seria um jogo, cujas regras excluem a universalidade, mas a religião, por sua natureza, não pode respeitar essas regras. Ela atua a partir de absolutos, não de considerações meramente pragmáticas. Com efeito, "Na medida em que considera o pluralismo desejável, como deve fazer se quiser ser democrático, o poder político deve opor-se à simples ideia de 'partido religioso', isto é – pois todas as religiões tendem a formar partidos desse gênero – opor-se à religião em geral.2"

Mas pode, a política, separar-se da religião? Sim, desde que ela delimite com clareza as duas esferas. Para o filósofo, temos uma esfera "privada" e uma esfera "pública", que ele define como "sociedade civil" ou Estado. O caminho, seguido pelo ocidente, foi o de "dar a extensão mais vasta possível à esfera 'pública' (incluindo progressivamente nela a maioria das atividades sociais, de maneira a subtraí-las à influência da religião)."3 O homem seria perfeitamente capaz de atingir a "virtude cívica" necessária para manter todo o espaço público funcionando bem, sem o auxílio da religião, que seria mantida na esfera da consciência individual.

E desde que a religião traz, dentro de si, a tendência de lutar para recuperar a sua "essência", ou "fundamento", é imperativo que ela seja mantida em seu devido lugar; do contrário, o fenômeno universal e periódico do fundamentalismo ameaçará a própria base do Estado Moderno, que seria, para Delacampagne, nada menos que "uma verdadeira separação entre o político e o religioso".4 Contra essas ameaças, ele enuncia seu "princípio regulador": "[...] que a tolerância mais ampla possível seja dada a todas as confissões – desde que nenhuma delas seja autorizada a intrometer-se no funcionamento das atividades sociais. Em resumo, desde que o Estado continue sendo a única instância capaz de determinar aquilo que, no interior do espaço público, é ou não legítimo.5"

O programa deste filósofo francês é claro como o meio-dia: a repressão da expressão pública da religião, e a garantia de sua manutenção na esfera privada, ou no cárcere privado, para sermos claros também. Mantendo esse "monstro" no cárcere, veremos a liberdade e a política florescerem na esfera pública...

Contra a idolatria política
Somente a admissão tácita de certa concepção totalista de Estado pode fazer alguém ler as palavras de Delacampagne sem perceber que há algo muito problemático em seu argumento. O filósofo supõe, em toda a discussão, uma identidade entre "esfera pública" e "Estado", "sociedade civil" e "Estado", o que é patentemente falso. O público, e o civil, não é o mesmo que "o político". Há uma diversidade de esferas além da esfera "privada" e da esfera "política": há a moralidade, a arte, a economia, a ciência e as relações de sangue. Essas esferas compõem o todo da vida social, mas são anteriores ao Estado, e não devem sua lógica interna ao Estado. A política e o Estado têm responsabilidade por apenas uma dimensão da vida pública, que é a da justiça. A dimensão da arte, por exemplo, é responsabilidade dos artistas e apreciadores da arte, e não do Estado.

Mas, como Delacampagne observou, o Estado Moderno se constituiu por meio de uma expansão na qual reprimiu a influência religiosa "da maioria das atividades sociais", por meio do controle de cada uma delas, para garantir a sua "laicidade" e eliminar nelas os absolutos religiosos.

É claro que tudo isso já estava embutido na primeira pergunta do autor: quem produz o laço social, por excelência? Pode a religião e a política conviverem, se tem a mesma ambição? Uma pergunta deliciosamente reveladora, ao pôr diante de nós a fantástica pretensão do Estado Moderno de se constituir no laço social por excelência, tragando as formas mais antigas de associação humana em seu divino estômago.

Então há, acima de qualquer dúvida, um conflito entre a política e a religião! Há, na medida em que a política deseja ser, ela mesma, a religião. O Estado Rousseauniano de Delacampagne, totalista e vigilante, cioso de sua secularidade, absoluta e indivisivelmente soberano, não passa de uma divindade concorrente com o Teísmo. A política laica de Delacampagne é mais uma das expressões da religião do humanismo secular, que pretende controlar cientificamente o homem, para garantir a sua liberdade – mesmo que, para tanto, tenha que torná-lo seu escravo.

A responsabilidade atribuída por Delacampagne ao Estado, de determinar sozinho o que é legítimo no espaço público, é absolutamente ridícula. Deverá o Estado decidir qual o método científico legítimo? E o que é arte? E qual a melhor ética sexual? Ou o que é e o que não é prejudicial à família? Ou se, afinal, precisamos de famílias? Pode-se, naturalmente, objetar que o termo "público", aqui, tem sentido restrito. Talvez, na mente do autor; mas não em seu argumento. De todo modo, o ponto é que o Estado, e a política, tem uma esfera própria, que é a esfera da justiça. Compete ao Estado a justiça pública, e o que for estritamente necessário à realização dessa justiça; e cabe à política a luta por sua representação e implementação adequada.

Essa forma de pensamento estatista me faz lembrar da saga fantástica "O Senhor dos Anéis", de Tolkien. A maldição da Terra Média estava na existência do um anel, que concentrava todo o poder. Os teóricos do Estado absoluto parecem não perceber – e isso fica maravilhosamente claro nas especulações de Delacampagne – que a religião, ironicamente, é uma indispensável salvaguarda à liberdade dos indivíduos e das diferentes esferas da sociedade, na medida em que fere Leviatã no próprio coração, desmascarando as pretensões teológicas do Estado de instaurar-se como Deus e Senhor da sociedade.

Uma política cristã existe, assim, tendo obrigações para com Deus e para com o homem. Para com Deus, é seu dever combater a idolatria política. Li, em certa ocasião, a declaração de um grupo de cristãos (do "MEP" – Movimento Evangélico Progressista), para os quais "a visão cristã do Estado é de que o Estado não deve ser cristão". Um princípio importante, embora excessivamente concordista com a modernidade. Adverte muito bem contra a forma errada de interagir com o Estado, mas nada diz sobre a forma justa. Tornou-se assim politicamente corretíssimo. Rousseau, Delacampagne, Dawkins e a ala anti-religiosa do PT diriam amém (talvez até um "glória a Deus").

Parodiando essa declaração, no entanto, eu diria que a visão cristã do Estado é, antes de tudo, que o Estado não deve ser Deus. A tarefa teológica da política cristã é a luta contra a idolatria política; é a luta pela reforma do Estado, para que ele se veja redimido de sua fome totalista, e se dedique à sua tarefa divinamente ordenada, é respeitando a soberania das outras esferas da sociedade.

Sem dúvida, isso não diz tudo sobre a visão cristã do Estado. A igreja tem uma tarefa teológica, de combater a idolatria política, mas também uma tarefa antropológica, de promover a justiça política; isso significa que uma política cristã precisa, sem dúvida nenhuma, educar o Estado para a justiça. Mas ela não poderá realizar essa tarefa se colocar os carros na frente dos bois: cumprir a segunda tábua da Lei, deixando de lado a primeira. Não: combata-se a idolatria, e então seguir-se-á a justiça.

O Brasil: um país Politicamente idólatra
No universo verde-e-amarelo florescem as condições adequadas a um Estado tirânico. Em 2002 ou 2003, eu tive a oportunidade de assistir a uma entrevista sobre a atitude política brasileira, veiculada pela Globo, do famoso antropólogo brasileiro Roberto da Matta, que à época já estava trabalhando como professor na universidade de Notre Dame, em Indiana. Da Matta, talvez sob o impacto da mudança cultural, fez uma breve comparação entre os norte-americanos e os brasileiros. Segundo ele, há uma nítida diferença de postura entre os dois povos; os americanos não constroem suas esperanças sobre o Estado; a sociedade civil é fortíssima, no sentido de que as pessoas se organizam de modo voluntário e quase automático para resolver seus problemas. O brasileiro, em contrapartida, raciocina em termos paternalistas, esperando que um "poder superior" solucione suas dificuldades sem que ele precise agir diretamente. Como exemplo, ele apontou a temática de certa escola de samba (já não me lembro qual), no carnaval daquele ano. O desfile inteiro apresentou as mazelas sociais do Brasil, denunciando a pobreza, a corrupção, etc; ao final, o último carro alegórico trazia uma imagem enorme de Lula, de braços abertos, representando a esperança para o futuro.

E, enquanto aguarda com expectativa a vinda do seu "Cristo Redentor" político, o brasileiro cruza os seus próprios braços. Quando alguém toma uma atitude e organiza algum projeto social, as pessoas dizem – pessoas do governo, empresários e cidadãos comuns – que a sociedade civil está entrando onde o Estado não está cumprindo o seu papel – ora, ninguém duvida de que o Estado Brasileiro não cumpre o seu papel, mas a tarefa de construir uma sociedade justa é da própria sociedade, não do Estado. O Estado é uma ferramenta do povo, não seu Pai.

Eu diria, bem ao contrário, que precisamos agir rápido, tomar a frente e desenvolver projetos de transformação em todas as áreas da vida brasileira, antes que o Estado tome o controle delas! Os cristãos precisam fazer isso, não só porque a soberania de Deus precisa encontrar expressão em cada esfera da vida brasileira, mas também por que somente assim a nossa obrigação política para com Deus será cumprida: a obrigação de desmascarar a idolatria política e combater as pretensões teológicas do Estado.

Alugar os egípcios?
Noutro dia desses a Norma Braga escreveu um provocativo texto para a Ultimato, intitulado Por que não sou de esquerda. Gerou muitas respostas indignadas. Bem, eu discordo de muita coisa que a Norma costuma dizer em suas defesas do conservadorismo. As razões são compreensíveis para quem já leu algo do que publicamos sobre cristianismo e sociedade aqui na Ultimato.

Mas há um ponto em que a Norma está certíssima, e sei que vou exasperar meus amigos socialistas, do tipo que se sente atraído de um jeito ou de outro por ideais Rousseaunianos: sim, o Estado não é o Messias. Sim, o capitalismo é idólatra. Não, não podemos alugar os egípcios para nos livrar dos assírios. Chamar o Estado para nos salvar do mercado também é idolatria. Pura e simples idolatria.

É claro que o Estado deve zelar pela justiça pública. É claro que deve intervir quando o sistema econômico se torna injusto. Mas o Estado não deve deter em suas mãos o projeto nacional. Porque o Estado não é o país; o Estado não é a sociedade; sua soberania é limitada e não vem do povo, mas de Deus. E o mais essencial na visão cristã do Estado é exatamente que o Estado não é Deus, nem deve cobiçar o seu trono.

Vamos esperar em Jesus Cristo. E que ele nos salve dos assírios, dos egípcios e dos israelitas que confiam na cavalaria de Faraó.

Notas
1. Delacampagne, Christian, A Filosofia Política Hoje. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 31.
2. Ibid, p. 34.
3. Ibid, p. 35.
4. Ibid, p. 39.
5. Ibid, p. 41.


• Guilherme Vilela Ribeiro de Carvalho, pastor da Igreja Esperança em Belo Horizonte, é obreiro de L'Abri no Brasil e presidente da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares. É também organizador e autor de Cosmovisão Cristã e Transformação e membro da associação Christians in Science (CiS). guilhermedecarvalho.blogspot.com

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ouvidos tapados, olhos fechados

Karl Heinz Kienitz

Em 1884, vinte anos antes de receber o Prêmio Nobel de Física, Lord Rayleigh dizia ao plenário da 54a Reunião da Associação Britânica para o Avanço da Ciência: "Muitas pessoas excelentes temem a ciência como tendendo ao materialismo. Não é surpreendente que tal apreensão exista, pois, infelizmente, há escritores, falando em nome da ciência, que se fixaram a fomentá-la. É verdade que entre os homens de ciência, como em outros ramos, pontos de vista pouco refletidos podem ser encontrados a respeito das coisas mais profundas da natureza; mas que as crenças professadas por Newton, Faraday e Maxwell toda uma vida seriam incompatíveis com o hábito científico da mente é, sem dúvida, uma proposição que eu não preciso me delongar em refutar".

De Rayleigh até hoje cientistas de renome têm reiterado a compatibilidade de fé cristã e ciência. Para Max Planck, "religião e ciência natural combatem unidos numa batalha incessante contra o ceticismo e o dogmatismo, contra a descrença e a superstição. E a palavra de ordem nesta luta sempre foi e para todo sempre será: em direção a Deus!". Em outra oportunidade Planck foi ainda mais incisivo: "A prova mais imediata da compatibilidade entre religião e ciência natural, mesmo sob análise detalhada e crítica, é o fato histórico de que justamente os maiores cientistas de todos os tempos, homens como Kepler, Newton, Leibniz, estavam imbuídos de profunda religiosidade". Muitos outros nobéis, como Mott, Townes, Penzias, Schawlow e Phillips expressaram-se de forma semelhante.

No entanto, mais de um século após a palestra de Lord Rayleigh, persiste a situação por ele mencionada. Como evidência tupiniquim, confira-se uma recente entrevista feita com Marina Silva, candidata à presidência da república ("Época", edição 627, 24/05/2010). Uma das perguntas foi: "Como a senhora lida com a contradição entre ciência e religião?". A hipótese está enunciada de forma inequívoca. Independe do que a entrevistada teria a dizer, ou pior, independe do que os cientistas citados acima têm dito sobre o assunto há séculos. Em sua pergunta, a jornalista elevou a (imaginária) contradição entre ciência e religião à condição de verdade absoluta, fato incontestável.

Rodney Stark, professor de sociologia da Baylor University, apresenta uma possível explicação para atitudes como a da entrevistadora de Marina Silva. Um conflito entre fé e ciência tem sido "o principal dispositivo polêmico usado no ataque ateu contra a fé... afirmações falsas sobre religião e ciência têm sido usadas como armas na batalha para 'libertar' a mente humana dos 'grilhões da fé'. A verdade é que não há inerente conflito entre religião e ciência. De fato a realidade fundamental é que a teologia cristã foi essencial para a acensão da ciência".

A explicação alternativa à de Stark é a de que o formador de opinião engajado na difusão do imaginário conflito desconhece Kepler, Newton, Leibniz, Rayleigh, Planck, Mott, Townes, Penzias, Schawlow, Phillips e suas manifestações sobre a compatibilidade de fé e ciência. Infelizmente tal desconhecimento só é possível se esse formador de opinião não fizer corretamente seu trabalho de pesquisa ou "se fingir de morto" diante do vasto material disponível sobre o assunto, o que novamente implicaria motivações pouco louváveis. Enquanto isto, mentiras sobre fé cristã e ciência continuam a ser impingidas ao público.

Seja como for, os Newtons, Rayleighs e Plancks têm sido amplamente ignorados – muitas vezes deliberadamente – quando o assunto é fé e ciência. Isto me faz lembrar de uma frase de Jesus, na qual ele se refere ao assunto ignorância deliberada: "Eles taparam os ouvidos e fecharam os olhos. Se eles não tivessem feito isso, os seus olhos poderiam ver, e os seus ouvidos poderiam ouvir; a sua mente poderia entender, e eles voltariam para mim, e eu os curaria!" (Mt 13.15). Assim, para reverter o quadro é necessário destapar os ouvidos e abrir os olhos. Simples, não?


• Karl Heinz Kienitz recebeu o doutorado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça. É professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica em São José dos Campos. Karl mantém uma página na internet sobre fé e ciência no endereço www.freewebs.com/kienitz.

fonte: Revista Ultimato, http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=5&registro=1317

sábado, 26 de junho de 2010

O Jesus que faz sofrer

 Eduardo Ribeiro Mundim

Como todo personagem historico, Jesus é, frequentemente, idealizado. Idealizar uma pessoa, ou situação, ou fato, é distorcê-la para que atenda aos nossos anseios e desejos. Não interessa a pessoa, a situação ou o fato, mas se ela é capaz de acalmar alguma angústia, satisfazer alguma expectativa ou realizar um sonho.

Jesus não é qualquer um. Proclama a si mesmo, com toda a humildade, Filho de Deus em um sentido único, impossível de ser compartilhado por qualquer outra pessoa:"Eu e o Pai somos um" (Jo 10.30). Detém um poder que ninguém mais tem - quem poderia enfrentar um anjo isolado, quanto mais 12 legiões? (a legião romana contava com 3000 a 8000 homens - portanto, Jesus falava de 3600 a  96000 anjos - Mt 26.53). Único ser humano que não foi detido pela morte, mas ressuscitado de modo que está até hoje vivo, ainda que não visível aos nossos olhos.

Portanto, ser cristão poderia ser partilhar algo deste poder e desta relação com o Pai. Mas, quando idealizada, esta partilha supõe apenas lucro, não perda. Afinal, poderia ser proclamada, com fé, a frase de para-choque de caminhão "não sou o dono do mundo, mas filho dele".

Mas o que Jesus promete aos que o buscam? Afirma que, diferente de outras propostas religiosas da época, seu fardo é leve e seu jugo, suave (Mt 11.30). Contudo, veio trazer a espada a terra, e não a paz; a desavença familiar, e não a harmonia. Afirma que requer amor superior ao amor pelos filhos ou pelos pais, e que somente terá vida aquele que a perder, tomando a mesma cruz que Ele (Mt 10.34-39). E afirma que não colocará os interesses pessoais, Seus ou de Seus amigos, acima do programa do Reino. Se não, por qual razão permitiu que Lázaro morresse, e que sua família, e Ele mesmo, enlutasse? Afinal, Ele adiou sua ida a Betânia, tendo chegado lá quatro dias após o óbito quando poderia ter chegado antes. (Jo 11)

Este Jesus que faz sofrer não é porta-voz de algum "deus do sofrimento". Apenas ressalta que seus seguidores estarão permanentemente no mesmo vale da lágrimas que os seus não-seguidores, porque é isso mesmo que Ele, sendo Deus, fez (Fp 2.1-11). Ordena que ser cristão não é opção de boa vida, mas de serviço ao próximo. Estabelece que ser seguido, em amor, pode custar a morte aos seguidores.

Ser cristão não é uma escolha a ser feita sem pesar cuidadosamente as consequências...


publicado originalmente na página www.segundaigreja.org.br

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Negar valores culturais não faz um bom cristão, diz professor sioux

Dafne Sabanes

Quarta-feira, 23 de junho de 2010 (ALC) - "É preciso resgatar a fé cristã das mãos dos "cowboys'", disse o educador indígena Richard Twiss, da tribo Rosebud Lakota Sioux, aos participantes da Assembléia Geral de Unificação das igrejas Presbiterianas e Reformadas,reunida em Grand Rapids, Michigan, nos Estados Unidos.
Twiss converteu-se ao cristianismo já adulto, depois de uma experiência de militar contra o sistema de discriminação dos nativos norte-americanos. Foi preso e criticou, radicalmente, as igrejas por acompanharem a política de discriminação e pelo silêncio delas nesse quadro de injustiça que indígenas sofreram nos Estados Unidos e no Canadá.
O sioux continua sendo crítico contra as medidas educacionais aplicadas no final do século XIX e que significaram a separação forçada de crianças indígenas de suas famílias e comunidades, para serem internas em escolas administradas, muitas delas, por igrejas.
Além da proibição de falarem o idioma materno, crianças indígenas internas sofreram abusos. Pastores e educadores das novas gerações trabalham, agora, numa perspectiva oposta, de valorizar a pertença a uma comunidade indígena, assim que essas crianças se sintam orgulhosas de suas origens.
O educador sioux sustenta que negar a identidade indígena e seus
valores culturais não faz um bom cristão. Para ele, o fim último da missão é o estabelecimento do shalom, que dá lugar à realização das plenas potencialidades da criação, humanas e não humanas, "em reconciliação e unidade com Jesus Cristo".
A diversidade cultural, defendeu, não é um "desvio" dos planos originais de Deus, uma vez que "Ele mesmo se expressa na singularidade da união entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A unidade só é possível em meio a essa diversidade. Onde não há diversidade só encontramos conformismo, uniformidade, monotonia. Deus chama a humanidade e a criação para uma vida abundante da comunhão".

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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416

terça-feira, 22 de junho de 2010

O braço santo

Eduardo Ribeiro Mundim

Gol de mão vale?

No calor da disputa, na ânsia pela vitória, na busca do sucesso pessoal (no caso, fazer gol), o que é válido?

Luiz Fabiano faz um belo gol, é fato. Belo, porque trabalhado, mostrando perícia e trato com a jabulane. Mas a imprevisibilidade a faz descer por um braço, e ainda parar no outro, antes de ser isolada dentro do gol adversário. Alívio para a torcida num jogo difícil e desleal; alívio para o jogador, em "síndrome de abstinência" de gols. Mas a beleza do gol morre na sua ilegalidade.

A câmara maldosa mostra um diálogo entre jogador e juiz, provavelmente a caminho do centro do campo. O diálogo, deduzido, é posteriormente confirmado pelo atleta. A pergunta, em ar despreocupado do árbitro, é clara: pegou no braço? A resposta, com ar de inocente, uma mentira consciente.

Os bandeirinhas não viram o trajeto da bola, nem o juiz. Apenas as diversas tomadas de imagem pelas inumeráveis câmaras ao longo do estádio mostraram o fato inequívoco.

Não entendo das regras futebolísticas em profundidade. Alguém citou que o gol não poderia ser anulado, já que fora validado. Se assim for, a peça de arte, um gol de "futvolei" passa a história como o gol de Maradona, às custas "de las manos de Dios". Mas a estética é arruinada pela mentira desnecessária, com ar de moleque.

Seria Luiz Fabiano perdoado pelos seus colegas, pelo técnico, pela CBF, pela torcida caso confessasse aquilo que, aparentemente, só ele sabia?

Mesmo em pequenas coisas, decisões éticas são complexas, e duras as suas consequências.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ensino religioso nas escolas públicas abre espaço à discriminação

São Paulo, segunda-feira, 14 de junho de 2010 (ALC) - O ensino religioso ministrado em escola pública pode se transformar num perigoso espaço de luta pelo poder e atentar contra minorias religiosas no país, alertou a professora Roseli Fischmann ao falar para estudantes da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).
Ponto polêmico mesmo nos dias atuais, apesar da Constituição política da nação assinalar a separação entre Igreja e Estado, o assunto foi tema, na quarta-feira, 9, do Café Teológico, evento promovido pelo Centro Acadêmico João Wesley, com o apoio da Faculdade de Teologia (FaTeo) e da Rede Ecumênica da Juventude.
Roseli Fischmann adiantou que pesquisas acadêmicas detectaram vários exemplos de práticas religiosas adotadas no ambiente escolar que, aceitas pela maioria cristã, discriminam outros grupos religiosos. Para a professora, julgar que a maioria deva determinar os rumos de qualquer grupo social é uma distorção do princípio democrático.
A professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Umesp afirmou que a liberdade de consciência diz respeito ao íntimo dos indivíduos e mesmo o uso da violência ou a tortura não são capazes de cerceá-la.
O indivíduo pode até ser coagido a determinadas ações, mas é impossível controlar o que se passa em seu pensamento, afirmou a pesquisadora, segundo a repórter Suzel Tunes, da Assessoria de Comunicação da Umesp.
Já a liberdade de crença, também de caráter interior, "aloja-se no ninho da liberdade de consciência". A liberdade de culto é a exteriorização da liberdade de crença e ocorre no espaço coletivo.
A separação entre Igreja e Estado foi determinada no Brasil pela proclamação da República, em 1889. "Mas esse ponto sempre foi polêmico", disse a professora. O Estado, além de garantir a liberdade de culto, reconhece que valores religiosos podem ser relevantes para a população.
Esse reconhecimento explica, por exemplo, a isenção fiscal que privilegia templos religiosos, a existência de capelanias militares e o acordo do Brasil com a Santa Sé, assinado no ano passado.
Segundo a professora, esse acordo fere o Artigo 19 da Constituição, que proíbe ao Estado firmar qualquer tipo de acordo com religiões ou seus representantes.

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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sem ter aprendido, não tem sequer com quem brigar

Antonio Carlos Ribeiro

O Estado de Israel está atraindo um grau de isolamento na comunidade internacional só comparável ao dos Estados Unidos no governo George W. Bush. Sob o comando de Benjamin Netanyahu, a situação de Israel agravou-se a tal ponto que ele se isolou até mesmo de seu único parceiro, depois de 2008 o último. As razões, diversas, se resumem no medo – pelo qual se criou um aparelho de Estado, baseado na força como estratégia e se atribuindo uma autonomia que, quanto mais se afirma menos reconhecida é.

Na verdade, o processo de isolamento político do Estado de Israel não se deu pela ONU, em que cinco países – um à frente – controlam a segurança do planeta. As regras acordadas, propostas pelos donos do jogo, não permitem solução. O objetivo guiou sua elaboração. Mas esse é o plano formal, diante do qual os pequenos e pobres do mundo aprenderam a jogar de maneira informal. Essa maneira não é visível, mas é eficiente.

A situação que conhecemos agora é a de tensão extrema provocada pelas regras de fora do jogo. Não se pode impedir uma intervenção internacional, pacifista, baseada na militância e atuando em defesa da vida de povos perseguidos. Os navios levando milhões em alimentos cumpriram o estabelecido. O ataque à flotilha exigiu dos oficiais a quebra de regras claras e, do governo, o desprezo por condutas internacionais aceitas.

Com jovens oficiais, uma tropa treinada para o homicídio em escala e não para o combate, não consegue reconhecimento. A negação de respeito a oficiais treinados para defender causas legítimas com a própria vida é quase um desacato. Sem sequer o apoio de parte dos oficiais da reserva, uma retaguarda moral, o governo se agarra trôpego a uma juventude deslumbrada e autoriza a letalidade máxima a quem só tem a ideologia e a missão a cumprir.

Sem ter como recuar, numa guerra ideológica mais intensa que a convencional e a situação política tensionada, o governo israelense caiu na armadilha que montou e tornou-se vítima de sua própria estratégia. Nove pessoas mortas com 30 tiros e sinais de execução, os barcos tomados de assalto em águas internacionais e no meio da madrugada, sem qualquer sustento para a explicação da autodefesa, já que armas eram mais irreais que os laboratórios de armas químicas de Saddam Hussein. E o direito à autodefesa como explicação política, ainda pior.

As críticas chegam da ONU, dos países ao redor do mundo, de entidades religiosas, de classe e comerciais, da imprensa internacional e da esquerda israelense. Os parceiros comerciais começam a rarear. Sem comércio, sem vizinhos, sem alianças e até sem inimigos formais, apavora-se com o risco da inexistência política. Não tem sequer com quem brigar! E nem a quem culpar! Matar gente desarmada e rendida fere o que resta da honradez mínima num soldado.

A tentativa de negar e explicar ofende tanto quanto os crimes praticados: invadir embarcações em águas internacionais, confiscar alimentos e remédios doados a gente doente e faminta, roubar filmes de filmadoras para esconder o crime e confiscar ajuda humanitária. Não foi ação de guerra, em que valem normas, tréguas, pactos e cessação de hostilidades. E a recusa da explicação, a humilhação pelo grau de destempero e a falsa justificativa às hostilidades. No rescaldo final, a tropa ficou exposta ao descrédito, à zombaria e à infâmia, qualquer que fosse a bandeira a que servisse.

A proposta do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, de criar comissão de investigação liderada pelo premier da Nova Zelândia, com representantes da Turquia – com seus oito mortos -, dos Estados Unidos e de Israel, é rejeitada. Este propõe uma comissão própria. Sem credibilidade. E parece não perceber que os detalhes técnicos não importam, mas apenas a credibilidade.

Israel demonstra, em todas as suas ações, não ter aprendido nada do sofrimento imposto pelo nazismo aos judeus. Repete os mesmos erros, a mesma arrogância e força letal que violentam a razão. Como a reação americana ao ataque às torres gêmeas e ao Pentágono, dando razão aos terroristas. Fazer a mesma intervenção ao navio irlandês – sem vítimas – que se mostra um insulto às vítimas, à inteligência dos povos e aos oficiais e seus comandados, que seguiram ordens. Deportar os militantes é erro flagrante, após exigência de não recorrer à justiça do país, já que eles não foram presos em seu território. Por isso os EUA já os vêem como um “peso”, por causa dos erros e do potencial de conflito. É o sócio que não agrega, se atrita e ameaça interesses.

O bloqueio impede a entrada de canos de metal e fertilizantes, que dizem ser usado para fabricar armas, bem como carros, frigideiras, lâmpadas, chocolate, café, papel e computadores, por serem considerados artigos de luxo. Seus movimentos não atraem a simpatia, dificultam a vida das pessoas, mostram uma atitude hostil, impedem a entrada de medicamentos.

"A ocupação israelense nos territórios palestinos torna difícil a vida cotidiana para a liberdade de movimento, a economia, a vida social e religiosa”, afirmou o papa Bento XVI, observando que o desrespeito ao direito internacional, a desestabilização do equilíbrio da região e a violência imposta à população as condena ao desespero. “Corre-se o risco de um banho de sangue", afirmou, porque a ocupação israelense é "uma injustiça política imposta aos palestinos", que nenhum cristão pode justificar.

Enfim, Israel deve reavaliar, fazer as alterações. Apostar em outros caminhos.  Viver e deixar os vizinhos viverem. 

domingo, 6 de junho de 2010

Exodus

Eduardo Ribeiro Mundim

 Cresci cercado pela história do povo de Israel. Criado dentro da igreja evangélica desde a infância, aprendi ser ele o "povo escolhido", alvo especial do cuidado de Deus.

Na adolescência, devorei, por mais de uma vez, o romance "Exodus", de Leon Uris; bem menos vezes, outro "Mila 18". A bem construída estória do primeiro embalou meus sonhos. Arrepiava ao reler diversos trechos, principalmente a parte do navio Exodus. Ali estava a vitória da justiça sobre a injustiça, do oprimido sobre o opressor, do povo escolhido sobre seus novos captores.

O tempo passa, e novos dados vão sendo agregados ao nosso conhecimento. Sérias dúvidas sobre a intepretação da aliança com o povo de Israel se instalaram. E o apóstolo Paulo deixa bem claro que os cristãos é que são o verdadeiro Israel de Deus. E o comportamento do estado de Israel, de oprimido a opressor me faz relez Leon Uris com outros olhos.

Não há dúvida de que a situação no Oriente Médio é para lá de complexa. Interesses múltiplos e antagônicos se postam lado a lado - e vidas que respondem por eles. Não me parece haver santos nesta história. Tanto do lado judaico quanto do árabe há ódio demais, ambição demais. Talvez tanto ódio e tanta ambição que nunca haja paz.

Mas a abordagem simplista, endeusando o estado de Israel e demonizando o palestino, não auxiliará a nenhum dos lados, exceto por semear mais ódio e sangue.

Certamente a saída não é a aniquilação dos árabes, palestinos ou judeus. Certamente a saída não é pela força das armas - que, ao final, sempre se mostraram impotentes, por mais mortos que façam.

É urgente que as lideranças cristãs se levantem, não para estigmatizar, mas para chamar ambos à mesa de conversação. E isto não pode ser feito com parcialidade.

Que Deus nos ajude a todos!

Amém



quarta-feira, 2 de junho de 2010

Peregrinos à Terra Santa desconhecem realidade local

Genebra, quinta-feira, 27 de maio de 2010 (ALC) - Os peregrinos que visitam a Terra Santa devem ir além da mera homenagem a antigos lugares sagrados e mostrar preocupação pelos palestinos, cujas vidas estão severamente restringidas pela ocupação israelense de seu território. 

As visitas à Terra Santa deveriam permitir encontros verdadeiros com o povo palestino e sua realidade cotidiana, como, por exemplo, entrar em filas nos pontos de controle para ir ao trabalho, à escola, para visitar a família ou a receber assistência sanitária. 

Essa é a mensagem emitida por um grupo de 27 teólogos, ativistas cristãos palestinos, operadores turísticos e representantes de organizações de incidência pública, que se reuniram em Chavannes-de-Bogis, nas cercanias de Genebra, de 18 ao 21 maio. 

"O turismo justo finca pé nas realidades políticas. Só experimentando o que os palestinos vivem o tempo todo pode o visitante dar-se conta das injustiças que conformam o seu dia a dia. E ao compreenderem  esta realidade surge o desejo de ajudar e acabar com as injustiças acumuladas na Palestina", disse o diretor executivo do Grupo de Turismo Alternativo, Rami Kassis. 

Os participantes da reunião pediram aos peregrinos que demonstrassem solidariedade com os cristãos palestinos. Depois de dois mil anos de presença contínua nessas terras, o número deles foi diminuindo constantemente ao longo das últimas décadas já que as dificuldades que enfrentam devido à ocupação israelense levam a muitos a emigrar. 

Os peregrinos que vêm à Terra Santa em visitas convencionais organizadas por operadores israelenses com freqüência ignoram os palestinos e a situação em que se encontram. O fato de que só escutarem - e portanto reforçarem a versão israelense - pode contribuir a agravar o problema, concluiu o grupo. 

"Eles crêem que trazem esperança, mas na realidade socavam a esperança da região", afirmou o representante de Kairós Palestina, Rifat Kassis. Kairós é uma iniciativa cristã inspirada no documento Kairós África do Sul, que proporciona um fundamento teológico às recomendações de ação em favor de uma paz justa. 

O turismo na Palestina foi identificado como uma oportunidade para fazer uma "peregrinação de transformação" que represente uma experiência cristã mais profunda. Nesse tipo de peregrinação se convida os participantes para um encontro verdadeiro com o Corpo de Cristo através do contato com seus irmãos e irmãs palestinos na fé. 

Os teólogos reunidos em Chavannes-de-Bogis recomendaram encarecidamente que os peregrinos sigam o Código de Conduta para o Turismo na Terra Santa, um documento redigido por rede palestina que oferece orientação sobre a preparação da viagem, o comportamento e as medidas complementares. 

Eles expressaram profunda preocupação ante o monopólio que Israel exerce sobre o turismo na Terra Santa e sobre as severas restrições impostas aos operadores turísticos, hotéis e guias palestinos, que limitam o desenvolvimento deste setor chave da economia palestina. 

A ocupação israelense repercute profundamente na vida do povo palestino. Cerca de 400 pontos de controle militares israelenses espalhados pela Cisjordânia dificultam o deslocamento dos palestinos para ir ao trabalho, à escola, visitar a família ou receber assistência sanitária. 

O muro de separação que atravessa vastas zonas de seu território isola ainda mais os palestinos uns dos outros e os de Jerusalém, cidade centro tradicional de sua vida religiosa, cultural e comercial. As autoridades de Israel também impedem aos palestinos cristãos da Cisjordânia a entrada em Jerusalém, cidade onde costumavam ir com suas famílias para celebrar a Páscoa e outras festividades cristãs. 

Relatórios sobre o turismo na Palestina mostram que, apesar das restrições, é um setor dinâmico em plena expansão que oferece experiências únicas e autênticas, bem como uma grande diversidade de visitas e oportunidades destinadas a satisfazer todo tipo de interesses. 

Pelo caminho da Natividade, por exemplo, os turistas viajam desde Nazaré até Belém e têm a oportunidade de se relacionarem com habitantes da região, entre os quais figuram cristãos, beduínos e membros de outras comunidades.
A reunião de Chavannes-de-Bogis foi organizada pelo Grupo de Turismo Alternativo em cooperação com o Fórum Ecumênico Palestina-Israel, a Coligação Ecumênica de Turismo e Kairós Palestina.
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domingo, 30 de maio de 2010

Cientistas de olhar estreito

Eduardo Ribeiro Mundim

O ser humano é movido à vaidade, de alguma forma. Tal combustível não é necessariamente ruim, pois bem utilizado é um fermento para a competição saudável e para a criatividade inovadora. Mas também é, como todo combustível, explosivo quando inadequadamente empregado.

Mário Novello, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas no Rio de Janeiro, em entrevista à Folha de São Paulo de hoje (30/05/10), publicada à página A21, tece alguns comentários sobre os cientistas atuais, como um todo - portanto, generalizando.

Na sua área de atuação, cosmologia, Dr. Novello vê muito estrelismo, rotina, competição pela mídia, corrida para o Prêmio Nobel (que só premia um a cada ano). Critica a ausência do prazer em fazer bem as coisas, substituído pela necessidade de valorização do indivíduo na forma de bolsas de pesquisa e prêmios, sejam acadêmicos ou não. Preocupa-o porque facilita uma deturpação da atividade científica, diálogo com a natureza, transformando-a em diálogo com os próprios pares.

"Na minha época, havia uma visão global do que era atividade humana. Havia cadeira de filosofia, sociologia, tinhamos contato com o mundo. Existe uma falta de fundamentos, hoje, do que é fazer ciência. Você pode ser um técnico extremamente competente, mas fora da área técnica pode ser um ignorante completo, sem saber o que está por trás do que você está fazendo na sua área."

Rubem Alves, no seu livro "Filosofia da ciência: introdução ao jogo e as suas regras", publicado pela Editora Loyola, aponta que os grandes avanços científicos não foram frutos do puro tecnicismo, mas da capacidade de imaginação, de ver além do seu círculo pessoal de atuação.

Dr. Mário é adversário da teoria do "big bang" por considerá-la, tal como foi popularizada, uma limitação a atividade científica. Aponta que existem dados teóricos que sugerem não uma desaceleração do universo, como previsto por esta teoria, mas uma aceleração.

Relacionado com um ponto específico da entrevista, o articulista Marcelo Gleiser, uma página à frente, aponta que a ciência dedica-se ao mundo que é percebido pelos nossos sentidos. O não percebido por eles, ou o que está além da realidade, não pode ser submetido ao seu escrutínio.